Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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É, Parece que Deu Merda

Essa semana eu estava parado no sinal quando recebi um jornal distribuído gratuitamente aos motoristas. Passei rapidamente a vista nos destaques da capa e me deparei com a seguinte manchete:

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Imediatamente eu pensei:

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Normalmente eu não comento de política por aqui e muito menos sobre coisas tão sérias quanto, mas dessa vez não vai ter como.

Henrique Meirelles é o atual Ministro da Fazenda. Ele já foi presidente do Banco Central e tem um currículo impressionante. Ao contrário de muita gente que entra pra ser ministro de qualquer coisa no Brasil, esse cara é um dos poucos que parece saber o que está fazendo. Se você não concorda muito com as decisões do cara, vai concordar comigo que o cara tem, pelo menos, um currículo compatível com o cargo que ele exerce.

Um belo dia esse cara manda um vídeo pra galera da Assembléia de Deus pedindo orações pela economia. Do nada pouco que eu pesquisei, Henrique Meirelles não é um membro da Assembléia. Apesar de ter uma boa relação com a instituição, nas matérias que eu li a religião dele não é citada em momento algum. Aí o cara aparece abertamente pedindo orações pela economia. Ele não comentou com a tia dele que vai pro círculo de oração que ela colocasse o Brasil na lista de pedidos de oração. Ele não pediu isso pelo Whatsapp pro pastor que é brother dele. Ele mandou um vídeo convocando milhares, talvez milhões de pessoas, para uma campanha de oração em prol da economia do Brasil que vai durar o mês de outubro inteiro. Eu sou um cara religioso, cristão protestante, evangélico, crente ou, como diriam alguns, idiota bitolado. Eu acredito no poder da oração e que a fé é uma coisa muito poderosa, mas também sei que quem não é religioso acaba encarando isso como um último recurso. Deus é o último recurso de muita gente, inclusive de alguns religiosos, e quando você vê um cara do quilate do Ministro da Fazenda apelando pra intervenção divina não tem como pensar outra coisa. Se apelou é porque deu merda pra valer.

Merda acontece. Essa é, provavelmente, uma das poucas verdades aceitas por todas as pessoas. Acontece, sempre aconteceu e continuará acontecendo. Cabe ressaltar que é bem provável que a humanidade seja extinta depois da maior merda de todos os tempos. Normalmente é por causa dela que a fé das pessoas costuma aparecer, é por causa dela que as pessoas prometem coisas que não podem cumprir e é por causa dela que algumas das mudanças mais importantes acontecem na nossa vida. Então lembre-se, criança leitora, se aquele seu amigo que não sabe nem com quantas letras se escreve Deus começou a apelar por intervenção divina, saiba que deu merda pra valer.   

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Contos de Segunda #93

A publicação a seguir é uma continuação direta do Contos de Segunda #88.

— Não sei do que está falando, Carmim.

Angela estava sentada na minha frente, na minha cadeira e com os pés sobre minha mesa. Sacou um isqueiro para acender o cigarro surrupiado da minha gaveta.

— Três das pessoas mais ricas da cidade desapareceram nas últimas semanas — puxei uma cadeira. — Agora você aparece dizendo que tentaram te sequestrar, não me parece coincidência.

— Duvido muito que seja, detetive — desdenhou Angela. — Quem são os desaparecidos?

— Willian Doyle, Klaus Gleizer…

— O dono da fábrica de tecidos e o banqueiro — interrompeu ela. — É mais provável uma viagem em segredo com uma amante do que um desaparecimento.

— Talvez, mas com Dominique Loup na lista acabei descartando a hipótese.

Com o susto Angela saltou da cadeira e ficou olhando para mim com os olhos arregalados.

— Dominique desapareceu!?

— Duas semanas antes de Klaus Gleizer.

Angela saiu de trás da minha mesa e começou a andar de um lado para outro. Os dedos tremiam quando o cigarro foi levado à boca para uma longa tragada. Aproveitei a deixa para retornar à minha cadeira. O assento reservado aos visitantes era propositalmente desconfortável.

— Não sabia que era conhecida sua.

— Lembra de quando trabalhou para ela no caso da chantagem? Eu te indiquei para o serviço.

— Então vocês eram próximas?

— Éramos recém chegadas na cidade quando nos conhecemos — ela deu mais um trago no cigarro. — Ela queria ser cantora, eu queria ser atriz. Nós duas nos tornamos artistas, mas eu não virei atriz.

— Nem todos encaram golpes e mentiras como arte, Angela, só os que já te viram em ação.

— Gentileza sua, detetive.

— Quanto tempo faz desde a última vez em que você encontrou com Dominique?

— um mês.

— Notou algo diferente? Ela parecia preocupada com alguma coisa?

— Dominique nunca estava preocupada com nada. A carreira ia bem, o dinheiro estava entrando aos montes e os candidatos a amante só eram mais numerosos do que os candidatos a marido. Ela gosta de ser bajulada, mas acredita demais nessas besteiras de amor verdadeiro. Nenhum desses homens nunca conseguiu nada.

— Algum deles pode ter passado dos limites.

— Dominique andava com um segurança a tiracolo.

— Para alguns isso não é um problema.

— O homem é praticamente um gorila. Dois metros de altura, ex-pugilista e ex-militar. Um problema para qualquer um.

— Então ele é o primeiro da lista de suspeitos.

— Não me importo com sua lista, Carmim. Encontre Dominique e eu dobro o seu pagamento.

— A polícia costuma me pagar muito bem.

— Se isso fosse verdade, teria pelo menos um cigarro decente na sua gaveta.

Angela jogou o cigarro no cinzeiro, pegou a bolsa e partiu sem tocar no assunto da tentativa de sequestro. Livrar a própria pele está tão alto na lista de prioridades dela que só algo muito grave roubaria a atenção disso. Por mais amiga que Dominique fosse, nenhuma amizade poderia ser maior do que o apreço de Angela Bevoir por Angela Bevoir. Algo mais estava acontecendo e ela não ia me dizer. Eu precisava descobrir.

Com todas essas minhocas na cabeça eu telefonei para o número que estava no verso da foto que o chefe de polícia me entregou. A moça que me atendeu forneceu o nome do segurança e contou o pouco que sabia do que aconteceu com o homem. Mario Luppi foi encontrado desacordado em um beco no dia seguinte ao desaparecimento da patroa. Um dos braços estava quebrado, o crânio foi rachado por uma pancada, juntamente com algumas costelas. Depois de alguns dias em coma ele acordou no hospital e estava lá desde então. O horário da visita tinha acabado de começar quando eu coloquei os pés no hospital. Orientado por uma enfermeira adentrei no quarto onde Mario admirava a chuva que batia na janela.

— Boa tarde, senhor Luppi.

— Boa tarde, senhor…

— Pode me chamar de Carmim.

— É por causa das roupas vermelhas?

— Gostos pessoais pouco convencionais costumam gerar essas alcunhas.

— A que devo sua visita, senhor Carmim?

— Estou colaborando com a polícia no caso de desaparecimento da sua patroa e de outras duas pessoas.

O rosto de Mario era um misto de raiva, surpresa e espanto.

— A polícia já fez perguntas demais, senhor. Respondi a todas.

— Algo me diz que a polícia não fez todas as perguntas, pelo menos não todas as perguntas certas.

— Essa investigação não vai dar em nada. Acredite em mim, senhor, a polícia não pode resolver nada.

— Bem, a polícia me contratou para encontrar três pessoas, mas Angela Bevoir me contratou para encontrar sua patroa.

Mario ficou pálido. Aparentemente seria melhor que o próprio diabo tivesse me contratado no lugar de Angela.

— Ela me disse que é uma amiga íntima de Dominique e me ofereceu um bom dinheiro para encontrá-la.

— A senhora Bevoir deve estar se sentindo culpada. Não que ela tenha culpa no sumiço, mas nada disso teria acontecido se ela não tivesse levado a senhorita Loup ao… Não, nada. Esqueça.

— Não precisa me contar muito, Mario. Só precisa me colocar na direção certa. Para onde Angela levou Dominique?

Ele respirou fundo, reuniu coragem e disse baixinho:

— Para o Clube do Inferno.

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Maiara e Maraisa de Bikini

Mais ou menos um ano e meio atrás eu publiquei neste mesmo blog um post sobre como um monte de gente chegava, e ainda chega, no Cachorros procurando por Maísa de biquíni, e todas as variações possíveis disso, no Google. Tirando uma ou outra busca mais ou menos exótica, pensava eu que a única busca por celebridades em trajes de banho que acabaria nestas páginas azuladas seria essa. Mais uma vez comprovei que eu não sei nada sobre nada. Claro que eu ainda quero falar um pouco mais de Maísa de biquine, mas não hoje.

Esses dias estava passeando pela área de administração do Cachorros de Bikini quando vi duas coisas bem curiosas. A primeira é que alguém chegou por aqui procurando por fotos pornográficas, não sei como, mas chegou. A segunda é que algum ser humano conseguiu encontrar este humilde blog procurando no Google pelo seguinte assunto:

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Imediatamente a minha reação foi:

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Entendo a curiosidade que alguns têm em ver algum artista em roupas, digamos, mais leves. Principalmente quando esse artista em questão não é uma adolescente que nem nossa amiga Maísa. Depois que a cabeça voltou pro raciocínio regular comecei a pensar no quanto a pessoa teve que se esforçar pra chegar aqui procurando por “maiara & maraisa en bikini”. Aí fui ver o quanto de trabalho uma pessoa precisa ter pra chegar no Cachorros de Bikini com essa mesma busca. Você deve imaginar o tamanho da surpresa quando eu vi isso aqui:

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Não sei o quanto o Google otimiza minhas buscas, mas lá estamos nós na SEGUNDA página de pesquisa. Testei fazer o mesmo com a navegação no privado e o resultado não foi muito diferente. Por fim chego à duas possíveis conclusões: ou não existe em lugar algum da internet alguma página que coloque no mesmo lugar as palavras “maiara”, “maraisa” e “bikini”, ou a gama de assuntos por aqui tá tão variada que daqui a pouco qualquer busca que tenha “bikini” no meio vai acabar aqui.

Para aqueles que vão chegar aqui por causa do biquíni de Maiara e Maraisa vai o meu muito obrigado. Para aqueles que ainda vão chegar procurando alguma outra fulana em trajes menores eu digo, sejam bem vindos… E para aqueles que querem saber mais sobre Maísa de biquíni eu digo que esperem até a semana que vem.

 

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Playlist de Bikini #2

Amanhã é dia 7 de setembro, também conhecido como o Dia da Independência do nosso querido Brazéu e por isso vamos celebrar esta data tão festiva com uma playlist temática feita com todo o amor e carinho.

A escolha do tema de hoje pode parecer até um pouco óbvia, mas não poderia ser outro. Para celebrar a nossa independência fiz uma playlist só com artistas independentes brasihueiros. Eu não tenho certeza se todo mundo que eu joguei na lista é, de fato, artista independente, não sei se todo mundo tem gravadora ou se ter gravadora exclui o artista/banda. Também é possível que alguém da lista não seja independente atualmente ou que só tenha a cara de independente. Infelizmente não tenho como fazer e nem quero fazer uma auditoria pra saber se todo mundo da lista é de fato independente.

Devo lembrar que as escolhas feitas são puramente pessoais e de forma alguma tenta eleger as melhores coisas independentes. Justamente por isso a lista ficou bem grande, pra você poder pular as músicas que menos te agradarem sem se preocupar em deixar a lista muito pequena. Garanto que pelo menos umas dez ou doze músicas devem passar no crivo da maioria das pessoas.

Essa lista maravilhosa também está lá no Deezer.

Se você não se utiliza, ou não quer utilizar, dos serviços da galera do Spotify ou do Deezer, tem uma versão da playlist no YouTube com uma ou duas faixas faltando por causa das limitações de disponibilidade.

Bom feriado para todos.

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Contos de Segunda #92

    Dimitri estava preocupado. Depois de meses no curso de reciclagem, finalmente ele poderia voltar às suas atividades normais como vampiro. Mas não antes de passar nas duas provas: uma prova teórica e uma entrevista com um avaliador certificado pelo sindicato. Ao longo dos meses passados no curso, tudo que Dimitri aprendeu foi que os vampiros viviam uma vida muito triste nos tempos modernos. A glória dos tempos áureos não existia mais e os filhos de Caim agora não passavam de feras enjauladas. Foi pensando sobre isso que Dimitri entrou na sala do avaliador, puxou a cadeira, se sentou e esperou alguns instantes até que alguém entrasse.

    — Boa noite, senhor… Dimitri? — Disse o jovem ao entrar na sala.

    — Correto, rapaz.

— Meu nome é Kauê e vou ser o seu avaliador.

— Me desculpe, acho que não entendi. Qual é o seu nome mesmo?

— Kauê.

— Isso é alguma espécie de apelido?

— Não… — respondeu o jovem achando aquilo muito estranho. — É um nome bem

comum.

— Conheço pouco sobre esta época, mas nunca tinha ouvido falar de ninguém chamado… — As narinas de Dimitri dilataram. — Que cheiro é esse? Se não fosse um total absurdo  poderia dizer que estás vivo, rapaz Kauê.

— Bem… Eu não acho nenhum absurdo… Eu tô vivo.

— Como é? — Questionou Dimitri fechando a cara.

— Eu não sou um vampiro, senhor Dimitri.

— Só me faltava essa. Já não basta ter que engolir todas as doutrinas distorcidas desta época maldita, ainda serei avaliado pelo gado.

— Senhor, atualmente consideramos esse termo bastante ofensivo.

— Ofendido estou eu. Passei meses dentro de uma sala de aula com um instrutor que, além de não ter nem um século sequer de pós-vida, queria me convencer que o momento desgraçado que minha espécie vive atualmente é uma amostra de como nos tornamos evoluídos socialmente. E para ouvir todas as falácias que me preparei para regurgitar eles enviam um humano de nome exótico — Dimitri estava começando a corar. — Solicito que a avaliação seja feita por outra pessoa.

— Senhor, todos os avaliadores são humanos comuns — respondeu Kauê pacientemente. Dimitri não era o primeiro, nem o décimo, vampiro conservador chiliquento que ele avaliava.

—  É um absurdo.

— Na verdade é um dos itens da avaliação — ele fez uma pausa e procurou o item no checklist. — “O avaliado deve ser capaz de controlar seus instintos na presença de uma presa em potencial”… Normalmente esse item fica mais pro final da avaliação, mas acredito que o senhor já foi aprovado nesse critério… Infelizmente o senhor usou termos considerados racistas e deu um feedback bem agressivo sobre o nosso curso, o senhor foi reprovado no quesito “ideologia de supremacia vampírica”.

— Não tenho motivos para discordar de nenhum dos dois pontos.

— O senhor solicitou uma habilitação comum para caça, utilização dos poderes e cidadania. Como o senhor não demonstrou intenção de sair da sua moradia atual e já existe um morto-vivo registrado e habilitado trabalhando para o senhor, creio que a questão de cidadania não vai ser um problema. O problema é a caça e atividades vampíricas afins.

— Qual seria o problema?

— Fomos informados que o senhor chegou a ter três esposas simultaneamente.

— O que não é nenhum problema.

— Não era… Para transformar alguém em vampiro, de acordo com a legislação atual, é preciso do consentimento do mortal que será mordido e essa pessoa não pode ser transformada em um servo do vampiro que a transformou. Essa última parte é mais por causa da legislação trabalhista.

— Não podes estar falando sério.

— Creio que isso foi trabalhado durante as aulas do curso.

— Não devo ter dado a devida atenção à esta questão — replicou Dimitri com uma expressão confusa. — Então somos obrigados a drenar totalmente a vida das vítimas?

— Só nos países com pena de morte, o que não é o nosso caso — respondeu o rapaz rabiscando algo na prancheta.

— Diante do cenário atual faz sentido.

— Ainda temos alguns parques e reservas onde a caça é regulamentada. Os vampiros da velha guarda são frequentadores assíduos.

Kauê ficou em silêncio por alguns instantes antes de dar o resultado da sua avaliação.

— Senhor Dimitri, infelizmente o senhor não foi aprovado.

— Por que não estou surpreso?

— Mas não se preocupe. Será designado um agente de custódia para acompanhá-lo e  seu comportamento será avaliado por um período que ainda será definido, mas não se preocupe, depois disso o senhor estará livre. O senhor pode ir, tenha uma boa noite.

Dimitri deixou o prédio do sindicato dos vampiros mais irritado do que decepcionado. Ele não esperava ser aprovado de primeira, mas ser vigiado de perto frustrava totalmente os planos dele de cometer irregularidades por debaixo dos panos. E foi durante esses pensamentos criminosos que Kauê passou por Dimitri montado em sua bicicleta. O rapaz não tinha culpa, afinal é impossível para um humano entender como um vampiro se sente… A menos que…

Kauê parou em uma esquina para ver se era seguro atravessar a rua, olhou para os dois lados e não viu nenhum carro passando. Cruzou a rua e resolveu pegar um atalho pelo parque. Ele estava meio distraído quando algo passou voando e o derrubou em uma moita. Uma dor aguda de duas pontadas no pescoço deixou o rapaz em pânico, mas só por alguns segundos. Ele sentiu suas forças indo embora. Tudo ficou escuro e frio.

— Não te preocupes, te sentirás fantástico quando acordar — disse uma voz familiar ao rapaz.

Foi a última coisa que ele ouviu antes de perder os sentidos.

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A Soneca do Despertador

Eu nunca fui uma pessoa de dormir demais. Tirando casos em que o cansaço atinge níveis muito elevados ou onde as horas de sono são muito reduzidas, perder a hora é algo que muito dificilmente acontece comigo. Justamente por isso eu tenho uma grande dificuldade de entender aquelas pessoas que sempre perdem a hora, que tem uma dificuldade extrema pra acordar ou que saem de casa, mas só se consideram acordados horas depois. Se você se encaixa em algumas dessas categorias, esse texto foi feito pra você.

Desde tempos antigos o ser humano se utiliza de sinais para despertar. Os raios do sol ou o canto do galo servem de alarme faz algumas centenas ou milhares de anos. Com o avanço da tecnologia o homem resolveu usar o relógio como base para os aparelhos despertadores e quando os celulares se tornaram mais populares o despertador se tornou ainda mais utilizado. Só que, pra variar, o ser humano sempre desvirtua as invenções e as utiliza para o mal e com os alarmes dos celulares não seria diferente. Imagine que os relógios despertadores só conseguem despertar em um horário, já que armazenam um horário de alarme por vez, mas os celulares não possuem essa limitação. Armazenar um, dois, três ou cinco alarmes não é problema até para os mais simples dos aparelhos. E foi aí que começou a loucura.

Colocar o celular pra te acordar de manhã é algo que todo mundo faz, seja com toques calmos ou com uma sirene que anuncia o apocalipse, é raro encontrar uma pessoa, por menos dorminhoca que seja, que não se utilize desse recurso tão prático. Com mais gente usando o despertador se tornaram mais e mais comuns os casos de gente passando direto por cima do alarme e acordando bem depois do pobre celular ter desistido de tocar. É aí que a engenhosidade humana entra. Já que não existe limite de armazenamento de alarmes, por que não colocar alguns vários alarmes em sequência?

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Já vi gente que coloca dois, três e até mais alarmes com intervalos variados entre si. Muitos deles servem só pra lembrar quanto tempo faz que o preguiçoso tá enrolando pra levantar da cama, mas outros são verdadeiros procedimentos de segurança, pra garantir que aquele ser humano acorde dentro do limite de tolerância do horário. Só que algumas dessas pessoas possuem capacidades sonâmbulas de manipular os objetos e aí entra a função mais controversa dos despertadores: a soneca.

Só dá pra fazer duas coisas quando o celular alarma, desligar o alarme ou ativar a função “soneca”, que faz o alarme ser repetido depois de alguns minutos. Quando a pessoa escuta o alarme, mas não acorda, a coisa mais fácil de acontecer é que ela desligue o alarme e volte a dormir. Até um tempo desses isso me parecia meio absurdo, até ouvir alguns relatos de pessoas que “desligaram o alarme dormindo”. Quando a pessoa escuta o alarme e acorda, é provável que a função soneca seja ativada e a hora de acordar seja adiada em alguns minutos.

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Se você faz esse tipo de coisa e de fato cochila junto com seu celular, é melhor parar de fazer isso.

Segundo essa matéria AQUI, acordar e dormir repetidas vezes em pouco tempo é o mesmo que bater o cérebro num liquidificador. O resultado disso é taquicardia, perdas de memória, confusão mental, dores e, veja só, irritabilidade. Isso quer dizer que usar a soneca do celular pode deixar você chato, dolorido, meio senil e ainda com o coração disparado. É uma maravilha, não é mesmo?

Por isso, criança leitora, ouça os alarmes, acorde de primeira e evite todos os efeitos malditos da preguiça. Melhor acordar assustado com o primeiro alarme do que acordar sem saber que lugar é aquele depois da terceira ou quarta soneca.

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Não Vejo Esses Filmes de Capeta

    Na semana passada estreou nos cinemas brasileiros a aguardada sequência daquele filme com a boneca do capiroto. Estou falando de Anabelle 2, que na verdade se passa antes do primeiro filme que também vem antes do filme onde Anabelle, a boneca dos infernos, parece primeiro… É, também achei confuso, mas em vez de falar do filme, vou aproveitar pra falar sobre a minha relação com aqueles filmes que eu classifico como “filmes de capeta”.

    Quando eu era pequeno meu pai sempre contava uma história sobre um tio dele gostava muito de filmes de terror e de como isso acabou atraindo umas paradas muito estranhas que aconteceram na casa dele. Por essa razão eu cresci em um ambiente que desestimulava qualquer contato com filmes que tivessem as temáticas mais recorrentes nas obras de terror. Somado a isso, temos o fato de eu ser cagão desde criança, o que contribuiu ainda mais pra me afastar dessas coisas de terror. Mas eis que em um belo dia tudo mudou e, no período de um ano, eu assisti mais filmes de terror do que em todo o resto da minha vida. O que aconteceu pra mudar tudo? Simples, eu comecei a namorar.

    “Eita, Filipe, o que tem isso a ver com filmes de capeta?”. A resposta é bem simples, a moça com quem eu namorava na época era uma amante de toda espécie de filme de capeta e em vários momentos acabei usando esses filmes malditos pra conseguir assistir os filmes que eu queria acompanhado da minha lady da época. Inclusive foi nessa época que eu fui assistir o primeiro filme solo da boneca maldita capetosa dos infernos.

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    A primeira coisa que eu descobri foi: quanto menos acostumado em assistir filmes de terror, pior vai ser pra você. As pessoas que gostam muito de filme de terror normalmente conseguem passar bem pelos sustos e não tem tanto medo quanto uma pessoa que nunca vê essas paradas. Levar susto, dar grito no meio do cinema e assistir minutos inteiros do filme sem olhar pra tela foram coisas que eu fiz quando fui assistir esse filme desgraçado da boneca, justamente por não ser resistente à todas essas estratégias que os diretores usam pra te fazer saltar da cadeira e sujar as calças. A segunda coisa que eu descobri foi que, em sua grande maioria, esses filmes de terror são filmes bem ruins.

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    Tirando os capetas, os sustos e todas as famílias felizes que têm suas vidas desgraçadas ao longo da história, não sobra muita coisa. A explicação mirabolante que dão pra origem do bicho ou do fenômeno em questão costuma ser bem melhor que os diálogos e do que o enredo em si. Pelo menos os atores costumam estar bem comprometidos com a parada, ao contrário de outros filmes tão ruins quanto, os atores de filme de terror precisam ser competentes o suficiente pra passar todo o terror que a cena pede.

    “Ai, Filipe, tu fala isso porque tu tem medinho desses filmes. Óbvio que eu tenho medo dessas películas malditas. Não gosto desse tipo de filme e nunca vou gostar, até porque o costume de ver acaba gerando os filtros que você precisa ter pra assistir essa parada e achar legal, se eu não vejo não tem como criar costume. Eu sou cagão, sou cagão mesmo e sou muito mais feliz não assistindo a essas coisas. Acho que o único filme de terror que eu gosto é Alien – O Oitavo Passageiro, que é bem mais de boa do que todos esses negócios de capeta que passam por aí. Talvez até tivesse mais alguma coisa pra falar, mas não consigo pensar em terminar de escrever esse negócio pra apagar o gif da boneca que eu baixei pra inserir no post. Até a próxima.

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Contos de Segunda #91

    Horácio era um assassino da máfia. Sem a menor sombra de dúvida o pior de todos os assassinos que qualquer organização criminosa já viu. Extorquir, ameaçar, torturar, espancar eram coisas que ele fazia com maestria, ele também era ótimo com uma pistola na mão… A menos que ele precisasse fazer uma execução. Acertar uma bala em um cara com quem você está trocando tiros é uma coisa bem diferente de enfiar uma bala na nuca ou na testa de alguém que está pedindo por clemência, falando que tem família e todas essas coisas. Horácio preferia ser mais diplomático, gostava de dizer que a violência poderia ser utilizada de forma pedagógica em adultos com muito mais eficiência do que com crianças. Justamente por isso que ele recebeu uma ligação naquela segunda-feira.

    — Horácio, preciso que cuide de uma coisa pra mim — disse a voz do outro lado.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio.

    — Tem um cara novo, Giovani o nome dele, começou com a gente tem um tempo e leva jeito pras coisas. Queria que ele fizesse um serviço junto contigo. Sabe como é, ele ainda não tem manha.

    — Não sou muito bom trabalhando em equipe, chefe. Normalmente quem faz esse tipo de serviço são os caras da fila de aposentadoria, não tem ninguém disponível?

    — Esses dias foram meio complicados, Horácio…

    — Deixe que eu adivinho… Fim de semana movimentado e o pessoal pediu uma folga.

    — Vivemos em dias difíceis, meu velho.

    — Qual é o serviço?

    — O Joalheiro está com os trabalhos atrasados e me parece que ele não vai poder tirar o atraso nos próximos dias. Infelizmente não vamos poder mais esperar pra cobrar a dívida dele.

    — Considere o trabalho feito.

    Horácio pegou o carro e foi para o armazém que servia como base de operações, Giovani já estava parado na entrada esperando por ele. O jovem tinha cara de tudo, menos de criminoso, Horácio suspeitava que não era só a cara que ele não tinha.

    — Entra aí, rapaz — disse ele abrindo a porta do carro.

    — Pra onde vamos, senhor? — Questionou Giovani entrando no veículo.

    — Corta essa de “senhor”, garoto, eu não sou seu superior… E respondendo à sua pergunta hoje nós vamos falar com o Joalheiro.

— Qual é o lance com ele?

— Ele nos ajuda a limpar uma parte do nosso lucro. Normalmente ele faz tudo direitinho, mas tem um tempo que ele não tá cumprindo a parte dele, a nossa remessa de pedras e jóias tá atrasada, por isso vamos lá cobrar os juros de uma dívida que fica congelada enquanto ele estiver fazendo a parte dele.

— Então eu vou só te observar cobrando?

— Não. Eu vou observar, a cobrança é contigo.

— Comigo?

— O Joalheiro é tranquilo, costuma colaborar e quase não precisa ser ameaçado. É só chegar com jeito e tudo vai dar certo.

Alguns minutos depois os dois estavam parados na entrada da loja. Giovani respirou fundo e entrou. Um homem idoso estava do outro lado do balcão, ele atendia uma cliente que estava procurando por um anel.

— Com licença — interrompeu Giovani. — Preciso falar com o senhor, não vai demorar.

— Só um instante, rapaz, estou terminando uma venda.

— Acho que o senhor não entendeu — rebateu o rapaz aumentando a seriedade do tom. — Preciso falar com o senhor agora.

— Não costumo alterar as prioridades de atendimento, meu jovem. Se precisa falar comigo, também precisa esperar.

Giovani sacou a pistola, a moça gritou. Horácio se aproximou dela rapidamente e conduziu os passos trêmulos dela até a saída.

— Ele teve um fim de semana difícil — enganou Horácio. — Ele comprou uma aliança aqui e a namorada não quis virar noiva. Melhor voltar amanhã.

A moça concordou enquanto engolia as lágrimas pela porta.

— Ficou doido Giovani? Eu avisei que o Joalheiro é tranquilo.

— Ele não deve ter sacado o que eu vim fazer aqui. Resolvi encurtar a conversa.

— Eu ainda não sei o que você veio fazer aqui — respondeu o Joalheiro com as mãos levantadas. — Neste momento eu creio que veio me assaltar, coisa que eu não recomendo porque eu pago muito pra ter proteção.

— Baixa essa arma, garoto

— Horácio, que surpresa. Quase não o reconheci. Imagino que foi você quem trouxe esse aprendiz de cobrador.

    — Aprendiz? Me respeite, seu velho. Você não está em posição de falar desse jeito.

    — Cuidado com essa arma, Giovani — alertou Horácio. — Viemos buscar o pagamento dos juros, Joalheiro. Só isso.

    — Mas a minha dívida foi congelada, pensei que teria mais tempo.

    — O tempo acabou, coroa. Cadê a grana do chefe?

    — Ficou doido? Tá pensando que ele é um marginal qualquer? Estamos cobrando de um associado e não apontamos armas pros associados.

    — Me parece uma regra razoável — ponderou o Joalheiro.

    — Quieto! — Cortou Giovani. — Só queria terminar o serviço logo.

    — Hoje vocês não vão terminar serviço algum — disse o Joalheiro. — Ativei o alarme no minuto em que essa arma foi puxada.

    — Você o QUÊ? — gritou o rapaz.

    — Se você tivesse pelo menos se apresentado, imediatamente pensei que era um assalto.

    — Seu filho da… BAM.

    Um tiro acertou a perna do velho.

    — Agora eu sei que você é doido. Como você atira no joelho do associado?

    — Sei lá, fiquei nervoso.

    Horácio levou as mãos à cabeça, respirou fundo três vezes.

    — Pra fora! Vamos sair daqui agora — ordenou Horácio. — Pelo menos a história do assalto vai bater com o tiro.

    — Você vai me deixar aqui?

    — A polícia te leva pro hospital, Joalheiro. Lugar pra onde a gente não vai se ficar por aqui. Volto outro dia.

    Os dois capangas saíram apressados pela porta, entraram no carro e deixaram a rua poucos instantes antes da viatura da polícia chegar. Naquela hora Horácio tinha certeza que podia matar Giovani. Coisa que ele teria feito se não tivesse certeza que, de alguma forma, ele não ia conseguir assassinar aquele rapaz.

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Eu, Você e Esse Trânsito Maldito

    Esta semana não foi raro parar para avaliar minha vida no caminho para o trabalho ou para casa. Na verdade eu estava analisando minha vida em dois momentos específicos. Digo isso pelo simples fato de ter passado essa semana por dois dos maiores engarrafamentos que eu já encarei nos meus quase três anos como motorista.

    Se existir uma lista dos maiores vilões para os seres que habitam ou circulam diariamente pelas cidades grandes, é bem provável que o trânsito esteja no topo da lista para a maioria das pessoas. Se quando você é criança os monstros que aparecem quando a luz apaga, o velho do saco, o bicho papão ou aquela velha estranha que vive na sua rua são as coisas que mais te metem medo, quando você é adulto essa função de encher o seu coração de pavor pode muito bem ser ocupada pelo trânsito. A diferença é que, ao contrário dos monstros que teoricamente vinham pra te pegar, é você que vai pegar o trânsito.

    Não sei você, mas quando eu falo ou penso em alguma frase que tem a expressão “pegar trânsito”, a minha alma se enche de medo ou de tristeza. Quando a frase envolve alguma forma de pensamento preventivo, o medo toma conta, afinal a incerteza faz isso com a gente. Quando o trânsito ruim se torna uma certeza, ou uma sentença, o mundo perde a cor e todas aquelas músicas de bad que você já ouviu na vida começam a fazer muito sentido. Mas nada é maior do que a aleatoriedade do trânsito.

    Basta você fazer o seu caminho de casa para o trabalho/escola/curso/faculdade de segunda à sexta pra memorizar quais os pontos de engarrafamento, mas também é bem possível que você tenha experimentado passar por alguns pontos onde tanto faz o trânsito estar uma beleza como estar uma desgraça. Imagine que toda vez que você sai de casa vc joga um dado e torce pra tirar um número alto o suficiente pra te livrar do trânsito.

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Mas tudo que foi comentado até agora acontece antes ou depois do engarrafamento, justamente onde a desgraça verdadeira do trânsito habita. O engarrafamento é o ponto máximo do trânsito, pode ser só uma lentidão momentânea, uma lentidão sem fim ou você pode simplesmente ver a mudança na cor dos sinais algumas várias vezes antes de ter a oportunidade de andar um palmo que seja. Buzinas motivadas pela revolta e/ou pela falta de educação aparecem aqui e ali, um ou outro carro acaba cheirando a bunda de outro que freou muito repentinamente e sempre vai aparecer uma ambulância ou viatura da polícia pra testar a capacidade dos motoristas de livrar espaço na via. Claro que também temos os motoqueiros que fazem questão de tirar aquele fino no seu retrovisor e de desafiar as leis da física e a anatomia de suas motocicletas. Mas nenhuma dessas coisas mede tão bem o tamanho da desgraça quanto o volume do comércio no engarrafamento.

Água e pipoca no sinal é (pelo menos na região metropolitana do Hellcife) o que mais tem, frutas você encontra em alguns pontos da cidade e as flanelas são bem comuns, mas de acordo com o nível de paralisia da via as coisas mudam um pouco. A primeira coisa que muda é a distância do vendedor pro sinal/semáforo/farol. Quando você vê aquele vendedor de pipoca de sempre uns trezentos metros antes de onde ele normalmente fica pode apostar sem medo que o trânsito tá uma derrota. Outro indicativo é o aparecimento de coisas que não são vendidas normalmente, como por exemplo um restaurante que fica em uma das avenidas com trânsito mais potencialmente cabuloso do Recife e que, nos dias de trânsito mais pesado, coloca os funcionários pra vender galeto no engarrafamento. Recentemente uma galera que vende bolo de rolo a cinco reais se instalou na mesma avenida onde a galera vende galeto. Em outro ponto da cidade, segundo relatos de um amigo meu, outro restaurante vende pizza, isso mesmo, pizza para aqueles enganchados no trânsito. Não duvido que logo estaremos no patamar angolano, onde eu vi gente vendendo até cachorro no meio do trânsito.

Trânsito é uma bosta. Um engarrafamento do bom, daquele que quase triplica o tempo do nosso trajeto, tem o poder de drenar todas as nossas alegrias e esgotar as nossas mentes. Para minimizar isso eu recomendo uma carona que não seja mimizenta, até porque nenhum motorista precisa de alguém pra aumentar o nível de derrota daquela situação, ou alguma coisa que ocupe o tempo gerando o mínimo de entretenimento. Um conhecido meu começou a ouvir audiolivros, eu costumo ouvir podcasts, outros se aproveitam do rádio ou da televisão de suas centrais de mídia. Eu não recomendo muito ouvir música porque é uma maneira simples de você marcar o tamanho da demora que aquilo tudo está te causando, além de achar que nunca é muito legal colocar trilha sonora na desgraça. Mas a maior recomendação que eu dou é uma coisa que eu tento fazer sempre e em algumas vezes eu tenho sucesso: tente não esquentar a cabeça com coisas que fogem do seu controle. Até semana que vem

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Contos de Segunda #90

Fernanda estava tentando controlar a raiva. A terapia estava começando a dar bons resultados e os acessos de fúria eram cada vez mais raros. Atualmente pouquíssimas pessoas tinham medo dela e menos ainda tinham motivos concretos para tanto. Uma dessas poucas pessoas era Cristina.

Fernanda e Cristina se conheciam desde sempre e, apesar de serem grandes amigas, as duas conheciam muito bem qual era o tamanho do pavio de cada uma, por isso elas sabiam quem chamar quando entravam numa briga. Não por acaso o contato de Fernanda no no celular de Cristina tinha o sugestivo nome de “Tropa de Choque”.

Cristina estava comprando o presente de aniversário da mãe quando recebeu uma mensagem:

“Tá afim de jantar hoje?”.

A mensagem era de Augusto, um cara com quem Cristina tinha saído umas três vezes. Ele não fazia muito o tipo de Cristina, mas tinha acabado de voltar da Europa e a moça estava começando a pensar no roteiro das próximas férias. Pelo menos os dois teriam bastante assunto. O encontro estava indo muito bem até que Augusto começou com um papo muito estranho sobre futuro, compromisso, relacionamentos e outras coisas que Cristina sabia muito bem onde iam dar. Era melhor dar um jeito de terminar logo aquele encontro.

— Desejam escolher uma sobremesa? — Disse o garçom ao recolher os pratos.

— Já passei do meu horário — respondeu a moça. — Só a conta por favor.

— Cristina, eu estive pensando muito nesses últimos dias… Pensando muito na gente — começou Augusto.

“Ah, não”, pensou ela.

O rapaz colocou a mão sobre a dela e olhou direto nos olhos da moça.

“Pelo amor de Deus… Não”.

— Faz tempo que eu quero assumir um compromisso, só faltava a pessoa certa.

Ela tirou a mão debaixo da mão dele.

— Não vai rolar, Augusto — cortou ela. — É melhor a gente só pagar a conta, eu pego o presente da minha mãe, entro num táxi e cada um segue o seu caminho.

***

O telefone de Fernanda tocou. Para a surpresa da moça, era uma ligação de Cristina.

— Oi, sumida — atendendeu Fernanda.

— Amiga, eu tô com um problema e preciso de uma ajudinha.

— Diz aí.

— Um cara me chamou pra jantar e quando a gente tava esperando a conta ele me pediu pra namorar com ele.

— E o que tem isso?

— Vamos dizer que eu… Dei um fora no sujeito e ele não aceitou muito bem.

— Ele fez alguma coisa contigo? — O tom de Fernanda estava mais sério.

— Não, mas lembra que tá chegando o aniversário da minha mãe?

— Sei.

— Eu comprei o presente antes de vir jantar e deixei no carro do sujeito. Agora ele não quer me deixar pegar.

— Onde vocês estão?

— Naquele restaurante que teu pai trazia a gente pra almoçar.

— Chego aí em um minuto, não deixa ele sair até eu dizer.

— Pode deixar — disse Cristina antes de largar o celular.

Ela estava tentando aplicar a variante mais desajeitada e ineficaz do mata-leão no ex-futuro namorado. Teria funcionado se Augusto não fosse uns trinta centímetros mais alto e Cristina soubesse o que estava fazendo.

— Me solta, sua louca — disse ele.

— Só depois de devolver o presente

— Eu não vou devolver nada.

Menos de um minuto depois o telefone de Cristina tocou.

— Oi — disse a moça.

— Deixa ele sair — respondeu Fernanda do outro lado da linha.

Imediatamente Cristina libertou Augusto da semi-imobilização. O rapaz entrou apressado no carro e saiu, mas não antes de colocar a cabeça para fora da janela e gritar.

— SUA DOIDA!

O carro de Augusto mal tinha colocado as rodas na avenida quando foi atingido por outro veículo no lado do passageiro. Ainda desnorteado pelo susto, Augusto olhou para o motorista do outro veículo. Atrás do volante estava uma moça, ela usava um colar cervical, um protetor bucal, igual ao que lutadores usam, e um capacete. Ela tirou o capacete, o protetor bucal, o colar cervical, abriu a porta e desceu do veículo carregando uma marreta. Deu a volta no carro e bateu de leve no vidro do lado do motorista com dois dedos. Augusto abriu.

— E aí, meu velho, tudo certo? — Fernanda estava sorrindo, um sorriso demoníaco demais para transmitir simpatia.

— Mais ou menos — respondeu Augusto ainda tentando processar o ocorrido.

— O negócio é o seguinte — começou ela. — O presente da mãe da minha amiga tá aí no teu banco traseiro e ela tá querendo de volta.

— Ela que compre outro presente.

Fernanda girou a marreta e estourou o vidro da porta de trás.

— Eu podia só pegar o presente, mas eu prefiro que você me entregue. Sabe como é, eu prefiro quando as pessoas colaboram comigo.

Alguns instantes depois Fernanda estava entrando no estacionamento com um sorriso no rosto e a sacola do presente na mão. Ao longe dava para ouvir o som dos pneus de Augusto cantando.

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