Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

“Hoje Tem Jogo do Brasil”

“Hoje tem jogo do Brasil”. Essa é uma frase que circula pela boca de vários seres humanos ao longo do ano, mas de quatro em quatro ela atinge o ápice do seu poder. Porque só durante a Copa do Mundo o jogo da seleção brasileira consegue ser alguma coisa.

Boa parte do Brasil tem uma relação de amor e ódio com a Seleção Brasileira de Futebol. Seja por ter testemunhado na infância a conquista de algum título importante, seja por ser realmente apaixonado por futebol ou simplesmente torcer pelo Brasil em qualquer coisa que tenha um brasileiro, o motivo do amor é tão variado quanto os motivos do ódio. Já que normalmente os dois sentimentos não só se alternam, mas também acabam coexistindo. Afinal, o que é torcer senão experimentar os maiores extremos do espectro emocional humano?

Nem preciso dizer que pra quem torce a Copa é uma espécie de carnaval. E olha que eu nem tô falando dos que viajam pra ver a Copa in loco. Tal qual o folião antes do reinado de Momo, o torcedor inicia uma preparação quase ritualística que vai desde acompanhar o sorteio dos grupos, passando por completar o álbum de figurinhas, por comprar uma TV nova, até adquirir a superfaturada camisa da Seleção, muitos ainda tão usando a mesma de 2006 já que não houve atualização no número de estrelas desde então. Eis que a Copa começa, o Brasil só joga sei lá quando, mas o torcedor já está de olho nos possíveis adversários das próximas fases e torcendo pelo tropeço daqueles que foram carrascos do Brazéu em Copas passadas. Fora que três jogos por dia durante algumas semanas é o sonho de todo fã de futebol.

Eis que chega o dia do jogo do Brasil. Não se fala de outra coisa. Só se fala da logística pré-jogo: vai ter folga? Vai rolar só uma parada e depois todo mundo volta? Vai fechar ou não? Tem coisa pra comprar antes do jogo? Vai ver o jogo na casa de quem?

Boa parte dessas perguntas não vai ter resposta, a única certeza é que na hora do jogo (quase) tudo vai parar. O próprio Planeta Terra pararia se não fosse plano se tivesse um BR lá girando a manivela da rotação/translação. Afinal o Brasil está jogando e mais do que decidir o título mundial, ele está decidindo a existência da próxima folga.


A Copa do Mundo consegue unir duas das coisas preferidas dos brasileiros: folga e ganhar dos outros países. Se a folga acontecer pra assistir o Brasil ganhar dos outros países melhor ainda. E quanto mais a Seleção ganha, mais folga tem pra poder ver a Seleção ganhar mais e se ganhar tudo pode ser que role um feriado maroto que nem lá em 2002.

É claro que existe uma parcela da população que não tá nem aí (e nem tá chegando) pra Copa, pro jogo, pra Seleção ou pra qualquer um dos seus jogadores. Eu sou um dos que prefere mil vezes assistir o filme do Pelé, mas enquanto eu não for o último ser humano na face da Terra o jogo do Brasil vai mexer com a minha vida. Seja pelo barulho dos vizinhos, seja pelo assunto dominar todas as conversas ou pelo fato de ter gente com quem eu me importo que se importa de ver o jogo. Mas principalmente por causa do nosso querido Canarinho Pistola.

Melhor mascote de todos os tempos.

 

Star Wars Episódio VIII: Jedi Não Tem Plural

Fim do ano tá aí e com ele mais um filme da mais querida franquia do cinema. Sim, cara criança leitora, estou falando de mais um Star Wars. Dessa vez temos o oitavo episódio da série principal de filmes que atende pelo sugestivo título de Os Últimos Jedi. Nem preciso dizer que uma infinidade de fãs ansiosos rumaram, e ainda estão rumando, pros cinemas sedentos pelo mais novo capítulo da história de Rey, Finn, Poe e aquela galerinha do barulho que apronta altas confusões pra livrar a galáxia muito muito distante das garras nefastas da Primeira Ordem. O engraçado foi o tamanho do barulho que esse filme conseguiu criar.

Se você ainda não viu, não se preocupe que não vai ter spoiler, se você já viu, é bem possível que você concorde com boa parte do que eu vou falar aqui. Preparados? Então se segure porque vamos saltar direto no meio dessa confusão toda.


Os Últimos Jedi literalmente rachou a base de fãs de Star Wars no meio. Tudo bem que o mundo anda bem polarizado ultimamente, mas dessa vez a galera conseguiu se superar. Até petição online pra que esse filme fosse eliminado da cronologia canônica fizeram. Mas por que será que isso aconteceu? Será que foi culpa do diretor? Será que isso foi culpa do público? Será que foi culpa do governo golpista, já que antes não tinha fã de Star Wars dividido? Será que foi culpa dos porgs?

Os Últimos Jedi é principalmente sobre aprendizado e descoberta. Inclusive essa é a motivação principal de Rey ao buscar Luke Skywalker, ela quer e precisa de um mestre, alguém que mostre como ela deve usar os seus poderes recém descobertos. Nem todos os personagens têm essa mesma motivação, mas o resultado acaba sendo parecido para todos. Mas esse aprendizado não vem de graça. Os Últimos Jedi também é sobre fracasso, tentativa e erro, aprendizado através da falha, e eles se mostram professores melhores do que qualquer Jedi ou Sith jamais foi. Se no Episódio VII os nossos protagonistas nos mostraram quem eles eram, no Episódio VIII eles descobriram o que precisam se tornar e de quebra ainda trilharam boa parte do caminho que os levará até lá. E talvez seja essa uma parte boa do problema.

Uma das coisas que esse filme faz muito é quebrar as expectativas do espectador. Você ainda não viu o filme? É bem provável que boa parte do que você está esperando não aconteça. Se você já viu o filme, é bem provável que tenha tido sua expectativa quebrada umas duas ou três vezes pelo menos. E o principal de tudo é que, depois de tudo que rolou, não dá pra ter a menor ideia do que vai rolar no Episódio IX. E eu nem falo isso por causa da forma como o filme termina, falo isso por causa da forma em que tudo que parecia ter sido “prometido” em O Despertar da Força foi deixado de lado e no lugar disso veio um monte de coisa que muita gente não esperava. E particularmente eu acho isso tudo uma maravilha.

Tendo esclarecido os possíveis motivos de tanta treta entre os fãs, chegou o momento de deixar a racionalidade de lado e falar de forma mais passional. A partir de agora vou deixar de lado as análises e deixar o coração de fã bater no teclado.

É impossível pra mim pensar no Episódio VIII sem me empolgar. O visual do filme é inacreditável, a guerra nas estrelas nunca foi tão linda e Poe Dameron pilotando seu X-Wing só não é a poesia mais bonita escrita no ano de 2017 por causa de uma cena ne destruição em preto e branco que fez o cinema inteiro prender a respiração. Luke, em sua versão velha e acabada, não atendeu boa parte das minhas expectativas, mas não me decepcionou em nada. E os personagens novos? Almirante Holdo entrou com tudo na lista dos comandantes rebeldes mais memoráveis e DJ faz jus a toda tradição de trapaceiros da saga e rouba a cena em todos os momentos que aparece, mas nenhum deles conseguiu arrebatar meu coração como Rose fez. Saí do cinema desejando que Rose estivesse no Rogue One, e no Episódio IV e no Episódio V e no VI ou em qualquer outro.


Só que nada disso foi o melhor do filme. Mais do que qualquer mocinho ou bandido, qualquer Jedi velho ou fora da lei carismático. Dá pra discordar sobre tudo, menos que esse filme foi a melhor participação dela.


Leia, antes princesa e agora general, nos fez sentir ainda mais pela partida precoce de Carrie Fisher, exatamente um ano atrás. Ela não é só uma figura inspiradora, uma verdadeira líder para todos que estão ao seu redor. A última princesa de Alderaan é a legítima herdeira da Aliança Rebelde. Como líder da Resistência ela trata de ensinar pros seus companheiros mais novos como o coração de um verdadeiro rebelde deve ser. Lembrar a todos que rebeliões são construídas com base na esperança. A parte ruim de tudo isso é que não veremos essa líder tão excepcional na conclusão dessa trilogia. Uma despedida digna da grandeza dessa personagem.

O Episódio VIII veio e logo vai passar, deixando apenas a curiosidade de saber como vai ser o final dessa história, mas isso só vai rolar no longínquo futuro de 2019. Enquanto o futuro não chega o assunto de Star Wars fica por aqui. Até a próxima e que a Força esteja com você… Sempre.

2017, 75 Anos e 285 Textos

Dezembro. Ano terminando, a internet já tá cheia de gente falando de uva passa e a voz de Simone já pode ser ouvida nos mais diversos estabelecimentos do Brasil. Juntamente com o final de ano temos algumas pautas prontas alguns posts tradicionais deste querido blog. Provavelmente o mais legal deles seja o post que comemora os 75 anos de coisas diversas. Normalmente ele sai em um post com a numeração terminada em 5, mas como o 283 foi uma homenagem motivada por uma fatalidade, eu vou dar uma roubada e dizer que esse aqui é o post 285 que vale.

Começando, como sempre, com a ala musical da coisa temos os 75 anos de algumas moças já falecidas, Nara Leão, a musa da Bossa Nova, Celly Campello, a moça que tomava banho de lua e pedia pro Cupido deixar ela em paz, Clara Nunes, a primeira cantora a ter um disco com mais de 100 mil cópias vendidas. Passando pra ala masculina dos defuntos temos Ronnie James Dio, o cara que cantava Holy Diver, e o cara que minha mãe parafraseia pra me lembrar de acender os faróis na estrada, Tim Maia. Ainda nessa ala falecida temos duas vítimas da maldição dos 27 anos, Brian Jones, membro fundador dos Rolling Stones, e um dos guitarristas mais importantes de todos os tempos, Jimi Hendrix. Passando rapidamente pra parte da galera viva pra fechar logo esse tópico temos Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano, o Veloso, e seu brother Gilberto Gil. Juntamente com eles temos o possívelmente falecido Beatle Paul McCartney e Jorge Ben Jor.

Na parte de cinema abrimos os trabalhos com os 75 anos de Bambi. Sim, você não leu errado, faz 75 que a mãe do Bambi morreu. Também temos Casablanca, um clássico do cinema que provavelmente é a única coisa além de Bambi que eu reconheço da lista da Wikipédia. Na lista de personalidades do cinema que estão completando 75 anos temos Martin Scorsese e Harrison Ford, conhecido principalmente como Han Solo ou Indiana Jones.

Na última das categorias tradicionais temos os personagens de histórias em quadrinhos. Esse ano não tem muita gente, mas tem umas coisas interessantes. O primeiro da lista é mais um vilão do Batema, o Duas-Caras, que ficou bem famoso por causa do filme lá que tinha o Coringa Heath Ledger. Juntamente com ele temos Zé Carioca nos quadrinhos da Disney e a primeira edição do título solo da Mulher Maravilha, que trouxe uma série de personagens que apareceram no filme dela e que estão completando 75 anos em 2017, tais como Doutora Veneno e Etta Candy.

Mais um post de 75 anos se foi. Ele é só mais um lembrete de como 2017 tá perto do fim. Enquanto contamos regressivamente e riscamos compulsivamente os dias do calendário, lembramos desse ano e de tudo que esperamos dele. Confesso que esperava bem menos do que recebi e bem mais do que eu ofereci, mas isso é coisa pra outro dia.

Meio Cagada Essa Liga Aí

Quando os filmes baseados em quadrinhos de super-herói deixaram de ser um projeto de risco e Hollywood percebeu que as capas e as máscaras eram quase garantia de uma bilheteria boa, lá na metade pro fim da primeira década dos anos 2000, um questionamento foi levantado por muitos fãs de quadrinhos: “e o filme da Liga da Justiça?”. A Marvel começou a montar o que culminaria o primeiro filme dos Vingadores e a continuaram perguntando “e o filme da Liga da Justiça?”. Saiu Homem de Aço, o último filme solo do Superman, e mais gente começou a perguntar “cadê o filme da Liga?”. Eis que anunciam o infame Batman vs. Superman como o filme que serviria como um prelúdio pro filme da Liga e não muito tempo depois anunciaram 2017 como o ano em que finalmente veríamos a maior equipe de heróis de todos os tempos na tela grande. Aí veio BvS e todo mundo ficou com um pé atrás, pensaram que tava tudo perdido e que o filme da Liga ia ser um belo pedaço de bolo fecal. Foi aí que veio o filme dela.

O filme da Mulher Maravilha, apesar de não ser a oitava maravilha (trocadilho não intencional) do mundo, deu esperança de pelo menos ver um clima mais parecido com das histórias em quadrinhos do que os filmes que vieram antes. Só que nem tudo na vida são flores e a parada começou a desandar.

Não é de hoje que a Warner Bros. faz o favor de dificultar a vida de quem trabalha com os filmes da DC. Rolou isso em BvS, rolou isso naquela beleza que é o Esquadrão Suicida. Só que dessa vez a coisa foi pior. Por causa de uma tragédia familiar, o visionário diretor Zack Snyder acabou pulando fora da produção e foi substituído por Joss Whedon, também conhecido como o diretor de Vingadores 1 e 2. Se você estava entre as pessoas que pensaram que isso resultaria numa coisa boa, é bem provável que agora você já tenha reconhecido que se enganou.

Liga da Justiça tem uma série de problemas, mas de longe os maiores problemas do filme são por causa de coisas que rolaram fora do filme. Troca de diretor, refilmagem, Super Homem com bigode apagado digitalmente e pra completar ainda reduziram em pelo menos meia hora o tempo do longa, o resultado disso foi um número meio absurdo de cenas que apareceram no trailer e morreram na mesa do editor. O desenvolvimento dos personagens e até o ritmo da história sofreram muito com a redução na duração, sem contar que tem algumas coisas que ficaram meio estranhas de um jeito que eu não sei bem explicar, muito provavelmente por causa da troca do diretor e uma mistureba do que foi filmado antes e depois. A história do filme não é lá essas coisas, como na maioria dos filmes de herói, mas ela seria bem mais legal se o vilão não fosse meio cagado.

Liga da Justiça não só introduziu o Flash, o Ciborgue e o Aquaman no atual  universo cinematográfico da DC, também introduziu os Novos Deuses através da participação do Lobo das Estepes e sua legião de parademônios que queriam destruir a Terra em nome de Darkseid. Infelizmente a motivação do nosso amigo precisa ser deduzida com base em algumas dicas que o filme dá e acaba que a situação lá do cataclisma que o Lobo das Estepes provoca oferece bem mais risco do que ele mesmo.

A caracterização dos personagens foi bem menos problemática do que nos outros filmes. Apesar de não gostar muito do Batema piadista, achar que eles deviam ter puxado mais coisa da Mulher Maravilha de Patty Jenkins pra Mulher Maravilha da Liga e estranhar um pouco o Flash. Temos um Superman sorrindo no meio da porradaria, um Aquaman menos problemático do que eu imaginava e um Ciborgue que só não foi melhor por falta de tempo de tela.

Infelizmente o filme da Liga da Justiça não foi essa Coca-Cola toda. Sem Lanterna Verde e sem Caçador de Marte, essa equipe tá um pouco longe dos meus sonhos pra Liga no cinema, mas acho que podia ter sido bem pior. O futuro da Liga no Cinema me parece promissor o suficiente pra olhar pra frente um pouco mais esperançoso. Acho que na próxima eles conseguem.

Adeus, Aila

Em agosto de 2015 foi publicado aqui um texto que contava sobre uma conversa que tive com uma amiga minha. Nessa conversa a minha amiga falou sobre uma amiga dela, por um acaso era o mesmo nome de uma personagem de um jogo bem famoso. Apresentei a personagem pra minha amiga, ela gostou e disse que faria o favor de apresenta-la à sua xará. Foi a primeira vez que eu ouvi falar de Aila.

Infelizmente nunca tive o prazer de ser apresentado a Aila, mas de certa forma ela se tornou uma espécie de amiga do Cachorros de Bikini. Não sei o quanto ela acompanhou das publicações, mas uma ou outra curtida apareceram ao longo desses mais de dois anos. Infelizmente hoje, exatamente quando o relógio marcava 01:16 eu recebi a mensagem que me fez sair do jejum de publicações e publicar numa segunda-feira algo que não é um conto. A mensagem foi enviada pela mesma amiga que apresentou Aila ao Cachorros de Bikini. Apenas duas palavras que me acertaram com força:

“Aila morreu”.

E o mínimo que devemos a ela é uma justa homenagem.

“Luminosos seres somos nós, não essa rude matéria”, disse uma vez um personagem verde em um filme famosos. Eu posso dizer sem medo de errar que poucos seres tão luminosos quanto Aila enfrentaram uma matéria tão rude. Ela foi traída, ferida e desafiada pelo próprio corpo ao longo de anos. Caiu em armadilhas armadas pela própria carne e dormiu com o inimigo por noites incontáveis. Lutou com mais força e fé do que um exército de fanáticos, enfrentou monstros piores do que qualquer herói mitológico e tempestades mais fortes do que qualquer ilha tropical. Pessoas tidas como melhores teriam desistido bem antes… Eu com certeza teria desistido bem antes… Talvez você tivesse desistido bem antes, mas Aila não fez isso, lutou até o final. Creio que mesmo no final seu espírito ainda estava forte, mas a rude matéria não foi tão forte assim.

“Luminosos seres somos nós, mas apenas recipientes temporários nossos corpos são”, disse em outra ocasião o mesmo personagem verde. Temporário. Não fomos feitos para permanecer, nosso breve tempo neste mundo já está contado e não sabemos bem quanto nos falta. O tempo restante de Aila foi contado várias vezes e em praticamente todas elas as contas estavam erradas. Não sei se passar por uma luta tão longa foi o melhor, mas esse é o pensamento de alguém bem menos determinado e muito menos corajoso. Não conheci a força de Aila, assim como nunca ouvi a forma como ela falaria meu nome ou se de fato nos daríamos bem se houvesse a oportunidade de convivermos. Não estive com ela nas horas ruins e em nenhuma das boas, não tenho nada na memória além do nome e dos relatos resumidos que chegaram até mim falando de sua luta e de sua dor. Mas há outros que não só se lembram, mas que nunca esquecerão.

Meu coração e meus sentimentos estão com aqueles que se lembrarão de Aila e que lembrarão deste dia. Creio que com o fim da longa batalha ela pôde finalmente descansar. Creio que ela está em um lugar onde toda a força que ela teve não será mais necessária. Creio que finalmente ela não precisará mais lutar. Infelizmente nunca pude dar um “oi”, só me resta dar “adeus”.

Adeus, Aila.

É, Parece que Deu Merda

Essa semana eu estava parado no sinal quando recebi um jornal distribuído gratuitamente aos motoristas. Passei rapidamente a vista nos destaques da capa e me deparei com a seguinte manchete:

Jornal_Meirelles

Imediatamente eu pensei:

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Normalmente eu não comento de política por aqui e muito menos sobre coisas tão sérias quanto, mas dessa vez não vai ter como.

Henrique Meirelles é o atual Ministro da Fazenda. Ele já foi presidente do Banco Central e tem um currículo impressionante. Ao contrário de muita gente que entra pra ser ministro de qualquer coisa no Brasil, esse cara é um dos poucos que parece saber o que está fazendo. Se você não concorda muito com as decisões do cara, vai concordar comigo que o cara tem, pelo menos, um currículo compatível com o cargo que ele exerce.

Um belo dia esse cara manda um vídeo pra galera da Assembléia de Deus pedindo orações pela economia. Do nada pouco que eu pesquisei, Henrique Meirelles não é um membro da Assembléia. Apesar de ter uma boa relação com a instituição, nas matérias que eu li a religião dele não é citada em momento algum. Aí o cara aparece abertamente pedindo orações pela economia. Ele não comentou com a tia dele que vai pro círculo de oração que ela colocasse o Brasil na lista de pedidos de oração. Ele não pediu isso pelo Whatsapp pro pastor que é brother dele. Ele mandou um vídeo convocando milhares, talvez milhões de pessoas, para uma campanha de oração em prol da economia do Brasil que vai durar o mês de outubro inteiro. Eu sou um cara religioso, cristão protestante, evangélico, crente ou, como diriam alguns, idiota bitolado. Eu acredito no poder da oração e que a fé é uma coisa muito poderosa, mas também sei que quem não é religioso acaba encarando isso como um último recurso. Deus é o último recurso de muita gente, inclusive de alguns religiosos, e quando você vê um cara do quilate do Ministro da Fazenda apelando pra intervenção divina não tem como pensar outra coisa. Se apelou é porque deu merda pra valer.

Merda acontece. Essa é, provavelmente, uma das poucas verdades aceitas por todas as pessoas. Acontece, sempre aconteceu e continuará acontecendo. Cabe ressaltar que é bem provável que a humanidade seja extinta depois da maior merda de todos os tempos. Normalmente é por causa dela que a fé das pessoas costuma aparecer, é por causa dela que as pessoas prometem coisas que não podem cumprir e é por causa dela que algumas das mudanças mais importantes acontecem na nossa vida. Então lembre-se, criança leitora, se aquele seu amigo que não sabe nem com quantas letras se escreve Deus começou a apelar por intervenção divina, saiba que deu merda pra valer.   

Contos de Segunda #93

A publicação a seguir é uma continuação direta do Contos de Segunda #88.

— Não sei do que está falando, Carmim.

Angela estava sentada na minha frente, na minha cadeira e com os pés sobre minha mesa. Sacou um isqueiro para acender o cigarro surrupiado da minha gaveta.

— Três das pessoas mais ricas da cidade desapareceram nas últimas semanas — puxei uma cadeira. — Agora você aparece dizendo que tentaram te sequestrar, não me parece coincidência.

— Duvido muito que seja, detetive — desdenhou Angela. — Quem são os desaparecidos?

— Willian Doyle, Klaus Gleizer…

— O dono da fábrica de tecidos e o banqueiro — interrompeu ela. — É mais provável uma viagem em segredo com uma amante do que um desaparecimento.

— Talvez, mas com Dominique Loup na lista acabei descartando a hipótese.

Com o susto Angela saltou da cadeira e ficou olhando para mim com os olhos arregalados.

— Dominique desapareceu!?

— Duas semanas antes de Klaus Gleizer.

Angela saiu de trás da minha mesa e começou a andar de um lado para outro. Os dedos tremiam quando o cigarro foi levado à boca para uma longa tragada. Aproveitei a deixa para retornar à minha cadeira. O assento reservado aos visitantes era propositalmente desconfortável.

— Não sabia que era conhecida sua.

— Lembra de quando trabalhou para ela no caso da chantagem? Eu te indiquei para o serviço.

— Então vocês eram próximas?

— Éramos recém chegadas na cidade quando nos conhecemos — ela deu mais um trago no cigarro. — Ela queria ser cantora, eu queria ser atriz. Nós duas nos tornamos artistas, mas eu não virei atriz.

— Nem todos encaram golpes e mentiras como arte, Angela, só os que já te viram em ação.

— Gentileza sua, detetive.

— Quanto tempo faz desde a última vez em que você encontrou com Dominique?

— um mês.

— Notou algo diferente? Ela parecia preocupada com alguma coisa?

— Dominique nunca estava preocupada com nada. A carreira ia bem, o dinheiro estava entrando aos montes e os candidatos a amante só eram mais numerosos do que os candidatos a marido. Ela gosta de ser bajulada, mas acredita demais nessas besteiras de amor verdadeiro. Nenhum desses homens nunca conseguiu nada.

— Algum deles pode ter passado dos limites.

— Dominique andava com um segurança a tiracolo.

— Para alguns isso não é um problema.

— O homem é praticamente um gorila. Dois metros de altura, ex-pugilista e ex-militar. Um problema para qualquer um.

— Então ele é o primeiro da lista de suspeitos.

— Não me importo com sua lista, Carmim. Encontre Dominique e eu dobro o seu pagamento.

— A polícia costuma me pagar muito bem.

— Se isso fosse verdade, teria pelo menos um cigarro decente na sua gaveta.

Angela jogou o cigarro no cinzeiro, pegou a bolsa e partiu sem tocar no assunto da tentativa de sequestro. Livrar a própria pele está tão alto na lista de prioridades dela que só algo muito grave roubaria a atenção disso. Por mais amiga que Dominique fosse, nenhuma amizade poderia ser maior do que o apreço de Angela Bevoir por Angela Bevoir. Algo mais estava acontecendo e ela não ia me dizer. Eu precisava descobrir.

Com todas essas minhocas na cabeça eu telefonei para o número que estava no verso da foto que o chefe de polícia me entregou. A moça que me atendeu forneceu o nome do segurança e contou o pouco que sabia do que aconteceu com o homem. Mario Luppi foi encontrado desacordado em um beco no dia seguinte ao desaparecimento da patroa. Um dos braços estava quebrado, o crânio foi rachado por uma pancada, juntamente com algumas costelas. Depois de alguns dias em coma ele acordou no hospital e estava lá desde então. O horário da visita tinha acabado de começar quando eu coloquei os pés no hospital. Orientado por uma enfermeira adentrei no quarto onde Mario admirava a chuva que batia na janela.

— Boa tarde, senhor Luppi.

— Boa tarde, senhor…

— Pode me chamar de Carmim.

— É por causa das roupas vermelhas?

— Gostos pessoais pouco convencionais costumam gerar essas alcunhas.

— A que devo sua visita, senhor Carmim?

— Estou colaborando com a polícia no caso de desaparecimento da sua patroa e de outras duas pessoas.

O rosto de Mario era um misto de raiva, surpresa e espanto.

— A polícia já fez perguntas demais, senhor. Respondi a todas.

— Algo me diz que a polícia não fez todas as perguntas, pelo menos não todas as perguntas certas.

— Essa investigação não vai dar em nada. Acredite em mim, senhor, a polícia não pode resolver nada.

— Bem, a polícia me contratou para encontrar três pessoas, mas Angela Bevoir me contratou para encontrar sua patroa.

Mario ficou pálido. Aparentemente seria melhor que o próprio diabo tivesse me contratado no lugar de Angela.

— Ela me disse que é uma amiga íntima de Dominique e me ofereceu um bom dinheiro para encontrá-la.

— A senhora Bevoir deve estar se sentindo culpada. Não que ela tenha culpa no sumiço, mas nada disso teria acontecido se ela não tivesse levado a senhorita Loup ao… Não, nada. Esqueça.

— Não precisa me contar muito, Mario. Só precisa me colocar na direção certa. Para onde Angela levou Dominique?

Ele respirou fundo, reuniu coragem e disse baixinho:

— Para o Clube do Inferno.

Maiara e Maraisa de Bikini

Mais ou menos um ano e meio atrás eu publiquei neste mesmo blog um post sobre como um monte de gente chegava, e ainda chega, no Cachorros procurando por Maísa de biquíni, e todas as variações possíveis disso, no Google. Tirando uma ou outra busca mais ou menos exótica, pensava eu que a única busca por celebridades em trajes de banho que acabaria nestas páginas azuladas seria essa. Mais uma vez comprovei que eu não sei nada sobre nada. Claro que eu ainda quero falar um pouco mais de Maísa de biquine, mas não hoje.

Esses dias estava passeando pela área de administração do Cachorros de Bikini quando vi duas coisas bem curiosas. A primeira é que alguém chegou por aqui procurando por fotos pornográficas, não sei como, mas chegou. A segunda é que algum ser humano conseguiu encontrar este humilde blog procurando no Google pelo seguinte assunto:

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Imediatamente a minha reação foi:

Hillary

Entendo a curiosidade que alguns têm em ver algum artista em roupas, digamos, mais leves. Principalmente quando esse artista em questão não é uma adolescente que nem nossa amiga Maísa. Depois que a cabeça voltou pro raciocínio regular comecei a pensar no quanto a pessoa teve que se esforçar pra chegar aqui procurando por “maiara & maraisa en bikini”. Aí fui ver o quanto de trabalho uma pessoa precisa ter pra chegar no Cachorros de Bikini com essa mesma busca. Você deve imaginar o tamanho da surpresa quando eu vi isso aqui:

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Não sei o quanto o Google otimiza minhas buscas, mas lá estamos nós na SEGUNDA página de pesquisa. Testei fazer o mesmo com a navegação no privado e o resultado não foi muito diferente. Por fim chego à duas possíveis conclusões: ou não existe em lugar algum da internet alguma página que coloque no mesmo lugar as palavras “maiara”, “maraisa” e “bikini”, ou a gama de assuntos por aqui tá tão variada que daqui a pouco qualquer busca que tenha “bikini” no meio vai acabar aqui.

Para aqueles que vão chegar aqui por causa do biquíni de Maiara e Maraisa vai o meu muito obrigado. Para aqueles que ainda vão chegar procurando alguma outra fulana em trajes menores eu digo, sejam bem vindos… E para aqueles que querem saber mais sobre Maísa de biquíni eu digo que esperem até a semana que vem.

 

Playlist de Bikini #2

Amanhã é dia 7 de setembro, também conhecido como o Dia da Independência do nosso querido Brazéu e por isso vamos celebrar esta data tão festiva com uma playlist temática feita com todo o amor e carinho.

A escolha do tema de hoje pode parecer até um pouco óbvia, mas não poderia ser outro. Para celebrar a nossa independência fiz uma playlist só com artistas independentes brasihueiros. Eu não tenho certeza se todo mundo que eu joguei na lista é, de fato, artista independente, não sei se todo mundo tem gravadora ou se ter gravadora exclui o artista/banda. Também é possível que alguém da lista não seja independente atualmente ou que só tenha a cara de independente. Infelizmente não tenho como fazer e nem quero fazer uma auditoria pra saber se todo mundo da lista é de fato independente.

Devo lembrar que as escolhas feitas são puramente pessoais e de forma alguma tenta eleger as melhores coisas independentes. Justamente por isso a lista ficou bem grande, pra você poder pular as músicas que menos te agradarem sem se preocupar em deixar a lista muito pequena. Garanto que pelo menos umas dez ou doze músicas devem passar no crivo da maioria das pessoas.

Essa lista maravilhosa também está lá no Deezer.

Se você não se utiliza, ou não quer utilizar, dos serviços da galera do Spotify ou do Deezer, tem uma versão da playlist no YouTube com uma ou duas faixas faltando por causa das limitações de disponibilidade.

Bom feriado para todos.

Contos de Segunda #92

    Dimitri estava preocupado. Depois de meses no curso de reciclagem, finalmente ele poderia voltar às suas atividades normais como vampiro. Mas não antes de passar nas duas provas: uma prova teórica e uma entrevista com um avaliador certificado pelo sindicato. Ao longo dos meses passados no curso, tudo que Dimitri aprendeu foi que os vampiros viviam uma vida muito triste nos tempos modernos. A glória dos tempos áureos não existia mais e os filhos de Caim agora não passavam de feras enjauladas. Foi pensando sobre isso que Dimitri entrou na sala do avaliador, puxou a cadeira, se sentou e esperou alguns instantes até que alguém entrasse.

    — Boa noite, senhor… Dimitri? — Disse o jovem ao entrar na sala.

    — Correto, rapaz.

— Meu nome é Kauê e vou ser o seu avaliador.

— Me desculpe, acho que não entendi. Qual é o seu nome mesmo?

— Kauê.

— Isso é alguma espécie de apelido?

— Não… — respondeu o jovem achando aquilo muito estranho. — É um nome bem

comum.

— Conheço pouco sobre esta época, mas nunca tinha ouvido falar de ninguém chamado… — As narinas de Dimitri dilataram. — Que cheiro é esse? Se não fosse um total absurdo  poderia dizer que estás vivo, rapaz Kauê.

— Bem… Eu não acho nenhum absurdo… Eu tô vivo.

— Como é? — Questionou Dimitri fechando a cara.

— Eu não sou um vampiro, senhor Dimitri.

— Só me faltava essa. Já não basta ter que engolir todas as doutrinas distorcidas desta época maldita, ainda serei avaliado pelo gado.

— Senhor, atualmente consideramos esse termo bastante ofensivo.

— Ofendido estou eu. Passei meses dentro de uma sala de aula com um instrutor que, além de não ter nem um século sequer de pós-vida, queria me convencer que o momento desgraçado que minha espécie vive atualmente é uma amostra de como nos tornamos evoluídos socialmente. E para ouvir todas as falácias que me preparei para regurgitar eles enviam um humano de nome exótico — Dimitri estava começando a corar. — Solicito que a avaliação seja feita por outra pessoa.

— Senhor, todos os avaliadores são humanos comuns — respondeu Kauê pacientemente. Dimitri não era o primeiro, nem o décimo, vampiro conservador chiliquento que ele avaliava.

—  É um absurdo.

— Na verdade é um dos itens da avaliação — ele fez uma pausa e procurou o item no checklist. — “O avaliado deve ser capaz de controlar seus instintos na presença de uma presa em potencial”… Normalmente esse item fica mais pro final da avaliação, mas acredito que o senhor já foi aprovado nesse critério… Infelizmente o senhor usou termos considerados racistas e deu um feedback bem agressivo sobre o nosso curso, o senhor foi reprovado no quesito “ideologia de supremacia vampírica”.

— Não tenho motivos para discordar de nenhum dos dois pontos.

— O senhor solicitou uma habilitação comum para caça, utilização dos poderes e cidadania. Como o senhor não demonstrou intenção de sair da sua moradia atual e já existe um morto-vivo registrado e habilitado trabalhando para o senhor, creio que a questão de cidadania não vai ser um problema. O problema é a caça e atividades vampíricas afins.

— Qual seria o problema?

— Fomos informados que o senhor chegou a ter três esposas simultaneamente.

— O que não é nenhum problema.

— Não era… Para transformar alguém em vampiro, de acordo com a legislação atual, é preciso do consentimento do mortal que será mordido e essa pessoa não pode ser transformada em um servo do vampiro que a transformou. Essa última parte é mais por causa da legislação trabalhista.

— Não podes estar falando sério.

— Creio que isso foi trabalhado durante as aulas do curso.

— Não devo ter dado a devida atenção à esta questão — replicou Dimitri com uma expressão confusa. — Então somos obrigados a drenar totalmente a vida das vítimas?

— Só nos países com pena de morte, o que não é o nosso caso — respondeu o rapaz rabiscando algo na prancheta.

— Diante do cenário atual faz sentido.

— Ainda temos alguns parques e reservas onde a caça é regulamentada. Os vampiros da velha guarda são frequentadores assíduos.

Kauê ficou em silêncio por alguns instantes antes de dar o resultado da sua avaliação.

— Senhor Dimitri, infelizmente o senhor não foi aprovado.

— Por que não estou surpreso?

— Mas não se preocupe. Será designado um agente de custódia para acompanhá-lo e  seu comportamento será avaliado por um período que ainda será definido, mas não se preocupe, depois disso o senhor estará livre. O senhor pode ir, tenha uma boa noite.

Dimitri deixou o prédio do sindicato dos vampiros mais irritado do que decepcionado. Ele não esperava ser aprovado de primeira, mas ser vigiado de perto frustrava totalmente os planos dele de cometer irregularidades por debaixo dos panos. E foi durante esses pensamentos criminosos que Kauê passou por Dimitri montado em sua bicicleta. O rapaz não tinha culpa, afinal é impossível para um humano entender como um vampiro se sente… A menos que…

Kauê parou em uma esquina para ver se era seguro atravessar a rua, olhou para os dois lados e não viu nenhum carro passando. Cruzou a rua e resolveu pegar um atalho pelo parque. Ele estava meio distraído quando algo passou voando e o derrubou em uma moita. Uma dor aguda de duas pontadas no pescoço deixou o rapaz em pânico, mas só por alguns segundos. Ele sentiu suas forças indo embora. Tudo ficou escuro e frio.

— Não te preocupes, te sentirás fantástico quando acordar — disse uma voz familiar ao rapaz.

Foi a última coisa que ele ouviu antes de perder os sentidos.

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