Cachorros de Bikini

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Contos de Segunda #95 – Lágrimas Pretas

— O que tem lá fora, Mãe-Adria?

A pergunta não pegou Adria de surpresa. Nada pegava Adria de surpresa. Ela era uma sentinela. A mais antiga delas. A maior de todas. A quantidade dos desenhos com padrões intrincados que cobriam a maior parte da sua pele cor de barro denunciavam sua idade. Antiga, mas eternamente jovem, como todas as outras que moravam ali. Ela guardava as portas da Casa do Pai, uma tarefa perigosa e solitária… Pelo menos era, antes de Penélope ter idade para andar pela Casa com as próprias pernas. Nenhuma criança chegava perto da porta, os jardins eram muito mais coloridos e cheios de vida do que a paisagem que Adria observava, dia após dia, ao longo dos séculos. As silhuetas distorcidas das árvores mortas eram as únicas coisas que se erguiam acima da névoa. Depois de um breve silêncio, veio a resposta:

— Morte. Desolação. Os horrores da terra. Ruínas de tempos passados. Para nós há desespero, dor e o medo da morte.

Não havia emoção alguma nas palavras de Mãe-Adria, nunca havia. Penélope hesitou em continuar a conversa. Seus pensamentos se encheram do medo das coisas que povoavam as histórias que tiravam seu sono… Mas Mãe-Adria estava ali. Ela não precisava ser corajosa, a coragem da sentinela era suficiente para as duas.

— A senhora já saiu algum dia da Casa do Pai?

— Todas aquelas nascidas para a guerra já saíram. A terra desolada é nossa prova. Onde nossas habilidades são testadas. Nem todas retornaram.

— Eu sou nascida para a guerra, Mãe-Adria?

— Isso será sabido a seu tempo, criança. Quando tiveres tamanho para manejar uma arma e vestir uma armadura, a tua chama te mostrará. Quem é nascido para a guerra é chamado para fora. Não conseguimos resistir. Aprendemos a lutar para conseguir retornar.

— Temos tudo que precisamos aqui dentro, por que alguém teria vontade de sair?

— Lembras das histórias de Mãe-Kala? Sobre nossa vida antes de chegarmos na Casa do Pai?

— As primeiras de nós moravam lá fora. Elas viviam espalhadas pelo mundo antes dos horrores tomarem conta da terra.. Os jardins se estendiam por léguas sem fim e as mulheres pintadas eram livres… Mas os horrores chegaram e consumiram tudo. A Casa do Pai era o último lugar seguro. As últimas de nós chegaram aqui e conseguiram refúgio.

— Quase fomos exterminadas. Éramos pouco mais de duas dúzias quando chegamos à Casa do Pai. Ele nos ensinou a criar outras mulheres pintadas. Nos tornamos Mãe. Sobrevivemos… Mas a vida antiga nos chama, a todas nós. Nem todas conseguem ouvir, mas as que ouvem não conseguem resistir.

Penélope encarou pensativa a face da desolação que se erguia para além da porta. Seus olhos se perderam nas sombras imóveis das árvores há muito mortas. Imaginou como seria andar por lá. Tentou adivinhar a temperatura da névoa e o som de seus passos nas pedrinhas sobre a terra seca.

E viu os olhos.

Pensou estar sonhando acordada. Sacudiu levemente a cabeça. Os olhos eram luminosos. Estavam longe, ela tinha certeza, mas pareciam tão perto. Duas fendas por onde uma luz verde escapava. Mãe-Adria ajoelhou ao seu lado e passou o braço sobre seus ombros.

Foi quando ela percebeu que estava tremendo.

— Volte para dentro, criança — disse a sentinela em um sussurro. — Preciso trabalhar.

A noite não tardou a chegar. Após a refeição, muitas se juntaram ao redor das fogueiras para conversar e trocar histórias. A fogueira de Mãe-Kala era a preferida das mais novas, principalmente Penélope, mas os olhos na névoa ocupavam seus pensamentos, hoje não havia ânimo para ouvir sobre o passado. Decidiu dormir mais cedo, mas o medo dos próprios sonhos afastou o sono por algumas horas… Sem lembrança de ter adormecido, a menina foi acordada por vozes nervosas e pés ligeiros. Saindo do quarto encontrou apenas rostos confusos de outras meninas, igualmente acordadas pela agitação nos corredores.

— Volte para cama, criança — disse Lissa, uma jovem guerreira que dormia no quarto ao lado.

— Algo aconteceu, irmã?

— Ainda não sei, mas parece sério. Volte para dentro e não saia.

Lissa não ficou para ouvir uma resposta, outras guerreiras a levaram. Tudo estava muito agitado e provavelmente ficaria assim por mais algum tempo… Tempo suficiente. A janela do quarto de Penélope dava para um dos jardins, o jardim ao lado do templo, onde as mulheres mais velhas se reuniam quando algo sério acontecia. Todas as Mãe moravam lá e nove delas formavam o conselho. Provavelmente as portas do templo estavam sendo vigiadas, mas isso nunca foi problema.

As mulheres pintadas que serviam como sacerdotisas conduziam seus rituais de purificação em uma fonte do jardim anexo ao templo. Não era raro ver as crianças passando pela cerca viva para entrar no jardim, raro era ver uma criança usar o jardim para entrar no templo. Do jardim para a câmara de preparação dos rituais e da câmara para o átrio, era onde todas estavam. O átrio era ricamente adornado com flores que se derramavam dos jarros como uma cascata colorida, pelo menos durante o dia. À noite, as flores perdiam suas cores, emitiam o brilho da lua. As mulheres pintadas, com suas peles avermelhadas, pareciam cinzentas, frias, sob a luz das flores. Um silêncio mortal recaía sobre o átrio.

Todas as Mãe estavam reunidas junto com as sacerdotisas e algumas das guerreiras mais graduadas.. Formavam um semicírculo diante das nove cadeiras cor de barro do conselho. Penélope se esgueirou por trás de uma cortina e se misturou com os ramos que desciam por um dos jarros na esperança do assunto tratado ser sério o suficiente para manter as adultas distraídas demais para notá-la. .

Em pé, de frente para o conselho, estava Mãe-Adria… Ela não deveria estar… Deveria estar sentada, junto das outras oito, mas era Mãe-Hera quem ocupava sua cadeira..

— O que faremos, irmãs? — Questionou Mãe-Almira. Ela olhava para as outras Mãe sentadas ao seu lado.

— O que sempre fizemos — respondeu Mãe-Adria. — Meu destino não pode ser diferente.

— Ela está certa — disse Mãe-Kala com a voz embargada. — Ela deve ir, não podemos deixar que se espalhe.

— Mas Adria é Mãe, não deveria ter esse fim — retrucou Mãe-Hera.

— Sou barro, sangue e fogo como todas as outras, irmã — respondeu Mãe-Adria. — Vivi e matei mais do que qualquer guerreira. Minha hora é mais que chegada. Não há outro jeito.

— Não há outro jeito — reforçou Mãe-Kala.

— Esse tem sido nosso fim desde antes dos horrores consumirem a terra —  lembrou Mãe-Gae. — Lágrimas pretas escorrem dos olhos de Adria, ela se quebrou.

Penélope pensou sentir frio. Seu corpo tremia. As palavras de Mãe-Gae não tinham significado para ela, mas eram palavras ruins. Muito ruins.

— Não fomos feitas para morrer — lamentou Mãe-Hera.

— E por isso morremos — replicou Mãe-Adria. — Olhe para mim, irmã.

Penélope olhou… E viu. Algo parecido com tinta escorria dos olhos de Mãe-Adria. Gotas grossas desciam pela face, mas não pingavam no chão.

— Diga que tenho salvação. Conte a todas aqui presentes que há uma forma, até agora desconhecida, de mudar meu destino.

— Poupe-me de teus deboches, Adria — esbravejou Mãe-Hera. — Poupem-me dessa tradição arcaica e desses rituais derrotistas. Por anos sem conta desistimos de nossas irmãs. Por anos sem conta nossas irmãs aceitaram um destino que não precisava ser delas.

— Quem aqui é antiga o suficiente para lembrar? — Interrompeu Mãe-Moira. — Kala, Almira, talvez Adria? Quem é antiga o suficiente para lembrar da primeira de nós que se quebrou? — Dizia ela enquanto examinava o rosto das demais. — Quem pode lembrar da primeira mulher pintada que chorou lágrimas pretas? Quem dentre as presentes viveu o pânico e encarou a insanidade? Adria não pode mais permanecer entre nós. Não há decisão a ser tomada.

Penélope estava paralisada. Seu corpo tremia. As lágrimas rolavam dos olhos sem que ela notasse. A reunião prosseguiu por mais algum tempo, mas nada do que foi dito depois fez sentido algum para a menina. Mãe-Adria estava quebrada, seja lá o que estar quebrada pudesse ser. Ela precisava sair da Casa do Pai… Voltar para fora… Lá fora só havia desespero, dor, o medo da morte…  E os olhos na névoa.

A escuridão tomou conta dos olhos da menina. Tudo desapareceu.

— Acorde, criança. Se souberem que estavas aqui durante a reunião passarás o resto da eternidade de castigo.

Penélope ficou desnorteada por alguns instantes.  Ela estava sentada, recostada sobre em uma parede, envolvida pelos ramos que desciam de um jarro. Não lembrava de ter adormecido, talvez tenha desmaiado.

— Mãe-Adria? Eu… Onde… Mãe-Adria! — Gritou Penélope se jogou nos braços da sentinela e a abraçou com força. — Eu… Ontem… Não vá embora!

— Preciso ir, criança. Enquanto ainda posso. Um destino ainda mais terrível me aguarda se permanecer na Casa.

— Mas quem vai guardar a porta?

— Nossas guerreiras são habilidosas, não há motivos para temer.

— Elas não são antigas, não são fortes… Não como a senhora.

— Olhe para mim, Penélope.

A menina soltou o abraço e olhou para Mãe-Adria. Sua pele cor de barro estava pálida. Seu rosto tinha pequenas rachaduras e as lágrimas pretas corriam sobre ele.

— Meu tempo acabou. Minha chama está se apagando. Em pouco tempo não poderei guardar a porta ou treinar as novas guerreiras. Devo ir para o lugar de descanso enquanto ainda posso.

— Fica muito longe?

— Não para quem conhece o caminho.

— A senhora vai sozinha?

— Preciso.

— É perigoso?

— Para mim? Não. Agora chega de perguntas. O sol está nascendo. Vá antes que te descubram.

A menina obedeceu sem questionar. Estava triste demais para ser castigada. A luz da aurora começava a romper o véu da noite. Os jardins ainda estavam escuros, frios e vazios. Sem ser descoberta, Penélope chegou até a janela do quarto, pulou para dentro e escorregou por baixo dos lençóis frios. Lembrou de Mãe-Adria, de como nada parecia abalá-la. Desejou poder se despedir de forma mais adequada. Perdeu-se em pensamentos e adormeceu.

 

***

Os olhos de Adria corriam pela paisagem. As portas da Casa do Pai estavam abertas atrás dela. Ao seu lado estavam Moira, Kala e Almira.

— Quando foi a última vez em que estivemos juntas diante destas portas, irmãs? — Perguntou Almira.

— Todas juntas? Só no dia em que chegamos na Casa — relembrou Moira. — E nenhuma vez depois dessa.

— Seiscentos e trinta e sete anos — acrescentou Kala. — Chegamos aqui juntas faz seiscentos e trinta e sete anos. Das primeiras a nascer, fomos as únicas a chegar.

— Mulher pintada. Moldada pelos deuses… — começou Moira.

— … Carne de barro e sangue, que o tempo desenha, adorna, nunca desgasta… — respondeu Kala.

— Alma de fogo e vontade. Chama eterna, vida sem morte — completou Almira.

— Vida que morte não leva. Vida que a si mesma se encerra — terminou Adria.

— Não fomos feitas para morrer — lembrou Almira.

— E por isso morremos — replicou Moira.

— Como isso  pôde acontecer, Adria? — Questionou Kala. — Não há nenhuma outra dentre nós que enfrentou a morte tantas vezes. Que encarou a face dos horrores tantas vezes por tanto tempo.

— Vi coisas na névoa, irmã. Coisas que não deveriam estar ali.

— Passaste por tanto. Viste o mundo morrer e encaraste a certeza da extinção — relembrou Almira.

— E ainda assim estou aqui. A carne trincada, vertendo lágrimas pretas pela face — rebateu Adria. — Não te julgues menor só porque paraste de lutar antes de mim, irmã. Tudo que vi de pior não vi sozinha.

— Almira amoleceu com os anos, irmã — provocou Moira

— Todas nós, Moira — brincou Kala. — Quando foi a última vez em que seguraste uma lança ou uma espada?

— Todas nós… Menos Adria — disse Almira.

Silêncio.

Nunca era fácil ver uma mulher pintada partir da Casa do Pai. Nem todas suportavam presenciar esse momento. Adria nunca teve essa escolha. Ela guardava a porta. Sempre. Ao longo dos séculos viu todas aquelas que foram quebradas partirem na direção do lugar de descanso.

— Quantas de nós já se foram, Kala? — Questionou Adria.

— Cinquenta e três irmãs… Desde que chegamos aqui. A última partiu faz quase duzentos anos.

— Tempo suficiente para esquecermos da sensação — completou Moira.

— Eu vi todas — começou Adria. — Todas as que partiram. Para mim foram tantas. Incontáveis. Senti por cada uma delas. Sinto ainda mais agora.

— Não teria contado se não cuidasse dos registros — tremeu Kala. — Aquelas que partiram sempre serão honradas em nossas histórias… Mas nenhuma como Adria.

— A Campeã de Barro — disse Almira.

— Guerreira Mais Antiga — lembrou Moira.

— Mestra dos Exércitos — completou Kala.

— Uma sentinela das portas — rebateu Adria. — Como aquelas que virão depois de mim e as que virão depois delas. Os títulos que tive são títulos de um mundo morto. Nada do que fiz antes foi mais importante do que fiz enquanto guardava estas portas.

— O sol se levantou… Está na hora — disse Almira com pesar. — Tragam as armas — ordenou.

Duas guerreiras vieram. Ataram um escudo às costas de Adria. Uma espada e uma faca foram presas ao seu cinto. Uma lança foi colocada em sua mão. Depois de entregar as armas se retiraram

— Te lembras do caminho? — Questionou Moira. — Se te apressares chegarás lá ao anoitecer.

— Assim que me for… Chamem as cinco que escolhi para guardarem a porta… Não sei o que pode acontecer lá fora… Se eu tentar voltar… Elas sabem o que fazer… Adeus, minhas irmãs.

 

***

A névoa era fria. Mesmo ao meio-dia, mesmo durante o verão. A névoa era fria. Adria não sentiu frio. Não sentiu a umidade da névoa ou o calafrio de sempre ao caminhar para dentro dela. “Uma distração a menos”, pensou ela. Passos tranquilos e largos conduziam a sentinela à trilha que deveria tomar. Seu caminhar leve era marcado pelo som dos pés na terra morta. Quase tudo parecia diferente. Menos hostil, menos inóspito. Exceto por uma coisa.

Silêncio.

Nada estava vivo ali. Tudo fora consumido pelos horrores da terra nos séculos passados desde o seu surgimento. Nada respirava, comia ou cantava naquele lugar. Nem em lugar algum.

O mundo exalava morte.

Adria exalava morte.

Chorava morte.

Estava morta e, a cada passo, morria um pouco mais.

Adria testemunhou a morte de todos os tipos de seres. Muitas dessas mortes foram causadas pelo fio de sua espada, pela ponta de sua lança ou pela força de suas mãos. Grandes, pequenos, feras, príncipes, servos e santos. Mulheres pintadas ou homens comuns. Todos pereceram aos olhos de Adria, mas a morte lhe era tão alienígena quanto para suas irmãs. A morte foi feita para os outros. As mulheres pintadas não foram feitas para morrer… E por isso morriam.

Adria se deixou fazer algo que era vedado a qualquer sentinela. Deixou-se distrair pelos pensamentos. Para seres tão antigos quanto ela, lembrar era quase como sair em uma viagem. Algumas memórias estavam longe demais, aguardavam preguiçosas por uma visita que há muito não ocorria. Mas visitar as memórias era algo que Adria deixava para Kala, o presente era uma ocupa…

Passos.

Passos apressados vindo logo atrás.

Rápida como uma criatura leve, mas desajeitada como uma criatura grande. Uma faca cravada no meio de um dos olhos seria suficiente para frear a investida. Sacou rapidamente a faca do cinto, esperou a criatura chegar mais perto, preparou o arremesso e se virou pronta para atirar a lâmina no olho do que quer que fosse… Mas ela não estava pronta para o que viu.

— Que fazes aqui, Penélope?

— Vim encontrar-me contigo, Mãe-Adria.

Adria passou os olhos pelos arredores antes de voltá-los para a menina.

— Percebes o absurdo que acabas de dizer? A Casa do Pai é o único lugar seguro que conhecemos. Vieste de lá, sozinha, para te encontrares comigo?

— Quando a senhora fala desse jeito parece muito pior do que realmente é.

— Não posso te proteger, criança. Não do jeito que estou. Estou indo para um lugar do qual não posso voltar. Mesmo que sobrevivas até lá, não posso garantir tua segurança no caminho de volta.

— Ainda falta muito?

— Mais da metade do caminho.

— É perigoso?

— Sim, muito.

— A senhora não pode me proteger?

— Não.

— Por quê?

— Porque tenho medo, Penélope. Tenho medo da morte. Por isso estou morrendo.

A menina não respondeu.

Adria voltou seus olhos para o caminho que seguia. Pensou no quanto ainda faltava para chegar ao lugar de descanso. Lembrou dos seres à espreita na trilha e daquilo que viu na névoa. Voltar para a Casa custaria o resto do dia e o tempo corria veloz, quanto mais rápido ela seguisse, mais fácil seria chegar ao destino.  Soltou a faca do cinto, rasgou das suas roupas uma fita e prendeu a arma na cintura de Penélope.

— Eu sei que não sabes manejar uma faca da forma devida, mas não posso te deixar desarmada.

Com o rosto iluminado, Penélope sacou a arma da bainha. A lâmina parecia bem mais longa nas mãos da menina. Era leve e bastava olhar para perceber o quão afiada ela era.

— Se alguma coisa vier para cima de ti, não ataque. Firme os pés no chão, segure a faca com as duas mãos e deixe que o peso da coisa faça o resto. Se algo conseguir te morder é só cravar a faca no olho, deve te dar tempo de fugir ou de pensar em algo. Fui clara?

Para Penélope, manejar armas sempre pareceu algo divertido. Não parecia mais.

— Se conseguir acertar algum golpe — continuou Adria —  não deixe o sangue secar na lâmina, tem algo no sangue dos horrores que deixa as armas cegas. Se nada disso acontecer, deixe a faca dentro da bainha. Agora mostra como seguras a faca.

Penélope tentou se lembrar das vezes em que assistiu ao treinamento das guerreiras. Nunca viu nenhuma delas usando uma faca, mas Mãe-Adria pedira para segurar as facas com as duas mãos… Como se faz com uma espada.

A menina imitou a postura das guerreiras o melhor que pôde.

— Afaste um pouco os pés… Não segure a faca tão perto do corpo… Olhe sempre para frente, não esqueça.

Penélope confirmou com a cabeça tentando disfarçar a empolgação.

— Agora vamos. Não saia das minhas vistas e mantenha o passo. Ainda temos um longo caminho pela frente.

Uma sombra colossal se erguia ao longe. Depois dos bosques mortos estava uma montanha outrora tida como sagrada. Uma trilha cuidadosamente marcada conduzia até uma abertura a algumas centenas de metros acima do chão. Lá ficava o lugar de descanso das mulheres pintadas.

— A senhora está quebrada, Mãe-Adria? — Disse Penélope se virando para a sentinela.

— Sim… Mantenha os olhos no caminho, o terreno está começando a ficar pedregoso.

— Como uma pessoa quebra?

— Não é qualquer pessoa, só as mulheres pintadas… O que sabes sobre a morte, criança?

— Que ela não tem parte conosco. Coisas podem nos matar, mas não morremos de velhice ou doença. Não fomos feitas para morrer.

— E por isso morremos.

— A senhora falou isso para as outras Mãe… O que quer dizer?

— Todos os seres mortais que viveram antes da chegada dos horrores possuíam apenas uma certeza, de que sua vida teria fim em algum momento… Não te distraias, ande mais rápido.

A menina endireitou a postura e acelerou o passo.

— Para as mulheres pintadas a morte é algo que chega para os outros. Sabemos que podemos morrer, mas dificilmente acreditamos que morreremos de fato, mesmo diante do perigo mortal… Porém, para algumas, a morte vira uma certeza… Tememos. Temos medo porque não a conhecemos, como disseste, ela não tem parte conosco. E quando tememos… Quebramos.

— E choramos lágrimas pretas.

— E choramos lágrimas pretas. Uma mulher pintada que se quebra vai aos poucos perdendo sua sanidade. Primeiro vemos as coisas como elas não são, tudo se torna uma ameaça. Depois vemos coisas que não existem, dias e dias de delírios sem fim. Por último vemos como inimigos qualquer um que estiver na nossa frente, uma fúria assassina que só a morte pode aplacar… Por isso criamos o lugar de descanso. Lá podemos encontrar o fim em paz.

Penélope não prosseguiu com a conversa. Talvez a menina sentisse o mesmo que Adria…

Algo se aproximava.

Não havia som que denunciasse a presença de coisa alguma… Mas estava lá. O que quer que fosse, estava lá. A sentinela apurou os ouvidos.

Asas.

Um distante bater de asas. Asas pesadas. Um horror voador vindo por trás.

Mais um bater de asas.

Adria se virou e viu a criatura iniciando seu mergulho.

— Penélope, corra.

A menina olhou para trás, mas só conseguiu ver sua guardiã correndo em sua direção. “Apenas alguns metros”, pensou Adria, “só mais um pouco… Um… Dois… Três!”

Ela se jogou sobre a menina caindo abraçada com ela no chão. Com um golpe as garras da criatura arrancaram o escudo das costas de Adria. Com a lança em punho, a sentinela se pôs de pé e preparou o arremesso. O monstro se afastou manobrando em círculo e ganhando altitude, preparando o próximo mergulho. As garras pendiam nos braços raquíticos da fera, saliva escorria pelos dentes, os olhos verdes brilhantes iluminavam a face animalesca que destoava do resto corpo, coberto de penas, assim como as asas. Quase como se aquele horror vestisse o corpo de um pássaro gigante.

“Vou morrer”, pensou Adria.

Sacudiu a cabeça como se quisesse jogar fora aquele pensamento.

A fera não parecia tão ágil. Grande demais para uma manobra de última hora. Qualquer guerreira com metade da experiência de Adria derrubaria a criatura de olhos vendados.

“Vou errar o arremesso e morrer”

Sem a necessidade de permanecer oculto, o monstro desceu em seu mergulho soltando um grito feral que encheu Adria de terror. Suas pernas ficaram bambas. A postura de arremesso cedeu. Os dedos frouxos por pouco não soltaram o cabo da lança. A respiração acelerou. O coração martelava no peito. As lágrimas corriam, ainda maiores, ainda mais rápidas.

— AAAAAHHHHHH.

O grito apavorado da voz infantil trouxe Adria de volta. Os dedos se firmaram ao redor do cabo da lança. Não havia tempo para preparar um arremesso, mas era uma boa oportunidade para colocar em prática os conselhos dados a Penélope. Segurando a lança com as duas mãos, Adria aguardou o golpe do adversário que descia em diagonal na direção dela  e de sua protegida. Bastava aguardar até o momento certo.

“Vou morrer… Não solte essa lança nem morta”.

No último instante, Adria inclinou o corpo para trás, apoiando o cabo da lança no chão. Com a arma exatamente no ângulo de descida da criatura. Perto demais para sequer entender a armadilha em que caíra, o horror mergulhou sobre a lança.  A ponta entrou pela boca e saiu pela nuca da fera que desabou pesada sobre a sentinela.

Penélope se levantou do chão. Bateu a poeira das roupas enquanto procurava por Adria. Mas tudo que viu foi o corpo cheio de penas da criatura tombada.

— Mãe-Adria? MÃE-ADRIA! — Gritou ela correndo na direção do monstro.

A carcaça se moveu de leve quando a guerreira saiu debaixo dela. Tudo que o horror voador conseguiu fazer foram alguns cortes nos braços de Adria e quebrar o cabo da lança ao meio.

— A senhora conseguiu — disse a menina cheia de empolgação.

— Foi por pouco.

— Aquilo era…

— Um horror… Um horror voador, faz tempo que não vejo um.

— Todos os horrores são feios assim?

— Só os mais bonitos… — Adria retirou a lança do horror abatido. — Me ajude a encontrar o escudo.

Penélope se apressou para procurar o escudo, mas a neblina tornou a tarefa impossível. Logo o desânimo se apossou da menina. O ataque do monstro provavelmente o arremessara para muito longe.

Enquanto sua companheira buscava sem sucesso pelo escudo, Adria parou para observar os arredores. Assim como antes, nada fazia som algum… Mas havia algo.

Olhos.

Dois olhos verdes. Dois pontos luminosos ao longe. Menores que os de um horror normal. Exatamente na altura dos olhos de Adria.

Elas não podiam permanecer ali.

— Encontraste o escudo? — Falou a sentinela tentando controlar a respiração que voltava a acelerar.

— Não — respondeu a menina emburrada.

— Temos que continuar. Fizemos muito barulho, não sabemos o que pode ter ouvido — ela sabia.

— Mas e o escudo?

— Teremos que fazer o resto do caminho sem ele. Vamos, criança, precisamos chegar à montanha… E Rápido.

O silêncio tomou conta do resto do caminho até a trilha. A neblina ficava mais e mais densa quanto mais as duas se aproximavam da montanha. Conforme a visibilidade piorava, aumentavam as marcações no caminho. Pequenas pedras com um brilho verde, perfeitamente visíveis dentro da névoa. Verdes, brilhantes, como os olhos dos horrores. Olhando compulsivamente por sobre seus ombros, Adria procurava por qualquer sinal de um par de luzes verdes em meio à neblina. As lágrimas pretas corriam rápidas e grossas pela face da guerreira. Os joelhos desejavam o chão, os pés pesavam como pedras, o ar entrava pesado nos pulmões…

— Chegamos? É aqui?

A voz de Penélope, mais uma vez, fez Adria voltar a si.

— Sim — respondeu depois de alguns segundos. — Só mais um pouco e estaremos no lugar de descanso

Um portal esculpido de pedra marcava o início da trilha. Um corredor sinuoso escavado na rocha, estreito demais para qualquer criatura maior do que uma mulher pintada passar… “Não é o suficiente”, pensou Adria. Mais uma vez seus olhos correram pelos arredores. Sob a densa neblina aos pés da montanha, apenas as marcações da trilha eram visíveis. As marcações da trilha… E dois olhos. Verdes, luminosos, erguidos acima do caminho e se aproximando devagar.

— Não podemos parar agora, criança.

— Não podemos — respondeu Penélope tomando Adria pela mão. — Venha, vou levá-la até lá.

A mão da guerreira estava fria. Penélope fingiu não perceber. A Mãe parecia cansada aos seus olhos, mas não precisava ser lembrada de como as coisas não estavam indo bem. Guardou para si a estranheza do toque, a aspereza da pele ressecada nos dedos cobertos de calos. O tempo se perdeu na subida. Os passos acelerados no início, se transformaram em um caminhar quase preguiçoso de quem queria que aquele momento durasse mais, durasse muito, durasse para sempre.

O véu da noite caiu pesado sobre a terra desolada. Centenas de metros acima da névoa, estavam Adria e Penélope. Dali era possível ver o céu estrelado, a névoa cobrindo o mundo como um manto de nuvens e, ao longe, as luzes alaranjadas das tochas e fogueiras acesas na Casa do Pai.

— Espero que não estejam muito preocupadas comigo.

— Não é a primeira vez que desapareces, Penélope. Só estariam preocupadas se soubessem o que estás fazendo.

— Vou passar o resto da eternidade de castigo, não é?

— No teu lugar me preocuparia menos com as coisas futuras. O presente é mais que o suficiente. O caminho terminou, mas a jornada ainda não. Olhe — apontou Adria para a face da montanha.

A entrada do lugar de descanso era uma fenda na rocha. Um número sem conta de inscrições em várias línguas emolduravam a passagem. Brilhando com a luz das estrelas.

— Milhares de anos atrás… Kala reuniu todas as sábias nesta montanha. Pintaram esta fenda e o salão depois dela com milhares de encantamentos. Para dar força ao ritual e não permitir que coisa alguma além de uma mulher pintada pudesse entrar.

Adria suspirou profundamente. Talvez a proteção mágica da caverna mantivesse… Aquilo do lado de fora.

— Venha. O passado é ainda mais bonito do lado de dentro.

E era.

As inscrições cobriam o piso, as paredes e o teto de um salão octogonal. Em cada canto havia a estátua de uma mulher pintada, igualmente coberta de inscrições. As letras iluminadas enchiam o lugar de uma luz cálida que não deixava sombra alguma se formar ali dentro.

— Quem são elas, Mãe-Adria?

— As primeiras a nascer. Ali está Moira, outrora famosa estrategista em batalha e perita em várias formas de combate, éramos rivais antes dos horrores consumirem a terra. Kala, outrora mestra de todas as sábias e a última guardiã do conhecimento antigo, a memória de todas nós. Almira e sua irmã gêmea, Alara, as primogênitas. Nunca fomos governadas por outras além delas. Nunca tomaram para si o domínio sobre nós, mas nenhuma mulher pintada negaria a autoridade delas. Deste lado temos Niva, a construtora, Mersa, a caçadora, e Iana, a juíza. Elas viviam entre os mortais, ensinando todos os tipos de ciência e ofício. E esta… Sou eu.

— A senhora foi uma das primeiras a nascer, Mãe-Adria?

— Sim. Mas fui a última das oito. Ao contrário das outras, fui a única a nascer criança. Cresci sob os cuidados delas. Fui muitas coisas de muitas formas. Andei livre e servi quando quis e precisei. Quando se teve uma vida como a minha… Não se pode reclamar na hora de partir.

Voltando os olhos para o centro da sala, Penélope viu uma mesa de pedra com uma lanterna sobre ela. Dentro da lanterna queimava uma chama prateada e ao redor da mesa círculos estavam desenhados no chão, grandes o suficiente para uma mulher adulta se sentar, um para cada canto da sala. Dentro dos círculos não havia inscrição alguma.

— Logo devo começar o ritual. Sob a luz das estrelas. Ao amanhecer terei partido.

— Para onde?

— Para onde a chama de todas nós queima eternamente. Livres desta carne de sangue e barro.

Adria caminhou até o centro da sala e, enquanto Penélope se perdia nas inscrições das paredes e nos detalhes das estátuas, contemplou a chama. Por um instante seu coração se encheu de paz. Finalmente aquela agonia teria fim… Mas e Penélope? Como a menina voltaria à Casa do Pai?

— AAAAAAAHHHHHH!

O grito de Penélope mais uma vez despertou Adria. Virando-se para a entrada, a sentinela viu. Seu coração disparou, as lágrimas pretas correram grossas e velozes como nunca.

Os olhos verdes.

Brilhantes.

Passos trôpegos. Um corpo corrompido. Reanimado por meios que Adria não podia nem imaginar.

O corpo de uma mulher pintada.

Uma mulher pintada convertida em horror.

Uma mulher que ela conhecia muito bem.

— Alba… és tu?

O rosto vazio de expressão fitava a guerreira. Os dedos se torciam em posições estranhas, a cabeça se debatia de forma tão errática quanto os espasmos que tomavam conta dos braços e pernas.

— Mãe-Adria… — implorou Penélope com a voz trêmula.

— Criança… Venha para cá.

A menina estava paralisada. Os olhos brilhantes, a pele cinzenta, as roupas sujas e esfarrapadas. Algo naquela coisa dizia que ela reagiria ao menor movimento.

— Vou criar uma abertura… Corra até aqui ao meu sinal.

— Certo!

— Preparada?

— Sim!

Adria preparou o que sobrara de sua lança

— Agora! — Disse ela ao fazer o arremesso.

O ataque acertou em cheio o ventre da mulher horror.

Penélope correu, mas sua fuga foi frustrada. Uma mão fria e áspera a puxou pelo pescoço. Seus pés saíram do chão e toda a sala passou veloz diante dos seus olhos quando seu corpo foi erguido e arremessado com força no chão de pedra, expulsando todo o ar do peito. Os dedos do horror voltaram a se fechar em volta do pescoço da menina, prendendo-a no chão. Os pulmões esvaziados e o aperto na garganta silenciaram o grito de dor de Penélope. Debruçada sobre sua presa, a criatura aproximou a face inexpressiva do rosto da criança, quase como se o desespero da pequena causasse curiosidade.

Adria sacou a espada.

“Se eu errar ela vai morrer”, pensou ela. “Ela vai morrer… Eu morrerei depois”

A boca do horror se abriu, muito maior do que a boca de qualquer mulher pintada deveria abrir. Dentes imensos e afiados se revelaram. Penélope se debatia, mas o monstro era forte demais. O fedor de morte invadia as narinas da menina com a proximidade crescente daqueles dentes inumanos. Com um estalo, o maxilar do monstro se deslocou para abrir ainda mais a boca, quase como se quisesse abocanhar a cabeça da pequena de uma vez. Penélope chutou e bateu, mas a coisa parecia não estava insensível aos seus golpes.

Sentiu a faca.

Sacudindo na cintura, a lâmina embainhada pedia para ser usada.

Reunindo suas últimas forças, Penélope sacou a arma e cravou no olho esquerdo da coisa. Uma fumaça verde saiu do olho perfurado, quase como uma cobra, subiu em espiral pelo braço da menina e entrou no seu olho esquerdo. Os dedos do monstro afrouxaram, Penélope caiu de joelhos com as mãos sobre o olho. O braço queimava, como se a carne estivesse sendo corroída. Mil agulhas pareciam penetrar no olho esquerdo.

Ela queria gritar, mas o ar ainda faltava.

Escuridão.

Silêncio.

***

Uma voz.

Uma voz cantando.

Distante. Em meio à escuridão do vazio. Parecia um sonho, talvez fosse. A canção ficava aos poucos mais alta e mais clara. A voz era familiar e ao mesmo tempo…

Os olhos de Penélope se abriram.

Ela estava novamente no lugar de descanso. Ao seu lado estava Mãe-Adria, sentada dentro de um dos círculos do chão, diante de sua própria estátua. Ela cantava um cântico que a menina não conhecia.

— Mãe-Adria?

— Pensei que não te veria mais acordada antes de partir.

— Essa música, é bonita.

— Faz parte do ritual, é uma canção de despedida.

— Aquela mulher…

— Alba.

— Quem era?

— A primeira guerreira que treinei na Casa do Pai. A primeira das guerreiras de lá que perdi para os horrores.

— O que aconteceu com ela?

— Não sei. Nunca vi algo parecido. Mortos convertidos em horrores. Ainda mais uma mulher pintada… Eu a vi na névoa. Perto da Casa… Ao vê-la… Ao reconhecê-la… Quebrei.

— Onde está o corpo dela?

— Se desfez. Os encantos do lugar desfizeram o corpo dela como farão com o meu. Sentes muita dor?

Penélope lembrou-se da fumaça verde e das queimaduras. Olhou para o braço esquerdo e viu as marcas em espiral. Não doíam, nem pareciam com qualquer queimadura que ela tenha visto antes.

— Não sinto dor.

— E o olho?

Imediatamente ela tampou o olho direito. A visão parecia um pouco diferente, como se as cores estivessem erradas, mas nada além disso.

— Consigo enxergar bem, mas as cores estão estranhas.

— Não te assustes quando olhares no espelho. Teu olho esquerdo está verde e  luminoso como o olho de um horror.

— O quê? Mas eu não vou…

— Virar uma coisa daquelas? Acho que não, mas é só um palpite. Conte tudo para Kala. Se houver algo a ser feito, ela saberá.

— Ainda falta muito para o sol nascer?

— Um pouco. Tempo suficiente para terminar o ritual.

— Depois disso…

— Eu partirei para eternidade e tu partirás para a Casa.

— Não sei se consigo sozinha.

— Não estarás sozinha. Leve a lanterna. É ela que realmente dá poder a este lugar. Os horrores não te incomodarão se estiveres com ela.

— É proibido tirar a lanterna daqui?

— Creio que sim, mas tua vida importa mais. Não te preocupes, alguém trará de volta.

— Obrigada, Mãe-Adria.

— Não fiz nada, criança. Te salvaste sozinha. A ti e a mim. A gratidão é toda minha.

A canção recomeçou. As inscrições no salão começaram a brilhar de forma alternada. Descrevendo padrões variados a chama da lanterna queimava ainda mais brilhante. Bruxelava furiosa como se atiçada pelo vento.

O sol se ergueu.

Sua luz penetrou pela brecha.

O cântico de Adria parou.

Sua postura relaxou. As inscrições voltaram a brilhar com a luz perene das estrelas. As chamas da lanterna se tornaram tranquilas mais uma vez. As lágrimas pretas não escorriam mais pelo rosto de Adria. Restara apenas a marca de sua passagem na face tranquila da sentinela. Depois de milhares de anos, a guerreira não precisaria mais lutar. Penélope se levantou para se sentar diante de Mãe-Adria. O rosto sem vida revelava uma beleza que nunca foi capturada. A face séria e determinada de sempre estava eternizada na estátua que ocupava um dos cantos da caverna. Os olhos, agora vazios, residiam em um rosto tranquilo junto com o sorriso discreto que não costumava aparecer. A menina fechou os olhos da mulher. Passou os dedos por onde as lágrimas correram. O líquido viscoso parecia com uma tinta. Tateando a pele de seu rosto, a menina encontrou a marca da passagem da fumaça verde.

Sobre ela passou as lágrimas pretas de Adria.

Tomou a lanterna.

E partiu.

 

(Finalmente) 300

Este texto está atrasado.

Sim, cara pessoa leitora, este é um texto que saiu muito depois do que deveria. Houve uma época áurea em que este humilde blog tinha a pouco impressionante marca de três publicações por semana. Algo em torno de doze ou treze por mês, perto de cento e cinquenta por ano. Com o primeiro post sendo publicado em junho de 2015, levando em consideração alguns breves hiatos e coisas do tipo, a publicação de número 300 seria lançada na segunda metade de 2017. Mas 2017 foi o ano em que o Cachorros de Bikini desacelerou, em que eu desacelerei. A frequência de publicações passou de um monte de coisa pra quase nada. Mas não se engane, esse não é um lamento, é só uma retrospectiva. Essas coisas acontecem.

Agora imagine minha surpresa ao olhar para o contador do WordPress e ver que eu estava a um post de atingir a nada impressionante marca de 300 publicações.

Pior que quase eu passava direto pelo número 300. Por pouco o número 300 foi o conto que vai sair segunda. Um texto muito legal em que passei os últimos tempos trabalhando. Tá legal, vale a pena ler, mas achei melhor não misturar as coisas. Afinal, 300 é um número que pede, pelo menos, uma decoração especial.


Usar coisas de 300 pra ilustrar esse post é uma escolha meio óbvia. Já que provavelmente ele é o filme que tem apenas um número como título que fez mais sucesso. Eu acho. Deve ser. Vamos dizer que é.


Esse poderia ser um post sobre esse filme que provavelmente só uma parte de quem tava vivo e consciente em 2006 se importa. Só que eu tô com preguiça de ver o filme de novo. A última vez que eu vi 300 faz tanto tempo que eu nem lembro e a vontade de gastar energia pra escrever sobre o filme ou o quadrinho tá tão próxima do zero que vai ficar pra outro dia. Mal aí, galera de Esparta.

Vamos retomar a conversa do início.

Houve uma época em que eu escrevia sempre. Sempre tinha coisa nova por aqui e eu conseguia escoar toda a minha pulsão criativa pra cá. Não sei bem o que aconteceu, mas em algum momento isso não aconteceu mais. Foram dois anos bons e mais três muito agradecido por ter conseguido fazer o que eu fiz por dois anos. E a graça de ter feito isso na internet e de forma escrita, é que tá tudo por aqui. Arquivado, organizado, classificado. Volta e meia eu paro por aqui e dou uma lida numas paradas antigas, nem sempre o que eu leio é muito bom, mas é sempre divertido. Surpreendentemente divertido na verdade. Algumas coisas estão aqui tem tanto tempo que parece que não fui eu quem escreveu. Se você escreve devia fazer isso também, é um exercício interessante.

Houve uma época em que eu escrevia sempre, mas essa época passou. A época atual é uma em que eu escrevo de vez em quando. Num nível de compromisso tão zerado que é mais pra não enferrujar. Ainda é tão bom como sempre, depois que eu termino um texto novo penso que devia fazer mais vezes. Mais ou menos como acontece quando a gente se encontra com uns amigos que a gente quase nunca vê e acaba quase nunca vendo mesmo querendo ver sempre. E mesmo assim cheguei aos 300, quem diria?

40 Anos de Império Contra-ataca

Algumas décadas atrás a indústria do entretenimento, principalmente o cinema, vivia uma realidade muito diferente da atual. Não existiam tantas franquias gigantescas, filmes de grande orçamento e nem tantos filmes com efeitos especiais absurdos. Foi nesse contexto que surgiu o nome que definiu o que é ser uma grande franquia. O filme que mudou a história do cinema, do mercado do cinema. Em 1977 estreou Star Wars, que naquela época era só Star Wars, mas que pouco tempo depois teve seu título mudado para Episódio IV – Uma Nova Esperança, garantindo que teria coisa antes, coisa depois e que qualquer um que caísse de paraquedas no assunto ficasse completamente confuso. Três anos depois saiu o filme que completou quarenta anos na semana passada. Em 21 de maio de 1980 estreava nos Estados Unidos Star Wars Episódio V – O Império Contra-ataca.

Ou o Star Wars preferido de todo mundo.

“Nadavê, Filipe, eu gosto bem mais do Episódio (insira aqui o episódio que você acha que mais gosta)”.


O Império Contra-ataca é Star Wars no seu estado mais puro e lapidado. Tudo que é mais lembrado sobre a primeira trilogia de filmes está nesse filme. Darth Vader como o super vilão temido por seus inimigos e subordinados? Isso só começou aqui. Se você reparar bem em Darth Vader no primeiro filme, vai perceber que ele é um nêmesis pros protagonistas apenas, um agente do Império que age com certa autonomia, mas submetido à autoridade do Governador Tarkin, o homem que comanda a estação bélica apelidada de Estrela da Morte. Vader se torna o carrasco da Rebelião só no Episódio V. O velho Ben Kenobi aparecendo como fantasma? Apesar de soprar um “use a Força” no ouvido de Luke no final do primeiro filme, ele só aparece na sua forma azulada semitransparente aqui. Mestre Yoda? Fez sua estreia aqui, com frases invertidas e os ensinamentos sobre a verdadeira natureza da Força. O romance de Han e Leia? Em meio às brigas, trocas de ofensas e quase total ausência de gentilezas é que floresce o único romance minimamente decente nessa franquia toda. Essa cena aqui…


É do Império Contra-ataca. A cara enrugada do Imperador? Apareceu pela primeira vez, ao vivo e em holograma, nesse filme. E falando em primeiras aparições, além do já citado Mestre Yoda, temos Bobba Fett, pra provar que dá pra ficar famoso só fazendo pose. Também temos outro queridinho dos fãs, Lando Calrissian, fazendo sua primeira aparição nesse universo. Algumas das cenas mais icônicas também estão aqui, como o ataque imperial à Base Echo no planeta Hoth, com a primeira aparição dos AT-AT.

A fuga da Millenium Falcon das marinha imperial, a perseguição pelo campo de asteroides e logo depois todo mundo quase virando comida de verme espacial.

E essa cena aqui.

    Toda a jornada de Luke Skywalker dentro do filme, lentamente se colocando à parte da Rebelião e começando a percorrer um caminho por onde só ele pode andar, o que culmina no Luke que vemos no filme seguinte, é provavelmente o momento mais legal do personagem pra mim. Ele não é mais o garoto da fazenda, mas também não atingiu todo o seu potencial como Jedi, enfrentar o Império junto dos outros rebeldes é importante, mas ainda falta algo para que ele se sinta completo.

Por fim temos outra coisa que ajuda o Império Contra-ataca, ele é o filme do meio. Os filmes do meio têm uma responsabilidade: ser uma boa transição entre a primeira e a terceira parte. Essa é uma tarefa fácil? Não, é um desafio tremendo. O Império Contra-ataca é excelente porque precisou ser. Ele era a continuação do filme que fez um sucesso inacreditável e precisava ser um elo pro filme que fecharia essa história. Ele precisava ser ótimo e, justamente por isso, ele foi.

Veja Império Contra-ataca. Reveja o Império Contra-ataca. Aproveite o Império Contra-ataca. É isso. Até a próxima.

Ainda Consegue?… Ou só um texto sobre fazer aniversário

Os tempos atuais são um convite à reflexão. Caso você, cara pessoa leitora, esteja lendo isso do futuro, basta eu dizer que os “tempos atuais” dos quais eu falo são os tempos de pandemia do coronavírus, quarentena e isolamento que já consumiram um pedaço grande do ano da graça de 2020. Justamente nesse ano, durante todos esses eventos semi-apocalípticos, o proprietário deste humilde sítio eletrônico atingirá a marca histórica de 30 anos vividos.


“Ê, Filipe, bem qualquer coisa fazer 30 anos”. Sim, pessoa leitora hipotética que falou a mesma coisa no meu texto de aniversário em 2016, não é grande coisa no plano geral da humanidade, mas como eu não vou completar 30 anos nunca mais, a marca é histórica pra quem interessa que ela seja… Mas voltemos ao papo reflexivo.

30 anos se tornou uma idade cabalística nos últimos tempos. Muito se fala sobre como todo mundo (não se sabe exatamente quem, mas ainda assim todo mundo) espera que a sua vida esteja toda no lugar aos 30 anos. Eu não sei a de vocês, mas a minha com certeza não está. E a vantagem de não embarcar nessa nóia de vida resolvida é que sobra processamento cerebral pra refletir sobre outras coisas que vêm com a idade… Coisas diferentes de cabelos brancos e dores que não estavam lá até um dia desses. Justamente por isso a presente publicação nasceu. Eu topei com uma coisa que me fez refletir.

Estava hoje de bobeira passando pelo meu Instagram e me deparei com a seguinte tirinha do My Dad is Dracula que eu usei minhas incríveis só que não habilidades gráficas digitais.

Muitas coisas mudam ou se perdem ao longo do caminho de uma vida, independente do tamanho dele ou em que altura desse caminho qualquer um de nós se encontra. E eu nem falo das coisas materiais, das relações pessoais e de tudo que pode ou vai gerar arrependimento. Nem toda mudança é pra pior ou pra melhor, nem tudo que fica pra trás deixa saudade ou faz falta. Boa parte das coisas que ficam pra trás têm mais que ficar pra trás mesmo. Algumas não fazem falta justamente por serem um pedaço de alguém que não existe mais. Basta pensar um pouco pra perceber que várias versões de mim mesmo estão perdidas no passado cada vez mais distantes das idades passadas. E toda vez que eu penso nessas coisas, agradeço de todo coração por isso ter acontecido. Quando eu penso no pai perguntando ao filho se ele ainda consegue enxergar algo mais fantástico do que apenas uma poça d’água suja que reflete a luz de forma multicolorida, eu reflito. Quando eu vejo o semblante triste do menino diante da pergunta, eu me entristeço junto, mas me alegro logo depois. Me coloco no lugar da criança questionada, posiciono um leve sorriso nos lábios e respondo…

Sim, consigo.

A minha cabeça ainda absorve e projeta as mesmas coisas desde sempre. As cores vindas do espaço ainda tingem as histórias dos heróis, vilões, mutantes e dragões que sempre ocuparam meus olhos e povoaram minha imaginação. O pensamento volátil, faminto pelo absurdo das coisas, ainda trabalha incansável para que o mundo continue tão interessante quanto sempre foi, apesar da dificuldade da tarefa. Ainda é fácil torcer a realidade, o tempo e o espaço conforme a necessidade das ideias doidas e tecer mundos inteiros ainda pode ser feito em poucos segundos. Sim, ainda consigo.

Envelhecer ainda não é tão ruim quanto poderia ser, apenas pelo fato de algumas coisas não se renderem à idade. Não por apego ou teimosia, é só que a idade ainda não foi forte o suficiente pra vencer. E espero que nunca seja. Os dias e anos são só números diante dos olhos que envelhecem ainda menos do que a alma da qual eles são janela. A maturidade ainda é seletiva e, felizmente, ainda não obrigatória em muitas ocasiões. A idade pesa leve sobre mim porque eu resolvi tirar dela um pouco do peso que ela nem precisa ter. Mais um ano, mais um dia, uma idade nova que não chegou de uma vez. Vem chegando faz tempo. Tá chegando faz 30 anos. Agora, finalmente, chegou.

Quando a Quarentena Acabar…

Outro dia estava com a cabeça desocupada e acabei lembrando dessa música aqui:

Imediatamente fiz uma versão adaptada para os tempos de hoje do verso de abertura da música. “Quando a quarentena acabar…”, cantarolei eu na minha cabeça que, a partir daquele momento, não estaria tão desocupada assim. Desde então um pensamento recorrente toma conta da minha cabeça. O alívio da falta de ansiedade pelos dias presentes me manteve superficialmente tranquilo até então, mas o encontro constante dos últimos dias tem sido com aquilo que, até então, eu não sabia que perturbava o meu sono. As minhas ansiedades estão depois do fim.

Antes de começar a discorrer com mais detalhes sobre o assunto gostaria de dizer que eu não estou pessimista. Eu acredito que essa crise vai acabar, que covid-19 vai ser só mais uma das inumeras doenças com as quais a gente convive todos os dias, que qualquer dano social e econômico vai ser razoavelmente superado e que apenas o prejuízo humano, como em qualquer outra crise, vai ser irreparável. Sei que o caminho até o fim de tudo pode ser ainda muito longo, ou nem tanto, quem sabe até um pouco maior, mas a espera faz parte da minha vida há tempo suficiente pra me munir da paciência necessária em uma situação dessas… Todas essas palavras não parecem as de alguém preocupado com o que está para acontecer. De fato essas não são, mas as próximas talvez.

Fico pensando no dia em que poderemos dizer que tudo isso acabou. Quando olharemos os destroços do que foi destruído e as ruínas recém nascidas daquilo que acabou de ser abandonado e permanecerá abandonado dali em diante. Penso em todas as mudanças que estão crescendo em seus casulos, esperando o dia de abrir as asas na direção do céu de um mundo que, em vários níveis e proporções, não será o mesmo. Penso no quanto estaremos traumatizados, ou não, depois de tudo isso. Se todas as quedas de braço, as trocas de acusações, as discussões inflamadas, as decisões tomadas e as atitudes adotadas terão valido de alguma coisa.

O futuro aguarda por todos. Vítimas, fatais ou não, filhos e filhas, esposas e maridos, mães e pais, viúvas, viúvos e órfãos da quarentena. Por aqueles que pararam suas vidas e pelos que, feliz ou infelizmente, não tiveram esse privilégio. Por aqueles que contarão essa história toda como um resumo das manchetes dos jornais ou como um relato de guerra. O futuro aguarda por todos que sobreviveram. Ao vírus, ao medo, ao trabalho e à falta dele, à fila do banco, ao calendário, à espera, ao tédio, ao isolamento, à falta de rotina ou ao excesso dela, à solidão, à depressão. À morte batendo na porta ou apenas espiando pela janela. O futuro virá e tenho a inabalável esperança que poucos de nós não estarão aqui para vê-lo, mas, se pensarmos bem, sempre foi assim. As coisas que virão, virão para todos, o quanto delas virá para cada um é uma pergunta que não nos cabe responder.

Espero não ter deixado você, pessoa leitora preocupado ou temeroso. Nunca foi a minha intenção. Os tempos que vivemos já faziam isso bem antes de qualquer novo vírus Made in China. Não gosto muito de falar sério por aqui, mas algumas coisas mais leves só saem da nossa cabeça quando as mais pesadas saem primeiro. Um aperto sem mão, um abraço sem braço e um beijo de longe sem encostar a mão na boca pra todos vocês e até uma próxima com as palavras mais leves que eu puder escrever.

Em 2019 Teve: Muita Gente Sendo Cancelada

Um dia desses estava eu orbitando pelo meu feed do Facebook, algo muito raro nos dias de hoje, e me deparei com a seguinte postagem de uma amiga minha:

Como eu tinha tido só ideia ruim pra esses textos de assuntos de 2019 estava procurando diversificar os temas da série de posts sobre 2019, acabei lembrando de uma das coisas que movimentou a internet no ano passado: gente cancelando gente.

Devo confessar que essa parada de cancelamento chegou bem atrasada pra mim. Comecei a ouvir sobre essas coisas de gente sendo cancelada e, como eu não sou mais um jovem internético moderno e antenado, eu simplesmente ignorava e vida que segue. Em dado momento do ano o termo já estava tão difundido e aparecia em tantos lugares diferentes que fiz o que qualquer pessoa da meia-idade virtual faria no meu lugar, perguntei ao Google o que era. E pra minha surpresa se tratava de… Uma coisa que o povo sempre fez na internet, mas que agora resolveu dar um nome pra poder não só padronizar o termo, mas também pra caracterizar como algo nativo da internet.

Em resumo, uma pessoa com presença em redes sociais, normalmente alguém com um número relativamente grande de seguidores ou de alcance, faz alguma coisa que é a galera não curte muito aí todo mundo cai em cima, critica, deixa de seguir e essas coisas todas. Já viu isso em antes de 2019? Provavelmente sim, só que agora chamam de cancelamento.

Aí você pode pensar “pow, meio qualquer coisa essa parada de cancelar gente”. E eu concordaria com esse possível pensamento se, conforme o número de cancelamentos virtuais foram aumentando, não crescesse também a quantidade de gente analisando o fenômeno virtual da recém criada “cultura do cancelamento”. E dando uma googlada rápida pra reunir algum material pra compor esse texto, acabei esbarrando nisso aqui:

Acabei esbarrando nisso aqui também:

Mas é melhor focar nas paradas que têm credibilidade.

Todo ano alguém que escolhe a palavra/termo do ano. Eu falo “alguém” pelo simples fato de eu não saber quem é o responsável por isso e porque todo ano me parece que é uma instituição diferente que escolhe. Desinformações à parte, temos aí, finalmente, um indício de que esse negócio de gente cancelando gente está muito presente, não só nas ações, mas também na mentalidade da galera usuária de internet, pelo menos em língua inglesa. E que diferença isso faz? Nenhuma, assim como todas as outras coisas que pertencem ao microcosmo da internet.

Não sei se qualquer tipo de linchamento é útil ou justificado, muito provavelmente isso é um claro reflexo de como qualquer pessoa na internet está exposta, como hoje em dia as pessoas podem ser mais ouvidas, acabam ouvindo mais coisa do que gostariam. E se fizermos uma recapitulação das leis da Física, vamos lembrar que quem fala o que quer, ouve o que não quer. E com essa porção da mais vulgar filosofia que eu anuncio o cancelamento de qualquer final que esse texto poderia ter.

Star Wars Episódio IX: Não Vai Ter Mais Skywalker

Quatro anos. Parece que foi um dia desses, mas faz pouco mais de quatro anos que eu escrevi sobre Star Wars pela primeira vez nessas mesmas páginas azuladas. O ano era 2015, eu tinha acabado de ver o Episódio VII, primeiro filme da (mais) nova trilogia de Star Wars. Dando uma lida rápida na publicação daquele dia 23 de dezembro, consegui reviver parte daquele sentimento. De toda a expectativa e de toda esperança que eu tinha nos filmes novos. Aí veio 2017 e com ele o Episódio VIII que foi por uma direção meio… Inesperada. Mais uma vez expectativas foram criadas só que, ao contrário de antes, daquela vez eu não sabia o que esperar da última parte dessa trilogia. Não demorou tanto assim e chegamos ao fatídico 19 de dezembro do recém falecido ano de 2019, quando finalmente estreou:

Star Wars Episódio IX: A Ascensão Skywalker. Um título que gerou tantas ou mais teorias quanto Os Últimos Jedi do filme anterior. Ninguém sabia de que Skywalker estavam falando e nem que ascensão poderia ser essa. Até então a única certeza era que a galera responsável pela história do filme acabou trazendo de volta uma das piores coisas do antigo Universo Expandido: o Imperador.

Vilão maior das duas trilogias anteriores, o Imperador teria originalmente encontrado seu fim no Episódio VI: O Retorno de Jedi (o filme tem quase quarenta anos, isso não é um spoiler), mas histórias posteriores, nenhuma delas em formato de filme ou especial de fim de ano, acabaram trazendo ele de volta dos mortos usando alguma desculpa mirabolante. Histórias que tinham perdido a validade quando a Disney resolveu reformular o cânon e eliminou todo o antigo Universo Expandido. Eliminou só pra poder dar aquela peneirada e trazer de volta qualquer coisa que interessar. Não sei por que seria interessante tirar da cartola a revelação de que na verdade o vilão dos primeiros seis filmes na verdade era o vilão por trás das tretas de todos os nove filmes. Essa foi uma das primeiras coisas reveladas sobre o Episódio IX e uma das poucas coisas que eu fiquei sabendo antes de entrar no cinema. O resto era tudo especulação.

Eis que chegou o dia de ir pro cinema. Eu sento na poltrona. As luzes se apagam. Sobe a música tema e entram as letras amarelas.

Respiro fundo e me ajeito no meu assento e… Foi só isso. Por algum motivo que não sei explicar, eu estava lá vendo um Star Wars que não me fazia sentir como se eu estivesse vendo Star Wars. Provavelmente essa é a melhor forma de definir minha experiência com o filme: não tinha gosto de Star Wars. Não consigo dizer o que estava faltando. Não sei se foi o ritmo, alguma coisa no visual ou na forma como a história começou, mas alguma coisa não estava lá e quando essa coisa começou a aparecer um pouco já foi tão perto do fim que nem fazia lá tanta diferença.

Sem entrar muito no enredo do filme dá pra resumir boa parte do que eu desgosto dele em uma imagem:

Não faço parte daqueles que acham que Os Últimos Jedi é um filme perfeito e irretocável, mas quando o último filme, de uma série de três, estabelece que boa parte do que aconteceu no filme anterior não é lá muito importante. Não faz muito bem pro conjunto.

Mesmo não parecendo, tem algumas coisas realmente boas nesse filme… Só que elas ficam mais por conta de alguns personagens. Kylo Ren segue em uma escalada rumo à redenção como personagem, abandonando de vez aquela caricatura pintada no primeiro filme. C-3PO faz uma das suas melhores participações de toda a franquia, assim como Chewbacca que segue se superando a cada filme. Os conflitos de Rey ganham um pouco mais de corpo, apesar de terem dado uns três passos pra trás e avançado numa direção meio esquisita, o que faz ela tomar umas decisões meio questionáveis… Se o roteiro ajudasse um pouquinho mais ela estaria bem melhor nesse filme. Na verdade todo mundo estaria melhor nesse filme se o roteiro ajudasse um pouquinho mais.

Chegamos ao fim, da trilogia, da saga e do texto. O Episódio IX não só encerra a sua própria trilogia, ele encerra uma saga inteira. Se a Disney estiver falando a verdade, não vai ter mais nenhum Skywalker dando pinta de Jedi nos futuros filmes da franquia. Não se sabe bem o que vai acontecer com Star Wars além das séries prometidas pro serviço de streaming da Disney e das datas marcadas a partir de 2022 para novos filmes. Parece muito tempo, mas se levarmos em conta que o tempo entre trilogias nunca foi inferior a dez anos, dá pra dizer que a gente não vai esperar tanto assim.

 

Em 2019 Teve: Homem-Aranha No Aranhaverso

No longínquo ano de 2017 eu publiquei por aqui um texto apresentando aos meus caros leitores Miles Morales, também conhecido como o Homem-Aranha que vale pra mim. Na época eu estava soltando meus fogos com a possibilidade de uma aparição do meu querido Miles no cinema, mas eis que em 2018 (2019 para os habitantes de Terra Brasilis) eu vi realizado na tela do cinema o meu sonho:

Logo no início do filme o Homem-Aranha que a gente conhece, Peter Parker, falece precocemente e passa o bastão pra um Miles Morales recém mordido por uma aranha radioativa. Mas Miles não está sozinho nessa, um Peter Parker de um universo alternativo e pessoas aranha de diferentes realidades se juntam a ele para impedir o colapso de todo o multiverso.

De maneira geral Homem-Aranha no Aranhaverso não só acerta em muitas coisas, como na caracterização dos personagens, na estética e nas homenagens, mas o filme em si é um grande acerto dada a atual conjuntura dos fatos. Ao contrário do que pode parecer, fazer um filme do Homem-Aranha hoje em dia não é a tarefa mais fácil do mundo: atualmente estamos com a terceira encarnação do Homem-Aranha no cinema, queda de braço entre a Sony e a Marvel sobre o uso do personagem e fãs cheios de expectativa. Então vemos aí o trunfo maior dessa decisão: fazer um filme de animação pra driblar todos esses problemas.

Um filme de animação. Em uma animação ninguém ligaria muito para a cara, ou a voz, dos atores que interpretam os personagens ou encheria o saco pra manter a cronologia dos filmes da Marvel . Além disso era uma oportunidade única de apresentar pro grande público dois dos personagens mais populares dos quadrinhos: Miles Morales e Gwen Aranha.

Quem acompanha minimamente o mercado de quadrinhos de super-heróis sabe que Miles e essa nova versão de Gwen Stacy tomou de assalto o coração de muitos fãs. Os mesmos fãs que sabiam que muita água teria que rolar antes de qualquer um desses dois dar o ar da graça nos filmes da Marvel Studios. Gwen e Miles não teriam outra chance dessas tão cedo. Dito isso, voltamos para o filme.

Aranhaverso é um filme sobre crescimento, a descoberta de uma nova identidade e o que te faz ser o que você é. Ao longo da história não vemos Miles aprendendo a ser muito mais do que apenas um herói. Essa é a história de um garoto aprendendo a ser um Homem-Aranha. Em tempos de caracterizações equivocadas e adaptações que problemáticas temos um filme com seis, eu disse SEIS pessoas aranha na tela (sete se você contar o Homaranha que vai pra vala logo no início do filme), todos com suas próprias personalidades, estéticas e peculiaridades, mas em todos eles é fácil reconhecer o que faz um Homem-Aranha ser um Homem-Aranha.

Apesar de não parecer, o Homem-Aranha é um personagem trágico. Apesar de não ser nascido da tragédia como o Batman e outros similares, o Teioso é marcado pelas tragédias que apareceram no caminho. A perda é algo tão inerente ao personagem quanto a teia ou os poderes aracnídeos, e é justamente a perda que coloca o Homaranha no caminho do heroísmo. E não importa quantas vezes ele é jogado no não, o Homem-Aranha sempre se levanta. Todos eles sempre se levantam. Se tornar um Homem-Aranha é, acima de qualquer coisa, aprender a levantar quantas vezes for preciso.

Aranhaverso foi uma grata surpresa. Arrebatou o coração de muita gente e ganhou um monte de prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Filme de Animação, e teve resultados bons o suficiente pra garantir uma continuação, que chega em 2022. Por fim dá pra dizer que o futuro de Miles Morales no cinema parece bastante promissor, seja nesse ou em qualquer outro universo.

Contos de Segunda #94

O título desse conto é Coração Apodrecido e foi originalmente escrito para uma seleção de uma coletânea. Como ele não foi selecionado e a semana do dia 31 de outubro é uma época boa pra lançar histórias meio macabras, resolvi tirar a poeira desse texto, terminei a revisão e o resultado você pode conferir aqui embaixo.

 

— Está frio demais — reclamou um guarda.

— Aqui é sempre frio — respondeu outro. Apesar da resposta ríspida, o frio anormal daquela noite não passara despercebido.

A dupla de sentinelas vigiava as bordas da floresta do alto dos muros do castelo do duque. Não que a floresta fosse uma fonte frequente de ameaças, em dias normais os guardas designados para vigiar suas bordas aceitavam tal tarefa com satisfação… Mas aquele não era um dia normal.

— Não, não é… Bem… É, mas não desse jeito… Ficou frio assim depois que a fera apareceu. A cada dia sinto mais frio.

— Fera?

— Sim… Faz alguns dias que um caçador desapareceu na floresta. Quando procuraram por ele as únicas coisas encontradas foram as carcaças dos seus cães… Costelas escancaradas e entranhas expostas.

— Que tipo de animal faria isso?

— Um que não come carne… pelo que dizem os cães estavam secos, as vísceras estavam pálidas… Como não houvesse uma gota de sangue sequer.

— Esses caçadores parecem mais viver de inventar histórias do que da caça.

— Foi o que falei quando me contaram, só que… Um fazendeiro estava ouvindo a conversa… Três dias atrás ele acordou com o barulho dos animais assustados e o som de madeira se partindo… As vacas e os cavalos haviam derrubado as portas do celeiro e corriam enlouquecidos pelo campo… Os porcos não tiveram a mesma sorte… Carcaças escancaradas, tripas reviradas e secos de sangue.

Silêncio.

Os minutos se arrastaram até que um deles tivesse algo para dizer.

— Estás ouvindo?

— Ouvindo o quê?

— Nada… Não ouço nada… Nem aquela coruja maldita que fica piando sem parar.

— Estou dizendo, homem, é o frio. Está frio demais até para os animais… Deve ser por isso que há tantas velas acesas na capela.

— Velas? — O guarda olhou por cima do ombro. — Não há luz alguma vindo da capela.

— Então de onde vem esse cheiro? É como se centenas de velas estivessem queimando aqui perto…

— Deve ser imaginação. Pare de falar e fique de olho naqueles arbustos… Parece que tem alguma lá.

— Humm… Não tem nada daquele lado… Tem certeza que viu alg…

Subitamente um vento gelado passou pela muralha distraindo o guarda.

— Sentiu esse vento? — Disse  ele se virando para a o companheiro. — Foi como se alguma coisa grande passasse por aqui…

As palavras morreram na garganta.

Congelado de pavor o pobre guarda não pôde fazer nada além de contemplar a cena. Seu companheiro jazia sem cabeça no chão. O uniforme rasgado exibia as costelas recém abertas. As entranhas se esparramavam pelo chão… Enquanto a fera bebia-lhe o sangue.

O líquido vermelho, sorvido com urgência, escorria pelos cantos da boca do monstro. As garras abriam o pescoço para facilitar o trabalho enquanto os olhos profundamente negros vigiavam fixos no outro guarda. O soldado  tentou alcançar a corneta de chifre que estava pendurada no cinto, não conseguiu. Alguma força parecia impedir o movimento. Pensou em gritar por ajuda, ou pelo menos alertar os demais. A boca não se mexia, o ar parecia retido nos pulmões. Paralisado e apavorado, o guarda não pôde fazer nada além de amaldiçoar a fera que se banqueteava na sua frente.

“Maldita seja, besta dos infernos”, pensou ele. Talvez se ele pudesse desviar os olhos do negrume hediondo do olhar da besta tivesse uma chance, mas nem seus olhos pareciam obedecer. Quase exaurido, ele desiste de resistir. Não devia haver muito mais sangue para ser sugado, em breve ele seria um corpo inerte no chão.

A besta piscou.

Por um segundo seus braços estavam livres. A mão escorregou para a corneta.

Os olhos do monstro se abriram focando por um instante na carcaça retalhada no chão.

Foi o suficiente.

Com toda a força do seu peito recém saído da paralisia, o guarda soprou a corneta o mais alto que pôde. A besta saltou um metro para trás e se colocou em posição defensiva. Dentes arreganhados, pernas flexionadas, pronto para fugir ou revidar.

— A FERA ESTÁ AQUI!!! — Berrou o vigia em total desespero antes de soprar mais uma vez a corneta.

Ele ouviu outra corneta tocando em resposta. O castelo estava em alerta. O dever da sentinela fora cumprido. Um sorriso sutil de contentamento apareceu nos lábios ainda encostados na corneta… Depois não havia mais nada

Silêncio.

Escuridão.

***

— A fera está no castelo, meu senhor — sussurrou o jovem escudeiro para o comandante da guarda.

Cristovão estava ajoelhado fazendo suas preces. A espada diante dele fazia as vezes de cruz. Ao ouvir as notícias fez o sinal da cruz, abriu os olhos e se pôs de pé. Os joelhos rangeram sob o peso da idade e os músculos tensos reclamaram das horas passadas em oração.

— Alguma resposta da igreja? — Perguntou ele.

— O bispo mandou uma mensagem — respondeu o escudeiro tirando uma carta do bolso. — A ajuda chegará de manhã.

“Amanhã será tarde”, pensou Cristovão.

— E onde está a fera?

— Na biblioteca, senhor.

— Afugentaram a fera até lá?

— Os homens não conseguiram afugentar a fera… Mal conseguiram se aproximar. Ela entrou na biblioteca e aproveitamos a chance… As portas estão cerradas.

A biblioteca do duque era famosa em todo o reino. Ocupava uma ala própria separada do castelo, para melhor atender aos visitantes. Graças a isso era bem provável que a fera realmente estivesse presa lá dentro.

— Vá na frente, rapaz — disse o comandante. — Avise aos homens para prepararem escudos e lanças.

— Para quê, senhor?

— Para empurrar a fera de volta caso tente sair quando abrirem a porta.

— Por qual razão abririam a porta?

— Para que eu entre.

— Mas, meu senhor…

— Não quero precisar repetir a ordem.

O escudeiro se calou e saiu sem falar mais nada. Cristovão foi até seu velho baú, procurou por uma antiga bolsa de couro e dela tirou três pequenos frascos de água benta e um pequeno artefato de pedra preso a uma corrente de prata. Afivelou o cinto, embainhou a espada e uma faca longa.

— Deus Todo-Poderoso — repetia ele em voz baixa enquanto caminhava até a biblioteca. — Dá firmeza às minhas mãos… Dá firmeza ao meu coração… Dá firmeza à minha fé.

Os homens estavam prontos quando ele chegou. Oito deles carregavam escudos largos, mais dez usavam lanças longas e dois estavam posicionados para abrir a porta. Todos eles estavam pálidos de terror.

— Em formação, homens — ordenou Cristovão.

Os que carregavam escudos se colocaram lado a lado, formando uma parede por trás do comandante, com os homens de lança logo depois deles.

— Essas portas não devem ser abertas antes dos homens da igreja chegarem — continuou ele.

— Deus te proteja, meu senhor — disse um deles.

— A todos nós, filho… A todos nós.

A porta foi aberta vagarosamente. O cheiro de centenas de velas sendo queimadas saiu do recinto quase como um suspiro, “o cheiro do outro lado”, pensou Cristovão. Lá dentro tudo era breu. Um som baixo e constante de algo inumano chegavam de longe aos ouvidos do velho, aparentemente os homens da sua pequena parede de escudos não precisariam enfrentar a criatura. Passos firmes levaram Cristovão para dentro. Nas histórias contadas sobre este dia dizem que o comandante adentrou na biblioteca com uma expressão feroz e corajosa de um anjo vingador, mas ele só tentou passar tranquilidade aos seus homens. Eles não precisavam de mais motivos para ficar com medo.

A porta se fechou com força. O som das trancas veio logo depois. Os olhos logo se acostumaram à escuridão. O som continuava. Ouvindo com atenção parecia que algo estava sendo vagarosamente regurgitado.

Uma luz.

O brilho parco de uma chama se acendeu ao longe. Cristovão sacou a espada e começou a andar na direção da claridade.

A luz aumentou.

Com mais alguns passos Cristovão pôde ver com clareza a cena hedionda.

— Deus Todo-Poderoso… — disse ele boquiaberto.

Diante do comandante estava a fera. Com as garras ela tirava da garganta pedaços compridos de alguma espécie de cera, a cor era vermelha como sangue coagulado. A cera semi rígida era colocada na borda de uma tina de pedra que servia como braseiro, e um pavio imperceptível se acendia. Pelo menos uma dúzia dessas velas vermelhas queimava, a cera liquefeita pelas chamas escorria para dentro da tina. Presa na parede estava a cabeça de uma mulher presa pelos cabelos ao suporte de uma lanterna. Ele não precisava olhar para dentro da tina para saber o conteúdo.

— O coração apodrecido… Banhado pelo sangue de muitas velas… Aquecido pela chama da ira e pelo calor do ódio… — Recitou Cristovão.

— Voltará a bater como outrora… — Continuou a voz de uma mulher. — Dentro de um corpo de sangue e sombra… Para uma nova vida de morte… Para um novo mundo de trevas… Para finalmente reinar.

Cristovão olhava fixamente para a cabeça pendurada na parede. Seus olhos o desafiavam com um sorriso. A expressão dela era a de quem se reencontrava com um antigo amante.

— Pelo que vejo… Os anos não foram gentis contigo, cavaleiro — disse ela.

— Talvez eles tenham sido os únicos gentis contigo… Bruxa.

— Que palavras duras são essas? — Questionou em uma mágoa claramente fingida. — Em outros tempos me receberias tão bem…

— Quieta!

A fera havia terminado seu trabalho e observava atenta o visitante indesejado. As velas choravam copiosamente suas lágrimas escarlates sobre o coração apodrecido.

A cabeça abriu um sorriso.

— Vejo que estás usando o símbolo da tua ordem.

Cristovão segurou o pedaço de pedra pendurado em seu pescoço.

— Cavaleiros expulsos têm tal direito?

— Quieta, bruxa — rosnou o comandante.

— Tão desnecessariamente rude… Quem sabe se meu querido criado amaciar tua carne nossa conversa possa ser mais… Digamos, civilizada.

Cristovão correu. Se embrenhou no labirinto de estantes e só parou quando estava longe da luz das velas. Respiração pesada, costas coladas na parede e todos os sentidos alertas.

— Creio que tenha gostado da minha doce criatura — debochou a bruxa. — Não tinha muito o que fazer no buraco onde me deixaste para apodrecer. Então passei dias sem conta amaldiçoando a ti e à tua preciosa ordem.

As garras do monstro surgiram na escuridão. Mesmo os reflexos de um velho guerreiro foram suficientes para livrar Cristovão do primeiro ataque. Agora os dois estavam frente a frente, ambos esperando a oportunidade de atacar.

— Depois que ele nasceu foi nutrido com as mais belas promessas de massacre, tortura e mutilação em todas as noite de lua nova durante dez anos… Só então saí daquele buraco.

A besta saltou sobre Cristovão. As presas amarelas prontas para arrancar-lhe a garganta. Ele desviou por baixo do salto e acertou um golpe logo abaixo das costelas da criatura. Apoiado nas patas dianteiras, o monstro o acertou com um chute, derrubando-o no chão.

— É inútil resistir, cavaleiro, mas não te preocupes….

Antes que o comandante pudesse se levantar, as garras do monstro se cravaram em sua perna e o arrastarram para mais perto da boca preparada para o bote. As presas miraram o pescoço, mas foram detidas  pela lâmina da espada. A besta forçava seu peso sobre Cristovão e tentava freneticamente morder seu rosto. A prata que revestia a lâmina começou a queimar a boca do monstro, que desistiu quando a dor se tornou insuportável se afastando. Se aproveitando da abertura, o velho comandante acertou um pontapé no queixo do monstro. A dor das queimaduras e a surpresa do golpe foram suficientes para criar uma brecha. Cristovão pôs-se de pé e mais uma vez se perdeu no labirinto das estantes.

— … Deixarei tua cabeça intacta. Te carregarei comigo por onde for e exibirei  a todos a tua face pálida em meu estandarte, mas não penses que tua morte te poupará da vergonha — riu a bruxa.

Cristovão examinava compulsivamente os arredores, atento a qualquer som ou movimento. O ferimento da perna queimava, os músculos se enrijeciam em uma contração dolorosa. “Veneno”, pensou ele. Sacou um dos frascos de água benta, arrancou a rolha com os dentes e derramou um pouco do líquido abençoado sobre o ferimento. A água fervia e chiava em contato com as chagas contaminadas, a dor fez a cabeça rodar. Com as feridas cauterizadas e os músculos voltando ao normal, Cristovão podia mais uma vez se concentrar em seu adversário.

O cheiro da carne queimada misturado ao odor de muitas velas anunciavam a aproximação da besta. Ela se aproximou cautelosa, apesar de ser impossível saber onde aqueles olhos estavam fixos, não seria errado imaginar que ela fitava a espada. As narinas estavam dilatadas diante do cheiro da água benta.

— Contarei infinitas vezes, para quem quiser ouvir, a história do guerreiro santo que se dizia Espada do Pai Todo-Poderoso, defensor da fé e das sagradas doutrinas… Que foi expulso de sua ordem depois de se tornar uma só carne com uma bruxa…

Em um ataque cauteloso a fera lançou suas garras sobre Cristovão, dois golpes rápidos que erraram por pouco. Em resposta o comandante arremessou o frasco que estava em sua mão. O vidro fino se espatifou na cara do monstro, o líquido começou a corroer a carne. Um urro bestial de dor encheu a biblioteca, enquanto seu inimigo convulcionava de dor, Cristovão correu mais uma vez. A luz das velas estava próxima.

— … De como a vergonha e a ira o fizeram cortar fora a cabeça da antes amada mulher. Ele precisava queimar o corpo inteiro, mas onde estava a cabeça? Perdida sob o tronco oco de uma árvore morta, protegida pelas trevas que a bruxa carregava em suas palavras. Um ritual malfeito, as chamas não consumiram o coração… Contarei de sua fuga para uma parte distante do reino e de como as décadas se passaram sem diminuir o tamanho da vergonha que ele sentia e de como ele virou um escravo da mulher por ele assassinada…

A fera bufava de fúria, urrava por sangue. As garras se afiavam no piso de pedra. O coração de Cristovão martelava no peito. Era impossível interromper o ritual sem se livrar do monstro… Mas a bruxa ainda não possuía um corpo, estava indefesa. Ele precisava correr.

— … Afinal, somos uma só carne, Cristovão. Quando apodreci meu coração fui amaldiçoada com uma vida sem morte… E teu coração está tão podre quanto o meu.

O velho guerreiro disparou na direção da bruxa. O coração pulsava com força no fundo da tina de pedra, as velas estavam quase no fim. A espada foi erguida, pronta para perfurar o órgão maldito, o golpe desceu com força… Mas algo deteve a lâmina. Uma mão vermelha surgiu em meio ao sangue. Os dedos agarravam com força a lâmina da espada, o sangue fervia em contato com a prata que revestia a arma. Outra mão surgiu para segurar a lâmina. Dois braços e um tronco feminino se ergueram do sangue. Horrorizado Cristovão deu um salto para trás. O corpo sem cabeça saiu por completo da poça de sangue. Sua cor era a mesma das velas, gotas vermelhas escorriam por ele e pingavam no chão.

— Um belo corpo, não achas? — Provocou a bruxa. — Creio que gostarás tanto deste quanto do antigo.

Dor.

Dois golpes acertaram ao mesmo tempo o guerreiro desprevenido. Do lado direito as garras se cravaram nas costelas. Do lado esquerdo elas se cravaram no abdome. O sangue caiu em cascata ao chegar a boca.  A bruxa riu. A besta puxou suas garras e se afastou, aguardando novas ordens, olhava com facínio o corpo recém saído do sangue. Cristovão caiu de joelhos. O corpo caminhou até ele, envolveu-lhe o queixo com os dedos pegajosos e ergueu seu rosto para que a bruxa pudesse olhar diretamente em seus olhos.

— Esse não é o fim, meu querido — disse ela sorrindo.

A mão de Cristovão moveu-se vagarosamente para a faca presa no cinto.

— Pense nisso como o casamento que não tivemos… Estaremos sempre juntos.

A faca escorregou para fora da bainha.

— Sim… Sempre juntos — disse Cristovão com a respiração falhando.

Agora as duas mãos seguravam a faca, prontas para o golpe fatal.

— Nos vemos no inferno… Meu amor.

A faca penetrou por baixo do esterno até o coração. A lâmina de prata fez a carne apodrecida do coração de Cristovão ferver. O corpo recém criado começou a derreter, a face da bruxa se contorcia de ódio e dor, a boca proferia uma infinidade de maldições. Mas o velho comandante não ouviu nenhuma delas. Seus sentidos desvaneceram enquanto o corpo tombava no chão. Um sorriso discreto brotou em seus lábios. Finalmente a ligação com sua antiga amada estava desfeita… Finalmente ele estaria em paz.

Acabou Game of Thrones

Finalmente terminou. No dia 19 de Maio do ano de Nosso Senhor de 2019 chega ao fim a oitava e a última temporada da série de fantasia de maior sucesso da história recente da humanidade. Há exatos dez dias foi ao ar o último episódio de Game of Thrones.

Depois de quase dois anos de espera, o público estava ensandecido com a promessa de finalmente poder assistir o empolgante final de Game of Thrones. Teorias mil estavam sendo discutidas, apostas na lista de defuntos da temporada foram feitas e só seis episódios de oitenta minutos (mais ou menos) pra resolver toda essa história… Acho que alguns problemas que rolaram já estavam anunciados.

Se você, querida pessoa leitora, não assistiu e ainda pretende assistir aos episódios finais, recomendo que salve a presente publicação e leia depois. Vão rolar uns spoilers meio pesados.

Eu passei muito tempo sem ver Game of Thrones. Pulei, literalmente, quatro temporadas. Esse ano calhou da namorada começar a assistir e acabei vendo uns episódios de uma temporada ou outra e assisti à penúltima temporada. Inclusive as minhas expectativas não estavam lá muito altas, já que a última temporada não foi aquele primor, principalmente porque metade dos diálogos terminava com Daenerys pedindo pra alguém dobrar o joelho.


Também tinha gente falando sobre a galera dobrando o joelho pra ela, o que aconteceu com a galera que não dobrou o joelho, o que ia acontecer com quem ainda não tinha escolhido e essas coisas. Pra completar João das Neves passou a temporada inteira tentando convencer todo mundo que a disputa pelo trono não importava e que todo mundo tinha mais que se preparar pra segurar o apocalipse zumbi que estava vindo de além da muralha… Como desgraça pouca é bobagem, a temporada encerrou com um dos piores romances de todos os tempos.

    Aí pulamos pra 2019 e começa a oitava temporada. Os três primeiros episódios ficaram pra resolver a treta com o Rei da Noite e os zumbis refrigerados, os outros três seriam pra finalizar a disputa pelo trono de ferro e fechar a série. A parada começou até bem, vários encontros e reencontros, nostalgia dos personagens, Brienne virando cavaleiro/cavaleira e essas coisas. Aí entra na parte meio fraca dessa temporada: os episódios de batalha. Os episódios 03 e 05 foram episódios com batalhas que tiveram alguns momentos legais, mas que no geral foram meio monótonos. Só que até aí tava tudo mais ou menos ok, mas eles inventaram que Daenerys tinha que ficar muito pistola.


Deram motivos pra ela ficar assim? Sim. Deram uma exagerada no quanto ela ficou possessa de ódio? Pra caramba. Isso coincidiu com a ideia genial que tiveram de descaracterizar metade dos personagens e tudo ficou um belo de um pedaço de cocô. Depois de um episódio inteiro de destruição gratuita e de gente sendo queimada chegamos ao episódio final. que foi meio…

Obviamente eles precisaram consertar algumas das cagadas que eles fizeram no episódio anterior, mas ainda assim o episódio final tem algumas das cenas mais bonitas e mais simbólicas da série inteira. A minha preferida é a cena que tem um dragão derretendo o Trono de Ferro.

Aí eles resolvem lá as coisas, Jão das Neves passa a faca em Daenerys (antes do dragão derreter o Trono), o movimento republicano de Westeros nasce e morre em cinco segundos, os nobres que conseguiram chegar vivos até aqui escolhem um rei novo, rola aquele final que só faltou casamento pra ser final de novela e vida que segue nos Sete Seis Reinos. Mas foi só lá que acabou mesmo, porque na internet o barulho tava só começando. Até agora tem uma galera grande que tá revoltadíssima com esse final meio qualquer coisa que a série teve. Teve gente que fez abaixo assinado pra refazerem a última temporada usando os livros que vão sair como base, teve gente pedindo pra deixarem os autores da série longe de qualquer produto audiovisual, principalmente porque eles estão confirmados nas próxima trilogia de Star Wars, e tem gente que só tá xingando sem parar mesmo.

Independente do caminho ou da situação, chegamos ao fim de Game of Thrones. Dá pra dizer sem exagero que é o fim de uma era na cultura pop. Faz quase dez anos que essa série existe, faz quase dez anos que ela gera comoção e alimenta a cultura do spoiler. Pela primeira vez em quase dez anos as pessoas não estarão esperando por Game of Thrones. Pela próxima notícia, pelo próximo episódio ou pela próxima temporada. Acabou. Nos despedimos dos rostos que aprendemos a chamar por nomes fictícios e damos por encerrado as suas histórias. Não sabemos quanto tempo vai demorar pra aparecer outra série que durante tanto tempo gere esse tanto de comoção. Também não sei se é certo esperar pelo próximo Game of Thrones, procurar um substituto e usar a série como base pra comparar tudo. Basta saber que acabou, não vai ter nada mais pra frente, mas o que aconteceu pra trás permanece. O inverno ainda está chegando, um Lannister ainda paga suas dívidas, os dragões ainda cospem fogo ao ouvir Dracarys e Jon Snow continua sem saber de nada.

 

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