Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Mês: janeiro 2016 (Página 1 de 2)

Muito Mais Música

    Logo no começo do ano da Graça de 2016 eu estava de bobeira nas internets e me deparei com uma postagem bem interessante. A postagem em questão saiu em um site de cultura pop que eu costumo frequentar, nela são apresentadas sete resoluções de ano novo que podem ser adotadas por qualquer pessoa. Entre resoluções sérias e outras nem tanto, estava uma que eu considerei deveras relevante para a vida prática de qualquer ser humano. O número 2 da lista de resoluções para 2016, segundo essa lista, é “Ouvir Muito Mais Música”.

    Ouvir música atualmente dá muito menos trabalho do que já deu um dia. Praticamente todos os celulares de hoje em dia reproduzem música, inclusive os fones de ouvido costumam vir junto com o aparelho. De todas as mídias que migraram pro digital, a música foi a que melhor conseguiu fazer essa transição, eliminando totalmente a necessidade de mídia física. Mas por que será que ainda consumimos música de um jeito, em boa parte do tempo, preguiçoso?

Na lista o autor não critica gêneros ou estilos específicos. A crítica é contra o igual, o padronizado.Existe muita coisa por aí pra ser ouvida, e principalmente pra ser gostada. Graças a essa maravilha chamada internet, tecnologia que veio pra ficar, qualquer um pode gravar uma música e jogar no mundo pra todo mundo ouvir. Coisas antigas antes de difícil acesso, agora estão a dois cliques de distância. E ainda assim continuamos ouvindo as mesmas coisas de sempre. Não que seja culpa nossa, fazemos inconscientemente.  Quase sempre escutamos o que nos é familiar. Muitos dos artistas novos que experimentando são apenas variantes daquilo que já conhecemos.

O autor da lista desafia todos nós a nos tornarmos nossos ouvidos mais curiosos. Ouvir um artista relacionado, procurar a versão original de um cover, ir atrás daquele carinha que fez uma participação especial naquela faixa e coisas do tipo, são práticas simples que podem ter resultados surpreendentes. Quando menos esperamos, topamos com algum artista interessante que ninguém ouviu falar, ou damos chance pra um estilo que nunca pensávamos que existia. E tenho certeza que quando isso acontece você se sente como eu. Como se aquilo fosse o primeiro passo para um universo muito maior.

“Essa Treta é Realmente Necessária?”

Semana passada estava eu matando tempo no Facebook e eis que me deparo com um link deveras interessante. O link em questão foi compartilhado por um site de humor, daqueles que faz piadas retardadas e totalmente sem sentido. Como eu gosto muito de piadas retardadas e sem sentido, resolvi abrir o link e ver qual é. A piada retardada em questão não era tão engraçada assim, mas uma coisa me chamou muita atenção. Modificando ligeiramente uma cena clássica do desenho do Pica-Pau para que o display do elevador que o nobre pássaro faz subir (ou descer, não lembro direito como era a cena) em uma velocidade insana mostre no lugar de “Essa Velocidade é Realmente Necessária?” a frase “Essa Treta é Realmente Necessária?”. Ponderando sobre essa frase cheguei à conclusão de que ela é muito mais profunda do que parece.

    Treta. Termo popularizado principalmente nas redes sociais que serve para dar nome à todo tipo de confusão, mas usado com mais frequências nas brigas mais complexas. Nos tempos de hoje as redes sociais estão apinhadas de tretas. Qualquer check in, marcação, compartilhamento, textão, textinho, foto, video ou GIF animado tem um potencial enorme pra gerar uma treta. E onde isso se manifesta com mais violência é na área de comentários. É lá que a batalha campal acontece de verdade, onde seres humanos de todas as idades, profissões, religiões e classes sociais se rendem aos seus instintos mais selvagens e caem em cima dos seus teclados cheios de fúria. Nesse momento até o mais pacato dos cidadãos pode se tornar uma besta descontrolada, desejando beber o sangue daqueles que discordam de suas opiniões. Pode acontecer com qualquer um de nós, ninguém está isento de cair na tentação. Mas antes de nos rendermos aos impulsos selvagens de nosso ser, existe uma simples pergunta que deve ser feita: “Essa Treta é Realmente Necessária?”.

    Pense comigo, querido leitor. Quantas vezes você já se fez essa pergunta? Quantas vezes se meteu em uma treta muito louca que não valeu a pena? Quantas vezes se livrou de uma treta muito louca por que percebeu que não valia a pena ceder aos impulsos selvagens? “Algumas”, “um monte”, “nunca” ou qualquer outra resposta para qualquer uma dessas perguntas serve pra comprovar o que eu estou dizendo. Imagine um mundo em que somente as tretas necessárias acontecessem. Imagine um mundo onde as pessoas não quisessem se matar por causa de um assunto irrelevante. Esse mundo maravilhoso onde as discussões triviais são respeitosas, civilizadas, ponderadas e moderadas é possível. Basta fazer essa pergunta sempre que o sangue ferver e as palavras furiosas subirem pela garganta ou quiserem sair pela ponta dos dedos. Da próxima vez que o desejo da treta bater, faça a pergunta. Pare um pouco, respire, conte até três e pense “Essa Treta é Realmente Necessária?”. A quantidade de vezes em que a resposta será “Não” vai te deixar surpreso.

Contos de Segunda #31

— Fernanda, já vou entrar pra fazer meu exame. É o tempo de você chegar aqui.

— Tá certo, mãe. Saio em dez minutos.

Fernanda desligou o telefone, colocou uma calça, pegou as chaves do carro e a bolsa. Era segunda-feira, janeiro. Mês preferido da mãe dela para ir a inúmeros médicos e realizar toda a sorte de exames. Aquele seria o último exame daquela manhã, logo depois as duas almoçariam juntas. Fernanda deixaria a mãe em casa e depois partiria para uma entrevista de emprego. Ela já tinha feito aquilo várias vezes, exceto pela parte da entrevista, o caminho era conhecido e não tinha erro. De fato não teve, mas nem sempre as coisas são tão fáceis.

Depois de entrar no carro a moça conectou o celular ao aparelho de som, escolheu uma playlist e partiu. Desceu a rua, virou uma esquina e caiu dentro do maior engarrafamento da sua vida até então. A rua estava passando por obras. Obras que tinham começado naquela manhã e que pegaram muitos motoristas de surpresa, inclusive Fernanda. A possibilidade de engatar a ré foi eliminada pelos oito carros parados atrás dela. Não tinha muito o que fazer além de continuar ouvindo música e andar a meio quilômetro por hora. O trecho até o ponto em obras era curto, não seria tanto transtorno. Foi quando começaram a buzinar.

Fernanda tinha um problema sério com buzinas. Bastava uma buzina para o pavio curto da moça ficar muito menor. Principalmente quando a primeira buzina era apenas o inicio de um verdadeiro coro. Quando a terceira buzina se juntou à sinfonia, Fernanda já apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos já estavam ficando brancos. Ela aumentou o volume da música, mas do nada o celular desconectou. Depois de cinco tentativas ela resolveu ouvir rádio. Só que naquela rua, por algum motivo desconhecido, praticamente todas as estações ficavam fora do ar. Problema que normalmente não incomodava, já que passar por ali nunca demorava. Ela teve que se conformar em escutar o debate com um ateu, um deputado, uma freira, o comandante da polícia militar e um cara que tem um vlog de sucesso no YouTube. O debate já estava ruim o suficiente quando o ar condicionado parou de funcionar.

Quarenta minutos depois Fernanda conseguiu passar pelo trecho de obras. Com raiva, suada, sem paciência e com uma vontade incontrolável de meter a mão nas fuças de um certo carinha do YouTube que conseguiu irritar muito mais do que as buzinas.

— Que demora foi essa, Fernanda? Tô esperando tem vinte minutos. Veio com os vidros abertos nesse calor?

— Mãe, vem logo que eu preciso fazer uma coisa antes da gente almoçar.

— Não me apresse que você sabe como é ruim entrar nesse seu carro. Quem é que tá falando no rádio? Ah, é aquele menino da internet. Eu adoro os vídeos dele, é tão engraçado, né?

Fernanda não respondeu. Ela teve que deixar a mãe em casa, aparentemente ela tinha perdido a fome. Provavelmente a “coisa” que precisava ser feita antes do almoço foi um choque muito grande. Naquela tarde os jornais noticiaram o triste acidente sofrido por um jovem de sucesso no YouTube. Ele foi atropelado quando atravessava a rua saindo de uma rádio. O motorista não pôde ser identificado e não conseguiram anotar a placa do veículo.

Hora Certa

    Creio que todos saibam que antes de escrever o sujeito metido a brincar com as letras era um simples leitor. Não que deixe de ser depois que inventa de escrever, mas isso é conversa pra outra hora. Enfim, completemos o raciocínio. Como todo leitor eu tenho um péssimo hábito: Comprar mais livros do que eu posso ler.

 Leitores são como as formigas da fábula famosa: gostam de garantir sua sobrevivência durante o inverno. E como já dizia aquele Stark que não é o Homem de Ferro “O Inverno está chegando”. E ele chega, pode crer que chega. E, assim como as formigas, os leitores começam seus trabalhos com antecedência, sem pressa, movidos pelo medo da escassez. A fobia de olhar pra uma estante repleta de livros que já foram lidos.

Pode parecer besteira, pode soar parcial ou redundante, mas eu concordo com a atitude desses seres que permeiam entre a ganância e a precaução. Antes que você, caro leitor, ache que eu estou justificando meus próprios maus costumes deixe-me concluir.

Todos nós precisamos de um tomo ainda não lido em nossas prateleiras. A própria perspectiva de uma novidade ao alcance de nossos dedos nos enche de esperança em um amanhã melhor. Ao nos relembrarmos constantemente de que ainda não lemos aquele livro que já fez aniversário exercitamos nossos instintos de zelo e responsabilidade. Mas acima de tudo, quando chegar a hora certa eles serão lidos.

É certo que por causa da escola acabamos lendo um monte de coisa imprópria para a nossa idade. Mas não é disso que eu falo. Livros são que nem músicas. Faz muito mais efeito quando lidos na hora certa. E, dependendo do momento, podem deixar de ser um simples entretenimento e se tornar uma parte importante da sua vida, da sua formação como pessoa ou simplesmente algo que aquece o coração só de lembrar. Podem nos ajudar em momentos difíceis e depois nos esquecermos deles. Ou então não fazerem sentido algum daqui a 2 meses, dois anos ou mais. Mas isso é depois. Antes disso tem magnetismo inicial, o flerte discreto e a atração irresistível que nos faz abrir páginas inexploradas e mergulhar nas suas profundezas durante um bom tempo. E o durante faz com que todo o antes faça sentido.

A Barba Pode Chegar ao Fim em 2016

    Especialista diz que este pode ser o ano em que a barba chegará ao fim. Foi essa noticia que apareceu essa semana no meu feed do Facebucket. Obviamente o título da matéria me chamou a atenção, por dois motivos simples: eu sou um cara de barba e queria muito saber por qual motivo a barba “chegará ao fim” em 2016.

    A matéria saiu originalmente no The Independent e fala de como a barba está saindo de moda. “Se é só isso, então por que cargas d’água você está falando disso?”, deve ser isso que você, querido leitor, deve estar pensando. Na verdade não tem nada de interessante nisso, a parte legal disso tudo é a forma como o texto foi escrito e as informações que ele se baseou para chegar à conclusão de que em 2016 a barba será derrotada por outras tendências.

    Em entrevista à revista Times britânica, o historiador (sim, historiador) e especialista no assunto (sim, historiador especialista nesse assunto), Alun Whitey, comenta que a queda da barba está prevista desde 2013. Mas apesar das previsões os cabelos da face seguiram resistindo, firmes e fortes até o fatídico ano de 2016, quando novas tendências estão ameaçando os pelos do rosto. Segundo o historiador especialista, nos Estados Unidos já existe um novo ideal que se opõe à barba: o yuccie. Quando essa classe se tornar dominante a era das barbas chegará ao fim. Sinais do fim dos tempos (para as barbas) já podem ser vistos por aí.

    Fico pensando se as coisas realmente acontecessem como foi descrito na matéria. Um estilo é considerado rei, mas aos poucos uma trama política começa a ser tecida. Aos poucos focos de resistência começam a aparecer e as coisas caminham para a mudança no poder. Um novo estilo ascende e derruba um já estabelecido, iniciando um novo reinado da moda. Fico pensando o que aconteceria com aqueles que se negassem a aceitar o novo regime. Seriam considerados subversivos? Criminosos? Sofreriam represálias? Infelizmente o jogo da moda não está nem perto de ser um Game of Thrones, mas agradeço a Deus pela ditadura da moda ser algo que não me obriga a nada. Minha barba sobreviverá ao ano de 2016.

Contos de Segunda #30

A capacidade de se camuflar em qualquer ambiente, força e agilidade aprimoradas, visão telescópica multidirecional e um senso de justiça muito superior ao dos humanos comuns. Foi esse conjunto de habilidades que transformaram um jovem comum no super herói conhecido como Homem Camaleão, defensor feroz da justiça e dos mais fracos.

    Era apenas mais uma segunda-feira em Vila Urbana. E seria mais uma segunda-feira tranquila se não fosse pelo assalto ao maior banco da cidade. A polícia tinha chegado antes dos bandidos terem a chance de fugir. Encurralados como estavam, os bandidos decidiram fazer todos os presentes de refém. As negociações com a polícia estavam tensas, alguns disparos foram feitos e duas pessoas estavam feridas, um refém e um policial. As coisas só pioravam, mas em meio à confusão um ser quase invisível não foi notado. Ninguém percebeu quando os cacos de vidro do chão se moveram por causa de dois pés, nem quando a porta giratória se mexeu por causa de um homem. Um herói. Os dois bandido que vigiavam os reféns foram nocauteados. Depois foi a vez dos outros três que tentavam negociar com a polícia. Em cinco minutos os bandidos estavam algemados e a caminho da delegacia. O Homem Camaleão estava pronto para escapar dos jornalistas quando um homem o abordou.

    — O senhor é o Homem Camaleão, correto? — O homem tinha um pouco mais de quarenta anos, usava camisa social e verificava os itens de uma lista que estava em uma prancheta.

    — Isso mesmo, caro cidadão, em que posso ser útil?

    — O senhor tem autorização para conduzir operações de resgate desse tipo? — Disse o homem com a mesma naturalidade de quem compra o jornal, os olhos fixos na prancheta.

    — Autorização? — Por essa Camaleão não esperava. — Queira me perdoar, cidadão, mas não creio que seja necessário autorização para trazer justiça aos criminosos.

— Claro, filho, todo mundo diz isso. Seu alvará está em dia, senhor Camaleão?

— Al… Vará?

— Imagino que pelo menos o seu cadastro esteja atualizado.

— De qual cadastro o senhor está falando?

O homem respirou fundo. Olhou diretamente para o herói. Estudou aquela cara de confusão total que ele estava fazendo e chegou facilmente a uma conclusão.

— Senhor Camaleão, tenho uma forte impressão de que o senhor não tem a menor ideia de quais são os documentos que eu estou citando.

— Bem… Assim… Eu estou nessa faz pouco tempo… Sabe como é, né?

— Não. Não sei — ele respirou fundo novamente — eu sou só um fiscal da prefeitura tentando fazer o meu trabalho. Não entendo dessas coisas de super heroísmo, e pelo visto o senhor também não. — Ele tirou uma folha de papel da prancheta e entregou ao jovem — Vou te dar um desconto, filho. Apresente esse parecer que eu acabei de fazer junto com os documentos da lista na secretaria de assuntos especiais. Só precisa desse atestado de anomalia genética se seus poderes forem de nascença.

— Isso tudo é realmente necessário?

— Tem ideia de quantos malucos fantasiados existem nessa cidade, filho? Sabe quais deles são os mocinhos e quais são os bandidos? — O fiscal começou a ficar irritado. — Sabe quantos maníacos homicidas se metem com vocês supers todo ano? Sabe a diferença entre a quantidade da burocracia envolvida pra trocar um poste derrubado por um herói e um derrubado por um bandido? Faça um favor a todos dessa cidade, regularize sua situação. Essa cidade merece heróis que agem de acordo com as leis. Tenha um bom dia.

O fiscal girou nos calcanhares e foi embora. O Homem Camaleão observou a lista de documentos. Finalmente estava diante dele um inimigo que ele não conseguiria vencer. Algo muito mais poderoso do que ele. Uma luta para qual ele não estava preparado. A luta contra a burocracia.

Protocolo Chico Bento

Quando eu era pequeno, assim como muitas outras crianças, gostava muito de ler as histórias da Turma da Mônica. Algumas coisas que eu li naquela época estão vivas na minha cabeça até hoje, mas nenhuma outra ficou tão gravada na minha memória quanto uma certa história do Chico Bento. Até porque ela inspirou o título desse texto. Hoje vamos falar de algo comum a todos nós: o Protocolo Chico Bento.

    Mas antes vamos começar pelo começo. Na história em questão nosso querido personagem está apressado. Ele rouba goiaba, nada no ribeirão, namora e faz mais uma série de coisas em uma velocidade digna de Usain Bolt. No último quadrinho a mãe de Chico ao ser questionada sobre a pressa do menino responde: “último dia das férias”.

    Assim como vários outros animais, o ser humano possui alguns procedimentos pré configurados no seu cérebro. Apesar da nossa capacidade de raciocínio, nem todos os nossos instintos foram superados, alguns deles foram adaptados aos tempos modernos, a maioria deles é ligado ao sentimento de urgência. O fim do dia, fim do prazo, fim das férias ou qualquer outro tipo de encerramento tem o potencial para se tornar uma verdadeira bomba de ansiedade gerando alguns comportamentos meio estranhos. No caso do fim das férias o nosso cérebro ativa um protocolo que direciona nossas ações e influencia nosso julgamento. Entra em ação o Protocolo Chico Bento.

    No início das férias é comum listarmos todas as coisas que queremos fazer para “aproveitar bem as férias”. Como boa parte dos seres humanos não lida muito bem com os compromissos que assume consigo mesmo, não é difícil que nada do que foi listado anteriormente seja, nem que minimamente, cumprido. A preguiça, a rotina de vagabundagem, o Netflix, o Steam, os livros comprados na Black Friday do ano anterior e tantas outras coisas acabam nos afastando do nosso propósito inicial, seja ele qual for. Os dias passam e quando nos damos conta as férias já estão no fim. Automaticamente nos lembramos de tudo que deveríamos ter feito, é o gatilho para a ativação do protocolo. Nos tornamos o Chico daquela história. Começamos a ter dias mais cheios, arrumamos compromissos e consumimos conteúdo em um nível de produtividade quase robótico.

Janeiro está exatamente na metade. Logo logo ele chega ao fim, e com ele as férias de muita gente. As minhas vão terminar um pouco antes, apesar de não sentir muito esse ano, o protocolo continua rodando no meu cérebro em segundo plano. Ainda tenho alguns dias, ele ainda pode entrar em ação.

A Odisseia Espacial de David Bowie

No começo dessa semana recebemos a notícia da morte de David Bowie. A primeira coisa que preciso dizer é que eu não sou fã desse nobre falecido, meu conhecimento acerca da obra dele só é maior do que o conhecimento da minha avó sobre The Walking Dead. A segunda é que, apesar de saber praticamente nada sobre a obra do nosso compadre David, tem uma música dele que eu gosto muito. Uma música que eu conheci por um acaso e que conta uma história muito curta, mas tão profunda e impactante que eu não podia deixar de falar sobre ela, principalmente na semana em que o seu compositor partiu dessa pra melhor. Hoje prestarei uma pequena homenagem. Hoje vou falar sobre Space Oddity.

    Eu conheci Space Oddity quase sem querer, em um video de um canal gringo muito simpático chamado Glove and Boots. Nesse video eles fazem uma brincadeira com o astronauta Chris Hadfield, que fez um clipe tocando uma versão de  Space Oddity no espaço antes de retornar para a Terra. Foi a primeira vez que eu ouvi a história de Major Tom, pelo menos um trecho dela já que nas duas versões citadas acima o final da história do Major não é contada. Depois eu escutei a música e soube do fim da história. Foi quando eu me apaixonei por essa música.

    A música narra a viagem de Major Tom ao espaço. No começo só o que ouvimos é a voz do Controle da Missão. As orientações são passadas, a contagem regressiva é iniciada, “vá com Deus” diz o Controle da Missão, a nave decola. Ele consegue, chega ao espaço, a decolagem foi um sucesso. Os jornais vão querer saber até qual camisa Tom usava quando chegou ao espaço. Ele é autorizado a sair da cápsula, se tiver coragem. Pela primeira vez ouvimos a voz do Major Tom, ele sai pela porta, a música chega ao auge, ele começa a flutuar de uma forma muito peculiar, as estrelas que ele observam não se parecem muito com as que ele via na Terra. A música desce, o tom do Major não é mais eufórico, mas sim reflexivo. Sentado em seu pedaço de lata ele se sente impotente, diante do mundo azul. Ele sente como se ainda estivesse no mesmo lugar, apesar de ter viajado tanto. Aparentemente ele não sabe o que fazer, mas aparentemente sua nave sabe onde ir. Ele deixa que ela o leve. Ele manda uma mensagem de despedida para sua esposa. O Controle da Missão perde o contato com o astronauta. Tom continua sua reflexão, dessa vez na órbita da Lua. É o fim da música, mas não exatamente o fim da história.

    Posteriormente Tom aparece em outra música de Bowie. Nela ele é citado como uma espécie de drogado. A própria viagem de Tom narrada em Space Oddity é considerada uma alegoria para o consumo de heroína, mas isso já é outra história. Seja Tom drogado ou não, seja o seu foguete uma seringa cheia de heroína ou não, ainda temos uma história profunda de um homem que viajou para o lugar mais longe que ele conhecia, experimentou coisas que não seriam possíveis para a maioria dos seres humanos e percebeu que no final ele não tinha ido tão longe assim. Talvez ele não tenha voltado justamente por não ter ido para lugar algum.

Contos de Segunda #29

— Jogue a arma pra cá e saia de mãos pra cima, Carmim. Você não tem como fugir.

    Por esse e outros motivos eu não trabalho nas segundas, sempre acontece alguma coisa assim. Ossos do ofício, ou não, a verdade é que nem tudo são flores na vida de um detetive particular.

    Tudo começou naquela manhã. Apesar do dia nublado fazia um calor dos infernos. Eu estava esperando a ligação do meu contato no escritório do juiz, mas quando o telefone tocou uma voz diferente estava do outro lado da linha.

    — Você nunca conseguiu deixar o telefone tocar muito tempo, não é? — A voz feminina do outro lado da linha era mais do que familiar. As silabas lentas e a voz ligeiramente rouca eram inconfundíveis.

    — Só acontece quando você liga, Ângela, costumo ter pressa para arrumar problemas — eu não estava exagerando, ela nunca ligava quando o assunto não era problema. Algum problema dela que acabava virando problema meu.

    — Não seja tão rude comigo, meu querido, eu não ligaria se não estivesse realmente precisando.

    — Estou ouvindo.

    — Mataram meu marido e a polícia está convencida de que fui eu quem fez o serviço — Eu também pensaria assim se fosse a polícia, afinal não é todo dia que um banqueiro morre e deixa como herdeira apenas sua esposa vinte anos mais nova. Principalmente quando essa esposa é Ângela Bevoir.

    — Você não parece muito triste para uma mulher que acabou de perder o marido.

    — Eu estaria bem menos triste se não corresse o risco de ser presa — a voz dela estava mais séria. — Estou desesperada, Carmim, não tenho mais a quem recorrer.

    — O que você precisa que eu faça, Ângela?

    — Preciso que encontre um homem, Humberto Solini, ele estava com meu marido pouco antes do assassinato. Eles trabalhavam juntos no banco e coincidentemente ninguém tem noticias dele desde o ocorrido. Não deve ser problema pra você.

    — A menos que alguém além de mim esteja procurando pelo sujeito.

    — Creio que não haverá qualquer tipo de complicação… Mas devido ao caráter urgente da situação, quanto antes nossa testemunha for localizada melhor.

    Eu já tinha um nome e uma pista. Peguei o meu chapéu, tranquei a porta e desci as escadas. Olhei minha caixa de correio e lá estava uma foto de Ângela, no verso estava escrito:

Você não sabe no que está se metendo, detetive

    De fato eu não sabia, mas estava começando a ficar interessante. Já sabiam que Ângela ia me procurar, e aparentemente não faz muita diferença se eu aceitei ou não ajudá-la. Dessa vez ela deve ter ido longe demais e acabou me levando junto. Eu não tinha ideia no que eu estava me metendo, mas escapar dessas roubadas sempre era bom para os negócios.

Voltar pra Casa

Existem algumas poucas coisas que são comuns a todos. Coisas que mostram que no fundo todo mundo é feito do mesmo material. Que pensa e sente de um jeito muito parecido.

    Um desses sentimentos comuns é aquele que desperta quando você, depois de muito ou de pouco tempo, volta pra casa.

    Muitos já disseram: o lar é onde o coração está. Apesar de não gostar de pensar no coração como alguma coisa além daquilo que ele é de fato, concordo com a afirmação.

Sair de casa é um ato de auto-agressão. Antes que me acusem de instigar a reclusão ou qualquer coisa do gênero, deixem-me explicar. As nossas casas, de maneira geral, são locais onde nos sentimos seguros. Essa segurança vem justamente do fato de conhecermos tudo que existe dentro dela. Desde o rangido que a porta faz até a parte do sofá que é mais fofa. Quando saímos somos lançados em um mundo hostil que cada vez mais parece querer devorar as nossas tripas e beber o nosso sangue.

Considerando o ato de sair de casa como uma coisa tão traumática, não é difícil pensar no retorno pra casa como uma benção divina. Gosto de pensar que todos os dias colocamos nossas roupas de mergulho, penduramos o tanque de oxigênio nas costas e mergulhamos no mundo. Quando voltamos no fim do dia, exaustos por tanto lutar com os inimigos que nos espreitam do lado de fora, conseguimos finalmente respirar. Tiramos todo o peso das costas, as roupas de borracha e os pés de pato e nos recuperamos pro dia seguinte.

Mas nem sempre saímos de casa pra matar um leão. As vezes, vezes essas que se tornam mais raras conforme a idade avança, saímos de casa apenas por diversão. Inclusive acredito que só conseguimos nos divertir por saber que temos pra onde voltar. Em algumas dessas vezes saímos de casa por vários dias, e em casos como esse tudo é bem mais forte.

Vamos manter em mente a analogia com o mergulhador. Imagine que ao sair de casa por vários dias você leva oxigênio suficiente pra respirar debaixo d’água até a hora de voltar. O tempo vai passando, e com o passar do tempo você se acostuma a ficar submerso, respirando com máscara e usando uma roupa de borracha. Em um determinado momento começa a pensar que não seria tão ruim continuar no fundo do mar, que poderia passar mais tempo vivendo daquele jeito. Mas chega a hora de voltar, a tristeza que o fim de uma boa viagem traz começa a se misturar com a ansiedade por voltar logo pra um canto conhecido. Assim como um mergulhador que vai se aproximando devagar da superfície, nos aproximamos vagarosamente do nosso destino, e quando finalmente colocamos os pés dentro de casa… Aquilo que sentimos faz todo o tempo fora ter valido a pena. Vale a pena passar um tempo longe, só pra poder se sentir mais feliz quando chegar em casa… É isso.

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