Cachorros de Bikini

Mais ágil que uma velha, mais rápido que um saco de cimento

Contos de Segunda #36

Aluísio tinha uma relação muito particular com a Segunda-feira. Praticamente todas as coisas relevantes da sua vida aconteciam no primeiro dia útil da semana. Em muitas das segundas não acontecia nada, em outras aconteciam coisas demais. Independente do nível de acontecimentos, Aluísio sempre sentia quando algo muito importante aconteceria. Ele estava com essa sensação desde as primeiras horas de 2016. Ano bissexto, com vinte e nove dias em Fevereiro. Vinte e nove, terminando em uma segunda-feira. Da última vez que isso tinha acontecido não foi nada bom pro pobre Aluísio.

O ano era 1988. Aluísio, com seis anos na época, já tinha alguma noção da sua relação com o calendário. Por isso o primeiro dia útil da semana acabou se tornando o seu favorito. Pelo menos até aquela segunda-feira 29 de Fevereiro. Durante um passeio da escola ao Jardim Botânico, o pequeno Aluísio se perdeu. Passou todas as horas da segunda-feira sozinho no meio do mato. Havia grande chance de ocorrer algo tão ruim quanto. Ele podia sentir.

O dia começou bem e tudo parecia normal. Até a mensagem de Amélia, esposa de Aluísio chegar. Ela estava passando mal e estava indo para o hospital. Aluísio pegou um táxi e foi atrás dela. Depois de ouvir a notícia de um protesto no rádio o taxista abandonou Aluísio, que saiu andando na esperança de passar pela área do protesto e pegar outro táxi. Ele teria pego se ao cruzar o protesto não fosse confundido com um famoso sindicalista idolatrado por todos os manifestantes da cidade. Rapidamente a notícia de que o movimentos foi legitimado pela presença de Aluísio correu. A polícia foi acionada e a quantidade de manifestantes aumentou quase duas vezes em meia hora. Depois de muito protestar, Aluísio foi detido pela polícia e colocado dentro de uma viatura. Quando deu no rádio que o verdadeiro sindicalista famoso tinha aparecido na manifestação dizendo que o patronato tinha infiltrado um sósia dele no protesto para dispersar o movimento, os policiais soltaram Aluísio e ofereceram uma carona como forma de remediar o transtorno. Ele prontamente aceitou.

No caminho para o hospital os policiais precisaram parar. Uma casa lotérica estava sendo assaltada. Os bandidos conseguiram fugir na viatura e acabaram levando Aluísio como refém. O celular vibrou, era mensagem da esposa. O aparelho foi sacado do bolso só para ser atirado pela janela da viatura. Apesar do susto, Aluísio estava feliz. A mensagem de Amélia era curta o suficiente para ser lida em um instante.

“Você vai ser papai”.

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Oscar 2016

No próximo domingo, também conhecido como 28 de Fevereiro, acontecerá a cerimônia do Oscar, a maior premiação do cinema deste lado do universo, que junta uma galera de Hollywood pra premiar os melhores filmes, roteiristas, editores, compositores, sonoplastas, maquiadores, figurinistas, atores e diretores do ano de 2015. Como a maioria desses filmes favoritos aos prêmios, que são sucesso de crítica e entram pra história como marcos do cinema, eu normalmente não assisto, eu me limito a torcer por dois tipos de concorrentes: os blockbusters bons e os filmes de animação que concorrem fora da categoria de Melhor Filme de Animação. Além dos motivos regulares, nesse ano eu tenho alguns a mais pra torcer.

Neste ano, representando a categoria Filmes que O Povão Foi Ver temos Star Wars Episódio VII e Mad Max: Estrada da Fúria. Star Wars nunca foi uma franquia que costuma concorrer nas categorias mais nobres do Oscar, mas como sempre está lá figurando nas categorias técnicas: Efeitos Visuais, Edição, Edição de Som e Mixagem de Som.

Ele levaria fácil se não estivesse concorrendo com Mad Max em todas essas categorias, a briga vai ser entre esses dois. Cabe ressaltar que eu não vi nada dos outros concorrentes, mas convenhamos, é Star Wars e Mad Max, se nenhum desses dois ganhar nessas categorias vai ser marmelada. Além das categorias técnicas, nossa querida Guerra Nas Estrelas está obviamente concorrendo ao Oscar de Melhor Trilha Sonora graças ao nosso velho conhecido John Williams. Nessa categoria vamos ver um embate interessante entre nosso bom e velho John e a lenda do faroeste Ennio Morricone, com seu trabalho em Os Oito Odiados. Como eu sou louco por Star Wars e um admirador de faroeste, qualquer um dos dois que ganhar pra mim tá de bom tamanho.

Mas minha torcida desse ano está mesmo com Mad Max. Além das categorias que concorre com Star Wars, nossa querida Estrada da Fúria também está concorrendo aos prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Diretor e Melhor Filme. A dobradinha Melhor Filme e Melhor Diretor não tá muito fácil, cheias de filmes com atuações espetaculares e histórias bem mais trabalhadas do que Mad Max, mas se fosse pra apostar eu apostaria em George Miller levando o prêmio de Melhor Diretor. Melhor Maquiagem e Melhor Figurino também estão entre as categorias que Mad Max tem mais chance. Também não assisti nenhum dos outros filmes que estão concorrendo nessas categorias, mas Mad Max tem a Charlize Theron com uma protese mecânica e com maquiagem de graxa explodindo coisa durante uma perseguição frenética no deserto, não preciso dizer mais nada.

Além dos filmes sempre tem algumas pessoas pra quem eu torço. Esse ano eu estou na torcida pra nosso compadre Leonardo DiCaprio finalmente ganhar um careca dourado. Depois de bater na trave um monte de vezes, o nosso amigo merece ganhar um Oscar pra chamar de seu. Mas minha maior torcida desse ano vai pra Silvester Stallone, que já ganhou o Globo de Ouro e está concorrendo ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela sua atuação em Creed – Nascido Para Lutar, a melhor atuação da vida do Stallone. Vai ser difícil, mas ver Rocky Balboa de volta ao cinema pode mexer com o coração dos membros da Academia.

Na categoria de Filmes Sem Gente de Carne e Osso temos Divertida Mente concorrendo aos prêmios de Melhor Filme de Animação e Melhor Roteiro. Também concorrendo ao prêmio de Melhor Animação temos pela primeira vez um filme brasileiro, O Menino e O Mundo está lá na lista de indicados. Dificilmente ele vai levar a estatueta, mas só de estar lá já vale muito. E pra finalizar temos uma menção honrosa. Lady Gaga está concorrendo junto com Diane Warren ao prêmio de Melhor Canção Original. Não ouvi a música delas e nem a dos concorrentes, mas eu simpatizo com nossa comadre Gaga e sempre é melhor torcer pelo improvável. Afinal quem poderia imaginar que Lady Gaga concorreria ao Oscar algum dia.

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Sobre Ideias E Coisas Guardadas

Ontem estava eu sem ideias sobre o que escrever nesta quarta-feira, por isso acabei lembrando da minha lista de ideias. Em algum momento antes de começar a publicar meus escritos nesse humilde sítio virtual, eu tinha anotado algumas ideias para futuros textos. Acabou que essa lista não serviu pra nada e eu acabei escrevendo sobre tudo menos o que estava nela. Por um grande acaso lá tinha um tema que me pareceu promissor, mas não é sobre ele que escreverei hoje. Hoje o tema é a ideia que eu tive quando lembrei da minha lista de ideias.

    Eu não tenho o costume de jogar as coisas fora. A menos que elas sejam de fato coisas que não valem a pena guardar, provavelmente passarão os anos em algum lugar no fundo da gaveta até que eu os encontre por acaso. Se você, assim como eu, tem essa prática pouco recomendada de acumular todo tipo de tralha e cacareco sabe do que eu estou falando. Principalmente por que a parte boa de juntar todas essas coisas está justamente na magia que cerca esse reencontro casual.

    Encontrar um velho guardado que nem se lembrava mais que existia é quase como ver uma foto antiga de família ou encontrar um velho amigo. Imediatamente sensações de épocas passadas retornam com tudo e somos inundados pela mais pura nostalgia. Logo depois direcionamos todo o nosso carinho para aquela peça do passado recém redescoberta. Obviamente nenhum desses sentimentos nos fez guardar aquilo, só fomos guardando, foi ficando, ficando e ficou. Nós não jogamos fora pra preservar o passado ou eternizar nossas memórias. Não jogamos fora por falta de organização, preguiça, a ilusão de que aquilo vai servir pra alguma coisa algum dia ou então ficamos com tanta pena daquilo estragar que guardamos tão bem, mas tão bem, que acabamos não usando. Mas o mesmo não acontece depois do reencontro.

    Magia define o que acontece nesse momento singular. Se antes guardamos as coisas por um mero acaso, depois que nos reencontramos com elas o motivo é outro. Guardamos com carinho. Carinho recém adquirido pelo amor recém descoberto. Infelizmente o romantismo dessa história acaba quando guardamos as coisas de volta. O espaço que elas ocupam continuará sendo um espaço indisponível. Você vai ter que arrumar mais espaço pras suas tralhas novas e provavelmente vai tender a acumular menos tralhas em função disso… Ou você vai virar um acumulador pra valer e tudo vai ficar ainda pior, mas aí já é outra história.

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Contos de Segunda #35

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Maurício. Se quiser conhecer melhor as aventuras do nosso sobrevivente do fim do mundo basta clicar nos links dos Contos de Segunda #2 e #22.

O mundo acabou e continuou tão ruim quanto antes. De um jeito diferente, mas ainda era ruim. Era isso que Maurício pensava sempre, pelo menos até um dia desses. Ele tinha engolido uma pilha palito radioativa e sofrido uma espécie de mutação. Os olhos se tornaram totalmente verdes e os cabelos pareciam ter se transformado em uma espécie de tentáculos, as unhas ficaram pretas e a pele começou a acumular eletricidade. Ninguém sabia ainda. Nem ele mesmo sabia bem o que estava acontecendo, mas por via das dúvidas decidiu manter o segredo.

Maurício disfarçou a mutação durante um bom tempo. Sempre usando chapéu ou capuz para esconder os cabelos e óculos escuros para esconder os olhos. A parte boa do disfarce é que ele funcionava, a parte ruim é que ele estava vestido igual aos punks saqueadores que apareceram durante a revolta das máquinas, que aconteceu na sexta-feira da semana em que o mundo acabou. Os punks saqueadores não eram vistos desde que as máquinas foram destruídas, mas eles tinham uma rixa antiga com os arruaceiros matadores de zumbis. Os mesmos arruaceiros que Maurício encarava sempre que ia trabalhar. Os arruaceiros estavam cada dia menos propensos a fazer arruaça, mas continuavam odiando mortalmente os punks saqueadores ou qualquer um que parecesse com eles.

Um belo dia ele foi cercado por cinco deles. Eles pareciam muito mal humorados e não quiseram conversar muito. Eles usavam armas simples, barras de ferro, facas e correntes. Foi uma corrente que enroscou no braço de Maurício quando o primeiro arruaceiro atacou. Toda a eletricidade acumulada na pele saiu pela corrente atingindo o pobre atacante com um choque violento. Maurício se sentiu fraco por um instante, mas não teve tempo para se recuperar, os outros arruaceiros atacaram.

Eles pareciam se mover em câmera lenta. Uma brecha no círculo, a rota de fuga perfeita. Maurício já estava fora do alcance dos seus adversários antes que pudesse notar. Agora eles se moviam normalmente, e pareciam muito zangados. Um deles puxou um apito e soprou com força. Vários outros arruaceiros matadores de zumbi começaram a aparecer de todos os lados. Fugir era sua única chance, então ele começou a correr. Foi quando uma arma disparou. A perna foi acertada de raspão, Maurício começou a mancar o mais rápido que pôde. Mais tiros e gritos de vários homens e mulheres que não pareciam nada contentes.

“É o fim”, pensou Maurício, “Sobrevivi aos zumbis, às máquinas, às armas nucleares, aos terremotos, ao fim da internet, e vou ser morto por um bando de arruaceiros”. A perna doía cada vez mais, apesar de mancar numa velocidade pavorosa, os matadores de zumbi estavam se aproximando. “A ponte!”, pensou Maurício. Se ele conseguisse atravessar na tirolesa estaria livre. Suas esperanças foram pelo ralo quando ele viu a quantidade de gente que estava na fila. O cabo da tirolesa estava partido, ninguém poderia atravessar. Os arruaceiros estavam chegando. Não havia muito tempo, não havia saída.

“Que se dane, esse mundo já acabou mesmo”, foi o que Maurício pensou antes de correr até a beirada da grande fenda que antes dos terremotos era um rio. Ele não hesitou. Se jogou de braços abertos. Caiu no abismo. Abraçou a escuridão.

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Dois Minutos de Ódio

Eu nunca li nem assisti 1984. Em um tempo que nem se pensava em coisas como Jogos Vorazes, Divergente, Convergente, Detergente, Vem Com A Gente e outras distopias juvenis, uma galera já escrevia sobre futuros que não tinham dado certo. Um desses caras foi George Orwell, autor de 1984. Apesar de nunca ter lido esse clássico da ficção do século XX, acabei ouvindo um ou outro comentário aqui e ali a cerca da obra. E uma das coisas que mais ficou na minha memória foi justamente o horário que unificava toda uma nação: os Dois Minutos de Ódio.

    Funcionava de uma maneira bem simples. Todos os dias o governo super controlador retratado no livro exibia na casa das pessoas um vídeo mostrando um famoso inimigo do Estado. Durante essa exibição todas as pessoas colocavam pra fora todo o ódio que sentiam. Direcionando esse sentimento destrutivo para um inimigo do Estado e não para o Estado, que era o verdadeiro vilão dessa história. Aí fica a duvida de onde eu quero chegar com esse papo todo. Estava eu pensando outro dia se talvez não fosse bom instituir os Dois Minutos de Ódio.

    Ódio é uma palavra muito feia e normalmente usada de forma precipitada. Um sentimento tão negativo talvez tenha sido experimentado genuinamente em pouquíssimas ocasiões ao longo de nossas vidas. Talvez se somarmos todas as coisas que nos irritam na vida, possamos chegar perto do que é o ódio verdadeiro, e se de fato fizéssemos isso? Se resolvêssemos focar todos os nossos sentimentos negativos em um único ponto? Será que o efeito seria igual ao livro? Esqueceríamos de detestar aquilo que realmente nos faz mal e simplesmente agíssemos como se nada de realmente ruim estivesse nos acontecendo?

    Imagino que instituir esse tipo de extravasor tenha um efeito positivo. Principalmente pelo fato de deixarmos de nos irritar com coisas q não valem a pena, pois todo o nosso ódio estaria direcionado para um único ponto. Quem sabe eu institua algo como Dois Parágrafos de Ódio, só pra descarregar toda a minha raiva sobre alguma coisa. Isso provavelmente ocorreria pouquíssimas vezes… Talvez só depois de ler algo do tipo “Filmes Que Você Vai Querer Ver em 20XX”… Sempre tem uns filmes que me dão uma raiva descomunal, principalmente certos filmes de super herói produzidos pela FOX, mas isso fica pra outra hora. Esse tipo de ódio tem hora pra ser externado… Dois minutos, pra ser mais preciso.

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Sabemos Coisas Terríveis Sobre Nós Mesmos

Outro dia estava eu vagabundeando pelo meu feed do facebook e me deparo com uma publicação deveras interessante. Uma amiga minha estava compartilhando uma página. Segundo a descrição da página, aquele era um lugar que promovia discussões saudáveis de todos os tipos, promovendo o enriquecimento intelectual de todos aqueles dispostos a participar. Como eu não sou um usuário hard de facebook e como meu intelecto fez um voto de pobreza, se negando a ficar rico, acabei atentando para o texto que essa minha amiga utilizou quando compartilhou a página. Entre outras coisas ela dizia “sabemos coisas terríveis sobre nós mesmos”. Isso já foi o suficiente pra deixar minha cabeça em estado de ebulição.

Pode parecer extremamente óbvio, mas somos as pessoas que mais sabem dos nossos próprios podres. Somos as maiores testemunhas dos nossos próprios crimes. Tudo que fazemos é conhecido por pelo menos uma pessoa. Mas esse conceito é bem besta, o que eu quero sugerir é um pequeno exercício mental.

Imagine uma pessoa hipotética, uma pessoa que sabe absolutamente tudo sobre você. Tudo mesmo. Vamos chamá-la de Pessoa A. Pessoa A está conversando sobre você com uma Pessoa B. Pessoa B só faz te elogiar, de um jeito que faz a Pessoa A ficar irritada. Como ela sabe tudo sobre você, decide acabar com a imagem que a Pessoa B tem de você. Então ela solta um podre cabuloso, daqueles que poderiam terminar uma amizade, um namoro, um casamento ou simplesmente fazer você parecer a pessoa mais horrível do mundo. Que podre seria esse?

O que fizemos que pode ser usado em uma fofoca venenosa? O que temos medo que seja descoberto? O que faria com que todo mundo nos visse de forma diferente? Essas perguntas são bem simples de responder. Não importa se você precisa pensar um pouco, se precisa pensar muito ou se tem a resposta na ponta da língua. Não existe uma Pessoa A, mas você sabe exatamente qual a resposta.

A verdade é que sabemos coisas terríveis sobre nós mesmos. Que talvez sejam terríveis só pra nós e mais ninguém. Ou que sabemos que seriam terríveis para outras pessoas. Caso você ainda esteja em dúvida sobre quais coisas terríveis são essas, basta fazer um exercício bem simples: pense em você como se fosse outra pessoa. Talvez isso te renda mais conhecimento do que imagina.

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Contos de Segunda #34

Os fatos narrados a seguir tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

    O celular tocou de novo. Já era a quarta vez. O zumbido baixinho que o aparelho fazia não era suficiente para fazer Roberta acordar. Luciana sabia disso. Também sabia que Ned, o cachorro de Roberta, detestava o som do celular vibrando. Caso o celular passasse muito tempo vibrando, ele ficava com vontade de fazer xixi. Ned só fazia xixi na rua, então nesses momentos de desespero ele pedia ajuda à sua dona. Roberta não pôde negar o pedido do cachorro. Desceu vestindo as roupas de dormir, com uma cara amassada e os olhos ainda se acostumando com a claridade. Na frente do prédio uma moça a esperava encostada em um carro.

    — Até que enfim, faz um tempão que eu tô tentando falar contigo.

    — São cinco e meia da manhã, Luciana — respondeu Roberta. O sono ainda não tinha permitido que o cérebro da moça percebesse cem por cento do absurdo daquele momento.

    — Se você tivesse respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações, nenhuma de nós estaria aqui.

    — Eu só vim trazer Ned pra fazer xixi e… Ei, pera aí — finalmente ela tinha acordado. — Você deixou ele nervoso com a vibração do celular de novo?

    — Você podia ter atendido — disse Luciana de um jeito que pareceu mais um “não teve outro jeito”. — Preciso de ajuda.

    — Luciana, qualquer tipo de ajuda pode esperar até o horário comercial.

    — Que horror, Roberta. Eu aqui precisando e você me trata desse jeito?

    Roberta respirou fundo. Olhou para Ned que alegremente marcava o pneu do carro de Luciana. Olhou para o céu como se procurasse um sinal. Olhou para os próprios pés pra tentar criar coragem.

    — Vai, diz o que é.

    Luciana não conseguiu conter o sorriso.

    — Sabe que dia é hoje?

    — Segunda.

    — Sério, Roberta — disse ela fingindo estar ofendida. — Cristina entra de férias hoje.

    — E daí?

    — E daí que nós temos trinta dias para: número um, descobrir o que rolou com ela e o boy no fim do ano e número dois, ajeitar as coisas pra juntar os dois assim que ela voltar.

    — Ah, não. Nem venha, Luciana — Roberta sacudia as mãos. — Essa história já tá me deixando maluca. Deixa os dois se detestarem em paz.

— Que exagero, amiga. Eu conheço Cristina, ela quer o boy dela… Só não se ligou nisso ainda.

— E o que Jorge quer não conta?

— Ele é homem, Roberta. Não interessa o que ele quer.

— Ignorando essa parte. Qual o plano pra descolar a informação?

— Cristina não vai me contar nada. Já tentei de todo jeito, até soro caseiro da verdade ela tomou e não soltou a língua. A esperança é saber por Jorge, é aí que você entra.

— Ihhhhhhhh, nem invente. Jorge anda de péssimo humor e cada dia ele gosta menos dessa historinha que você espalha dele com Cristina.

— Não espalhei nada.

— Luciana, o estagiário que chegou semana passada entrou na sua sala por engano e voltou comentando o que tinha rolado entre Cristina e Jorge.

— Detalhes, detalhes. Eu tenho um plano perfeito pra conseguir matar dois coelhos de uma vez.

— Lá vem.

— Jorge e Cristina são muito parecidos. Cristina não consegue guardar tudo que acontece só pra ela. Ela sempre me conta tudo… Exceto o que aconteceu entre ela e o boy, mas isso é diferente. A gente precisa encontrar a pessoa pra quem ele conta as coisas e chegar no cara.

— Defina “chegar no cara”.

— Isso é comigo, sua parte é me mostrar o alvo.

    — Como não deve ter outro jeito, eu vou te ajudar, mas agora me deixa voltar pra cama. Só ajudo os outros em horário comercial.

    Luciana deu um pulo de alegria e abraçou a amiga. Entrou no carro e partiu. Deixando para trás a amiga sonolenta e seu cachorro mijão.

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Esse Aqui É O Número 100!

Cem. One Hundred. Hundert. Hyaku. Miaya. Bǎi. Cent. Sto. Baeg. Cien. Ekató. 100. Esse é o número do post de hoje. Essas linhas que você está lendo, estão compondo a centésima publicação deste humilde blog. Essa marca que não vale de nada impressionante merece um texto comemorativo. Depois de muito matutar… Nem tanto assim… Na verdade eu matutei bem pouco, mas acabei resolvendo juntar alguns números aleatórios para celebrar essa graça alcançada.

O Cachorros de Bikini está ativo há 253 dias. Ao longo desse tempo foram publicados 100 textos, totalizando 41.247 palavras. Sim, você não se enganou. Quem leu todos os textos publicados passou a vista em QUARENTA E UMA MIL DUZENTAS E QUARENTA E SETE PALAVRAS. Uma média de 412 palavras por publicação. Se considerarmos que cada texto demorar mais ou menos uma hora pra ficar pronto, chegamos a pouco mais de 100 horas de trabalho. Se o Cachorros de Bikini fosse um trabalho com carga de 44 horas semanais, eu precisaria trabalhar mais ou menos duas semanas e dois dias. Se eu gastasse esse tempo assistindo séries de TV com episódios de 42 minutos, eu teria assistido quase 143 episódios. É como se eu tivesse assistido Grey’s Anatomy  ou CSI e parado perto do final da sétima temporada, também teria conseguido terminar com folga Friends, How I Met Your Mother.

Dessas milhares de palavras, 14.907 foram escritas em Contos de Segunda. A série especial de início de semana chegou ao seu número 33 na última segunda-feira. Nesses trinta e três contos, nós tivemos 21 protagonistas diferentes e nem preciso dizer que as figurinhas que mais se repetiram foram Cristina e Jorge, o quase-casal mais amado do Cachorros de Bikini. Também é dessa série o maior texto publicado até então, com 1242 palavras o Contos de Segunda #27 – Parte 02  é o recordista. Não por acaso ele foi a primeira vez que Cristina e Jorge dividiram o protagonismo do início de semana.

Uma centena. Paro e penso “Caramba!” e “UAU!”, e logo depois eu penso “Blz, e agora?”. Obviamente eu não esperava atingir esse número e por consequência atingi-lo nunca foi de fato um objetivo. Mas cá estou eu, com uma centena de textos e vontade de fazer mais algumas centenas deles. Já já o blog vai fazer um ano, mais uns cinquenta textos e eu chego lá. Daqui a pouco o número das publicações chega em 200 e eu nem vou sentir. Números são números, mas quando eu olho os números do Cachorros de Bikini o que eu vejo tem muito mais relação com valor do que com quantidade. Se milhares de palavras foram publicadas, isso quer dizer que outras milhares foram apagadas ou sequer chegaram a ser escritas. Se todo esse tempo foi gasto para escrever todas essas publicações, muito mais foi gasto pensando no que escrever e principalmente no que não escrever. Tem gosto de conquista? Tem. Tem gosto de vitória? De leve. Mas acima de tudo tem gosto de surpresa, de alcançar o inesperado. Que venham mais cem, mais mil ou mais dois mil. Um por um. Uma letra, uma linha, um texto de cada vez.

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Relaxa, É Carnaval

Carnaval. Festa da Carne. Quatro (ou cinco) dias de festa, alegria, álcool, música, sol no quengo, suor, calor humano, fantasias variadas, músicas que tocam todo ano, hits feitos de chiclete vindos da Bahia, amores que acabam na quarta-feira, outros que vão durar mais alguns muitos carnavais, muita, mas muita “NOTA…DEZ” e todo tipo de sacanagem lúdica e recreativa.

Apesar de não gostar da folia, é impossível ficar totalmente isolado dessa atmosfera. Diante disso resolvi que o texto dessa quarta-feira(de cinzas) seria sobre o carnaval, mas o que falar dessa festa que eu nem de longe vejo? Realmente de festa eu não entendo, mas uma coisa que eu ainda consigo fazer é observar as pessoas. E no carnaval, assim como em outras épocas do ano, as pessoas adquirem um comportamento muito curioso. Não existe época em que as pessoas são mais tolerantes do que no carnaval.

Pode parecer besteira, mas se você parar pra reparar “É Carnaval” não é só uma frase, é quase um sentimento. Nessa história de “É Carnaval”, o folião não se queixa do sol, nem do calor da fantasia. Não liga pro aperto, é solidário com o folião desconhecido que tá passando aperto. E aperto é o que não falta durante o reinado de Momo. Atrás do trio, da orquestra ou seja lá do que for, o espaço é disputado no nível do metrô em hora de pico. Mas no carnaval quem está se apertando não queria estar em outro lugar.

As piadas fazem mais graça, a música parece melhor e aquela fantasia que talvez não tivesse graça nenhuma faz você morrer de rir. Machistas nível “Orgulho de Ser Hétero”  se vestem de mulher e moças que passam 360 e poucos dias do ano falando mal do tamanho da roupa das piriguetes, mas reservam esses quatro dias pra se vestir pior do que elas. Isso sem contar que coisas que normalmente incomodariam muito, acabam sendo quase ignoradas no carnaval. Andar um tempão pra poder pegar um ônibus ou metrô, improvisar banheiro e até cerveja quente acabam sendo parte do que é se aventurar no carnaval.

Mas hoje é quarta-feira e acabou-se o carnaval. Fim da folga para todos, seja folião ou não. Vou aproveitar a deixa para desejar um feliz ano novo para todos. Afinal, todo mundo sabe que 2016 só começa pra valer a partir de amanhã… Mas amanhã já é quinta… Melhor deixar pra segunda.

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Contos de Segunda #33

Aderbal desapareceu. Carnaval, segunda-feira. Os planos de viajar foram frustrados por uma série de infortúnios e imprevistos. Mas nenhum dos imprevistos era maior do que a visita da sobrinha. O irmão de Aderbal morava em um cidade onde a diferença entre o carnaval e o dia de finados era o tamanho do feriado. Não seria estranho que em algum momento Adriana, sobrinha de Aderbal, resolvesse passar o carnaval em um canto onde ele de fato existe.

    Ela chegou no sábado de manhã, mas Aderbal só precisaria se preocupar com ela a partir da segunda. O combinado era encontrá-la perto do centro, onde ficava o apartamento de um dos amigos da moça. Como algumas ruas estavam fechadas, Aderbal precisou estacionar um pouco longe. Ele estava com o nome da rua, Adriana ficou de confirmar o prédio assim que o tio chegasse à rua… E teria confirmado caso atendesse o celular. Diante disso Aderbal resolveu voltar para o carro. Chegando lá ele percebeu que um bloco estava se concentrando exatamente na rua onde o carro estava estacionado. O porta estandarte do bloco tinha caído e quebrado o braço. Os demais presentes estavam tentando resolver quem tomaria seu lugar. Com medo de não conseguir sair com o carro por causa do bloco, Aderbal se ofereceu para levar o estandarte do bloco, talvez assim eles saíssem de lá mais rápido.

    O final do percurso do bloco era um encontro de blocos. Aparentemente todas as agremiações da redondeza se encontravam na segunda-feira de carnaval. Ao perceber que aquilo demoraria mais do que o previsto, Aderbal resolveu ligar para Adriana ou para casa. Ao colocar a mão no bolso não encontrou nada. O celular havia sido furtado. Ele estava pronto para pedir o celular de alguém quando alguém espirrou um spray de espuma no seu rosto. Imediatamente começou uma reação alérgica que fez o rosto e a língua do pobre homem ficarem inchados, ninguém conseguia entender o que ele estava falando.

    Ainda na metade do encontro de blocos outra pessoa resolveu assumir o estandarte. Aderbal voltou correndo para o carro. Quando ele tentou destravar as portas, o controle do alarme entrou em curto e o veículo começou a apitar. Isso ocorreu justamente quando uma viatura da polícia militar passava pela área. Os policiais não acreditaram na história de Aderbal, pelo menos na parte que eles conseguiram entender. O inchaço do rosto o deixara muito diferente das fotos que estavam nos documentos. Os policiais chegaram à conclusão de que aqueles documentos e aquelas chaves haviam sido roubados e o suspeito seria levado à delegacia.

    Adriana não conseguiu uma carona. Ao chegar de táxi na casa dos tios informou a família sobre o sumiço de Aderbal. Resolveram esperar mais algumas horas até que ele aparecesse. Tal fato só ocorreria na metade da madrugada. Quando o rosto de Aderbal finalmente voltou a ter alguma semelhança com as fotos dos documentos. Para tentar minimizar os transtornos, os policiais deixaram Aderbal em casa. Mas a família toda tinha resolvido ir procurá-lo nos hospitais, delegacias e no IML. Infelizmente ele precisava esperar alguém voltar antes de entrar em casa. As chaves ficaram no carro.

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