Cachorros de Bikini

Reflexões rasas sobre coisas profundas e reflexões profundas sobre coisas rasas

Sobre O Nada

Hoje estava eu pensando sobre qual assunto o texto desta sexta-feira falaria. Depois de pensar um bocado percebi que a minha cabeça estava tão fértil quanto o solo de Cartago, mas eu não podia desistir, não poderia deixar de fazer a publicação de sexta. De fato hoje eu não tinha nada sobre o que escrever. Esse quadro desesperador peculiar fez meu cérebro começar a trabalhar.

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    Foi aí que uma ideia piscou na minha cabeça. Inspirado pelos melhores episódios do Pauta Livre News, hoje eu falaria sobre… O Nada.

    Muita gente tem uma verdadeira aversão ao nada. Nada pra ler, nada pra assistir, nada interessante na internet, nada de bom passando no cinema, nada de novo no front e o mais desagradável de todos, o nada acontece feijoada nada pra fazer. Mas havemos de convir que o nada é um dos maiores agentes de mudança do mundo. O nada é provavelmente é o fertilizante mais poderoso para as ideias. O que seria da humanidade se não existisse o nada? O que seria da humanidade se as pessoas nunca tivessem nada pra fazer? Eu acredito piamente que pelo menos metade das ideias que mais mudaram o mundo vieram de uma bela brisada.

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    Por isso, caro leitor, se uma maré inacreditável de nada te cobrir dos pés à cabeça, não encare como uma coisa negativa. Aproveite o ócio, aproveite o tédio, aproveite a brisa, aproveite o nada como a bênção divina que ele é. Aproveite enquanto pode, por que já já aparece alguma coisa e quando você se der conta o nada foi embora e você não fez nada com ele.

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Você Não Sabe de Nada, João das Neves

Todo mundo que atualmente habita nas internets sabe que um dos personagens mais populares da atualidade é Jon Snow. Personagem preferido de muitos fãs de Game of Thrones e um dos meus personagens preferidos d’As Crônicas de Gelo e Fogo, João das Neves é um cara relativamente azarado fora da série. Mesmo depois de fazer e acontecer nas últimas seis temporadas de Game of Thrones e em quatro dos últimos cinco livros, ele tem todas as suas proezas ofuscadas por uma única frase.

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    Isso mesmo, por causa dessa moça ruiva o bastardo preferido da cultura pop ficou conhecido como o cara que não sabe nada. De fato Jon Snow percebe que no fim das contas ele não sabe de nada. Seguindo o exemplo de João das Neves, eu já me convenci tem um tempo que eu não sei de nada, mas acho que até essa semana eu nunca tinha percebido o quanto eu sei pouco. Por uma grande coincidência essa epifania me ocorreu por causa de uma moça ruiva.

Aconteceu no último domingo. Estava eu conversando com uma comadre minha sobre uma conquista pessoal que ela tinha compartilhado no Facebook. Entre um ou outro parabéns acabamos conversando um pouco sobre a vida, o universo e tudo mais. Como em todas as vezes em que eu converso com essa minha comadre ruiva, a conversa terminou e eu fiquei com a sensação de que tava conversando com uma pessoa muito mais adulta que eu. Essa sensação pra mim é bastante familiar, até por que boa parte dos meus amigos é bem mais adulta que eu, mas nenhuma dessas outras pessoas é oito anos mais novo que eu e parece ser uns dez anos mais velho.

Não que seja muito difícil parecer mais adulto que eu, mas eu costumo ganhar da galera que nunca foi obrigado a votar ou que precisou fazer CPF pra poder se inscrever no ENEM. Não é muito difícil de imaginar que eu olhei pra minha tela de chat e cheguei à conclusão que o significado por trás de toda aquela troca de mensagens era: “você não sabe de nada, Filipe Sena”. Aí percebi que estávamos eu e Jon Snow no mesmo barco. Estávamos nós dois sem saber de nada.

A vida depois dos meus vinte anos me fez pensar que eu tinha virado adulto. De fato quando eu coloco meu disfarce e saio pra trabalhar, quando eu pago minhas contas ou quando eu fico com dor nas costas por passar muito tempo num banco sem encosto, eu me sinto adulto (seja lá qual for a sensação de se sentir adulto). Mas a realidade é que eu nunca precisei ser muito adulto, só o suficiente pra passar por média. Não que isso me incomode, não que adultecer seja uma meta pra minha vida, o lance é que lembrar que você tá sabendo tanto quanto Jão Snow e que tem gente que saiu do colégio mais adulto que você te faz parar pra refletir.

Pra finalizar gostaria de compartilhar com todos o jeito que eu encontrei pra me conformar com essa história toda. Quando eu vejo essa minha comadre ruiva nas internets sendo mais adulta que eu, basta lembrar que algum tempo atrás ela publicou no Facebucket que X-Men: Apocalipse tinha sido o melhor filme do ano até então… Ela pode até estar uns dez anos na minha frente, mas essa menina ainda tem muito o que aprender. Pelo menos nisso eu (acho que) ganhei dela.

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Contos de Segunda #51

Robson queria roubar uma cadeira. Obviamente ele não precisava de uma cadeira em um nível tão grande de urgência, Robson apenas queria roubar uma cadeira.

    Tudo começou em um sábado. Robson estava no shopping esperando a esposa concluir as compras. Como a loja em questão era cheia de toda a espécie de perfume que atacava a alergia de Robson, ele esperou do lado de fora. Avistou uma cadeira convidativa e se sentou. Foi amor a primeira vista. A partir daquele momento o coração de Robson nunca mais saiu daquela cadeira, ele precisava roubá-la.

    Claro que roubar foi a última opção do pobre coitado. Ele tentou encontrar a cadeira em todas as lojas possíveis e imagináveis. Tentou entrar em contato com a gerência do shopping para tentar comprar a cadeira e não teve nenhuma resposta positiva. Ao longo de meses Robson foi ao shopping apenas para sentar naquela cadeira maravilhosa… E para planejar como levaria ela de lá. Não devia ser muito difícil, afinal era só uma cadeira.

    O plano foi executado em uma segunda-feira na hora do shopping fechar. Robson tinha passado em uma sex shop mais cedo e comprado um par de algemas. Assim que os corredores esvaziaram ele se algemou na cadeira. Alguns minutos depois o segurança do shopping chegou para ver o que estava havendo, Robson usou o máximo dos seus dotes de ator para convencer o segurança de que tinha se algemado à cadeira por acidente. No carro ele tinha as ferramentas necessárias para quebrar as algemas, porém precisaria da ajuda do segurança para carregar a cadeira. O segurança, no auge do seu altruísmo e morrendo de pena de um homem que tinha se algemado acidentalmente com algemas eróticas no meio de um local público, carregou a cadeira com Robson até o estacionamento.

    Estacionado entre duas picapes estava o carro de Robson. Ele abriu o porta malas e pediu gentilmente para que o segurança procurasse pelas ferramentas. Enquanto o solícito funcionário procurava pelas ferramentas, Robson jogou a cadeira na caçamba da picape, abriu as algemas, o carro deu a partida e saiu. O segurança levou uns dois minutos para perceber o que tinha ocorrido. A desculpa de Robson foi que colocou a cadeira na caçamba para ter uma posição melhor para quebrar as algemas, o segurança não sabia se tinha acreditado ou não, ele estava muito ocupado passando um rádio para os outros seguranças.

Robson fechou o porta malas e foi andando disfarçadamente na direção da porta do motorista. A satisfação gerada pelo plano bem sucedido foi gigante. Agora bastava ligar para o cúmplice e combinar o horário de entrega. Não é difícil imaginar a surpresa de Robson ao ouvir o toque do celular do cúmplice vindo da picape que ainda estava parada ao lado do seu carro. Mais surpreso ainda ficou Robson ao ver o seu cúmplice dormindo  do banco do motorista.

Robson entrou no carro, deu a partida e saiu. A derrota amargava em sua boca, a tristeza pesava em seu peito e como se não bastasse tudo isso, ele chegou na cancela de saída, colocou o ticket na máquina, mas não conseguiu sair. Ele tinha esquecido de pagar o estacionamento.

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Tá Frio

Tá frio. Até porque estamos no inverno e o mínimo que se espera é que faça frio, mas esse ano o frio está enchendo o saco mais do que de costume e depois de uma conversa ligeira com minha mãe, resolvi discorrer sobre essa sensação térmica tão, digamos, “refrescante”.giphy

Eu não gosto de frio. Graças ao bom Deus eu moro em uma região especialmente ensolarada do Brasil, conhecida como estado de Pernambuco ou, como algumas pessoas de outras regiões preferem dizer pra simplificar, no “Nôrdeste”. Aqui é quente, bem mais quente que em boa parte do Brasil, mas ainda assim bem menos que em outras partes do Nordeste do país, ou seja, aqui a gente tá acostumado a sentir calor, ser impiedosamente agredido pelo sol, ficar agoniado por causa da quentura, ficar preguento de suor, mas é só bater um vento diferente que a gente acha que tá frio. De Maio pra Junho os ventos começam a ficar meio diferentes e chega a boa e velha frieza.

Antes de continuar devo abrir um parênteses. Se você está lendo esse presente texto e mora em algum lugar abaixo da Bahia pode pensar “ain, mas tu não passa frio, Filipe, aqui tá fazendo 5º de meio-dia”. Sim, eu sei. Eu sei que aqui não faz frio pra valer. Eu sei que aqui inverno é uma versão soft e chuvosa do verão, mas infelizmente eu não sou adaptado pra viver muito abaixo dos 25° e se meu corpo me diz que tá frio eu acredito.

Na prática aqui só faz frio quando não tem Sol. Quando a noite chega escura e cheia de terrores o frio bate, a temperatura vai caindo e na hora de dormir já tá aquela delícia. Fazer coisas como acordar de madrugada pra ir no banheiro ou acordar antes das 6 (em alguns dias antes das 7) da manhã é uma verdadeira provação. Fico pensando nessa galera que pega 5°, 3°, 0° ou até mesmo temperatura negativa e agradeço por não estar em nenhum lugar desse. A inveja de quem consegue ver neve, geada e outros derivados glaciais é tão baixa quanto a temperatura, tanto que as únicas coisas que eu imagino acontecendo comigo em um lugar desse é o meu falecimento precoce ou um tormento sem precedentes… seguido de um falecimento precoce.

A melhor parte dessa história toda é que o tempo frio está quase passando. Setembro vem aí e com ele um pouco mais de calor na nossa vida, mas isso é futuro. Enquanto mais um equinócio não chega, eu fico aqui congelando no meu frio que não é tão frio assim, mas que continua frio demais pra mim.

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Acho Que Já Falei Disso

Ter um blog é uma experiência que eu classifico como, no mínimo, interessante. Mas a parte interessante da parada nem tem muita relação com a repercussão dos posts ou com os temas em si, a parte legal é justamente o que fica por trás de toda essa geração de conteúdo. A tensão de ficar sem ideia, as buscas malucas que chegam no seu site e principalmente a administração das publicações dentro da sua cabeça. Em algum momento da vida eu fiquei com medo de chegar em um ponto de não ter mais do que falar, mas hoje percebi que o perigo real é esquecer que já falei de alguma coisa.

    Tudo aconteceu por causa do Dia do Amigo. Hoje, 20 de Julho, é o Dia do Orkut Dia do Amigo e também um dia em que eu estava seco de ideia. Como em todas as vezes em que eu estou sem ideia, olhei pro calendário e pensei “vou falar sobre o Dia do Amigo”, mas não demorou nem cinco segundos pra que eu lembrasse que eu fiz um post sobre o Dia do Amigo… No ano passado. Nesse exato instante me bateu aquele velho medo. Hoje eu lembrei, mas e se eu não conseguir lembrar todas as vezes?

    Contando com esta presente publicação, o Cachorros de Bikini publicou 155 posts. 102 desses posts pertencem à categoria “Crônicas e Similares”, onde eu publico textos sobre assuntos variados como este aqui. O blog tem um ano, ainda rola de lembrar mais ou menos dos principais assuntos publicados, mas já já o Cachorros vai ter dois, três quatro anos e esses 102 vão virar 204, 306, 408. E o que dizer da cabeça do autor do blog, conhecido internacionalmente como “eu”? Esse ser humano que, apesar de um nível relativamente satisfatório de inteligência, consegue se mostrar um verdadeiro quadrúpede em alguns momentos da vida. Como um indivíduo desse vai evitar esses momentos caducos da vida blogueira?

    Eu simplesmente não faço a mínima ideia de como vai ser. Se não acontecer, bom, se acontecer… Sei lá, sempre vai ter alguém que nunca me viu falando sobre aquilo, alguma opinião minha que mudou ou até mesmo alguma coisa que merece mais um ou outro parágrafo. Fico imaginando que não vai ser muito difícil ver alguma coisa repetida por aqui. Se eu ficar velho escrevendo nesse blog é certeza que isso vai rolar, mas aí eu vou ter uma desculpa. Afinal, velho gosta de repetir assunto, provavelmente eu não fugirei à regra.

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Contos de Segunda #50 – Parte 02

Pra ler a primeira metade desse conto é só acessar esse link para o Contos de Segunda #50 – Parte 01. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— Vou perguntar apenas uma vez — disse a Dama do Mar. — O que traz vocês cinco até meu santuário?

    — Viemos pedir sua ajuda, Dama do Mar — respondeu Segunda-feira.

    Uma risada maligna penetrou nos ouvidos das jovens Damas como uma agulha. A temperatura do ambiente caiu e a água invadiu a caverna, aos poucos a lâmina d’água começou a subir.

    — Ela vai matar a gente — sussurrou Quarta-feira. — Eu sabia que a gente devia ter ficado em casa.

    — O futuro está nebuloso, Segunda — falou Terça-feira. — Não consigo ver nada.

    — Deixa eu tentar falar com ela, Segunda — interrompeu Quinta-feira. — Dama do Mar, fui eu quem disse para virmos pedir sua ajuda… Me ajudou antes, imaginei que poderia ajudar agora.

    — Que história é essa, Quinta? — disse Sexta surpresa, e não era o tipo bom de surpresa.

    Os olhares das irmãs estavam todos voltados para Quinta-feira.

    — Não é o que vocês… — gaguejou Quinta.– Certo, sem rodeios. Eu só consegui manifestar minhas habilidades musicais por causa dela… Criar música com o corpo não é tão simples pra uma entidade do tempo.

    — Sim, eu me lembro jovem Quinta-feira — a voz da Dama do Mar sorria. — Sua música precisava de ajuda para sair, mas teu medo não te permitiu aprender tudo que eu tinha para ensinar.

    — O canto de uma Dama é muito poderoso, nobre senhora. — replicou Quinta. — Aprendi o suficiente.

    A água já estava na altura dos joelhos.

    — Aprendeste o suficiente para evitar a tua queda, Quinta-feira — o tom da Dama do Mar agora estava severo. — Não querias correr o risco de cometer os mesmos crimes que eu. Que tipo de ajuda procuras se já sabes do que precisas?

    — Eu preciso de ajuda, Dama do Mar — vociferou Segunda-feira. — Preciso aprender o canto de sereia para atrair um Cavaleiro.

— Então venha olhar nos meus olhos e dizer isso — respondeu a Dama do Mar. — Mas venha só! — A água subiu como um turbilhão e envolveu Terça, Quarta, Quinta e Sexta, as deixando apenas as cabeças para fora. — Estou no fundo da caverna, venha.

Segunda-feira hesitou por um instante. Quarta-feira estava paralisada de medo, Quinta tinha o olhar baixo para não encarar as irmãs, Sexta tentava se mover, mas não conseguia, Terça fechou os olhos e começou a falar.

— O futuro está clareando, mas a Dama do Mar não me deixa enxergá-la — disse ela calmamente. — Vejo muitos futuros para você, Segunda, mas todos eles estão distantes, não posso te dizer o que te aguarda… Toma cuidado.

— Obrigado, Terça. Vou tomar.

Algumas dezenas de metros separavam Segunda do fundo da caverna. Lá ela encontrou um poço muito largo que emitia uma luz tênue, no centro do poço estava uma rocha e na rocha uma figura muito similar a uma sereia.

— Saudações, Dama do Mar — cumprimentou Segunda.

— Saudações, Dama da Segunda-feira — respondeu a Dama do Mar. — Tens ideia do tamanho do teu pedido?

— Tenho.

— Conheces os meus crimes?

— Não há Dama que não conheça.

— Sabes o que me levou a cometê-los?

— Amor e… Dor — a última palavra foi dita quase como um sussurro.

— Isso mesmo — os olhos frios da Dama do Mar por um instante se perderam em um passado distante. — Meu Cavaleiro foi tirado de mim e a dor me levou à…

— Violência — os olhos de Segunda estavam marejados. — Todas nós ficamos sabendo… Quando a Dama do Mar usou seu canto e atraiu dez Cavaleiros para a morte.

— Nove — o semblante dela continuava inexpressivo, mas os olhos não escondiam os sentimentos tão bem. — Naquela época o Cavaleiro da Lua possuía uma esposa. Ele foi o primeiro filho legítimo de uma Dama e o único a se tornar Cavaleiro. A Dama da Lua o presenteou com uma esposa, uma humana que recebeu sua dádiva. Ela também veio… Eu também tirei a vida dela com minhas próprias mãos.

— A Mãe-de-Todas te condenou à morte, mas o teu santuário te salvou.

— A fúria da Mãe passou, demorou, mas passou — ela olhou ao redor. — Agora vocês se arriscam a despertar novamente essa fúria para atrair um Cavaleiro?

— Preciso de um, meus poderes estão a ponto de sair do controle e… — Segunda respirou fundo. — Logo logo será impossível manter a sanidade.

— Não é tão ruim quanto parece. Todos tem medo de uma Dama louca… — os olhos da Dama do Mar se acenderam com um brilho frio. — Por que não sabem o que é ser uma.

A água subiu como um turbilhão e prendeu Segunda. A água do mar girava cada vez mais veloz ao redor da jovem Dama, o atrito com a água começou a rasgar a pele.

— O que está fazendo?

— O mesmo que estou fazendo às suas irmãs — sorriu a Dama do Mar. — Logo seus corpos serão apenas uma mancha de sangue, mas o teu… Eu quero rasgar com minhas próprias mãos

— Eu só vou avisar uma vez — rosnou Segunda. — Não faça nada às minhas irmãs.

— Este é meu santuário, ninguém me ameaça no meu santuário.

— Está enganada, Dama do Mar — sorriu Segunda um sorriso dolorido. — Não consegue sentir?

O sorriso da Dama do Mar se desfez. Alguma coisa estava errada, alguma força estranha estava penetrando no santuário.

— O feriado está acabando, nobre senhora, imagine a quantidade de mortais que está resmungando e se irritando neste momento. Quantos estão experimentando o sublime momento em que se lembram que hoje é segunda-feira e que amanhã precisam voltar para o trabalho — Segunda parecia sentir o gosto doce de cada palavra que dizia. — No coração dos mortais segunda-feira começa na noite de domingo e não existe nada mais forte do que o sentimento da noite de domingo em uma segunda.

— Impossível! Nada pode penetrar meu santuário!

— Quem está no meu santuário é você, Dama do Mar — uma força terrível emanava de Segunda-feira. — Nós Damas da Semana temos um dia para cada uma, um santuário de vinte e quatro horas, mas só eu consigo canalizar a energia do santuário… Por que só eu posso dividir o poder com minhas irmãs.

Quarta sentiu uma força externa tomando conta do seu corpo.

— Segunda está me mandando energia, acho que consigo tirar a gente daqui — disse Quarta-feira.

— Me tira primeiro Quarta — adiantou-se Sexta. — Quinta, me acelera.

— Só preciso de um instante pra me concentrar– ao dizer isso Quinta fechou os olhos, o semblante de dor levou poucos segundos para desaparecer, a conexão com a irmã estava completa. Uma batida eletrônica tomou conta da caverna, forte, alta e cada vez mais acelerada. Em um nível que tornava a música um ruído quase incompreensível

Quarta tirou Sexta de dentro do turbilhão. Quando a jovem Dama ficou livre deixou a música invadir o corpo. A música da irmã sempre causava uma sensação maravilhosa, ela sentia o coração acelerar, a vontade de dançar era quase irresistível.

— Quebra aquela sereia fajuta, Sextinha — disse Quinta com um sorriso raivoso.

Então o mundo parou. Sexta estava tão acelerada que o tempo parecia congelado. Em uma fração mínima de segundo ela chegou ao fundo da caverna, o ar deslocado foi suficiente para desfazer o turbilhão que envolvia Segunda-feira, mas ela estava só passando. Tudo que ela queria era dançar sobre a água, dançar sobre a luz por um instante, um instante que duraria quase uma eternidade. Fazer isso em uma velocidade tão alta criou um grande turbilhão e no meio dele estava a Dama do Mar. Poucos segundos depois ela estava no chão meio alagado, caída diante de Segunda e Sexta.

— Fazia tempo que eu não dançava tanto — disse Sexta ainda na euforia da música. — Tudo bem, Segunda?

— Vai ficar. Vai lá ver como estão as outras eu preciso conversar com nossa irmã sereia aqui.

Sexta ainda estava acelerada o suficiente para chegar onde as irmãs se recuperavam em um piscar de olhos. Segunda esperou a Dama do Mar se recompor.

— Me desculpe — lamentou Segunda. — Não queria apelar pra violência.

— Não precisa se desculpar, jovem Dama — disse a Dama do Mar em um tom brando. — Graças a isso posso gozar de um raro momento de lucidez. Meu santuário é um cárcere voluntário, aqui dentro não posso ferir ninguém… O que me pedes é uma maldição, Segunda-feira. Meu canto nasceu comigo, faz parte da minha natureza, não da sua. Aprendê-lo no seu estado é um convite ao desastre.

— Só preciso que funcione uma vez. Não me incomodo de abrir mão dele depois disso.

A Dama do Mar pegou um pouco de água com as mãos e modelou uma esfera. Uma bolha parcialmente cheia com um líquido esverdeado. Da bolha puxou dois cordões para formar uma gargantilha.

–Coloque isso no pescoço e o canto será seu — disse a Dama do Mar entregando o colar para Segunda. — Escolha bem o momento de usá-lo, terás apenas uma chance.

— Obrigado, Dama do Mar.

Ela sorriu em resposta, se ergueu na cauda de sereia e mergulhou no poço. Segunda correu para encontrar as irmãs.

— Alguém ferido? — perguntou Segunda.

— Só o orgulho — respondeu Terça. — Conseguiu alguma coisa?

— Sim, mas eu conto no caminho. Quarta, tira a gente daqui.

— Nem precisa pedir duas vezes. Aqui tem muita interferência pra abrir uma passagem, segurem em mim.

Um piscar de olhos depois e elas não estavam mais lá.

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Hoje Não É Dia do Rock

13 de Julho, conhecido como a última quarta-feira, foi o Dia Mundial do Rock. Eu não fiz um post alusivo ao assunto por que eu esqueci completamente e tava com vontade de falar de Life is Strange por que eu já tinha feito um no ano passado. A parte mais legal desse texto é que ele foi publicado no dia errado.

    Eu não lembro exatamente o que foi, mas no ano passado teve alguma coisa que me fez pensar que o Dia do Rock era comemorado em 3 de Julho e não no dia 13. Minha reação quando eu vi, exatos dez dias depois, que tinha publicado um texto sobre o Dia do Rock no dia errado foi mais ou menos essa.

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Naquela época eu nem compartilhava meus próprios textos no facebook e o número de leitores era bem menor que hoje em dia, mas foi aí que eu pensei “ano que vem eu PRECISO relatar essa experiência única com o mundo”.

Pare pra imaginar, eu fazendo um texto bem legal sobre o Dia do Rock, a primeira oportunidade que eu tive pra falar de música no meu blog recém nascido, e faço isso no dia errado. E nem dá pra disfarçar por que o texto começa assim:

“3 de Julho. Por algum motivo, que eu não faço ideia qual seja, é comemorado o Dia Mundial do Rock.”

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E ainda por cima tá mal escrito esse começo, esse Filipe é uma mula mesmo, mas como todas as coisas erradas que a gente faz na vida, esse erro gritante me fez aprender uma lição valiosa: de que adianta fazer uma besteira dessa se você não vai contar pra ninguém?

Por isso eu encerro essa postagem que tem mais figuras do que tudo com um pedido a todos que estão passando os olhos no presente texto: compartilhe suas besteiras, deixe todo mundo saber dos seus erros divertidos e principalmente se divirta com seus erros.

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“Volte O Tempo”

Algumas semanas atrás eu comentei em um post polêmico que tinha jogado um jogo muito legal chamado Life is Strange. Nele você joga a história de uma menina que tem o poder de retroceder o tempo e isso é um dos elementos mais legais da mecânica do jogo. Voltar o tempo para refazer escolhas e impedir que as merdas aconteçam é o que você mais faz ao longo dos cinco episódios do jogo. Mas além da história e dos temas abordados no jogo uma coisa me chamou bastante atenção: ao longo de toda a história você escuta personagens diferentes comentando como seria bom poder voltar no tempo e fazer as coisas de outra forma. Lembrando disso paro pra pensar e faço uma pergunta pra mim e pra todos os que estão lendo esse texto: você tem vontade de voltar no tempo e fazer as coisas de um jeito diferente?

    Normalmente a resposta inicial é “sim”, mas não é de se estranhar que essa resposta se transforme em um “mais ou menos” e depois em um “não”. Pensar no que deu errado é bem fácil, mas assim como uma morte inesperada em Game of Thrones, as merdas que acontecem na vida não costumam acontecer por acaso. Além disso, ao pensarmos nas coisas que poderíamos fazer diferente acabamos cometendo o mesmo erro que os protagonistas das histórias sobre viagem no tempo cometem. Por que é muito fácil julgar as escolhas do começo da história quando já sabemos do final.

    Pare pra pensar junto comigo. Você deve conseguir dizer exatamente as consequências e desdobramentos de todas os erros, acertos, cagadas e sortes da sua vida inteira. Provavelmente você consegue achar um ponto chave na sua própria história que fez tudo mudar, para o bem ou para o mal, mas dá pra saber o que teria acontecido se você tivesse feito de um jeito diferente? Dá pra ter uma ideia? Provavelmente. Dá pra saber exatamente o que teria acontecido? De jeito nenhum.

    O que eu aprendi com todas as histórias sobre viagem no tempo que eu já li ou assisti na vida me ensinaram uma lição preciosa: mudar o passado sempre dá merda. Grande ou pequena, sempre vai dar uma merda. Seja por causa do rompimento do tempo e espaço em si ou por desencadear uma série de eventos catastróficos que mandam tudo pra merda de uma forma nunca antes vista na história desse país. Obviamente nem tudo dá tão errado assim, mas só a vontade de querer mudar o que passou já é um veneno.

Pra encerrar vou compartilhar um conceito curioso que eu li outro dia em um livro chamado Filhos de Duna. Muito se engana quem pensa que o futuro é consequência do presente, é justamente o contrário. O futuro é um só, o presente que se arruma pra chegar naquele futuro.

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Contos de Segunda #50 – Parte 01

Essa é a terceira parte da história da Dama da Segunda-feira. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

Desde tempos imemoriais as Damas escolhem entre os mortais aqueles dignos de receber uma porção de seus poderes. Uma dádiva que está além da imaginação de qualquer mortal. Foi para finalmente encontrar um Cavaleiro que a Dama da Segunda-feira resolveu procurar pela Dama do Mar e aprender o seu canto de sereia.

    — Por que a gente nunca viaja de carro? — Perguntou Sexta-feira.

    Era uma segunda-feira de feriado. As Damas da Semana tinham entrado em uma passagem dimensional criada por Quarta-feira e saído em uma pequena cidade litorânea.

    — Eu gostava mais quando a gente viajava antigamente — resmungou Quinta-feira. — Parece que vocês não gostam mais de juntar as irmãs.

    — Estamos prestes a cometer um crime, temos uma irmã que consegue dobrar o tempo e o espaço e outra que está quase pirando — disse Terça-feira contando nos dedos.

    — Ei! — Interrompeu Segunda-feira. — Eu não estou pirando… Pelo menos ainda não.

    A verdade é que aquele feriado tinha drenado tanto das energias excedentes de Segunda que ela sentia a cabeça funcionando muito melhor do que nos últimos dias.

    — Isso é maluquice — disse Quarta-feira como se falasse sozinha. — A Mãe vai transformar a gente em pó.

    — Não se a gente fizer rápido — rebateu Terça. — E agora, Segunda?

    — Peguei uma dica com uma Dama do Rio que é minha aluna de literatura. Ela contou que nessa praia tem uma trilha que só uma Dama pode enxergar, se seguirmos a trilha chegamos ao santuário da Dama do…

    — Santuário!? — interrompeu Quarta com o sangue fugindo do rosto. — E eu pensando que a Mãe ia nos matar. A gente vai morrer antes!

    — Relaxa que a gente já entrou em outros santuários — tranquilizou Sexta.

    — Um ou dois, Sexta, e eles estavam vazios — lembrou Quinta.

    — Uma Dama é absoluta em seu santuário, Segunda — disse Terça olhando nos olhos da irmã. — Ela é mais antiga do que a gente e praticamente invencível em seu lugar de poder. Tem certeza que quer fazer isso?

    Apenas o silêncio respondeu à pergunta da Dama. Segunda sabia do perigo de enfrentar uma entidade tão poderosa em seu território, mas o tempo corria contra ela e as alternativas eram poucas.

    — Coloquem os biquínis e me esperem na praia — disse Segunda com um tom sério. —  Volto assim que achar a trilha. Tentem não chamar atenção

    Segunda sumiu antes que as irmãs pudessem questionar. Para as quatro que ficaram só restou acatar as ordens e partir para a praia.

    A areia estava lotada. A maré estava alta e a área disponível para os guardassóis estava drasticamente reduzida. Mesmo fora de seus dias correspondentes, as Damas da Semana emanavam poder suficiente para chamar a atenção de todos os mortais, alguns já estavam completamente enfeitiçados pela beleza feérica do quarteto.

    — Temos que ficar separadas — disse Quarta. — Mais tempo juntas e metade da praia vai entrar em transe.

    — Preciso me conectar às forças que circulam nesse lugar — disse Terça tirando da bolsa uma placa que dizia “LEIO SUA MÃO! É GRÁTIS”. — Não estou conseguindo sentir o futuro direito. Vou ficar no calçadão lendo mãos.

    — Vi um quiosque logo ali que parece ter umas bebidas interessantes, acho que vou para lá — completou Quarta.

    — Você quer dizer umas bebidas caras, né? — Desdenhou Quinta. — Eu ouvi música em algum lugar. Eu e Sexta vamos seguir o rastro do som.

    — Não se preocupem em chamar atenção, tá todo mundo olhando pra mim — provocou Sexta.

    Algumas horas se passaram antes de Segunda convocar as irmãs. Quando elas sentiram uma vontade incontrolável de ir para a parte mais deserta da praia, sabiam que era a irmã mais velha chamando. O mar castigava as pedras e a maré ainda não tinha revelado nenhuma trilha.

    — Segunda — disse Terça. — Temos que esperar a maré baixar.

    — Não — respondeu Segunda. — A maré aqui nunca baixa. Faz horas que chegamos e a maré não diminuiu um centímetro.

    — Mas e a trilha? — Perguntou Sexta.

    — É uma trilha que apenas uma Dama pode ver — lembrou Quinta. — A água é para afastar os mortais, não outras Damas.

    Quinta andou em direção às pedras. A cada passo que dava a água se abria diante dos seus pés. Poucos passos depois e já era possível ver uma grande fenda no meio do paredão rochoso. As outras seguiram atrás, pouco tempo depois estavam todas dentro da caverna. Durante alguns minutos elas andaram pelo chão de rocha úmida, nenhuma luz do sol chegava ali, mas algo no fundo da caverna mantinha o ambiente iluminado. Antes de chegarem à fonte de luz uma voz fez as cinco congelarem.

    — O que temos aqui? Cinco Damas — as silabas eram ditas lentamente, o som escorregava para dentro dos ouvidos delas. — Tão jovens, tão belas… Espero que tenham um bom motivo para invadir meu santuário… Ou vou esquecer que não gosto de matar minhas irmãs.

 

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Dragão Agora é Dinossauro

Na última terça-feira estava eu passeando alegremente e praticando um hábito antigo que eu nunca deixo morrer, o hábito de olhar lojas de brinquedo. Durante meu passeio me deparei com algo que chamou muito a minha atenção: um boneco de um réptil vermelho com asas. Busquei no meu relativamente vasto acervo mental de criaturas fantásticas e não consegui identificar nenhuma que batesse com o tal boneco. Foi então que resolvi olhar o verso da caixa e averiguar se lá havia alguma identificação do bicho.

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    Caso você não tenha reparado, na coleção com o sugestivo nome de Megassauro temos quatro bonecos: um tiranossauro, um pteranodonte, um espinossauro e um dragão. Sim, isso mesmo, um DRAGÃO.  D-R-A-G-Ã-O. Na hora eu não sabia se achava graça ou ficava indignado, só consegui pensar “e dragão é dinossauro agora?”.

    Passado o susto inicial, não consegui de parar de pensar em como a indústria de brinquedos não está nem aí para a educação das crianças. “Ai, Filipe, que frescura da bexiga, só por causa de uma bosta de um dinossauro?”, sim, é SÓ por causa de uma bosta de um dinossauro. Raciocine comigo, caro leitor. Uma criança compra um brinquedo, se ela compra um dinossauro isso mostra que a criança já tem alguma afinidade com ciências, já que ela escolheu um brinquedo mais “pé no chão”, mas ela comprou um dragão da coleção Megassauro, um brinquedo sem o menor compromisso de ajudar na formação do pequeno cientista, que não só vai aprender errado com o brinquedo, mas também associar sem querer os bichos extintos com seres fantasiosos. Promovendo uma mistureba generalizada na cabeça do infante que não terá mais distinção entre o que é (ou foi) real e o que é imaginário desde sua concepção.

    Já não bastava o fim da Tv Globinho, a indústria de brinquedos acha pouco e faz sua parte pra acabar com a infância brasileira. E eu ainda não falei a pior parte. Não basta dizer que dragão é dinossauro, eles ainda tem a pachorra de colocar um wyvern e chamar de dragão.

    Aprendam, pessoas das industrias de brinquedos, se tem duas patas traseiras e as asas estão no lugar dos braços não é dragão, é wyvern ou dragonete, nunca dragão. E nem me venham dizer que Smaug tem asa no lugar dos braços e é dragão. Tinha tanta coisa errada naquele filme que é de se esperar que até o dragão esteja errado.

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