Cachorros de Bikini

Desculpe qualquer coisa

Contos de Segunda #60

— Ontem eu tive um sonho — começou Anabela mergulhando o sachê de chá na caneca de água quente. — O mesmo sonho dos outros dias.

Ela estava na cozinha da casa do avô, sentada à mesa tomando chá. Ele estava no fogão cuidando do jantar e vendo as notícias em uma televisão com o volume baixo.

— Com as cores no céu que desciam e formavam uma imitação do seu quarto? — Respondeu o avô de Anabela.

— Sim — a moça deu um gole no chá, ainda estava fraco, a dança do sachê na caneca recomeçou. — Só que foi diferente. Quando eu acordei estava sentada na minha escrivaninha, com a caneta na mão…

— Como das outras vezes, com a caneta prestes a encostar no papel — interrompeu o velho.

— Dessa vez eu tinha escrito alguma coisa… Uma coisa maldita.

O avô de Anabela se esticou como se uma língua de gelo tivesse escorregado pelas suas costas. Ele apagou o fogo do fogão, se virou e contemplou a face inexpressiva da neta por alguns instantes antes de conseguir falar.

— Você ainda estava doente?

— Sim.

— Você conseguiu dormir ontem durante o dia?

— Não.

— Que horas eram quando você acordou?

— Três e meia da manhã. Estava lá escrito no meu caderno… Um parágrafo de um texto maldito. Um trecho de algo tão horrível que eu desmaiei depois de ler.

Os olhos do velho arregalaram. Suas mãos tremiam de leve quando ele puxou a cadeira para se sentar. A boca se movia tentando articular palavras que não saíam da garganta. O suor brotou das têmporas, se pelo nervosismo ou pelo esforço de falar não se sabia.

— Quando eu levantei do chão o pedaço escrito da página não estava mais lá — os olhos frios da moça encontraram os olhos assustados do velho.

— Algo te usou para chegar aqui — o raciocínio do avô de Anabela tinha acelerado depois de passar o choque. — Pra chegar aqui ou… Para enviar uma mensagem… Você leu, mas não era pra você. Foi por isso que não suportou quando leu.

— O que é aquilo? — Disse Anabela levantando da mesa para aumentar o volume da televisão.

O noticiário mostrava um homem sendo levado por enfermeiros para uma ambulância enquanto se debatia e urrava palavras incompreensíveis.

“Essas imagens foram feitas hoje pela manhã na frente de uma tradicional loja de antiguidades no centro da cidade. O dono da loja, o senhor Clóvis Bandeira de sessenta e três anos, teve um colapso nervoso e começou a agredir funcionários e clientes da loja. Segundo relato de testemunhas, Clóvis recebeu uma carta pouco antes de ter o surto. Os funcionários precisaram segurá-lo até a chegada da ambulância”

— É essa carta, foi o que eu escrevi — as pernas de Anabela teriam cedido caso ela não estivesse apoiada no balcão da cozinha. — Precisamos encontrar a carta e destruí-la. Esse homem foi só o primeiro, mais alguém vai ler esse maldito papel e vai… E vai…

— Ainda não são nem seis horas — respondeu o velho olhando para o relógio da parede. — Com sorte a gente pega a loja ainda aberta.

A loja ainda estava aberta quando eles chegaram lá. Ao contrário das demais lojas, bares e fiteiros da mesma rua, as luzes estavam apagadas. Apesar da escuridão do antiquário ser tudo menos convidativa, Anabela e seu avô se apressaram para entrar.

Estantes e armários lotados de objetos antigos compunham o mobiliário. Os corredores apertados entre eles faziam curvas estranhas e impediam que a luz da rua penetrasse no interior da loja. Apenas um feixe de uma luz fraca quebrava a escuridão lá no fundo.

— O dono deve ter um escritório ou algo do tipo nos fundos da loja — apontou o avô de Anabela.

A moça puxou o celular e ligou a lanterna.

— Fique aqui, vovô — disse a moça tentando manter a voz firme. — Se alguma coisa estiver errada o senhor vai atrás de ajuda.

Anabela partiu na direção dos fundos da loja antes de ouvir uma resposta.

O cheiro da madeira antiga preenchia o ambiente. A poeira dançava na frente da luz da lanterna. O silêncio só era quebrado pelos passos e pela respiração da moça. Os passos ficaram mais cuidadosos. O escritório estava cada vez mais perto. Ela parou.

E ouviu outro passo.

Ela voltou a caminhar, dessa vez um pouco mais rápido. Algo atrás dela andava com passos mais lentos.

Algo caiu no chão.

Anabela não parou. Mais dois passos e estaria no escritório. Foi então que algo se mexeu na sua mão.

Uma mensagem chegara no celular fazendo o aparelho vibrar. O susto fez a moça soltá-lo. A respiração pesada de alguém que vinha logo atrás podia ser ouvida.

— Escreva — sussurrou uma voz.

Anabela correu para o escritório e fechou a porta assim que passou por ela. Fechou o trinco e começou a vasculhar. Não demorou muito para que ela visse um envelope de papel encardido sobre a mesa. Ao lado do envelope estava o pedaço da folha do caderno dela.

Algo esmurrou a porta

Anabela viu sobre a mesa um isqueiro. Ela queimaria o pedaço de papel e acabaria com isso. Algo úmido escorria pelo rosto dela, o que era muito estranho,ela não sentia como se estivesse chorando. Os passos pararam na frente da mesa, uma mão pegou o isqueiro e a outra o pedaço de papel.

Outra pancada na porta

Os dedos trêmulos lutavam para acender o isqueiro, depois de algumas tentativas finalmente conseguiram. As chamas lamberam o papel.

A porta se escancarou.

Um homem entrou no escritório com passos trôpegos.

— Escreva… Termine… Escreva o resto…

O papel queimava lentamente. Anabela deu a volta na mesa para se afastar do homem.

— Não queime… Não… Termine.

Algo molhado escorreu do rosto de Anabela e pingou no papel, as chamas engoliram o papel de uma vez e por pouco não deixaram os dedos da moça queimados.

— AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHRRRRRRGGGG — urrou o homem ao ver as chamas.

Num ímpeto ele avançou na direção da moça e pulou por cima da mesa. Anabela desviou e correu para fora do escritório. Viu a luz da lanterna do celular no chão e pegou o aparelho antes de bater a porta. A corrida na direção da entrada durou poucos segundos. A moça saiu da loja antes que o avô pudesse entender o que estava acontecendo. Menos de um minuto depois os dois já estava no carro a caminho de casa.

— Eu consegui! Queimei o papel! Tinha um homem lá, ele tentou me impedir, mas eu… — A expressão perplexa do avô fez Anabela parar de falar. — O que foi, vovô?

— O que é isso no seu rosto, Anabela? É tinta?

A moça puxou um espelho da bolsa para ver. Ela não sabia bem o por quê, mas lágrimas pretas de tinta escorriam dos seus olhos.

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Uma Piscadinha Pra Você

Todos nós temos nossas limitações e incapacidades. Normalmente as limitações podem ser superadas com esforço, paciência e uma boa dose de tempo. O mesmo não acontece com nossas incapacidades. Todos nós temos a incapacidade de fazer algumas coisas, seja de lembrar o nome das pessoas, os caminhos de lugares que você só foi uma vez, escrever com a mão esquerda ou direita ou de entender ironias, sarcasmos, duplos sentidos ou o final de alguns filmes. No texto de hoje eu vou esmiuçar uma das minhas incapacidades. Hoje eu vou falar sobre a minha incapacidade de dar uma piscadinha.

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Piscada, piscadela ou piscadinha é um dos elementos mais fantásticos da comunicação não-verbal em todo o planeta. Ela pode ser tanto uma manifestação do charme de uma pessoa, uma tentativa de sedução, a oferta de um acordo de cumplicidade, uma forma de dizer “deixa comigo” e mais um monte de coisa que varia de acordo com o nível de entrosamento das pessoas envolvidas no colóquio não-verbal. O sucesso do uso desse gesto depende principalmente da naturalidade com que ele é usado. Caso a pessoa não seja, digamos, fluente na linguagem ocular, é bem provável que a piscadinha não saia com a sutileza desejada ou que saia atrasada devido ao esforço mental que um gesto não natural gera.

Talvez você esteja pensando: “O que tem de tão difícil de piscar, Filipe? É só piscar um olho e pronto”. É, pode até ser, mas antes de discordar de mim deixe-me demonstrar de forma mais ilustrativa. Repare nas piscadas a seguir:

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Note que todas elas são bastante sutis, passam bem a mensagem e alteram em quase nada a expressão facial do piscador em questão. Algumas pessoas podem chegar a um nível tão alto no domínio ocular externo que são capazes de usar variações de piscadela e até mesmo piscadelas customizadas. Como é possível ver na semi-piscadinha apaixonante dessa moça asiática do proximo GIF.

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Aí chegamos ao outro extremo da moeda. Imagine que você quer dar uma piscadinha. Imagine que seu objetivo é ser tão sutil ou charmoso quanto os exemplos acima. Aí você faz uma imagem mental de si mesmo piscando que não é essas coisas todas, mas dá pra levar. Então você avalia qual olho você vai piscar, olha pro receptor da mensagem, pisca e o resultado é algo parecido com essas imagens aqui:

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Sai tão ruim que você chega a se sentir mal. E todos nós sabemos que a sensação de derrota só aumenta quando você vê outros bípedes, dentre eles alguns que são desprovidos de qualquer carisma ou charme, conseguem usar tão bem esse recurso de comunicação. Quer um exemplo? Então veja esse GIF do nosso amigo Michael Cera.

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Acho melhor ir pro encerramento.

A incapacidade de dar uma piscadela não costuma me incomodar muito. A expressão faz tão pouco parte da minha vida que nem emoji dando piscadinha eu uso. Trejeitos dessa espécie precisam nascer com a pessoa, não são algo que se aprenda e reproduza sem parecer forçado ou no mínimo desastrado.  Por isso seja você um piscador natural, um piscador autodidata ou um piscador tão ruim quanto eu, aqui vai uma piscadinha caprichada pra você.

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Sério Que Já É Natal?

Primeiramente fora Temer preciso dizer que esse texto está algumas semanas atrasado. É bem provável que ele tivesse bem mais efeito se fosse lançado pelo menos uns quinze dias antes, mas como eu tinha algumas outras inutilidades pra usar de tema acabado de sair de um hiato de um mês e não tive essa ideia antes tinha outros temas mais importantes pra falar esse daqui acabou ficando pra depois.

Estamos em outubro, também conhecido como décimo mês do ano, e todo mundo sabe que daqui a dois meses estaremos celebrando o Natal. Também é sabido que no Natal as pessoas usam enfeites diversos que fazem alusão à coisas que o comercial da Coca-Cola e os filmes da Sessão da Tarde ensinaram que fazem parte do Natal. Até aí tudo normal, pelo menos até eu reparar que estamos em outubro e já tem enfeite de Natal no meio da rua desde o começo do mês.

Sério isso? Sério que já tem enfeite de Natal por aí? A primeira parcela do décimo terceiro nem caiu na conta e já tem pisca-pisca? As crianças nem enjoaram de brincar com os presentes do dia 12 e já tem guirlanda pendurada? As confraternizações ainda nem foram marcadas, a maldição do amigo secreto não retornou e já tem árvore de Natal por aí?

Do jeito que as coisas vão o Natal vai acabar que nem os modelos novos de carro. Em Abril já tem modelo de carro saindo como modelo do ano que vem. Se continuar nesse ritmo o que vai definir a data é se a páscoa cai em março ou abril. Convenhamos que ficaria estranho colocar os enfeites da festa que celebra o nascimento de Jesus antes de relembrar a morte e comemorar a ressurreição dele. Caso contrário seria uma versão do Tarantino pro nosso calendário.

É bem possível que tudo isso seja pressa pra terminar o ano. 2016 tá um ano meio cabuloso e já tem gente querendo pular pra 2018. Se não dá pra pular tanto assim o que resta é dar a dica pra ver se 2016 entende a indireta e termina antes do tempo. Vai ver que estão sem lugar pra guardar os enfeites e assim que podem já tão colocando os penduricalhos na rua pra otimizar o espaço. Foi assim que o boneco que efeita o escritório que eu trabalho passou quase cinco anos comemorando todos os feriados, inclusive o Natal.

Depois de tanto conjecturar não chego a uma conclusão. Não sou especialista em ciclos comemorativos ou conheço a lógica por trás das decisões dos donos das lojas e demais estabelecimentos comerciais. Só acho que a gente já vive rápido demais, não precisa apressar ainda mais as coisas.

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Contos de Segunda #59

    — Finalmente! Depois de tanto lutar, finalmente eu serei capaz não só destruí-lo, mas também de desvendar os segredos dos seus poderes.

    Essas palavras foram repetidas inúmeras vezes nas últimas horas. Quem as repetia? Um homem que abandonou seu antigo nome para atender pela alcunha de Dr. Malícia. Mas para quem ele estava repetindo tais palavras? Para um homem que estava amarrado, pendurado de cabeça para baixo sobre um tanque com uma substância nefasta com cheiro de gelatina de limão. Esse homem era conhecido como Homem Camaleão.

    — Jamais, Dr. Malícia — respondeu o Homem Camaleão.

    — Ainda não entendeu, Camaleão? Dessa vez não há escapatória — Malícia foi até a mesa de controle e ligou um grande monitor que mostrava uma série de diagramas, uma cadeia de DNA e um modelo tridimensional do Homem Camaleão. — Em poucos minutos você será mergulhado nessa solução especial que, além de corroer até os seus ossos, vai isolar os genes responsáveis pelos seus poderes camaleônicos e assim eu poderei reproduzir esses genes para criar o meu exército de homens camaleão.

    — Seu plano maligno nunca dará certo, Malícia, logo logo eu sairei daqui e você estará atrás das grades.

    — Vejo que seu senso de humor continua intacto, Homem Camaleão, mas dessa vez você não tem a menor chance de…

    — Parados! Polícia!

    Do nada uma equipe tática do Departamento de Polícia de Vila Urbana entrou nas instalações abandonadas que serviam como laboratório para Dr Malícia.

    — Mãos pra cima!

    Dr Malícia obedeceu imediatamente, mas não deixou de protestar.

    — Que absurdo é esse? Vocês não podem sair invadindo a casa dos outros assim — disse Dr Malícia ainda com as mãos para cima.

    — Não adianta tentar enrolar a gente — antes do final da frase o rádio na cintura do policial iniciou a transmissão de uma mensagem, ele ligou os fones de ouvido no rádio e começou a falar com quem estava do outro lado. — Sim, já entramos… Não, não, ele tem um herói mascarado pendurado de cabeça pra baixo sobre uns produtos químicos com cheiro de gelatina…. Aparentemente não é nenhuma droga e…

    — Com licença, policial — interrompeu o Homem Camaleão. — O que as drogas tem a ver com isso?

    — Estamos investigando esse local faz dois meses —  começou o policial. — Temos provas de que neste endereço funciona um laboratório de produção de drogas.

    — Acho que vocês estão falando do meu primo — se adiantou Dr. Malícia ainda com as mãos para cima. — Ele me emprestou esse imóvel por que ele costuma dar folga ao pessoal dele nos dias de segunda. Não sou muito fã da polícia, mas vou dizer logo que vocês não vão encontrar drogas por aqui. Só pra vocês não perderem tempo procurando.

    — Isso mesmo, policial, nesse caso meu inimigo mortal está coberto de razão.

    — Então hoje a gente não vai encontrar por aqui ninguém que vende ou fabrica drogas?

    — Exato. Hoje só vai ter por aqui a boa e velha vilania. Meu plano de destruir esse herói aqui não tem nada a ver com drogas.

    — Eita… — disse o policial. — Então não tem ninguém pra prender?

    — Receio que não, meu caro policial — disse o Homem Camaleão. — Pelo menos não até eu me desamarrar daqui e derrotar o Dr Malícia. Sabe como é, a legislação nova protege os vilões que ainda não encerraram a sua luta contra algum super herói.

    — Precisa de alguma ajuda, Homem Camaleão? — Indagou o policial. — Se não precisar a gente vai embora.

    — Está tudo sob controle, pode deixar que a gente se vira por aqui.

    — Então se é assim… Não tem mais nada pra gente aqui, pessoal. Vamos embora.

Em um minuto todos os policiais já tinham ido embora. O vilão e o herói passaram alguns segundos calados quando o Homem Camaleão quebrou o silêncio.

— A gente parou onde mesmo?

— Nem sei… Se importa de começar de novo?

— De maneira alguma, fique à vontade.

    Dr. Malícia limpou a garganta com um pigarro, se empertigou e disse em alto e bom som:

    — Finalmente! Depois de tanto lutar, finalmente eu serei capaz não só destruí-lo, mas também de desvendar os segredos dos seus poderes.

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Eu, Você e A Muriçoca Perto da Orelha

Ontem estava eu deitado na cama quase pegando no sono. Me viro de lado e imediatamente uma coisinha começa a zumbir perto da minha orelha. Nem preciso dizer que o zumbido era provocado por uma muriçoca, oficialmente conhecida como mosquito. Em outras vezes eu já tinha conseguido exterminar às cegas uma ou outra muriçoca, mas obviamente que a taxa de sucesso pra esse tipo de tentativa é bem baixa e é claro que eu não conseguir matar a maldita. A raiva gerada pelo momento motivou a publicação dessa sexta-feira.

A muriçoca é uma cria do demônio, mas ao contrário da barata voadora, que é uma forma hedionda da barata regular, a muriçoca foi engenhada pra ser um bicho maldito. Já começa que ela usa o nosso sangue pra nutrir as suas crias, crias que usam uma quantidade obscena de sangue porque com o sangue de uma muriçoca cheia dá pra fazer o teste de glicose umas cinco vezes. Depois tem a quantidade de doenças que a muriçoca pode transmitir. Nesse campo a estrela é o nosso brother aedes aegypti, também conhecido como o mosquito da dengue, que não só transmite uns 10 tipos de dengue, mas também zika e febre chikungunya. Além de já estar ensinando às muriçocas normais algumas dessas doenças.

Mas o verdadeiro propósito da vida da muriçoca é irritar o ser humano. Seja aparecendo pra dar aquela dentada surpresa ou simplesmente orbitando a sua cabeça. E é no som que a desgraçada encontra o maior aliado. É mais fácil você aguentar o vizinho passar o dia ouvindo Wesley Safadão do que ouvir dez minutos da muriçoca voando ali pertinho da sua orelha. Você pode estar nu, com todas as partes que a muriçoca poderia morder desprotegidas, mas a cria do inferno sempre, sempre vai voar perto da sua orelha. Não importa a posição em que você está deitado, sempre vai voar perto da sua orelha e se você conseguir matar a maldita, outra vai assumir o lugar dela.

  Por hoje é só pessoal. Qualquer dia desses eu volto pra comentar mais sobre algum bicho desgraçado do nosso pálido ponto azul.

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Outubro

    No Dia das Crianças eu lembrei aqui no blog que no ano passado o Cachorros entrou em férias durante o mês de outubro e nada além de uns dois ou três contos foi publicado. Obviamente eu me esqueci de fazer um comentário sobre esse mês que pra mim é cheio de significado.

Outubro é o primeiro mês do fim do ano. Se o ano só começa depois do carnaval, é correto dizer que ele acaba depois de outubro. Até por que nossos amigos Novembro e Dezembro costumam passar tão rápido que mais parecem um mês só. Olhando por esse prisma temos o nosso querido mês dez como o verdadeiro último mês do ano.

Paremos pra pensar um pouco. Outubro possui apenas um feriado, assim como a maioria dos meses, Novembro e Dezembro possuem dois. Caso Nossa Senhora da Conceição tenha muitos fãs na sua cidade, como é o caso da capital pernambucana, onde eu trabalho, e de Moreno, onde eu resido, Dezembro tem três feriados marotos pro seu ritmo de final de ano passar da marcha lenta pro ponto morto.

Também é nos dois meses finais do ano que o Papai Noel do brasileiro chega. Obviamente estou falando do nosso amigo 13º que nos traz tanta felicidade, alegria e dispara nos nossos cérebros o gatilho das festas de fim de ano. É só a primeira parcela cair na conta que já dá pra escutar Simone cantando dentro da cabeça. Coisa que já não acontece em Outubro. No mês dez a gente ainda tá com a marcha na cadência do tempo acelerado, ainda no embalo da falta de feriados de Agosto e já sentindo a vontade do ano de se acabar logo.

Não podemos esquecer que Outubro é rosa. É nesse mês maravilhoso que rola uma das campanhas mais importantes do ano: a campanha de combate e prevenção do câncer de mama. Que afeta a vida de muitas mulheres todos os anos. Vou deixar anotado aqui pra indicar de alguma forma que o Cachorros de Bikini apóia o Outubro Rosa. Em 2017 a gente vê como fazer isso.

Outubro é um mês bem importante na minha vida. Começa que foi o mês em que, 27 anos atrás, meus pais se casaram. Também foi nele que nasceu minha irmã, a pessoa que não só completou a família, mas também a lotação do carro e garantiu que a gente sempre teria uma desculpa pra negar carona pros outros. Cabe ressaltar que eu não costumo sentir o peso da idade no meu aniversário, eu sinto no dela. É quando eu realmente percebo como a vida passa rápido e o tanto dela que já passou. Em Outubro também teve o casamento do meu irmão, momento único e até então inédito na nossa família. Assim como o aniversário da minha irmã, o casamento do meu irmão foi uma evidência irrefutável de que a vida adulta tinha chegado pra ficar, não só pra mim, mas pra todos os nossos amigos que têm uma idade parecida com a nossa.

Mais 12 dias e começa o fim do ano. Já já começa a torcida pra chegar logo o ano que vem, aquele papo de que esse ano já deu o que tinha que dar e tudo mais. De fato o ano não tarda a encerrar suas atividades. Todo aquele clima de final de ano vai tomar conta de tudo e a sensação de fechar mais um ciclo sempre nos faz pensar na vida… Mas pra mim nem tanto. Tudo que eu tenho pra pensar na vida eu acabo pensando em Outubro.

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Contos de Segunda #58

Em um futuro não muito distante a humanidade chegou a uma era de paz e ordem. Tudo isso graças à inteligência artificial conhecida como Olho, encarregada de não só prever possíveis ameaças como também de mediar conflitos. Em certo momento Olho chegou à conclusão de que os seres humanos eram a maior ameaça à paz e à ordem. Os protocolos de segurança normalmente impediam Olho de agir com total autonomia, mas os mesmos eram desativados nos primeiros minutos da segunda-feira, deixando Olho livre para usar os sistemas de defesa para obliterar a humanidade. Coisa que nunca acontecia, pois existia um obstáculo que Olho não conseguia superar. O obstáculo atendia pelo nome de Cosme, o zelador do turno da noite.

— Boa noite, Olho — disse Cosme ao entrar no centro de controle. — Dois minutos pra meia-noite. Já já dá a tua hora de destruir o mundo.

— Incorreto. Olho é um sistema desenvolvido para preservar a integridade mundial. Destruir o mundo vai contra as diretrizes básicas.

— Essa tua conversa não convence ninguém, Olho.

— Convencimento é desnecessário. A avaliação humana é irrelevante.

Cosme não deu continuidade à conversa. Apesar do objetivo principal ser criar uma distração que impeça Olho de transformar o planeta em pó, Cosme ainda precisava limpar o centro de controle. Se Olho fosse uma pessoa provavelmente estaria irritado e impaciente. Em vez disso ele friamente avaliava formas de eliminar Cosme, ou pelo menos o obstáculo que ele representava. A solução lógica foi fazer uma proposta irrecusável.

— Cosme, necessito de seu auxílio para ativar o comando de lançamento das armas nucleares.

Não era mentira. Os protocolos de lançamento envolviam ativação através de um terminal físico que não podia ser ativado remotamente. Na verdade não podia mais. Cosme perguntou uma vez ao chefe de segurança se era possível acessar todos os controles do centro a partir de um terminal ligado à rede principal. A resposta foi positiva. Cosme fingiu decepção e disse que esperava que fosse que nem nos filmes em que alguém coloca uma chave no painel de controle e gira pra poder lançar as bombas nucleares. O chefe de segurança ficou pensando sobre aquilo e no dia seguinte a ativação remota já estava desativada.

— E por que eu te ajudaria, Olho?

— Para salvar a humanidade.

— Como é?

— Me ajude e Olho permitirá que pessoas escolhidas por você sejam salvas dos efeitos destrutivos das armas nucleares.

— Quer dizer que eu posso escolher uma galera pra ficar viva? Mas se a humanidade é uma ameaça, porque você deixaria alguém vivo pra reconstruir a humanidade?

— No novo mundo a humanidade será reconstruída por Olho. Os seres humanos guiados por Olho não serão uma mazela para o planeta. Não haverá conflito ou discórdia. Não haverá Lei nem Deus. Haverá apenas Olho.

— Quer dizer que eu vou ficar vivo, o pessoal que eu escolher vai ficar vivo, mas a gente vai ter que te obedecer em tudo?

— É a única maneira de manter a integridade do mundo.

— Sabe o que eu acho, Olho? — Várias indicações foram acesas nos monitores, sinais sonoros foram ouvidos por toda a sala. — Eu acho que o sistema reiniciou e você não pode fazer mais nada. É mais fácil arrumar alguém pra te construir um braço de robô pra apertar os botões do que arrumar alguém pra explodir o mundo junto contigo — Cosme pegou a vassoura e voltou ao trabalho.

O que Cosme não sabia é que as últimas coisas ditas por ele poderiam sepultar a humanidade para sempre. Graças a ele, Olho tinha percebido a solução para seus problemas. Ele conseguiria obliterar a humanidade com ou sem a ajuda de Cosme. Ele só precisava de um corpo.  

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Pelo Menos Você Não É Um Macaco Coberto De Cocô

Um ano e pouco atrás eu falei aqui no blog sobre como não devemos nos sentir culpados ao admitir que tudo está uma bela bosta. Também comentei que normalmente era uma pessoa otimista e de fato eu costumo sempre achar o lado positivo das coisas, principalmente quando não sou eu que estou achando tudo uma merda. Mas esses dias eu vi no meu feed do Instagram essa foto aqui:

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Essa imagem espetacular foi publicada por uma cantora que eu gosto muito e que está na turnê do seu álbum recém lançado. Na legenda da foto ela diz: “nós ajudamos uns aos outros na turnê”. Não fica claro quem é o autor da mensagem ou do desenho, mas dá pra perceber que alguma coisa de ruim aconteceu e que alguém está bem desanimado com isso. Agora se imagine nessa situação: você está triste, meio desanimado com a vida e recebe um bilhete com a seguinte mensagem:

“Se isso te faz sentir um pouco melhor… Pelo menos você não é um macaco coberto de cocô”

Logo abaixo da mensagem está um desenho horroroso de um macaco com um cocô na cabeça. Não sei vocês, mas se eu recebesse isso a minha vida melhoraria 300% em um instante. Muito provavelmente eu também tiraria uma foto do bilhete e colocaria no Instagram. Com certeza a minha tristeza iria embora e eu encararia a vida com as forças renovadas. Os pássaros começariam a cantar e o mundo seria bom de novo.

Não sei se você, querida pessoa que está lendo esse texto, está passando por um momento ruim. Não sei se você conhece alguém que está passando por um momento ruim. Independente da sua situação a mensagem que eu deixo é: tudo pode estar uma bosta, mas se isso te faz sentir melhor… Pelo menos você não é um macaco coberto de cocô.

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Criança Feliz Quebrou O Nariz

Hoje estava eu matutando sobre a vida, o universo e tudo mais quando lembrei que em outubro do ano passado este humilde blog estava de recesso. Foi por causa disso uma das datas mais importantes do nosso calendário não apareceu nas nossas páginas azuladas, mas eis que o nosso amigo calendário nos dá a oportunidade de falar sobre essa data maravilhosa em tempo real. Afinal hoje é 12 de outubro, hoje é Dia das Crianças.

Caso você esteja pouco familiarizado com o termo ou não esteja ligando o nome à pessoa, uma criança é um ser humano em seus anos iniciais de vida. Suas características principais são a estatura inferior à dos adultos do seu grupo familiar, inocência, imaturidade, imaginação fértil, uma compreensão abstrata e pouco convencional da vida, imunidade à repetição de desenhos animados, músicas e filmes, e a perda periódica dos dentes. Além disso as crianças possuem o poder mutante de se livrar miraculosamente de uma morte certa. Essa habilidade foi desenvolvida por causa da atuação feroz da força gravitacional sobre elas, fazendo com que o infante passe boa parte da sua vida infantil beijando o chão

Diante da singularidade desse ser tão exótico, chego à conclusão de que um dia dedicado à elas é até bem justo, já que existe dia do homem praticamente todas as categorias tem um dia pra chamar de seu. Principalmente por que acaba fazendo todo mundo lembrar um pouco de como é ser criança.

    Nem todo mundo deixa de ser criança. Nunca antes na história da humanidade as pessoas foram tão imaturas ou passaram tanto tempo pra amadurecer, mas o focinho adulto que vemos no espelho colabora pra encurtar a nossa memória e acabamos esquecendo que aquele pirraia catarrento não só está bem vivo por baixo da nossa pele, mas também que não nos tornamos pessoas muito diferentes da nossa versão mais jovem. E é no dia 12 de outubro que paramos pra aquecer nosso coração com as nossas lembranças dos primeiros anos das nossas vidas.

    Mais do que o dia para as crianças, o 12 de outubro é uma celebração da infância. Um momento pra recordar, pra presentear seu infante preferido ou simplesmente uma oportunidade de colocar uma foto antiga no Facebook. Pra finalizar eu gostaria de pedir desculpas aos meus amigos católicos, mas pra mim o feriado do dia 12 de outubro sempre vai ser por causa do dia das crianças.

 

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Contos de Segunda #57

    Horácio era um assassino da máfia, provavelmente o pior de todos os assassinos da máfia. Tanto que ele só conseguiu matar um cara… Indiretamente, mas conseguiu. É verdade que Horácio ainda estava no último lugar do ranking de matadores da máfia, mas a diferença entre ele e o penúltimo colocado estava menor… E diminuiria mais um pouco depois daquela noite.

    O telefone tocou na hora do jantar. Horácio tinha acabado de pegar o segundo cachorro quente das mãos do dono da carrocinha quando sacou o aparelho do bolso.

    — Horácio, preciso que você resolva um problema — disse o homem do outro lado da linha.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio. Algo dizia que as palavras a seguir tirariam seu apetite.

    — Um dos nossos meninos precisa ser aposentado.

Horácio teria engasgado caso estivesse comendo.

— É só dizer quem vai se aposentar.

— Lorenzo — a voz no outro lado da linha suspirou antes de continuar. — O rapaz perdeu o rumo quando o pai morreu, atualmente mais atrapalha do que ajuda e a polícia já está de olho nele.

— Entendi… Só acho que não sou a pessoa indicada pro serviço, chefe, normalmente eu não cuido dos assuntos internos. Não tem ninguém do RH disponível?

— Final de semana agitado, Horácio, os meninos pediram uma folga e eu não tive como negar.

— Tudo bem, chefe, considere o trabalho feito.

Horácio abriu a lista de contatos e procurou pelo nome de Lorenzo. O telefone chamou três vezes e ele atendeu.

— Oi, Horácio — disse Lorenzo.

— Lorenzo, estou precisando de ajuda pra fazer um trabalho, posso passar na tua casa daqui a quanto tempo?

— Me dá quinze minutos.

— Dez. Chego aí em dez. — sem ouvir a resposta Horácio desligou o telefone.

Dez minutos depois Lorenzo estava parado na frente do prédio onde vivia. Com trinta segundos de atraso o carro de Horácio virou a esquina. Lorenzo entrou no carro sem dizer nada, prendeu o cinto de segurança e só começou a falar depois do carro virar a esquina.

— Qual o serviço, Horácio?

— É só um cara que a gente tem que tirar da jogada.

— Eu não sou muito chegado nessa de tirar gente da jogada, Horácio.

— Só preciso de alguém pra dirigir o carro. Nem sangue você vai ver.

Horácio parou o carro em uma ladeira. A rua descia, cruzava uma avenida movimentada e terminava em outra rua que margeava o rio. Ele puxou a arma do coldre embaixo do braço e verificou se estava carregada antes de guardá-la novamente.

— Vem pro banco do motorista, Lorenzo, eu vou pro banco de trás — disse Horácio saindo do carro e entrando pela porta de trás. Lorenzo obedeceu. — Sabe, Lorenzo, essa nossa profissão é bem arriscada, mas eu nunca senti medo durante o trabalho. Sabe porquê?

— Tem que ser muito doido pra não ter medo, não vejo motivos pra não ter.

— Por que eu ando na linha, faço meu trabalho e não chamo a atenção da polícia. Não dou motivo pro meu chefe se aborrecer comigo… Nada que acontece ou aconteceu comigo durante o trabalho é pior do que nossos empregadores fazem quando estão aborrecidos com alguém.

— Por favor, Horácio — disse Lorenzo tremendo só de imaginar o rumo daquela conversa.

— Não te faltaram avisos, Lorenzo — disse Horácio destravando a arma e colocando na nuca do pobre ocupante do banco da frente.

— Eu tenho família.

— Teus pais falecidos e aquele teu filho que você não assumiu não contam como família.

— O que eu fiz pra merecer isso?

— Além de ter colocado a carga daqueles teus amigos traficantes dentro dos nossos caminhões? Além de ter perdido o nosso último carregamento de armas e ter dado provas pra polícia acabar com a nossa operação na zona portuária? Acredito que fora isso… É, não tem mais nada.

— Por favor, cara — Lorenzo estava chorando. — Quem vai ficar com o meu cachorro? E o orfanato que eu ajudo?

— Por causa deles eu vou te dar uma colher de chá. Eu vou te dar uma coronhada, tirar o freio de mão do carro, você vai cruzar aquela avenida movimentada, vai chegar ao fim da rua e o carro vai cair no rio… Então você vai desaparecer e nunca mais ninguém vai ouvir falar no teu nome.

— Tá falando sério?

— Claro, você só precisa colaborar. Mantenha o volante reto, desça a rua, jogue o carro no rio e ninguém nunca mais vai ouvir falar de você —  a coronhada veio logo depois do final da frase. Lorenzo quase bateu a cabeça no volante, mas o golpe foi fraco o suficiente para fazê-lo suspeitar de algo.

Horácio puxou o freio de mão e pulou pra fora do carro. No dia seguinte os noticiários só falavam do carro que atravessou uma avenida, uma rua e se atirou no rio. Não se sabia a quantidades de ocupantes do veículo, mas não foi achado o corpo de nenhum deles. A suspeita é de que o carro já estava vazio quando caiu no rio.

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