Cachorros de Bikini

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Categoria: Contos de Segunda (Página 1 de 10)

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Contos de Segunda #90

Fernanda estava tentando controlar a raiva. A terapia estava começando a dar bons resultados e os acessos de fúria eram cada vez mais raros. Atualmente pouquíssimas pessoas tinham medo dela e menos ainda tinham motivos concretos para tanto. Uma dessas poucas pessoas era Cristina.

Fernanda e Cristina se conheciam desde sempre e, apesar de serem grandes amigas, as duas conheciam muito bem qual era o tamanho do pavio de cada uma, por isso elas sabiam quem chamar quando entravam numa briga. Não por acaso o contato de Fernanda no no celular de Cristina tinha o sugestivo nome de “Tropa de Choque”.

Cristina estava comprando o presente de aniversário da mãe quando recebeu uma mensagem:

“Tá afim de jantar hoje?”.

A mensagem era de Augusto, um cara com quem Cristina tinha saído umas três vezes. Ele não fazia muito o tipo de Cristina, mas tinha acabado de voltar da Europa e a moça estava começando a pensar no roteiro das próximas férias. Pelo menos os dois teriam bastante assunto. O encontro estava indo muito bem até que Augusto começou com um papo muito estranho sobre futuro, compromisso, relacionamentos e outras coisas que Cristina sabia muito bem onde iam dar. Era melhor dar um jeito de terminar logo aquele encontro.

— Desejam escolher uma sobremesa? — Disse o garçom ao recolher os pratos.

— Já passei do meu horário — respondeu a moça. — Só a conta por favor.

— Cristina, eu estive pensando muito nesses últimos dias… Pensando muito na gente — começou Augusto.

“Ah, não”, pensou ela.

O rapaz colocou a mão sobre a dela e olhou direto nos olhos da moça.

“Pelo amor de Deus… Não”.

— Faz tempo que eu quero assumir um compromisso, só faltava a pessoa certa.

Ela tirou a mão debaixo da mão dele.

— Não vai rolar, Augusto — cortou ela. — É melhor a gente só pagar a conta, eu pego o presente da minha mãe, entro num táxi e cada um segue o seu caminho.

***

O telefone de Fernanda tocou. Para a surpresa da moça, era uma ligação de Cristina.

— Oi, sumida — atendendeu Fernanda.

— Amiga, eu tô com um problema e preciso de uma ajudinha.

— Diz aí.

— Um cara me chamou pra jantar e quando a gente tava esperando a conta ele me pediu pra namorar com ele.

— E o que tem isso?

— Vamos dizer que eu… Dei um fora no sujeito e ele não aceitou muito bem.

— Ele fez alguma coisa contigo? — O tom de Fernanda estava mais sério.

— Não, mas lembra que tá chegando o aniversário da minha mãe?

— Sei.

— Eu comprei o presente antes de vir jantar e deixei no carro do sujeito. Agora ele não quer me deixar pegar.

— Onde vocês estão?

— Naquele restaurante que teu pai trazia a gente pra almoçar.

— Chego aí em um minuto, não deixa ele sair até eu dizer.

— Pode deixar — disse Cristina antes de largar o celular.

Ela estava tentando aplicar a variante mais desajeitada e ineficaz do mata-leão no ex-futuro namorado. Teria funcionado se Augusto não fosse uns trinta centímetros mais alto e Cristina soubesse o que estava fazendo.

— Me solta, sua louca — disse ele.

— Só depois de devolver o presente

— Eu não vou devolver nada.

Menos de um minuto depois o telefone de Cristina tocou.

— Oi — disse a moça.

— Deixa ele sair — respondeu Fernanda do outro lado da linha.

Imediatamente Cristina libertou Augusto da semi-imobilização. O rapaz entrou apressado no carro e saiu, mas não antes de colocar a cabeça para fora da janela e gritar.

— SUA DOIDA!

O carro de Augusto mal tinha colocado as rodas na avenida quando foi atingido por outro veículo no lado do passageiro. Ainda desnorteado pelo susto, Augusto olhou para o motorista do outro veículo. Atrás do volante estava uma moça, ela usava um colar cervical, um protetor bucal, igual ao que lutadores usam, e um capacete. Ela tirou o capacete, o protetor bucal, o colar cervical, abriu a porta e desceu do veículo carregando uma marreta. Deu a volta no carro e bateu de leve no vidro do lado do motorista com dois dedos. Augusto abriu.

— E aí, meu velho, tudo certo? — Fernanda estava sorrindo, um sorriso demoníaco demais para transmitir simpatia.

— Mais ou menos — respondeu Augusto ainda tentando processar o ocorrido.

— O negócio é o seguinte — começou ela. — O presente da mãe da minha amiga tá aí no teu banco traseiro e ela tá querendo de volta.

— Ela que compre outro presente.

Fernanda girou a marreta e estourou o vidro da porta de trás.

— Eu podia só pegar o presente, mas eu prefiro que você me entregue. Sabe como é, eu prefiro quando as pessoas colaboram comigo.

Alguns instantes depois Fernanda estava entrando no estacionamento com um sorriso no rosto e a sacola do presente na mão. Ao longe dava para ouvir o som dos pneus de Augusto cantando.

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Contos de Segunda #89

    Espaço, a fronteira final. Depois de milênios se lançando ao espaço a humanidade finalmente ocupou todo o Sistema Solar, mas não foram só os membros valorosos de nossa espécie que alcançaram as estrelas. Uma grande variedade de trapaceiros, ladrões, contrabandistas e piratas proliferaram por todas as órbitas. Dentre os criminosos mais procurados poucos eram tão famosos quanto Jeannie Nitro, capitã da Combatente 69.

    Depois do assalto ao cargueiro perto de Marte, Jeannie e sua tripulação foram para a Lua. No passado apenas um satélite natural, no presente a maior metrópole do Sistema Solar e a maior concentração de escória e vilania que a humanidade já viu. Foi nesse local tão agradável que Jeannie aguardou semanas pelo contato do seu cliente, o homem que pagou uma fortuna para que ela roubasse um contêiner. Um pequeno, que tinha uma trava com senha. Normalmente esse tipo de trabalho era fácil, mas a aparição de dois cruzadores da Frota Marciana deixaram a Capitã Nitro com a pulga atrás da orelha.

    O encontro foi marcado em um dos bares mais conhecidos da área portuária da Lua. Jeannie estava acompanhada por Sheila e Dolly. Normalmente a capitã preferia ir acompanhada de Charles Chacal, seu copiloto, e Lupe Brown, sua especialista em navegação e comunicação, mas os dois tinham ficado na nave junto com Walter Grace, o engenheiro da Combatente 69. Algo não estava cheirando bem e poucas pessoas no Sistema Solar eram tão boas com uma arma na mão quanto Sheila e Dolly Adaga. As três mal foram notadas quando chegaram no bar e ocuparam uma das mesas mais afastadas.

— O contato vai chegar em dez minutos — começou a capitã. — Ele quer falar comigo em particular, então vocês vão trabalhar no nosso plano de fuga.

— Acha mesmo que as coisas vão esquentar, capitã? — Perguntou Dolly.

— Algo me diz que sim, mas vamos esperar pra ver. Já passaram nossa posição pro pessoal que ficou?

— Coordenadas transmitidas, capitã — respondeu Sheila.

— Coordenadas recebidas, capitã — disse Lupe no comunicador.

— Então saiam daqui, fiquem de olho em qualquer coisa suspeita e não arrumem confusão.

Jeannie ficou de olho no ambiente. Sentada de costas para a parede ela observava todos ao redor em busca de alguém que parecesse estar de olho nela. Foi quando um androide se aproximou e puxou uma cadeira. No lugar do rosto ele tinha uma tela e a constituição frágil indicava que ele não tinha outra função além daquela.

— Saudações, Jeannie Nitro.

— Você é o meu contato?

— Negativo. Assim que a segurança da conversa for garantida iniciarei a transmissão. Por favor, coloque estes fones de ouvido — o androide estendeu a mão oferecendo duas peças gêmeas para a capitã.

— O microfone foi adaptado para embaralhar a sua voz, nenhum dos presentes entenderá uma palavra do que será dito por você.

A capitã obedeceu. Posicionou os fones sobre as orelhas e observou quando a tela que servia de rosto para o androide começou a mostrar um homem parcialmente encoberto pelas sombras.

— Fico feliz de saber que o assalto deu certo, capitã.

— Eu poderia estar feliz assim, mas depois de esperar quase um mês por um mísero contato o meu humor não está dos melhores.

— Precisava ter certeza de que sua nave não tinha sido rastreada até aí.

— Demorou um mês pra ter certeza?

— Não. Demorou um mês para que os agentes da Frota Terrestre baixassem a guarda. Sua nave não foi rastreada, mas a Lua tem olhos e ouvidos demais. Não demorou nem duas semanas para que soubessem que estava aí, mas eles precisavam saber o que aconteceu com o item roubado, por isso esperaram.

— Só me faltava essa…

— A operação de cerco está sendo desmobilizada hoje, é justamente por isso que os agentes estão indo aí te encontrar. É a última chance deles antes de serem realocados para outra operação.

— Porque não me avisou?

— Se você soubesse já teria tentado fugir daqui. Eu precisava dar um jeito de chamar a atenção deles e nada melhor do que Jeannie Nitro em um bar. Sozinha, sem o menor sinal da sua tripulação ou da sua famigerada nave. As naves de patrulha partiram assim que foi decidido que apenas os agentes de campo seriam suficientes.

— Então você preparou a fuga da minha nave, mas pra isso me usou de isca?

— Não se coloque nessa posição indigna, Nitro. Tenho certeza que a última coisa que os agentes de campo vão conseguir fazer é te prender.

— Quanto tempo eu tenho?

O homem olhou para o relógio.

— Dois minutos.

— Pra onde eu devo ir depois que eu sair daqui?

— Marte. O androide vai fornecer as coordenadas.

O autômato entregou um cartão de dados.

— Seu tempo está acabando, Jeannie. Boa sorte, nos vemos em Marte.

A capitã sacou a pistola. Um disparo atingiu o torso e outro atingiu a cabeça do androide. Várias armas foram sacadas e destravadas. Todos os olhos estavam em Jeannie Nitro e na carcaça fumegante do pobre mensageiro mecânico, mas por poucos segundos. Cargas explosivas cuidadosamente posicionadas detonaram uma das paredes do bar. Linhas vermelhas de luz cruzaram a poeira da explosão poucos instantes antes de uma dúzia de operativos com rifles de assalto. Um dentre eles levantou a voz e ordenou:

— Todos no chão! Jeannie Nitro, jogue suas armas no chão e saia com as mãos para cima.

Jeannie paralisou por um segundo, a situação estava se complicando mais rápido do que esperava. Como se não bastasse precisar fugir da Lua ainda precisaria chegar à superfície de Marte. O som de um disparo cortou os pensamentos da pirata. Um dos clientes do bar foi alvejado, um segundo depois os demais abriram fogo. Jeannie virou a mesa e se jogou por trás dela. Tiros zuniam por todos os lados, mas nenhum atingiu a mesa, aparentemente ela ainda não tinha sido avistada pelos agentes.

— Capitã? — Chamou Dolly pelo comunicador.

— Na escuta.

— Capitã, não consigo entender — respondeu Sheila. — Eles devem estar interferindo… Estamos atrás do balcão, identificamos uma rota segura, mas a senhora precisa vir pra cá.

O balcão ficava do outro lado do salão. Ela só precisava correr. A pirata se levantou olhou para o objetivo e saiu correndo. Disparou algumas vezes contra os agentes na esperança de atingir alguns deles. As irmãs Adaga demoraram um pouco para perceber o que sua capitã estavam fazendo, mas assim que perceberam o que estava acontecendo descarregaram suas armas nos soldados do governo.

— Capitã, precisamos ir para o banheiro — disse Dolly disparando uma rajada contra os inimigos

— Banheiro?

— Tua voz tá embaralhada, Capitã — respondeu Sheila quando tirou o pino da granada de fumaça e atirou contra os agentes.

Jeannie finalmente lembrou dos fones e os arrancou das orelhas.

— O que tem o banheiro?

— Vamos abrir a saída lá — respondeu Dolly. — Vão na frente, eu dou cobertura.

Sheila e Jeannie saíram correndo na direção do banheiro, Dolly chegou logo depois.

— E agora? — Perguntou a Capitã.

— Cubram os ouvidos  — respondeu Sheila antes de acionar o detonador.

Uma das paredes do banheiro explodiu, revelando o beco que ficava por trás do bar. As três saíram correndo pela passagem recém aberta

— Charles? — Perguntou Dolly.

— Na escuta.

— Vem logo pegar a gente — ela fez uma pausa por causa de alguma outra explosão dentro do bar. — Saímos do bar, você vai precisar corrigir nossa localização.

— Assim que estiverem paradas transmitam as coordenadas novas — interrompeu Lupe. — Faremos a correção da localização pelo sinal de emergência da Capitã.

— Entendido — respondeu Jeannie acionando o sinal de emergência do comunicador.

Elas saíram do beco na direção da rua principal, mas os soldados estavam por todo lugar. Veículos leves sobrevoavam os prédios anunciando o nome da capitã nos alto falantes. As três correram pelo beco, entraram pela porta de trás de uma loja  e saíram pela vitrine. Correram pela rua, subiram em uma passarela e se jogaram sobre um telhado próximo.

— Charles, cadê você? — Disse Nitro.

— Trinta segundos, Capitã. Somos grandes demais pra manobrar rápido no meio desses prédios.

— Inimigo chegando, Capitã — alertou Sheila.

Atiradores estavam nos telhados próximos. Os veículos leves disparavam sem precisão suas armas automáticas. Dolly deu um tiro certeiro na cabeça de um dos pilotos, o veículo descontrolado caiu bem perto delas, erguendo uma cortina de fumaça escura. Sheila foi atingida no ombro e outro tiro pegou de raspão na testa, Dolly estava mancando e aparentemente a munição estava no fim. Jeannie descarregou o último pente em um agente que estava descendo por um cabo pela fachada do prédio ao lado.

— Capitã? — Perguntou Walter. — Estamos em posição, vou acionar a arma magnética.

— Rápido, Walt!

As três mulheres foram puxadas do telhado no instante em que a Combatente 69 fazia um rasante sobre o edifício. O fogo choveu sobre a nave, mas por poucos instantes. Segundos depois ela já estava fora do setor orbital da Lua.

O comunicador interno da nave tocou, era Lupe.

— Qual a nossa próxima parada, Capitã?

— Marte — respondeu a capitã. — Próxima parada, Marte

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Contos de Segunda #88

— Puxe uma cadeira, Carmim, a história é meio longa — foi o que o chefe de polícia disse quando eu abri a porta da sala.

Era uma segunda-feira chuvosa de um dos invernos mais gelados dos últimos anos. Eu mal tinha terminado de almoçar quando recebi uma ligação do departamento de polícia. Não quiseram me adiantar nada pelo telefone, mas pediram para aparecer na central assim que possível, de preferência imediatamente. O cheiro ruim chegou às minhas narinas bem antes de eu sair do meu escritório e não melhorou nada depois da minha conversa com o Chefe O’Hara.

— Não estou para histórias longas, Chefe.

— Muito ocupado?

— Bem menos do que eu gostaria, mas algo me diz que o senhor me chamou aqui porque arrumou um problema que está difícil de resolver. Um problema que não é meu, mas vai ser, assim como todos os prejuízos que a resolução desse problema vai trazer.

— Deixe de ser chorão, Carmim — desdenhou o chefe torcendo o rosto em uma careta. — Você sempre foi muito bem remunerado pelos serviços prestados ao Departamento.

— Além de todas as despesas médicas. Da última vez eu fui baleado duas vezes, uma delas por um dos seus homens.

— Nem sempre é possível saber quais dos policiais têm ligação com o crime, detetive, e suas roupas vermelhas também não te ajudam quando alguém precisa decidir em quem atirar.

— Melhor cortar essa discussão e partir logo para o assunto, Chefe.

— Pois bem — disse ele se ajeitando na cadeira. — Imagino que esteja ciente do desaparecimento de algumas pessoas nos últimos tempos.

— Pessoas desaparecem, Chefe. Acontece em todo lugar.

— Já ouviu falar de William Doyle?

— Magnata da indústria têxtil.

— Desaparecido há cinco semanas — disse O’Hara colocando a foto do desaparecido sobre a mesa. — Lembra de Dominique Loup?

— A cantora? Ela estava sendo vítima de chantagem e me contratou para descobrir quem era o chantagista.

— Três semanas atrás ela cantou na rádio e errou o caminho quando voltava para casa — mais uma foto sobre a mesa. — Não foi vista desde então. Imagino que conheça Klaus Gleizer.

— Não costumo me relacionar com banqueiros, mas sei bem que é.

— Desapareceu na semana passada — outra foto sobre a mesa.

— Pensei que os ricaços só desapareciam quando sequestrados.

— Não é o caso, Carmim. Não houve nenhum contato posterior ao desaparecimento.

— A polícia sabe onde eles desapareceram?

— Não. Os três circulavam por áreas bem distintas da cidade e não encontramos nenhuma ligação entre eles.

— Alguma informação útil das famílias?

— Doyle é viúvo e nunca teve filhos, Dominique aparentemente cortou ligações com a família quando decidiu seguir a carreira artística, quem nos procurou foi o seu empresário.

— E Klaus Gleizer?

— A família toda vive na Europa e a diretoria do banco optou por manter o desaparecimento em segredo por enquanto. Eles imaginam que tudo se resolverá em poucos dias.

— Alguma notícia de outros desaparecimentos em circunstâncias similares?

— Até agora não.

— Infelizmente não vou poder cobrar o valor de sempre. Esse caso tem cara de que vai dar muito trabalho ou muita dor de cabeça.

— Considere um aumento de vinte por cento. Estou sendo pressionado por todos os lados por causa desses desaparecimentos.

— Algum dos seus vai me auxiliar?

— Me aponte um culpado e vai ter todo o auxílio que precisar.

Provavelmente algum auxílio médico.

— Darei notícias assim que possível — me levantei ainda no meio da frase. — Se importa se eu ficar com as fotos?

— De forma alguma. Pedi para colocarem algumas informações úteis no verso. Não posso fornecer nossos arquivos, mas não vou te deixar às cegas.

— Não esperava menos do senhor.

Na verdade eu esperava bem mais, sempre se espera bem mais da polícia.

A volta para o escritório foi rápida. As informações dadas pelo Chefe O’Hara estavam se batendo sem rumo dentro do meu cérebro e eu precisava começar a ligar os pontos, mas não antes de dar alguns telefonemas. Uma busca minuciosa na casa dos desaparecidos e as coisas começariam a fazer sentido. Entrei no prédio, subi alguns lances de escada e parei diante da porta entreaberta. Saquei a pistola e tentei ver algo pela brecha da porta. Não pude ver nada, mas o perfume que eu senti me fez guardar a arma, mas não me deixou mais tranquilo. Abri a porta devagar e encarei a mulher que me esperava sentada na minha cadeira com os pés sobre a mesa.

— Precisa de trancas melhores, Carmim.

— Trancas boas não me dizem quando alguém arromba meu escritório, Angela. Pensei que não gostasse de vir aqui, você costuma ligar.

Angela Bevoir era um dos maiores problemas da minha vida e também uma boa cliente. Normalmente o pagamento compensava a dor de cabeça, mas só a dor de cabeça.

— Não gosto. A localização é péssima, a limpeza é no mínimo questionável e os degraus são muito altos, mas o assunto é urgente.

— E qual seria?

— Ontem eu quase fui sequestrada — disse ela acendendo um cigarro. — Quero saber o porquê. Pode me ajudar?

— Depende.

— Do quê?

— Do quanto você sabe sobre a nova moda entre os ricaços da cidade.

— E qual seria?

— Desaparecer.

 

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Contos de Segunda #87

Hoje vamos finalmente concluir a primeira história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #80. Pra saber todos os detalhes dessa história é só dar uma passada em Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02,  Contos de Segunda #62 e Contos de Segunda #77.

Segunda-feira estava no chão. Aparentemente ela tinha passado um tempo desacordada.

“Eu apaguei?”, pensou Segunda. “Por que será que eu apaguei? Não sei bem… Eu lembro que eu estava junto com as meninas… A gente tava fazendo alguma coisa juntas… Acho que eu tava grávida… É, eu lembro de estar grávida, mas depois não tava mais… E tinha dois meninos jogando damas… Acho que eles me chamaram pra jogar com eles e me chamaram de…”

— AIMEUDEUSOQUEESSEMENINOFALOU? — Berrou Segunda-feira quando se recuperou do desmaio. A Dama rapidamente se colocou de pé e grudou as costas na parede. Olhou ao redor e percebeu que Quarta-feira também estava desmaiada, as outras irmãs só estavam em choque.

— Ele falou “Oi, mãe. Quer jogar com a gente?” — respondeu o mais velho.

— Se a senhora não gosta de damas a gente pode fazer outra coisa — disse o mais novo.

— A senhora tá meio pálida — observou o mais velho. — A senhora tá passando mal?

— Aquela moça desmaiou também, Domingo. Acho que ela também tá passando mal.

— Domingo? — Interrompeu Terça-feira.

— É. Meu nome é Domingo — disse o garoto fungando ao fim da frase e arrumando os óculos. — Não lembro de ter nascido de óculos.

— Deve ter aparecido porque a gente acabou de descobrir que nossa mãe usa óculos.

— Mas não apareceu nada na sua cara, Sábado.

— Verdade. Vai ver que você puxou mais a ela.

— Sábado? — Indagou Quinta-feira tentando sem sucesso reanimar Quarta..

— Isso. E vocês quem são? A gente só conhece minha mãe — respondeu sábado.

— Por motivos óbvios — completou Domingo.

— Somos as outras Damas da Semana — respondeu Sexta. — A desmaiada é Quarta, essa com a maquiagem pesada é Quinta, a vestida de hippie é Terça e eu sou Sexta, a melhor de todas.

— Muito prazer… Vocês são tias da gente então? — Perguntou Sábado.

— Sim — respondeu Terça abrindo um sorriso. — Venham aqui me dar um abraço.

Os garotos sorriram e obedeceram. Depois de alguns segundos nos braços da tia, Domingo questionou.

— Por que minha mãe não pediu pra abraçar a gente?

— Parir é uma experiência meio traumática – amenizou Quinta. — E vocês vão ver que a mãe de vocês não tem exatamente todos os parafusos no lugar, mas ainda é uma pessoa fantástica.

Quinta estava certa, aquilo tudo estava sendo muito traumático. Quando ela pensou em ter filhos, na verdade em ter um filho, esperava terminar todo o processo mágicoritualistico com um bebê nos braços e não com dois meninos já meio crescidos que mal nasceram e já sabiam jogar damas. Dois seres plenamente conscientes de quem eram e de quem ela era. Ela respirou fundo, contou até três e finalmente falou.

— Meninas podem nos dar um instante a sós?

As outras Damas saíram carregando o corpo ainda inerte de Quarta-feira para a outra sala. Segunda se abaixou para ficar na altura dos filhos. Os olhos mal podiam acreditar no que estavam vendo. Depois de alguns segundos eles mal podiam enxergar alguma coisa, estavam cheios de lágrimas. Antes que os olhos transbordassem Segunda abraçou seus dois meninos.

— Eu queria tanto vocês aqui — disse ela no começo de um longo abraço.

— Mãe… Acho que já dá pra soltar a gente — disse Sábado.

— A gente tem que ir pra casa… Eu acho — completou Domingo. — A gente vai morar aqui?  O que a gente vai fazer agora?

Segunda soltou os dois. Ela realmente não tinha pensado ainda nessa parte do plano.

— Bem — começou ela. — Acho que primeiro precisamos falar com a avó de vocês e torcer pra ela não transformar a gente em poeira cósmica.

A campainha tocou. A porta abriu e fechou imediatamente, logo depois alguém começou a bater na porta e Sexta apareceu correndo.

— A Mãe-de-Todas tá aqui — disse ela.

— Ah, não — suspirou Segunda.

— Quem é essa, mãe? — Perguntou Sábado.

— Deve ser a Vó-da-Gente — respondeu Domingo.

— Ah, tá.

— O que a gente vai fazer? — Perguntou Sexta.

— Não tem muito o que fazer. Manda a coroa entrar antes que ela derrube a porta.

A Dama da Lua entrou despejando uma quantidade cavalar de revolta sobre suas filhas. A que mais sofreu foi Terça que tinha fechado a porta na cara da mãe, Quarta acabou desmaiando de novo e Quinta tentou ganhar tempo com uma saudação exagerada.

— … Meu assunto não é com vocês — rosnou ela entrando na sala. — Eu quero falar com Segunda, aconteceu alguma coisa aqui e tenho certeza que foi culpa… — A Dama ancestral congelou ao ver as duas crianças. O olhar ia dos meninos para Segunda e de volta para os meninos.

— Oi, vó — disse Sábado impaciente com o silêncio.

— A gente pode chamar ela de vó? — Duvidou Domingo.

— Acho que sim — disse Segunda. — Saudações, Dama da Lua, fonte de tudo que é bom e mãe para todas nós.

— Saudações, Dama da Segunda-feira. Poderia me explicar quem são essas crianças e o que diabos está acontecendo aqui?

— Esses dois são meus filhos, Sábado e Domingo, acabaram de nascer.

— Filhos? São seus… Filhos?

— Exatamente — respondeu Segunda um pouco mais confiante.

— Eu ordeno que encontre um cavaleiro, coloco todas as tuas irmãs à disposição pra te ajudar e apareces com filhos? Como se um não fosse afronta suficiente, tu apareces com dois? DOIS!

— Meninos, por que não vão pedir pra tia Terça mostrar como ela vê o futuro nas jujubas vermelhas? Eu preciso conversar com a avó de vocês. É coisa rápida.

Os dois obedeceram.

— Quer sentar, Mãe?

— Estou nervosa demais para tomar um assento.

— Se não se incomoda eu vou me jogar nessa poltrona aqui, acabei de parir duas entidades cósmicas.

— Perdeu o juízo, Dama? Ficou louca de vez?

— Não vejo como gerar novas vidas pode ser sinal de insanidade.

— Estavas prestes a perder o controle de teus poderes, Segunda-feira. Precisavas de uma forma de esgotar tuas energias, de enfraquecer. Não só correste o risco de causar danos cósmicos irreversíveis, mas também de gerar duas entidades defeituosas, insanas e descontroladas. Uma Dama louca é algo reversível, mas uma coisa que já nasceu insana só tem a destruição como destino.

— Não me fale de Damas loucas, Mãe. Sabemos bem que nem todas podem ser controladas ou curadas. Não podem ou a senhora não quer que elas sejam.

— Não me provoque, Segunda-feira. Estou farta da tua insubordinação. Quem te ajudou?

— Não sou caboeta, Dama da Lua. Descubra a senhora.

— Não me provoque. Teu projeto de maternidade está por um fio. Com um gesto eu posso evaporar essas duas crianças.

— Não me provoque a senhora. Até onde me consta, meu santuário ainda estará ativo por mais algumas horas e eu posso estar enfraquecida pelo parto, mas eu ainda sou a dona da segunda-feira. Experimenta tocar em um táquion daqueles meninos pra ver o que acontece.

— Então é isso? Minha filha ameaça por causa dos crimes que ela mesma cometeu?

— Se encontrar um meio de me livrar da insanidade sem o uso de um mortal é um crime, Mãe, então pode me considerar culpada, mas agora eu posso te dar dois bons motivos pra me deixar seguir com a minha vida.

— Gerar filhos é um convite para o sofrimento, Segunda-feira.

— Não acontece com todas, Mãe. Não acontece sempre.

— Aconteceu comigo, Dama. A dor pode enlouquecer muito mais do que qualquer outra coisa.

— Não pense que eu não sei.

— E mesmo assim quer levar isso adiante?

— Não tenho escolha. Não lembro de casais querendo adotar entidades do tempo.

— Sabes que não vai ser fácil.

— Não estou sozinha, Mãe. Tenho minhas irmãs pra me ajudar.

A Dama da Lua deu um sorriso. Abriu os braços e abraçou a filha.

— Obrigado, Mãe.

— Me apresenta teus filhos?

— Eles vão ter que se apresentar sozinhos, faz menos de meia hora que eu conheço os dois.

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Contos de Segunda #86

Moacir estava de mau humor, não que isso fosse novidade. Ele deixava o mau humor de todas as segundas ao lado da carteira ou no bolso da calça para não correr o risco de esquecer. A diferença naquela segunda em especial era justamente o fato do mau humor ter um motivo, coisa bem rara atualmente. Moacir estava com um humor péssimo por estar com a sensação de que não tinha mais tempo para nada.

Na semana passada Moacir comprou um livro novo e um jogo de computador que estava em promoção, descobriu que tinha saído a temporada nova da série que ele acompanha e que rolou a estreia de mais duas séries novas que ele estava doido para ver, apareceram os amigos com a história de fazer encontros periódicos de jogatina offline e, além disso tudo, ainda estava chovendo todo dia.

Em todos os dias da semana anterior Moacir saiu de casa quebrando a cabeça para tentar achar uma forma de como otimizar o tempo. Tentou almoçar perto para ter mais tempo no horário do almoço, mas tudo que ele conseguiu foi encontrar com os colegas de trabalho que almoçavam perto e formavam uma fila que mais parecia a fila do show de um popstar adolescente. Experimentou pedir uma marmita da tia do almoço, só para descobrir que a tia do almoço tinha uma média de atraso de quarenta minutos em dias de chuva. Tentou levar a marmita de casa e acabou descobrindo que os outros marmiteiros do trabalho tinham um senso de comunidade tão forte que eles paravam para puxar papo mesmo nos dias em que ele não levava marmita, principalmente na hora do almoço.

Já que a hora do almoço se tornou inviável, ele decidiu diminuir a hora do almoço para tentar sair mais cedo. Teria dado certo se ele não tivesse feito isso justamente nos dias em que precisou fazer hora extra. Tentou acordar mais cedo, mas tudo que conseguiu foi descobrir como odiava o som do despertador antes do sol nascer. Ele teria conseguido dormir mais tarde se tivesse tentado isso antes de tentar acordar cedo, mas o sono dele estava tão doido que ele passou o resto da semana só pensando em dormir. O fim de semana chegou e tudo teria dado certo se a internet não estivesse com problemas, impedindo Moacir de baixar o jogo novo e de assistir às séries que queria.

E eis que chegou a segunda-feira. O coração de Moacir estava borbulhando com o ódio mais puro e profundo que uma pessoa poderia sentir. Ele sentou diante do computador com a plena certeza de que poderia matar alguém. Ligou a máquina e esperou aparecer a tela do login. No lugar dela apareceu uma tela de erro. Moacir juntou as mãos no rosto e se perguntou o porquê de tamanho sofrimento. Antes de obter uma resposta satisfatória o telefone tocou.

— Moacir, verifica aí teu e-mail que parece que o relatório da semana passada acabou voltando — disse o chefe. — A gente vai precisar rever.

Silêncio.

— Moacir?

Silêncio.

— Alô?

Um som alto de algo quebrando veio como resposta.

— É… Chefe?

— O que foi isso, Moacir?

— Não vou poder trabalhar no relatório.

— Por que, Moacir?

— Meu monitor acaba de quebrar.

— Teu monitor quebrou?

— É. Eu coloquei a senha errada e a tela explodiu.

— Aconteceu alguma coisa contigo?

— Só a minha mão que tá meio machucada, mas nada que um pouco de gelo não resolva.

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Contos de Segunda #85

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia útil da semana. O último exemplo dessa máxima foi o nascimento das suas duas filhas gêmeas, Olívia e Alice, em meados de agosto do ano passado. As duas não só nasceram antes do tempo como também conseguiram a proeza de enganar todos os exames de imagem feitos ao longo da gestação. Ninguém estava esperando duas meninas.

Em uma certa segunda-feira, Aluísio estava em casa com suas filhas. Ele estava de férias e passava a maior parte do tempo com as meninas. Para aqueles trinta dias Aluísio tinha um plano: ensinar as duas a falar “papai”. Na prática ele não precisava ensinar, já que, segundo relatos de sua esposa, as duas já tinham falado “papai” em algum momento ao ver alguma foto dele. Aparentemente uma imagem estática fazia muito mais efeito, então ele bolou um plano.

Assim como muitos pais, Aluísio apelava em vários momentos para coisas do calibre da Galinha Pintadinha. Obviamente ele detestava a ideia de usar um truque tão rasteiro em suas próprias crianças, mas muitas vezes as medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Mais uma vez a Galinha seria usada, mas para um propósito ligeiramente mais nobre.

Depois de algumas milhares de vezes, Aluísio tinha certeza que aqueles malditos vídeos da galinha estavam gravados no cérebro das duas meninas. Exatamente por isso ele gastou algumas horas com programas de edição para adulterar todos os vídeos, inserindo algumas fotos suas em locais diversos. Ao ver o pai dentro dos vídeos, Alice e Olivia ficariam tão surpresas que diriam um “papai” bem sonoro. Pelo menos era assim que acontecia na cabeça de Aluísio toda vez que o plano era repassado.

Ele colocou o primeiro vídeo. O ponto em que ele aparecia estava quase chegando quando o celular tocou. Era Amélia, sua esposa, querendo saber se estava tudo bem. A ligação demorou tempo suficiente para a primeira aparição de Aluísio no clipe da Galinha passasse. Se as meninas falaram, ele não ouviu, mas de certa forma o plano tinha dado certo. As duas estavam olhando para ele e apontando para a tela da televisão. O fracasso momentâneo foi eclipsado pelo aparente progresso. Ele ainda tinha mais ou menos vinte chances antes de precisar repetir os vídeos. Infelizmente nenhuma delas teve muito efeito. Depois do celular foi o interfone, a fralda cheia de cocô, o banho, a hora do lanche, do almoço e da soneca, dele e das meninas. Também teve a ida à padaria e ao parque. Já era quase noite quando Aluísio conseguiu outra chance, foi quando o sono bateu e ele apagou no sofá, exatos três minutos antes da esposa chegar a tempo de ver a foto do marido aparecer do lado do galináceo azul e ouvir as duas filhas apontando para a tela dizendo em uníssono:

“Papai”

Contos de Segunda #84 – Edição de Greve

Clóvis acordou cedo. Na verdade ele mal dormiu, afinal aquele era um dia muito importante. Durante boa parte da vida, Clóvis trabalhou em um sindicato de personagens fictícios, ele era responsável pelo DAPCS, Departamento de Apoio aos Personagens dos Contos de Segunda. Tudo isso mudou quando o próprio Clóvis se tornou um personagem em um conto de segunda. Obviamente ele não aceitou bem, principalmente por ter sido removido de seu departamento de origem para o departamento que cuida dos personagens de Guerra dos Tronos. O seu descontentamento e as condições de trabalho péssimas que os personagens de segunda têm motivaram Clóvis a agir.

Depois de muito conversar ele conseguiu organizar uma paralisação. Aconteceu ontem, no Dia do Trabalhador, uma segunda-feira. Essa paralisação foi um aviso ao autor, se as reivindicações da categoria não fossem atendidas, seria deflagrada uma greve geral dos personagens. Hoje era o dia marcado para que o autor entregasse aos personagens seu parecer.

Todos estavam reunidos em um dos auditórios do sindicato. Protagonistas e coadjuvantes. Homens e mulheres de idades variadas, dois dragões, dois cachorros, um papagaio, dois robôs e uma inteligência artificial criada para mediar e prevenir conflitos. Nenhum deles parecia muito satisfeito.

— Companheiros — começou Clóvis ao microfone dando início à reunião. — Hoje o autor conhece o poder que temos. Conseguimos paralisar a publicação de novos contos, conseguimos trazer o nosso tirano para dialogar e hoje só haverá publicação porque nós permitimos. O autor está aqui para nos ouvir. Ele já conhece nossa pauta, mas ela será repassada aqui para que seja registrada na ata desta reunião. O autor se encontra presente.

Dou um suspiro antes de responder… Sim, Clóvis, estou aqui. Boa tarde, pessoal. Boa parte dos personagens não me cumprimenta de volta, aparentemente eles estão bem chateados.

— Cada ponto da nossa pauta foi definido por um personagem, ou personagens que existem dentro de um mesmo conjunto de contos — continuou Clóvis. — O microfone está aberto.

O primeiro a levantar foi Dimitri, o vampiro.

— Nós exigimos contos com finais melhores — disse ele. — Muitas ideias excelentes são transformadas em fezes por causa de finais terríveis. Quantos além de mim sofrem com isso? Demandamos uma mudança imediata no processo criativo das histórias.

Dimitri deixa o microfone me encarando. Infelizmente nem toda ideia boa vem completa, nem sempre dá pra fazer algo decente com o final. Sou vaiado por alguns quando levanto esse ponto. O silêncio só chega quando o próximo vai ao microfone, dessa vez quem chega lá é Cosme, o zelador do turno da noite.

— Alguns personagens tiveram suas histórias, entre aspas, “concluídas” e até hoje não sabem se estão mortos ou não. Eu sou um exemplo disso, terminei meu conto em um ato de heroísmo, mas não faço a menor ideia se estou morto ou não. É um absurdo, é nosso direito saber o que acontece conosco.

O zelador deixou o microfone debaixo de aplausos. Penso em falar sobre como finais abertos são mais interessantes, mas os olhares de reprovação que recebo me fazem ficar calado esperando o próximo a prestar suas queixas. Para a minha surpresa, quem pegou o microfone foi a Dama da Segunda-feira

— Exigimos o direito de saber para onde as nossas histórias estão indo — disse ela. — Outro dia eu estava atrás de um, entre aspas, “marido”. Logo depois eu fiquei grávida e do nada eu já tinha dois filhos. Me digam, companheiros, como eu vou planejar a minha vida se eu acordo de manhã sem saber se no fim do dia eu vou estar gravida, casada ou morta?

Não faz sentido vocês saberem o final da história. As decisões que vocês tomariam poderiam mudar todo o rumo das histórias. Dessa vez eu sou vaiado por praticamente todos. Por último vejo Cristina se levantar. Ela me olha como se quisesse me assassinar da forma mais sádica possível.

— Eu quero o direito de procurar emprego na cabeça de outro autor — foi só o que ela disse, gentil como uma cacetada no joelho.

Infelizmente não posso atender às reivindicações. Algumas delas dependem de habilidades que eu ainda estou desenvolvendo e outras… Outras não fazem sentido.

— Então não temos escolha — disse Clóvis retornando ao microfone. — Coloco em votação por aclamação a greve geral. Quem é favorável? — Praticamente todos os personagens levantaram a mão. — Sendo assim, a partir de hoje os personagens da série semanal Contos de Segunda, empregados no blog Cachorros de Bikini, estão de greve por tempo indeterminado.

 

Contos de Segunda #83

    Dimitri estava acordado. Ele estava acordado fazia meses. Dormir por quatrocentos anos costuma fazer isso com qualquer monstro. Dimitri era um vampiro e via pouquíssima graça em ser um vampiro, principalmente agora que ele vivia em uma cripta debaixo de uma igreja e sua única companhia era seu servo morto-vivo, Mikhail.

    — Tenho fome, Mikhail — disse o velho vampiro.

    O pobre morto vivo estava sempre atento a qualquer palavra dita pelo mestre, desatenção não era algo muito saudável quando se trabalhava para Dimitri. Mikhail não demorou para aparecer.

    — Não temos sangue, mestre — respondeu Mikhail. — Hoje é segunda, a remessa de sangue só chega na quarta.

    — Esses cães do sindicato querem me matar de fome, isso sim — disse Dimitri irritado. — Seis litros por semana e sem direito a caçar meu próprio alimento.

    — Sem caça até completar o curso de reciclagem, mestre.

    — Eu que devia ensinar essas crianças como um vampiro de verdade deve agir. Acredita que meu professor nasceu no século vinte? Um pivete que não tem nem cem anos quer me dizer como devo agir.

    — Sinto muito, mestre, mas são as regras. Sem elas os vampiros não teriam chegado ao ano dois mil.

    — Sim, sim, já ouvi essa baboseira algumas centenas de vezes.

    Dimitri se calou por um instante. A noite avançava e ele estava com fome, nada que ele não pudesse suportar. Esperar até a chegada da nova remessa de sangue não era o verdadeiro problema, afinal ele poderia passar um mês sem alimento e sofreria muito pouco por isso. Ele tinha fome da caça. Fome de beber sangue cheio da adrenalina de uma vítima em pânico. Nada de bolsas cuidadosamente extraviadas dos bancos de sangue da cidade.

    — Preciso sair, Mikhail — disse Dimitri de repente. — Volto logo.

    — Por favor, mestre, não quebre nenhuma lei — disse o morto-vivo aflito. — Eu gosto desse emprego — na verdade não gostava tanto, mas mortos-vivos tem uma recolocação meio complicada no mercado de trabalho.

    Dimitri saiu da igreja transformado em morcego. Ele só precisava de um lugar alto para observar a cidade. Identificaria um local pouco movimentado, uma vítima, atacaria e carregaria o corpo para a cripta. Mikhail daria um jeito no corpo, ele era bom nisso. Não demorou para chegar ao alto de um prédio. De lá Dimitri observava a cidade, ouvia atentamente ao rugido da urbe. Misturadas aos sons dos carros estavam as batidas dos corações de diversos seres. Humanos, cães, ratos, pombos e gatos, todos eles chegavam aos ouvidos cuidadosos do vampiro, mas uma certa batida solitária chamou a sua atenção. Imediatamente assumiu a forma de morcego e desceu para o nível da rua, a batida daquele coração guiava suas asas e em poucos minutos ele estava de volta à forma humana. Ele parou em uma esquina com a luz do poste quebrada, no fim da rua era possível ver uma moça se aproximando. Ela andava rápido, mas não parecia muito preocupada. Ao passar pela esquina foi envolvida pela aura do vampiro. A mente da moça ficou nebulosa, como se estivesse sonhando.

    — Não se preocupe, minha cara. — Disse Dimitri de forma sedutora. — Vou terminar antes que perceba.

    — Tô de boa, coroa — disse ela extremamente relaxada. — Essa brisa que bateu agora me deixou sossegada.

    Dimitri estranhou, não lembrava de uma calma tão grande nas suas vítimas anteriores. Ele se aproximou e envolveu a cintura dela com o braço.

    — Qual foi, coroa? — Disse ela afastando o vampiro. — Que negócio é esse de se chegar assim? Nem puxou conversa, nem perguntou meu nome e já quer me agarrar?

    Dimitri paralisou com a reação da moça. De repente se sentiu extremamente desconcertado.

    — Queira me perdoar, senhorita. Eu não… Tive a intenção de ofendê-la.

    — Relaxa, é só não fazer de novo que fica tudo certo — disse a moça tentando organizar as ideias na cabeça. — Me diz aí. Tá fazendo o que nessa rua deserta nessa hora da noite?

    — Estou procurando comida.

    — Cara, sério? Nunca vi um mendigo vestido desse jeito.

    — Oh, não. Não sou um mendigo. Sou um… Caçador.

    — Uau! Que selvagem. Tá caçando o quê, coroa?

    — Nesse exato momento estou te caçando.

    — Ah… Tá. Você não tá falando sobre envolvimento carnal, né?

    — Não. Eu estou falando de te morder e beber o seu sangue.

    — Ah, não, cara. Você tá nessa? — Reagiu ela decepcionada. — Você tá nessa de beber sangue? Pensei que vocês tivessem sindicato e tal. Você é um daqueles ilegais?

    — Eu… Creio que sim.

    — Então vai pra próxima esquina, meu velho. Tá vendo isso aqui? — Disse ela apontando para uma tatuagem de um crucifixo no pescoço. — Isso quer dizer que eu vou te dar uma indigestão daquelas. Se quiser pode aparecer pra tomar um café qualquer dia desses, mas sangue não rola. Boa noite.

    Dimitri não conseguiu reagir. Ele ficou alguns minutos parado naquela esquina refletindo sobre a vida. Ele iria para casa assim que pensasse numa forma de contar o ocorrido para Mikhail.

Contos de Segunda #82

    Erick caçava dragões. Desistiu de caçar depois de encontrar com um certo dragão vermelho, embaixo de uma certa árvore no topo de uma certa colina. Um dragão que, segundo diziam, era impossível de ser caçado. Tal afirmação não era uma mentira completa. Cada caçador que tentou por um fim à vida da fera foi convencido a mudar de profissão. Justamente por isso que o Sindicato dos Caçadores de Dragões ordenou que um grupo de caçadores pusesse um fim na vida daquele réptil tão perigoso. De alguma forma o dragão convenceu a todos que merecia, pelo menos, um julgamento justo. O julgamento aconteceria na sede do Sindicato. Era por isso que Erick estava lá.

    Todos da cidade estavam indo para a antiga arena. Muito tempo atrás, quando os primeiros caçadores desenvolveram as técnicas para combater os dragões, as feras eram aprisionadas na arena para serem utilizadas no treinamento. As pessoas entravam pelos portões na direção das arquibancadas, mas Erick fora convocado como uma testemunha, ele entraria por outro lugar.

    — Saudações, Erick — disse o homem que guardava a porta da área restrita da arena.

    — Saudações, Peter — respondeu o ex-caçador. — Semana agitada, hein?

    — Nem me fale, Erick. Desde o dia em que essa fera chegou que não temos sossego.

    — O julgamento começa quando?

    — Creio que já está para começar — respondeu Peter. — Já deram a ordem para retirar a fera do calabouço.

    Erick entrou na arena. As arquibancadas estavam lotadas de gente. Na arena um palanque foi erguido para as testemunhas, ao lado dele estava o dragão vermelho, deitado e aparentemente adormecido. No camarote estava o líder do Sindicato, Henry, sentados sobre o palanque estavam Charles, Robert, Harold e John, caçadores aposentados como ele.

    — Saudações, Erick — disse o dragão quando ele se aproximou.

    — Saudações, dragão. Vejo que se meteu em uma bela confusão desta vez.

    — Certamente, meu caro. Como bem sabes, os problemas não cansam de me procurar. Deve ser mal da espécie.

    — Seria melhor ter fugido, dragão.

    — Me achariam em qualquer lugar, Erick. Meu gosto por viver ao ar livre me impede de ficar escondido como os outros dragões da minha idade. Um tio meu passou o último século adormecido dentro de uma montanha, um total absurdo.

    Um martelo bateu sobre a bancada do camarote. Todos se calaram, Erick assumiu seu lugar. O julgamento estava para começar.

    — Senhoras e senhores. Cidadãos do reino. Eu, Henry, estou aqui para conduzir o solene julgamento desta fera que está diante de todos. Acusado de provocar a deserção de pelo menos cinco caçadores membros de nosso sindicato. Suspeitamos que foram aplicados meios nefastos para controlar a mente desses desertores e decidimos que a execução deste dragão é inevitável. Mesmo diante da morte iminente, ele pediu por um julgamento antes da execução… Dragão, estás pronto para responder às minhas perguntas?

    — Certamente — respondeu ele se levantando.

    — É verdade que todos os dragões possuem conhecimento de feitiçaria?

    — Sim. A capacidade para tal aparece a partir de algumas centenas de anos

    — É verdade que a forma de feitiçaria preferida pelos dragões é a que afeta a mente?

    — Por boa parte de nós sim, mas não é uma regra.

    — É uma forma preferida por ti, dragão?

    — Tenho preferência por transfiguração, piromancia e clarividência de forma geral.

    — Reconheces que um dragão de certa idade é muito mais astuto do que um ser humano?

    — Não se vive muito sem uma boa dose de astúcia.

    — Astúcia suficiente para manipular a mente de um ser humano?

    — Leva um certo tempo, mas é possível.

    — Então admites que, se essa fosse a sua vontade, poderia manipular um ser humano sem muita dificuldade?

    — Desconheço as reais dificuldades. Nunca pratiquei tal coisa.

    Henry parou um pouco. O dragão era astuto o suficiente para não cair em contradição… Talvez os caçadores não fossem tão astutos quanto ele.

    — Sou grato, dragão — disse ele. — Passo agora para as testemunhas… Cada um de vocês trabalhou por anos no extermínio dos dragões. Trouxeram paz e prosperidade para o reino. Em troca de que abandonaram uma vida tão cheia de honras? O que fizeram de suas vidas?

    — Me tornei um sapateiro — respondeu Charles.

    — Construí um moinho — respondeu Robert.

    — Me tornei criador de cavalos — respondeu John.

    — Me tornei um vendedor ambulante — respondeu Erick.

    — Me tornei fazendeiro, crio vacas e cabras — respondeu Harold.

    — Por qual motivo abandonaram o nobre ofício de caçar dragões?

    — É muito perigoso — respondeu Charles.

    — Tive muitos problemas com minha esposa por causa do trabalho – respondeu Robert.

    — Bafo de dragão me dá alergia — respondeu John.

— Não estava conseguindo cumprir as metas estabelecidas pelo sindicato — respondeu Erick.

    — Eu precisava de novos desafios — disse Harold.

    — Mas vocês só perceberam isso depois de conversar com o dragão vermelho, correto?

    Todos balançaram a cabeça concordando. Henry precisava agir rápido, nada estava saindo daquele interrogatório.

    — Se temos aqui um dragão clarividente, fica claro que ele usou seus poderes para não só descobrir se estava correndo o risco de ser atacado, mas também quem o atacaria e de que forma ele poderia quebrar a vontade do caçador. Nega isso também, dragão?

    — Sempre utilizei minhas habilidades para me defender de ataques, mas nunca espionei qualquer caçador. Quando se vive tanto quanto eu, não é necessário o uso de mágica para ver nos olhos de um homem que ele deseja uma vida diferente.

    — Finalmente temos uma confissão — disse Henry escancarando um sorriso. — Guardas, levem-no de volta para a masmorra. A execução será em alguns dias.

    — O quê? — Perguntou o dragão confuso. — Não, não pode!. Eu sou inocente.

    O dragão gritou durante todo o caminho até a masmorra. Mesmo tendo o poder para tal, ele não matou nenhum dos guardas, não cuspiu fogo ou tentou fugir. Mesmo condenado, o dragão vermelho fazia questão de se manter inocente até o fim.

Contos de Segunda #81

Espaço, a fronteira final. Milhares de anos atrás a humanidade se lançou ao espaço, hoje o Sistema Solar está completamente colonizado. Ao longo dos milênios, os humanos terraformaram Marte e Vênus, colonizaram os satélites de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, criaram rotas de navegação para não se perderem na imensidão do espaço. Surgiram os governos setoriais, as grandes corporações mineradoras, de transporte e de logística. A humanidade alcançou um novo patamar de prosperidade e desenvolvimento… Não demorou muito para que surgisse também um novo tipo de criminoso.  

— Navegação, quanto tempo até o destino? — Questionou o capitão do cargueiro.

— Três horas e doze minutos, senhor — respondeu o oficial de navegação.

Aquela era uma viagem de rotina. O cargueiro estava transportando peças, ferramentas e outros suprimentos da Lua para a estação Marte I, localizada em Fobos, um dos satélites naturais de Marte. Normalmente os suprimentos eram enviados a partir da superfície de Marte, mas aquela carga em especial possuía algo de diferente.

— Algum sinal da nossa escolta? — Perguntou o capitão.

— Negativo, senhor — respondeu o oficial de comunicações. — Estão dezoito minutos atrasados… Senhor, perdemos contato com Marte I. Estão interferindo no nosso sinal.

O capitão demorou apenas alguns segundos para começar a despejar ordens sobre a tripulação.

— Disparem os sinalizadores. Time de artilharia, aos seus postos. Subam a blindagem da ponte e todos coloquem seus trajes de emergência, não quero ninguém morrendo por causa de uma eventual descompressão. Alguma coisa no radar?

— Não, senhor… Espere! Estou captando o sinal de um reator… É uma nave senhor… Está vindo rápido.

— Consegue identificar?

— Sim… A assinatura do transponder corresponde ao Combatente 69, senhor. É a nave de Jeannie Nitro.

— O quê? Preparem os mísseis, precisamos ganhar tempo até o reforço ou a escolta chegarem. Atirem quando essa cachorra estiver no alcance.

— Que palavras rudes, capitão — disse uma voz feminina em tom de deboche.

O rosto de Jeannie apareceu no monitor. Ao contrário de outros colegas de profissão, Jeannie Nitro gostava de conversar com os capitães das naves que estava prestes a abordar. Em algumas vezes ela conseguia um acordo razoável para as duas partes, na maioria delas tudo que conseguia era aumentar a fama.

— Vou direto ao ponto — começou ela. — Preciso que me entregue o contêiner blindado que está carregando. Um pequeno, que tem uma trava com senha. É só jogar ele, digamos, fora e eu gentilmente vou lá e pego. Cada um segue seu caminho e todos ficamos felizes.

— Não negociamos com criminosos — respondeu o capitão raivoso. — Logo nossa escolta estará aqui e você, sua maldita tripulação e essa aberração mecânica que você chama de nave vão virar poeira.

— Você sabe mesmo como agradar uma dama, capitão. Se eu fosse um pouco mais inocente estaria completamente apaixonada… Infelizmente não sou. Estou chegando, capitão. Câmbio e desligo.

A gargalhada que Jeannie deu logo depois teria matado o capitão, e qualquer um na situação dele, de raiva. Isso se ele não morresse de medo antes. Jeannie Nitro era uma das piratas espaciais mais conhecidas entre a Lua e Júpiter. Sua nave, a Combatente 69, de fato era uma aberração mecânica e justamente por isso era uma das mais temidas pelas naves civis. Rápida, ágil, equipada com armamentos proibidos e dispositivos de ocultação. Mas nada disso valeria se não fosse sua tripulação.

— Charles, assuma o sistema de armas. Eu vou pilotar — disse Jeannie em um tom mais sério.

— Sim, capitã — respondeu Charles Chacal.

— Lupita, já estamos no alcance?

— Quinze segundos, capitã — respondeu Lupe Brown.

— Walter, minhas adagas estão prontas? — disse Nitro pelo rádio.

— Esperando a ordem, capitã — respondeu a voz envelhecida pelo alto falante da ponte  de comando.  

— Entrando no alcance em três… Dois… Um… Eles dispararam, seis segundos para o impacto.

— Vou dar a volta e pegar ele por trás. Desativa esses mísseis, Charles. — disse a capitã.

Charles disparou os geradores de pulso elétrico. O pulso fritou o sistema de orientação dos mísseis e de propulsão, deixando os projéteis à deriva. A Combatente fez uma curva e se posicionou por trás do cargueiro enquanto o fogo chovia sobre ela.

— Localizei a porta do compartimento de carga — avisou Charles. — Vou disparar.

Dois projéteis de alta densidade acertaram o alvo em cheio, amassando a blindagem da porta de carga.

— Walter, lançamento ao meu sinal — disse a capitã. — Três… Dois… Um… Lançar.

A nave fez uma curva perigosamente perto da traseira do cargueiro. No mesmo instante Walter lançou dois blocos de metal que se prenderam à fuselagem com travas magnéticas. Os blocos se abriram revelando dois robôs soldadores e as Irmãs Adaga, Sheila e Dolly. Com seus maçaricos e alicates hidráulicos, levou menos de um minuto para que os dois robôs criarem duas entradas para as irmãs. Elas imediatamente sacaram seus rifles. A tripulação estava preparada. Eram pelo menos oito, a maior parte deles equipada com armas automáticas. Enquanto Dolly trocava tiros com a tripulação, Sheila programava o dispositivo gerador de campo magnético. Com a intensidade correta, o gerador atrairia apenas o contêiner desejado pela capitã. Assim que a programação terminou, Sheila arremessou uma granada contra a porta do cargueiro. A estrutura enfraquecida pelos soldadores foi arremessada para a imensidão do espaço. As duas irmãs recuaram para perto da porta, agora elas só precisavam se manter vivas até a carona chegar.

Lá fora as coisas estavam prestes a se complicar.

— Vários sinais de reator apareceram no radar, parece que a escolta deles chegou — alertou Lupe. — Capitã, transmissão chegando.

Um homem de trajes militares apareceu no monitor.

— Saudações, senhorita Nitro.

— Igualmente, Capitão Crash.

— Agora é Major Crash.

BAM. Algo atingiu a nave.

— Dois cruzadores e mais oito caças, capitã — disse Lupe. — Chegando em dez segundos.

— Entregue-se agora e prometo que não receberá pena de morte — negociou Crash.

— Consideração pelos velhos tempos? Fico emocionada, mas vai ficar pra outra hora — respondeu Jeannie encerrando a transmissão. — Tenho que pegar um prêmio.

Ela acelerou os motores ao máximo. Deu uma pirueta e desviou de um disparo, outro e outro. Os caças estavam se aproximando.

— Dentro do alcance em três… — Disse Lupe.

— Arma magnética pronta — completou Charles.

–… Dois… Um

A arma magnética foi acionada. Um campo elétrico com ajustes de frequência tão precisos que apenas os robôs, que carregavam as irmãs Adaga, e o gerador que estava dentro da nave foram puxados. O gerador serviu de condutor entre a arma e o contêiner, que saiu voando pelo compartimento de carga e aderiu à fuselagem da Combatente. A desaceleração fez com que os inimigos chegassem ainda mais perto, testando a blindagem da nave pirata com disparos cuidadosos, ninguém queria acertar o cargueiro.

Jeannie abriu a transmissão para a nave do Major Crash.

— Foi bom te ver de novo, capitão, mas eu não posso ficar — debochou ela.

— Acha mesmo que pode escapar de mim, Nitro? — Rosnou Crash.

— Como se você pudesse me pegar — respondeu ela antes de cortar a transmissão.

Charles liberou a cortina de fumaça que camuflava os sinais do reator da nave. A blindagem laminada mudou de cor para imitar o breu espacial. Os caças ainda conseguiram manter perseguição até que uma segunda cortina de fumaça interferiu nos sistemas de navegação, forçando os pilotos a desistirem. Deixando a Combatente 69 inteira para lutar em outro dia.

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