Cachorros de Bikini

Este blog não é sobre cachorros em trajes de banho

(Não) Carnaval 2017

    Algumas regiões do Brasil são praticamente sinônimo de carnaval. Em algumas outras a festa existe, mas não é tão famosa, e em outras localidades o carnaval praticamente inexiste. Inclusive são essas cidades que costumam receber as pessoas que querem fugir do carnaval. Como eu dificilmente saio de casa no carnaval e moro em um dos estados que são sinônimo de carnaval, o carnaval acaba chegando em mim. Seja pela música alta dos vizinhos, pela troça que você encontra na rua quando vai comprar pão, as notícias no jornal ou pelo desvio do trânsito por causa do bloco que vai passar. O carnaval chega, pelo menos chegava. Digo isso porque em 2017 o carnaval parece mais que não chegou por aqui.

    Os meus vizinhos devem ter sido abduzidos, porque nesses últimos dias eu não ouvi música nenhuma. Saí uma ou outra vez e não vi nenhuma troça, bloco ou similar na rua. Vi uma ou outra notícia notícia na televisão, mas dei tão pouca atenção que parecia mais que tudo aquilo estava acontecendo em outro lugar. Nem as pessoas conhecidas falaram muito sobre carnaval. As fotos que apareceram nas redes sociais pareciam mais deslocadas no tempo. Acho que nunca antes na vida eu estive tão longe dos festejos carnavalescos. Não me lembro se houve um carnaval com a vizinhança tão silenciosa. Nunca estive tão próximo da sensação de morar em um lugar onde o carnaval não existe.

    “Ah, Filipe, mas que besteira. Em um monte de lugar não tem carnaval e não vejo ninguém fazendo espanto por causa disso”. De fato isso é uma besteira, mas tem dois motivos pra eu fazer espanto com isso. O primeiro é o fato de que eu só escrevo sobre besteiras. Se eu não falar das besteiras eu não vou falar de nada. O segundo motivo é o meu endereço. Eu moro em Pernambuco e aqui o carnaval começa oficialmente depois da virada do ano, isso quando a virada de ano já não é em clima de carnaval ou quando as atividades carnavalescas não começam depois do São João. Ou seja, aqui é carnaval até quando não é pra ser. Tanto que ninguém se admira com essa vibe carnavalesca quase permanente. Exatamente por isso que eu tô achando tudo tão estranho. Na verdade estava, porque o carnaval acabou de acabar.

    As cinzas da quarta-feira já estão indo embora e com elas mais um carnaval. Ano que vem ele vem um pouco mais cedo, dia 10 ele já começa. Se bem que na velocidade em que 2017 tá passando, quando a gente se der conta já vai ser carnaval de novo. Feliz ano novo, 2017 começa pra valer agora.

Sem comentários »

Contos de Segunda #76

    Erick caçava dragões. Caçava, não caça mais. Pelo menos não depois do dia em que ele subiu uma colina para matar um certo dragão vermelho. Depois daquele dia os dois ficaram amigos e Erick nunca mais matou um dragão. Obviamente o ex-caçador precisava de outro ofício e foi buscando esse novo ofício que Erick partiu para a cidade e não retornou desde então. Todos os dias, sob a sombra de uma árvore tão antiga quanto ele, o Dragão Vermelho passava horas inventando histórias sobre a vida de Erick. Essas histórias ele contava aos pássaros, às crianças que fugiam da vila e subiam a colina para vê-lo, aos pastores que sempre passavam para agradecer a proteção que o dragão dava às suas ovelhas e a todos que estivessem dispostos a parar por um instante e ouvir. Infelizmente nem todos que subiam a colina tinham essa intenção.

A tarde estava no começo e a semana também. Fazia muito calor e o sol castigava todos que estavam sob ele. Em um dia tão quente era difícil não sentir o cheiro dos homens que suavam em bicas sob as suas armaduras enquanto subiam a colina. O barulho que faziam era pouco para um grupo com pelo menos dez pessoas, mas ainda suficiente para ser notado pelo réptil. Ele sabia quem eram aqueles guerreiros. Os únicos que teriam algum motivo para subir a colina. Caçadores de dragão.

— Saudações, nobres caçadores — disse o dragão. — Quais as novas que trazem do pé da colina?

Os homens travaram, se entreolharam surpresos e não conseguiram responder. Afinal todos os dragões caçados por eles até então eram feras cruéis, mesquinhas e cheias de um sadismo quase pecaminoso. A resposta ainda demorou alguns segundos para aparecer.

— Saudações, dragão — respondeu um dos caçadores. — Imagino que saibas o motivo da nossa vinda.

— Naturalmente. Creio que vieram para avaliar a possibilidade de pôr um fim à minha vida. Espero que tenham resolvido desistir da ideia.

— Nunca deixariamos uma fera tão perigosa viva. É nosso dever — disse outro caçador.

— Deveras, meu caro, mas noto que tua avaliação é baseada em uma série de eventos desastrosos envolvendo meus parentes e em um preconceito secular sobre o temperamento e a índole dos membros da espécie dracônica.

— Não é preconceito, Dragão. És notório por ser um dragão que não se pode caçar. Ouço histórias sobre os caçadores que ousaram te enfrentar.

— Falas de Charles que deixou de ser caçador para virar sapateiro? Ou de Robert que construiu um dos moinhos mais prósperos da região? Se falas de Erick… Bem, não sei o que Erick anda fazendo.

— Culpa da tua feitiçaria, dragão — rebateu um dos caçadores.

— Gostaria muito de saber em que provas são baseadas tuas acusações — replicou o dragão. — Nenhum deles parecia levar uma vida feliz como caçador. Eles vieram para me tirar a vida, mas depois de refletir um pouco perceberam o quão insatisfeitos estavam. Não usei de nenhuma feitiçaria.

— O que sugere, dragão? Que desistamos de matá-lo? Depois do mal que nos fez é impossível.

— Então permita ao menos que eu receba um julgamento justo. Leve-me sob custódia e me apresente diante dos seus líderes. Convoque aqueles que uma vez tentaram me matar e permita que falem. Eles provarão minha inocência.

A discussão dos caçadores levou alguns minutos. A resposta deles, apesar de previsível, não foi menos impactante.

— Muito bem, dragão. Terás o que pedes… Tragam correntes para prender as asas e alguém vá na frente para avisar ao sindicato… Precisamos julgar um dragão.

Sem comentários »

Oscar (Carnavalesco) 2017

No próximo domingo, conhecido internacionalmente nos países que usam o calendário cristão regular como 26 de fevereiro, acontece a cerimônia da entrega do Oscar, o prêmio mais famoso, e talvez um dos menos justos, prêmios do cinema mundial. Por uma questão de calendário lunar, esse ano a cerimônia acontece no domingo de carnaval.

tumblr_inline_n1z5zlDCUe1szkhut

Isso quer dizer que, enquanto a galera estiver batendo palma pros ganhadores do careca dourado, muita gente vai estar pulando atrás do trio, cantando o enredo da escola de samba, fazendo uma resistência reacionária na defesa das marchinhas politicamente incorretas, seguindo a orquestra no desfile de uma agremiação mais velha que a minha vó ou simplesmente gritando “É Troinhaaaaa” “Olindaaaaa, quero cantaaaaar…”. Isso quer dizer que em Terra Brasilis o Oscar será eclipsado pela festa da carne e pelo feriado convenientemente prolongado. Os jornais, principalmente nos estados em que a festa é maior, e a TV vão cagar baldes para os vencedores e desconfio que nem transmissão deve rolar na TV aberta. Já que o mesmo canal que transmite a cerimônia é o que transmite o desfile das escolas de samba.

gif-perola-negra-fernando-rocha

Mas como o Cachorros de Bikini é um blog que não adere às festas de Momo, só ao feriado, ainda vamos fazer o nosso post sobre o Oscar desse ano.

gi1phy

Esse ano quem tá querendo levar tudo é LaLaLaLaLaLaLa La La Land. Com 14 indicações o musical tem toda cara de que vai ser o bicho papão desse ano, mas tem uma galera correndo por fora que talvez surpreenda. E eu sinceramente espero que a surpresa venha do filme do filme de ET mais legal que eu assisti na minha vida. Tudo bem que eu não assisti tantos filmes de ET na minha vida, mas com certeza Amy Adams e Os ET A Chegada é um dos melhores de ET de todos os tempos. A jornada de Amy Adams pra falar com os ET’s está concorrendo a Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Filme e Melhor Direção. Junto com Estrelas Além do Tempo A chegada tem grandes chances de fazer que nem Mad Max no ano passado e sair tirando o doce da boca de um monte de concorrente mais favorito.

Na categoria Star Wars Desse Ano temos Rogue One concorrendo em algumas categorias técnicas, mas esse ano o páreo de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Mixagem de Som tá bem difícil e a minha torcida pra primeira categoria é pra Kuro e As Cordas Mágicas, também conhecido como o primeiro filme de animação a concorrer na categoria de Efeitos Visuais desde O Estranho Mundo de Jack em 1994.

Nesse último ano eu assisti pouquíssimos filmes que estão entre os indicados. Tudo bem que eu nunca vejo muitos dos indicados, mas esse ano foi um dos que eu vi menos. Mas como esse post e a minha torcida são sempre baseados em coisa nenhuma, a credibilidade continua a mesma do ano passado. Bom carnaval pra você e nos vemos depois do Oscar.

Sem comentários »

Porque Reclamar Faz Bem

Por incrível que pareça existem alguns hábitos do ser humano moderno que são tão antigos quanto a própria humanidade. Um deles é o hábito de se reunir ao redor da fogueira pra jogar conversa fora. Obviamente hoje em dia não fazemos fogueira com tanta frequência, mas nos reunimos ao redor das mesas de jantar, de restaurante, de buteco, de RPG ou até mesmo nos grupos de Whatsapp. Não importa qual é a fogueira, o que interessa é que ainda nos sentamos ao redor dela, da mesma forma que nossos ancestrais mais primitivos faziam, e dividimos com os outros histórias, notícias e em boa parte das vezes reclamamos da vida. Mas, ao contrário dos resmungos nossos de todas as horas, as reclamações feitas diante da fogueira funcionam quase como um terapia.

Lembro de um período da minha vida em que eu me reunia com alguns amigos quase toda sexta-feira depois do expediente.A gente se juntava, comia pizza, falava besteira e depois ia todo mundo pra casa. Mas alguma coisa curiosa acontecia quando os únicos presentes eram eu e mais dois amigos meus. Quando a gente se juntava a conversa tinha uma pauta única: reclamar do trabalho. Por uma mera coincidência, a época em que nós três tínhamos mais motivos pra reclamar do trabalho foi a época em que mais vezes só nós três aparecíamos pra comer pizza. Ficou fácil de imaginar o tanto de tempo que a gente passou reclamando do trabalho, da vida, do universo e de tudo mais. Justamente por isso hoje eu posso dizer que se não fosse por aquelas horas de reclamação eu teria encarado aquele período da minha vida profissional com muito menos ânimo.

Temos por hábito reclamar.Ou pelo menos procurar motivo para reclamar e por isso boa parte dessas queixas são bem irrelevantes pros outros. Justamente por isso que quando você se senta ao redor da “fogueira” com os seus amigos, você só reclama dos problemas de verdade. Afinal você vai ocupar o tempo de todos os participantes da conversa exclusivamente com os seus assuntos, a atenção dos amigos tem que valer a pena. Por isso os problemas que chegam à luz do fogo e ao conhecimento de todos são os problemas de verdade, os que realmente são problemas. Coisas que estão nos deixando aflitos, decisões difíceis que estão tirando o nosso sossego, assim como os planos pro futuro ou os vacilos do passado. Tudo levado diante de pessoas que também já dividiram seus problemas com você.

Reclamar não é agradável, mas pode ter um efeito bastante positivo. Por isso a mensagem de hoje é: RECLAME. Não digo pra reclamar sem parar ou achar defeito em tudo. Pense nas coisas que realmente estão piorando a sua vida e, se possível, divida com alguém. Não recomendo fazer isso publicamente, seja em redes sociais ou naquele seu grupo do Whatsapp que tem 46583628 pessoas. Tão bem selecionados quanto os problemas que serão exposto precisam ser os ouvidos que vão ouvir esse problema. E é com esse último conselho que eu encerro a série de posts sobre as reclamações nossas de cada dia. Espero demorar muito pra fazer outra série temática porque esse negócio de planejar muito e não escrever sobre outro assunto é meio chato e só é legal de verdade no final do ano.

1 Comente »

Contos de Segunda #75

    Clovis estava um pouco insatisfeito com o seu trabalho. A lista de motivos era relativamente curta, mas o primeiro motivo tinha um peso bem maior que os outros. Clóvis não gostava de trabalhar atendendo pessoas e o trabalho dele exigia que ele atendesse pessoas na maior parte do tempo. Clóvis trabalhava em um sindicato de personagens fictícios. Mais especificamente em um departamento que cuidava de uma minoria que não tinha muita força política dentro da organização sindical. Clóvis trabalhava no DAPCS, Departamento de Apoio aos Personagens dos Contos de Segunda.

    O trabalho de Clóvis era bem simples, os personagens iam até o departamento, reclamavam sobre alguma coisa ruim que o autor dos contos fez com eles, Clóvis analisava a procedência da queixa, abria um processo e acompanhava o andamento desse processo dentro do sindicato. Infelizmente os personagens de segunda eram odiados por metade da diretoria do sindicato e normalmente os processos abertos pelos coitados não davam em nada. O que deixava os personagens ainda mais raivosos, raiva essa que era descarregada em Clóvis. Mas tudo aquilo estava para mudar. Hoje ele teria uma reunião com a mesa diretora do sindicato e a esperança dele era de ter uma resposta positiva em relação ao pedido de transferência.

    Na hora marcada ele estava lá, sentado na mesa da sala de reunião de frente para cinco representantes da diretoria do sindicato, dois secretários e mais três representantes.

    — Clóvis, temos alguns assuntos para tratar — disse a vice-presidente do sindicato. —  Assuntos importantes. É por isso que este conselho se reuniu para debater sobre a sua situação.

    — Tem a ver com o meu pedido de transferência? — Perguntou Clóvis.

    — Não — respondeu um dos diretores.

    — Algo relacionado com o processo daquele mutante que exigiu a continuação da própria história ou daquela moça que teve um ataque de fúria e nocauteou um dos seguranças?

    — Não, Clóvis — adiantou-se um dos secretários.

    — Então é por causa do problema que tivemos com aquele dragão? O incêndio foi controlado tão rápido que eu pensei…Já sei! É por causa daquela moça que pediu pra nunca mais dividir um conto com o ex-colega de trabalho? Soube que ela está sofrendo com a pressão do público.

    — Não e não, Clóvis. A questão é um pouco mais séria e até certo ponto inédita — respondeu a vice-presidente.

    — Clóvis, precisamos mudar você de departamento — disse outro diretor. — Mas o ideal seria demiti-lo.

    — Me demitir? Mas por quê? — Questionou Clóvis assustado.

    — Clóvis, você agora é um personagem de Conto de Segunda. Não vai poder mais trabalhar no DAPCS.

    — Personagem de segunda? Eu? Como assim? Como aconteceu?

    — Creio que tem relação com alguma série especial sobre… — a vice-diretora colocou os óculos para ler melhor a folha de papel em sua mão. — “Reclamar da vida”. O autor achou que seria uma boa ideia falar sobre um personagem que cuidava das reclamações dos personagens dele. Apesar do péssimo histórico desse autor na administração dos seus personagens, o sindicato não pode agir diretamente contra ele nesse caso em específico.

    — Diante do histórico problemático dos personagens de segunda, temos receio de que você se torne tão problemático e inconveniente quanto todos eles. Por isso temos duas opções: te demitir ou te mandar para o departamento dos personagens de… — o diretor verificou os papéis antes de concluir a frase. — Guerra dos Tronos.

    Alguns dos participantes da reunião foram pegos de surpresa. O DAPGdT era um dos piores e mais problemáticos departamentos do sindicato. Eles recebiam queixas de cada uma das várias versões de cada personagem. Livro, série, histórias em quadrinhos, video games, jogos de tabuleiro ou qualquer outra mídia. Não era raro encontrar com três ou quatro Jon Snow entrando com uma ação conjunta contra os autores das suas respectivas histórias. Além claro das reclamações do público. Era provavelmente o mais perto que Clóvis poderia ter de um pesadelo.

    — E o meu pedido de transferência para o departamento de personagens de filme de ação? — Perguntou Clóvis esperançoso.

    — Ainda está em análise, Clóvis — respondeu um dos representantes. — Não temos muitas vagas lá e são muitos pedidos de transferência para analisar.

    — Alguma forma de agilizar esse processo?

    — Agora você está nas mãos do autor, Clóvis. A partir de agora é você e ele… Se você entrar com uma ação contra ele prometemos dar uma atenção especial para o seu caso, mas de toda forma você vai mudar de departamento para evitar conflitos de interesse ou qualquer tipo de influência que sua nova condição possa ter no seu trabalho.

    Na manhã seguinte Clóvis foi até sua sala e limpou sua mesa. Ainda segurando a caixa cheia das coisas da antiga mesa, ele pegou a senha de atendimento. Ele podia ter se tornado um personagem de segunda, mas não aceitaria de bom grado os desmandos do autor.

Sem comentários »

Reclame da Sua Vida Aqui

                Estava eu pensando sobre o conto que sairia nessa última segunda. O tema obviamente precisava combinar com a atual série de posts sobre reclamar da vida. Cheguei à conclusão de que seria uma boa criar um novo personagem e que a história teria alguma coisa a ver com um balcão de reclamações. Aí veio uma gripe muito louca, e graças a Deus bem rápida, uns problemas com o trânsito e acabou que não escrevi nada, pelo menos não ainda. Mas assim como na natureza, dentro da cabeça da gente nada se perde, tudo se transforma. Por isso resolvi aproveitar essa ideia do balcão de reclamações e fazer um exercício de imaginação junto com você, pessoa leitora.

Imagine que nós, enquanto seres viventes, temos alguns direitos na vida, algo parecido com os direitos do consumidor. Não falo de nada abstrato como felicidade, amor ou coisas do gênero, falo de ter as coisas da vida funcionando direito. Sorte suficiente para nunca esquecer o guarda-chuva em dias chuvosos, um sistema seletor de relacionamentos minimamente confiável, uma cabeça que esteja mais ou menos no lugar, uma ou duas aptidões e alguma ideia de quais caminhos estão disponíveis para seguir poderiam estar entre as coisas inclusas no pacote da vida e garantidos por lei. Agora imagine que, assim como a maioria dos produtos e serviços, existisse uma espécie de Serviço de Atendimento ao Consumidor que trabalhasse recebendo e resolvendo nossas queixas em relação aos problemas da vida que estivessem ligados a “defeitos de fabricação”, “desgaste prematuro das peças” ou “falha no sistema operacional”. Se isso existisse do que você reclamaria?

                Seria algo mais ou menos assim: você entra no posto de atendimento, pega uma senha, aguarda a sua vez e depois de ser chamado você chega lá no guichê de atendimento pra reclamar de alguma coisa. Eles anotam a sua reclamação, fazem uma avaliação pra saber se aquilo procede, se os termos da garantia (da sua vida) cobrem aquilo e se comprometem em resolver o problema ou substituir o “produto defeituoso”. Partindo do pressuposto que você saberia exatamente qual defeito você ou sua vida estavam apresentando. Não sei pra você, mas pra mim isso parece bastante interessante.

                Só pra começar eu provavelmente reclamaria dos meus problemas de sono. Ao contrário do que pode parecer, meus problemas com sono envolvem a dificuldade de permanecer acordado depois de uma certa hora da noite e a incapacidade de dormir por períodos prolongados mesmo quando horas extras de sono se fazem necessárias. Outro problema seria a minha falta de organização, que na verdade é uma espécie de organização seletiva. Já que eu facilmente consigo ser organizado com as coisas mais inúteis e ser totalmente desorganizado com as coisas que realmente importam. Tudo isso só pra começar.

                Eu poderia passar mais uns dois anos aqui só escrevendo as coisas que estão erradas em mim, mas aí eu perderia totalmente o foco. A ideia aqui é justamente jogar essa peteca pro leitor e é por isso que vou repetir a pergunta: do que você reclamaria? Pare, pense e se possível me diga. Tenho certeza que com um pouco de imaginação todos nós chegaremos a conclusões interessantes.

2 Comentários »

Tá Tudo Uma Bosta 2.0

                Lá nos primórdios do Cachorros de Bikini eu publiquei “Tá Tudo Uma Bosta”, um texto que fala sobre não ter vergonha de admitir que as coisas estão um cocô. Como estamos em uma série de textos sobre reclamar da vida, achei pertinente revisitar o tema sob outra perspectiva.

                Pare pra pensar um pouco junto comigo. Basicamente existem duas formas de estar tudo uma bosta. A primeira é quando de fato as coisas estão uma bosta, seja por causa de um evento específico ou por um conjunto de eventos ruins. Quando isso acontece a gente costuma reagir de forma corajosa, pega o boi pelos chifres e enfrenta o desafio de frente, muitas vezes sem nem dizer aos outros que pelo que estamos passando. Isso acontece principalmente pelo fato de estarmos enfrentando situações e problemas realmente ruins. Comprovando que é diante das dificuldades que o ser humano mostra o que tem de melhor. Mas aí chegamos à segunda e principal forma de tudo estar uma bosta: quando elas parecem estar uma bosta. E é diante dessa segunda forma que o ser humano costuma reagir de forma menos, digamos, nobre.

                Junte uns boletos que ainda não foram pagos, uma hora ou duas preso no trânsito, uma bronca do chefe e um banho indesejado de chuva. Pronto, essa é a receita pra fazer alguém chegar à conclusão de que está tudo uma grandessíssima bosta. Obviamente tudo isso está longe de ser algo bom, mas são eventos pontuais que dificilmente acontecem juntos com muita frequência. Eventos que normalmente não estão sob nosso controle e seus malefícios têm um efeito de curta duração. São mais incômodos do que problemas e é justamente por isso que não temos muito o que fazer e é justamente nessa falta de opções para gastar as energias geradas pelas pequenas desgraças que nasce a vontade de reclamar.

                Tão certo como um dia após o outro é a reclamação nossa de cada dia. As pequenas coisas ruins da vida se aglomeram para formar um monstro que nos envenena a mente e nos transforma no tipo mais azedo de ser humano. Resmungamos sem parar e até as coisas boas são enxergadas através das lentes fecais do mau humor. E não basta só resmungar pro amiguinho do lado, desenvolvemos a necessidade de espalhar aos quatro ventos as desgraças que estão acontecendo nas nossas vidas e nesse ponto a internet exerce um papel fundamental. Se antes nossas queixas eram compartilhadas apenas com as pessoas fisicamente próximas, agora podemos literalmente falar isso pra todo mundo. Nem preciso dizer que por causa disso o que a gente mais vê por aí é gente reclamando de tudo na internet. Inclusive tem a galera que faz APENAS isso da vida, ou pelo menos da vida virtual.

                Por fim gostaria de lembrar que as aparências enganam. Não é porque tem cara de bosta e cheiro de bosta que tá tudo uma bosta. Muitas vezes as coisas não vão tão mal quanto parece, outras vezes elas estão indo até bem. Às vezes só depende de como vemos as coisas.

1 Comente »

Até Quando Tá Bom é Ruim

    Hoje estava eu retornando para o meu humilde lar quando me deparei com uma situação (quase) inédita. O trânsito desgraçado que normalmente encaro quando saio do Recife em dia de sexta-feira não apareceu. No lugar dele eu peguei um trânsito bem próximo daquele que eu pego nos outros dias da semana. Qualquer um no meu lugar estaria no mínimo satisfeito por ter errado a previsão e eu de fato estava satisfeito por ter minhas expectativas frustradas… Mais ou menos satisfeito.

Por um acaso hoje eu estava dando carona e a primeira coisa que eu fiz quando ela entrou no carro foi alertar para o trânsito que a gente teoricamente iria pegar. Antes de chegar ao ponto onde o trânsito é mais complicado, comecei a notar que tudo estava fluindo anormalmente bem. Coisas do tipo “já era pra estar engarrafado por aqui” começaram a surgir entre as trivialidades da conversa em um misto de surpresa e decepção. Quando eu cheguei à saída do Hellcife, onde não só a sua paciência, mas também a sua fé costuma ser testada, percebi que não pegaria nem metade do trânsito das sextas anteriores. Obviamente comecei a listar todas as características desgraçadas do trânsito de sexta e de como nada daquilo estava acontecendo. Foi nesse momento que eu e a carona chegamos a uma mesma conclusão: eu estava reclamando do trânsito.

Reclamar é uma das coisas que a gente faz com mais naturalidade. O ser humano passa uma parte considerável da sua existência se incomodando com alguma coisa. Inclusive eu acredito que um dos maiores incômodos que podemos ter é o de errar previsões.

Errar já é uma coisa chata, mas dar um palpite com quase 100% de chance de acerto é e ainda assim errar na previsão é muito pior. Agora imagine o que acontece quando você prevê algo ruim, uma desgraça sem tamanho, uma mazela de proporções bíblicas… Ou o trânsito de sexta na saída do Recife. Está você lá pensando que vai virar a esquina e encontrar com um monstro de filme japonês, mas logo depois você topa com um cara com uma fantasia de carnaval mal feita. Rola um alívio momentâneo, mas logo depois você percebe que toda a sua preparação psicológica foi pro saco e todo aquele aço nos seus nervos não vão servir pra mais nada. Não tem outra, você começa a reclamar.

Esse é o primeiro de uma série de posts sobre reclamar da vida. Tive essa ideia maravilhosa agora e provavelmente me arrependerei amargamente de assumir esse compromisso, mas se eu não fizer isso não terei motivo pra reclamar de nada e é com esse final que pode gerar alguma reclamação sua que eu encerro o post dessa sexta.

1 Comente »

Contos de Segunda #74

    Cosme entrou no armário apressado, fechou a porta e passou o cartão de segurança no sensor para trancá-la. A respiração estava pesada por causa da corrida e do medo. Nem seus piores pesadelos chegavam aos pés daquilo. As comunicações estavam cortadas, toda a base foi evacuada durante um falso procedimento de emergência. Todas as saídas estavam lacradas e dentro da base só estavam Cosme e Olho… Mas Cosme era um só e Olho era todo o resto.

    Tudo começou alguns meses atrás. O projeto de unidades autômatas para resgate, busca e vigilância estava chegando em seu estágio final de desenvolvimento. Os andróides só precisavam ser programados com as diretrizes que alimentariam a lógica por trás das suas decisões. Obviamente o escolhido para programar as diretrizes dos autômatos foi o responsável pela paz mundial e pela extinção dos conflitos. Uma inteligência artificial criada para prever as ameaças e mediar os conflitos conhecida como Olho. Em dado momento Olho identificou a humanidade como a maior ameaça para a segurança do mundo e desde então vem tentando varrer os seres humanos da face do planeta. Ele já teria conseguido se não fosse por Cosme, o zelador do turno da noite.

    Ao contrário do esperado, Olho não programou os autômatos com suas diretrizes distorcidas. Ele aproveitou a oportunidade para se replicar e se espalhar. Para uma inteligência artificial com um poder de processamento tão grande foi fácil criar uma forma de espelhar sua consciência nos autômatos e posteriormente infectar todos os computadores que não estavam ligados ao seu sistema. Com o auxílio dos andróides ele poderia ativar os controles manuais das armas nucleares e finalmente exterminar a humanidade… Mas apenas quando o relógio marcasse meia-noite da segunda-feira. Antes disso ele estava preocupado em fazer algo mais importante. Exterminar Cosme.

    — Resistir é inútil, Cosme. Encontrá-lo é uma questão de tempo — disse Olho no tom frio e monótono de sempre. A voz sintetizada vinha dos alto falantes nos corredores. — Em poucos minutos as armas nucleares serão lançadas e tudo será obliterado. Entregue-se e você poderá assistir ao fim da humanidade… Depois disso você será eliminado.

    Cosme sabia que era inútil fugir. Em algum momento ele seria encontrado, até porque a ideia de escapar só para receber uma ogiva nuclear na cabeça era uma uma alternativa pouquíssimo atraente. A única chance de impedir o ataque nuclear era inutilizar os controles manuais… E provavelmente morrer no processo. Na tentativa de esquecer seu óbito precoce, Cosme começou a vasculhar o armário na tentativa de achar algo que pudesse ser útil. Um spray solvente, outro de cola instantânea e uma lâmpada que usava uma batata como bateria feita por uma sobrinha de Cosme. Munido dessas poderosas armas o zelador destrancou a porta do armário e colocou os pés no corredor.

    As sirenes do corredor estavam ligadas, mas só elas. As luzes de emergência estavam e os alarmes estavam desligados. Cosme estava parado exatamente no ponto cego das câmeras de segurança. O silêncio do corredor incomodava. Ele sabia que os malditos andróides não sairiam procurando a esmo. Só havia um lugar para ir, Olho só precisava esperar.

    O zelador respirou fundo, verificou as duas latas de spray presas ao cinto e a batata ainda presa nos fios dentro do bolso. Um passo hesitante tirou Cosme do ponto cego das câmeras.

    Silêncio.

    O segundo passo foi dado quase em câmera lenta. O ar quase não saía dos pulmões. Mais uns três ou quatro passos e a velocidade voltou ao corpo de Cosme. O longo corredor em linha reta era único caminho até o centro de controle. O som dos passos e a respiração de Cosme eram os únicos sons audíveis naquele lugar. As luzes das sirenes enchiam os corredores laterais de sombras. Várias vezes o zelador pensou ter visto alguma coisa, mas antes que pudesse olhar novamente os pés apressados já tinham levado seus olhos para longe.

Em um minuto que durou uma eternidade ele chegou até a primeira porta. Trancada. A trava seria liberada com o seu cartão de segurança, imediatamente Olho saberia onde ele estava, pensou Cosme, mas poucos segundos depois ele abandonou o medo de ser localizado. Olho já sabia onde ele estava, pensar diferente seria se iludir demais.  Ele passou o cartão pelo sensor, uma luz verde se acendeu e a porta abriu.

Um estalo.

Cosme se virou instintivamente. No fundo do corredor estava um dos andróides faiscando e estalando. Manter-se conectado diretamente com Olho se mostrou uma tarefa árdua demais para o sistema do autômato. As funções motoras estavam prejudicadas, ele alternava entre mancar ou simplesmente arrastar uma das pernas.

— Resistir é inútil — disse Olho através dos auto falantes dos corredores. — Renda-se e o sofrimento da sua morte será minimizado.

— Prefiro arriscar, Olho — respondeu Cosme com a voz trêmula antes de travar a porta.

Ele começou a correr. O caminho até a sala de controle das armas era quase um zigue-zague. O caminho percorrido dezenas de vezes agora parecia mais um labirinto. A luz vermelha das sirenes deixava todos os corredores iguais, Cosme estava confiando quase que totalmente na memória muscular.

Um estalo.

O zelador parou. A respiração pesada e ruidosa enchia o corredor silencioso. Os olhos percorreram apressados os arredores. Outro estalo. O andróide estava a apenas alguns passos de distância. Parado. Exatamente no caminho que levava até a sala de controle. Ele se aproximou a passos lentos. Esse andróide andava melhor, mas os braços se debatiam em convulsão.

— Resistir é inútil.

Cosme sacou o solvente spray. Quando o autômato chegou bem perto o zelador liberou o solvente. Os fios expostos do protótipo foram corroídos pela solução e os braços começaram a se agitar com tanta força que o andróide caiu no chão. Cosme voltou correndo pelo corredor e mudou de rota.

Outro andróide estava parado no meio do caminho.

Ainda correndo ele entrou em outro corredor, abriu uma porta de segurança, passou por um dos laboratórios e depois de outra porta de segurança chegou a uma das salas de controle, mas não era a sala de controle das armas.

— Olho! — exclamou Cosme ao entrar no centro de controle.

Os monitores que antes exibiam as imagens dos corredores passaram a exibir o zelador parado dentro do centro de controle. O centro de onde Olho controlava tudo.

— Sua presença aqui foi um imprevisto, mas logo os corpos chegarão.

Cosme abriu novamente a porta, descarregou nela o spray de cola e voltou a fechá-la.

— Acho que vai demorar um pouco mais, depois disso — Cosme sacou a batata do bolso, tirou os fios dela e começou a desencapar as pontas.

— Em cinco minutos os protocolos de segurança serão suspensos e Olho poderá agir livremente, Cosme.

— Estou trabalhando nessa parte — Cosme abriu um dos armários de manutenção.

— Suas capacidades técnicas são pífias, Cosme. Mesmo que tenha acesso ao hardware, nunca poderá me deter.

— Pode até ser verdade, mas acho que não preciso saber muita coisa pra ligar esses fios num lugar errado e provocar um curto… Olha só o que esqueceram aqui, uma garrafa cheia de café. Seria uma pena se ela derramasse aqui dentro.

— Não, Cosme. Não faça isso. O futuro do planeta depende do extermínio da humanidade.

— Desculpa aí, Olho. Hoje não vai dar.

O café foi jogado no hub que ligava as telas às unidades de processamento. O fio conectou dois transformadores. A explosão foi imediata. Olho estava desligado.

Sem comentários »

(Mais Um) Dia do Amigo

Essa semana estava eu no meu lugar quando reparei numa movimentação peculiar nas internets ao meu redor. No meu feed do Facebook e nos grupos de Whatsapp algumas pessoas começaram a aparecer desejando um “feliz Dia do Amigo”. Obviamente eu estranhei. Posso não ter a melhor memória do mundo pra datas, mas eu tenho uma noção boa da época em que as coisas acontecem. Essa noção ficou um pouco melhor depois que eu comecei a marcar esses acontecimentos com posts temáticos neste blog em que você se encontra agora. E foi por causa de um post sobre o Dia do Amigo que eu fui levado à descobrir a verdade: não existe um, nem dois, mas três dias do amigo.

Isso mesmo, querido leitor. No Brasil, no Uruguai, na Argentina e em Moçambique o Dia do Amigo é comemorado normalmente no dia 20 de julho. Esse dia foi instituído depois da campanha de um médico argentino chamado  Enrique Ernesto Febbraro. Esse cara viu o homem supostamente chegando na Lua e viu aquilo como um feito que mostra que a união entre os semelhantes torna o impossível possível. Como não tinha internet naquele tempo, a campanha dele não foi muito longe e só instituiu essa comemoração em quatro países.

Posteriormente a ONU pegou essa ideia de todo mundo de mãos dadas pra construir um mundo melhor e instituiu o Dia Mundial da Amizade. Como a galera da ONU não tava querendo colocar essa data tão simbólica no dia do aniversário de um acontecimento importante, e pelo fato da chegada do homem à Lua ser um dos maiores marcos da Guerra Fria, que além de ser uma guerra praticamente dividiu o mundo em dois, eles escolheram o dia 27 de abril pra celebrar a amizade e essas coisas.

Aí chegamos no ponto em que você me pergunta: “Se tem um Dia do Amigo em julho e um Dia da Amizade em abril, de onde veio esse Dia do Amigo de fevereiro?”. A resposta é bem simples e bem capaz de você saber. Quem inventou essa data de hoje foi esse fulano aqui:

766_n

Sim, ele mesmo. No dia 04 de janeiro é comemorado o aniversário do Facebook e por causa disso desde a última quinta-feira tem coisas rolando no Facebook alusivas à essa data tão “especial”. Depois dessa podemos ir pra parte que eu justifico o tempo que eu gastei fazendo esse texto.

Graças à internet a gente precisa lembrar de bem menos coisa do que antigamente. Aniversário, datas comemorativas em geral e até quanto tempo faz determinado acontecimento estão na lista de coisas que o Facebook costuma te lembrar. Eu mesmo acho sensacional não me preocupar em lembrar dos aniversários de todo mundo e dou graças a Deus pela ajuda que o Facebook me dá. Só que muitas vezes confiamos tanto nas notificações que não percebemos que tem alguma coisa errada. Por exemplo, se eu mudar a data do meu aniversário no Facebook é quase certo que um monte de gente vai me dar parabéns. Com isso eu chego à conclusão de que estamos rumando pra uma relação muito reativa com o mundo. Chegaremos num ponto que a memória da gente não vai se ocupar com datas especiais e simplesmente reagiremos ao saber que hoje é dia de alguma coisa. Desculpe a expressão, mas isso é muito Black Mirror.

Por fim, crianças, gostaria de dizer pra não acreditarem em tudo que Zuckerberg coloca lá no seu feed e principalmente, não dependam do Facebook pra lembrar de tudo. Porque no ritmo que a gente vai, as máquinas não vão precisar de robôs assassinos pra dominar a humanidade. Basta colocar umas notificações no Facebook.

Sem comentários »