Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #81

Espaço, a fronteira final. Milhares de anos atrás a humanidade se lançou ao espaço, hoje o Sistema Solar foi completamente colonizado. Ao longo dos milênios, os humanos terraformaram Marte e Vênus, colonizaram os satélites de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, criaram rotas de navegação para não se perder na imensidão do espaço. Surgiram os governos setoriais, as grandes corporações mineradoras, de transporte e de logística. A humanidade alcançou um novo patamar de prosperidade e desenvolvimento… Não demorou muito para que surgisse também um novo tipo de criminoso.  

— Navegação, quanto tempo até o destino? — Questionou o capitão do cargueiro.

— Três horas e doze minutos, senhor — respondeu o oficial de navegação.

Aquela era uma viagem de rotina. O cargueiro estava transportando peças, ferramentas e outros suprimentos da Lua para a estação Marte I, localizada em Fobos, um dos satélites naturais de Marte. Normalmente os suprimentos eram enviados a partir da superfície de Marte, mas aquela carga em especial possuía algo de diferente.

— Algum sinal da nossa escolta? — Perguntou o capitão.

— Negativo, senhor — respondeu o oficial de comunicações. — Estão dezoito minutos atrasados… Senhor, perdemos contato com Marte I. Estão interferindo no nosso sinal.

O capitão demorou apenas alguns segundos para começar a despejar ordens sobre a tripulação.

— Disparem os sinalizadores. Time de artilharia, aos seus postos. Subam a blindagem da ponte e todos coloquem seus trajes de emergência, não quero ninguém morrendo por causa de uma eventual descompressão. Alguma coisa no radar?

— Não, senhor… Espere! Estou captando o sinal de um reator… É uma nave senhor… Está vindo rápido.

— Consegue identificar?

— Sim… A assinatura do transponder corresponde ao Combatente 69, senhor. É a nave de Jeannie Nitro.

— O quê? Preparem os mísseis, precisamos ganhar tempo até o reforço ou a escolta chegarem. Atirem quando essa cachorra estiver no alcance.

— Que palavras rudes, capitão — disse uma voz feminina em tom de deboche.

O rosto de Jeannie apareceu no monitor. Ao contrário de outros colegas de profissão, Jeannie Nitro gostava de conversar com os capitães das naves que estava prestes a abordar. Em algumas vezes ela conseguia um acordo razoável para as duas partes, na maioria delas tudo que conseguia era aumentar a fama.

— Vou direto ao ponto — começou ela. — Preciso que me entregue o contêiner blindado que está carregando. Um pequeno, que tem uma trava com senha. É só jogar ele, digamos, fora e eu gentilmente vou lá e pego. Cada um segue seu caminho e todos ficamos felizes.

— Não negociamos com criminosos — respondeu o capitão raivoso. — Logo nossa escolta estará aqui e você, sua maldita tripulação e essa aberração mecânica que você chama de nave vão virar poeira.

— Você sabe mesmo como agradar uma dama, capitão. Se eu fosse um pouco mais inocente estaria completamente apaixonada… Infelizmente não sou. Estou chegando, capitão. Câmbio e desligo.

A gargalhada que Jeannie deu logo depois teria matado o capitão, e qualquer um na situação dele, de raiva. Isso se ele não morresse de medo antes. Jeannie Nitro era uma das piratas espaciais mais conhecidas entre a Lua e Júpiter. Sua nave, a Combatente 69, de fato era uma aberração mecânica e justamente por isso era uma das mais temidas pelas naves civis. Rápida, ágil, equipada com armamentos proibidos e dispositivos de ocultação. Mas nada disso valeria se não fosse sua tripulação.

— Charles, assuma o sistema de armas. Eu vou pilotar — disse Jeannie em um tom mais sério.

— Sim, capitã — respondeu Charles Chacal.

— Lupita, já estamos no alcance?

— Quinze segundos, capitã — respondeu Lupe Brown.

— Walter, minhas adagas estão prontas? — disse Nitro pelo rádio.

— Esperando a ordem, capitã — respondeu a voz envelhecida pelo alto falante da ponte  de comando.  

— Entrando no alcance em três… Dois… Um… Eles dispararam, seis segundos para o impacto.

— Vou dar a volta e pegar ele por trás. Desativa esses mísseis, Charles. — disse a capitã.

Charles disparou os geradores de pulso elétrico. O pulso fritou o sistema de orientação dos mísseis e de propulsão, deixando os projéteis à deriva. A Combatente fez uma curva e se posicionou por trás do cargueiro enquanto o fogo chovia sobre ela.

— Localizei a porta do compartimento de carga — avisou Charles. — Vou disparar.

Dois projéteis de alta densidade acertaram o alvo em cheio, amassando a blindagem da porta de carga.

— Walter, lançamento ao meu sinal — disse a capitã. — Três… Dois… Um… Lançar.

A nave fez uma curva perigosamente perto da traseira do cargueiro. No mesmo instante Walter lançou dois blocos de metal que se prenderam à fuselagem com travas magnéticas. Os blocos se abriram revelando dois robôs soldadores e as Irmãs Adaga, Sheila e Dolly. Com seus maçaricos e alicates hidráulicos, levou menos de um minuto para criarem duas entradas para as irmãs. Elas imediatamente sacaram seus rifles. A tripulação estava preparada. Eram pelo menos oito, a maior parte deles equipada com armas automáticas. Enquanto Dolly trocava tiros com a tripulação, Sheila programava o dispositivo gerador de campo magnético. Com a intensidade correta, o gerador atrairia apenas o contêiner desejado pela capitã. Assim que a programação terminou, Sheila arremessou uma granada contra a porta do cargueiro. A estrutura enfraquecida pelos soldadores foi arremessada para a imensidão do espaço. As duas irmãs recuaram para perto da porta, agora elas só precisavam se manter vivas até a carona chegar.

Lá fora as coisas estavam prestes a se complicar.

— Vários sinais de reator apareceram no radar, parece que a escolta deles chegou — alertou Lupe. — Capitã, transmissão chegando.

Um homem de trajes militares apareceu no monitor.

— Saudações, senhorita Nitro.

— Igualmente, Capitão Crash.

— Agora é Major Crash.

BAM. Algo atingiu a nave.

— Dois cruzadores e mais oito caças, capitã — disse Lupe. — Chegando em dez segundos.

— Entregue-se agora e prometo que não receberá pena de morte — negociou Crash.

— Consideração pelos velhos tempos? Fico emocionada, mas vai ficar pra outra hora — respondeu Jeannie encerrando a transmissão. — Tenho que pegar um prêmio.

Ela acelerou os motores ao máximo. Deu uma pirueta e desviou de um disparo, outro e outro. Os caças estavam se aproximando.

— Dentro do alcance em três… — Disse Lupe.

— Arma magnética pronta — completou Charles.

–… Dois… Um

A arma magnética foi acionada. Um campo elétrico com ajustes de frequência tão precisos que apenas os robôs, que carregavam as irmãs Adaga, e o gerador que estava dentro da nave foram puxados. O gerador serviu de condutor entre a arma e o contêiner, que saiu voando pelo compartimento de carga e aderiu à fuselagem da Combatente. A desaceleração fez com que os inimigos chegasse ainda mais perto, testando a blindagem da nave pirata com disparos cuidadosos, ninguém queria acertar o cargueiro.

Jeannie abriu a transmissão para a nave do Major Crash.

— Foi bom te ver de novo, capitão, mas eu não posso ficar — debochou ela.

— Acha mesmo que pode escapar de mim, Nitro? — Rosnou Crash.

— Como se você pudesse me pegar — respondeu ela antes de cortar a transmissão.

Charles liberou a cortina de fumaça que camuflava os sinais do reator da nave. A blindagem laminada mudou de cor para imitar o breu espacial. Os caças ainda conseguiram manter perseguição até que uma segunda cortina de fumaça interferiu nos sistemas de navegação, forçando os pilotos a desistirem. Deixando a Combatente 69 inteira para lutar em outro dia.

Vamos (Finalmente) Falar de Logan

Hoje é um dia feliz, não só por ser sexta-feira, mas também por ser o dia de cumprir uma promessa. Depois de exatos vinte e um dias prometendo, hoje finalmente cumprirei a promessa de falar de uma obra cinematográfica que, não só será lembrada como um dos melhores filmes de 2017, mas também como um marco dentro do “gênero” de filmes de quadrinhos/super-heróis. Hoje o Cachorros de Bikini vai falar de Logan.

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Posso estar falando uma besteira inacreditável, mas eu tenho pra mim que a história de todo mundo com esse filme começou bem antes da primeiras notícias sobre o início da produção. Boa parte do público que foi esse mês no cinema ver o filme novo do Wolverino assistiu aqueles dois filmes horrorosos que tiveram nosso amigo Logan como protagonista. Tanto o X-Men Origens: Wolverine quanto o Wolverine: Imortal foram tão fracos que todo mundo estava com expectativas baixíssimas para o “Wolverine 3”. Aí começaram a sair os anúncios do filme novo, imagens e derivados, muita gente já tava dizendo “agora vai”. Então, em outubro de 2016, saiu esse trailer:

Aí 99,9% das pessoas disseram “agora vai”.

Eis que chegamos ao fatídico março de 2017 e todo mundo foi ver se, mais uma vez, o público tinha sido iludido pelo trailer. Depois de ver o filme duas vezes, de discutir muito sobre o filme e de ouvir algumas discussões sobre ele, posso dizer com todas as letras: não, ninguém foi enganado pelo trailer.

Wolverine é um personagem violento. Não falo isso só pelo fato dele ser extremamente agressivo, ou pelo fato dele ter garras feitas de um metal indestrutível saindo das mãos e nem por usar essas garras pra estripar seus inimigos. Wolverino é um personagem violento justamente por ter uma vida marcada por violência. Durante experiências militares, a chamada Arma X perdeu suas memórias. Restando apenas o instinto selvagem derivado da natureza da sua mutação. O caminho dele de reencontro com sua humanidade perdida é pavimentado por sangue e morte. E mesmo depois desse reencontro, o tanto de sangue e morte não diminuem.

O Logan que dá título ao filme ilustra bem isso. Um personagem envelhecido e amargurado que tenta viver longe da morte enquanto trabalha e cuida do seu antigo mentor, o Prof. Xavier, que sofre de uma doença neurológica degenerativa. Alguém que está caminhando o mais rápido que pode para o fim da vida, que não só tem o corpo em ruínas, mas uma vontade de viver tão degenerada quanto. Wolverine não é mais o que era antes e isso fica bem claro só de ver o título do filme: Logan. Um aviso de que esse não é um filme sobre um super-herói. Sem capa, sem a nobreza, sem a missão de salvar o mundo do mal e sem um nome heroico. Esse é um filme sobre o homem debaixo da máscara, sobre um cara que viveu uma vida, na medida do possível heroica, mas que deixou isso tudo pra trás. O tempo dele passou e só resta esperar pelo fim. Só que uma certa menina cruza do caminho do nosso amigo Wolverino.

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Laura, a X-23, não é só a fugitiva de um projeto secreto que transformava mutantes em armas. Não é só a menina mais badass que eu me lembro de ter visto em um filme. Ela é uma pessoa com a vida marcada pela violência. Ela lembra ao Wolverine da forma mais brutal como aquela vida desgraçada que ele teve começou e de como a mesma coisa já está acontecendo com ela. A partir daí a história se desenvolve e as coisas legais vão acontecendo, não cabe falar delas em específico aqui.

A melhor coisa do filme é, de longe, a química entre os três personagens principais: Wolverine, Prof. Xavier e Laura. Enquanto o Professor tenta ao máximo se manter fiél aos seus princípios e ajudar um mutante em dificuldades, Wolverine vive um conflito entre a sua vontade de ajudar a garota e a tentação de fugir de todos os problemas que ela trouxe consigo e Laura se vê pela primeira vez fora do laboratório onde nasceu, com pessoas que ela mal conhece, mas que já significam tanto pra ela. Vale ressaltar que Laura também foi a maior surpresa do filme, tanto a personagem quanto a atriz que interpreta.

Se a química dos três é a melhor coisa do filme, a relação da X-23 com Wolverine é o mais divertido. Ver Logan assumindo um papel paterno que ele claramente não está pronto pra assumir rende os momentos mais divertidos e, na medida do possível, leves do filme. Que são bem poucos porque no geral a vibe do filme é bem pra baixo.

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Logan é um filme pesado, violento, pra baixo, sem esperança e muito bom. E, apesar de todas as desgraceiras que acontecem o tempo todo nesse filme, o que mais ficou na minha memória foram os momentos mais leves, felizes e divertidos do filme.

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Infelizmente essa foi a despedida do Hugh Jackman do papel de Wolverine. Digo infelizmente porque esse foi o único filme solo do Wolverino que foi realmente bom. Na verdade foi um dos únicos filmes do universo X-Men que foram realmente bons. É uma pena, mas é da vida. Valeu, Hugh Jackman, até a próxima.

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O Sereio Brasileiro

    Hoje estava peregrinando por um grande portal de notícias daqui de Pernambuco quando me deparo com a seguinte manchete:

Sereio

    Se você quiser ler a matéria na íntegra é só CLICAR NESSE LINK.

    Em resumo a matéria fala de Davi Moreira. Ele mora no Rio de Janeiro e é adepto do sereismo. Na prática o sereismo não tem nada de muito exótico ou exagerado, o adepto desse estilo de vida, além de ter um grande amor pelo mar (ou rio, ou piscina, ou qualquer ajuntamento de água profundo o suficiente pra dar uma nadada) quem leva esse estilo de vida nada usando uma cauda de sereia.

    Davi Sereio, como gosta de ser chamado, começou a ganhar notoriedade por causa das suas fotos e vídeos que estão por aí nas internets. Atualmente ele recebe vários convites pra animar baladas e festas na piscina e ganha até 200 dilmas pra fazer essas participações. Segundo ele essa admiração pelas sereias começou com A Pequena Sereia e aumentou depois de ler a obra de Mirella Ferraz, que além de escritora faz esses esquemas de sereia.

    Inclusive se você entrar no blog da moça, com o sugestivo nome de Eu Sou Uma Sereia, vai descobrir que existe toda uma cultura sereista e um monte de gente que é super fã dessas paradas. Lá você também encontra UMA PORRADA de fotos da moça com as mais diversas caudas de sereia, algumas delas assustadoramente reais.

    Enquanto a nossa amiga escritora prefere fazer a distinção entre os gêneros quando fala do povo submarino, detalhados nesse post muito bom sobre tritões que acaba falando das sereias no geral, nosso amigo Davi se considera um meio termo entre sereias e tritões, preferindo a alcunha de sereio, sob o pretexto de adotar uma identidade sem gênero quando coloca o seu rabo de peixe. Apesar dos comentários negativos e da galera galhofando da cara dele, Davi persiste fazendo o que ama, que é atacar de sereio sempre que pode.

    Aí chega o ponto que eu preciso opinar sobre a parada do cara ser sereio. Paro pra avaliar a notícia e chego à conclusão que tudo isso é uma das coisas mais malucas que eu vi nos últimos tempos. Digo isso mais por não imaginar que existisse isso do que por achar que as pessoas que praticam essas sereiadas são malucas. Acredito que todo mundo já pensou como seria se a gente fosse sereia, a diferença é que essa galera não ficou só pensando, foi lá e fez. Só pela atitude essa galera já ganha uns pontos e ganha mais uns se fizer que nem Davi Sereio que nada no mar usando rabo de sereia. Já é cabuloso nadar no mar de forma geral, imagina usando um rabo de sereia?

Cada vez mais me convenço que o mundo está cheio dos mais variados tipos de pessoa e por causa da internet esses tipos mais exóticos aparecem pra gente mais fácil. Justamente por isso não posso dizer que essa de sereia é novidade, provavelmente já tem gente fazendo isso desde sempre e a gente que nunca ouviu falar. Já dizia Salomão: não tem nada de novo debaixo do sol… Nem gente que usa rabo de sereia

Contos de Segunda #80

Fechamos o mês do Dia Internacional da Mulher da mesma forma que começamos, com um conto da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62 e do Contos de Segunda #77. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

— Você O QUÊ?

Foi assim que Terça, Quarta, Quinta e Sexta reagiram. Uma reação perfeitamente compreensível. Afinal, da última vez que as Damas da Semana se reuniram, Segunda-feira ainda estava tentando bolar um plano para conseguir um filho. Os planos deram certo rápido demais.

— Eu estou grávida… Na verdade estarei grávida… Mas já me sinto como se estivesse.

As cinco estavam reunidas na casa de Terça-feira. O primeiro dia útil da semana já estava virando noite quando as cinco foram reunidas por sua líder.  Segunda-feira estava preocupada com o seu atual estado, na verdade com o seu estado futuro. Em algum ponto do tempo o seu corpo estava mudado pela gestação e por ser uma Dama do tempo ela estava conectada com a sua forma física de todas as épocas. Ela ainda não estava grávida de fato, mas já sentia como se estivesse.

— É algum tipo de gravidez psicológica? — Perguntou Quinta. — A gente pode sofrer dessas paradas? Nem sabia que a gente conseguia engravidar… Digo, engravidar “engravidar”.

— Acho que a gente não consegue sofrer disso, Quinta — respondeu Quarta. — Deve rolar alguma coisa parecida que é vinte vezes pior.

— Será que Segunda vai parir algum monstro maluco de antimatéria? — Fantasiou Sexta. — Vai ver que o bebê dela vai nascer velho e depois vai ficando novo, que nem naquele filme.

— Explica como foi que começou, Segunda — disse Terça.

— Encontrei com a Dama de Sangue. Ela me disse que pra uma Dama ter um filho não existe receita de bolo. Cada uma precisa encontrar a sua própria forma de gerar um. Ela me deu essa garrafa e disse que eu precisava tomar pra ficar mais parecida com um organismo comum. Logo depois eu comecei a ter sensações do futuro. Comecei a me sentir grávida… E provavelmente vou me sentir assim até chegar no ponto do tempo em que não vou estar mais.

— Certo… — Ponderou Terça. — Agora só precisamos pensar numa forma de te engravidar.

— Foi só pra mim que isso soou muito errado? — Interrompeu Sexta.

— Pareceu meio bizarro mesmo — respondeu Quinta.

— Foi por isso que eu convoquei vocês hoje — começou Segunda. — Estamos no início da semana e só hoje nós cinco podemos usar o poder do meu santuário… Ainda temos algumas horas da segunda-feira para tentar alguma coisa… Alguma sugestão? Consegue ver o meu futuro, Terça?

— O futuro está nebuloso, Segunda. As sensações futuras da sua gravidez estão gerando muita interferência… Se estivesse acontecendo comigo eu poderia usar essas sensações como um condutor para ver o futuro.

— Na prática está acontecendo contigo — esclareceu Quarta. — Está acontecendo com todas nós.

— Quarta tem razão — concordou Quinta. — Nós já fomos uma coisa só. Nós éramos a Dama da Semana… Não lembro como deixamos de ser, mas na prática ainda somos.

— Quem sabe a gente consegue se juntar de novo — completou Sexta. — A gente já se dividiu uma vez, a gente consegue se dividir outra.

O raciocínio de Segunda-feira entrou em um frenesi. Imediatamente ela avaliou todas as possibilidades e impossibilidades do plano recém traçado, mas ela precisava agir rápido, as horas estavam se passando.

— Vamos, meninas — chamou Segunda. — Precisamos fazer isso rápido… Sentem em círculo, vamos nos ordenar em sentido horário.

As demais obedeceram. Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta se sentaram nessa em círculo nessa ordem. Deram as mãos e fecharam os olhos. Segunda respirou fundo e canalizou as energias do seu santuário. Com uma das mãos ela transmitia essa energia de Terça e com a outra recebia a energia de Sexta. A ligação foi feita, o fluxo de energia estava cada vez mais intenso. As cinco se desmancharam aos poucos, se unindo à sua líder. Uma única Dama, um único ser, mas o desejo que ardia naquele coração vinha de uma única fonte.

A recém renascida Dama da Semana pegou o frasco dado pela Dama de Sangue e bebeu o conteúdo em um gole só. A reorganização física aconteceu rápido demais, provocando uma instabilidade na união das Damas. Mas elas não podiam se separar ainda. Nos seus últimos instantes, a Dama da Semana se concentrou no seu desejo, em como ela queria gerar uma nova vida e em como seria terrível o seu futuro caso não conseguisse.

Então ela se separou. Pela segunda vez ela deixou de ser uma só.

— AAAAAHHHRRRRRRGGG — gritou Segunda. Ela caiu no chão se contorcendo de dor. O ventre dela cresceu, cresceu rápido, rápido demais.

Terça ainda estava sob o efeito da separação quando viu a irmã se debatendo. Imediatamente se lançou sobre ela na tentativa de segurá-la. Quarta não conseguiu reagir, Quinta prontamente se pôs a ajudar Terça. Sexta tentou acalmar a irmã.

— Calma, Segunda. Aguenta

— AAAAAHHHRRRRRRGGG.

A gritaria continuou por alguns minutos, foi quando a barriga da Dama começou a diminuir até retornar ao tamanho normal. Segunda, ainda sem fôlego, não conseguia entender.

— E agora? O que acontece? — Questionou ela. — Eu consegui?

A resposta veio na forma de um som baixo. Peças de madeira batendo contra o tabuleiro. O som vinha de uma sala ao lado, onde estava um antigo jogo de damas. Segunda se levantou do chão e caminhou lentamente até o outro cômodo. Lá estavam dois garotos, um deles parecia ser um pouco mais velho, nenhum deles parecia ter menos de dez anos. Eles jogavam em silêncio, com calma, fazendo os movimentos sem pressa. Os dois se viraram ao mesmo tempo quando perceberam que Segunda estava observando. Um deles quebrou o silêncio.

— Oi, mãe. Quer jogar com a gente?

Ovo de Páscoa de PlayStation

Estamos contando vinte e quatro dias depois do carnaval e isso quer dizer que já percorremos mais da metade do caminho até a Páscoa. Com a proximidade dessa celebração religiosa tão tradicional, as lojas já estão entupidas de toda a sorte de ovos de chocolate. A cada ano tem mais e mais tipos de ovos, mais e mais ovos de algum personagem, marca, série, filme ou desenho animado. Normalmente com alguma surpresa dentro. Até aí nada muito diferente do que já estamos acostumados, mas um belo dia tive uma surpresa. Não mais que de repente me deparo com essa imagem aqui.

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Antes de discorrer sobre o assunto, me deixem dar os parabéns pra quem teve essa ideia maravilhosa de fazer um ovo com a temática PlayStation. O mais engraçado é que o ovo não é temático dos jogos exclusivos de PlayStation ou ostenta algum personagem icônico dos video games. Esse ovo é uma ode ao console, ao aparelho, ao equipamento, ao hardware. As pessoas estão literalmente comprando o ovo de uma coisa que serve apenas pra rodar os jogos. Sério, quem teve essa ideia merece palmas.

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Antes de começar a analisar o ovo em questão, vamos fazer uma pequena pausa para analisar os ovos de maneira geral.

Todo mundo sabe que ovo de Páscoa é uma das paradas mais cretinas que existe na face do planeta. Os ovos que a gente encontra normalmente nas lojas de departamento, super mercados e afins, não passam de uma forma das fábricas venderem o mesmo chocolate de sempre por preços absurdos. Digo absurdos porque quando o ovo vem com algum brinquedo dentro, o preço dá uma subida meio violenta. Os mais afetados pelos ovos com brinquedo dentro são as crianças e seus pais. Os pais sofrem porque o preço desses ovos são um verdadeiro assalto e as crianças sofrem porque, depois de todo esforço desprendido pra convencer o pobre pai/mãe que gastar uma quantia obscena de dinheiro em um ovo de chocolate é uma boa ideia, elas abrem o maldito ovo e o brinquedo é uma bela de uma bosta. Normalmente a qualidade, ou funcionalidade, do brinquedo é muito inferior à de uma surpresa do McLanche Feliz, por exemplo. E só depois de estabelecer isso é que chegamos ao ponto crítico da questão.

Não sei se vocês repararam, mas na caixa do ovo tem um joystick de PlayStation. Olhe de novo e você vai ver que esse joystick na verdade é um relógio digital no formato de um controle de PlayStation 4. Aí eu pergunto:

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Sério? Sério que o brinde que vem num ovo temático de vídeo game é um RELÓGIO? Pessoas vão chegar em uma loja, olhar pra esse ovo de CENTO E CINQUENTA GRAMAS, vão ficar com vontade de comprar esse negócio, até porque todo mundo quer um relógio na forma de um controle de vídeo game, vão olhar o preço maravilhoso de SESSENTA REAIS e vão achar que estão fazendo um bom negócio?

Faz um tempo que eu aceitei que as coisas não estão fazendo mais o mínimo sentido e cada vez mais eu fico convencido que a humanidade tomou um caminho sem volta para a loucura total, depois dessa do ovo eu tenho um pouco mais de certeza. Pra terminar eu vou fazer um cálculo seguindo a tradição da Páscoa. Com uma conta ligeira eu constatei que com o dinheiro de três ovos do PlayStation, que vem com relógios no formato de controle, dá pra comprar um controle de verdade. Pense nisso e até semana que vem.

Qual o Seu Tipo de Pessoa?

Ontem estava eu fazendo meu cadastro para poder baixar um conteúdo gratuito de uma certa loja. Em dado momento fui eu preencher aquelas informações que eles colocam na nota fiscal. O primeiro campo para preencher era esse aqui:

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Imediatamente fui levado à uma reflexão relâmpago. Obviamente que o formulário só queria saber se eu era uma pessoa física ou jurídica, inclusive eu fiquei tão estupefato pelo efeito do campo “Tipo de Pessoa” que foi um alívio ver que só existiam essas duas opções. Concluí meu pedido, o PDF chegou no meu email, mas aquela interrogação permaneceu na minha cabeça. Que tipo de pessoa eu sou afinal?

A primeira coisa que precisamos estabelecer aqui é se de fato as pessoas podem ser divididas em tipos. Nosso procedimento normal ao conhecer uma pessoa, seja pra valer ou superficialmente, é encaixar essa pessoa em alguma, ou algumas, das categorias de pessoas que criamos ao longo das nossas vidas. Não classifico isso como um comportamento preconceituoso, na prática precisamos disso pra criar uma espécie de bússola social. Saber onde pisa é o primeiro cuidado que precisamos tomar ao viver em sociedade e esses rótulos que colocamos nos outros nos ajudam a evitar alguns conflitos desnecessários. A parte ruim disso é que corremos o risco de cair na tentação de sermos muito taxativos.

Precisamos lembrar que vivemos num mundo onde as pessoas são tridimensionais. Mesmo que muitos não pareçam, todos os seres humanos podem ser encaixados em algumas, se não várias, categorias e normalmente a quantidade de categorias nas quais encaixamos as pessoas é proporcional ao tanto que conhecemos elas. Pensando nisso eu lembrei de uma parada que eu acabei de descobrir como se chama do diagrama de Venn. Fica fácil de entender como ele funciona observando o exemplo 100% verídico abaixo:

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Seguindo por etapas nós dividimos as pessoas em uma e, dependendo da pessoa ou do nível de conhecimento que temos dela, vemos em quais outras categorias ela se encaixa e criamos uma espécie de diagrama para cada pessoa. Essa ideia foi colocada em prática de uma maneira trinta e cinco vezes mais inspiradora do que nesse texto por uma rede de TV dinamarquesa. Se for assistir, lembre de se certificar que as LEGENDAS ESTÃO LIGADAS.

Mas aí chegamos ao ponto crítico desse tema. Você já se perguntou que tipo de pessoa você é? Normalmente somos relativamente cientes daquilo que não somos. Digo relativamente porque o autoconhecimento pleno é uma coisa difícil de conseguir e que normalmente não colocamos como meta da vida. Inclusive é bem provável que você, caro leitor, esteja na mesma situação que eu. E eu não consigo dar uma resposta 100% para uma pergunta dessa. Eu posso ficar aqui pensando um tempão e continuar insatisfeito com a resposta. Sempre vai ter alguma coisa que eu não estou enxergando ou algum traço de personalidade que passe despercebido. Exatamente por isso que vou tentar chegar a uma resposta decente pra essa pergunta e recomendo que você faça o mesmo. Quem sabe a gente não aprende alguma coisa?

Contos de Segunda #79

Mais uma noite de segunda em Vila Urbana. Enquanto os cidadãos retornam para seus lares depois de um dia de trabalho, os criminosos continuam incansáveis na sua investida contra a lei e a ordem na cidade. Justamente por causa dos elevados índices de criminalidade, e da presença esporádica de resíduos tóxicos ou radioativos, muitos vigilantes mascarados surgiram para impedir que a cidade fosse tomada pelo mal.

Um desses vigilantes é o Homem Camaleão. Nesse momento ele espera pelo melhor momento de nocautear os bandidos que invadiram uma transportadora para roubar um carregamento de eletrônicos. O alarme não soaria, alguém estava facilitando para os bandidos. Apenas um defensor da justiça atendo poderia impedir que esse crime fosse cometido, mas seguir os bandidos poderia revelar um esquema muito maior de roubo de eletrônicos. Ele teria esperado, saltado no caminhão, seguido os bandidos e nocauteado todos os envolvidos no esquema. Teria, mas algo inesperado aconteceu.

Os bandidos foram nocauteados, um a um. Como se algo invisível estivesse desferindo os golpes. Como se o próprio Homem Camaleão estivesse batendo nos bandidos. Revestido pela sua camuflagem camaleônica, nosso herói se aproxima da cena do crime e encontra todos os criminosos desacordados. Ele olha ao redor e identifica uma figura disforme, imediatamente ele desativa a sua camuflagem. Ninguém além dos guardas está de pé.

— Sei que você está aí, apareça — esbravejou o Homem Camaleão.

Diante dele uma camuflagem se desfez e lá estava uma garota. Pela aparêcia não devia ter mais do que doze ou treze anos, usava um uniforme que imitava o dele e parecia ligeiramente nervosa.

— Sabia que a gente ia se encontrar — disse a menina.

— Quem é você?

— Sou sua assistente.

— Não, não é.

— Sou sim.

— Eu nem te conheço.

— Prazer, pode me chamar de Camaleoa. Só vou revelar minha identidade depois que você revelar a sua.

— Revelar? Como eu… Você… Que história é essa?

— Um dia acordei com poderes iguais aos seus e achei que combater o crime seria uma boa.

— Combater o crime é perigoso!

— Um monte de gente dessa cidade faz isso.

— Um monte de gente adulta faz isso.

— Eu sou mais forte e mais ágil do que a maior parte desses bandidos, sem contar que eu fico invisível.

— Não é só sair por aí batendo nos bandidos, você pode se machucar.

— Tanto quanto qualquer um… Admita, Camaleão, nenhum desses argumentos vão colar.

–Você precisa de licença pra exercer essa atividade — pontuou o herói convencido que tinha ganhado o debate.

— Você fala da licença que eu posso tirar caso eu exerça a função de ajudante, auxiliar, sidekick, assistente ou seja lá como vocês velhos chamam.

— Eu não sou um velho e não você não vai ser nada minha.

— É isso que vocês heróis fazem? Deixam pré-adolescentes combatendo o crime na ilegalidade? Muito heróico da sua parte — rebateu ela estreitando os olhos.

Homem Camaleão levou as mãos ao rosto, remexeu na máscara e depois de alguns segundos de descontrole ele respondeu.

— Tá bom! Tá bom! Eu deixo você ser minha assistente. Não preciso de uma assistente, mas vou aceitar só pra te provar que você está errada.

— Homem Camaleão, no ranking do ano passado você ficou em primeiro lugar na lista dos heróis mais surpreendidos pelos bandidos.

— De onde você tirou isso?

— O sindicato publica esses dados, tanto o dos heróis como o dos vilões. Tá tudo na internet, são dados públicos. Foi um dos motivos que me fez te escolher pra ser meu mentor, você precisa de alguém pra vigiar suas costas.

— Eu sei que não preciso, mas vou aceitar isso como um aviso para tomar mais cuidado — ele respirou fundo, deixou passar o resto da raiva antes de continuar. — Vamos, eu preciso providenciar um uniforme novo pra você. A lei nova determina que os uniformes não propaguem fogo e tenham selo de aprovação dos órgãos competentes… Do que eu vou te chamar?

— Tá na cara que meu nome é Camaleoa.

— Camaleoa? Só Camaleoa? Pensei que ia ser algo como Garota Camaleão ou algo assim.

— Esses nomes com “Garota” na frente prendem as heroínas no estereótipo da adolescente inexperiente que usa máscara. Sem falar que me coloca numa posição inferior à sua. Pensando no longo prazo, não é nada benéfico pra minha imagem. Quando eu tiver idade pretendo seguir carreira solo. Sem ofensa, Camaleão, mas não quero passar a vida inteira na sua sombra.

A Cabeça Tá Gasta

    De todas as atividades que eu faço, apenas uma delas é remunerada. Nessa atividade eu preciso usar um nível bem baixo de criatividade, de modo que eu fico arrumando formas de descarregar o tanto de ideias que eu costumo ter. Foi exatamente por isso que eu comecei com este blog e esse é o motivo principal pra jogar coisas e escrever pra outros sites. Só que eu ando exagerando e por causa disso a cabeça tá meio fraca de ideia ultimamente. Aí eu comecei a pensar sobre isso.

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    Cheguei à duas conclusões. A primeira é que não é hoje que sai o post sobre Logan. Foi mal, Wolverine.

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    A segunda é que minha cabeça tá gasta.

    Eu tenho o prazer e o privilégio de ter na minha lista de amigos pessoas que trabalham com criatividade. Designers, músicos, escritores (profissionais ou não) e até atores. Independente de fazer por lazer ou pra pagar as contas, todos eles trabalham tendo ideias e colocando essas ideias no papel. Boa parte, se não a grande maioria, deles exercita a criatividade além do seu ofício principal. É bem provável que eles tenham caído na mesma armadilha que eu: gastam mais ideias do que é possível ter.

Imagine que a sua cabeça é uma conta bancária e as ideias são dinheiro. Periodicamente entra algum dinheiro na sua conta e você vai gastando de acordo com a necessidade. Assim como na conta bancária, se as ideias saem mais do que entram, você começa tirar de onde não tem pra cobrir os gastos. A sua conta vai ficando vermelha, vermelha e vai continuar avermelhando enquanto as ideias não pararem de sair. Obviamente você pensa que isso não é um problema, mas quando você menos espera, você olha pro lado e tá tudo vermelho.

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Você pensa e não vem nada. Você vê um filme e aquilo não traz inspiração nenhuma. Você fica olhando pro teto, pensando no miolo do pote, na morte da bezerra e nada parecido com um “eureka” aparece na sua cabeça. O cérebro fica mais vazio do que cena de faroeste mostrando o deserto, pelo menos no faroeste passa uma bola de mato sendo levada pelo vento.

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Eu tava pensando aqui em como terminar o post, mas lembrei que não era sobre isso que era o post de hoje. Aí comecei a pensar no outro tema e acabou que eu não tive ideia nenhuma, obviamente a preguiça dos fins de tarde de sexta não ajuda nesse sentido. Só me resta desejar que o fim de semana traga um monte de ideias pra todo mundo. Até semana que vem

São As Águas de Março Fechando O Verão

O carnaval acabou, Março já tá na metade e a gente já viveu quase 25% de 2017 e, assim como em outros anos, tem chovido para caramba. Afinal são as águas de março fechando o verão.

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Mesmo a chuva de março rolando praticamente todo ano, eu nunca tinha parado pra fazer a associação dessas famosas águas pluviais do mês três com o final de alguma coisa. Não sou um admirador do trabalho de Elis, a Regina, e de Tom Jobã, mas acabei pensando neles e nas citações que fizeram à famosa composição do nosso amigo Tommy. Prestando atenção na chuva e no calendário acabei vendo que março é um moço peculiar dentro do calendário. E não é só por causa das águas que fecham o verão.

Começa que Março é o primeiro mês pra valer do ano. Janeiro tem muita gente de férias, fevereiro tem carnaval e, mesmo quando não tem folia, continua lá com seus 28 dias. Abril vem logo depois, abre a temporada de feriados nacionais e normalmente traz consigo a primeira data comercial do calendário, a Páscoa. Peço perdão para aqueles que, assim como eu, comemoram a Páscoa pelo seu significado para os cristãos, mas as lojas só querem mesmo saber de vender chocolate. Aí você me pergunta: “E março, Filipe? Tá ali em cima dizendo que o texto é de março, cadê março? Quero meu dinheiro de volta”. Aí eu digo: tô chegando lá.

Março é tipo julho e agosto. Feriado, se tiver, é só estadual ou municipal. Os três são considerados meses longos e normalmente não figuram entre os primeiros lugares no ranking geral de meses preferidos do ano. Só que, ao contrário dos seus outros amigos, março tem uma coisa que o torna praticamente um mês coringa: em março pode ter carnaval, pode ter Páscoa e pode não ter nada. Ainda assim ele permanece com aquele mesmo jeito de março. Tá ligado/ligada jeito de março? Então, é esse mesmo.

Em março pode ter carnaval, mas nem por isso fevereiro deixa de ter a cara de “mês do carnaval”. Quando o carnaval cai em março, automaticamente nossa cabeça é transportada por cinco ou seis dias de volta pra fevereiro. Tanto que, quando o carnaval cai em fevereiro, a gente quase não ouve “esse ano o carnaval cai em fevereiro”, mas quando a festa da carne cai em março o aviso começa no ano anterior quando o carnaval termina. É que nem quando sua mãe fica te lembrando de um negócio o tempo todo pra não ter risco de você esquecer e fazer no dia errado. A mesma coisa rola com a páscoa, mas como a quantidade de festa e dias de folga é menor, não precisa desses alertas todos.

É março e tem chovido. Esse ano as águas de março vieram logo depois do carnaval, logo no começo do mês, pra deixar bem claro que aquela moleza do começo do ano acabou. É de março que a expectativa pelo milho do São João começa, principalmente praquela galera mais velha que cresceu, assim como eu, ouvindo que se chover no dia de São José o ano vai ser bom de milho. Enquanto o dia de São José não chega, as águas de março vão fechando o verão.  

Contos de Segunda #78

    Vocal, Guitarra, Baixo e Bateria, os quatro elementos fundamentais do 4Ladies. Garotas que ainda nem saíram da escola e já demonstram um nível de comprometimento e dedicação raro na maioria das pessoas com a mesma idade. Para elas a banda é mais do que uma diversão, é um projeto de vida feito em conjunto. Infelizmente nem sempre as coisas são tão fáceis para essas quatro meninas.

Era segunda-feira e Guitarra tinha acabado de chegar da aula. Mais uma vez ela tinha recebido o boletim e mais uma vez ela esconderia bem longe das vistas da mãe. A menina entrou no quarto e procurou pelo case vazio da guitarra que ficava jogado ao lado do guarda-roupa. Abriu o zíper e soltou um pedaço do forro, revelando o paradeiro dos boletins dos dois últimos bimestres, onde o terceiro boletim estava prestes a ser guardado.

— AGNES! — Gritou uma mulher surgida não se sabe de onde.

— AAAAHHHH! — Assustou-se a pobre guitarrista desavisada. — Mãe? É… Oi… Porque a senhora tava dentro do guarda-roupa?

A mãe de Guitarra ainda estava parcialmente coberta com as roupas da filha quando saiu de dentro do guarda-roupa.

— Eu sabia que você tinha dado sumiço nos boletins, pensou que ia sair dessa ilesa? Cadê? Eu quero ver esses boletins.

    — Mãe, vai por mim, a senhora não quer ver esses boletins — respondeu Guitarra tentando manter a calma. — Vamos manter a situação das minhas notas longe dessa casa, não gosto de trazer os problemas de fora pra cá.

    — Agnes, você tem três segundos pra me dar esses malditos boletins.

    Ela só precisou de um segundo.

    — Que notas são essas, Agnes? Que tanto vermelho é esse? Um bicho morreu por cima desses boletins?

    — Ah, mãe… É que a escola tá muito complicada e…

    — E mais nada! A senhorita vai dar um jeito de recuperar essas notas… E nada de guitarra enquanto não tiver melhora.

    — Não, não, nãonãonãonão — repetiu Guitarra sem querer acreditar. — Por favor, mãe. Eu estudo, eu tiro nota boa, prometo, mas não me deixa sem guitarra… A gente finalmente arrumou um lugar pra tocar, a gente não pode deixar essa passar.

    — Quando vocês tocam?

    — Daqui a duas semanas mais ou menos.

    — Pode tocar com suas amigas, mas SÓ se começar a estudar, e depois desse show a senhorita só encosta nessa maldita guitarra depois que as notas saírem.

    — Mas…

    — Sem “mas” — interrompeu a mãe. — Se reclamar eu jogo essa guitarra no rio.

    A conversa acabou ali, mas imediatamente Guitarra convocou uma reunião da banda. Normalmente elas trocavam mensagens, mas esse assunto era muito sério, era melhor fazer uma videoconferência. Vocal, Baixo e Bateria ligaram seus computadores imediatamente. A conversa só começou de verdade quando Guitarra terminou de contar a história toda.

    — Tu é MUITO BURRA, Guitarra — explodiu Bateria. — Como é que tu me tira esse tanto de nota vermelha?

— Te dana, Bateria. Até parece que só eu aqui tiro nota vermelha.

— Eu já estou quase passada de ano — disse Vocal meio sem jeito.

— Eu só tô abaixo da média em duas — ostentou Bateria.

— Chega dessa conversa de “o meu é maior que o seu” e vamos focar no problema — cortou Baixo.

— Baixo tá certa, a gente precisa dar um jeito nessa situação — continuou Vocal.

— Na verdade a gente não precisa fazer nada — ressaltou Bateria. — É só essa bandida estudar em vez de ficar tocando guitarra o tempo todo.

— Eu estudo guitarra, imbecil — rosnou Guitarra. — Coisa que você devia fazer de vez em quando.

— Se eu fosse ruim que nem você eu ia precisar estudar um bocado também — provocou Bateria.

— Da próxima vez que a gente se encontrar eu vou quebrar minha guitarra na sua cabeça.

— Meninas! — Interrompeu Vocal. — Foco no problema.

— Foi mal — se desculpou Bateria. — Quem pode ajudar Guitarra a estudar? Eu estou um ano na frente dela, mas ano passado eu fui bem mal na escola.

— Vocal tá um ano atrás, nem vai poder me ajudar… Acho que sobrou pra você, Baixo.

Baixo estudava na mesma escola que as outras meninas e era a única da banda no mesmo ano que Guitarra, elas até chegaram a estudar na mesma sala algumas vezes.

— Sei não… — resmungou Baixo. — A gente já tentou estudar e não deu muito certo.

— Baixo já tentou me ensinar matemática uma vez e… — começou Vocal. — Bem… A gente não quis tentar de novo.

— Faz pela banda, miga — suplicou Bateria.

    — Por mim, Laila — apelou Guitarra.

    — Tá bom, eu ajudo. Mas só dessa vez e só até as próximas provas… A gente ainda nem começou e eu já tô arrependida.

 

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