Cachorros de Bikini

Reflexões rasas sobre coisas profundas e reflexões profundas sobre coisas rasas

Qual o Seu Tipo de Pessoa?

Ontem estava eu fazendo meu cadastro para poder baixar um conteúdo gratuito de uma certa loja. Em dado momento fui eu preencher aquelas informações que eles colocam na nota fiscal. O primeiro campo para preencher era esse aqui:

TipoPessoa

Imediatamente fui levado à uma reflexão relâmpago. Obviamente que o formulário só queria saber se eu era uma pessoa física ou jurídica, inclusive eu fiquei tão estupefato pelo efeito do campo “Tipo de Pessoa” que foi um alívio ver que só existiam essas duas opções. Concluí meu pedido, o PDF chegou no meu email, mas aquela interrogação permaneceu na minha cabeça. Que tipo de pessoa eu sou afinal?

A primeira coisa que precisamos estabelecer aqui é se de fato as pessoas podem ser divididas em tipos. Nosso procedimento normal ao conhecer uma pessoa, seja pra valer ou superficialmente, é encaixar essa pessoa em alguma, ou algumas, das categorias de pessoas que criamos ao longo das nossas vidas. Não classifico isso como um comportamento preconceituoso, na prática precisamos disso pra criar uma espécie de bússola social. Saber onde pisa é o primeiro cuidado que precisamos tomar ao viver em sociedade e esses rótulos que colocamos nos outros nos ajudam a evitar alguns conflitos desnecessários. A parte ruim disso é que corremos o risco de cair na tentação de sermos muito taxativos.

Precisamos lembrar que vivemos num mundo onde as pessoas são tridimensionais. Mesmo que muitos não pareçam, todos os seres humanos podem ser encaixados em algumas, se não várias, categorias e normalmente a quantidade de categorias nas quais encaixamos as pessoas é proporcional ao tanto que conhecemos elas. Pensando nisso eu lembrei de uma parada que eu acabei de descobrir como se chama do diagrama de Venn. Fica fácil de entender como ele funciona observando o exemplo 100% verídico abaixo:

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Seguindo por etapas nós dividimos as pessoas em uma e, dependendo da pessoa ou do nível de conhecimento que temos dela, vemos em quais outras categorias ela se encaixa e criamos uma espécie de diagrama para cada pessoa. Essa ideia foi colocada em prática de uma maneira trinta e cinco vezes mais inspiradora do que nesse texto por uma rede de TV dinamarquesa. Se for assistir, lembre de se certificar que as LEGENDAS ESTÃO LIGADAS.

Mas aí chegamos ao ponto crítico desse tema. Você já se perguntou que tipo de pessoa você é? Normalmente somos relativamente cientes daquilo que não somos. Digo relativamente porque o autoconhecimento pleno é uma coisa difícil de conseguir e que normalmente não colocamos como meta da vida. Inclusive é bem provável que você, caro leitor, esteja na mesma situação que eu. E eu não consigo dar uma resposta 100% para uma pergunta dessa. Eu posso ficar aqui pensando um tempão e continuar insatisfeito com a resposta. Sempre vai ter alguma coisa que eu não estou enxergando ou algum traço de personalidade que passe despercebido. Exatamente por isso que vou tentar chegar a uma resposta decente pra essa pergunta e recomendo que você faça o mesmo. Quem sabe a gente não aprende alguma coisa?

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Contos de Segunda #79

Mais uma noite de segunda em Vila Urbana. Enquanto os cidadãos retornam para seus lares depois de um dia de trabalho, os criminosos continuam incansáveis na sua investida contra a lei e a ordem na cidade. Justamente por causa dos elevados índices de criminalidade, e da presença esporádica de resíduos tóxicos ou radioativos, muitos vigilantes mascarados surgiram para impedir que a cidade fosse tomada pelo mal.

Um desses vigilantes é o Homem Camaleão. Nesse momento ele espera pelo melhor momento de nocautear os bandidos que invadiram uma transportadora para roubar um carregamento de eletrônicos. O alarme não soaria, alguém estava facilitando para os bandidos. Apenas um defensor da justiça atendo poderia impedir que esse crime fosse cometido, mas seguir os bandidos poderia revelar um esquema muito maior de roubo de eletrônicos. Ele teria esperado, saltado no caminhão, seguido os bandidos e nocauteado todos os envolvidos no esquema. Teria, mas algo inesperado aconteceu.

Os bandidos foram nocauteados, um a um. Como se algo invisível estivesse desferindo os golpes. Como se o próprio Homem Camaleão estivesse batendo nos bandidos. Revestido pela sua camuflagem camaleônica, nosso herói se aproxima da cena do crime e encontra todos os criminosos desacordados. Ele olha ao redor e identifica uma figura disforme, imediatamente ele desativa a sua camuflagem. Ninguém além dos guardas está de pé.

— Sei que você está aí, apareça — esbravejou o Homem Camaleão.

Diante dele uma camuflagem se desfez e lá estava uma garota. Pela aparêcia não devia ter mais do que doze ou treze anos, usava um uniforme que imitava o dele e parecia ligeiramente nervosa.

— Sabia que a gente ia se encontrar — disse a menina.

— Quem é você?

— Sou sua assistente.

— Não, não é.

— Sou sim.

— Eu nem te conheço.

— Prazer, pode me chamar de Camaleoa. Só vou revelar minha identidade depois que você revelar a sua.

— Revelar? Como eu… Você… Que história é essa?

— Um dia acordei com poderes iguais aos seus e achei que combater o crime seria uma boa.

— Combater o crime é perigoso!

— Um monte de gente dessa cidade faz isso.

— Um monte de gente adulta faz isso.

— Eu sou mais forte e mais ágil do que a maior parte desses bandidos, sem contar que eu fico invisível.

— Não é só sair por aí batendo nos bandidos, você pode se machucar.

— Tanto quanto qualquer um… Admita, Camaleão, nenhum desses argumentos vão colar.

–Você precisa de licença pra exercer essa atividade — pontuou o herói convencido que tinha ganhado o debate.

— Você fala da licença que eu posso tirar caso eu exerça a função de ajudante, auxiliar, sidekick, assistente ou seja lá como vocês velhos chamam.

— Eu não sou um velho e não você não vai ser nada minha.

— É isso que vocês heróis fazem? Deixam pré-adolescentes combatendo o crime na ilegalidade? Muito heróico da sua parte — rebateu ela estreitando os olhos.

Homem Camaleão levou as mãos ao rosto, remexeu na máscara e depois de alguns segundos de descontrole ele respondeu.

— Tá bom! Tá bom! Eu deixo você ser minha assistente. Não preciso de uma assistente, mas vou aceitar só pra te provar que você está errada.

— Homem Camaleão, no ranking do ano passado você ficou em primeiro lugar na lista dos heróis mais surpreendidos pelos bandidos.

— De onde você tirou isso?

— O sindicato publica esses dados, tanto o dos heróis como o dos vilões. Tá tudo na internet, são dados públicos. Foi um dos motivos que me fez te escolher pra ser meu mentor, você precisa de alguém pra vigiar suas costas.

— Eu sei que não preciso, mas vou aceitar isso como um aviso para tomar mais cuidado — ele respirou fundo, deixou passar o resto da raiva antes de continuar. — Vamos, eu preciso providenciar um uniforme novo pra você. A lei nova determina que os uniformes não propaguem fogo e tenham selo de aprovação dos órgãos competentes… Do que eu vou te chamar?

— Tá na cara que meu nome é Camaleoa.

— Camaleoa? Só Camaleoa? Pensei que ia ser algo como Garota Camaleão ou algo assim.

— Esses nomes com “Garota” na frente prendem as heroínas no estereótipo da adolescente inexperiente que usa máscara. Sem falar que me coloca numa posição inferior à sua. Pensando no longo prazo, não é nada benéfico pra minha imagem. Quando eu tiver idade pretendo seguir carreira solo. Sem ofensa, Camaleão, mas não quero passar a vida inteira na sua sombra.

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A Cabeça Tá Gasta

    De todas as atividades que eu faço, apenas uma delas é remunerada. Nessa atividade eu preciso usar um nível bem baixo de criatividade, de modo que eu fico arrumando formas de descarregar o tanto de ideias que eu costumo ter. Foi exatamente por isso que eu comecei com este blog e esse é o motivo principal pra jogar coisas e escrever pra outros sites. Só que eu ando exagerando e por causa disso a cabeça tá meio fraca de ideia ultimamente. Aí eu comecei a pensar sobre isso.

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    Cheguei à duas conclusões. A primeira é que não é hoje que sai o post sobre Logan. Foi mal, Wolverine.

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    A segunda é que minha cabeça tá gasta.

    Eu tenho o prazer e o privilégio de ter na minha lista de amigos pessoas que trabalham com criatividade. Designers, músicos, escritores (profissionais ou não) e até atores. Independente de fazer por lazer ou pra pagar as contas, todos eles trabalham tendo ideias e colocando essas ideias no papel. Boa parte, se não a grande maioria, deles exercita a criatividade além do seu ofício principal. É bem provável que eles tenham caído na mesma armadilha que eu: gastam mais ideias do que é possível ter.

Imagine que a sua cabeça é uma conta bancária e as ideias são dinheiro. Periodicamente entra algum dinheiro na sua conta e você vai gastando de acordo com a necessidade. Assim como na conta bancária, se as ideias saem mais do que entram, você começa tirar de onde não tem pra cobrir os gastos. A sua conta vai ficando vermelha, vermelha e vai continuar avermelhando enquanto as ideias não pararem de sair. Obviamente você pensa que isso não é um problema, mas quando você menos espera, você olha pro lado e tá tudo vermelho.

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Você pensa e não vem nada. Você vê um filme e aquilo não traz inspiração nenhuma. Você fica olhando pro teto, pensando no miolo do pote, na morte da bezerra e nada parecido com um “eureka” aparece na sua cabeça. O cérebro fica mais vazio do que cena de faroeste mostrando o deserto, pelo menos no faroeste passa uma bola de mato sendo levada pelo vento.

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Eu tava pensando aqui em como terminar o post, mas lembrei que não era sobre isso que era o post de hoje. Aí comecei a pensar no outro tema e acabou que eu não tive ideia nenhuma, obviamente a preguiça dos fins de tarde de sexta não ajuda nesse sentido. Só me resta desejar que o fim de semana traga um monte de ideias pra todo mundo. Até semana que vem

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São As Águas de Março Fechando O Verão

O carnaval acabou, Março já tá na metade e a gente já viveu quase 25% de 2017 e, assim como em outros anos, tem chovido para caramba. Afinal são as águas de março fechando o verão.

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Mesmo a chuva de março rolando praticamente todo ano, eu nunca tinha parado pra fazer a associação dessas famosas águas pluviais do mês três com o final de alguma coisa. Não sou um admirador do trabalho de Elis, a Regina, e de Tom Jobã, mas acabei pensando neles e nas citações que fizeram à famosa composição do nosso amigo Tommy. Prestando atenção na chuva e no calendário acabei vendo que março é um moço peculiar dentro do calendário. E não é só por causa das águas que fecham o verão.

Começa que Março é o primeiro mês pra valer do ano. Janeiro tem muita gente de férias, fevereiro tem carnaval e, mesmo quando não tem folia, continua lá com seus 28 dias. Abril vem logo depois, abre a temporada de feriados nacionais e normalmente traz consigo a primeira data comercial do calendário, a Páscoa. Peço perdão para aqueles que, assim como eu, comemoram a Páscoa pelo seu significado para os cristãos, mas as lojas só querem mesmo saber de vender chocolate. Aí você me pergunta: “E março, Filipe? Tá ali em cima dizendo que o texto é de março, cadê março? Quero meu dinheiro de volta”. Aí eu digo: tô chegando lá.

Março é tipo julho e agosto. Feriado, se tiver, é só estadual ou municipal. Os três são considerados meses longos e normalmente não figuram entre os primeiros lugares no ranking geral de meses preferidos do ano. Só que, ao contrário dos seus outros amigos, março tem uma coisa que o torna praticamente um mês coringa: em março pode ter carnaval, pode ter Páscoa e pode não ter nada. Ainda assim ele permanece com aquele mesmo jeito de março. Tá ligado/ligada jeito de março? Então, é esse mesmo.

Em março pode ter carnaval, mas nem por isso fevereiro deixa de ter a cara de “mês do carnaval”. Quando o carnaval cai em março, automaticamente nossa cabeça é transportada por cinco ou seis dias de volta pra fevereiro. Tanto que, quando o carnaval cai em fevereiro, a gente quase não ouve “esse ano o carnaval cai em fevereiro”, mas quando a festa da carne cai em março o aviso começa no ano anterior quando o carnaval termina. É que nem quando sua mãe fica te lembrando de um negócio o tempo todo pra não ter risco de você esquecer e fazer no dia errado. A mesma coisa rola com a páscoa, mas como a quantidade de festa e dias de folga é menor, não precisa desses alertas todos.

É março e tem chovido. Esse ano as águas de março vieram logo depois do carnaval, logo no começo do mês, pra deixar bem claro que aquela moleza do começo do ano acabou. É de março que a expectativa pelo milho do São João começa, principalmente praquela galera mais velha que cresceu, assim como eu, ouvindo que se chover no dia de São José o ano vai ser bom de milho. Enquanto o dia de São José não chega, as águas de março vão fechando o verão.  

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Contos de Segunda #78

    Vocal, Guitarra, Baixo e Bateria, os quatro elementos fundamentais do 4Ladies. Garotas que ainda nem saíram da escola e já demonstram um nível de comprometimento e dedicação raro na maioria das pessoas com a mesma idade. Para elas a banda é mais do que uma diversão, é um projeto de vida feito em conjunto. Infelizmente nem sempre as coisas são tão fáceis para essas quatro meninas.

Era segunda-feira e Guitarra tinha acabado de chegar da aula. Mais uma vez ela tinha recebido o boletim e mais uma vez ela esconderia bem longe das vistas da mãe. A menina entrou no quarto e procurou pelo case vazio da guitarra que ficava jogado ao lado do guarda-roupa. Abriu o zíper e soltou um pedaço do forro, revelando o paradeiro dos boletins dos dois últimos bimestres, onde o terceiro boletim estava prestes a ser guardado.

— AGNES! — Gritou uma mulher surgida não se sabe de onde.

— AAAAHHHH! — Assustou-se a pobre guitarrista desavisada. — Mãe? É… Oi… Porque a senhora tava dentro do guarda-roupa?

A mãe de Guitarra ainda estava parcialmente coberta com as roupas da filha quando saiu de dentro do guarda-roupa.

— Eu sabia que você tinha dado sumiço nos boletins, pensou que ia sair dessa ilesa? Cadê? Eu quero ver esses boletins.

    — Mãe, vai por mim, a senhora não quer ver esses boletins — respondeu Guitarra tentando manter a calma. — Vamos manter a situação das minhas notas longe dessa casa, não gosto de trazer os problemas de fora pra cá.

    — Agnes, você tem três segundos pra me dar esses malditos boletins.

    Ela só precisou de um segundo.

    — Que notas são essas, Agnes? Que tanto vermelho é esse? Um bicho morreu por cima desses boletins?

    — Ah, mãe… É que a escola tá muito complicada e…

    — E mais nada! A senhorita vai dar um jeito de recuperar essas notas… E nada de guitarra enquanto não tiver melhora.

    — Não, não, nãonãonãonão — repetiu Guitarra sem querer acreditar. — Por favor, mãe. Eu estudo, eu tiro nota boa, prometo, mas não me deixa sem guitarra… A gente finalmente arrumou um lugar pra tocar, a gente não pode deixar essa passar.

    — Quando vocês tocam?

    — Daqui a duas semanas mais ou menos.

    — Pode tocar com suas amigas, mas SÓ se começar a estudar, e depois desse show a senhorita só encosta nessa maldita guitarra depois que as notas saírem.

    — Mas…

    — Sem “mas” — interrompeu a mãe. — Se reclamar eu jogo essa guitarra no rio.

    A conversa acabou ali, mas imediatamente Guitarra convocou uma reunião da banda. Normalmente elas trocavam mensagens, mas esse assunto era muito sério, era melhor fazer uma videoconferência. Vocal, Baixo e Bateria ligaram seus computadores imediatamente. A conversa só começou de verdade quando Guitarra terminou de contar a história toda.

    — Tu é MUITO BURRA, Guitarra — explodiu Bateria. — Como é que tu me tira esse tanto de nota vermelha?

— Te dana, Bateria. Até parece que só eu aqui tiro nota vermelha.

— Eu já estou quase passada de ano — disse Vocal meio sem jeito.

— Eu só tô abaixo da média em duas — ostentou Bateria.

— Chega dessa conversa de “o meu é maior que o seu” e vamos focar no problema — cortou Baixo.

— Baixo tá certa, a gente precisa dar um jeito nessa situação — continuou Vocal.

— Na verdade a gente não precisa fazer nada — ressaltou Bateria. — É só essa bandida estudar em vez de ficar tocando guitarra o tempo todo.

— Eu estudo guitarra, imbecil — rosnou Guitarra. — Coisa que você devia fazer de vez em quando.

— Se eu fosse ruim que nem você eu ia precisar estudar um bocado também — provocou Bateria.

— Da próxima vez que a gente se encontrar eu vou quebrar minha guitarra na sua cabeça.

— Meninas! — Interrompeu Vocal. — Foco no problema.

— Foi mal — se desculpou Bateria. — Quem pode ajudar Guitarra a estudar? Eu estou um ano na frente dela, mas ano passado eu fui bem mal na escola.

— Vocal tá um ano atrás, nem vai poder me ajudar… Acho que sobrou pra você, Baixo.

Baixo estudava na mesma escola que as outras meninas e era a única da banda no mesmo ano que Guitarra, elas até chegaram a estudar na mesma sala algumas vezes.

— Sei não… — resmungou Baixo. — A gente já tentou estudar e não deu muito certo.

— Baixo já tentou me ensinar matemática uma vez e… — começou Vocal. — Bem… A gente não quis tentar de novo.

— Faz pela banda, miga — suplicou Bateria.

    — Por mim, Laila — apelou Guitarra.

    — Tá bom, eu ajudo. Mas só dessa vez e só até as próximas provas… A gente ainda nem começou e eu já tô arrependida.

 

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Wesley Safadão Cover

    Hoje acordei com uma expectativa boa pro texto dessa sexta-feira. Já tinha resolvido falar sobre o maravilhoso Logan, último filme de Hugh Jackman como Wolverino, e seria muito massa e talz. Só que eu fui atravessar a rua e dei de cara com isso aqui:

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    Sim. Isso mesmo. Eu vivi pra ver o anúncio do show de um cover de Wesley Safadão. Obviamente eu fiquei bem chocado com essa parada e, obviamente, isso despertou uma reflexão muito profunda e minha cabeça começou a fervilhar. Infelizmente o texto do Wolverino vai ficar pra semana que vem. Desculpa, Hugh Jackman.

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    O cover é uma prática muito comum no nosso planeta. Toda hora tem gente fazendo versão da música de outra pessoa. Normalmente as bandas começam fazendo isso enquanto não tem repertório próprio ou público cativo. Algumas bandas viram especialistas em fazer covers de determinados artistas e ganham a vida tocando músicas desse artista ou banda. Normalmente isso rola com artistas que já morreram, bandas que já acabaram, que são de outro país e raramente, ou nunca, passam por aqui e quando passam tem os shows meio caros. Aí chegamos no assunto de hoje e à pergunta fundamental: por que diabos existe um cover de Wesley Safadão?

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    Bora lá fazer uma lista dos motivos pelos quais isso é uma coisa meio absurda. Primeiro que nosso compadre Safadão não morreu, não é estrangeiro e faz show por aqui direto. Tô totalmente por fora do valor do ingresso pro show dele, mas acredito que não é um valor tão inacreditável ao ponto das pessoas precisarem ir pro show do cover. E por último temos o principal motivo pra um cover de safadão não fazer sentido: hoje em dia todo mundo toca música de todo mundo.

    Wesley Safadão toca música de um monte de gente e um monte de gente toca música dele. Além disso ele faz parceria com mais um monte de gente e acaba tocando as músicas em que ele fez participação e dos artistas que fizeram parceria com ele. Outros artistas do mesmo segmento têm uma prática similar, principalmente quando começou a rolar um intercâmbio entre a galera do forró e a galera do sertanejo universitário. Se repertório de todo mundo tá meio misturado e se você escuta música de todo mundo no show de todo mundo, não faz sentido existir um cover pra tocar as músicas de um cara que já tem as músicas tocadas por um monte de gente.

    Já disse e digo de novo: eu vivi pra ver esse dia chegar. O dia em que eu colocaria meus olhos num anúncio de um show do cover de Wesley Safadão. Não um cara que toca as músicas dele, não um cara que faz homenagens. Uma pessoa que é especializada em músicas de Wesley Safadão. O ser humano tá de parabéns mesmo.

 

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É Dia da Mulher e Eu Não Sei O Que Fazer

    Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Normalmente rola algum tipo de homenagem ou enaltecimento do ser humano feminino e todo mundo de repente lembra de tratar as mulheres direito, ou pelo menos um pouco melhor do que de costume. Obviamente o tema do texto de hoje seria alusivo a esse dia tão icônico, mas a dúvida estava justamente em como abordar o tema. A resposta, ou a não resposta, veio depois de fazer uma coisa que a gente muitas vezes esquece de fazer. Eu parei, olhei ao redor e tentei enxergar além das definições padrão do meu sistema. Agora me arrependo um pouco de ter feito isso.

Nunca antes na história desse país as questões ligadas ao feminino estiveram em tanta evidência e é justamente por isso que o Dia Internacional da Mulher está cada vez menos “rosa e Sonho de Valsa” e mais ligado com a raiz da luta pelo direito das mulheres. Por isso eu entrei no Facebook e vi uma quantidade grande de posts cheios de indignação. Olhei por aí na internet e me deparei com uma série de coisas alusivas ao Dia Internacional da Mulher, mas nenhuma delas falava de amenidades que eu estava mais acostumado a ver. De dados alarmantes até histórias comoventes, tudo remetia ao viés original do dia dedicado à luta das moças.

Aí chegamos à minha situação. Eu, um pobre moço que, além de estar no mesmo time de Jon Snow e não saber de nada sobre nada, sou homem e tenho o desafio de fazer um post sobre o Dia Internacional da Mulher em um blog que tem como premissa principal não falar de coisas sérias. Aí em dado momento dessa quarta-feira eu estava exatamente assim:

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Hoje é Dia Internacional da Mulher e eu literalmente não sei o que fazer. Não sei se eu “comemoro” esse dia ou me revolto junto com as moças. Não sei se gasto mais tempo avaliando a sociedade em geral ou me avaliando pra saber se eu também tenho culpa nessa história de tornar a vida das moças pior. No momento em que eu escrevo esse texto eu nem sei mais se dar parabéns é certo ou não. Muito provavelmente estarei errado em qualquer coisa que eu fizer, por isso é até melhor eu não fazer nada.

Eu poderia fazer um texto bonitinho, elogiar o ser feminino enquanto arquétipo ou enaltecer as moças de alguma forma. Mas, por incrível que pareça, isso não é muito adequado. ´Hoje só é o dia que é porque tinha um monte de coisa errada e boa parte dessas coisas continua errada. Espero que um dia o dia 8 de março traga consigo mais das lembranças de uma luta que passou e menos de uma luta que ainda está na metade. Sinceramente desejo que as moças tenho cada vez menos motivos pra lutar. Até ano que vem.

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Contos de Segunda #77

    Na semana do Dia Internacional da Mulher temos mais um capítulo da história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

Segunda-feira estava na sala de espera do médico. Não que ela estivesse doente, normalmente uma Dama não ficava doente, pelo menos não de algo que um médico mortal pudesse tratar. Segunda estava esperando ser chamada para sua consulta com a Dra. Márcia Sang, uma das maiores hematologistas do país.

    — Mônica? — Chamou a recepcionista. — Mônica Nunes?

    — É Lunes — corrigiu Segunda-feira.

    — Perdão… Lunes. A doutora está esperando no consultório três. Segunda porta à esquerda.

    Cada vez mais as Damas precisam dar um jeito de se misturar aos mortais, adotar um nome mundano é a primeira coisa que elas fazem. Quando Segunda-feira resolveu se tornar professora ela escolheu o nome Mônica Lunes, derivado de nomes que ela já tinha em outras línguas. Muitas Damas seguem a mesma lógica para criar um nome mortal, uma das primeiras a fazer isso foi Márcia Sang.

    Ao entrar no consultório, Segunda viu a Dama disfarçada de médica. Os cabelos vermelhos presos em um coque, os óculos de armação metálica, as unhas cinzentas e a pele branca permanentemente ruborizada eram traços que passavam despercebidos pelos olhos dos mortais, mas para uma Dama eram inconfundíveis. A médica estava distraída quando Segunda entrou no consultório. O suficiente para não perceber a aura mística da suposta paciente, pelo menos não até a porta se fechar e transformar novamente o consultório no santuário da Dama. Nem uma formiga passaria despercebida.

    — Saudações, Dama de Sangue.

    Márcia levou um susto. Atualmente ela ouvia seu nome original tão poucas vezes que a sensação era de ter um disfarce revelado. As outras Damas raramente faziam uma visita, principalmente em seu consultório e muito menos em horário comercial. Além disso, todas estavam sabendo da atual situação da Dama da Segunda-feira.

    — Peguei o endereço do teu santuário com Bibliotecária — continuou Segunda. — É meio urgente, espero que não se incomode.

    — A surpresa é muito maior do que o incômodo, Dama da Segunda-feira — Márcia ajeitou os óculos. — Ouvi falar da sua situação e da ordem dada pela Mãe-de-Todas às demais Damas: Ajudá-la a encontrar um Cavaleiro. Só não imaginava que você viria pedir pela minha ajuda.

    — Não leve a mal, Sangue, mas eu não estou aqui pra pedir ajuda na busca por um Cavaleiro — ela fechou os olhos na tentativa de reunir coragem e vomitou as palavras todas de uma vez para não correr o risco de desistir na metade. — Eunãoqueroumcavaleiro, queroumfilho.

    — O quê?

    Segunda respirou fundo e disse mais devagar.

    — Eu não quero um cavaleiro, eu quero um filho.

    Silêncio.

    — Acho que te peguei de surpresa.

    O sangue fugiu das faces da Dama. Seu olhar perdido era um sinal do quão longe sua mente estava naquele instante. Em um piscar de olhos ela vasculhou sua memória ancestral em busca de conhecimentos antigos. Ela voltou segundos depois.

    — Perdão, Segunda. Algumas palavras me levam para memórias muito antigas — respondeu a Dama de Sangue como se estivesse despertando de um sonho. — Algumas de nós conseguem acessar conhecimentos antigos, herdados daquelas que vieram antes de nós. Sou uma das poucas Damas que ainda consegue ir tão longe, por isso dizem que eu sei como ajudar no nascimento do filho de uma Dama… Creio que as histórias sobre mim são um pouco exageradas.

    — Exageradas em que sentido?

    — Nossas irmãs falam de mim como se eu fosse uma espécie de parteira…Prefiro me definir como, digamos, grande conhecedora dos métodos de reprodução assistida.

    — Então existe uma forma.

    — Sim, existe. Uma forma para mim, outra para você e suas irmãs, outra para Bibliotecária e outra para a Mãe-de-Todas. Sem certo ou errado, cada uma de nós se adequa melhor a um método.

    — Você teve algum filho?

    — Tive dois. Nascidos com o único propósito de assassinar meu Cavaleiro — ela sorriu. As unhas cinzentas cresceram e se viraram em aço enquanto a Dama acariciava o pescoço e pensava em morte. — Ele estava um pouco descontrolado. Ele foi um dos mais poderosos de sua época, não pude dar cabo dele sozinha… Só estou contando isso para mostrar como eu gerei os meus filhos, já estou quase chegando no ponto que vai ser útil para você… Onde eu estava?

— Na parte que você não conseguiria matar seu cavaleiro — respondeu Segunda chocada com o fato de dois filhos nascerem com o único propósito de assassinar o próprio pai.

— Ah, sim. Quando eu me vi em grande necessidade eu desejei ardentemente gerar filhos para matar meu cavaleiro. Meu corpo atendeu ao meu desejo, com o aço dos meus ossos eu fiz meu útero, com o sangue eu formei a carne deles e aos poucos nasceu o fogo de seus corações. Você pode fazer algo parecido, mas você precisa descobrir como usar sua natureza para formar uma vida. Só assim você vai gerar um filho.

— E quanto tempo isso leva?

— Você é uma entidade do tempo, Dama da Segunda-feira. Para você o tempo é mais do que um aliado. O tempo é quase um escravo… Talvez isso também ajude.

A médica puxou a gaveta e dela tirou um frasco com um líquido vermelho.

— E isso seria…? — Questionou Segunda.

— Os corpos de algumas Damas são muito abstratos. Eu sou formada de aço, carne e sangue, você é uma anomalia espaço-temporal de óculos. Isso vai te deixar um pouco mais material e mundana. É só beber e seu corpo vai se organizar temporariamente em uma forma mais próxima de um organismo real.

— Ah, não…

Segunda começou a sentir algo estranho. Algo se movimentava em seu ventre. Ela sentia a pele esticando, mas não via nenhuma diferença no volume do corpo.

— Tem algo errado?

— O corpo de uma Dama do Tempo é uma constante — a respiração ficou mais pesada. — Precisamos existir em todo tempo simultaneamente. Pra isso funcionar é preciso permanecer imutável… Neste exato momento eu sinto o meu corpo diferente, mesmo que ele não pareça diferente…Em algum instante do tempo… Eu estou grávida

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Preguiça da Vida

    Hoje estava eu pensando no que escrever nessa primeira sexta-feira de março. A verdade é que eu ando meio sem ideias e tem dia que é difícil espremer alguma coisa aproveitável da cabeça e hoje esse esforço pra ter uma ideia me cansou mais do que o normal. Na verdade não cansou, já que só em pensar no trabalho de ter uma ideia foi o suficiente pra me deixar cansado. Foi aí que eu liguei o computador do trabalho e me deparei com essa imagem na tela de login.

Three-toed sloth, Costa Rica

    Além de ter minhas angústias confortadas pelo semblante tranquilo do bicho preguiça, encarei essa visão como um sinal dos céus. Então a ideia brotou na minha cabeça e cá estou pra falar de preguiça, o bicho e a que a gente sente.

Ao digitar na pesquisa do Google a palavra “preguiça” me deparei com alguns significados para a palavra:

  1. Aversão ao trabalho; ócio, vadiagem.
  2. Estado de prostração e moleza, de causa orgânica ou psíquica.
  3. Falta de pressa ou de empenho, morosidade, lentidão.

    Para efeitos didáticos vamos ignorar o primeiro significado, pois ele sugere uma espécie de má vontade por parte do ser preguiçoso, e vamos tomar como significados mais úteis para a discussão os outros dois.

    A preguiça é uma parada tão cabulosa que está na lista mais famosa de coisas condenadas pela Bíblia. Um grupo seleto conhecido mundialmente como Os Sete Pecados Capitais. E de fato a preguiça é algo tão potencialmente danoso que podemos comparar a uma doença. A preguiça nos faz literalmente desistir da vida, nos faz exaustos antes mesmo de pensarmos em algo pra fazer ou simplesmente nos desacelera violentamente. Nesse ponto podemos associar bem o estado preguiçoso do ser humano com o bicho preguiça.

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    Note que o nosso amigo bicho não parece preguiçoso na forma em que estamos acostumados a ver em outros animais. Cachorros e gatos normalmente manifestam preguiça de uma forma similar à nossa, mas o bicho preguiça consegue transcender o conceito de estado preguiçoso. Pra ele não existem um estado diferente daquele ou um momento em que existe pressa. Pra preguiça o mundo passa acelerado enquanto ela desacelera até quase parar. A lentidão está entranhada na carne e nos ossos, das unhas dos pés até a cabeça.

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Aí vem o efeito que o bicho preguiça provoca em nós, seres que vivemos em diferentes velocidades. A preguiça tem uma aura deboísta tão forte que acabamos por desacelerar também. Como permanecer acelerado diante de uma imagem como essa?

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Essa desaceleração costuma ser tão brusca, que sentimos uma espécie de efeito anestésico. Relaxamos tão rápido que quase nos sentimos como o bicho que nos contaminou. Por um instante nos tornamos tão lentos quanto eles e talvez até tão good vibes quanto eles. Podemos até dizer que observar preguiças, seja em fotos ou vídeos, é algo quase terapêutico.

Chegou a hora de encerrar o post de hoje. Pensei em desenvolver um encerramento legal e tal, mas adivinha? Deu preguiça. Por isso vou encerrar com essa rara imagem de uma preguiça sorrindo.

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Até semana que vem.

 

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(Não) Carnaval 2017

    Algumas regiões do Brasil são praticamente sinônimo de carnaval. Em algumas outras a festa existe, mas não é tão famosa, e em outras localidades o carnaval praticamente inexiste. Inclusive são essas cidades que costumam receber as pessoas que querem fugir do carnaval. Como eu dificilmente saio de casa no carnaval e moro em um dos estados que são sinônimo de carnaval, o carnaval acaba chegando em mim. Seja pela música alta dos vizinhos, pela troça que você encontra na rua quando vai comprar pão, as notícias no jornal ou pelo desvio do trânsito por causa do bloco que vai passar. O carnaval chega, pelo menos chegava. Digo isso porque em 2017 o carnaval parece mais que não chegou por aqui.

    Os meus vizinhos devem ter sido abduzidos, porque nesses últimos dias eu não ouvi música nenhuma. Saí uma ou outra vez e não vi nenhuma troça, bloco ou similar na rua. Vi uma ou outra notícia notícia na televisão, mas dei tão pouca atenção que parecia mais que tudo aquilo estava acontecendo em outro lugar. Nem as pessoas conhecidas falaram muito sobre carnaval. As fotos que apareceram nas redes sociais pareciam mais deslocadas no tempo. Acho que nunca antes na vida eu estive tão longe dos festejos carnavalescos. Não me lembro se houve um carnaval com a vizinhança tão silenciosa. Nunca estive tão próximo da sensação de morar em um lugar onde o carnaval não existe.

    “Ah, Filipe, mas que besteira. Em um monte de lugar não tem carnaval e não vejo ninguém fazendo espanto por causa disso”. De fato isso é uma besteira, mas tem dois motivos pra eu fazer espanto com isso. O primeiro é o fato de que eu só escrevo sobre besteiras. Se eu não falar das besteiras eu não vou falar de nada. O segundo motivo é o meu endereço. Eu moro em Pernambuco e aqui o carnaval começa oficialmente depois da virada do ano, isso quando a virada de ano já não é em clima de carnaval ou quando as atividades carnavalescas não começam depois do São João. Ou seja, aqui é carnaval até quando não é pra ser. Tanto que ninguém se admira com essa vibe carnavalesca quase permanente. Exatamente por isso que eu tô achando tudo tão estranho. Na verdade estava, porque o carnaval acabou de acabar.

    As cinzas da quarta-feira já estão indo embora e com elas mais um carnaval. Ano que vem ele vem um pouco mais cedo, dia 10 ele já começa. Se bem que na velocidade em que 2017 tá passando, quando a gente se der conta já vai ser carnaval de novo. Feliz ano novo, 2017 começa pra valer agora.

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