Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Tag: Conto (Page 1 of 10)

Contos de Segunda #95 – Lágrimas Pretas

— O que tem lá fora, Mãe-Adria?

A pergunta não pegou Adria de surpresa. Nada pegava Adria de surpresa. Ela era uma sentinela. A mais antiga delas. A maior de todas. A quantidade dos desenhos com padrões intrincados que cobriam a maior parte da sua pele cor de barro denunciavam sua idade. Antiga, mas eternamente jovem, como todas as outras que moravam ali. Ela guardava as portas da Casa do Pai, uma tarefa perigosa e solitária… Pelo menos era, antes de Penélope ter idade para andar pela Casa com as próprias pernas. Nenhuma criança chegava perto da porta, os jardins eram muito mais coloridos e cheios de vida do que a paisagem que Adria observava, dia após dia, ao longo dos séculos. As silhuetas distorcidas das árvores mortas eram as únicas coisas que se erguiam acima da névoa. Depois de um breve silêncio, veio a resposta:

— Morte. Desolação. Os horrores da terra. Ruínas de tempos passados. Para nós há desespero, dor e o medo da morte.

Não havia emoção alguma nas palavras de Mãe-Adria, nunca havia. Penélope hesitou em continuar a conversa. Seus pensamentos se encheram do medo das coisas que povoavam as histórias que tiravam seu sono… Mas Mãe-Adria estava ali. Ela não precisava ser corajosa, a coragem da sentinela era suficiente para as duas.

— A senhora já saiu algum dia da Casa do Pai?

— Todas aquelas nascidas para a guerra já saíram. A terra desolada é nossa prova. Onde nossas habilidades são testadas. Nem todas retornaram.

— Eu sou nascida para a guerra, Mãe-Adria?

— Isso será sabido a seu tempo, criança. Quando tiveres tamanho para manejar uma arma e vestir uma armadura, a tua chama te mostrará. Quem é nascido para a guerra é chamado para fora. Não conseguimos resistir. Aprendemos a lutar para conseguir retornar.

— Temos tudo que precisamos aqui dentro, por que alguém teria vontade de sair?

— Lembras das histórias de Mãe-Kala? Sobre nossa vida antes de chegarmos na Casa do Pai?

— As primeiras de nós moravam lá fora. Elas viviam espalhadas pelo mundo antes dos horrores tomarem conta da terra.. Os jardins se estendiam por léguas sem fim e as mulheres pintadas eram livres… Mas os horrores chegaram e consumiram tudo. A Casa do Pai era o último lugar seguro. As últimas de nós chegaram aqui e conseguiram refúgio.

— Quase fomos exterminadas. Éramos pouco mais de duas dúzias quando chegamos à Casa do Pai. Ele nos ensinou a criar outras mulheres pintadas. Nos tornamos Mãe. Sobrevivemos… Mas a vida antiga nos chama, a todas nós. Nem todas conseguem ouvir, mas as que ouvem não conseguem resistir.

Penélope encarou pensativa a face da desolação que se erguia para além da porta. Seus olhos se perderam nas sombras imóveis das árvores há muito mortas. Imaginou como seria andar por lá. Tentou adivinhar a temperatura da névoa e o som de seus passos nas pedrinhas sobre a terra seca.

E viu os olhos.

Pensou estar sonhando acordada. Sacudiu levemente a cabeça. Os olhos eram luminosos. Estavam longe, ela tinha certeza, mas pareciam tão perto. Duas fendas por onde uma luz verde escapava. Mãe-Adria ajoelhou ao seu lado e passou o braço sobre seus ombros.

Foi quando ela percebeu que estava tremendo.

— Volte para dentro, criança — disse a sentinela em um sussurro. — Preciso trabalhar.

A noite não tardou a chegar. Após a refeição, muitas se juntaram ao redor das fogueiras para conversar e trocar histórias. A fogueira de Mãe-Kala era a preferida das mais novas, principalmente Penélope, mas os olhos na névoa ocupavam seus pensamentos, hoje não havia ânimo para ouvir sobre o passado. Decidiu dormir mais cedo, mas o medo dos próprios sonhos afastou o sono por algumas horas… Sem lembrança de ter adormecido, a menina foi acordada por vozes nervosas e pés ligeiros. Saindo do quarto encontrou apenas rostos confusos de outras meninas, igualmente acordadas pela agitação nos corredores.

— Volte para cama, criança — disse Lissa, uma jovem guerreira que dormia no quarto ao lado.

— Algo aconteceu, irmã?

— Ainda não sei, mas parece sério. Volte para dentro e não saia.

Lissa não ficou para ouvir uma resposta, outras guerreiras a levaram. Tudo estava muito agitado e provavelmente ficaria assim por mais algum tempo… Tempo suficiente. A janela do quarto de Penélope dava para um dos jardins, o jardim ao lado do templo, onde as mulheres mais velhas se reuniam quando algo sério acontecia. Todas as Mãe moravam lá e nove delas formavam o conselho. Provavelmente as portas do templo estavam sendo vigiadas, mas isso nunca foi problema.

As mulheres pintadas que serviam como sacerdotisas conduziam seus rituais de purificação em uma fonte do jardim anexo ao templo. Não era raro ver as crianças passando pela cerca viva para entrar no jardim, raro era ver uma criança usar o jardim para entrar no templo. Do jardim para a câmara de preparação dos rituais e da câmara para o átrio, era onde todas estavam. O átrio era ricamente adornado com flores que se derramavam dos jarros como uma cascata colorida, pelo menos durante o dia. À noite, as flores perdiam suas cores, emitiam o brilho da lua. As mulheres pintadas, com suas peles avermelhadas, pareciam cinzentas, frias, sob a luz das flores. Um silêncio mortal recaía sobre o átrio.

Todas as Mãe estavam reunidas junto com as sacerdotisas e algumas das guerreiras mais graduadas.. Formavam um semicírculo diante das nove cadeiras cor de barro do conselho. Penélope se esgueirou por trás de uma cortina e se misturou com os ramos que desciam por um dos jarros na esperança do assunto tratado ser sério o suficiente para manter as adultas distraídas demais para notá-la. .

Em pé, de frente para o conselho, estava Mãe-Adria… Ela não deveria estar… Deveria estar sentada, junto das outras oito, mas era Mãe-Hera quem ocupava sua cadeira..

— O que faremos, irmãs? — Questionou Mãe-Almira. Ela olhava para as outras Mãe sentadas ao seu lado.

— O que sempre fizemos — respondeu Mãe-Adria. — Meu destino não pode ser diferente.

— Ela está certa — disse Mãe-Kala com a voz embargada. — Ela deve ir, não podemos deixar que se espalhe.

— Mas Adria é Mãe, não deveria ter esse fim — retrucou Mãe-Hera.

— Sou barro, sangue e fogo como todas as outras, irmã — respondeu Mãe-Adria. — Vivi e matei mais do que qualquer guerreira. Minha hora é mais que chegada. Não há outro jeito.

— Não há outro jeito — reforçou Mãe-Kala.

— Esse tem sido nosso fim desde antes dos horrores consumirem a terra —  lembrou Mãe-Gae. — Lágrimas pretas escorrem dos olhos de Adria, ela se quebrou.

Penélope pensou sentir frio. Seu corpo tremia. As palavras de Mãe-Gae não tinham significado para ela, mas eram palavras ruins. Muito ruins.

— Não fomos feitas para morrer — lamentou Mãe-Hera.

— E por isso morremos — replicou Mãe-Adria. — Olhe para mim, irmã.

Penélope olhou… E viu. Algo parecido com tinta escorria dos olhos de Mãe-Adria. Gotas grossas desciam pela face, mas não pingavam no chão.

— Diga que tenho salvação. Conte a todas aqui presentes que há uma forma, até agora desconhecida, de mudar meu destino.

— Poupe-me de teus deboches, Adria — esbravejou Mãe-Hera. — Poupem-me dessa tradição arcaica e desses rituais derrotistas. Por anos sem conta desistimos de nossas irmãs. Por anos sem conta nossas irmãs aceitaram um destino que não precisava ser delas.

— Quem aqui é antiga o suficiente para lembrar? — Interrompeu Mãe-Moira. — Kala, Almira, talvez Adria? Quem é antiga o suficiente para lembrar da primeira de nós que se quebrou? — Dizia ela enquanto examinava o rosto das demais. — Quem pode lembrar da primeira mulher pintada que chorou lágrimas pretas? Quem dentre as presentes viveu o pânico e encarou a insanidade? Adria não pode mais permanecer entre nós. Não há decisão a ser tomada.

Penélope estava paralisada. Seu corpo tremia. As lágrimas rolavam dos olhos sem que ela notasse. A reunião prosseguiu por mais algum tempo, mas nada do que foi dito depois fez sentido algum para a menina. Mãe-Adria estava quebrada, seja lá o que estar quebrada pudesse ser. Ela precisava sair da Casa do Pai… Voltar para fora… Lá fora só havia desespero, dor, o medo da morte…  E os olhos na névoa.

A escuridão tomou conta dos olhos da menina. Tudo desapareceu.

— Acorde, criança. Se souberem que estavas aqui durante a reunião passarás o resto da eternidade de castigo.

Penélope ficou desnorteada por alguns instantes.  Ela estava sentada, recostada sobre em uma parede, envolvida pelos ramos que desciam de um jarro. Não lembrava de ter adormecido, talvez tenha desmaiado.

— Mãe-Adria? Eu… Onde… Mãe-Adria! — Gritou Penélope se jogou nos braços da sentinela e a abraçou com força. — Eu… Ontem… Não vá embora!

— Preciso ir, criança. Enquanto ainda posso. Um destino ainda mais terrível me aguarda se permanecer na Casa.

— Mas quem vai guardar a porta?

— Nossas guerreiras são habilidosas, não há motivos para temer.

— Elas não são antigas, não são fortes… Não como a senhora.

— Olhe para mim, Penélope.

A menina soltou o abraço e olhou para Mãe-Adria. Sua pele cor de barro estava pálida. Seu rosto tinha pequenas rachaduras e as lágrimas pretas corriam sobre ele.

— Meu tempo acabou. Minha chama está se apagando. Em pouco tempo não poderei guardar a porta ou treinar as novas guerreiras. Devo ir para o lugar de descanso enquanto ainda posso.

— Fica muito longe?

— Não para quem conhece o caminho.

— A senhora vai sozinha?

— Preciso.

— É perigoso?

— Para mim? Não. Agora chega de perguntas. O sol está nascendo. Vá antes que te descubram.

A menina obedeceu sem questionar. Estava triste demais para ser castigada. A luz da aurora começava a romper o véu da noite. Os jardins ainda estavam escuros, frios e vazios. Sem ser descoberta, Penélope chegou até a janela do quarto, pulou para dentro e escorregou por baixo dos lençóis frios. Lembrou de Mãe-Adria, de como nada parecia abalá-la. Desejou poder se despedir de forma mais adequada. Perdeu-se em pensamentos e adormeceu.

 

***

Os olhos de Adria corriam pela paisagem. As portas da Casa do Pai estavam abertas atrás dela. Ao seu lado estavam Moira, Kala e Almira.

— Quando foi a última vez em que estivemos juntas diante destas portas, irmãs? — Perguntou Almira.

— Todas juntas? Só no dia em que chegamos na Casa — relembrou Moira. — E nenhuma vez depois dessa.

— Seiscentos e trinta e sete anos — acrescentou Kala. — Chegamos aqui juntas faz seiscentos e trinta e sete anos. Das primeiras a nascer, fomos as únicas a chegar.

— Mulher pintada. Moldada pelos deuses… — começou Moira.

— … Carne de barro e sangue, que o tempo desenha, adorna, nunca desgasta… — respondeu Kala.

— Alma de fogo e vontade. Chama eterna, vida sem morte — completou Almira.

— Vida que morte não leva. Vida que a si mesma se encerra — terminou Adria.

— Não fomos feitas para morrer — lembrou Almira.

— E por isso morremos — replicou Moira.

— Como isso  pôde acontecer, Adria? — Questionou Kala. — Não há nenhuma outra dentre nós que enfrentou a morte tantas vezes. Que encarou a face dos horrores tantas vezes por tanto tempo.

— Vi coisas na névoa, irmã. Coisas que não deveriam estar ali.

— Passaste por tanto. Viste o mundo morrer e encaraste a certeza da extinção — relembrou Almira.

— E ainda assim estou aqui. A carne trincada, vertendo lágrimas pretas pela face — rebateu Adria. — Não te julgues menor só porque paraste de lutar antes de mim, irmã. Tudo que vi de pior não vi sozinha.

— Almira amoleceu com os anos, irmã — provocou Moira

— Todas nós, Moira — brincou Kala. — Quando foi a última vez em que seguraste uma lança ou uma espada?

— Todas nós… Menos Adria — disse Almira.

Silêncio.

Nunca era fácil ver uma mulher pintada partir da Casa do Pai. Nem todas suportavam presenciar esse momento. Adria nunca teve essa escolha. Ela guardava a porta. Sempre. Ao longo dos séculos viu todas aquelas que foram quebradas partirem na direção do lugar de descanso.

— Quantas de nós já se foram, Kala? — Questionou Adria.

— Cinquenta e três irmãs… Desde que chegamos aqui. A última partiu faz quase duzentos anos.

— Tempo suficiente para esquecermos da sensação — completou Moira.

— Eu vi todas — começou Adria. — Todas as que partiram. Para mim foram tantas. Incontáveis. Senti por cada uma delas. Sinto ainda mais agora.

— Não teria contado se não cuidasse dos registros — tremeu Kala. — Aquelas que partiram sempre serão honradas em nossas histórias… Mas nenhuma como Adria.

— A Campeã de Barro — disse Almira.

— Guerreira Mais Antiga — lembrou Moira.

— Mestra dos Exércitos — completou Kala.

— Uma sentinela das portas — rebateu Adria. — Como aquelas que virão depois de mim e as que virão depois delas. Os títulos que tive são títulos de um mundo morto. Nada do que fiz antes foi mais importante do que fiz enquanto guardava estas portas.

— O sol se levantou… Está na hora — disse Almira com pesar. — Tragam as armas — ordenou.

Duas guerreiras vieram. Ataram um escudo às costas de Adria. Uma espada e uma faca foram presas ao seu cinto. Uma lança foi colocada em sua mão. Depois de entregar as armas se retiraram

— Te lembras do caminho? — Questionou Moira. — Se te apressares chegarás lá ao anoitecer.

— Assim que me for… Chamem as cinco que escolhi para guardarem a porta… Não sei o que pode acontecer lá fora… Se eu tentar voltar… Elas sabem o que fazer… Adeus, minhas irmãs.

 

***

A névoa era fria. Mesmo ao meio-dia, mesmo durante o verão. A névoa era fria. Adria não sentiu frio. Não sentiu a umidade da névoa ou o calafrio de sempre ao caminhar para dentro dela. “Uma distração a menos”, pensou ela. Passos tranquilos e largos conduziam a sentinela à trilha que deveria tomar. Seu caminhar leve era marcado pelo som dos pés na terra morta. Quase tudo parecia diferente. Menos hostil, menos inóspito. Exceto por uma coisa.

Silêncio.

Nada estava vivo ali. Tudo fora consumido pelos horrores da terra nos séculos passados desde o seu surgimento. Nada respirava, comia ou cantava naquele lugar. Nem em lugar algum.

O mundo exalava morte.

Adria exalava morte.

Chorava morte.

Estava morta e, a cada passo, morria um pouco mais.

Adria testemunhou a morte de todos os tipos de seres. Muitas dessas mortes foram causadas pelo fio de sua espada, pela ponta de sua lança ou pela força de suas mãos. Grandes, pequenos, feras, príncipes, servos e santos. Mulheres pintadas ou homens comuns. Todos pereceram aos olhos de Adria, mas a morte lhe era tão alienígena quanto para suas irmãs. A morte foi feita para os outros. As mulheres pintadas não foram feitas para morrer… E por isso morriam.

Adria se deixou fazer algo que era vedado a qualquer sentinela. Deixou-se distrair pelos pensamentos. Para seres tão antigos quanto ela, lembrar era quase como sair em uma viagem. Algumas memórias estavam longe demais, aguardavam preguiçosas por uma visita que há muito não ocorria. Mas visitar as memórias era algo que Adria deixava para Kala, o presente era uma ocupa…

Passos.

Passos apressados vindo logo atrás.

Rápida como uma criatura leve, mas desajeitada como uma criatura grande. Uma faca cravada no meio de um dos olhos seria suficiente para frear a investida. Sacou rapidamente a faca do cinto, esperou a criatura chegar mais perto, preparou o arremesso e se virou pronta para atirar a lâmina no olho do que quer que fosse… Mas ela não estava pronta para o que viu.

— Que fazes aqui, Penélope?

— Vim encontrar-me contigo, Mãe-Adria.

Adria passou os olhos pelos arredores antes de voltá-los para a menina.

— Percebes o absurdo que acabas de dizer? A Casa do Pai é o único lugar seguro que conhecemos. Vieste de lá, sozinha, para te encontrares comigo?

— Quando a senhora fala desse jeito parece muito pior do que realmente é.

— Não posso te proteger, criança. Não do jeito que estou. Estou indo para um lugar do qual não posso voltar. Mesmo que sobrevivas até lá, não posso garantir tua segurança no caminho de volta.

— Ainda falta muito?

— Mais da metade do caminho.

— É perigoso?

— Sim, muito.

— A senhora não pode me proteger?

— Não.

— Por quê?

— Porque tenho medo, Penélope. Tenho medo da morte. Por isso estou morrendo.

A menina não respondeu.

Adria voltou seus olhos para o caminho que seguia. Pensou no quanto ainda faltava para chegar ao lugar de descanso. Lembrou dos seres à espreita na trilha e daquilo que viu na névoa. Voltar para a Casa custaria o resto do dia e o tempo corria veloz, quanto mais rápido ela seguisse, mais fácil seria chegar ao destino.  Soltou a faca do cinto, rasgou das suas roupas uma fita e prendeu a arma na cintura de Penélope.

— Eu sei que não sabes manejar uma faca da forma devida, mas não posso te deixar desarmada.

Com o rosto iluminado, Penélope sacou a arma da bainha. A lâmina parecia bem mais longa nas mãos da menina. Era leve e bastava olhar para perceber o quão afiada ela era.

— Se alguma coisa vier para cima de ti, não ataque. Firme os pés no chão, segure a faca com as duas mãos e deixe que o peso da coisa faça o resto. Se algo conseguir te morder é só cravar a faca no olho, deve te dar tempo de fugir ou de pensar em algo. Fui clara?

Para Penélope, manejar armas sempre pareceu algo divertido. Não parecia mais.

— Se conseguir acertar algum golpe — continuou Adria —  não deixe o sangue secar na lâmina, tem algo no sangue dos horrores que deixa as armas cegas. Se nada disso acontecer, deixe a faca dentro da bainha. Agora mostra como seguras a faca.

Penélope tentou se lembrar das vezes em que assistiu ao treinamento das guerreiras. Nunca viu nenhuma delas usando uma faca, mas Mãe-Adria pedira para segurar as facas com as duas mãos… Como se faz com uma espada.

A menina imitou a postura das guerreiras o melhor que pôde.

— Afaste um pouco os pés… Não segure a faca tão perto do corpo… Olhe sempre para frente, não esqueça.

Penélope confirmou com a cabeça tentando disfarçar a empolgação.

— Agora vamos. Não saia das minhas vistas e mantenha o passo. Ainda temos um longo caminho pela frente.

Uma sombra colossal se erguia ao longe. Depois dos bosques mortos estava uma montanha outrora tida como sagrada. Uma trilha cuidadosamente marcada conduzia até uma abertura a algumas centenas de metros acima do chão. Lá ficava o lugar de descanso das mulheres pintadas.

— A senhora está quebrada, Mãe-Adria? — Disse Penélope se virando para a sentinela.

— Sim… Mantenha os olhos no caminho, o terreno está começando a ficar pedregoso.

— Como uma pessoa quebra?

— Não é qualquer pessoa, só as mulheres pintadas… O que sabes sobre a morte, criança?

— Que ela não tem parte conosco. Coisas podem nos matar, mas não morremos de velhice ou doença. Não fomos feitas para morrer.

— E por isso morremos.

— A senhora falou isso para as outras Mãe… O que quer dizer?

— Todos os seres mortais que viveram antes da chegada dos horrores possuíam apenas uma certeza, de que sua vida teria fim em algum momento… Não te distraias, ande mais rápido.

A menina endireitou a postura e acelerou o passo.

— Para as mulheres pintadas a morte é algo que chega para os outros. Sabemos que podemos morrer, mas dificilmente acreditamos que morreremos de fato, mesmo diante do perigo mortal… Porém, para algumas, a morte vira uma certeza… Tememos. Temos medo porque não a conhecemos, como disseste, ela não tem parte conosco. E quando tememos… Quebramos.

— E choramos lágrimas pretas.

— E choramos lágrimas pretas. Uma mulher pintada que se quebra vai aos poucos perdendo sua sanidade. Primeiro vemos as coisas como elas não são, tudo se torna uma ameaça. Depois vemos coisas que não existem, dias e dias de delírios sem fim. Por último vemos como inimigos qualquer um que estiver na nossa frente, uma fúria assassina que só a morte pode aplacar… Por isso criamos o lugar de descanso. Lá podemos encontrar o fim em paz.

Penélope não prosseguiu com a conversa. Talvez a menina sentisse o mesmo que Adria…

Algo se aproximava.

Não havia som que denunciasse a presença de coisa alguma… Mas estava lá. O que quer que fosse, estava lá. A sentinela apurou os ouvidos.

Asas.

Um distante bater de asas. Asas pesadas. Um horror voador vindo por trás.

Mais um bater de asas.

Adria se virou e viu a criatura iniciando seu mergulho.

— Penélope, corra.

A menina olhou para trás, mas só conseguiu ver sua guardiã correndo em sua direção. “Apenas alguns metros”, pensou Adria, “só mais um pouco… Um… Dois… Três!”

Ela se jogou sobre a menina caindo abraçada com ela no chão. Com um golpe as garras da criatura arrancaram o escudo das costas de Adria. Com a lança em punho, a sentinela se pôs de pé e preparou o arremesso. O monstro se afastou manobrando em círculo e ganhando altitude, preparando o próximo mergulho. As garras pendiam nos braços raquíticos da fera, saliva escorria pelos dentes, os olhos verdes brilhantes iluminavam a face animalesca que destoava do resto corpo, coberto de penas, assim como as asas. Quase como se aquele horror vestisse o corpo de um pássaro gigante.

“Vou morrer”, pensou Adria.

Sacudiu a cabeça como se quisesse jogar fora aquele pensamento.

A fera não parecia tão ágil. Grande demais para uma manobra de última hora. Qualquer guerreira com metade da experiência de Adria derrubaria a criatura de olhos vendados.

“Vou errar o arremesso e morrer”

Sem a necessidade de permanecer oculto, o monstro desceu em seu mergulho soltando um grito feral que encheu Adria de terror. Suas pernas ficaram bambas. A postura de arremesso cedeu. Os dedos frouxos por pouco não soltaram o cabo da lança. A respiração acelerou. O coração martelava no peito. As lágrimas corriam, ainda maiores, ainda mais rápidas.

— AAAAAHHHHHH.

O grito apavorado da voz infantil trouxe Adria de volta. Os dedos se firmaram ao redor do cabo da lança. Não havia tempo para preparar um arremesso, mas era uma boa oportunidade para colocar em prática os conselhos dados a Penélope. Segurando a lança com as duas mãos, Adria aguardou o golpe do adversário que descia em diagonal na direção dela  e de sua protegida. Bastava aguardar até o momento certo.

“Vou morrer… Não solte essa lança nem morta”.

No último instante, Adria inclinou o corpo para trás, apoiando o cabo da lança no chão. Com a arma exatamente no ângulo de descida da criatura. Perto demais para sequer entender a armadilha em que caíra, o horror mergulhou sobre a lança.  A ponta entrou pela boca e saiu pela nuca da fera que desabou pesada sobre a sentinela.

Penélope se levantou do chão. Bateu a poeira das roupas enquanto procurava por Adria. Mas tudo que viu foi o corpo cheio de penas da criatura tombada.

— Mãe-Adria? MÃE-ADRIA! — Gritou ela correndo na direção do monstro.

A carcaça se moveu de leve quando a guerreira saiu debaixo dela. Tudo que o horror voador conseguiu fazer foram alguns cortes nos braços de Adria e quebrar o cabo da lança ao meio.

— A senhora conseguiu — disse a menina cheia de empolgação.

— Foi por pouco.

— Aquilo era…

— Um horror… Um horror voador, faz tempo que não vejo um.

— Todos os horrores são feios assim?

— Só os mais bonitos… — Adria retirou a lança do horror abatido. — Me ajude a encontrar o escudo.

Penélope se apressou para procurar o escudo, mas a neblina tornou a tarefa impossível. Logo o desânimo se apossou da menina. O ataque do monstro provavelmente o arremessara para muito longe.

Enquanto sua companheira buscava sem sucesso pelo escudo, Adria parou para observar os arredores. Assim como antes, nada fazia som algum… Mas havia algo.

Olhos.

Dois olhos verdes. Dois pontos luminosos ao longe. Menores que os de um horror normal. Exatamente na altura dos olhos de Adria.

Elas não podiam permanecer ali.

— Encontraste o escudo? — Falou a sentinela tentando controlar a respiração que voltava a acelerar.

— Não — respondeu a menina emburrada.

— Temos que continuar. Fizemos muito barulho, não sabemos o que pode ter ouvido — ela sabia.

— Mas e o escudo?

— Teremos que fazer o resto do caminho sem ele. Vamos, criança, precisamos chegar à montanha… E Rápido.

O silêncio tomou conta do resto do caminho até a trilha. A neblina ficava mais e mais densa quanto mais as duas se aproximavam da montanha. Conforme a visibilidade piorava, aumentavam as marcações no caminho. Pequenas pedras com um brilho verde, perfeitamente visíveis dentro da névoa. Verdes, brilhantes, como os olhos dos horrores. Olhando compulsivamente por sobre seus ombros, Adria procurava por qualquer sinal de um par de luzes verdes em meio à neblina. As lágrimas pretas corriam rápidas e grossas pela face da guerreira. Os joelhos desejavam o chão, os pés pesavam como pedras, o ar entrava pesado nos pulmões…

— Chegamos? É aqui?

A voz de Penélope, mais uma vez, fez Adria voltar a si.

— Sim — respondeu depois de alguns segundos. — Só mais um pouco e estaremos no lugar de descanso

Um portal esculpido de pedra marcava o início da trilha. Um corredor sinuoso escavado na rocha, estreito demais para qualquer criatura maior do que uma mulher pintada passar… “Não é o suficiente”, pensou Adria. Mais uma vez seus olhos correram pelos arredores. Sob a densa neblina aos pés da montanha, apenas as marcações da trilha eram visíveis. As marcações da trilha… E dois olhos. Verdes, luminosos, erguidos acima do caminho e se aproximando devagar.

— Não podemos parar agora, criança.

— Não podemos — respondeu Penélope tomando Adria pela mão. — Venha, vou levá-la até lá.

A mão da guerreira estava fria. Penélope fingiu não perceber. A Mãe parecia cansada aos seus olhos, mas não precisava ser lembrada de como as coisas não estavam indo bem. Guardou para si a estranheza do toque, a aspereza da pele ressecada nos dedos cobertos de calos. O tempo se perdeu na subida. Os passos acelerados no início, se transformaram em um caminhar quase preguiçoso de quem queria que aquele momento durasse mais, durasse muito, durasse para sempre.

O véu da noite caiu pesado sobre a terra desolada. Centenas de metros acima da névoa, estavam Adria e Penélope. Dali era possível ver o céu estrelado, a névoa cobrindo o mundo como um manto de nuvens e, ao longe, as luzes alaranjadas das tochas e fogueiras acesas na Casa do Pai.

— Espero que não estejam muito preocupadas comigo.

— Não é a primeira vez que desapareces, Penélope. Só estariam preocupadas se soubessem o que estás fazendo.

— Vou passar o resto da eternidade de castigo, não é?

— No teu lugar me preocuparia menos com as coisas futuras. O presente é mais que o suficiente. O caminho terminou, mas a jornada ainda não. Olhe — apontou Adria para a face da montanha.

A entrada do lugar de descanso era uma fenda na rocha. Um número sem conta de inscrições em várias línguas emolduravam a passagem. Brilhando com a luz das estrelas.

— Milhares de anos atrás… Kala reuniu todas as sábias nesta montanha. Pintaram esta fenda e o salão depois dela com milhares de encantamentos. Para dar força ao ritual e não permitir que coisa alguma além de uma mulher pintada pudesse entrar.

Adria suspirou profundamente. Talvez a proteção mágica da caverna mantivesse… Aquilo do lado de fora.

— Venha. O passado é ainda mais bonito do lado de dentro.

E era.

As inscrições cobriam o piso, as paredes e o teto de um salão octogonal. Em cada canto havia a estátua de uma mulher pintada, igualmente coberta de inscrições. As letras iluminadas enchiam o lugar de uma luz cálida que não deixava sombra alguma se formar ali dentro.

— Quem são elas, Mãe-Adria?

— As primeiras a nascer. Ali está Moira, outrora famosa estrategista em batalha e perita em várias formas de combate, éramos rivais antes dos horrores consumirem a terra. Kala, outrora mestra de todas as sábias e a última guardiã do conhecimento antigo, a memória de todas nós. Almira e sua irmã gêmea, Alara, as primogênitas. Nunca fomos governadas por outras além delas. Nunca tomaram para si o domínio sobre nós, mas nenhuma mulher pintada negaria a autoridade delas. Deste lado temos Niva, a construtora, Mersa, a caçadora, e Iana, a juíza. Elas viviam entre os mortais, ensinando todos os tipos de ciência e ofício. E esta… Sou eu.

— A senhora foi uma das primeiras a nascer, Mãe-Adria?

— Sim. Mas fui a última das oito. Ao contrário das outras, fui a única a nascer criança. Cresci sob os cuidados delas. Fui muitas coisas de muitas formas. Andei livre e servi quando quis e precisei. Quando se teve uma vida como a minha… Não se pode reclamar na hora de partir.

Voltando os olhos para o centro da sala, Penélope viu uma mesa de pedra com uma lanterna sobre ela. Dentro da lanterna queimava uma chama prateada e ao redor da mesa círculos estavam desenhados no chão, grandes o suficiente para uma mulher adulta se sentar, um para cada canto da sala. Dentro dos círculos não havia inscrição alguma.

— Logo devo começar o ritual. Sob a luz das estrelas. Ao amanhecer terei partido.

— Para onde?

— Para onde a chama de todas nós queima eternamente. Livres desta carne de sangue e barro.

Adria caminhou até o centro da sala e, enquanto Penélope se perdia nas inscrições das paredes e nos detalhes das estátuas, contemplou a chama. Por um instante seu coração se encheu de paz. Finalmente aquela agonia teria fim… Mas e Penélope? Como a menina voltaria à Casa do Pai?

— AAAAAAAHHHHHH!

O grito de Penélope mais uma vez despertou Adria. Virando-se para a entrada, a sentinela viu. Seu coração disparou, as lágrimas pretas correram grossas e velozes como nunca.

Os olhos verdes.

Brilhantes.

Passos trôpegos. Um corpo corrompido. Reanimado por meios que Adria não podia nem imaginar.

O corpo de uma mulher pintada.

Uma mulher pintada convertida em horror.

Uma mulher que ela conhecia muito bem.

— Alba… és tu?

O rosto vazio de expressão fitava a guerreira. Os dedos se torciam em posições estranhas, a cabeça se debatia de forma tão errática quanto os espasmos que tomavam conta dos braços e pernas.

— Mãe-Adria… — implorou Penélope com a voz trêmula.

— Criança… Venha para cá.

A menina estava paralisada. Os olhos brilhantes, a pele cinzenta, as roupas sujas e esfarrapadas. Algo naquela coisa dizia que ela reagiria ao menor movimento.

— Vou criar uma abertura… Corra até aqui ao meu sinal.

— Certo!

— Preparada?

— Sim!

Adria preparou o que sobrara de sua lança

— Agora! — Disse ela ao fazer o arremesso.

O ataque acertou em cheio o ventre da mulher horror.

Penélope correu, mas sua fuga foi frustrada. Uma mão fria e áspera a puxou pelo pescoço. Seus pés saíram do chão e toda a sala passou veloz diante dos seus olhos quando seu corpo foi erguido e arremessado com força no chão de pedra, expulsando todo o ar do peito. Os dedos do horror voltaram a se fechar em volta do pescoço da menina, prendendo-a no chão. Os pulmões esvaziados e o aperto na garganta silenciaram o grito de dor de Penélope. Debruçada sobre sua presa, a criatura aproximou a face inexpressiva do rosto da criança, quase como se o desespero da pequena causasse curiosidade.

Adria sacou a espada.

“Se eu errar ela vai morrer”, pensou ela. “Ela vai morrer… Eu morrerei depois”

A boca do horror se abriu, muito maior do que a boca de qualquer mulher pintada deveria abrir. Dentes imensos e afiados se revelaram. Penélope se debatia, mas o monstro era forte demais. O fedor de morte invadia as narinas da menina com a proximidade crescente daqueles dentes inumanos. Com um estalo, o maxilar do monstro se deslocou para abrir ainda mais a boca, quase como se quisesse abocanhar a cabeça da pequena de uma vez. Penélope chutou e bateu, mas a coisa parecia não estava insensível aos seus golpes.

Sentiu a faca.

Sacudindo na cintura, a lâmina embainhada pedia para ser usada.

Reunindo suas últimas forças, Penélope sacou a arma e cravou no olho esquerdo da coisa. Uma fumaça verde saiu do olho perfurado, quase como uma cobra, subiu em espiral pelo braço da menina e entrou no seu olho esquerdo. Os dedos do monstro afrouxaram, Penélope caiu de joelhos com as mãos sobre o olho. O braço queimava, como se a carne estivesse sendo corroída. Mil agulhas pareciam penetrar no olho esquerdo.

Ela queria gritar, mas o ar ainda faltava.

Escuridão.

Silêncio.

***

Uma voz.

Uma voz cantando.

Distante. Em meio à escuridão do vazio. Parecia um sonho, talvez fosse. A canção ficava aos poucos mais alta e mais clara. A voz era familiar e ao mesmo tempo…

Os olhos de Penélope se abriram.

Ela estava novamente no lugar de descanso. Ao seu lado estava Mãe-Adria, sentada dentro de um dos círculos do chão, diante de sua própria estátua. Ela cantava um cântico que a menina não conhecia.

— Mãe-Adria?

— Pensei que não te veria mais acordada antes de partir.

— Essa música, é bonita.

— Faz parte do ritual, é uma canção de despedida.

— Aquela mulher…

— Alba.

— Quem era?

— A primeira guerreira que treinei na Casa do Pai. A primeira das guerreiras de lá que perdi para os horrores.

— O que aconteceu com ela?

— Não sei. Nunca vi algo parecido. Mortos convertidos em horrores. Ainda mais uma mulher pintada… Eu a vi na névoa. Perto da Casa… Ao vê-la… Ao reconhecê-la… Quebrei.

— Onde está o corpo dela?

— Se desfez. Os encantos do lugar desfizeram o corpo dela como farão com o meu. Sentes muita dor?

Penélope lembrou-se da fumaça verde e das queimaduras. Olhou para o braço esquerdo e viu as marcas em espiral. Não doíam, nem pareciam com qualquer queimadura que ela tenha visto antes.

— Não sinto dor.

— E o olho?

Imediatamente ela tampou o olho direito. A visão parecia um pouco diferente, como se as cores estivessem erradas, mas nada além disso.

— Consigo enxergar bem, mas as cores estão estranhas.

— Não te assustes quando olhares no espelho. Teu olho esquerdo está verde e  luminoso como o olho de um horror.

— O quê? Mas eu não vou…

— Virar uma coisa daquelas? Acho que não, mas é só um palpite. Conte tudo para Kala. Se houver algo a ser feito, ela saberá.

— Ainda falta muito para o sol nascer?

— Um pouco. Tempo suficiente para terminar o ritual.

— Depois disso…

— Eu partirei para eternidade e tu partirás para a Casa.

— Não sei se consigo sozinha.

— Não estarás sozinha. Leve a lanterna. É ela que realmente dá poder a este lugar. Os horrores não te incomodarão se estiveres com ela.

— É proibido tirar a lanterna daqui?

— Creio que sim, mas tua vida importa mais. Não te preocupes, alguém trará de volta.

— Obrigada, Mãe-Adria.

— Não fiz nada, criança. Te salvaste sozinha. A ti e a mim. A gratidão é toda minha.

A canção recomeçou. As inscrições no salão começaram a brilhar de forma alternada. Descrevendo padrões variados a chama da lanterna queimava ainda mais brilhante. Bruxelava furiosa como se atiçada pelo vento.

O sol se ergueu.

Sua luz penetrou pela brecha.

O cântico de Adria parou.

Sua postura relaxou. As inscrições voltaram a brilhar com a luz perene das estrelas. As chamas da lanterna se tornaram tranquilas mais uma vez. As lágrimas pretas não escorriam mais pelo rosto de Adria. Restara apenas a marca de sua passagem na face tranquila da sentinela. Depois de milhares de anos, a guerreira não precisaria mais lutar. Penélope se levantou para se sentar diante de Mãe-Adria. O rosto sem vida revelava uma beleza que nunca foi capturada. A face séria e determinada de sempre estava eternizada na estátua que ocupava um dos cantos da caverna. Os olhos, agora vazios, residiam em um rosto tranquilo junto com o sorriso discreto que não costumava aparecer. A menina fechou os olhos da mulher. Passou os dedos por onde as lágrimas correram. O líquido viscoso parecia com uma tinta. Tateando a pele de seu rosto, a menina encontrou a marca da passagem da fumaça verde.

Sobre ela passou as lágrimas pretas de Adria.

Tomou a lanterna.

E partiu.

 

Contos de Segunda #94

O título desse conto é Coração Apodrecido e foi originalmente escrito para uma seleção de uma coletânea. Como ele não foi selecionado e a semana do dia 31 de outubro é uma época boa pra lançar histórias meio macabras, resolvi tirar a poeira desse texto, terminei a revisão e o resultado você pode conferir aqui embaixo.

 

— Está frio demais — reclamou um guarda.

— Aqui é sempre frio — respondeu outro. Apesar da resposta ríspida, o frio anormal daquela noite não passara despercebido.

A dupla de sentinelas vigiava as bordas da floresta do alto dos muros do castelo do duque. Não que a floresta fosse uma fonte frequente de ameaças, em dias normais os guardas designados para vigiar suas bordas aceitavam tal tarefa com satisfação… Mas aquele não era um dia normal.

— Não, não é… Bem… É, mas não desse jeito… Ficou frio assim depois que a fera apareceu. A cada dia sinto mais frio.

— Fera?

— Sim… Faz alguns dias que um caçador desapareceu na floresta. Quando procuraram por ele as únicas coisas encontradas foram as carcaças dos seus cães… Costelas escancaradas e entranhas expostas.

— Que tipo de animal faria isso?

— Um que não come carne… pelo que dizem os cães estavam secos, as vísceras estavam pálidas… Como não houvesse uma gota de sangue sequer.

— Esses caçadores parecem mais viver de inventar histórias do que da caça.

— Foi o que falei quando me contaram, só que… Um fazendeiro estava ouvindo a conversa… Três dias atrás ele acordou com o barulho dos animais assustados e o som de madeira se partindo… As vacas e os cavalos haviam derrubado as portas do celeiro e corriam enlouquecidos pelo campo… Os porcos não tiveram a mesma sorte… Carcaças escancaradas, tripas reviradas e secos de sangue.

Silêncio.

Os minutos se arrastaram até que um deles tivesse algo para dizer.

— Estás ouvindo?

— Ouvindo o quê?

— Nada… Não ouço nada… Nem aquela coruja maldita que fica piando sem parar.

— Estou dizendo, homem, é o frio. Está frio demais até para os animais… Deve ser por isso que há tantas velas acesas na capela.

— Velas? — O guarda olhou por cima do ombro. — Não há luz alguma vindo da capela.

— Então de onde vem esse cheiro? É como se centenas de velas estivessem queimando aqui perto…

— Deve ser imaginação. Pare de falar e fique de olho naqueles arbustos… Parece que tem alguma lá.

— Humm… Não tem nada daquele lado… Tem certeza que viu alg…

Subitamente um vento gelado passou pela muralha distraindo o guarda.

— Sentiu esse vento? — Disse  ele se virando para a o companheiro. — Foi como se alguma coisa grande passasse por aqui…

As palavras morreram na garganta.

Congelado de pavor o pobre guarda não pôde fazer nada além de contemplar a cena. Seu companheiro jazia sem cabeça no chão. O uniforme rasgado exibia as costelas recém abertas. As entranhas se esparramavam pelo chão… Enquanto a fera bebia-lhe o sangue.

O líquido vermelho, sorvido com urgência, escorria pelos cantos da boca do monstro. As garras abriam o pescoço para facilitar o trabalho enquanto os olhos profundamente negros vigiavam fixos no outro guarda. O soldado  tentou alcançar a corneta de chifre que estava pendurada no cinto, não conseguiu. Alguma força parecia impedir o movimento. Pensou em gritar por ajuda, ou pelo menos alertar os demais. A boca não se mexia, o ar parecia retido nos pulmões. Paralisado e apavorado, o guarda não pôde fazer nada além de amaldiçoar a fera que se banqueteava na sua frente.

“Maldita seja, besta dos infernos”, pensou ele. Talvez se ele pudesse desviar os olhos do negrume hediondo do olhar da besta tivesse uma chance, mas nem seus olhos pareciam obedecer. Quase exaurido, ele desiste de resistir. Não devia haver muito mais sangue para ser sugado, em breve ele seria um corpo inerte no chão.

A besta piscou.

Por um segundo seus braços estavam livres. A mão escorregou para a corneta.

Os olhos do monstro se abriram focando por um instante na carcaça retalhada no chão.

Foi o suficiente.

Com toda a força do seu peito recém saído da paralisia, o guarda soprou a corneta o mais alto que pôde. A besta saltou um metro para trás e se colocou em posição defensiva. Dentes arreganhados, pernas flexionadas, pronto para fugir ou revidar.

— A FERA ESTÁ AQUI!!! — Berrou o vigia em total desespero antes de soprar mais uma vez a corneta.

Ele ouviu outra corneta tocando em resposta. O castelo estava em alerta. O dever da sentinela fora cumprido. Um sorriso sutil de contentamento apareceu nos lábios ainda encostados na corneta… Depois não havia mais nada

Silêncio.

Escuridão.

***

— A fera está no castelo, meu senhor — sussurrou o jovem escudeiro para o comandante da guarda.

Cristovão estava ajoelhado fazendo suas preces. A espada diante dele fazia as vezes de cruz. Ao ouvir as notícias fez o sinal da cruz, abriu os olhos e se pôs de pé. Os joelhos rangeram sob o peso da idade e os músculos tensos reclamaram das horas passadas em oração.

— Alguma resposta da igreja? — Perguntou ele.

— O bispo mandou uma mensagem — respondeu o escudeiro tirando uma carta do bolso. — A ajuda chegará de manhã.

“Amanhã será tarde”, pensou Cristovão.

— E onde está a fera?

— Na biblioteca, senhor.

— Afugentaram a fera até lá?

— Os homens não conseguiram afugentar a fera… Mal conseguiram se aproximar. Ela entrou na biblioteca e aproveitamos a chance… As portas estão cerradas.

A biblioteca do duque era famosa em todo o reino. Ocupava uma ala própria separada do castelo, para melhor atender aos visitantes. Graças a isso era bem provável que a fera realmente estivesse presa lá dentro.

— Vá na frente, rapaz — disse o comandante. — Avise aos homens para prepararem escudos e lanças.

— Para quê, senhor?

— Para empurrar a fera de volta caso tente sair quando abrirem a porta.

— Por qual razão abririam a porta?

— Para que eu entre.

— Mas, meu senhor…

— Não quero precisar repetir a ordem.

O escudeiro se calou e saiu sem falar mais nada. Cristovão foi até seu velho baú, procurou por uma antiga bolsa de couro e dela tirou três pequenos frascos de água benta e um pequeno artefato de pedra preso a uma corrente de prata. Afivelou o cinto, embainhou a espada e uma faca longa.

— Deus Todo-Poderoso — repetia ele em voz baixa enquanto caminhava até a biblioteca. — Dá firmeza às minhas mãos… Dá firmeza ao meu coração… Dá firmeza à minha fé.

Os homens estavam prontos quando ele chegou. Oito deles carregavam escudos largos, mais dez usavam lanças longas e dois estavam posicionados para abrir a porta. Todos eles estavam pálidos de terror.

— Em formação, homens — ordenou Cristovão.

Os que carregavam escudos se colocaram lado a lado, formando uma parede por trás do comandante, com os homens de lança logo depois deles.

— Essas portas não devem ser abertas antes dos homens da igreja chegarem — continuou ele.

— Deus te proteja, meu senhor — disse um deles.

— A todos nós, filho… A todos nós.

A porta foi aberta vagarosamente. O cheiro de centenas de velas sendo queimadas saiu do recinto quase como um suspiro, “o cheiro do outro lado”, pensou Cristovão. Lá dentro tudo era breu. Um som baixo e constante de algo inumano chegavam de longe aos ouvidos do velho, aparentemente os homens da sua pequena parede de escudos não precisariam enfrentar a criatura. Passos firmes levaram Cristovão para dentro. Nas histórias contadas sobre este dia dizem que o comandante adentrou na biblioteca com uma expressão feroz e corajosa de um anjo vingador, mas ele só tentou passar tranquilidade aos seus homens. Eles não precisavam de mais motivos para ficar com medo.

A porta se fechou com força. O som das trancas veio logo depois. Os olhos logo se acostumaram à escuridão. O som continuava. Ouvindo com atenção parecia que algo estava sendo vagarosamente regurgitado.

Uma luz.

O brilho parco de uma chama se acendeu ao longe. Cristovão sacou a espada e começou a andar na direção da claridade.

A luz aumentou.

Com mais alguns passos Cristovão pôde ver com clareza a cena hedionda.

— Deus Todo-Poderoso… — disse ele boquiaberto.

Diante do comandante estava a fera. Com as garras ela tirava da garganta pedaços compridos de alguma espécie de cera, a cor era vermelha como sangue coagulado. A cera semi rígida era colocada na borda de uma tina de pedra que servia como braseiro, e um pavio imperceptível se acendia. Pelo menos uma dúzia dessas velas vermelhas queimava, a cera liquefeita pelas chamas escorria para dentro da tina. Presa na parede estava a cabeça de uma mulher presa pelos cabelos ao suporte de uma lanterna. Ele não precisava olhar para dentro da tina para saber o conteúdo.

— O coração apodrecido… Banhado pelo sangue de muitas velas… Aquecido pela chama da ira e pelo calor do ódio… — Recitou Cristovão.

— Voltará a bater como outrora… — Continuou a voz de uma mulher. — Dentro de um corpo de sangue e sombra… Para uma nova vida de morte… Para um novo mundo de trevas… Para finalmente reinar.

Cristovão olhava fixamente para a cabeça pendurada na parede. Seus olhos o desafiavam com um sorriso. A expressão dela era a de quem se reencontrava com um antigo amante.

— Pelo que vejo… Os anos não foram gentis contigo, cavaleiro — disse ela.

— Talvez eles tenham sido os únicos gentis contigo… Bruxa.

— Que palavras duras são essas? — Questionou em uma mágoa claramente fingida. — Em outros tempos me receberias tão bem…

— Quieta!

A fera havia terminado seu trabalho e observava atenta o visitante indesejado. As velas choravam copiosamente suas lágrimas escarlates sobre o coração apodrecido.

A cabeça abriu um sorriso.

— Vejo que estás usando o símbolo da tua ordem.

Cristovão segurou o pedaço de pedra pendurado em seu pescoço.

— Cavaleiros expulsos têm tal direito?

— Quieta, bruxa — rosnou o comandante.

— Tão desnecessariamente rude… Quem sabe se meu querido criado amaciar tua carne nossa conversa possa ser mais… Digamos, civilizada.

Cristovão correu. Se embrenhou no labirinto de estantes e só parou quando estava longe da luz das velas. Respiração pesada, costas coladas na parede e todos os sentidos alertas.

— Creio que tenha gostado da minha doce criatura — debochou a bruxa. — Não tinha muito o que fazer no buraco onde me deixaste para apodrecer. Então passei dias sem conta amaldiçoando a ti e à tua preciosa ordem.

As garras do monstro surgiram na escuridão. Mesmo os reflexos de um velho guerreiro foram suficientes para livrar Cristovão do primeiro ataque. Agora os dois estavam frente a frente, ambos esperando a oportunidade de atacar.

— Depois que ele nasceu foi nutrido com as mais belas promessas de massacre, tortura e mutilação em todas as noite de lua nova durante dez anos… Só então saí daquele buraco.

A besta saltou sobre Cristovão. As presas amarelas prontas para arrancar-lhe a garganta. Ele desviou por baixo do salto e acertou um golpe logo abaixo das costelas da criatura. Apoiado nas patas dianteiras, o monstro o acertou com um chute, derrubando-o no chão.

— É inútil resistir, cavaleiro, mas não te preocupes….

Antes que o comandante pudesse se levantar, as garras do monstro se cravaram em sua perna e o arrastarram para mais perto da boca preparada para o bote. As presas miraram o pescoço, mas foram detidas  pela lâmina da espada. A besta forçava seu peso sobre Cristovão e tentava freneticamente morder seu rosto. A prata que revestia a lâmina começou a queimar a boca do monstro, que desistiu quando a dor se tornou insuportável se afastando. Se aproveitando da abertura, o velho comandante acertou um pontapé no queixo do monstro. A dor das queimaduras e a surpresa do golpe foram suficientes para criar uma brecha. Cristovão pôs-se de pé e mais uma vez se perdeu no labirinto das estantes.

— … Deixarei tua cabeça intacta. Te carregarei comigo por onde for e exibirei  a todos a tua face pálida em meu estandarte, mas não penses que tua morte te poupará da vergonha — riu a bruxa.

Cristovão examinava compulsivamente os arredores, atento a qualquer som ou movimento. O ferimento da perna queimava, os músculos se enrijeciam em uma contração dolorosa. “Veneno”, pensou ele. Sacou um dos frascos de água benta, arrancou a rolha com os dentes e derramou um pouco do líquido abençoado sobre o ferimento. A água fervia e chiava em contato com as chagas contaminadas, a dor fez a cabeça rodar. Com as feridas cauterizadas e os músculos voltando ao normal, Cristovão podia mais uma vez se concentrar em seu adversário.

O cheiro da carne queimada misturado ao odor de muitas velas anunciavam a aproximação da besta. Ela se aproximou cautelosa, apesar de ser impossível saber onde aqueles olhos estavam fixos, não seria errado imaginar que ela fitava a espada. As narinas estavam dilatadas diante do cheiro da água benta.

— Contarei infinitas vezes, para quem quiser ouvir, a história do guerreiro santo que se dizia Espada do Pai Todo-Poderoso, defensor da fé e das sagradas doutrinas… Que foi expulso de sua ordem depois de se tornar uma só carne com uma bruxa…

Em um ataque cauteloso a fera lançou suas garras sobre Cristovão, dois golpes rápidos que erraram por pouco. Em resposta o comandante arremessou o frasco que estava em sua mão. O vidro fino se espatifou na cara do monstro, o líquido começou a corroer a carne. Um urro bestial de dor encheu a biblioteca, enquanto seu inimigo convulcionava de dor, Cristovão correu mais uma vez. A luz das velas estava próxima.

— … De como a vergonha e a ira o fizeram cortar fora a cabeça da antes amada mulher. Ele precisava queimar o corpo inteiro, mas onde estava a cabeça? Perdida sob o tronco oco de uma árvore morta, protegida pelas trevas que a bruxa carregava em suas palavras. Um ritual malfeito, as chamas não consumiram o coração… Contarei de sua fuga para uma parte distante do reino e de como as décadas se passaram sem diminuir o tamanho da vergonha que ele sentia e de como ele virou um escravo da mulher por ele assassinada…

A fera bufava de fúria, urrava por sangue. As garras se afiavam no piso de pedra. O coração de Cristovão martelava no peito. Era impossível interromper o ritual sem se livrar do monstro… Mas a bruxa ainda não possuía um corpo, estava indefesa. Ele precisava correr.

— … Afinal, somos uma só carne, Cristovão. Quando apodreci meu coração fui amaldiçoada com uma vida sem morte… E teu coração está tão podre quanto o meu.

O velho guerreiro disparou na direção da bruxa. O coração pulsava com força no fundo da tina de pedra, as velas estavam quase no fim. A espada foi erguida, pronta para perfurar o órgão maldito, o golpe desceu com força… Mas algo deteve a lâmina. Uma mão vermelha surgiu em meio ao sangue. Os dedos agarravam com força a lâmina da espada, o sangue fervia em contato com a prata que revestia a arma. Outra mão surgiu para segurar a lâmina. Dois braços e um tronco feminino se ergueram do sangue. Horrorizado Cristovão deu um salto para trás. O corpo sem cabeça saiu por completo da poça de sangue. Sua cor era a mesma das velas, gotas vermelhas escorriam por ele e pingavam no chão.

— Um belo corpo, não achas? — Provocou a bruxa. — Creio que gostarás tanto deste quanto do antigo.

Dor.

Dois golpes acertaram ao mesmo tempo o guerreiro desprevenido. Do lado direito as garras se cravaram nas costelas. Do lado esquerdo elas se cravaram no abdome. O sangue caiu em cascata ao chegar a boca.  A bruxa riu. A besta puxou suas garras e se afastou, aguardando novas ordens, olhava com facínio o corpo recém saído do sangue. Cristovão caiu de joelhos. O corpo caminhou até ele, envolveu-lhe o queixo com os dedos pegajosos e ergueu seu rosto para que a bruxa pudesse olhar diretamente em seus olhos.

— Esse não é o fim, meu querido — disse ela sorrindo.

A mão de Cristovão moveu-se vagarosamente para a faca presa no cinto.

— Pense nisso como o casamento que não tivemos… Estaremos sempre juntos.

A faca escorregou para fora da bainha.

— Sim… Sempre juntos — disse Cristovão com a respiração falhando.

Agora as duas mãos seguravam a faca, prontas para o golpe fatal.

— Nos vemos no inferno… Meu amor.

A faca penetrou por baixo do esterno até o coração. A lâmina de prata fez a carne apodrecida do coração de Cristovão ferver. O corpo recém criado começou a derreter, a face da bruxa se contorcia de ódio e dor, a boca proferia uma infinidade de maldições. Mas o velho comandante não ouviu nenhuma delas. Seus sentidos desvaneceram enquanto o corpo tombava no chão. Um sorriso discreto brotou em seus lábios. Finalmente a ligação com sua antiga amada estava desfeita… Finalmente ele estaria em paz.

Contos de Segunda #93

A publicação a seguir é uma continuação direta do Contos de Segunda #88.

— Não sei do que está falando, Carmim.

Angela estava sentada na minha frente, na minha cadeira e com os pés sobre minha mesa. Sacou um isqueiro para acender o cigarro surrupiado da minha gaveta.

— Três das pessoas mais ricas da cidade desapareceram nas últimas semanas — puxei uma cadeira. — Agora você aparece dizendo que tentaram te sequestrar, não me parece coincidência.

— Duvido muito que seja, detetive — desdenhou Angela. — Quem são os desaparecidos?

— Willian Doyle, Klaus Gleizer…

— O dono da fábrica de tecidos e o banqueiro — interrompeu ela. — É mais provável uma viagem em segredo com uma amante do que um desaparecimento.

— Talvez, mas com Dominique Loup na lista acabei descartando a hipótese.

Com o susto Angela saltou da cadeira e ficou olhando para mim com os olhos arregalados.

— Dominique desapareceu!?

— Duas semanas antes de Klaus Gleizer.

Angela saiu de trás da minha mesa e começou a andar de um lado para outro. Os dedos tremiam quando o cigarro foi levado à boca para uma longa tragada. Aproveitei a deixa para retornar à minha cadeira. O assento reservado aos visitantes era propositalmente desconfortável.

— Não sabia que era conhecida sua.

— Lembra de quando trabalhou para ela no caso da chantagem? Eu te indiquei para o serviço.

— Então vocês eram próximas?

— Éramos recém chegadas na cidade quando nos conhecemos — ela deu mais um trago no cigarro. — Ela queria ser cantora, eu queria ser atriz. Nós duas nos tornamos artistas, mas eu não virei atriz.

— Nem todos encaram golpes e mentiras como arte, Angela, só os que já te viram em ação.

— Gentileza sua, detetive.

— Quanto tempo faz desde a última vez em que você encontrou com Dominique?

— um mês.

— Notou algo diferente? Ela parecia preocupada com alguma coisa?

— Dominique nunca estava preocupada com nada. A carreira ia bem, o dinheiro estava entrando aos montes e os candidatos a amante só eram mais numerosos do que os candidatos a marido. Ela gosta de ser bajulada, mas acredita demais nessas besteiras de amor verdadeiro. Nenhum desses homens nunca conseguiu nada.

— Algum deles pode ter passado dos limites.

— Dominique andava com um segurança a tiracolo.

— Para alguns isso não é um problema.

— O homem é praticamente um gorila. Dois metros de altura, ex-pugilista e ex-militar. Um problema para qualquer um.

— Então ele é o primeiro da lista de suspeitos.

— Não me importo com sua lista, Carmim. Encontre Dominique e eu dobro o seu pagamento.

— A polícia costuma me pagar muito bem.

— Se isso fosse verdade, teria pelo menos um cigarro decente na sua gaveta.

Angela jogou o cigarro no cinzeiro, pegou a bolsa e partiu sem tocar no assunto da tentativa de sequestro. Livrar a própria pele está tão alto na lista de prioridades dela que só algo muito grave roubaria a atenção disso. Por mais amiga que Dominique fosse, nenhuma amizade poderia ser maior do que o apreço de Angela Bevoir por Angela Bevoir. Algo mais estava acontecendo e ela não ia me dizer. Eu precisava descobrir.

Com todas essas minhocas na cabeça eu telefonei para o número que estava no verso da foto que o chefe de polícia me entregou. A moça que me atendeu forneceu o nome do segurança e contou o pouco que sabia do que aconteceu com o homem. Mario Luppi foi encontrado desacordado em um beco no dia seguinte ao desaparecimento da patroa. Um dos braços estava quebrado, o crânio foi rachado por uma pancada, juntamente com algumas costelas. Depois de alguns dias em coma ele acordou no hospital e estava lá desde então. O horário da visita tinha acabado de começar quando eu coloquei os pés no hospital. Orientado por uma enfermeira adentrei no quarto onde Mario admirava a chuva que batia na janela.

— Boa tarde, senhor Luppi.

— Boa tarde, senhor…

— Pode me chamar de Carmim.

— É por causa das roupas vermelhas?

— Gostos pessoais pouco convencionais costumam gerar essas alcunhas.

— A que devo sua visita, senhor Carmim?

— Estou colaborando com a polícia no caso de desaparecimento da sua patroa e de outras duas pessoas.

O rosto de Mario era um misto de raiva, surpresa e espanto.

— A polícia já fez perguntas demais, senhor. Respondi a todas.

— Algo me diz que a polícia não fez todas as perguntas, pelo menos não todas as perguntas certas.

— Essa investigação não vai dar em nada. Acredite em mim, senhor, a polícia não pode resolver nada.

— Bem, a polícia me contratou para encontrar três pessoas, mas Angela Bevoir me contratou para encontrar sua patroa.

Mario ficou pálido. Aparentemente seria melhor que o próprio diabo tivesse me contratado no lugar de Angela.

— Ela me disse que é uma amiga íntima de Dominique e me ofereceu um bom dinheiro para encontrá-la.

— A senhora Bevoir deve estar se sentindo culpada. Não que ela tenha culpa no sumiço, mas nada disso teria acontecido se ela não tivesse levado a senhorita Loup ao… Não, nada. Esqueça.

— Não precisa me contar muito, Mario. Só precisa me colocar na direção certa. Para onde Angela levou Dominique?

Ele respirou fundo, reuniu coragem e disse baixinho:

— Para o Clube do Inferno.

Contos de Segunda #92

    Dimitri estava preocupado. Depois de meses no curso de reciclagem, finalmente ele poderia voltar às suas atividades normais como vampiro. Mas não antes de passar nas duas provas: uma prova teórica e uma entrevista com um avaliador certificado pelo sindicato. Ao longo dos meses passados no curso, tudo que Dimitri aprendeu foi que os vampiros viviam uma vida muito triste nos tempos modernos. A glória dos tempos áureos não existia mais e os filhos de Caim agora não passavam de feras enjauladas. Foi pensando sobre isso que Dimitri entrou na sala do avaliador, puxou a cadeira, se sentou e esperou alguns instantes até que alguém entrasse.

    — Boa noite, senhor… Dimitri? — Disse o jovem ao entrar na sala.

    — Correto, rapaz.

— Meu nome é Kauê e vou ser o seu avaliador.

— Me desculpe, acho que não entendi. Qual é o seu nome mesmo?

— Kauê.

— Isso é alguma espécie de apelido?

— Não… — respondeu o jovem achando aquilo muito estranho. — É um nome bem

comum.

— Conheço pouco sobre esta época, mas nunca tinha ouvido falar de ninguém chamado… — As narinas de Dimitri dilataram. — Que cheiro é esse? Se não fosse um total absurdo  poderia dizer que estás vivo, rapaz Kauê.

— Bem… Eu não acho nenhum absurdo… Eu tô vivo.

— Como é? — Questionou Dimitri fechando a cara.

— Eu não sou um vampiro, senhor Dimitri.

— Só me faltava essa. Já não basta ter que engolir todas as doutrinas distorcidas desta época maldita, ainda serei avaliado pelo gado.

— Senhor, atualmente consideramos esse termo bastante ofensivo.

— Ofendido estou eu. Passei meses dentro de uma sala de aula com um instrutor que, além de não ter nem um século sequer de pós-vida, queria me convencer que o momento desgraçado que minha espécie vive atualmente é uma amostra de como nos tornamos evoluídos socialmente. E para ouvir todas as falácias que me preparei para regurgitar eles enviam um humano de nome exótico — Dimitri estava começando a corar. — Solicito que a avaliação seja feita por outra pessoa.

— Senhor, todos os avaliadores são humanos comuns — respondeu Kauê pacientemente. Dimitri não era o primeiro, nem o décimo, vampiro conservador chiliquento que ele avaliava.

—  É um absurdo.

— Na verdade é um dos itens da avaliação — ele fez uma pausa e procurou o item no checklist. — “O avaliado deve ser capaz de controlar seus instintos na presença de uma presa em potencial”… Normalmente esse item fica mais pro final da avaliação, mas acredito que o senhor já foi aprovado nesse critério… Infelizmente o senhor usou termos considerados racistas e deu um feedback bem agressivo sobre o nosso curso, o senhor foi reprovado no quesito “ideologia de supremacia vampírica”.

— Não tenho motivos para discordar de nenhum dos dois pontos.

— O senhor solicitou uma habilitação comum para caça, utilização dos poderes e cidadania. Como o senhor não demonstrou intenção de sair da sua moradia atual e já existe um morto-vivo registrado e habilitado trabalhando para o senhor, creio que a questão de cidadania não vai ser um problema. O problema é a caça e atividades vampíricas afins.

— Qual seria o problema?

— Fomos informados que o senhor chegou a ter três esposas simultaneamente.

— O que não é nenhum problema.

— Não era… Para transformar alguém em vampiro, de acordo com a legislação atual, é preciso do consentimento do mortal que será mordido e essa pessoa não pode ser transformada em um servo do vampiro que a transformou. Essa última parte é mais por causa da legislação trabalhista.

— Não podes estar falando sério.

— Creio que isso foi trabalhado durante as aulas do curso.

— Não devo ter dado a devida atenção à esta questão — replicou Dimitri com uma expressão confusa. — Então somos obrigados a drenar totalmente a vida das vítimas?

— Só nos países com pena de morte, o que não é o nosso caso — respondeu o rapaz rabiscando algo na prancheta.

— Diante do cenário atual faz sentido.

— Ainda temos alguns parques e reservas onde a caça é regulamentada. Os vampiros da velha guarda são frequentadores assíduos.

Kauê ficou em silêncio por alguns instantes antes de dar o resultado da sua avaliação.

— Senhor Dimitri, infelizmente o senhor não foi aprovado.

— Por que não estou surpreso?

— Mas não se preocupe. Será designado um agente de custódia para acompanhá-lo e  seu comportamento será avaliado por um período que ainda será definido, mas não se preocupe, depois disso o senhor estará livre. O senhor pode ir, tenha uma boa noite.

Dimitri deixou o prédio do sindicato dos vampiros mais irritado do que decepcionado. Ele não esperava ser aprovado de primeira, mas ser vigiado de perto frustrava totalmente os planos dele de cometer irregularidades por debaixo dos panos. E foi durante esses pensamentos criminosos que Kauê passou por Dimitri montado em sua bicicleta. O rapaz não tinha culpa, afinal é impossível para um humano entender como um vampiro se sente… A menos que…

Kauê parou em uma esquina para ver se era seguro atravessar a rua, olhou para os dois lados e não viu nenhum carro passando. Cruzou a rua e resolveu pegar um atalho pelo parque. Ele estava meio distraído quando algo passou voando e o derrubou em uma moita. Uma dor aguda de duas pontadas no pescoço deixou o rapaz em pânico, mas só por alguns segundos. Ele sentiu suas forças indo embora. Tudo ficou escuro e frio.

— Não te preocupes, te sentirás fantástico quando acordar — disse uma voz familiar ao rapaz.

Foi a última coisa que ele ouviu antes de perder os sentidos.

Contos de Segunda #91

    Horácio era um assassino da máfia. Sem a menor sombra de dúvida o pior de todos os assassinos que qualquer organização criminosa já viu. Extorquir, ameaçar, torturar, espancar eram coisas que ele fazia com maestria, ele também era ótimo com uma pistola na mão… A menos que ele precisasse fazer uma execução. Acertar uma bala em um cara com quem você está trocando tiros é uma coisa bem diferente de enfiar uma bala na nuca ou na testa de alguém que está pedindo por clemência, falando que tem família e todas essas coisas. Horácio preferia ser mais diplomático, gostava de dizer que a violência poderia ser utilizada de forma pedagógica em adultos com muito mais eficiência do que com crianças. Justamente por isso que ele recebeu uma ligação naquela segunda-feira.

    — Horácio, preciso que cuide de uma coisa pra mim — disse a voz do outro lado.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio.

    — Tem um cara novo, Giovani o nome dele, começou com a gente tem um tempo e leva jeito pras coisas. Queria que ele fizesse um serviço junto contigo. Sabe como é, ele ainda não tem manha.

    — Não sou muito bom trabalhando em equipe, chefe. Normalmente quem faz esse tipo de serviço são os caras da fila de aposentadoria, não tem ninguém disponível?

    — Esses dias foram meio complicados, Horácio…

    — Deixe que eu adivinho… Fim de semana movimentado e o pessoal pediu uma folga.

    — Vivemos em dias difíceis, meu velho.

    — Qual é o serviço?

    — O Joalheiro está com os trabalhos atrasados e me parece que ele não vai poder tirar o atraso nos próximos dias. Infelizmente não vamos poder mais esperar pra cobrar a dívida dele.

    — Considere o trabalho feito.

    Horácio pegou o carro e foi para o armazém que servia como base de operações, Giovani já estava parado na entrada esperando por ele. O jovem tinha cara de tudo, menos de criminoso, Horácio suspeitava que não era só a cara que ele não tinha.

    — Entra aí, rapaz — disse ele abrindo a porta do carro.

    — Pra onde vamos, senhor? — Questionou Giovani entrando no veículo.

    — Corta essa de “senhor”, garoto, eu não sou seu superior… E respondendo à sua pergunta hoje nós vamos falar com o Joalheiro.

— Qual é o lance com ele?

— Ele nos ajuda a limpar uma parte do nosso lucro. Normalmente ele faz tudo direitinho, mas tem um tempo que ele não tá cumprindo a parte dele, a nossa remessa de pedras e jóias tá atrasada, por isso vamos lá cobrar os juros de uma dívida que fica congelada enquanto ele estiver fazendo a parte dele.

— Então eu vou só te observar cobrando?

— Não. Eu vou observar, a cobrança é contigo.

— Comigo?

— O Joalheiro é tranquilo, costuma colaborar e quase não precisa ser ameaçado. É só chegar com jeito e tudo vai dar certo.

Alguns minutos depois os dois estavam parados na entrada da loja. Giovani respirou fundo e entrou. Um homem idoso estava do outro lado do balcão, ele atendia uma cliente que estava procurando por um anel.

— Com licença — interrompeu Giovani. — Preciso falar com o senhor, não vai demorar.

— Só um instante, rapaz, estou terminando uma venda.

— Acho que o senhor não entendeu — rebateu o rapaz aumentando a seriedade do tom. — Preciso falar com o senhor agora.

— Não costumo alterar as prioridades de atendimento, meu jovem. Se precisa falar comigo, também precisa esperar.

Giovani sacou a pistola, a moça gritou. Horácio se aproximou dela rapidamente e conduziu os passos trêmulos dela até a saída.

— Ele teve um fim de semana difícil — enganou Horácio. — Ele comprou uma aliança aqui e a namorada não quis virar noiva. Melhor voltar amanhã.

A moça concordou enquanto engolia as lágrimas pela porta.

— Ficou doido Giovani? Eu avisei que o Joalheiro é tranquilo.

— Ele não deve ter sacado o que eu vim fazer aqui. Resolvi encurtar a conversa.

— Eu ainda não sei o que você veio fazer aqui — respondeu o Joalheiro com as mãos levantadas. — Neste momento eu creio que veio me assaltar, coisa que eu não recomendo porque eu pago muito pra ter proteção.

— Baixa essa arma, garoto

— Horácio, que surpresa. Quase não o reconheci. Imagino que foi você quem trouxe esse aprendiz de cobrador.

    — Aprendiz? Me respeite, seu velho. Você não está em posição de falar desse jeito.

    — Cuidado com essa arma, Giovani — alertou Horácio. — Viemos buscar o pagamento dos juros, Joalheiro. Só isso.

    — Mas a minha dívida foi congelada, pensei que teria mais tempo.

    — O tempo acabou, coroa. Cadê a grana do chefe?

    — Ficou doido? Tá pensando que ele é um marginal qualquer? Estamos cobrando de um associado e não apontamos armas pros associados.

    — Me parece uma regra razoável — ponderou o Joalheiro.

    — Quieto! — Cortou Giovani. — Só queria terminar o serviço logo.

    — Hoje vocês não vão terminar serviço algum — disse o Joalheiro. — Ativei o alarme no minuto em que essa arma foi puxada.

    — Você o QUÊ? — gritou o rapaz.

    — Se você tivesse pelo menos se apresentado, imediatamente pensei que era um assalto.

    — Seu filho da… BAM.

    Um tiro acertou a perna do velho.

    — Agora eu sei que você é doido. Como você atira no joelho do associado?

    — Sei lá, fiquei nervoso.

    Horácio levou as mãos à cabeça, respirou fundo três vezes.

    — Pra fora! Vamos sair daqui agora — ordenou Horácio. — Pelo menos a história do assalto vai bater com o tiro.

    — Você vai me deixar aqui?

    — A polícia te leva pro hospital, Joalheiro. Lugar pra onde a gente não vai se ficar por aqui. Volto outro dia.

    Os dois capangas saíram apressados pela porta, entraram no carro e deixaram a rua poucos instantes antes da viatura da polícia chegar. Naquela hora Horácio tinha certeza que podia matar Giovani. Coisa que ele teria feito se não tivesse certeza que, de alguma forma, ele não ia conseguir assassinar aquele rapaz.

Contos de Segunda #89

    Espaço, a fronteira final. Depois de milênios se lançando ao espaço a humanidade finalmente ocupou todo o Sistema Solar, mas não foram só os membros valorosos de nossa espécie que alcançaram as estrelas. Uma grande variedade de trapaceiros, ladrões, contrabandistas e piratas proliferaram por todas as órbitas. Dentre os criminosos mais procurados poucos eram tão famosos quanto Jeannie Nitro, capitã da Combatente 69.

    Depois do assalto ao cargueiro perto de Marte, Jeannie e sua tripulação foram para a Lua. No passado apenas um satélite natural, no presente a maior metrópole do Sistema Solar e a maior concentração de escória e vilania que a humanidade já viu. Foi nesse local tão agradável que Jeannie aguardou semanas pelo contato do seu cliente, o homem que pagou uma fortuna para que ela roubasse um contêiner. Um pequeno, que tinha uma trava com senha. Normalmente esse tipo de trabalho era fácil, mas a aparição de dois cruzadores da Frota Marciana deixaram a Capitã Nitro com a pulga atrás da orelha.

    O encontro foi marcado em um dos bares mais conhecidos da área portuária da Lua. Jeannie estava acompanhada por Sheila e Dolly. Normalmente a capitã preferia ir acompanhada de Charles Chacal, seu copiloto, e Lupe Brown, sua especialista em navegação e comunicação, mas os dois tinham ficado na nave junto com Walter Grace, o engenheiro da Combatente 69. Algo não estava cheirando bem e poucas pessoas no Sistema Solar eram tão boas com uma arma na mão quanto Sheila e Dolly Adaga. As três mal foram notadas quando chegaram no bar e ocuparam uma das mesas mais afastadas.

— O contato vai chegar em dez minutos — começou a capitã. — Ele quer falar comigo em particular, então vocês vão trabalhar no nosso plano de fuga.

— Acha mesmo que as coisas vão esquentar, capitã? — Perguntou Dolly.

— Algo me diz que sim, mas vamos esperar pra ver. Já passaram nossa posição pro pessoal que ficou?

— Coordenadas transmitidas, capitã — respondeu Sheila.

— Coordenadas recebidas, capitã — disse Lupe no comunicador.

— Então saiam daqui, fiquem de olho em qualquer coisa suspeita e não arrumem confusão.

Jeannie ficou de olho no ambiente. Sentada de costas para a parede ela observava todos ao redor em busca de alguém que parecesse estar de olho nela. Foi quando um androide se aproximou e puxou uma cadeira. No lugar do rosto ele tinha uma tela e a constituição frágil indicava que ele não tinha outra função além daquela.

— Saudações, Jeannie Nitro.

— Você é o meu contato?

— Negativo. Assim que a segurança da conversa for garantida iniciarei a transmissão. Por favor, coloque estes fones de ouvido — o androide estendeu a mão oferecendo duas peças gêmeas para a capitã.

— O microfone foi adaptado para embaralhar a sua voz, nenhum dos presentes entenderá uma palavra do que será dito por você.

A capitã obedeceu. Posicionou os fones sobre as orelhas e observou quando a tela que servia de rosto para o androide começou a mostrar um homem parcialmente encoberto pelas sombras.

— Fico feliz de saber que o assalto deu certo, capitã.

— Eu poderia estar feliz assim, mas depois de esperar quase um mês por um mísero contato o meu humor não está dos melhores.

— Precisava ter certeza de que sua nave não tinha sido rastreada até aí.

— Demorou um mês pra ter certeza?

— Não. Demorou um mês para que os agentes da Frota Terrestre baixassem a guarda. Sua nave não foi rastreada, mas a Lua tem olhos e ouvidos demais. Não demorou nem duas semanas para que soubessem que estava aí, mas eles precisavam saber o que aconteceu com o item roubado, por isso esperaram.

— Só me faltava essa…

— A operação de cerco está sendo desmobilizada hoje, é justamente por isso que os agentes estão indo aí te encontrar. É a última chance deles antes de serem realocados para outra operação.

— Porque não me avisou?

— Se você soubesse já teria tentado fugir daqui. Eu precisava dar um jeito de chamar a atenção deles e nada melhor do que Jeannie Nitro em um bar. Sozinha, sem o menor sinal da sua tripulação ou da sua famigerada nave. As naves de patrulha partiram assim que foi decidido que apenas os agentes de campo seriam suficientes.

— Então você preparou a fuga da minha nave, mas pra isso me usou de isca?

— Não se coloque nessa posição indigna, Nitro. Tenho certeza que a última coisa que os agentes de campo vão conseguir fazer é te prender.

— Quanto tempo eu tenho?

O homem olhou para o relógio.

— Dois minutos.

— Pra onde eu devo ir depois que eu sair daqui?

— Marte. O androide vai fornecer as coordenadas.

O autômato entregou um cartão de dados.

— Seu tempo está acabando, Jeannie. Boa sorte, nos vemos em Marte.

A capitã sacou a pistola. Um disparo atingiu o torso e outro atingiu a cabeça do androide. Várias armas foram sacadas e destravadas. Todos os olhos estavam em Jeannie Nitro e na carcaça fumegante do pobre mensageiro mecânico, mas por poucos segundos. Cargas explosivas cuidadosamente posicionadas detonaram uma das paredes do bar. Linhas vermelhas de luz cruzaram a poeira da explosão poucos instantes antes de uma dúzia de operativos com rifles de assalto. Um dentre eles levantou a voz e ordenou:

— Todos no chão! Jeannie Nitro, jogue suas armas no chão e saia com as mãos para cima.

Jeannie paralisou por um segundo, a situação estava se complicando mais rápido do que esperava. Como se não bastasse precisar fugir da Lua ainda precisaria chegar à superfície de Marte. O som de um disparo cortou os pensamentos da pirata. Um dos clientes do bar foi alvejado, um segundo depois os demais abriram fogo. Jeannie virou a mesa e se jogou por trás dela. Tiros zuniam por todos os lados, mas nenhum atingiu a mesa, aparentemente ela ainda não tinha sido avistada pelos agentes.

— Capitã? — Chamou Dolly pelo comunicador.

— Na escuta.

— Capitã, não consigo entender — respondeu Sheila. — Eles devem estar interferindo… Estamos atrás do balcão, identificamos uma rota segura, mas a senhora precisa vir pra cá.

O balcão ficava do outro lado do salão. Ela só precisava correr. A pirata se levantou olhou para o objetivo e saiu correndo. Disparou algumas vezes contra os agentes na esperança de atingir alguns deles. As irmãs Adaga demoraram um pouco para perceber o que sua capitã estavam fazendo, mas assim que perceberam o que estava acontecendo descarregaram suas armas nos soldados do governo.

— Capitã, precisamos ir para o banheiro — disse Dolly disparando uma rajada contra os inimigos

— Banheiro?

— Tua voz tá embaralhada, Capitã — respondeu Sheila quando tirou o pino da granada de fumaça e atirou contra os agentes.

Jeannie finalmente lembrou dos fones e os arrancou das orelhas.

— O que tem o banheiro?

— Vamos abrir a saída lá — respondeu Dolly. — Vão na frente, eu dou cobertura.

Sheila e Jeannie saíram correndo na direção do banheiro, Dolly chegou logo depois.

— E agora? — Perguntou a Capitã.

— Cubram os ouvidos  — respondeu Sheila antes de acionar o detonador.

Uma das paredes do banheiro explodiu, revelando o beco que ficava por trás do bar. As três saíram correndo pela passagem recém aberta

— Charles? — Perguntou Dolly.

— Na escuta.

— Vem logo pegar a gente — ela fez uma pausa por causa de alguma outra explosão dentro do bar. — Saímos do bar, você vai precisar corrigir nossa localização.

— Assim que estiverem paradas transmitam as coordenadas novas — interrompeu Lupe. — Faremos a correção da localização pelo sinal de emergência da Capitã.

— Entendido — respondeu Jeannie acionando o sinal de emergência do comunicador.

Elas saíram do beco na direção da rua principal, mas os soldados estavam por todo lugar. Veículos leves sobrevoavam os prédios anunciando o nome da capitã nos alto falantes. As três correram pelo beco, entraram pela porta de trás de uma loja  e saíram pela vitrine. Correram pela rua, subiram em uma passarela e se jogaram sobre um telhado próximo.

— Charles, cadê você? — Disse Nitro.

— Trinta segundos, Capitã. Somos grandes demais pra manobrar rápido no meio desses prédios.

— Inimigo chegando, Capitã — alertou Sheila.

Atiradores estavam nos telhados próximos. Os veículos leves disparavam sem precisão suas armas automáticas. Dolly deu um tiro certeiro na cabeça de um dos pilotos, o veículo descontrolado caiu bem perto delas, erguendo uma cortina de fumaça escura. Sheila foi atingida no ombro e outro tiro pegou de raspão na testa, Dolly estava mancando e aparentemente a munição estava no fim. Jeannie descarregou o último pente em um agente que estava descendo por um cabo pela fachada do prédio ao lado.

— Capitã? — Perguntou Walter. — Estamos em posição, vou acionar a arma magnética.

— Rápido, Walt!

As três mulheres foram puxadas do telhado no instante em que a Combatente 69 fazia um rasante sobre o edifício. O fogo choveu sobre a nave, mas por poucos instantes. Segundos depois ela já estava fora do setor orbital da Lua.

O comunicador interno da nave tocou, era Lupe.

— Qual a nossa próxima parada, Capitã?

— Marte — respondeu a capitã. — Próxima parada, Marte

Contos de Segunda #88

— Puxe uma cadeira, Carmim, a história é meio longa — foi o que o chefe de polícia disse quando eu abri a porta da sala.

Era uma segunda-feira chuvosa de um dos invernos mais gelados dos últimos anos. Eu mal tinha terminado de almoçar quando recebi uma ligação do departamento de polícia. Não quiseram me adiantar nada pelo telefone, mas pediram para aparecer na central assim que possível, de preferência imediatamente. O cheiro ruim chegou às minhas narinas bem antes de eu sair do meu escritório e não melhorou nada depois da minha conversa com o Chefe O’Hara.

— Não estou para histórias longas, Chefe.

— Muito ocupado?

— Bem menos do que eu gostaria, mas algo me diz que o senhor me chamou aqui porque arrumou um problema que está difícil de resolver. Um problema que não é meu, mas vai ser, assim como todos os prejuízos que a resolução desse problema vai trazer.

— Deixe de ser chorão, Carmim — desdenhou o chefe torcendo o rosto em uma careta. — Você sempre foi muito bem remunerado pelos serviços prestados ao Departamento.

— Além de todas as despesas médicas. Da última vez eu fui baleado duas vezes, uma delas por um dos seus homens.

— Nem sempre é possível saber quais dos policiais têm ligação com o crime, detetive, e suas roupas vermelhas também não te ajudam quando alguém precisa decidir em quem atirar.

— Melhor cortar essa discussão e partir logo para o assunto, Chefe.

— Pois bem — disse ele se ajeitando na cadeira. — Imagino que esteja ciente do desaparecimento de algumas pessoas nos últimos tempos.

— Pessoas desaparecem, Chefe. Acontece em todo lugar.

— Já ouviu falar de William Doyle?

— Magnata da indústria têxtil.

— Desaparecido há cinco semanas — disse O’Hara colocando a foto do desaparecido sobre a mesa. — Lembra de Dominique Loup?

— A cantora? Ela estava sendo vítima de chantagem e me contratou para descobrir quem era o chantagista.

— Três semanas atrás ela cantou na rádio e errou o caminho quando voltava para casa — mais uma foto sobre a mesa. — Não foi vista desde então. Imagino que conheça Klaus Gleizer.

— Não costumo me relacionar com banqueiros, mas sei bem quem é.

— Desapareceu na semana passada — outra foto sobre a mesa.

— Pensei que os ricaços só desapareciam quando sequestrados.

— Não é o caso, Carmim. Não houve nenhum contato posterior ao desaparecimento.

— A polícia sabe onde eles desapareceram?

— Não. Os três circulavam por áreas bem distintas da cidade e não encontramos nenhuma ligação entre eles.

— Alguma informação útil das famílias?

— Doyle é viúvo e nunca teve filhos, Dominique aparentemente cortou ligações com a família quando decidiu seguir a carreira artística, quem nos procurou foi o seu empresário.

— E Klaus Gleizer?

— A família toda vive na Europa e a diretoria do banco optou por manter o desaparecimento em segredo por enquanto. Eles imaginam que tudo se resolverá em poucos dias.

— Alguma notícia de outros desaparecimentos em circunstâncias similares?

— Até agora não.

— Infelizmente não vou poder cobrar o valor de sempre. Esse caso tem cara de que vai dar muito trabalho ou muita dor de cabeça.

— Considere um aumento de vinte por cento. Estou sendo pressionado por todos os lados por causa desses desaparecimentos.

— Algum dos seus vai me auxiliar?

— Me aponte um culpado e vai ter todo o auxílio que precisar.

Provavelmente algum auxílio médico.

— Darei notícias assim que possível — me levantei ainda no meio da frase. — Se importa se eu ficar com as fotos?

— De forma alguma. Pedi para colocarem algumas informações úteis no verso. Não posso fornecer nossos arquivos, mas não vou te deixar às cegas.

— Não esperava menos do senhor.

Na verdade eu esperava bem mais, sempre se espera bem mais da polícia.

A volta para o escritório foi rápida. As informações dadas pelo Chefe O’Hara estavam se batendo sem rumo dentro do meu cérebro e eu precisava começar a ligar os pontos, mas não antes de dar alguns telefonemas. Uma busca minuciosa na casa dos desaparecidos e as coisas começariam a fazer sentido. Entrei no prédio, subi alguns lances de escada e parei diante da porta entreaberta. Saquei a pistola e tentei ver algo pela brecha da porta. Não pude ver nada, mas o perfume que eu senti me fez guardar a arma, mas não me deixou mais tranquilo. Abri a porta devagar e encarei a mulher que me esperava sentada na minha cadeira com os pés sobre a mesa.

— Precisa de trancas melhores, Carmim.

— Trancas boas não me dizem quando alguém arromba meu escritório, Angela. Pensei que não gostasse de vir aqui, você costuma ligar.

Angela Bevoir era um dos maiores problemas da minha vida e também uma boa cliente. Normalmente o pagamento compensava a dor de cabeça, mas só a dor de cabeça.

— Não gosto. A localização é péssima, a limpeza é no mínimo questionável e os degraus são muito altos, mas o assunto é urgente.

— E qual seria?

— Ontem eu quase fui sequestrada — disse ela acendendo um cigarro. — Quero saber o porquê. Pode me ajudar?

— Depende.

— Do quê?

— Do quanto você sabe sobre a nova moda entre os ricaços da cidade.

— E qual seria?

— Desaparecer.

 

Contos de Segunda #87

Hoje vamos finalmente concluir a primeira história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #80. Pra saber todos os detalhes dessa história é só dar uma passada em Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02,  Contos de Segunda #62 e Contos de Segunda #77.

Segunda-feira estava no chão. Aparentemente ela tinha passado um tempo desacordada.

“Eu apaguei?”, pensou Segunda. “Por que será que eu apaguei? Não sei bem… Eu lembro que eu estava junto com as meninas… A gente tava fazendo alguma coisa juntas… Acho que eu tava grávida… É, eu lembro de estar grávida, mas depois não tava mais… E tinha dois meninos jogando damas… Acho que eles me chamaram pra jogar com eles e me chamaram de…”

— AIMEUDEUSOQUEESSEMENINOFALOU? — Berrou Segunda-feira quando se recuperou do desmaio. A Dama rapidamente se colocou de pé e grudou as costas na parede. Olhou ao redor e percebeu que Quarta-feira também estava desmaiada, as outras irmãs só estavam em choque.

— Ele falou “Oi, mãe. Quer jogar com a gente?” — respondeu o mais velho.

— Se a senhora não gosta de damas a gente pode fazer outra coisa — disse o mais novo.

— A senhora tá meio pálida — observou o mais velho. — A senhora tá passando mal?

— Aquela moça desmaiou também, Domingo. Acho que ela também tá passando mal.

— Domingo? — Interrompeu Terça-feira.

— É. Meu nome é Domingo — disse o garoto fungando ao fim da frase e arrumando os óculos. — Não lembro de ter nascido de óculos.

— Deve ter aparecido porque a gente acabou de descobrir que nossa mãe usa óculos.

— Mas não apareceu nada na sua cara, Sábado.

— Verdade. Vai ver que você puxou mais a ela.

— Sábado? — Indagou Quinta-feira tentando sem sucesso reanimar Quarta..

— Isso. E vocês quem são? A gente só conhece minha mãe — respondeu sábado.

— Por motivos óbvios — completou Domingo.

— Somos as outras Damas da Semana — respondeu Sexta. — A desmaiada é Quarta, essa com a maquiagem pesada é Quinta, a vestida de hippie é Terça e eu sou Sexta, a melhor de todas.

— Muito prazer… Vocês são tias da gente então? — Perguntou Sábado.

— Sim — respondeu Terça abrindo um sorriso. — Venham aqui me dar um abraço.

Os garotos sorriram e obedeceram. Depois de alguns segundos nos braços da tia, Domingo questionou.

— Por que minha mãe não pediu pra abraçar a gente?

— Parir é uma experiência meio traumática – amenizou Quinta. — E vocês vão ver que a mãe de vocês não tem exatamente todos os parafusos no lugar, mas ainda é uma pessoa fantástica.

Quinta estava certa, aquilo tudo estava sendo muito traumático. Quando ela pensou em ter filhos, na verdade em ter um filho, esperava terminar todo o processo mágicoritualistico com um bebê nos braços e não com dois meninos já meio crescidos que mal nasceram e já sabiam jogar damas. Dois seres plenamente conscientes de quem eram e de quem ela era. Ela respirou fundo, contou até três e finalmente falou.

— Meninas podem nos dar um instante a sós?

As outras Damas saíram carregando o corpo ainda inerte de Quarta-feira para a outra sala. Segunda se abaixou para ficar na altura dos filhos. Os olhos mal podiam acreditar no que estavam vendo. Depois de alguns segundos eles mal podiam enxergar alguma coisa, estavam cheios de lágrimas. Antes que os olhos transbordassem Segunda abraçou seus dois meninos.

— Eu queria tanto vocês aqui — disse ela no começo de um longo abraço.

— Mãe… Acho que já dá pra soltar a gente — disse Sábado.

— A gente tem que ir pra casa… Eu acho — completou Domingo. — A gente vai morar aqui?  O que a gente vai fazer agora?

Segunda soltou os dois. Ela realmente não tinha pensado ainda nessa parte do plano.

— Bem — começou ela. — Acho que primeiro precisamos falar com a avó de vocês e torcer pra ela não transformar a gente em poeira cósmica.

A campainha tocou. A porta abriu e fechou imediatamente, logo depois alguém começou a bater na porta e Sexta apareceu correndo.

— A Mãe-de-Todas tá aqui — disse ela.

— Ah, não — suspirou Segunda.

— Quem é essa, mãe? — Perguntou Sábado.

— Deve ser a Vó-da-Gente — respondeu Domingo.

— Ah, tá.

— O que a gente vai fazer? — Perguntou Sexta.

— Não tem muito o que fazer. Manda a coroa entrar antes que ela derrube a porta.

A Dama da Lua entrou despejando uma quantidade cavalar de revolta sobre suas filhas. A que mais sofreu foi Terça que tinha fechado a porta na cara da mãe, Quarta acabou desmaiando de novo e Quinta tentou ganhar tempo com uma saudação exagerada.

— … Meu assunto não é com vocês — rosnou ela entrando na sala. — Eu quero falar com Segunda, aconteceu alguma coisa aqui e tenho certeza que foi culpa… — A Dama ancestral congelou ao ver as duas crianças. O olhar ia dos meninos para Segunda e de volta para os meninos.

— Oi, vó — disse Sábado impaciente com o silêncio.

— A gente pode chamar ela de vó? — Duvidou Domingo.

— Acho que sim — disse Segunda. — Saudações, Dama da Lua, fonte de tudo que é bom e mãe para todas nós.

— Saudações, Dama da Segunda-feira. Poderia me explicar quem são essas crianças e o que diabos está acontecendo aqui?

— Esses dois são meus filhos, Sábado e Domingo, acabaram de nascer.

— Filhos? São seus… Filhos?

— Exatamente — respondeu Segunda um pouco mais confiante.

— Eu ordeno que encontre um cavaleiro, coloco todas as tuas irmãs à disposição pra te ajudar e apareces com filhos? Como se um não fosse afronta suficiente, tu apareces com dois? DOIS!

— Meninos, por que não vão pedir pra tia Terça mostrar como ela vê o futuro nas jujubas vermelhas? Eu preciso conversar com a avó de vocês. É coisa rápida.

Os dois obedeceram.

— Quer sentar, Mãe?

— Estou nervosa demais para tomar um assento.

— Se não se incomoda eu vou me jogar nessa poltrona aqui, acabei de parir duas entidades cósmicas.

— Perdeu o juízo, Dama? Ficou louca de vez?

— Não vejo como gerar novas vidas pode ser sinal de insanidade.

— Estavas prestes a perder o controle de teus poderes, Segunda-feira. Precisavas de uma forma de esgotar tuas energias, de enfraquecer. Não só correste o risco de causar danos cósmicos irreversíveis, mas também de gerar duas entidades defeituosas, insanas e descontroladas. Uma Dama louca é algo reversível, mas uma coisa que já nasceu insana só tem a destruição como destino.

— Não me fale de Damas loucas, Mãe. Sabemos bem que nem todas podem ser controladas ou curadas. Não podem ou a senhora não quer que elas sejam.

— Não me provoque, Segunda-feira. Estou farta da tua insubordinação. Quem te ajudou?

— Não sou caboeta, Dama da Lua. Descubra a senhora.

— Não me provoque. Teu projeto de maternidade está por um fio. Com um gesto eu posso evaporar essas duas crianças.

— Não me provoque a senhora. Até onde me consta, meu santuário ainda estará ativo por mais algumas horas e eu posso estar enfraquecida pelo parto, mas eu ainda sou a dona da segunda-feira. Experimenta tocar em um táquion daqueles meninos pra ver o que acontece.

— Então é isso? Minha filha ameaça por causa dos crimes que ela mesma cometeu?

— Se encontrar um meio de me livrar da insanidade sem o uso de um mortal é um crime, Mãe, então pode me considerar culpada, mas agora eu posso te dar dois bons motivos pra me deixar seguir com a minha vida.

— Gerar filhos é um convite para o sofrimento, Segunda-feira.

— Não acontece com todas, Mãe. Não acontece sempre.

— Aconteceu comigo, Dama. A dor pode enlouquecer muito mais do que qualquer outra coisa.

— Não pense que eu não sei.

— E mesmo assim quer levar isso adiante?

— Não tenho escolha. Não lembro de casais querendo adotar entidades do tempo.

— Sabes que não vai ser fácil.

— Não estou sozinha, Mãe. Tenho minhas irmãs pra me ajudar.

A Dama da Lua deu um sorriso. Abriu os braços e abraçou a filha.

— Obrigado, Mãe.

— Me apresenta teus filhos?

— Eles vão ter que se apresentar sozinhos, faz menos de meia hora que eu conheço os dois.

Contos de Segunda #86

Moacir estava de mau humor, não que isso fosse novidade. Ele deixava o mau humor de todas as segundas ao lado da carteira ou no bolso da calça para não correr o risco de esquecer. A diferença naquela segunda em especial era justamente o fato do mau humor ter um motivo, coisa bem rara atualmente. Moacir estava com um humor péssimo por estar com a sensação de que não tinha mais tempo para nada.

Na semana passada Moacir comprou um livro novo e um jogo de computador que estava em promoção, descobriu que tinha saído a temporada nova da série que ele acompanha e que rolou a estreia de mais duas séries novas que ele estava doido para ver, apareceram os amigos com a história de fazer encontros periódicos de jogatina offline e, além disso tudo, ainda estava chovendo todo dia.

Em todos os dias da semana anterior Moacir saiu de casa quebrando a cabeça para tentar achar uma forma de como otimizar o tempo. Tentou almoçar perto para ter mais tempo no horário do almoço, mas tudo que ele conseguiu foi encontrar com os colegas de trabalho que almoçavam perto e formavam uma fila que mais parecia a fila do show de um popstar adolescente. Experimentou pedir uma marmita da tia do almoço, só para descobrir que a tia do almoço tinha uma média de atraso de quarenta minutos em dias de chuva. Tentou levar a marmita de casa e acabou descobrindo que os outros marmiteiros do trabalho tinham um senso de comunidade tão forte que eles paravam para puxar papo mesmo nos dias em que ele não levava marmita, principalmente na hora do almoço.

Já que a hora do almoço se tornou inviável, ele decidiu diminuir a hora do almoço para tentar sair mais cedo. Teria dado certo se ele não tivesse feito isso justamente nos dias em que precisou fazer hora extra. Tentou acordar mais cedo, mas tudo que conseguiu foi descobrir como odiava o som do despertador antes do sol nascer. Ele teria conseguido dormir mais tarde se tivesse tentado isso antes de tentar acordar cedo, mas o sono dele estava tão doido que ele passou o resto da semana só pensando em dormir. O fim de semana chegou e tudo teria dado certo se a internet não estivesse com problemas, impedindo Moacir de baixar o jogo novo e de assistir às séries que queria.

E eis que chegou a segunda-feira. O coração de Moacir estava borbulhando com o ódio mais puro e profundo que uma pessoa poderia sentir. Ele sentou diante do computador com a plena certeza de que poderia matar alguém. Ligou a máquina e esperou aparecer a tela do login. No lugar dela apareceu uma tela de erro. Moacir juntou as mãos no rosto e se perguntou o porquê de tamanho sofrimento. Antes de obter uma resposta satisfatória o telefone tocou.

— Moacir, verifica aí teu e-mail que parece que o relatório da semana passada acabou voltando — disse o chefe. — A gente vai precisar rever.

Silêncio.

— Moacir?

Silêncio.

— Alô?

Um som alto de algo quebrando veio como resposta.

— É… Chefe?

— O que foi isso, Moacir?

— Não vou poder trabalhar no relatório.

— Por que, Moacir?

— Meu monitor acaba de quebrar.

— Teu monitor quebrou?

— É. Eu coloquei a senha errada e a tela explodiu.

— Aconteceu alguma coisa contigo?

— Só a minha mão que tá meio machucada, mas nada que um pouco de gelo não resolva.

Contos de Segunda #85

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia útil da semana. O último exemplo dessa máxima foi o nascimento das suas duas filhas gêmeas, Olívia e Alice, em meados de agosto do ano passado. As duas não só nasceram antes do tempo como também conseguiram a proeza de enganar todos os exames de imagem feitos ao longo da gestação. Ninguém estava esperando duas meninas.

Em uma certa segunda-feira, Aluísio estava em casa com suas filhas. Ele estava de férias e passava a maior parte do tempo com as meninas. Para aqueles trinta dias Aluísio tinha um plano: ensinar as duas a falar “papai”. Na prática ele não precisava ensinar, já que, segundo relatos de sua esposa, as duas já tinham falado “papai” em algum momento ao ver alguma foto dele. Aparentemente uma imagem estática fazia muito mais efeito, então ele bolou um plano.

Assim como muitos pais, Aluísio apelava em vários momentos para coisas do calibre da Galinha Pintadinha. Obviamente ele detestava a ideia de usar um truque tão rasteiro em suas próprias crianças, mas muitas vezes as medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Mais uma vez a Galinha seria usada, mas para um propósito ligeiramente mais nobre.

Depois de algumas milhares de vezes, Aluísio tinha certeza que aqueles malditos vídeos da galinha estavam gravados no cérebro das duas meninas. Exatamente por isso ele gastou algumas horas com programas de edição para adulterar todos os vídeos, inserindo algumas fotos suas em locais diversos. Ao ver o pai dentro dos vídeos, Alice e Olivia ficariam tão surpresas que diriam um “papai” bem sonoro. Pelo menos era assim que acontecia na cabeça de Aluísio toda vez que o plano era repassado.

Ele colocou o primeiro vídeo. O ponto em que ele aparecia estava quase chegando quando o celular tocou. Era Amélia, sua esposa, querendo saber se estava tudo bem. A ligação demorou tempo suficiente para a primeira aparição de Aluísio no clipe da Galinha passasse. Se as meninas falaram, ele não ouviu, mas de certa forma o plano tinha dado certo. As duas estavam olhando para ele e apontando para a tela da televisão. O fracasso momentâneo foi eclipsado pelo aparente progresso. Ele ainda tinha mais ou menos vinte chances antes de precisar repetir os vídeos. Infelizmente nenhuma delas teve muito efeito. Depois do celular foi o interfone, a fralda cheia de cocô, o banho, a hora do lanche, do almoço e da soneca, dele e das meninas. Também teve a ida à padaria e ao parque. Já era quase noite quando Aluísio conseguiu outra chance, foi quando o sono bateu e ele apagou no sofá, exatos três minutos antes da esposa chegar a tempo de ver a foto do marido aparecer do lado do galináceo azul e ouvir as duas filhas apontando para a tela dizendo em uníssono:

“Papai”

Page 1 of 10

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén