Cachorros de Bikini

Coisas bestas da vida tratadas com o cuidado que elas merecem

Contos de Segunda #83

    Dimitri estava acordado. Ele estava acordado fazia meses. Dormir por quatrocentos anos costuma fazer isso com qualquer monstro. Dimitri era um vampiro e via pouquíssima graça em ser um vampiro, principalmente agora que ele vivia em uma cripta debaixo de uma igreja e sua única companhia era seu servo morto-vivo, Mikhail.

    — Tenho fome, Mikhail — disse o velho vampiro.

    O pobre morto vivo estava sempre atento a qualquer palavra dita pelo mestre, desatenção não era algo muito saudável quando se trabalhava para Dimitri. Por isso Mikhail não demorou para aparecer.

    — Não temos sangue, mestre — respondeu Mikhail. — Hoje é segunda, a remessa de sangue só chega na quarta.

    — Esses cães do sindicato querem me matar de fome, isso sim — disse Dimitri irritado. — Seis litros por semana e sem direito a caçar meu próprio alimento.

    — Sem caça até completar o curso de reciclagem, mestre.

    — Eu que devia ensinar essas crianças como um vampiro de verdade deve agir. Acredita que meu professor nasceu no século vinte? Um pivete que não tem nem cem anos quer me dizer como devo agir.

    — Sinto muito, mestre, mas são as regras. Sem elas os vampiros não teriam chegado ao ano dois mil.

    — Sim, sim, já ouvi essa baboseira algumas centenas de vezes.

    Dimitri se calou por um instante. A noite avançava e ele estava com fome, nada que ele não pudesse suportar. Esperar até a chegada da nova remessa de sangue não era o verdadeiro problema, afinal ele poderia passar um mês sem alimento e sofreria muito pouco por isso. Ele tinha fome da caça. Fome de beber sangue cheio da adrenalina de uma vítima em pânico. Nada de bolsas cuidadosamente extraviadas dos bancos de sangue da cidade.

    — Preciso sair, Mikhail — disse Dimitri de repente. — Volto logo.

    — Por favor, mestre, não quebre nenhuma lei — disse o morto-vivo aflito. — Eu gosto desse emprego — na verdade não gostava tanto, mas mortos-vivos tem uma recolocação meio complicada no mercado de trabalho.

    Dimitri saiu da igreja transformado em morcego. Ele só precisava de um lugar alto para observar a cidade. Identificaria um local pouco movimentado, uma vítima, atacaria e carregaria o corpo para a cripta. Mikhail daria um jeito no corpo, ele era bom nisso. Não demorou para chegar ao alto de um prédio. De lá Dimitri observava a cidade, ouvia atentamente ao rugido da urbe. Misturadas aos sons dos carros estavam as batidas dos corações de diversos seres. Humanos, cães, ratos, pombos e gatos, todos eles chegavam aos ouvidos cuidadosos do vampiro, mas uma certa batida solitária chamou a sua atenção. Imediatamente assumiu a forma de morcego e desceu para o nível da rua, a batida daquele coração guiava suas asas e em poucos minutos ele estava de volta à forma humana. Ele parou em uma esquina com a luz do poste quebrada, no fim da rua era possível ver uma moça se aproximando. Ela andava rápido, mas não parecia muito preocupada. Ao passar pela esquina foi envolvida pela aura do vampiro. A mente da moça ficou nebulosa, como se estivesse sonhando.

    — Não se preocupe, minha cara. — Disse Dimitri de forma sedutora. — Vou terminar antes que perceba.

    — Tô de boa, coroa — disse ela extremamente relaxada. — Essa brisa que bateu agora me deixou sossegada.

    Dimitri estranhou, não lembrava de uma calma tão grande nas suas vítimas anteriores. Ele se aproximou e envolveu a cintura dela com o braço.

    — Qual foi, coroa? — Disse ela afastando o vampiro. — Que negócio é esse de se chegar assim? Nem puxou conversa, nem perguntou meu nome e já quer me agarrar?

    Dimitri paralisou com a reação da moça. De repente se sentiu extremamente desconcertado.

    — Queira me perdoar, senhorita. Eu não… Tive a intenção de ofendê-la.

    — Relaxa, é só não fazer de novo que fica tudo certo — disse a moça tentando organizar as ideias na cabeça. — Me diz aí. Tá fazendo o que nessa rua deserta nessa hora da noite?

    — Estou procurando comida.

    — Cara, sério? Nunca vi um mendigo vestido desse jeito.

    — Oh, não. Não sou um mendigo. Sou um… Caçador.

    — Uau! Que selvagem. Tá caçando o quê, coroa?

    — Nesse exato momento estou te caçando.

    — Ah… Tá. Você não tá falando sobre envolvimento carnal, né?

    — Não. Eu estou falando de te morder e beber o seu sangue.

    — Ah, não, cara. Você tá nessa? — Reagiu ela decepcionada. — Você tá nessa de beber sangue? Pensei que vocês tivessem sindicato e tal. Você é um daqueles ilegais?

    — Eu… Creio que sim.

    — Então vai pra próxima esquina, meu velho. Tá vendo isso aqui? — Disse ela apontando para uma tatuagem de um crucifixo no pescoço. — Isso quer dizer que eu vou te dar uma indigestão daquelas. Se quiser pode aparecer pra tomar um café qualquer dia desses, mas sangue não rola. Boa noite.

    Dimitri não conseguiu reagir. Ele ficou alguns minutos parado naquela esquina refletindo sobre a vida. Ele iria para casa assim que pensasse numa forma de contar o ocorrido para Mikhail.

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Coração de Fã

    Na semana passada estava eu falando com uma amiga. Em pauta estava um grande evento nerd que aconteceu esses dias no Centro de Convenções de Pernambuco. A partir de certo momento da conversa o tema mudou um pouco, começamos a falar dos problemas de ter um “coração nerd” e de como a racionalidade nem sempre entra na equação quando o assunto é tomar uma decisão que envolve algo que nós gostamos. Desde então fiquei matutando sobre esse assunto e decidi expandir um pouco mais esse conceito. É por isso que hoje eu não vou falar do “coração nerd”, afinal esse termo é muito restritivo. No final as pessoas anerdalhadas só se diferem dos outros seres humanos por causa de suas paixões por certas coisas. Hoje vou falar do coração de fã.

    Por definição o fã é uma pessoa que nutre uma grande admiração por algo ou alguém. O termo é derivado de “fanático” e é utilizado mesmo quando não existe de fato um fanatismo. Essas pessoas possuem um amor irrestrito pelos alvos de sua admiração e por elas sofrem, riem, choram e brigam (ah, como brigam). O fã é aquele tipo de pessoa que vai achar um absurdo o fato de você nunca ter ouvido falar daquilo que ele gosta, lido aquela série de 513.614 livros e visto todos os filmes de uma certa franquia. Obviamente depois disso ele vai encaixar coisa do tipo “tu precisa ver”, “tem todas as temporadas no Netflix” ou “eu te empresto se tu quiser” e “eu trago pra tu jogar”.

    O fã é o tipo de pessoa que se sente no dever de espalhar aquilo que ele gosta pelo mundo. Porque ser fã sozinho não tem graça e é por isso que os fãs costumam ser extremamente sociáveis com outros fãs, mesmo quando sua capacidade (ou vontade) de socializar é quase nula no contexto normal da vida cotidiana. Isso é potencializado ainda mais quando o fã em questão gosta de algo que pertence a um nicho muito específico, o tipo de coisa que a maioria dos seus amigos não gosta ou gosta de forma muito moderada, que seu pai não faz a menor ideia do que é e que, em alguns momentos, é também um motivo para se envergonhar. Afinal sempre rola um “isso é coisa de tabacudo virjão”,  “isso não é coisa pra mulherzinha?” ou o clássico “isso é negócio de criança” quando você tem certos gostos.

Mas nada difere tanto o fã do transeunte do que o coração.

O coração do fã é, acima de tudo, o maior inimigo das decisões racionais. Todo mundo sabe que as decisões tomadas com base na emoção costumam ser um pouco inconsequentes. Dormir em horários absurdos, encarar filas enormes, correr alguns riscos, prejudicar o orçamento, estourar o cartão, faltar àquela aula da faculdade e até mesmo escapulir do trabalho são coisas que, no mínimo, todo fã já cogitou fazer e pelo menos uma delas já foi feita. Até porque o fã é uma pessoa que faz sacrifícios, seja sacrificando seu tempo, seu dinheiro, seu conforto e até sua reputação. Para o fã muitas coisas são inevitáveis. Comprar aquele livro, aquela HQ, gastar dezenas de horas com aquele jogo ou na maratona daquela série, ver pela milionésima vez aquele filme ou infartar quando o time do coração joga não é uma opção, é inevitável. Pode demorar para acontecer, mas acaba acontecendo. É quase um comportamento compulsivo, algo puramente movido pela emoção. É a tradução literal do que é ser fã.

Eu sou um fã. Tomo decisões puramente emocionais, passo horas discutindo sobre coisas que não mudam em nada a minha vida, indico coisas pros outros, gasto uma parte do meu dinheiro com as minhas paixões e uma parte muito maior do meu tempo com essas mesmas paixões. Cresci numa família de fãs e é provável que, se eu chegar a formar uma família, ela seja uma família de fãs. Fui ensinado a gostar das coisas de forma saudável, mas nem por isso gostar menos. Já fui, e sou, diminuído e hostilizado por causa das coisas que eu gosto, as mesmas coisas que ajudaram a criar algumas das maiores amizades que eu tenho hoje. Sou um fã, não é por opção, é inevitável.

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Temporada 2017 de Feriadões

    No longínquo ano de 2014 eu estava ensaiando para o que viria a ser o Cachorros de Bikini. Justamente naquele ano ocorreu uma coisa bastante curiosa: praticamente todos os feriados caíram em finais de semana. Inspirado por isso eu fiz um texto que nunca pude usar pelo simples fato dele já ter nascido datado. Eis que olho para o calendário do ano da Graça de Nosso Senhor de 2017 e vejo que esse ano teremos um bom número de possíveis feriados e agora que passamos do carnaval, a temporada de feriadões desse ano já pode começar.

2017 vai ter o primeiro semestre com uma sucessão de feriados daquelas que deixa todo mundo preguiçoso. Teremos o feriado da Semana Santa e na semana seguinte teremos o Dia de Tiradentes na sexta, apenas dez dias antes do Dia do Trabalhador, que vai cair em uma segunda. Já no segundo semestre temos 7 de Setembro, 12 de Outubro e 2 de Novembro que caem em dias de quinta. Podendo ser convertidos em feriadões, dependendo das possibilidades e das situações trabalhistas e/ou acadêmicas de cada um, evidentemente. O Dia de Natal vai cair em uma segunda e o último dia do ano vai ser um domingo.

A parte ruim disso tudo é que todo mundo vai ficar mal acostumado, principalmente porque em 2018 não vai ser muito diferente, e quando chegar 2019 vai rolar aquela escassez bonita de feriado e a gente vai ter um agosto de 300 dias, a menos que você more em uma cidade que tem feriado em agosto. Se esse for o seu caso, mude essa sensação pra um mês em que a sua cidade não tem nenhum feriado e multiplique por dez.

Saber que, pelo menos por enquanto, o calendário vai ser minimamente gentil conosco me deixa bem aliviado. Alguns dias de folga pra quebrar a rotina e quem sabe até fazer alguma coisa diferente. Ou simplesmente algum dia em que você não é necessariamente obrigado a sair de casa e pode maratonar alguma série no Netflix ou falecer entre travesseiros e lençóis por um dia inteiro. A melhor parte disso é que 2017 tá passando tão rápido que vai parecer mais que tem feriado toda semana.

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Qual o Seu Tipo de Pessoa?

Ontem estava eu fazendo meu cadastro para poder baixar um conteúdo gratuito de uma certa loja. Em dado momento fui eu preencher aquelas informações que eles colocam na nota fiscal. O primeiro campo para preencher era esse aqui:

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Imediatamente fui levado à uma reflexão relâmpago. Obviamente que o formulário só queria saber se eu era uma pessoa física ou jurídica, inclusive eu fiquei tão estupefato pelo efeito do campo “Tipo de Pessoa” que foi um alívio ver que só existiam essas duas opções. Concluí meu pedido, o PDF chegou no meu email, mas aquela interrogação permaneceu na minha cabeça. Que tipo de pessoa eu sou afinal?

A primeira coisa que precisamos estabelecer aqui é se de fato as pessoas podem ser divididas em tipos. Nosso procedimento normal ao conhecer uma pessoa, seja pra valer ou superficialmente, é encaixar essa pessoa em alguma, ou algumas, das categorias de pessoas que criamos ao longo das nossas vidas. Não classifico isso como um comportamento preconceituoso, na prática precisamos disso pra criar uma espécie de bússola social. Saber onde pisa é o primeiro cuidado que precisamos tomar ao viver em sociedade e esses rótulos que colocamos nos outros nos ajudam a evitar alguns conflitos desnecessários. A parte ruim disso é que corremos o risco de cair na tentação de sermos muito taxativos.

Precisamos lembrar que vivemos num mundo onde as pessoas são tridimensionais. Mesmo que muitos não pareçam, todos os seres humanos podem ser encaixados em algumas, se não várias, categorias e normalmente a quantidade de categorias nas quais encaixamos as pessoas é proporcional ao tanto que conhecemos elas. Pensando nisso eu lembrei de uma parada que eu acabei de descobrir como se chama do diagrama de Venn. Fica fácil de entender como ele funciona observando o exemplo 100% verídico abaixo:

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Seguindo por etapas nós dividimos as pessoas em uma e, dependendo da pessoa ou do nível de conhecimento que temos dela, vemos em quais outras categorias ela se encaixa e criamos uma espécie de diagrama para cada pessoa. Essa ideia foi colocada em prática de uma maneira trinta e cinco vezes mais inspiradora do que nesse texto por uma rede de TV dinamarquesa. Se for assistir, lembre de se certificar que as LEGENDAS ESTÃO LIGADAS.

Mas aí chegamos ao ponto crítico desse tema. Você já se perguntou que tipo de pessoa você é? Normalmente somos relativamente cientes daquilo que não somos. Digo relativamente porque o autoconhecimento pleno é uma coisa difícil de conseguir e que normalmente não colocamos como meta da vida. Inclusive é bem provável que você, caro leitor, esteja na mesma situação que eu. E eu não consigo dar uma resposta 100% para uma pergunta dessa. Eu posso ficar aqui pensando um tempão e continuar insatisfeito com a resposta. Sempre vai ter alguma coisa que eu não estou enxergando ou algum traço de personalidade que passe despercebido. Exatamente por isso que vou tentar chegar a uma resposta decente pra essa pergunta e recomendo que você faça o mesmo. Quem sabe a gente não aprende alguma coisa?

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Contos de Segunda #79

Mais uma noite de segunda em Vila Urbana. Enquanto os cidadãos retornam para seus lares depois de um dia de trabalho, os criminosos continuam incansáveis na sua investida contra a lei e a ordem na cidade. Justamente por causa dos elevados índices de criminalidade, e da presença esporádica de resíduos tóxicos ou radioativos, muitos vigilantes mascarados surgiram para impedir que a cidade fosse tomada pelo mal.

Um desses vigilantes é o Homem Camaleão. Nesse momento ele espera pelo melhor momento de nocautear os bandidos que invadiram uma transportadora para roubar um carregamento de eletrônicos. O alarme não soaria, alguém estava facilitando para os bandidos. Apenas um defensor da justiça atendo poderia impedir que esse crime fosse cometido, mas seguir os bandidos poderia revelar um esquema muito maior de roubo de eletrônicos. Ele teria esperado, saltado no caminhão, seguido os bandidos e nocauteado todos os envolvidos no esquema. Teria, mas algo inesperado aconteceu.

Os bandidos foram nocauteados, um a um. Como se algo invisível estivesse desferindo os golpes. Como se o próprio Homem Camaleão estivesse batendo nos bandidos. Revestido pela sua camuflagem camaleônica, nosso herói se aproxima da cena do crime e encontra todos os criminosos desacordados. Ele olha ao redor e identifica uma figura disforme, imediatamente ele desativa a sua camuflagem. Ninguém além dos guardas está de pé.

— Sei que você está aí, apareça — esbravejou o Homem Camaleão.

Diante dele uma camuflagem se desfez e lá estava uma garota. Pela aparêcia não devia ter mais do que doze ou treze anos, usava um uniforme que imitava o dele e parecia ligeiramente nervosa.

— Sabia que a gente ia se encontrar — disse a menina.

— Quem é você?

— Sou sua assistente.

— Não, não é.

— Sou sim.

— Eu nem te conheço.

— Prazer, pode me chamar de Camaleoa. Só vou revelar minha identidade depois que você revelar a sua.

— Revelar? Como eu… Você… Que história é essa?

— Um dia acordei com poderes iguais aos seus e achei que combater o crime seria uma boa.

— Combater o crime é perigoso!

— Um monte de gente dessa cidade faz isso.

— Um monte de gente adulta faz isso.

— Eu sou mais forte e mais ágil do que a maior parte desses bandidos, sem contar que eu fico invisível.

— Não é só sair por aí batendo nos bandidos, você pode se machucar.

— Tanto quanto qualquer um… Admita, Camaleão, nenhum desses argumentos vão colar.

–Você precisa de licença pra exercer essa atividade — pontuou o herói convencido que tinha ganhado o debate.

— Você fala da licença que eu posso tirar caso eu exerça a função de ajudante, auxiliar, sidekick, assistente ou seja lá como vocês velhos chamam.

— Eu não sou um velho e não você não vai ser nada minha.

— É isso que vocês heróis fazem? Deixam pré-adolescentes combatendo o crime na ilegalidade? Muito heróico da sua parte — rebateu ela estreitando os olhos.

Homem Camaleão levou as mãos ao rosto, remexeu na máscara e depois de alguns segundos de descontrole ele respondeu.

— Tá bom! Tá bom! Eu deixo você ser minha assistente. Não preciso de uma assistente, mas vou aceitar só pra te provar que você está errada.

— Homem Camaleão, no ranking do ano passado você ficou em primeiro lugar na lista dos heróis mais surpreendidos pelos bandidos.

— De onde você tirou isso?

— O sindicato publica esses dados, tanto o dos heróis como o dos vilões. Tá tudo na internet, são dados públicos. Foi um dos motivos que me fez te escolher pra ser meu mentor, você precisa de alguém pra vigiar suas costas.

— Eu sei que não preciso, mas vou aceitar isso como um aviso para tomar mais cuidado — ele respirou fundo, deixou passar o resto da raiva antes de continuar. — Vamos, eu preciso providenciar um uniforme novo pra você. A lei nova determina que os uniformes não propaguem fogo e tenham selo de aprovação dos órgãos competentes… Do que eu vou te chamar?

— Tá na cara que meu nome é Camaleoa.

— Camaleoa? Só Camaleoa? Pensei que ia ser algo como Garota Camaleão ou algo assim.

— Esses nomes com “Garota” na frente prendem as heroínas no estereótipo da adolescente inexperiente que usa máscara. Sem falar que me coloca numa posição inferior à sua. Pensando no longo prazo, não é nada benéfico pra minha imagem. Quando eu tiver idade pretendo seguir carreira solo. Sem ofensa, Camaleão, mas não quero passar a vida inteira na sua sombra.

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A Cabeça Tá Gasta

    De todas as atividades que eu faço, apenas uma delas é remunerada. Nessa atividade eu preciso usar um nível bem baixo de criatividade, de modo que eu fico arrumando formas de descarregar o tanto de ideias que eu costumo ter. Foi exatamente por isso que eu comecei com este blog e esse é o motivo principal pra jogar coisas e escrever pra outros sites. Só que eu ando exagerando e por causa disso a cabeça tá meio fraca de ideia ultimamente. Aí eu comecei a pensar sobre isso.

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    Cheguei à duas conclusões. A primeira é que não é hoje que sai o post sobre Logan. Foi mal, Wolverine.

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    A segunda é que minha cabeça tá gasta.

    Eu tenho o prazer e o privilégio de ter na minha lista de amigos pessoas que trabalham com criatividade. Designers, músicos, escritores (profissionais ou não) e até atores. Independente de fazer por lazer ou pra pagar as contas, todos eles trabalham tendo ideias e colocando essas ideias no papel. Boa parte, se não a grande maioria, deles exercita a criatividade além do seu ofício principal. É bem provável que eles tenham caído na mesma armadilha que eu: gastam mais ideias do que é possível ter.

Imagine que a sua cabeça é uma conta bancária e as ideias são dinheiro. Periodicamente entra algum dinheiro na sua conta e você vai gastando de acordo com a necessidade. Assim como na conta bancária, se as ideias saem mais do que entram, você começa tirar de onde não tem pra cobrir os gastos. A sua conta vai ficando vermelha, vermelha e vai continuar avermelhando enquanto as ideias não pararem de sair. Obviamente você pensa que isso não é um problema, mas quando você menos espera, você olha pro lado e tá tudo vermelho.

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Você pensa e não vem nada. Você vê um filme e aquilo não traz inspiração nenhuma. Você fica olhando pro teto, pensando no miolo do pote, na morte da bezerra e nada parecido com um “eureka” aparece na sua cabeça. O cérebro fica mais vazio do que cena de faroeste mostrando o deserto, pelo menos no faroeste passa uma bola de mato sendo levada pelo vento.

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Eu tava pensando aqui em como terminar o post, mas lembrei que não era sobre isso que era o post de hoje. Aí comecei a pensar no outro tema e acabou que eu não tive ideia nenhuma, obviamente a preguiça dos fins de tarde de sexta não ajuda nesse sentido. Só me resta desejar que o fim de semana traga um monte de ideias pra todo mundo. Até semana que vem

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São As Águas de Março Fechando O Verão

O carnaval acabou, Março já tá na metade e a gente já viveu quase 25% de 2017 e, assim como em outros anos, tem chovido para caramba. Afinal são as águas de março fechando o verão.

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Mesmo a chuva de março rolando praticamente todo ano, eu nunca tinha parado pra fazer a associação dessas famosas águas pluviais do mês três com o final de alguma coisa. Não sou um admirador do trabalho de Elis, a Regina, e de Tom Jobã, mas acabei pensando neles e nas citações que fizeram à famosa composição do nosso amigo Tommy. Prestando atenção na chuva e no calendário acabei vendo que março é um moço peculiar dentro do calendário. E não é só por causa das águas que fecham o verão.

Começa que Março é o primeiro mês pra valer do ano. Janeiro tem muita gente de férias, fevereiro tem carnaval e, mesmo quando não tem folia, continua lá com seus 28 dias. Abril vem logo depois, abre a temporada de feriados nacionais e normalmente traz consigo a primeira data comercial do calendário, a Páscoa. Peço perdão para aqueles que, assim como eu, comemoram a Páscoa pelo seu significado para os cristãos, mas as lojas só querem mesmo saber de vender chocolate. Aí você me pergunta: “E março, Filipe? Tá ali em cima dizendo que o texto é de março, cadê março? Quero meu dinheiro de volta”. Aí eu digo: tô chegando lá.

Março é tipo julho e agosto. Feriado, se tiver, é só estadual ou municipal. Os três são considerados meses longos e normalmente não figuram entre os primeiros lugares no ranking geral de meses preferidos do ano. Só que, ao contrário dos seus outros amigos, março tem uma coisa que o torna praticamente um mês coringa: em março pode ter carnaval, pode ter Páscoa e pode não ter nada. Ainda assim ele permanece com aquele mesmo jeito de março. Tá ligado/ligada jeito de março? Então, é esse mesmo.

Em março pode ter carnaval, mas nem por isso fevereiro deixa de ter a cara de “mês do carnaval”. Quando o carnaval cai em março, automaticamente nossa cabeça é transportada por cinco ou seis dias de volta pra fevereiro. Tanto que, quando o carnaval cai em fevereiro, a gente quase não ouve “esse ano o carnaval cai em fevereiro”, mas quando a festa da carne cai em março o aviso começa no ano anterior quando o carnaval termina. É que nem quando sua mãe fica te lembrando de um negócio o tempo todo pra não ter risco de você esquecer e fazer no dia errado. A mesma coisa rola com a páscoa, mas como a quantidade de festa e dias de folga é menor, não precisa desses alertas todos.

É março e tem chovido. Esse ano as águas de março vieram logo depois do carnaval, logo no começo do mês, pra deixar bem claro que aquela moleza do começo do ano acabou. É de março que a expectativa pelo milho do São João começa, principalmente praquela galera mais velha que cresceu, assim como eu, ouvindo que se chover no dia de São José o ano vai ser bom de milho. Enquanto o dia de São José não chega, as águas de março vão fechando o verão.  

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Wesley Safadão Cover

    Hoje acordei com uma expectativa boa pro texto dessa sexta-feira. Já tinha resolvido falar sobre o maravilhoso Logan, último filme de Hugh Jackman como Wolverino, e seria muito massa e talz. Só que eu fui atravessar a rua e dei de cara com isso aqui:

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    Sim. Isso mesmo. Eu vivi pra ver o anúncio do show de um cover de Wesley Safadão. Obviamente eu fiquei bem chocado com essa parada e, obviamente, isso despertou uma reflexão muito profunda e minha cabeça começou a fervilhar. Infelizmente o texto do Wolverino vai ficar pra semana que vem. Desculpa, Hugh Jackman.

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    O cover é uma prática muito comum no nosso planeta. Toda hora tem gente fazendo versão da música de outra pessoa. Normalmente as bandas começam fazendo isso enquanto não tem repertório próprio ou público cativo. Algumas bandas viram especialistas em fazer covers de determinados artistas e ganham a vida tocando músicas desse artista ou banda. Normalmente isso rola com artistas que já morreram, bandas que já acabaram, que são de outro país e raramente, ou nunca, passam por aqui e quando passam tem os shows meio caros. Aí chegamos no assunto de hoje e à pergunta fundamental: por que diabos existe um cover de Wesley Safadão?

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    Bora lá fazer uma lista dos motivos pelos quais isso é uma coisa meio absurda. Primeiro que nosso compadre Safadão não morreu, não é estrangeiro e faz show por aqui direto. Tô totalmente por fora do valor do ingresso pro show dele, mas acredito que não é um valor tão inacreditável ao ponto das pessoas precisarem ir pro show do cover. E por último temos o principal motivo pra um cover de safadão não fazer sentido: hoje em dia todo mundo toca música de todo mundo.

    Wesley Safadão toca música de um monte de gente e um monte de gente toca música dele. Além disso ele faz parceria com mais um monte de gente e acaba tocando as músicas em que ele fez participação e dos artistas que fizeram parceria com ele. Outros artistas do mesmo segmento têm uma prática similar, principalmente quando começou a rolar um intercâmbio entre a galera do forró e a galera do sertanejo universitário. Se repertório de todo mundo tá meio misturado e se você escuta música de todo mundo no show de todo mundo, não faz sentido existir um cover pra tocar as músicas de um cara que já tem as músicas tocadas por um monte de gente.

    Já disse e digo de novo: eu vivi pra ver esse dia chegar. O dia em que eu colocaria meus olhos num anúncio de um show do cover de Wesley Safadão. Não um cara que toca as músicas dele, não um cara que faz homenagens. Uma pessoa que é especializada em músicas de Wesley Safadão. O ser humano tá de parabéns mesmo.

 

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É Dia da Mulher e Eu Não Sei O Que Fazer

    Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Normalmente rola algum tipo de homenagem ou enaltecimento do ser humano feminino e todo mundo de repente lembra de tratar as mulheres direito, ou pelo menos um pouco melhor do que de costume. Obviamente o tema do texto de hoje seria alusivo a esse dia tão icônico, mas a dúvida estava justamente em como abordar o tema. A resposta, ou a não resposta, veio depois de fazer uma coisa que a gente muitas vezes esquece de fazer. Eu parei, olhei ao redor e tentei enxergar além das definições padrão do meu sistema. Agora me arrependo um pouco de ter feito isso.

Nunca antes na história desse país as questões ligadas ao feminino estiveram em tanta evidência e é justamente por isso que o Dia Internacional da Mulher está cada vez menos “rosa e Sonho de Valsa” e mais ligado com a raiz da luta pelo direito das mulheres. Por isso eu entrei no Facebook e vi uma quantidade grande de posts cheios de indignação. Olhei por aí na internet e me deparei com uma série de coisas alusivas ao Dia Internacional da Mulher, mas nenhuma delas falava de amenidades que eu estava mais acostumado a ver. De dados alarmantes até histórias comoventes, tudo remetia ao viés original do dia dedicado à luta das moças.

Aí chegamos à minha situação. Eu, um pobre moço que, além de estar no mesmo time de Jon Snow e não saber de nada sobre nada, sou homem e tenho o desafio de fazer um post sobre o Dia Internacional da Mulher em um blog que tem como premissa principal não falar de coisas sérias. Aí em dado momento dessa quarta-feira eu estava exatamente assim:

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Hoje é Dia Internacional da Mulher e eu literalmente não sei o que fazer. Não sei se eu “comemoro” esse dia ou me revolto junto com as moças. Não sei se gasto mais tempo avaliando a sociedade em geral ou me avaliando pra saber se eu também tenho culpa nessa história de tornar a vida das moças pior. No momento em que eu escrevo esse texto eu nem sei mais se dar parabéns é certo ou não. Muito provavelmente estarei errado em qualquer coisa que eu fizer, por isso é até melhor eu não fazer nada.

Eu poderia fazer um texto bonitinho, elogiar o ser feminino enquanto arquétipo ou enaltecer as moças de alguma forma. Mas, por incrível que pareça, isso não é muito adequado. ´Hoje só é o dia que é porque tinha um monte de coisa errada e boa parte dessas coisas continua errada. Espero que um dia o dia 8 de março traga consigo mais das lembranças de uma luta que passou e menos de uma luta que ainda está na metade. Sinceramente desejo que as moças tenho cada vez menos motivos pra lutar. Até ano que vem.

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Preguiça da Vida

    Hoje estava eu pensando no que escrever nessa primeira sexta-feira de março. A verdade é que eu ando meio sem ideias e tem dia que é difícil espremer alguma coisa aproveitável da cabeça e hoje esse esforço pra ter uma ideia me cansou mais do que o normal. Na verdade não cansou, já que só em pensar no trabalho de ter uma ideia foi o suficiente pra me deixar cansado. Foi aí que eu liguei o computador do trabalho e me deparei com essa imagem na tela de login.

Three-toed sloth, Costa Rica

    Além de ter minhas angústias confortadas pelo semblante tranquilo do bicho preguiça, encarei essa visão como um sinal dos céus. Então a ideia brotou na minha cabeça e cá estou pra falar de preguiça, o bicho e a que a gente sente.

Ao digitar na pesquisa do Google a palavra “preguiça” me deparei com alguns significados para a palavra:

  1. Aversão ao trabalho; ócio, vadiagem.
  2. Estado de prostração e moleza, de causa orgânica ou psíquica.
  3. Falta de pressa ou de empenho, morosidade, lentidão.

    Para efeitos didáticos vamos ignorar o primeiro significado, pois ele sugere uma espécie de má vontade por parte do ser preguiçoso, e vamos tomar como significados mais úteis para a discussão os outros dois.

    A preguiça é uma parada tão cabulosa que está na lista mais famosa de coisas condenadas pela Bíblia. Um grupo seleto conhecido mundialmente como Os Sete Pecados Capitais. E de fato a preguiça é algo tão potencialmente danoso que podemos comparar a uma doença. A preguiça nos faz literalmente desistir da vida, nos faz exaustos antes mesmo de pensarmos em algo pra fazer ou simplesmente nos desacelera violentamente. Nesse ponto podemos associar bem o estado preguiçoso do ser humano com o bicho preguiça.

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    Note que o nosso amigo bicho não parece preguiçoso na forma em que estamos acostumados a ver em outros animais. Cachorros e gatos normalmente manifestam preguiça de uma forma similar à nossa, mas o bicho preguiça consegue transcender o conceito de estado preguiçoso. Pra ele não existem um estado diferente daquele ou um momento em que existe pressa. Pra preguiça o mundo passa acelerado enquanto ela desacelera até quase parar. A lentidão está entranhada na carne e nos ossos, das unhas dos pés até a cabeça.

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Aí vem o efeito que o bicho preguiça provoca em nós, seres que vivemos em diferentes velocidades. A preguiça tem uma aura deboísta tão forte que acabamos por desacelerar também. Como permanecer acelerado diante de uma imagem como essa?

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Essa desaceleração costuma ser tão brusca, que sentimos uma espécie de efeito anestésico. Relaxamos tão rápido que quase nos sentimos como o bicho que nos contaminou. Por um instante nos tornamos tão lentos quanto eles e talvez até tão good vibes quanto eles. Podemos até dizer que observar preguiças, seja em fotos ou vídeos, é algo quase terapêutico.

Chegou a hora de encerrar o post de hoje. Pensei em desenvolver um encerramento legal e tal, mas adivinha? Deu preguiça. Por isso vou encerrar com essa rara imagem de uma preguiça sorrindo.

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Até semana que vem.

 

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