Cachorros de Bikini

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Contos de Segunda #87

Hoje vamos finalmente concluir a primeira história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #80. Pra saber todos os detalhes dessa história é só dar uma passada em Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02,  Contos de Segunda #62 e Contos de Segunda #77.

Segunda-feira estava no chão. Aparentemente ela tinha passado um tempo desacordada.

“Eu apaguei?”, pensou Segunda. “Por que será que eu apaguei? Não sei bem… Eu lembro que eu estava junto com as meninas… A gente tava fazendo alguma coisa juntas… Acho que eu tava grávida… É, eu lembro de estar grávida, mas depois não tava mais… E tinha dois meninos jogando damas… Acho que eles me chamaram pra jogar com eles e me chamaram de…”

— AIMEUDEUSOQUEESSEMENINOFALOU? — Berrou Segunda-feira quando se recuperou do desmaio. A Dama rapidamente se colocou de pé e grudou as costas na parede. Olhou ao redor e percebeu que Quarta-feira também estava desmaiada, as outras irmãs só estavam em choque.

— Ele falou “Oi, mãe. Quer jogar com a gente?” — respondeu o mais velho.

— Se a senhora não gosta de damas a gente pode fazer outra coisa — disse o mais novo.

— A senhora tá meio pálida — observou o mais velho. — A senhora tá passando mal?

— Aquela moça desmaiou também, Domingo. Acho que ela também tá passando mal.

— Domingo? — Interrompeu Terça-feira.

— É. Meu nome é Domingo — disse o garoto fungando ao fim da frase e arrumando os óculos. — Não lembro de ter nascido de óculos.

— Deve ter aparecido porque a gente acabou de descobrir que nossa mãe usa óculos.

— Mas não apareceu nada na sua cara, Sábado.

— Verdade. Vai ver que você puxou mais a ela.

— Sábado? — Indagou Quinta-feira tentando sem sucesso reanimar Quarta..

— Isso. E vocês quem são? A gente só conhece minha mãe — respondeu sábado.

— Por motivos óbvios — completou Domingo.

— Somos as outras Damas da Semana — respondeu Sexta. — A desmaiada é Quarta, essa com a maquiagem pesada é Quinta, a vestida de hippie é Terça e eu sou Sexta, a melhor de todas.

— Muito prazer… Vocês são tias da gente então? — Perguntou Sábado.

— Sim — respondeu Terça abrindo um sorriso. — Venham aqui me dar um abraço.

Os garotos sorriram e obedeceram. Depois de alguns segundos nos braços da tia, Domingo questionou.

— Por que minha mãe não pediu pra abraçar a gente?

— Parir é uma experiência meio traumática – amenizou Quinta. — E vocês vão ver que a mãe de vocês não tem exatamente todos os parafusos no lugar, mas ainda é uma pessoa fantástica.

Quinta estava certa, aquilo tudo estava sendo muito traumático. Quando ela pensou em ter filhos, na verdade em ter um filho, esperava terminar todo o processo mágicoritualistico com um bebê nos braços e não com dois meninos já meio crescidos que mal nasceram e já sabiam jogar damas. Dois seres plenamente conscientes de quem eram e de quem ela era. Ela respirou fundo, contou até três e finalmente falou.

— Meninas podem nos dar um instante a sós?

As outras Damas saíram carregando o corpo ainda inerte de Quarta-feira para a outra sala. Segunda se abaixou para ficar na altura dos filhos. Os olhos mal podiam acreditar no que estavam vendo. Depois de alguns segundos eles mal podiam enxergar alguma coisa, estavam cheios de lágrimas. Antes que os olhos transbordassem Segunda abraçou seus dois meninos.

— Eu queria tanto vocês aqui — disse ela no começo de um longo abraço.

— Mãe… Acho que já dá pra soltar a gente — disse Sábado.

— A gente tem que ir pra casa… Eu acho — completou Domingo. — A gente vai morar aqui?  O que a gente vai fazer agora?

Segunda soltou os dois. Ela realmente não tinha pensado ainda nessa parte do plano.

— Bem — começou ela. — Acho que primeiro precisamos falar com a avó de vocês e torcer pra ela não transformar a gente em poeira cósmica.

A campainha tocou. A porta abriu e fechou imediatamente, logo depois alguém começou a bater na porta e Sexta apareceu correndo.

— A Mãe-de-Todas tá aqui — disse ela.

— Ah, não — suspirou Segunda.

— Quem é essa, mãe? — Perguntou Sábado.

— Deve ser a Vó-da-Gente — respondeu Domingo.

— Ah, tá.

— O que a gente vai fazer? — Perguntou Sexta.

— Não tem muito o que fazer. Manda a coroa entrar antes que ela derrube a porta.

A Dama da Lua entrou despejando uma quantidade cavalar de revolta sobre suas filhas. A que mais sofreu foi Terça que tinha fechado a porta na cara da mãe, Quarta acabou desmaiando de novo e Quinta tentou ganhar tempo com uma saudação exagerada.

— … Meu assunto não é com vocês — rosnou ela entrando na sala. — Eu quero falar com Segunda, aconteceu alguma coisa aqui e tenho certeza que foi culpa… — A Dama ancestral congelou ao ver as duas crianças. O olhar ia dos meninos para Segunda e de volta para os meninos.

— Oi, vó — disse Sábado impaciente com o silêncio.

— A gente pode chamar ela de vó? — Duvidou Domingo.

— Acho que sim — disse Segunda. — Saudações, Dama da Lua, fonte de tudo que é bom e mãe para todas nós.

— Saudações, Dama da Segunda-feira. Poderia me explicar quem são essas crianças e o que diabos está acontecendo aqui?

— Esses dois são meus filhos, Sábado e Domingo, acabaram de nascer.

— Filhos? São seus… Filhos?

— Exatamente — respondeu Segunda um pouco mais confiante.

— Eu ordeno que encontre um cavaleiro, coloco todas as tuas irmãs à disposição pra te ajudar e apareces com filhos? Como se um não fosse afronta suficiente, tu apareces com dois? DOIS!

— Meninos, por que não vão pedir pra tia Terça mostrar como ela vê o futuro nas jujubas vermelhas? Eu preciso conversar com a avó de vocês. É coisa rápida.

Os dois obedeceram.

— Quer sentar, Mãe?

— Estou nervosa demais para tomar um assento.

— Se não se incomoda eu vou me jogar nessa poltrona aqui, acabei de parir duas entidades cósmicas.

— Perdeu o juízo, Dama? Ficou louca de vez?

— Não vejo como gerar novas vidas pode ser sinal de insanidade.

— Estavas prestes a perder o controle de teus poderes, Segunda-feira. Precisavas de uma forma de esgotar tuas energias, de enfraquecer. Não só correste o risco de causar danos cósmicos irreversíveis, mas também de gerar duas entidades defeituosas, insanas e descontroladas. Uma Dama louca é algo reversível, mas uma coisa que já nasceu insana só tem a destruição como destino.

— Não me fale de Damas loucas, Mãe. Sabemos bem que nem todas podem ser controladas ou curadas. Não podem ou a senhora não quer que elas sejam.

— Não me provoque, Segunda-feira. Estou farta da tua insubordinação. Quem te ajudou?

— Não sou caboeta, Dama da Lua. Descubra a senhora.

— Não me provoque. Teu projeto de maternidade está por um fio. Com um gesto eu posso evaporar essas duas crianças.

— Não me provoque a senhora. Até onde me consta, meu santuário ainda estará ativo por mais algumas horas e eu posso estar enfraquecida pelo parto, mas eu ainda sou a dona da segunda-feira. Experimenta tocar em um táquion daqueles meninos pra ver o que acontece.

— Então é isso? Minha filha ameaça por causa dos crimes que ela mesma cometeu?

— Se encontrar um meio de me livrar da insanidade sem o uso de um mortal é um crime, Mãe, então pode me considerar culpada, mas agora eu posso te dar dois bons motivos pra me deixar seguir com a minha vida.

— Gerar filhos é um convite para o sofrimento, Segunda-feira.

— Não acontece com todas, Mãe. Não acontece sempre.

— Aconteceu comigo, Dama. A dor pode enlouquecer muito mais do que qualquer outra coisa.

— Não pense que eu não sei.

— E mesmo assim quer levar isso adiante?

— Não tenho escolha. Não lembro de casais querendo adotar entidades do tempo.

— Sabes que não vai ser fácil.

— Não estou sozinha, Mãe. Tenho minhas irmãs pra me ajudar.

A Dama da Lua deu um sorriso. Abriu os braços e abraçou a filha.

— Obrigado, Mãe.

— Me apresenta teus filhos?

— Eles vão ter que se apresentar sozinhos, faz menos de meia hora que eu conheço os dois.

Contos de Segunda #85

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia útil da semana. O último exemplo dessa máxima foi o nascimento das suas duas filhas gêmeas, Olívia e Alice, em meados de agosto do ano passado. As duas não só nasceram antes do tempo como também conseguiram a proeza de enganar todos os exames de imagem feitos ao longo da gestação. Ninguém estava esperando duas meninas.

Em uma certa segunda-feira, Aluísio estava em casa com suas filhas. Ele estava de férias e passava a maior parte do tempo com as meninas. Para aqueles trinta dias Aluísio tinha um plano: ensinar as duas a falar “papai”. Na prática ele não precisava ensinar, já que, segundo relatos de sua esposa, as duas já tinham falado “papai” em algum momento ao ver alguma foto dele. Aparentemente uma imagem estática fazia muito mais efeito, então ele bolou um plano.

Assim como muitos pais, Aluísio apelava em vários momentos para coisas do calibre da Galinha Pintadinha. Obviamente ele detestava a ideia de usar um truque tão rasteiro em suas próprias crianças, mas muitas vezes as medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Mais uma vez a Galinha seria usada, mas para um propósito ligeiramente mais nobre.

Depois de algumas milhares de vezes, Aluísio tinha certeza que aqueles malditos vídeos da galinha estavam gravados no cérebro das duas meninas. Exatamente por isso ele gastou algumas horas com programas de edição para adulterar todos os vídeos, inserindo algumas fotos suas em locais diversos. Ao ver o pai dentro dos vídeos, Alice e Olivia ficariam tão surpresas que diriam um “papai” bem sonoro. Pelo menos era assim que acontecia na cabeça de Aluísio toda vez que o plano era repassado.

Ele colocou o primeiro vídeo. O ponto em que ele aparecia estava quase chegando quando o celular tocou. Era Amélia, sua esposa, querendo saber se estava tudo bem. A ligação demorou tempo suficiente para a primeira aparição de Aluísio no clipe da Galinha passasse. Se as meninas falaram, ele não ouviu, mas de certa forma o plano tinha dado certo. As duas estavam olhando para ele e apontando para a tela da televisão. O fracasso momentâneo foi eclipsado pelo aparente progresso. Ele ainda tinha mais ou menos vinte chances antes de precisar repetir os vídeos. Infelizmente nenhuma delas teve muito efeito. Depois do celular foi o interfone, a fralda cheia de cocô, o banho, a hora do lanche, do almoço e da soneca, dele e das meninas. Também teve a ida à padaria e ao parque. Já era quase noite quando Aluísio conseguiu outra chance, foi quando o sono bateu e ele apagou no sofá, exatos três minutos antes da esposa chegar a tempo de ver a foto do marido aparecer do lado do galináceo azul e ouvir as duas filhas apontando para a tela dizendo em uníssono:

“Papai”

Coração de Fã

    Na semana passada estava eu falando com uma amiga. Em pauta estava um grande evento nerd que aconteceu esses dias no Centro de Convenções de Pernambuco. A partir de certo momento da conversa o tema mudou um pouco, começamos a falar dos problemas de ter um “coração nerd” e de como a racionalidade nem sempre entra na equação quando o assunto é tomar uma decisão que envolve algo que nós gostamos. Desde então fiquei matutando sobre esse assunto e decidi expandir um pouco mais esse conceito. É por isso que hoje eu não vou falar do “coração nerd”, afinal esse termo é muito restritivo. No final as pessoas anerdalhadas só se diferem dos outros seres humanos por causa de suas paixões por certas coisas. Hoje vou falar do coração de fã.

    Por definição o fã é uma pessoa que nutre uma grande admiração por algo ou alguém. O termo é derivado de “fanático” e é utilizado mesmo quando não existe de fato um fanatismo. Essas pessoas possuem um amor irrestrito pelos alvos de sua admiração e por elas sofrem, riem, choram e brigam (ah, como brigam). O fã é aquele tipo de pessoa que vai achar um absurdo o fato de você nunca ter ouvido falar daquilo que ele gosta, lido aquela série de 513.614 livros e visto todos os filmes de uma certa franquia. Obviamente depois disso ele vai encaixar coisa do tipo “tu precisa ver”, “tem todas as temporadas no Netflix” ou “eu te empresto se tu quiser” e “eu trago pra tu jogar”.

    O fã é o tipo de pessoa que se sente no dever de espalhar aquilo que ele gosta pelo mundo. Porque ser fã sozinho não tem graça e é por isso que os fãs costumam ser extremamente sociáveis com outros fãs, mesmo quando sua capacidade (ou vontade) de socializar é quase nula no contexto normal da vida cotidiana. Isso é potencializado ainda mais quando o fã em questão gosta de algo que pertence a um nicho muito específico, o tipo de coisa que a maioria dos seus amigos não gosta ou gosta de forma muito moderada, que seu pai não faz a menor ideia do que é e que, em alguns momentos, é também um motivo para se envergonhar. Afinal sempre rola um “isso é coisa de tabacudo virjão”,  “isso não é coisa pra mulherzinha?” ou o clássico “isso é negócio de criança” quando você tem certos gostos.

Mas nada difere tanto o fã do transeunte do que o coração.

O coração do fã é, acima de tudo, o maior inimigo das decisões racionais. Todo mundo sabe que as decisões tomadas com base na emoção costumam ser um pouco inconsequentes. Dormir em horários absurdos, encarar filas enormes, correr alguns riscos, prejudicar o orçamento, estourar o cartão, faltar àquela aula da faculdade e até mesmo escapulir do trabalho são coisas que, no mínimo, todo fã já cogitou fazer e pelo menos uma delas já foi feita. Até porque o fã é uma pessoa que faz sacrifícios, seja sacrificando seu tempo, seu dinheiro, seu conforto e até sua reputação. Para o fã muitas coisas são inevitáveis. Comprar aquele livro, aquela HQ, gastar dezenas de horas com aquele jogo ou na maratona daquela série, ver pela milionésima vez aquele filme ou infartar quando o time do coração joga não é uma opção, é inevitável. Pode demorar para acontecer, mas acaba acontecendo. É quase um comportamento compulsivo, algo puramente movido pela emoção. É a tradução literal do que é ser fã.

Eu sou um fã. Tomo decisões puramente emocionais, passo horas discutindo sobre coisas que não mudam em nada a minha vida, indico coisas pros outros, gasto uma parte do meu dinheiro com as minhas paixões e uma parte muito maior do meu tempo com essas mesmas paixões. Cresci numa família de fãs e é provável que, se eu chegar a formar uma família, ela seja uma família de fãs. Fui ensinado a gostar das coisas de forma saudável, mas nem por isso gostar menos. Já fui, e sou, diminuído e hostilizado por causa das coisas que eu gosto, as mesmas coisas que ajudaram a criar algumas das maiores amizades que eu tenho hoje. Sou um fã, não é por opção, é inevitável.

Contos de Segunda #68

    “Feliz Natal”

    Foi o que disse o taxista ao deixar Ribeiro no aeroporto. Uma viagem de trabalho tinha colocado em risco os planos de Natal dele, mas, mesmo com o cronograma apertado, Ribeiro chegaria a tempo para a ceia. Bem em cima da hora, mas ainda assim a tempo.

    “Feliz Natal”

    Foi o que Ribeiro ouviu da moça no guichê da companhia aérea. Algumas horas de atraso fizeram ele perder a conexão no aeroporto seguinte e consequentemente a ceia de Natal. Por sorte ele conseguiu ser encaixado em um voo direto… Que sairia algumas horas depois. Segundo a previsão ele chegaria em casa com umas duas horas de atraso, mas pelo menos ainda poderia desejar “Feliz Natal” para a maioria dos parentes.

    “Feliz Natal”

    Rosnou Ribeiro entre os dentes ao se despedir do funcionário da companhia aérea. Depois de uma hora correndo pelo aeroporto num estado que deixaria qualquer barata tonta com inveja, Ribeiro descobriu que conseguiu mudar de voo… Só ele, a bagagem estava no outro avião e só chegaria de manhã. Juntamente com os presentes que ele tinha comprado para os sobrinhos.

    Ele olhou no relógio. Os ponteiros marcavam três horas da manhã. Nenhum familiar atendia o celular e Ribeiro estava esperando apenas uma boa desculpa pra assassinar alguém. Todo mundo já tinha ido embora e a área do desembarque estava vazia. Nenhum voo estava previsto para o resto da madrugada. Tudo estava vazio e silencioso.

    O som de vários passos encheu o ambiente. O cheiro de comida encheu o ar e algumas vozes conhecidas foram ouvidas. Ao se virar para ver, Ribeiro deu de cara com a família. Duas dúzias de Ribeiros que estavam ali com uma parte considerável da ceia de Natal nas mãos. Ele não sabia bem como reagir. Poderia abraçar os sobrinhos, dar um beijo na mãe ou na avó, pegar um pedaço do chester ou se jogar no meio dos primos. Na dúvida ele só disse.

    “Feliz Natal”.

E Esse Natal Aí?

    Mais uma vez estamos nas vésperas do Natal, o ano finalmente está começando de fato a acabar e os raios da aurora de 2017 já despontam no horizonte. Normalmente essa época cria uma grande comoção em todas as esferas da vida da gente. Confraternizações, amigos secretos, festas de família, gente contra as uvas passas, gente a favor das uvas passas, gente que é contra essa discussão sobre uvas passas e os tios das pessoas fazendo a piada do pavê.

   keep-calm-and-e-pave-ou-pacume

    Uma coisa que eu tô notando esse ano é que o clima de Natal tá meio estranho. Normalmente o fim do ano deixa todo mundo mais empolgado, seja por causa dos presentes, por causa das celebrações e reuniões que existem nessa época ou só pelo feriado em si. Só que esse ano aconteceu uma parada que literalmente nunca mais vai acontecer. Esse ano aconteceu 2016. E depois de encarar quase doze meses de 2016 ficou todo mundo cansado. Já tá todo mundo de saco cheio esperando o fim das festas pra começar logo o outro e deixar essa história de 2016 pra lá. Nesse ponto eu, do alto da minha insatisfação com 2016, pergunto: e esse Natal aí, hein?

    Esse ano eu não tô vendo muita gente falando de Natal. Eu não tô vendo muitos enfeites por aí e ainda não ouvi a voz de Simone. Fico pensando o quanto disso é culpa de 2016, já que o clima de Natal tem ficado, digamos, “mais ameno” na minha percepção e isso não é de hoje. Todo ano alguém fala algo do tipo “esse Natal não tá com cara de Natal” ou “nem parece que já já é Natal”. Afinal, o que diabos aconteceu com a magia do Natal?

    Eu gostaria muito de ter alguma sacada genial e apresentar um argumento convincente, mas creio que pra essa pergunta não tenho resposta. Talvez estejamos, assim como nos livros de fantasia, vendo a magia desaparecer do mundo por causa da falta de crença da humanidade ou então eu só estou frequentando os lugares errados. De todo jeito alguma coisa está diferente e é melhor nem saber o que é, vai que bate uma tristeza por causa disso e a famosa bad de Natal resolve aparecer no lugar do Papai Noel.

    Depois de tanta negatividade natalina, gostaria de deixar um “Feliz Natal” para todos vocês, queridos leitores. Que o Natal de todo mundo seja o mais mágico possível e que vocês ganhem todos os presentes que pediram. Feliz Natal!

Os Planos (Problemáticos) de Fim de Ano

    Uma das coisas mais comuns no final do ano é ter um plano. Uma programação, uma tradição, algo que se repete ritualisticamente a cada doze meses. Como dezembro tem toda aquela vibe de união das pessoas e derivados, o mais comum (e mais óbvio) é reunir a família pra todo mundo passar junto essa época bonita que antecede o falecimento de mais um ano. Só que, assim como tudo que envolve família, essas atividades lúdico-alimentícias são potencialmente problemáticas.

    Existem famílias de várias formas, tamanhos, cores e sabores. E é justamente por causa dessa diversidade que nem sempre estar com a família é uma atividade prazerosa. Primos que você não gosta, tios que fazem perguntas constrangedoras, agregados inconvenientes e aqueles parentes que não se bicam travando uma guerra fria que por pouco não vai virar um apocalipse nuclear. Talvez isso não aconteça com você. Talvez a sua família não tenha nenhum dos arquétipos listados acima, mas o que pega todo mundo é justamente o dever, quase a obrigatoriedade.

    “Esse ano eu nem queria ir”. Essa frase já pode ter saído pela sua boca ou entrado pelos seus ouvidos. Mas a realidade é uma só: boa parte dos problemas das programações de fim de ano está no simples fato da programação existir. Vamos exemplificar pra ficar mais claro. Imagine que você faz algo todo ano com a sua família, agora imagine que apareceu algo que você quer muito fazer com pessoas que não são da sua família. Imaginou? Agora sabe do que eu estou falando. Por isso as pessoas relutam tanto em mudar as tradições de fim de ano, porque o natural do ser humano é evitar problemas pra si mesmo, um instinto de autopreservação que está em todos nós… Só que uma das coisas que o ser humano faz melhor é desafiar os seus instintos e por isso entramos no lado B da história.

    Muitas das atividades de fim de ano, mesmo as ruins, são perfeitamente administráveis ou no mínimo suportáveis, mas todas elas têm potencial pra se tornar bem pior do que já é. Uma forma excelente de fazer isso é introduzir um amigo secreto no meio dos festejos. E, como eu já falei no ano passado, amigo secreto pode ser um prazer ou um suplício. Em condições ideais de temperatura e pressão, você vai fazer a brincadeira em um ambiente onde todas as pessoas se conhecem e todos podem dizer o que querem. Normalmente o que acontece é que você não tira a pessoa que seria fácil de dar presente e termina tirando aquela sua tia que você (e todo mundo) só vê no Natal. E se for na pior das situações possíveis vai rolar um daqueles amigos secretos onde cada um leva um presente, os amigos secretos são tirados na hora e o limite de valor é cinquenta reais.

    “Não acredito que você não vai” é uma frase que já deve ter saído das nossas bocas ou entrado nos nossos ouvidos. Como um defensor das tradições familiares, eu nunca cheguei a ouvir, mas entendo perfeitamente o dilema vivido por nós quando precisamos decidir entre seguir os hábitos ou tentar algo diferente. E, a menos que seja uma experiência realmente desgraçada, recomendo que você opte pela família sempre que possível. Nunca passe mais de dois anos seguidos longe dos ritos do seu clã e tente ao máximo não criar problemas pra você mesmo. O final do ano já pode ser uma época bem ruim sozinho, ele não precisa da sua ajuda pra ficar pior.

Contos de Segunda #60

— Ontem eu tive um sonho — começou Anabela mergulhando o sachê de chá na caneca de água quente. — O mesmo sonho dos outros dias.

Ela estava na cozinha da casa do avô, sentada à mesa tomando chá. Ele estava no fogão cuidando do jantar e vendo as notícias em uma televisão com o volume baixo.

— Com as cores no céu que desciam e formavam uma imitação do seu quarto? — Respondeu o avô de Anabela.

— Sim — a moça deu um gole no chá, ainda estava fraco, a dança do sachê na caneca recomeçou. — Só que foi diferente. Quando eu acordei estava sentada na minha escrivaninha, com a caneta na mão…

— Como das outras vezes, com a caneta prestes a encostar no papel — interrompeu o velho.

— Dessa vez eu tinha escrito alguma coisa… Uma coisa maldita.

O avô de Anabela se esticou como se uma língua de gelo tivesse escorregado pelas suas costas. Ele apagou o fogo do fogão, se virou e contemplou a face inexpressiva da neta por alguns instantes antes de conseguir falar.

— Você ainda estava doente?

— Sim.

— Você conseguiu dormir ontem durante o dia?

— Não.

— Que horas eram quando você acordou?

— Três e meia da manhã. Estava lá escrito no meu caderno… Um parágrafo de um texto maldito. Um trecho de algo tão horrível que eu desmaiei depois de ler.

Os olhos do velho arregalaram. Suas mãos tremiam de leve quando ele puxou a cadeira para se sentar. A boca se movia tentando articular palavras que não saíam da garganta. O suor brotou das têmporas, se pelo nervosismo ou pelo esforço de falar não se sabia.

— Quando eu levantei do chão o pedaço escrito da página não estava mais lá — os olhos frios da moça encontraram os olhos assustados do velho.

— Algo te usou para chegar aqui — o raciocínio do avô de Anabela tinha acelerado depois de passar o choque. — Pra chegar aqui ou… Para enviar uma mensagem… Você leu, mas não era pra você. Foi por isso que não suportou quando leu.

— O que é aquilo? — Disse Anabela levantando da mesa para aumentar o volume da televisão.

O noticiário mostrava um homem sendo levado por enfermeiros para uma ambulância enquanto se debatia e urrava palavras incompreensíveis.

“Essas imagens foram feitas hoje pela manhã na frente de uma tradicional loja de antiguidades no centro da cidade. O dono da loja, o senhor Clóvis Bandeira de sessenta e três anos, teve um colapso nervoso e começou a agredir funcionários e clientes da loja. Segundo relato de testemunhas, Clóvis recebeu uma carta pouco antes de ter o surto. Os funcionários precisaram segurá-lo até a chegada da ambulância”

— É essa carta, foi o que eu escrevi — as pernas de Anabela teriam cedido caso ela não estivesse apoiada no balcão da cozinha. — Precisamos encontrar a carta e destruí-la. Esse homem foi só o primeiro, mais alguém vai ler esse maldito papel e vai… E vai…

— Ainda não são nem seis horas — respondeu o velho olhando para o relógio da parede. — Com sorte a gente pega a loja ainda aberta.

A loja ainda estava aberta quando eles chegaram lá. Ao contrário das demais lojas, bares e fiteiros da mesma rua, as luzes estavam apagadas. Apesar da escuridão do antiquário ser tudo menos convidativa, Anabela e seu avô se apressaram para entrar.

Estantes e armários lotados de objetos antigos compunham o mobiliário. Os corredores apertados entre eles faziam curvas estranhas e impediam que a luz da rua penetrasse no interior da loja. Apenas um feixe de uma luz fraca quebrava a escuridão lá no fundo.

— O dono deve ter um escritório ou algo do tipo nos fundos da loja — apontou o avô de Anabela.

A moça puxou o celular e ligou a lanterna.

— Fique aqui, vovô — disse a moça tentando manter a voz firme. — Se alguma coisa estiver errada o senhor vai atrás de ajuda.

Anabela partiu na direção dos fundos da loja antes de ouvir uma resposta.

O cheiro da madeira antiga preenchia o ambiente. A poeira dançava na frente da luz da lanterna. O silêncio só era quebrado pelos passos e pela respiração da moça. Os passos ficaram mais cuidadosos. O escritório estava cada vez mais perto. Ela parou.

E ouviu outro passo.

Ela voltou a caminhar, dessa vez um pouco mais rápido. Algo atrás dela andava com passos mais lentos.

Algo caiu no chão.

Anabela não parou. Mais dois passos e estaria no escritório. Foi então que algo se mexeu na sua mão.

Uma mensagem chegara no celular fazendo o aparelho vibrar. O susto fez a moça soltá-lo. A respiração pesada de alguém que vinha logo atrás podia ser ouvida.

— Escreva — sussurrou uma voz.

Anabela correu para o escritório e fechou a porta assim que passou por ela. Fechou o trinco e começou a vasculhar. Não demorou muito para que ela visse um envelope de papel encardido sobre a mesa. Ao lado do envelope estava o pedaço da folha do caderno dela.

Algo esmurrou a porta

Anabela viu sobre a mesa um isqueiro. Ela queimaria o pedaço de papel e acabaria com isso. Algo úmido escorria pelo rosto dela, o que era muito estranho,ela não sentia como se estivesse chorando. Os passos pararam na frente da mesa, uma mão pegou o isqueiro e a outra o pedaço de papel.

Outra pancada na porta

Os dedos trêmulos lutavam para acender o isqueiro, depois de algumas tentativas finalmente conseguiram. As chamas lamberam o papel.

A porta se escancarou.

Um homem entrou no escritório com passos trôpegos.

— Escreva… Termine… Escreva o resto…

O papel queimava lentamente. Anabela deu a volta na mesa para se afastar do homem.

— Não queime… Não… Termine.

Algo molhado escorreu do rosto de Anabela e pingou no papel, as chamas engoliram o papel de uma vez e por pouco não deixaram os dedos da moça queimados.

— AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHRRRRRRGGGG — urrou o homem ao ver as chamas.

Num ímpeto ele avançou na direção da moça e pulou por cima da mesa. Anabela desviou e correu para fora do escritório. Viu a luz da lanterna do celular no chão e pegou o aparelho antes de bater a porta. A corrida na direção da entrada durou poucos segundos. A moça saiu da loja antes que o avô pudesse entender o que estava acontecendo. Menos de um minuto depois os dois já estava no carro a caminho de casa.

— Eu consegui! Queimei o papel! Tinha um homem lá, ele tentou me impedir, mas eu… — A expressão perplexa do avô fez Anabela parar de falar. — O que foi, vovô?

— O que é isso no seu rosto, Anabela? É tinta?

A moça puxou um espelho da bolsa para ver. Ela não sabia bem o por quê, mas lágrimas pretas de tinta escorriam dos seus olhos.

Outubro

    No Dia das Crianças eu lembrei aqui no blog que no ano passado o Cachorros entrou em férias durante o mês de outubro e nada além de uns dois ou três contos foi publicado. Obviamente eu me esqueci de fazer um comentário sobre esse mês que pra mim é cheio de significado.

Outubro é o primeiro mês do fim do ano. Se o ano só começa depois do carnaval, é correto dizer que ele acaba depois de outubro. Até por que nossos amigos Novembro e Dezembro costumam passar tão rápido que mais parecem um mês só. Olhando por esse prisma temos o nosso querido mês dez como o verdadeiro último mês do ano.

Paremos pra pensar um pouco. Outubro possui apenas um feriado, assim como a maioria dos meses, Novembro e Dezembro possuem dois. Caso Nossa Senhora da Conceição tenha muitos fãs na sua cidade, como é o caso da capital pernambucana, onde eu trabalho, e de Moreno, onde eu resido, Dezembro tem três feriados marotos pro seu ritmo de final de ano passar da marcha lenta pro ponto morto.

Também é nos dois meses finais do ano que o Papai Noel do brasileiro chega. Obviamente estou falando do nosso amigo 13º que nos traz tanta felicidade, alegria e dispara nos nossos cérebros o gatilho das festas de fim de ano. É só a primeira parcela cair na conta que já dá pra escutar Simone cantando dentro da cabeça. Coisa que já não acontece em Outubro. No mês dez a gente ainda tá com a marcha na cadência do tempo acelerado, ainda no embalo da falta de feriados de Agosto e já sentindo a vontade do ano de se acabar logo.

Não podemos esquecer que Outubro é rosa. É nesse mês maravilhoso que rola uma das campanhas mais importantes do ano: a campanha de combate e prevenção do câncer de mama. Que afeta a vida de muitas mulheres todos os anos. Vou deixar anotado aqui pra indicar de alguma forma que o Cachorros de Bikini apóia o Outubro Rosa. Em 2017 a gente vê como fazer isso.

Outubro é um mês bem importante na minha vida. Começa que foi o mês em que, 27 anos atrás, meus pais se casaram. Também foi nele que nasceu minha irmã, a pessoa que não só completou a família, mas também a lotação do carro e garantiu que a gente sempre teria uma desculpa pra negar carona pros outros. Cabe ressaltar que eu não costumo sentir o peso da idade no meu aniversário, eu sinto no dela. É quando eu realmente percebo como a vida passa rápido e o tanto dela que já passou. Em Outubro também teve o casamento do meu irmão, momento único e até então inédito na nossa família. Assim como o aniversário da minha irmã, o casamento do meu irmão foi uma evidência irrefutável de que a vida adulta tinha chegado pra ficar, não só pra mim, mas pra todos os nossos amigos que têm uma idade parecida com a nossa.

Mais 12 dias e começa o fim do ano. Já já começa a torcida pra chegar logo o ano que vem, aquele papo de que esse ano já deu o que tinha que dar e tudo mais. De fato o ano não tarda a encerrar suas atividades. Todo aquele clima de final de ano vai tomar conta de tudo e a sensação de fechar mais um ciclo sempre nos faz pensar na vida… Mas pra mim nem tanto. Tudo que eu tenho pra pensar na vida eu acabo pensando em Outubro.

Contos de Segunda #56

“Nunca escreva quando estiver cansada, nem quando estiver doente e principalmente: nunca escreva enquanto o relógio estiver marcando três da manhã”.

Foram as palavras ditas pelo avô de Anabela quando ela disse, ainda criança, que queria virar escritora. O avô dela era escritor, assim como o avô dele e assim como a paixão pela escrita sempre pulava uma geração, aquele aviso era dito pelos avós para seus netos.

A voz do avô de Anabela foi o último bastião de ordem no caos dos sonhos febris. A moça tinha passado as últimas quatro noites delirando de febre. Ela tinha passado as últimas quatro noites ouvindo os avisos do avô e nos últimos quatro dias ela tinha acordado sentada na escrivaninha, poucos segundos antes de encostar a caneta no papel… Com o relógio marcando três e meia da manhã.

Anabela estava esgotada. Os dias de febre tinham consumido todas as suas energias e o sono não apareceria enquanto o Sol ainda estivesse no céu. A pouca fome dos últimos dias tinha desaparecido naquele domingo. Seja qual fosse a batalha que estava sendo travada ali, não era Anabela que estava ganhando.

“Quando estamos cansados não conseguimos perceber o mal que nos ronda”.

O relógio marcava dez da noite quando o sono chegou. Ela engoliu dois comprimidos antes de deitar. O sono sempre chegava antes da febre e os comprimidos conseguiam ao menos deixar a temperatura controlada.

“Quando estamos doentes temos seres estranhos no nosso corpo, alguns deles gostam de nos fazer escrever o que eles não podem falar”.

Algo estava diferente naquela noite. Anabela nunca estivera tão lúcida durante os sonhos que a febre trazia. Várias cores dançavam na frente dos seus olhos, as estrelas dançavam no céu caleidoscópico e o vento cantava no vazio que a cercava. De tanto tremer, por causa do vento ou da febre, caiu de joelhos e encarou a explosão de cores que a cercava.

“Quando o relógio marca três horas e o Sol não está no céu, as passagens para outros mundos são abertas, dentro e fora da gente”.

O vento deitou Anabela no chão. As cores mergulharam por baixo dela para fazer uma cama, as paredes e a escrivaninha. Uma versão multi cromática do seu próprio quarto. O braço direito se debatia compulsivamente como se procurasse algo, as pernas escorregaram para fora da cama e com um impulso colocaram Anabela de pé. Passos trôpegos levaram a pobre moça para a mesa , a mão direita finalmente encontrou a pena pela qual procurava. A cama se jogou em forma de cadeira para sustentar a moça enquanto a pena dançava sobre o papel e os avisos do avô ecoavam pelo vazio.

Uma eternidade depois as cores se apagaram. a cadeira largou Anabela no chão gelado, o vento rasgou-lhe a pele e a dor encerrou a alucinação.

Quando acordou, Anabela estava no chão do quarto. A febre tinha passado e a sensação de esgotamento era menor. A cadeira tombada serviu de apoio para que ela se levantasse. Na mesa estava um caderno com meia página escrita e um despertador que marcava dez minutos depois das três e meia da manhã. Ainda desorientada, a moça rasgou o parágrafo escrito do caderno e leu. A língua era desconhecida, mas ela conseguia compreender as palavras malditas que ali estavam escritas. Palavras tão hediondas que as últimas forças da jovem foram exauridas. Por horas ela esteve desmaiada. Quando acordou o Sol já iluminava a janela do quarto, mas o pedaço de papel rasgado do caderno não estava mais lá.

Contos de Segunda #52

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia da semana. E dessa vez não poderia ser diferente.

    Era a primeira segunda-feira de Agosto. Agosto era uma espécie de 29 de Fevereiro em doses homeopáticas. Só que no lugar de coisas ruins, eram as coisas improváveis que aconteciam. Aluísio tinha acabado de estacionar o carro no estacionamento do escritório quando o telefone tocou, o número era de Amélia, sua esposa grávida de sete meses, mas a voz do outro lado era do enfermeiro que estava com ela na ambulância. O barulho da sirene e dos gritos da esposa não deixaram Aluísio entender absolutamente nada do que o enfermeiro disse, mas ele não precisava ser um gênio para entender que o bebê ia chegar mais rápido do que o esperado.

    Pulou dentro do carro e virou a chave no contato… Nada. O carro não pegou. Tentou mais uma, duas, três vezes e nada. Sem tempo para uma chupeta na bateria, Aluísio foi pra rua atrás de um táxi. Foi quando lembrou que os taxistas estavam protestando contra os motoristas de um certo aplicativo que estava teoricamente roubando seus passageiros. O jeito foi baixar o maldito aplicativo e chamar um motorista que não estivesse protestando. O tal motorista chegou em dez minutos e antes de ter a chance de oferecer uma água, uma jujuba ou um chocolate, foi metralhado pelo endereço do hospital e uma dúzia de indicações de como chegar lá. Antes que o motorista pudesse puxar qualquer tipo de conversa sobre o tempo, a política ou o Campeonato Brasileiro, Aluísio já tinha avisado a pelo menos vinte parentes por mensagem enquanto ligava para mais meia dúzia.

    Estava tudo correndo bem até que ao virar uma esquina Aluísio deu de cara com o protesto dos taxistas. Antes que o pobre motorista do aplicativo pudesse dar meia volta o carro foi cercado por algumas dezenas de taxistas furiosos. Em poucos segundos Aluísio foi arrancado de dentro do carro e jogado no meio da rua. Com essa manobra exótica o celular de Aluísio decolou e se espatifou no chão. A parte boa disso tudo é que nenhum taxista foi atrás quando ele saiu correndo, a parte ruim é que ainda faltava pagar duas prestações do telefone espatifado.

    Depois de correr por quase um quilômetro, Aluísio chegou no hospital arrependido de todos os seus anos de vida sedentária, mas finalmente estava lá, suado, vermelho e quase tendo uma falência pulmonar. Pronto para testemunhar o nascimento de sua primeira cria. Na contramão do regulamento social vigente, ele e Amélia tinham deixado para saber o sexo da criança no dia do nascimento. Levou alguns minutos para Aluísio localizar a sala de parto, quando ele chegou não pode passar da porta. Ele teve que passar mais meia hora ouvindo toda a sinfonia de gritos que sua esposa estava promovendo dentro da sala, sinfonia essa que foi substituída por outra. Dessa vez os gritos vinham de uma garganta nova em folha. O choro parou, mas depois voltou com força redobrada. Na hora que a enfermeira estava saindo da sala de parto, um exército de parentes invadiu o corredor. Eles chegaram bem a tempo de ver Aluísio desmaiar quando a enfermeira disse:

    “Parabéns, são duas meninas”.

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