Cachorros de Bikini

Desculpe qualquer coisa

“Acho Que Tá Limpa”

    Ontem estava eu manufaturando minha refeição noturna quando tive uma iluminação divina. Um daqueles momentos em que você atenta para algo que sempre esteve ali e sempre passou batido. Tudo aconteceu quando eu usei uma faca e joguei no balcão da pia. Pouquíssimo tempo depois precisei de uma faca olhei pro balcão da pia, mais especificamente pra faca que eu acabado de jogar lá, e pensei: “acho que tá limpa”. Naquele exato instante eu atentei para a maravilha de um sentimento que eu já tinha experimentado. Eu degustei o maravilhoso sentimento de simplesmente não ligar pras coisas.

    O nosso mundo atual coloca na cabeça da gente uma série de preocupações. Preocupação com o futuro, com o passado, com o governo, com os árabes refugiados, com o fim do pacote de dados do celular, com a zika, com a hora de acordar, com a hora de dormir, com a hora de acordar, com o que a gente come ou não come e mais um monte de coisa. Como é saboroso o momento de total abstração, de não se importar, de cagar e andar não estar nem aí e nem vir chegando. Como é deliciosa a inconsequência cotidiana que nos dá coragem pra tomar aquele negócio que já fez aniversário na geladeira ou que nos faz ignorar a existência de germes ou bactérias. Que nos motiva a comer aquele lanche no meio da rua que é praticamente um desacato à saúde pública em forma de alimento gorduroso.

    Diversas vezes eu fui classificado como uma pessoa que não liga pras coisas. Várias vezes de fato eu tive atitudes que reforçam essa verdade, mas nunca tinha parado pra pensar no quanto isso é libertador. É provável que a coincidência de um momento desse acontecer em uma época em que várias coisas consomem meu juízo. Não consigo puxar da memória um momento em que os efeitos terapêuticos de conseguir brevemente parar de me importar com tudo.

    Pra encerrar convido você, querido leitor, a se desapegar um pouco das preocupações. Convido a testar os efeitos terapêuticos de se desapegar das nossas próprias preocupações. A respirar fundo e encher os pulmões com o ar das pequenas irresponsabilidades da vida.

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Tem Pudim e Nada Mais Importa

Ontem minha mãe fez pudim. O fato por si só já merecia um texto, afinal pudim é uma das coisas mais maravilhosas deste e de outros universos. Levando isso em consideração não é de estranhar que o título da presente publicação foi tirado de um pensamento que eu tive quando olhei aquela maravilha na geladeira. Depois de muito tempo sem a existência de tal iguaria sob o teto que cobre minha cabeça apareceu um pudim aqui em casa, a única coisa que eu consegui pensar foi “tem pudim, nada mais importa”. E foi comendo o pudim que eu parei e pensei: o que mais faz com que nada mais importe?

    Pode parecer esquisito, mas esse sentimento praticamente romântico, esse efeito de realidade distorcida, essa percepção turva é um efeito que pode seu causado por qualquer coisa que gostamos bastante. A mesma sensação de estar com o amor da vida pode ser provocada pelas coisas mais simples. Até as coisas mais bestas podem nos envolver no seu glamour e o pudim é apenas um exemplo disso.

    Um livro, um doce, uma bebida, um filme, uma série, uma corrida ou um banho. Pode ser qualquer coisa que nos leve carinhosamente pra dentro de nós mesmos. Que nos faça esquecer do tempo e do mundo, que nós encha de satisfação e alegria. Algo que não precisa ser aprovado por ninguém, tão particular quanto um pensamento ou tão aparente quanto o sorriso que deixa. Quanto mais simples melhor. Até por que é a soma dos pequenos prazeres que deixa a vida boa. Se Deus e o diabo estão nos detalhes, por que não essas pequenas alegrias?

    Pra fechar o texto eu podia listar coisas que me desligam do mundo. Podia fazer um relato sobre algum momento de puro encantamento e fascínio por alguma maravilha cotidiana. Poder até podia, mas hoje não dá. Hoje tem pudim e qualquer outra coisa não importa.

 

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“Eu Vou Celebrar Um Casamento”

A frase que dá título ao texto de hoje apareceu no meu feed do Facebook no início dessa semana. Ela foi escrita por uma grande amiga minha que está pulando num pé só de tanta felicidade. O motivo já dá pra adivinhar, ela vai celebrar um casamento. Ela não é (até onde eu sei) juíza de paz, não é sacerdotisa  e (ainda) não é representante de nenhum tipo de religião. Ela foi convidada pelos noivos apenas por ser uma amiga do casal e principal responsável pela união dos dois, pelo menos foi o que ela disse. Diante da peculiaridade do fato, fico pensando como é passar por uma experiência tão singular.

    Imagine que um casal de amigos te chamou pra ser padrinho ou madrinha. Agora multiplique isso por cem. Provavelmente essa é a sensação de ser convidado pra celebrar um casamento. Somos acostumados a testemunhar as uniões, eu mesmo fui testemunha de um casamento ano passado e fui lá assinar o livro amarradão, mas uma porcentagem ínfima da população vai a um casamento pra promover, diante de Deus e dos homens, a união entre duas pessoas que, pelo menos até aquele momento, desejam passar o resto dos dias juntos. Juntar as escovas de dente, apesar de não ser muito recomendado pelos dentistas, ter aquela velha conversa de alcova, acordar com o mesmo alguém do lado até que a morte os separe. E tudo isso só vai acontecer por que você estava lá diante dos noivos, padrinhos, madrinhas, família, amigos e da divindade preferida pelos noivos pra fazer uma das perguntas mais conhecidas da humanidade. “Você aceita (insira o nome do noivo ou noiva) como seu/sua legítimo/legítima esposo/esposa?”.

    Eu sei que nunca vai acontecer comigo. Mesmo se convidar amigos pra celebrar uniões fosse uma prática comum, eu não sou uma boa opção pra exercer essa função, mas nem por isso eu deixo de imaginar como seria. A sensação de ficar na frente de toda aquela gente, e principalmente na frente dos noivos. Quem já parou pra observar essa dupla já deve ter notado que, pelo menos naquele momento, eles estão explodindo de felicidade. Talvez a seriedade da cerimônia limite um pouco essa manifestação, mas quem celebra o casamento não tem risco de pegar um lugar ruim pra assistir a cerimônia. Quem celebra o casamento não precisa torcer pra não acabar sentando atrás de uma pessoa com dois metros de altura. Quem celebra está lá, diante dos noivos. Duas almas prontas pra atingir o último patamar na escala de evolução dos relacionamentos. Uma felicidade que transborda por todos os lados. Que escorre como lágrimas, que ilumina os sorrisos e faz as mãos se segurarem com uma firmeza nervosa. Mas principalmente uma felicidade que transborda no olhar. E é para o celebrante da cerimônia que os olhos estão voltados. Olhos de quem só quer dizer o “SIM” e dar o fora dali. Os noivos podem ser o centro das atenções pros convidados, mas se você celebra o casamento, você que é o centro das atenções… Pelo menos pros noivos.

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Contos de Segunda #18

Segunda-feira. Feriado. Feriadão. O sol que fez o mês inteiro levou Robson e sua família inteira para a praia. Estava tudo preparado e planejado: a casa estava alugada, as crianças estavam empolgadas, logo cedo eles estariam a caminho e fugiriam do trânsito. Chegando lá eles encontrariam com o irmão e a cunhada de Robson, que normalmente cuidavam das crianças enquanto Robson e sua esposa podiam descansar. Seria tudo uma maravilha… Se tivesse acontecido como o planejado.

A viagem de ida se mostrou um tormento. Dois acidentes transformaram o trânsito numa amostra grátis do inferno. A casa estava lá, mas o irmão de Robson só poderia chegar no domingo, o que não fazia muita diferença, já que uma chuva torrencial começou no sábado e só terminou na noite do domingo. Se a chuva continuasse na segunda a volta seria antecipada para fugir do transito, mas o sol resolveu sair. Robson acabou ficando pelas crianças e passou o dia tentando se preparar psicológicamente para encarar o caminho de volta.

Segunda-feira. Feriado. Fim de tarde. Alternando a atenção entre o carro da frente e o sol no horizonte, Robson tentava descobrir para onde fora o seu feriado. As crianças dormiam no banco de trás, a esposa dormia no banco da frente enquanto ele tentava se lembrar de algo bom que tenha acontecido nesses dias, não estava tendo muito sucesso . O trânsito estava fluindo melhor do que o esperado, logo logo estariam todos em casa. De alguma forma o fato de algo que era quase certo de dar errado estava dando certo trouxe uma paz que Robson raramente experimentava. Durante     o resto do caminho ele encontrou o feriado que estava procurando.

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Contos de Segunda #16

    Moacir deu um pulo da cama quando ouviu o despertador. Ao contrário de boa parte dos dias, hoje ele estava estranhamente bem humorado. O zumbido do ar condicionado passara despercebido, assim como o raio de sol que sempre entrava pelo buraco na cortina. Ele sentia como se nada pudesse estragar seu dia, e ele se esforçaria para tal.

    Quando foi para o chuveiro decidiu que não ouviria rádio. A única estação sintonizável do banheiro sempre tocava músicas bem irritantes e propagandas com os jingles mais chicletes que se tem noticia. Saiu do banho se perguntando por que ele se torturava todas as manhãs ouvindo àquela rádio? Depois de se vestir decidiu que não usaria relógio naquele dia, o relógio era antigo e Moacir sempre esquecia de dar corda. Tal fato era notado bastante tempo depois e gerava uma irritação tremenda no pobre homem. Saiu do quarto se perguntado por que ainda insistia em usar um relógio que sempre o deixava na mão.

    Saindo do apartamento errou o caminho do elevador e foi direto para a escada, quatro andares de escada o separavam do térreo. Com isso deixou de ouvir o barulho produzido pela porta do elevador, que sempre o fazia trincar os dentes de agonia. Enquanto descia as escadas não parou de se perguntar por que não fizera isso antes. Chegou ao térreo e foi direto para a rua, resolveu que não usaria o carro hoje. Em vez de passar mais de uma hora no transito pesado, caminharia por cinco minutos até a rua de trás, pegaria um táxi até o bairro onde trabalhava. Da rua de trás o taxista podia ir pelo sentido que não engarrafava. Ele não se incomodou de caminhar dez minutos até o escritório para que o taxista não precisasse pegar uma rua engarrafada. Tal solução nunca antes tinha passado pela sua cabeça, mas o fato dela ter passado naquele momento acabou deixando o dia um pouco melhor.

    Moacir não precisou se esforçar muito para que o trabalho não estragasse seu dia. Bastaram fones de ouvido e algumas músicas do tempo de adolescente para que nada de ruim entrasse e nada de bom saísse. As queixas dos colegas passaram despercebidas, os gritos do chefe com os fornecedores no telefone foram ignorados. Na volta para casa o plano de usar o táxi funcionou novamente, assim como ir pela escada para não ouvir o elevador. Ao chegar em casa percebeu que o jornal não fora recolhido pela manhã, ao observar a data percebeu que aquele dia maravilhoso tinha sido uma segunda-feira. Diante disso acabou decidindo que não deixaria os dias seguintes serem estragados por nada. Principalmente por ele mesmo.

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Contos de Segunda #15

Amadeu acordou achando o mundo um grande pedaço de cocô orbitando o Sol. Segunda-feira, a mesma porcaria de sempre. Mais um dia estressante no trabalho estava pela frente, cheio de clientes pentelhos, subalternos com inteligência de ameba e superiores que tem parentesco próximo com as portas. Nada na geladeira estava dentro da validade, com exceção da margarina, do óleo de soja e da cola super bonder.

No jornal não tinha uma noticia animadora. Crise, derrota do time do coração, audiência da novela em baixa e outro prédio histórico entregue às baratas. Só faltava ver o resultado da Sena pra desgraça estar completa. Estava lá 03 16 24 43 48 57… 03…16… 24… 43 … 48… 57… Um acertador. Só um. Em quinze segundos Amadeu ficou milionário.

Amadeu levantou da cadeira achando que o mundo era um grande pedaço de chocolate orbitando o Sol, essa estrela maravilhosa e sorridente que acariciava a todos com seu calor gentil. A segunda-feira estava especialmente maravilhosa e um dia sensacional no trabalho estava pela frente. Como sempre os clientes, criaturas tão simpáticas e gentis ocupariam o telefone durante todo o dia, mas Amadeu sabia que podia contar com seus colegas. Seus subordinados eram tão capazes e talentosos que davam orgulho. Sem contar os seus superiores que eram tão habilidosos na gestão das pessoas quanto na gestão dos negócios. Infelizmente a comida da geladeira continuava vencida. De fato algumas coisas não podem melhorar com uma simples mudança de ponto de vista.

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Contos de Segunda #13

Robson queria fugir. Não, ele não é parte da população carcerária Brasileira. Robson trabalha num escritório de direito, de terno e gravata, todos os dias das 8 às 17. Não havia ninguém tão correto no trabalho quanto ele, que sempre chegava no horário e nunca faltava, mas secretamente ele nutria um desejo: fugir do trabalho

A raiz disso está nos tempos do colégio. Um belo dia o jovem Robson escapuliu do colégio cerca de uma hora e meia mais cedo do que o normal. Não parece muito, mas aquela sensação de estar em um lugar onde não deveria embriagou aquele adolescente que hoje estava dentro de um escritório. A sensação de fugir com certeza seria mais forte, pelo menos era isso que ele imaginava, e só era possível fazer tentando.

Ao longo da semana anterior Robson plantou uma série de informações falsas e, até certo ponto, contraditórias. A secretária do departamento sabia que ele estaria no fórum, seus amigos de baia o ouviram comentar sobre como estava chegando o último dia para recorrer de uma multa de estacionamento que ele levou por engano, a recepcionista lembrava de ouvir algo sobre ele precisar ir ao médico, seu chefe estava em reunião com clientes importantes durante todo o dia. Ninguém estranharia a ausência dele.

A ideia não era simplesmente escapar e ir para casa. Ele fugiria para algum lugar onde as pessoas estariam plenamente convencidas de que ele não devia estar ali. Por isso ele iria para a praia, de gravata, em uma segunda-feira. Quando a hora do almoço chegou ele esperou que todos saíssem, pegou suas coisas e partiu. Passou o corredor com passos acelerados, evitou o elevador e desceu os quatro andares de escada até o estacionamento, no dia em questão ele tinha vindo com o carro da irmã que, apesar de ter uma cor meio feminina, tinha uma película escura nos vidros. Chegou na rua e foi para a praia.

Liberdade. O gosto doce daquela dama preenchia sua boca e transbordava em forma de um largo sorriso. Nem o transito, nem a falta de vagas desanimaram Robson, muito menos o tempo meio nublado. Quando os pulmões dele se encheram daquela brisa salgada e ele viu um homem bastante familiar sentado em uma cadeira na areia. Embaixo de um guarda-sol estava o seu chefe, de gravata e com as mangas arregaçadas, tomando água de coco com um ar de felicidade extrema. Robson decidiu que iria para casa, pelo menos seus dois filhos estariam plenamente convencidos de que ele não deveria estar ali.

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Mandamentos de um Adulto Feliz

Outro dia passeando por um site de notícias me deparei com um link bem interessante: “Os 9 Mandamentos de um Adulto Feliz”. Prontamente cliquei no link, não por ser um adulto infeliz, mas eu queria saber quais eram os tais mandamentos. Fui bater num daqueles sites que falam de moda, life style, e todas essas coisas que estão tão inseridas na minha vida quanto a migração das baleias jubarte. Mas como eu li a postagem antes de perceber qual era a do site consegui ler o texto sem preconceitos.

Antes de continuar recomendo que leia o texto nesse link aqui. Só pra nivelar o papo, mas se essa não for a sua vontade, caro leitor, não vai ter prejuízo algum. Agora voltemos ao tema.

Particularmente eu gostei dos mandamentos. O texto é bem escrito e alguns dos mandamentos são relacionados com filmes, o que ajuda a justificar o ponto da autora. Mas uma coisa me veio à mente quando terminei de ler: eu li esse texto por que eu sou um adulto.

Quando a maior parte da sua vida é composta por infância e adolescência não é tão fácil se imaginar como um ser humano adulto. Eu devo ter começado a me ver como tal lá nos meus 20 anos, quando eu comecei o meu estágio. De fato a vida profissional é a forja da vida adulta, tanto é que ao longo da história da humanidade os adultos se tornaram adultos cada vez mais tarde conforme o tempo passava, com isso foram aparecendo cada vez mais períodos de transição. Adolescência não existia até um dia desses e o termo Jovens Adultos já começa a aparecer. Como eu nunca consegui me sentir mais velho do que eu de fato era, imediatamente me enquadrei como um jovem adulto. Por que pra mim um jovem adulto é uma espécie de Pinóquio. Ele só quer ser um adulto de verdade.

Pode parecer exagero, mas ao atingir a maior idade nos tornamos adultos… só que não. Continuando com a analogia do Pinóquio podemos comparar o nosso aniversário de 18 anos com a noite em que o Pinóquio ganha vida.  Ele fica lá todo serelepe por que ficou vivo, que não tem mais cordões nele (sim, eu sei desse lance dos cordões por que assisti Vingadores, não por lembrar do filme do Pinóquio). Mas ele começa a notar que ser um boneco não é suficiente. Então ele corre atrás pra tentar virar um ser vivo de verdade.

Eu nunca fiz questão de correr atrás de coisa alguma pra virar um adulto de verdade, eu estava muito ocupado tentando me acostumar a ser um um adulto de madeira, talvez por isso eu fiquei tão surpreso com meus próprios pensamentos quando terminei o texto dos 9 mandamentos. Durante todo esse tempo eu devia estar tão distraído com o fato de ser um boneco que ganhou vida que não notei que estava me transformando em um menino de verdade. Tanto é que quando eu finalmente comecei a perceber eu já era de carne e osso.

Por não me enxergar como adulto nunca havia parado pra pensar em ser um adulto feliz. Por não ter alimentado meus momentos de infelicidade nunca havia parado pra pensar na felicidade como um objetivo de vida. E talvez por isso eu tenha gostado tanto do ultimo mandamento: crie seus próprios mandamentos. Como eu não poderia deixar de exercitar minha criatividade aqui vai um mandamento meu:

Não persiga a felicidade como se ela fosse a coisa mais importante, não transforme satisfação em obrigação. Deixe pra lá o que te faz infeliz, o que te faz feliz aparece por consequência.

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