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Tag: Mitologia

Contos de Segunda #95 – Lágrimas Pretas

— O que tem lá fora, Mãe-Adria?

A pergunta não pegou Adria de surpresa. Nada pegava Adria de surpresa. Ela era uma sentinela. A mais antiga delas. A maior de todas. A quantidade dos desenhos com padrões intrincados que cobriam a maior parte da sua pele cor de barro denunciavam sua idade. Antiga, mas eternamente jovem, como todas as outras que moravam ali. Ela guardava as portas da Casa do Pai, uma tarefa perigosa e solitária… Pelo menos era, antes de Penélope ter idade para andar pela Casa com as próprias pernas. Nenhuma criança chegava perto da porta, os jardins eram muito mais coloridos e cheios de vida do que a paisagem que Adria observava, dia após dia, ao longo dos séculos. As silhuetas distorcidas das árvores mortas eram as únicas coisas que se erguiam acima da névoa. Depois de um breve silêncio, veio a resposta:

— Morte. Desolação. Os horrores da terra. Ruínas de tempos passados. Para nós há desespero, dor e o medo da morte.

Não havia emoção alguma nas palavras de Mãe-Adria, nunca havia. Penélope hesitou em continuar a conversa. Seus pensamentos se encheram do medo das coisas que povoavam as histórias que tiravam seu sono… Mas Mãe-Adria estava ali. Ela não precisava ser corajosa, a coragem da sentinela era suficiente para as duas.

— A senhora já saiu algum dia da Casa do Pai?

— Todas aquelas nascidas para a guerra já saíram. A terra desolada é nossa prova. Onde nossas habilidades são testadas. Nem todas retornaram.

— Eu sou nascida para a guerra, Mãe-Adria?

— Isso será sabido a seu tempo, criança. Quando tiveres tamanho para manejar uma arma e vestir uma armadura, a tua chama te mostrará. Quem é nascido para a guerra é chamado para fora. Não conseguimos resistir. Aprendemos a lutar para conseguir retornar.

— Temos tudo que precisamos aqui dentro, por que alguém teria vontade de sair?

— Lembras das histórias de Mãe-Kala? Sobre nossa vida antes de chegarmos na Casa do Pai?

— As primeiras de nós moravam lá fora. Elas viviam espalhadas pelo mundo antes dos horrores tomarem conta da terra.. Os jardins se estendiam por léguas sem fim e as mulheres pintadas eram livres… Mas os horrores chegaram e consumiram tudo. A Casa do Pai era o último lugar seguro. As últimas de nós chegaram aqui e conseguiram refúgio.

— Quase fomos exterminadas. Éramos pouco mais de duas dúzias quando chegamos à Casa do Pai. Ele nos ensinou a criar outras mulheres pintadas. Nos tornamos Mãe. Sobrevivemos… Mas a vida antiga nos chama, a todas nós. Nem todas conseguem ouvir, mas as que ouvem não conseguem resistir.

Penélope encarou pensativa a face da desolação que se erguia para além da porta. Seus olhos se perderam nas sombras imóveis das árvores há muito mortas. Imaginou como seria andar por lá. Tentou adivinhar a temperatura da névoa e o som de seus passos nas pedrinhas sobre a terra seca.

E viu os olhos.

Pensou estar sonhando acordada. Sacudiu levemente a cabeça. Os olhos eram luminosos. Estavam longe, ela tinha certeza, mas pareciam tão perto. Duas fendas por onde uma luz verde escapava. Mãe-Adria ajoelhou ao seu lado e passou o braço sobre seus ombros.

Foi quando ela percebeu que estava tremendo.

— Volte para dentro, criança — disse a sentinela em um sussurro. — Preciso trabalhar.

A noite não tardou a chegar. Após a refeição, muitas se juntaram ao redor das fogueiras para conversar e trocar histórias. A fogueira de Mãe-Kala era a preferida das mais novas, principalmente Penélope, mas os olhos na névoa ocupavam seus pensamentos, hoje não havia ânimo para ouvir sobre o passado. Decidiu dormir mais cedo, mas o medo dos próprios sonhos afastou o sono por algumas horas… Sem lembrança de ter adormecido, a menina foi acordada por vozes nervosas e pés ligeiros. Saindo do quarto encontrou apenas rostos confusos de outras meninas, igualmente acordadas pela agitação nos corredores.

— Volte para cama, criança — disse Lissa, uma jovem guerreira que dormia no quarto ao lado.

— Algo aconteceu, irmã?

— Ainda não sei, mas parece sério. Volte para dentro e não saia.

Lissa não ficou para ouvir uma resposta, outras guerreiras a levaram. Tudo estava muito agitado e provavelmente ficaria assim por mais algum tempo… Tempo suficiente. A janela do quarto de Penélope dava para um dos jardins, o jardim ao lado do templo, onde as mulheres mais velhas se reuniam quando algo sério acontecia. Todas as Mãe moravam lá e nove delas formavam o conselho. Provavelmente as portas do templo estavam sendo vigiadas, mas isso nunca foi problema.

As mulheres pintadas que serviam como sacerdotisas conduziam seus rituais de purificação em uma fonte do jardim anexo ao templo. Não era raro ver as crianças passando pela cerca viva para entrar no jardim, raro era ver uma criança usar o jardim para entrar no templo. Do jardim para a câmara de preparação dos rituais e da câmara para o átrio, era onde todas estavam. O átrio era ricamente adornado com flores que se derramavam dos jarros como uma cascata colorida, pelo menos durante o dia. À noite, as flores perdiam suas cores, emitiam o brilho da lua. As mulheres pintadas, com suas peles avermelhadas, pareciam cinzentas, frias, sob a luz das flores. Um silêncio mortal recaía sobre o átrio.

Todas as Mãe estavam reunidas junto com as sacerdotisas e algumas das guerreiras mais graduadas.. Formavam um semicírculo diante das nove cadeiras cor de barro do conselho. Penélope se esgueirou por trás de uma cortina e se misturou com os ramos que desciam por um dos jarros na esperança do assunto tratado ser sério o suficiente para manter as adultas distraídas demais para notá-la. .

Em pé, de frente para o conselho, estava Mãe-Adria… Ela não deveria estar… Deveria estar sentada, junto das outras oito, mas era Mãe-Hera quem ocupava sua cadeira..

— O que faremos, irmãs? — Questionou Mãe-Almira. Ela olhava para as outras Mãe sentadas ao seu lado.

— O que sempre fizemos — respondeu Mãe-Adria. — Meu destino não pode ser diferente.

— Ela está certa — disse Mãe-Kala com a voz embargada. — Ela deve ir, não podemos deixar que se espalhe.

— Mas Adria é Mãe, não deveria ter esse fim — retrucou Mãe-Hera.

— Sou barro, sangue e fogo como todas as outras, irmã — respondeu Mãe-Adria. — Vivi e matei mais do que qualquer guerreira. Minha hora é mais que chegada. Não há outro jeito.

— Não há outro jeito — reforçou Mãe-Kala.

— Esse tem sido nosso fim desde antes dos horrores consumirem a terra —  lembrou Mãe-Gae. — Lágrimas pretas escorrem dos olhos de Adria, ela se quebrou.

Penélope pensou sentir frio. Seu corpo tremia. As palavras de Mãe-Gae não tinham significado para ela, mas eram palavras ruins. Muito ruins.

— Não fomos feitas para morrer — lamentou Mãe-Hera.

— E por isso morremos — replicou Mãe-Adria. — Olhe para mim, irmã.

Penélope olhou… E viu. Algo parecido com tinta escorria dos olhos de Mãe-Adria. Gotas grossas desciam pela face, mas não pingavam no chão.

— Diga que tenho salvação. Conte a todas aqui presentes que há uma forma, até agora desconhecida, de mudar meu destino.

— Poupe-me de teus deboches, Adria — esbravejou Mãe-Hera. — Poupem-me dessa tradição arcaica e desses rituais derrotistas. Por anos sem conta desistimos de nossas irmãs. Por anos sem conta nossas irmãs aceitaram um destino que não precisava ser delas.

— Quem aqui é antiga o suficiente para lembrar? — Interrompeu Mãe-Moira. — Kala, Almira, talvez Adria? Quem é antiga o suficiente para lembrar da primeira de nós que se quebrou? — Dizia ela enquanto examinava o rosto das demais. — Quem pode lembrar da primeira mulher pintada que chorou lágrimas pretas? Quem dentre as presentes viveu o pânico e encarou a insanidade? Adria não pode mais permanecer entre nós. Não há decisão a ser tomada.

Penélope estava paralisada. Seu corpo tremia. As lágrimas rolavam dos olhos sem que ela notasse. A reunião prosseguiu por mais algum tempo, mas nada do que foi dito depois fez sentido algum para a menina. Mãe-Adria estava quebrada, seja lá o que estar quebrada pudesse ser. Ela precisava sair da Casa do Pai… Voltar para fora… Lá fora só havia desespero, dor, o medo da morte…  E os olhos na névoa.

A escuridão tomou conta dos olhos da menina. Tudo desapareceu.

— Acorde, criança. Se souberem que estavas aqui durante a reunião passarás o resto da eternidade de castigo.

Penélope ficou desnorteada por alguns instantes.  Ela estava sentada, recostada sobre em uma parede, envolvida pelos ramos que desciam de um jarro. Não lembrava de ter adormecido, talvez tenha desmaiado.

— Mãe-Adria? Eu… Onde… Mãe-Adria! — Gritou Penélope se jogou nos braços da sentinela e a abraçou com força. — Eu… Ontem… Não vá embora!

— Preciso ir, criança. Enquanto ainda posso. Um destino ainda mais terrível me aguarda se permanecer na Casa.

— Mas quem vai guardar a porta?

— Nossas guerreiras são habilidosas, não há motivos para temer.

— Elas não são antigas, não são fortes… Não como a senhora.

— Olhe para mim, Penélope.

A menina soltou o abraço e olhou para Mãe-Adria. Sua pele cor de barro estava pálida. Seu rosto tinha pequenas rachaduras e as lágrimas pretas corriam sobre ele.

— Meu tempo acabou. Minha chama está se apagando. Em pouco tempo não poderei guardar a porta ou treinar as novas guerreiras. Devo ir para o lugar de descanso enquanto ainda posso.

— Fica muito longe?

— Não para quem conhece o caminho.

— A senhora vai sozinha?

— Preciso.

— É perigoso?

— Para mim? Não. Agora chega de perguntas. O sol está nascendo. Vá antes que te descubram.

A menina obedeceu sem questionar. Estava triste demais para ser castigada. A luz da aurora começava a romper o véu da noite. Os jardins ainda estavam escuros, frios e vazios. Sem ser descoberta, Penélope chegou até a janela do quarto, pulou para dentro e escorregou por baixo dos lençóis frios. Lembrou de Mãe-Adria, de como nada parecia abalá-la. Desejou poder se despedir de forma mais adequada. Perdeu-se em pensamentos e adormeceu.

 

***

Os olhos de Adria corriam pela paisagem. As portas da Casa do Pai estavam abertas atrás dela. Ao seu lado estavam Moira, Kala e Almira.

— Quando foi a última vez em que estivemos juntas diante destas portas, irmãs? — Perguntou Almira.

— Todas juntas? Só no dia em que chegamos na Casa — relembrou Moira. — E nenhuma vez depois dessa.

— Seiscentos e trinta e sete anos — acrescentou Kala. — Chegamos aqui juntas faz seiscentos e trinta e sete anos. Das primeiras a nascer, fomos as únicas a chegar.

— Mulher pintada. Moldada pelos deuses… — começou Moira.

— … Carne de barro e sangue, que o tempo desenha, adorna, nunca desgasta… — respondeu Kala.

— Alma de fogo e vontade. Chama eterna, vida sem morte — completou Almira.

— Vida que morte não leva. Vida que a si mesma se encerra — terminou Adria.

— Não fomos feitas para morrer — lembrou Almira.

— E por isso morremos — replicou Moira.

— Como isso  pôde acontecer, Adria? — Questionou Kala. — Não há nenhuma outra dentre nós que enfrentou a morte tantas vezes. Que encarou a face dos horrores tantas vezes por tanto tempo.

— Vi coisas na névoa, irmã. Coisas que não deveriam estar ali.

— Passaste por tanto. Viste o mundo morrer e encaraste a certeza da extinção — relembrou Almira.

— E ainda assim estou aqui. A carne trincada, vertendo lágrimas pretas pela face — rebateu Adria. — Não te julgues menor só porque paraste de lutar antes de mim, irmã. Tudo que vi de pior não vi sozinha.

— Almira amoleceu com os anos, irmã — provocou Moira

— Todas nós, Moira — brincou Kala. — Quando foi a última vez em que seguraste uma lança ou uma espada?

— Todas nós… Menos Adria — disse Almira.

Silêncio.

Nunca era fácil ver uma mulher pintada partir da Casa do Pai. Nem todas suportavam presenciar esse momento. Adria nunca teve essa escolha. Ela guardava a porta. Sempre. Ao longo dos séculos viu todas aquelas que foram quebradas partirem na direção do lugar de descanso.

— Quantas de nós já se foram, Kala? — Questionou Adria.

— Cinquenta e três irmãs… Desde que chegamos aqui. A última partiu faz quase duzentos anos.

— Tempo suficiente para esquecermos da sensação — completou Moira.

— Eu vi todas — começou Adria. — Todas as que partiram. Para mim foram tantas. Incontáveis. Senti por cada uma delas. Sinto ainda mais agora.

— Não teria contado se não cuidasse dos registros — tremeu Kala. — Aquelas que partiram sempre serão honradas em nossas histórias… Mas nenhuma como Adria.

— A Campeã de Barro — disse Almira.

— Guerreira Mais Antiga — lembrou Moira.

— Mestra dos Exércitos — completou Kala.

— Uma sentinela das portas — rebateu Adria. — Como aquelas que virão depois de mim e as que virão depois delas. Os títulos que tive são títulos de um mundo morto. Nada do que fiz antes foi mais importante do que fiz enquanto guardava estas portas.

— O sol se levantou… Está na hora — disse Almira com pesar. — Tragam as armas — ordenou.

Duas guerreiras vieram. Ataram um escudo às costas de Adria. Uma espada e uma faca foram presas ao seu cinto. Uma lança foi colocada em sua mão. Depois de entregar as armas se retiraram

— Te lembras do caminho? — Questionou Moira. — Se te apressares chegarás lá ao anoitecer.

— Assim que me for… Chamem as cinco que escolhi para guardarem a porta… Não sei o que pode acontecer lá fora… Se eu tentar voltar… Elas sabem o que fazer… Adeus, minhas irmãs.

 

***

A névoa era fria. Mesmo ao meio-dia, mesmo durante o verão. A névoa era fria. Adria não sentiu frio. Não sentiu a umidade da névoa ou o calafrio de sempre ao caminhar para dentro dela. “Uma distração a menos”, pensou ela. Passos tranquilos e largos conduziam a sentinela à trilha que deveria tomar. Seu caminhar leve era marcado pelo som dos pés na terra morta. Quase tudo parecia diferente. Menos hostil, menos inóspito. Exceto por uma coisa.

Silêncio.

Nada estava vivo ali. Tudo fora consumido pelos horrores da terra nos séculos passados desde o seu surgimento. Nada respirava, comia ou cantava naquele lugar. Nem em lugar algum.

O mundo exalava morte.

Adria exalava morte.

Chorava morte.

Estava morta e, a cada passo, morria um pouco mais.

Adria testemunhou a morte de todos os tipos de seres. Muitas dessas mortes foram causadas pelo fio de sua espada, pela ponta de sua lança ou pela força de suas mãos. Grandes, pequenos, feras, príncipes, servos e santos. Mulheres pintadas ou homens comuns. Todos pereceram aos olhos de Adria, mas a morte lhe era tão alienígena quanto para suas irmãs. A morte foi feita para os outros. As mulheres pintadas não foram feitas para morrer… E por isso morriam.

Adria se deixou fazer algo que era vedado a qualquer sentinela. Deixou-se distrair pelos pensamentos. Para seres tão antigos quanto ela, lembrar era quase como sair em uma viagem. Algumas memórias estavam longe demais, aguardavam preguiçosas por uma visita que há muito não ocorria. Mas visitar as memórias era algo que Adria deixava para Kala, o presente era uma ocupa…

Passos.

Passos apressados vindo logo atrás.

Rápida como uma criatura leve, mas desajeitada como uma criatura grande. Uma faca cravada no meio de um dos olhos seria suficiente para frear a investida. Sacou rapidamente a faca do cinto, esperou a criatura chegar mais perto, preparou o arremesso e se virou pronta para atirar a lâmina no olho do que quer que fosse… Mas ela não estava pronta para o que viu.

— Que fazes aqui, Penélope?

— Vim encontrar-me contigo, Mãe-Adria.

Adria passou os olhos pelos arredores antes de voltá-los para a menina.

— Percebes o absurdo que acabas de dizer? A Casa do Pai é o único lugar seguro que conhecemos. Vieste de lá, sozinha, para te encontrares comigo?

— Quando a senhora fala desse jeito parece muito pior do que realmente é.

— Não posso te proteger, criança. Não do jeito que estou. Estou indo para um lugar do qual não posso voltar. Mesmo que sobrevivas até lá, não posso garantir tua segurança no caminho de volta.

— Ainda falta muito?

— Mais da metade do caminho.

— É perigoso?

— Sim, muito.

— A senhora não pode me proteger?

— Não.

— Por quê?

— Porque tenho medo, Penélope. Tenho medo da morte. Por isso estou morrendo.

A menina não respondeu.

Adria voltou seus olhos para o caminho que seguia. Pensou no quanto ainda faltava para chegar ao lugar de descanso. Lembrou dos seres à espreita na trilha e daquilo que viu na névoa. Voltar para a Casa custaria o resto do dia e o tempo corria veloz, quanto mais rápido ela seguisse, mais fácil seria chegar ao destino.  Soltou a faca do cinto, rasgou das suas roupas uma fita e prendeu a arma na cintura de Penélope.

— Eu sei que não sabes manejar uma faca da forma devida, mas não posso te deixar desarmada.

Com o rosto iluminado, Penélope sacou a arma da bainha. A lâmina parecia bem mais longa nas mãos da menina. Era leve e bastava olhar para perceber o quão afiada ela era.

— Se alguma coisa vier para cima de ti, não ataque. Firme os pés no chão, segure a faca com as duas mãos e deixe que o peso da coisa faça o resto. Se algo conseguir te morder é só cravar a faca no olho, deve te dar tempo de fugir ou de pensar em algo. Fui clara?

Para Penélope, manejar armas sempre pareceu algo divertido. Não parecia mais.

— Se conseguir acertar algum golpe — continuou Adria —  não deixe o sangue secar na lâmina, tem algo no sangue dos horrores que deixa as armas cegas. Se nada disso acontecer, deixe a faca dentro da bainha. Agora mostra como seguras a faca.

Penélope tentou se lembrar das vezes em que assistiu ao treinamento das guerreiras. Nunca viu nenhuma delas usando uma faca, mas Mãe-Adria pedira para segurar as facas com as duas mãos… Como se faz com uma espada.

A menina imitou a postura das guerreiras o melhor que pôde.

— Afaste um pouco os pés… Não segure a faca tão perto do corpo… Olhe sempre para frente, não esqueça.

Penélope confirmou com a cabeça tentando disfarçar a empolgação.

— Agora vamos. Não saia das minhas vistas e mantenha o passo. Ainda temos um longo caminho pela frente.

Uma sombra colossal se erguia ao longe. Depois dos bosques mortos estava uma montanha outrora tida como sagrada. Uma trilha cuidadosamente marcada conduzia até uma abertura a algumas centenas de metros acima do chão. Lá ficava o lugar de descanso das mulheres pintadas.

— A senhora está quebrada, Mãe-Adria? — Disse Penélope se virando para a sentinela.

— Sim… Mantenha os olhos no caminho, o terreno está começando a ficar pedregoso.

— Como uma pessoa quebra?

— Não é qualquer pessoa, só as mulheres pintadas… O que sabes sobre a morte, criança?

— Que ela não tem parte conosco. Coisas podem nos matar, mas não morremos de velhice ou doença. Não fomos feitas para morrer.

— E por isso morremos.

— A senhora falou isso para as outras Mãe… O que quer dizer?

— Todos os seres mortais que viveram antes da chegada dos horrores possuíam apenas uma certeza, de que sua vida teria fim em algum momento… Não te distraias, ande mais rápido.

A menina endireitou a postura e acelerou o passo.

— Para as mulheres pintadas a morte é algo que chega para os outros. Sabemos que podemos morrer, mas dificilmente acreditamos que morreremos de fato, mesmo diante do perigo mortal… Porém, para algumas, a morte vira uma certeza… Tememos. Temos medo porque não a conhecemos, como disseste, ela não tem parte conosco. E quando tememos… Quebramos.

— E choramos lágrimas pretas.

— E choramos lágrimas pretas. Uma mulher pintada que se quebra vai aos poucos perdendo sua sanidade. Primeiro vemos as coisas como elas não são, tudo se torna uma ameaça. Depois vemos coisas que não existem, dias e dias de delírios sem fim. Por último vemos como inimigos qualquer um que estiver na nossa frente, uma fúria assassina que só a morte pode aplacar… Por isso criamos o lugar de descanso. Lá podemos encontrar o fim em paz.

Penélope não prosseguiu com a conversa. Talvez a menina sentisse o mesmo que Adria…

Algo se aproximava.

Não havia som que denunciasse a presença de coisa alguma… Mas estava lá. O que quer que fosse, estava lá. A sentinela apurou os ouvidos.

Asas.

Um distante bater de asas. Asas pesadas. Um horror voador vindo por trás.

Mais um bater de asas.

Adria se virou e viu a criatura iniciando seu mergulho.

— Penélope, corra.

A menina olhou para trás, mas só conseguiu ver sua guardiã correndo em sua direção. “Apenas alguns metros”, pensou Adria, “só mais um pouco… Um… Dois… Três!”

Ela se jogou sobre a menina caindo abraçada com ela no chão. Com um golpe as garras da criatura arrancaram o escudo das costas de Adria. Com a lança em punho, a sentinela se pôs de pé e preparou o arremesso. O monstro se afastou manobrando em círculo e ganhando altitude, preparando o próximo mergulho. As garras pendiam nos braços raquíticos da fera, saliva escorria pelos dentes, os olhos verdes brilhantes iluminavam a face animalesca que destoava do resto corpo, coberto de penas, assim como as asas. Quase como se aquele horror vestisse o corpo de um pássaro gigante.

“Vou morrer”, pensou Adria.

Sacudiu a cabeça como se quisesse jogar fora aquele pensamento.

A fera não parecia tão ágil. Grande demais para uma manobra de última hora. Qualquer guerreira com metade da experiência de Adria derrubaria a criatura de olhos vendados.

“Vou errar o arremesso e morrer”

Sem a necessidade de permanecer oculto, o monstro desceu em seu mergulho soltando um grito feral que encheu Adria de terror. Suas pernas ficaram bambas. A postura de arremesso cedeu. Os dedos frouxos por pouco não soltaram o cabo da lança. A respiração acelerou. O coração martelava no peito. As lágrimas corriam, ainda maiores, ainda mais rápidas.

— AAAAAHHHHHH.

O grito apavorado da voz infantil trouxe Adria de volta. Os dedos se firmaram ao redor do cabo da lança. Não havia tempo para preparar um arremesso, mas era uma boa oportunidade para colocar em prática os conselhos dados a Penélope. Segurando a lança com as duas mãos, Adria aguardou o golpe do adversário que descia em diagonal na direção dela  e de sua protegida. Bastava aguardar até o momento certo.

“Vou morrer… Não solte essa lança nem morta”.

No último instante, Adria inclinou o corpo para trás, apoiando o cabo da lança no chão. Com a arma exatamente no ângulo de descida da criatura. Perto demais para sequer entender a armadilha em que caíra, o horror mergulhou sobre a lança.  A ponta entrou pela boca e saiu pela nuca da fera que desabou pesada sobre a sentinela.

Penélope se levantou do chão. Bateu a poeira das roupas enquanto procurava por Adria. Mas tudo que viu foi o corpo cheio de penas da criatura tombada.

— Mãe-Adria? MÃE-ADRIA! — Gritou ela correndo na direção do monstro.

A carcaça se moveu de leve quando a guerreira saiu debaixo dela. Tudo que o horror voador conseguiu fazer foram alguns cortes nos braços de Adria e quebrar o cabo da lança ao meio.

— A senhora conseguiu — disse a menina cheia de empolgação.

— Foi por pouco.

— Aquilo era…

— Um horror… Um horror voador, faz tempo que não vejo um.

— Todos os horrores são feios assim?

— Só os mais bonitos… — Adria retirou a lança do horror abatido. — Me ajude a encontrar o escudo.

Penélope se apressou para procurar o escudo, mas a neblina tornou a tarefa impossível. Logo o desânimo se apossou da menina. O ataque do monstro provavelmente o arremessara para muito longe.

Enquanto sua companheira buscava sem sucesso pelo escudo, Adria parou para observar os arredores. Assim como antes, nada fazia som algum… Mas havia algo.

Olhos.

Dois olhos verdes. Dois pontos luminosos ao longe. Menores que os de um horror normal. Exatamente na altura dos olhos de Adria.

Elas não podiam permanecer ali.

— Encontraste o escudo? — Falou a sentinela tentando controlar a respiração que voltava a acelerar.

— Não — respondeu a menina emburrada.

— Temos que continuar. Fizemos muito barulho, não sabemos o que pode ter ouvido — ela sabia.

— Mas e o escudo?

— Teremos que fazer o resto do caminho sem ele. Vamos, criança, precisamos chegar à montanha… E Rápido.

O silêncio tomou conta do resto do caminho até a trilha. A neblina ficava mais e mais densa quanto mais as duas se aproximavam da montanha. Conforme a visibilidade piorava, aumentavam as marcações no caminho. Pequenas pedras com um brilho verde, perfeitamente visíveis dentro da névoa. Verdes, brilhantes, como os olhos dos horrores. Olhando compulsivamente por sobre seus ombros, Adria procurava por qualquer sinal de um par de luzes verdes em meio à neblina. As lágrimas pretas corriam rápidas e grossas pela face da guerreira. Os joelhos desejavam o chão, os pés pesavam como pedras, o ar entrava pesado nos pulmões…

— Chegamos? É aqui?

A voz de Penélope, mais uma vez, fez Adria voltar a si.

— Sim — respondeu depois de alguns segundos. — Só mais um pouco e estaremos no lugar de descanso

Um portal esculpido de pedra marcava o início da trilha. Um corredor sinuoso escavado na rocha, estreito demais para qualquer criatura maior do que uma mulher pintada passar… “Não é o suficiente”, pensou Adria. Mais uma vez seus olhos correram pelos arredores. Sob a densa neblina aos pés da montanha, apenas as marcações da trilha eram visíveis. As marcações da trilha… E dois olhos. Verdes, luminosos, erguidos acima do caminho e se aproximando devagar.

— Não podemos parar agora, criança.

— Não podemos — respondeu Penélope tomando Adria pela mão. — Venha, vou levá-la até lá.

A mão da guerreira estava fria. Penélope fingiu não perceber. A Mãe parecia cansada aos seus olhos, mas não precisava ser lembrada de como as coisas não estavam indo bem. Guardou para si a estranheza do toque, a aspereza da pele ressecada nos dedos cobertos de calos. O tempo se perdeu na subida. Os passos acelerados no início, se transformaram em um caminhar quase preguiçoso de quem queria que aquele momento durasse mais, durasse muito, durasse para sempre.

O véu da noite caiu pesado sobre a terra desolada. Centenas de metros acima da névoa, estavam Adria e Penélope. Dali era possível ver o céu estrelado, a névoa cobrindo o mundo como um manto de nuvens e, ao longe, as luzes alaranjadas das tochas e fogueiras acesas na Casa do Pai.

— Espero que não estejam muito preocupadas comigo.

— Não é a primeira vez que desapareces, Penélope. Só estariam preocupadas se soubessem o que estás fazendo.

— Vou passar o resto da eternidade de castigo, não é?

— No teu lugar me preocuparia menos com as coisas futuras. O presente é mais que o suficiente. O caminho terminou, mas a jornada ainda não. Olhe — apontou Adria para a face da montanha.

A entrada do lugar de descanso era uma fenda na rocha. Um número sem conta de inscrições em várias línguas emolduravam a passagem. Brilhando com a luz das estrelas.

— Milhares de anos atrás… Kala reuniu todas as sábias nesta montanha. Pintaram esta fenda e o salão depois dela com milhares de encantamentos. Para dar força ao ritual e não permitir que coisa alguma além de uma mulher pintada pudesse entrar.

Adria suspirou profundamente. Talvez a proteção mágica da caverna mantivesse… Aquilo do lado de fora.

— Venha. O passado é ainda mais bonito do lado de dentro.

E era.

As inscrições cobriam o piso, as paredes e o teto de um salão octogonal. Em cada canto havia a estátua de uma mulher pintada, igualmente coberta de inscrições. As letras iluminadas enchiam o lugar de uma luz cálida que não deixava sombra alguma se formar ali dentro.

— Quem são elas, Mãe-Adria?

— As primeiras a nascer. Ali está Moira, outrora famosa estrategista em batalha e perita em várias formas de combate, éramos rivais antes dos horrores consumirem a terra. Kala, outrora mestra de todas as sábias e a última guardiã do conhecimento antigo, a memória de todas nós. Almira e sua irmã gêmea, Alara, as primogênitas. Nunca fomos governadas por outras além delas. Nunca tomaram para si o domínio sobre nós, mas nenhuma mulher pintada negaria a autoridade delas. Deste lado temos Niva, a construtora, Mersa, a caçadora, e Iana, a juíza. Elas viviam entre os mortais, ensinando todos os tipos de ciência e ofício. E esta… Sou eu.

— A senhora foi uma das primeiras a nascer, Mãe-Adria?

— Sim. Mas fui a última das oito. Ao contrário das outras, fui a única a nascer criança. Cresci sob os cuidados delas. Fui muitas coisas de muitas formas. Andei livre e servi quando quis e precisei. Quando se teve uma vida como a minha… Não se pode reclamar na hora de partir.

Voltando os olhos para o centro da sala, Penélope viu uma mesa de pedra com uma lanterna sobre ela. Dentro da lanterna queimava uma chama prateada e ao redor da mesa círculos estavam desenhados no chão, grandes o suficiente para uma mulher adulta se sentar, um para cada canto da sala. Dentro dos círculos não havia inscrição alguma.

— Logo devo começar o ritual. Sob a luz das estrelas. Ao amanhecer terei partido.

— Para onde?

— Para onde a chama de todas nós queima eternamente. Livres desta carne de sangue e barro.

Adria caminhou até o centro da sala e, enquanto Penélope se perdia nas inscrições das paredes e nos detalhes das estátuas, contemplou a chama. Por um instante seu coração se encheu de paz. Finalmente aquela agonia teria fim… Mas e Penélope? Como a menina voltaria à Casa do Pai?

— AAAAAAAHHHHHH!

O grito de Penélope mais uma vez despertou Adria. Virando-se para a entrada, a sentinela viu. Seu coração disparou, as lágrimas pretas correram grossas e velozes como nunca.

Os olhos verdes.

Brilhantes.

Passos trôpegos. Um corpo corrompido. Reanimado por meios que Adria não podia nem imaginar.

O corpo de uma mulher pintada.

Uma mulher pintada convertida em horror.

Uma mulher que ela conhecia muito bem.

— Alba… és tu?

O rosto vazio de expressão fitava a guerreira. Os dedos se torciam em posições estranhas, a cabeça se debatia de forma tão errática quanto os espasmos que tomavam conta dos braços e pernas.

— Mãe-Adria… — implorou Penélope com a voz trêmula.

— Criança… Venha para cá.

A menina estava paralisada. Os olhos brilhantes, a pele cinzenta, as roupas sujas e esfarrapadas. Algo naquela coisa dizia que ela reagiria ao menor movimento.

— Vou criar uma abertura… Corra até aqui ao meu sinal.

— Certo!

— Preparada?

— Sim!

Adria preparou o que sobrara de sua lança

— Agora! — Disse ela ao fazer o arremesso.

O ataque acertou em cheio o ventre da mulher horror.

Penélope correu, mas sua fuga foi frustrada. Uma mão fria e áspera a puxou pelo pescoço. Seus pés saíram do chão e toda a sala passou veloz diante dos seus olhos quando seu corpo foi erguido e arremessado com força no chão de pedra, expulsando todo o ar do peito. Os dedos do horror voltaram a se fechar em volta do pescoço da menina, prendendo-a no chão. Os pulmões esvaziados e o aperto na garganta silenciaram o grito de dor de Penélope. Debruçada sobre sua presa, a criatura aproximou a face inexpressiva do rosto da criança, quase como se o desespero da pequena causasse curiosidade.

Adria sacou a espada.

“Se eu errar ela vai morrer”, pensou ela. “Ela vai morrer… Eu morrerei depois”

A boca do horror se abriu, muito maior do que a boca de qualquer mulher pintada deveria abrir. Dentes imensos e afiados se revelaram. Penélope se debatia, mas o monstro era forte demais. O fedor de morte invadia as narinas da menina com a proximidade crescente daqueles dentes inumanos. Com um estalo, o maxilar do monstro se deslocou para abrir ainda mais a boca, quase como se quisesse abocanhar a cabeça da pequena de uma vez. Penélope chutou e bateu, mas a coisa parecia não estava insensível aos seus golpes.

Sentiu a faca.

Sacudindo na cintura, a lâmina embainhada pedia para ser usada.

Reunindo suas últimas forças, Penélope sacou a arma e cravou no olho esquerdo da coisa. Uma fumaça verde saiu do olho perfurado, quase como uma cobra, subiu em espiral pelo braço da menina e entrou no seu olho esquerdo. Os dedos do monstro afrouxaram, Penélope caiu de joelhos com as mãos sobre o olho. O braço queimava, como se a carne estivesse sendo corroída. Mil agulhas pareciam penetrar no olho esquerdo.

Ela queria gritar, mas o ar ainda faltava.

Escuridão.

Silêncio.

***

Uma voz.

Uma voz cantando.

Distante. Em meio à escuridão do vazio. Parecia um sonho, talvez fosse. A canção ficava aos poucos mais alta e mais clara. A voz era familiar e ao mesmo tempo…

Os olhos de Penélope se abriram.

Ela estava novamente no lugar de descanso. Ao seu lado estava Mãe-Adria, sentada dentro de um dos círculos do chão, diante de sua própria estátua. Ela cantava um cântico que a menina não conhecia.

— Mãe-Adria?

— Pensei que não te veria mais acordada antes de partir.

— Essa música, é bonita.

— Faz parte do ritual, é uma canção de despedida.

— Aquela mulher…

— Alba.

— Quem era?

— A primeira guerreira que treinei na Casa do Pai. A primeira das guerreiras de lá que perdi para os horrores.

— O que aconteceu com ela?

— Não sei. Nunca vi algo parecido. Mortos convertidos em horrores. Ainda mais uma mulher pintada… Eu a vi na névoa. Perto da Casa… Ao vê-la… Ao reconhecê-la… Quebrei.

— Onde está o corpo dela?

— Se desfez. Os encantos do lugar desfizeram o corpo dela como farão com o meu. Sentes muita dor?

Penélope lembrou-se da fumaça verde e das queimaduras. Olhou para o braço esquerdo e viu as marcas em espiral. Não doíam, nem pareciam com qualquer queimadura que ela tenha visto antes.

— Não sinto dor.

— E o olho?

Imediatamente ela tampou o olho direito. A visão parecia um pouco diferente, como se as cores estivessem erradas, mas nada além disso.

— Consigo enxergar bem, mas as cores estão estranhas.

— Não te assustes quando olhares no espelho. Teu olho esquerdo está verde e  luminoso como o olho de um horror.

— O quê? Mas eu não vou…

— Virar uma coisa daquelas? Acho que não, mas é só um palpite. Conte tudo para Kala. Se houver algo a ser feito, ela saberá.

— Ainda falta muito para o sol nascer?

— Um pouco. Tempo suficiente para terminar o ritual.

— Depois disso…

— Eu partirei para eternidade e tu partirás para a Casa.

— Não sei se consigo sozinha.

— Não estarás sozinha. Leve a lanterna. É ela que realmente dá poder a este lugar. Os horrores não te incomodarão se estiveres com ela.

— É proibido tirar a lanterna daqui?

— Creio que sim, mas tua vida importa mais. Não te preocupes, alguém trará de volta.

— Obrigada, Mãe-Adria.

— Não fiz nada, criança. Te salvaste sozinha. A ti e a mim. A gratidão é toda minha.

A canção recomeçou. As inscrições no salão começaram a brilhar de forma alternada. Descrevendo padrões variados a chama da lanterna queimava ainda mais brilhante. Bruxelava furiosa como se atiçada pelo vento.

O sol se ergueu.

Sua luz penetrou pela brecha.

O cântico de Adria parou.

Sua postura relaxou. As inscrições voltaram a brilhar com a luz perene das estrelas. As chamas da lanterna se tornaram tranquilas mais uma vez. As lágrimas pretas não escorriam mais pelo rosto de Adria. Restara apenas a marca de sua passagem na face tranquila da sentinela. Depois de milhares de anos, a guerreira não precisaria mais lutar. Penélope se levantou para se sentar diante de Mãe-Adria. O rosto sem vida revelava uma beleza que nunca foi capturada. A face séria e determinada de sempre estava eternizada na estátua que ocupava um dos cantos da caverna. Os olhos, agora vazios, residiam em um rosto tranquilo junto com o sorriso discreto que não costumava aparecer. A menina fechou os olhos da mulher. Passou os dedos por onde as lágrimas correram. O líquido viscoso parecia com uma tinta. Tateando a pele de seu rosto, a menina encontrou a marca da passagem da fumaça verde.

Sobre ela passou as lágrimas pretas de Adria.

Tomou a lanterna.

E partiu.

 

Contos de Segunda #87

Hoje vamos finalmente concluir a primeira história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #80. Pra saber todos os detalhes dessa história é só dar uma passada em Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02,  Contos de Segunda #62 e Contos de Segunda #77.

Segunda-feira estava no chão. Aparentemente ela tinha passado um tempo desacordada.

“Eu apaguei?”, pensou Segunda. “Por que será que eu apaguei? Não sei bem… Eu lembro que eu estava junto com as meninas… A gente tava fazendo alguma coisa juntas… Acho que eu tava grávida… É, eu lembro de estar grávida, mas depois não tava mais… E tinha dois meninos jogando damas… Acho que eles me chamaram pra jogar com eles e me chamaram de…”

— AIMEUDEUSOQUEESSEMENINOFALOU? — Berrou Segunda-feira quando se recuperou do desmaio. A Dama rapidamente se colocou de pé e grudou as costas na parede. Olhou ao redor e percebeu que Quarta-feira também estava desmaiada, as outras irmãs só estavam em choque.

— Ele falou “Oi, mãe. Quer jogar com a gente?” — respondeu o mais velho.

— Se a senhora não gosta de damas a gente pode fazer outra coisa — disse o mais novo.

— A senhora tá meio pálida — observou o mais velho. — A senhora tá passando mal?

— Aquela moça desmaiou também, Domingo. Acho que ela também tá passando mal.

— Domingo? — Interrompeu Terça-feira.

— É. Meu nome é Domingo — disse o garoto fungando ao fim da frase e arrumando os óculos. — Não lembro de ter nascido de óculos.

— Deve ter aparecido porque a gente acabou de descobrir que nossa mãe usa óculos.

— Mas não apareceu nada na sua cara, Sábado.

— Verdade. Vai ver que você puxou mais a ela.

— Sábado? — Indagou Quinta-feira tentando sem sucesso reanimar Quarta..

— Isso. E vocês quem são? A gente só conhece minha mãe — respondeu sábado.

— Por motivos óbvios — completou Domingo.

— Somos as outras Damas da Semana — respondeu Sexta. — A desmaiada é Quarta, essa com a maquiagem pesada é Quinta, a vestida de hippie é Terça e eu sou Sexta, a melhor de todas.

— Muito prazer… Vocês são tias da gente então? — Perguntou Sábado.

— Sim — respondeu Terça abrindo um sorriso. — Venham aqui me dar um abraço.

Os garotos sorriram e obedeceram. Depois de alguns segundos nos braços da tia, Domingo questionou.

— Por que minha mãe não pediu pra abraçar a gente?

— Parir é uma experiência meio traumática – amenizou Quinta. — E vocês vão ver que a mãe de vocês não tem exatamente todos os parafusos no lugar, mas ainda é uma pessoa fantástica.

Quinta estava certa, aquilo tudo estava sendo muito traumático. Quando ela pensou em ter filhos, na verdade em ter um filho, esperava terminar todo o processo mágicoritualistico com um bebê nos braços e não com dois meninos já meio crescidos que mal nasceram e já sabiam jogar damas. Dois seres plenamente conscientes de quem eram e de quem ela era. Ela respirou fundo, contou até três e finalmente falou.

— Meninas podem nos dar um instante a sós?

As outras Damas saíram carregando o corpo ainda inerte de Quarta-feira para a outra sala. Segunda se abaixou para ficar na altura dos filhos. Os olhos mal podiam acreditar no que estavam vendo. Depois de alguns segundos eles mal podiam enxergar alguma coisa, estavam cheios de lágrimas. Antes que os olhos transbordassem Segunda abraçou seus dois meninos.

— Eu queria tanto vocês aqui — disse ela no começo de um longo abraço.

— Mãe… Acho que já dá pra soltar a gente — disse Sábado.

— A gente tem que ir pra casa… Eu acho — completou Domingo. — A gente vai morar aqui?  O que a gente vai fazer agora?

Segunda soltou os dois. Ela realmente não tinha pensado ainda nessa parte do plano.

— Bem — começou ela. — Acho que primeiro precisamos falar com a avó de vocês e torcer pra ela não transformar a gente em poeira cósmica.

A campainha tocou. A porta abriu e fechou imediatamente, logo depois alguém começou a bater na porta e Sexta apareceu correndo.

— A Mãe-de-Todas tá aqui — disse ela.

— Ah, não — suspirou Segunda.

— Quem é essa, mãe? — Perguntou Sábado.

— Deve ser a Vó-da-Gente — respondeu Domingo.

— Ah, tá.

— O que a gente vai fazer? — Perguntou Sexta.

— Não tem muito o que fazer. Manda a coroa entrar antes que ela derrube a porta.

A Dama da Lua entrou despejando uma quantidade cavalar de revolta sobre suas filhas. A que mais sofreu foi Terça que tinha fechado a porta na cara da mãe, Quarta acabou desmaiando de novo e Quinta tentou ganhar tempo com uma saudação exagerada.

— … Meu assunto não é com vocês — rosnou ela entrando na sala. — Eu quero falar com Segunda, aconteceu alguma coisa aqui e tenho certeza que foi culpa… — A Dama ancestral congelou ao ver as duas crianças. O olhar ia dos meninos para Segunda e de volta para os meninos.

— Oi, vó — disse Sábado impaciente com o silêncio.

— A gente pode chamar ela de vó? — Duvidou Domingo.

— Acho que sim — disse Segunda. — Saudações, Dama da Lua, fonte de tudo que é bom e mãe para todas nós.

— Saudações, Dama da Segunda-feira. Poderia me explicar quem são essas crianças e o que diabos está acontecendo aqui?

— Esses dois são meus filhos, Sábado e Domingo, acabaram de nascer.

— Filhos? São seus… Filhos?

— Exatamente — respondeu Segunda um pouco mais confiante.

— Eu ordeno que encontre um cavaleiro, coloco todas as tuas irmãs à disposição pra te ajudar e apareces com filhos? Como se um não fosse afronta suficiente, tu apareces com dois? DOIS!

— Meninos, por que não vão pedir pra tia Terça mostrar como ela vê o futuro nas jujubas vermelhas? Eu preciso conversar com a avó de vocês. É coisa rápida.

Os dois obedeceram.

— Quer sentar, Mãe?

— Estou nervosa demais para tomar um assento.

— Se não se incomoda eu vou me jogar nessa poltrona aqui, acabei de parir duas entidades cósmicas.

— Perdeu o juízo, Dama? Ficou louca de vez?

— Não vejo como gerar novas vidas pode ser sinal de insanidade.

— Estavas prestes a perder o controle de teus poderes, Segunda-feira. Precisavas de uma forma de esgotar tuas energias, de enfraquecer. Não só correste o risco de causar danos cósmicos irreversíveis, mas também de gerar duas entidades defeituosas, insanas e descontroladas. Uma Dama louca é algo reversível, mas uma coisa que já nasceu insana só tem a destruição como destino.

— Não me fale de Damas loucas, Mãe. Sabemos bem que nem todas podem ser controladas ou curadas. Não podem ou a senhora não quer que elas sejam.

— Não me provoque, Segunda-feira. Estou farta da tua insubordinação. Quem te ajudou?

— Não sou caboeta, Dama da Lua. Descubra a senhora.

— Não me provoque. Teu projeto de maternidade está por um fio. Com um gesto eu posso evaporar essas duas crianças.

— Não me provoque a senhora. Até onde me consta, meu santuário ainda estará ativo por mais algumas horas e eu posso estar enfraquecida pelo parto, mas eu ainda sou a dona da segunda-feira. Experimenta tocar em um táquion daqueles meninos pra ver o que acontece.

— Então é isso? Minha filha ameaça por causa dos crimes que ela mesma cometeu?

— Se encontrar um meio de me livrar da insanidade sem o uso de um mortal é um crime, Mãe, então pode me considerar culpada, mas agora eu posso te dar dois bons motivos pra me deixar seguir com a minha vida.

— Gerar filhos é um convite para o sofrimento, Segunda-feira.

— Não acontece com todas, Mãe. Não acontece sempre.

— Aconteceu comigo, Dama. A dor pode enlouquecer muito mais do que qualquer outra coisa.

— Não pense que eu não sei.

— E mesmo assim quer levar isso adiante?

— Não tenho escolha. Não lembro de casais querendo adotar entidades do tempo.

— Sabes que não vai ser fácil.

— Não estou sozinha, Mãe. Tenho minhas irmãs pra me ajudar.

A Dama da Lua deu um sorriso. Abriu os braços e abraçou a filha.

— Obrigado, Mãe.

— Me apresenta teus filhos?

— Eles vão ter que se apresentar sozinhos, faz menos de meia hora que eu conheço os dois.

Contos de Segunda #80

Fechamos o mês do Dia Internacional da Mulher da mesma forma que começamos, com um conto da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62 e do Contos de Segunda #77. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

— Você O QUÊ?

Foi assim que Terça, Quarta, Quinta e Sexta reagiram. Uma reação perfeitamente compreensível. Afinal, da última vez que as Damas da Semana se reuniram, Segunda-feira ainda estava tentando bolar um plano para conseguir um filho. Os planos deram certo rápido demais.

— Eu estou grávida… Na verdade estarei grávida… Mas já me sinto como se estivesse.

As cinco estavam reunidas na casa de Terça-feira. O primeiro dia útil da semana já estava virando noite quando as cinco foram reunidas por sua líder.  Segunda-feira estava preocupada com o seu atual estado, na verdade com o seu estado futuro. Em algum ponto do tempo o seu corpo estava mudado pela gestação e por ser uma Dama do tempo ela estava conectada com a sua forma física de todas as épocas. Ela ainda não estava grávida de fato, mas já sentia como se estivesse.

— É algum tipo de gravidez psicológica? — Perguntou Quinta. — A gente pode sofrer dessas paradas? Nem sabia que a gente conseguia engravidar… Digo, engravidar “engravidar”.

— Acho que a gente não consegue sofrer disso, Quinta — respondeu Quarta. — Deve rolar alguma coisa parecida que é vinte vezes pior.

— Será que Segunda vai parir algum monstro maluco de antimatéria? — Fantasiou Sexta. — Vai ver que o bebê dela vai nascer velho e depois vai ficando novo, que nem naquele filme.

— Explica como foi que começou, Segunda — disse Terça.

— Encontrei com a Dama de Sangue. Ela me disse que pra uma Dama ter um filho não existe receita de bolo. Cada uma precisa encontrar a sua própria forma de gerar um. Ela me deu essa garrafa e disse que eu precisava tomar pra ficar mais parecida com um organismo comum. Logo depois eu comecei a ter sensações do futuro. Comecei a me sentir grávida… E provavelmente vou me sentir assim até chegar no ponto do tempo em que não vou estar mais.

— Certo… — Ponderou Terça. — Agora só precisamos pensar numa forma de te engravidar.

— Foi só pra mim que isso soou muito errado? — Interrompeu Sexta.

— Pareceu meio bizarro mesmo — respondeu Quinta.

— Foi por isso que eu convoquei vocês hoje — começou Segunda. — Estamos no início da semana e só hoje nós cinco podemos usar o poder do meu santuário… Ainda temos algumas horas da segunda-feira para tentar alguma coisa… Alguma sugestão? Consegue ver o meu futuro, Terça?

— O futuro está nebuloso, Segunda. As sensações futuras da sua gravidez estão gerando muita interferência… Se estivesse acontecendo comigo eu poderia usar essas sensações como um condutor para ver o futuro.

— Na prática está acontecendo contigo — esclareceu Quarta. — Está acontecendo com todas nós.

— Quarta tem razão — concordou Quinta. — Nós já fomos uma coisa só. Nós éramos a Dama da Semana… Não lembro como deixamos de ser, mas na prática ainda somos.

— Quem sabe a gente consegue se juntar de novo — completou Sexta. — A gente já se dividiu uma vez, a gente consegue se dividir outra.

O raciocínio de Segunda-feira entrou em um frenesi. Imediatamente ela avaliou todas as possibilidades e impossibilidades do plano recém traçado, mas ela precisava agir rápido, as horas estavam se passando.

— Vamos, meninas — chamou Segunda. — Precisamos fazer isso rápido… Sentem em círculo, vamos nos ordenar em sentido horário.

As demais obedeceram. Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta se sentaram nessa em círculo nessa ordem. Deram as mãos e fecharam os olhos. Segunda respirou fundo e canalizou as energias do seu santuário. Com uma das mãos ela transmitia essa energia de Terça e com a outra recebia a energia de Sexta. A ligação foi feita, o fluxo de energia estava cada vez mais intenso. As cinco se desmancharam aos poucos, se unindo à sua líder. Uma única Dama, um único ser, mas o desejo que ardia naquele coração vinha de uma única fonte.

A recém renascida Dama da Semana pegou o frasco dado pela Dama de Sangue e bebeu o conteúdo em um gole só. A reorganização física aconteceu rápido demais, provocando uma instabilidade na união das Damas. Mas elas não podiam se separar ainda. Nos seus últimos instantes, a Dama da Semana se concentrou no seu desejo, em como ela queria gerar uma nova vida e em como seria terrível o seu futuro caso não conseguisse.

Então ela se separou. Pela segunda vez ela deixou de ser uma só.

— AAAAAHHHRRRRRRGGG — gritou Segunda. Ela caiu no chão se contorcendo de dor. O ventre dela cresceu, cresceu rápido, rápido demais.

Terça ainda estava sob o efeito da separação quando viu a irmã se debatendo. Imediatamente se lançou sobre ela na tentativa de segurá-la. Quarta não conseguiu reagir, Quinta prontamente se pôs a ajudar Terça. Sexta tentou acalmar a irmã.

— Calma, Segunda. Aguenta

— AAAAAHHHRRRRRRGGG.

A gritaria continuou por alguns minutos, foi quando a barriga da Dama começou a diminuir até retornar ao tamanho normal. Segunda, ainda sem fôlego, não conseguia entender.

— E agora? O que acontece? — Questionou ela. — Eu consegui?

A resposta veio na forma de um som baixo. Peças de madeira batendo contra o tabuleiro. O som vinha de uma sala ao lado, onde estava um antigo jogo de damas. Segunda se levantou do chão e caminhou lentamente até o outro cômodo. Lá estavam dois garotos, um deles parecia ser um pouco mais velho, nenhum deles parecia ter menos de dez anos. Eles jogavam em silêncio, com calma, fazendo os movimentos sem pressa. Os dois se viraram ao mesmo tempo quando perceberam que Segunda estava observando. Um deles quebrou o silêncio.

— Oi, mãe. Quer jogar com a gente?

Contos de Segunda #77

    Na semana do Dia Internacional da Mulher temos mais um capítulo da história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

Segunda-feira estava na sala de espera do médico. Não que ela estivesse doente, normalmente uma Dama não ficava doente, pelo menos não de algo que um médico mortal pudesse tratar. Segunda estava esperando ser chamada para sua consulta com a Dra. Márcia Sang, uma das maiores hematologistas do país.

    — Mônica? — Chamou a recepcionista. — Mônica Nunes?

    — É Lunes — corrigiu Segunda-feira.

    — Perdão… Lunes. A doutora está esperando no consultório três. Segunda porta à esquerda.

    Cada vez mais as Damas precisam dar um jeito de se misturar aos mortais, adotar um nome mundano é a primeira coisa que elas fazem. Quando Segunda-feira resolveu se tornar professora ela escolheu o nome Mônica Lunes, derivado de nomes que ela já tinha em outras línguas. Muitas Damas seguem a mesma lógica para criar um nome mortal, uma das primeiras a fazer isso foi Márcia Sang.

    Ao entrar no consultório, Segunda viu a Dama disfarçada de médica. Os cabelos vermelhos presos em um coque, os óculos de armação metálica, as unhas cinzentas e a pele branca permanentemente ruborizada eram traços que passavam despercebidos pelos olhos dos mortais, mas para uma Dama eram inconfundíveis. A médica estava distraída quando Segunda entrou no consultório. O suficiente para não perceber a aura mística da suposta paciente, pelo menos não até a porta se fechar e transformar novamente o consultório no santuário da Dama. Nem uma formiga passaria despercebida.

    — Saudações, Dama de Sangue.

    Márcia levou um susto. Atualmente ela ouvia seu nome original tão poucas vezes que a sensação era de ter um disfarce revelado. As outras Damas raramente faziam uma visita, principalmente em seu consultório e muito menos em horário comercial. Além disso, todas estavam sabendo da atual situação da Dama da Segunda-feira.

    — Peguei o endereço do teu santuário com Bibliotecária — continuou Segunda. — É meio urgente, espero que não se incomode.

    — A surpresa é muito maior do que o incômodo, Dama da Segunda-feira — Márcia ajeitou os óculos. — Ouvi falar da sua situação e da ordem dada pela Mãe-de-Todas às demais Damas: Ajudá-la a encontrar um Cavaleiro. Só não imaginava que você viria pedir pela minha ajuda.

    — Não leve a mal, Sangue, mas eu não estou aqui pra pedir ajuda na busca por um Cavaleiro — ela fechou os olhos na tentativa de reunir coragem e vomitou as palavras todas de uma vez para não correr o risco de desistir na metade. — Eunãoqueroumcavaleiro, queroumfilho.

    — O quê?

    Segunda respirou fundo e disse mais devagar.

    — Eu não quero um cavaleiro, eu quero um filho.

    Silêncio.

    — Acho que te peguei de surpresa.

    O sangue fugiu das faces da Dama. Seu olhar perdido era um sinal do quão longe sua mente estava naquele instante. Em um piscar de olhos ela vasculhou sua memória ancestral em busca de conhecimentos antigos. Ela voltou segundos depois.

    — Perdão, Segunda. Algumas palavras me levam para memórias muito antigas — respondeu a Dama de Sangue como se estivesse despertando de um sonho. — Algumas de nós conseguem acessar conhecimentos antigos, herdados daquelas que vieram antes de nós. Sou uma das poucas Damas que ainda consegue ir tão longe, por isso dizem que eu sei como ajudar no nascimento do filho de uma Dama… Creio que as histórias sobre mim são um pouco exageradas.

    — Exageradas em que sentido?

    — Nossas irmãs falam de mim como se eu fosse uma espécie de parteira…Prefiro me definir como, digamos, grande conhecedora dos métodos de reprodução assistida.

    — Então existe uma forma.

    — Sim, existe. Uma forma para mim, outra para você e suas irmãs, outra para Bibliotecária e outra para a Mãe-de-Todas. Sem certo ou errado, cada uma de nós se adequa melhor a um método.

    — Você teve algum filho?

    — Tive dois. Nascidos com o único propósito de assassinar meu Cavaleiro — ela sorriu. As unhas cinzentas cresceram e se viraram em aço enquanto a Dama acariciava o pescoço e pensava em morte. — Ele estava um pouco descontrolado. Ele foi um dos mais poderosos de sua época, não pude dar cabo dele sozinha… Só estou contando isso para mostrar como eu gerei os meus filhos, já estou quase chegando no ponto que vai ser útil para você… Onde eu estava?

— Na parte que você não conseguiria matar seu cavaleiro — respondeu Segunda chocada com o fato de dois filhos nascerem com o único propósito de assassinar o próprio pai.

— Ah, sim. Quando eu me vi em grande necessidade eu desejei ardentemente gerar filhos para matar meu cavaleiro. Meu corpo atendeu ao meu desejo, com o aço dos meus ossos eu fiz meu útero, com o sangue eu formei a carne deles e aos poucos nasceu o fogo de seus corações. Você pode fazer algo parecido, mas você precisa descobrir como usar sua natureza para formar uma vida. Só assim você vai gerar um filho.

— E quanto tempo isso leva?

— Você é uma entidade do tempo, Dama da Segunda-feira. Para você o tempo é mais do que um aliado. O tempo é quase um escravo… Talvez isso também ajude.

A médica puxou a gaveta e dela tirou um frasco com um líquido vermelho.

— E isso seria…? — Questionou Segunda.

— Os corpos de algumas Damas são muito abstratos. Eu sou formada de aço, carne e sangue, você é uma anomalia espaço-temporal de óculos. Isso vai te deixar um pouco mais material e mundana. É só beber e seu corpo vai se organizar temporariamente em uma forma mais próxima de um organismo real.

— Ah, não…

Segunda começou a sentir algo estranho. Algo se movimentava em seu ventre. Ela sentia a pele esticando, mas não via nenhuma diferença no volume do corpo.

— Tem algo errado?

— O corpo de uma Dama do Tempo é uma constante — a respiração ficou mais pesada. — Precisamos existir em todo tempo simultaneamente. Pra isso funcionar é preciso permanecer imutável… Neste exato momento eu sinto o meu corpo diferente, mesmo que ele não pareça diferente…Em algum instante do tempo… Eu estou grávida

Contos de Segunda #62

Os eventos narrados a seguir tem ligação direta com o que as nossas queridas Damas da Semana passaram em Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— A Dama da Lua, Mãe-de-Todas, te deu uma bronca porque você passou tanto tempo sem um cavaleiro que os seus poderes estão quase descontrolando e no lugar de pedir ajuda às outras damas e encontrar uma solução boa, como a Mãe tinha ordenado, você foi até o santuário da Dama do Mar, que não passa de uma assassina louca, pra aprender o canto dela e atrair um cavaleiro? — Questionou a Dama da Biblioteca.

A Dama da Biblioteca, conhecida entre as outras damas como “Bibliotecária”, se manifestava na mesma universidade onde Segunda-feira dava aulas de literatura e história da arte. Como de costume a Dama da Segunda-feira aproveitou o intervalo no meio das tardes de segunda para visitar a amiga. Para variar Bibliotecária estava organizando livros em uma estante.

— Bem doido, né? — Respondeu Segunda-feira.

— Aprendeu o canto? — Questionou Bibliotecária sem tirar os olhos dos livros.

— Bem… Não, mas a Dama do Mar me deu uma dose única do canto dela. Só vai funcionar uma vez.

— Quanto tempo faz que ela te deu isso?

— Uns meses.

— E você ainda não usou?

— Não.

— E você contrariou as ordens da Mãe-de-Todas só por causa desse canto e não usou? Sabe o que acontece com uma Dama que passa tanto tempo quanto você sem um cavaleiro, não é?

— Sei, sei. Descontrole dos poderes e insanidade, mas todo o rolo com a Dama do Mar gastou muitas das minhas energias acumuladas. Ganhei um tempo pra pensar direito no que fazer.

— E já pensou?

— Já. Pensei bem e decidi que eu não quero um cavaleiro.

Bibliotecária encaixou um livro enorme com bem mais força do que o necessário. O barulho produzido foi bem acima do normal para um livro daquele tamanho. Ela virou para olhar nos olhos de Segunda.

— Então você voluntariamente vai abraçar a insanidade. É isso? Já ficou doida? As tuas irmãs sabem dessa maluquice?

— Ainda não… Mas elas vão comprar a ideia que eu tive — Segunda sorriu. Sorriu o tipo de sorriso que fez a Dama da Biblioteca sentir um calafrio. — Mas eu não consigo fazer sozinha, vou precisar de uma ajudinha sua.

— Não sei como te ajudar, Segunda, a menos que você… — Os olhos de Bibliotecária se arregalaram. — Não, não. Você não pode estar pensando nisso. Não, nem pensar, mas de jeito nenhum, Segunda. Você já ficou doida. Sabe quanto tempo faz que nenhuma de nós tenta um negócio assim?

— Não tem outro caminho, Teca, é isso ou camisa de força.

Um barulho interrompeu a conversa. Um ruído anormal para um ambiente silencioso como aquele. Algo parecido com uma turba furiosa ou uma multidão enlouquecida, mas que na verdade era apenas o barulho produzido por quatro moças que tinham acabado de chegar à biblioteca. Elas atendiam pelos nomes de Terça, Quarta, Quinta e Sexta-feira. Todas estavam com a cara de quem quer apagar um incêndio.

— Pare em nome da lei! — Gritou Sexta.

— Não deixa ela te colocar nesse plano dela, Teca! — Adiantou-se Terça.

— Já disse para não me chamarem de “Teca” e já disse para não fazerem barulho no meu santuário.

— Afe, que dama chata — resmungou Quinta.

— Como você quer fazer isso com a gente, Segunda? — Questionou Quarta. — A gente quase morreu pra conseguir esse canto maldito e você quer dar pra trás?

— Mas eu ainda não disse nada pra… Terça-feira, você espionou meu futuro de novo?

— Você faria a mesma coisa se eu estivesse doida — rebateu Terça. — Invadir o santuário de uma Dama renegada pra arrumar uma forma de fisgar um cavaleiro dá pra engolir, mas além de não fisgar o cavaleiro você ainda quer ter um filho? Tá demais Segunda.

— Já foi feito antes, Terça-feira, não é nada do outro mundo.

— Claro que já foi feito, mas na maioria das vezes deu errado — replicou Quarta. — Quantas damas você vê por aí com um menino debaixo do braço?

— Quantas você vê escolhendo cavaleiros a esmo só pra descarregarem suas energias? Quantas você vê que realmente amam seus cavaleiros? — Rebateu Segunda. — Eu só quero alguém que mereça receber uma parcela dos meus poderes, nem que seja merecido por direito de nascença.

— Acho que ela tem razão… Ou pelo menos um argumento bom. — Ponderou Quinta.

— Também achei super válido — concordou Sexta.

— Os riscos são muito grandes — ressaltou Terça.

— A Mãe-de-Todas vai matar a gente — suspirou Quarta.

— Não se fizermos direito… Outras tentaram antes de mim, não é possível que nenhuma delas tenha sido bem sucedida — disse Segunda.

— Várias delas foram — interrompeu Bibliotecária. Todos os olhares se voltaram para ela. — Todas as que tiveram sucesso, com exceção da Dama da Lua, foram auxiliadas pela mesma Dama — ela tirou um livro enorme da prateleira. Um livro que não estava lá um segundo atrás. Os dedos correram ligeiros pelas folhas encardidas do volume antigo e pararam repentinamente em uma das páginas. — Nossos registros são bem claros quanto às capacidades dessa nossa irmã . Ela foi gerada pela dor e pela morte nos campos de batalha, mas aos poucos ela foi encontrando algo diferente dentro da própria natureza. A formação da vida também fazia parte dela. A Dama de Sangue é a única que pode fazer dar certo.

Contos de Segunda #50 – Parte 02

Pra ler a primeira metade desse conto é só acessar esse link para o Contos de Segunda #50 – Parte 01. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— Vou perguntar apenas uma vez — disse a Dama do Mar. — O que traz vocês cinco até meu santuário?

    — Viemos pedir sua ajuda, Dama do Mar — respondeu Segunda-feira.

    Uma risada maligna penetrou nos ouvidos das jovens Damas como uma agulha. A temperatura do ambiente caiu e a água invadiu a caverna, aos poucos a lâmina d’água começou a subir.

    — Ela vai matar a gente — sussurrou Quarta-feira. — Eu sabia que a gente devia ter ficado em casa.

    — O futuro está nebuloso, Segunda — falou Terça-feira. — Não consigo ver nada.

    — Deixa eu tentar falar com ela, Segunda — interrompeu Quinta-feira. — Dama do Mar, fui eu quem disse para virmos pedir sua ajuda… Me ajudou antes, imaginei que poderia ajudar agora.

    — Que história é essa, Quinta? — disse Sexta surpresa, e não era o tipo bom de surpresa.

    Os olhares das irmãs estavam todos voltados para Quinta-feira.

    — Não é o que vocês… — gaguejou Quinta.– Certo, sem rodeios. Eu só consegui manifestar minhas habilidades musicais por causa dela… Criar música com o corpo não é tão simples pra uma entidade do tempo.

    — Sim, eu me lembro jovem Quinta-feira — a voz da Dama do Mar sorria. — Sua música precisava de ajuda para sair, mas teu medo não te permitiu aprender tudo que eu tinha para ensinar.

    — O canto de uma Dama é muito poderoso, nobre senhora. — replicou Quinta. — Aprendi o suficiente.

    A água já estava na altura dos joelhos.

    — Aprendeste o suficiente para evitar a tua queda, Quinta-feira — o tom da Dama do Mar agora estava severo. — Não querias correr o risco de cometer os mesmos crimes que eu. Que tipo de ajuda procuras se já sabes do que precisas?

    — Eu preciso de ajuda, Dama do Mar — vociferou Segunda-feira. — Preciso aprender o canto de sereia para atrair um Cavaleiro.

— Então venha olhar nos meus olhos e dizer isso — respondeu a Dama do Mar. — Mas venha só! — A água subiu como um turbilhão e envolveu Terça, Quarta, Quinta e Sexta, as deixando apenas as cabeças para fora. — Estou no fundo da caverna, venha.

Segunda-feira hesitou por um instante. Quarta-feira estava paralisada de medo, Quinta tinha o olhar baixo para não encarar as irmãs, Sexta tentava se mover, mas não conseguia, Terça fechou os olhos e começou a falar.

— O futuro está clareando, mas a Dama do Mar não me deixa enxergá-la — disse ela calmamente. — Vejo muitos futuros para você, Segunda, mas todos eles estão distantes, não posso te dizer o que te aguarda… Toma cuidado.

— Obrigado, Terça. Vou tomar.

Algumas dezenas de metros separavam Segunda do fundo da caverna. Lá ela encontrou um poço muito largo que emitia uma luz tênue, no centro do poço estava uma rocha e na rocha uma figura muito similar a uma sereia.

— Saudações, Dama do Mar — cumprimentou Segunda.

— Saudações, Dama da Segunda-feira — respondeu a Dama do Mar. — Tens ideia do tamanho do teu pedido?

— Tenho.

— Conheces os meus crimes?

— Não há Dama que não conheça.

— Sabes o que me levou a cometê-los?

— Amor e… Dor — a última palavra foi dita quase como um sussurro.

— Isso mesmo — os olhos frios da Dama do Mar por um instante se perderam em um passado distante. — Meu Cavaleiro foi tirado de mim e a dor me levou à…

— Violência — os olhos de Segunda estavam marejados. — Todas nós ficamos sabendo… Quando a Dama do Mar usou seu canto e atraiu dez Cavaleiros para a morte.

— Nove — o semblante dela continuava inexpressivo, mas os olhos não escondiam os sentimentos tão bem. — Naquela época o Cavaleiro da Lua possuía uma esposa. Ele foi o primeiro filho legítimo de uma Dama e o único a se tornar Cavaleiro. A Dama da Lua o presenteou com uma esposa, uma humana que recebeu sua dádiva. Ela também veio… Eu também tirei a vida dela com minhas próprias mãos.

— A Mãe-de-Todas te condenou à morte, mas o teu santuário te salvou.

— A fúria da Mãe passou, demorou, mas passou — ela olhou ao redor. — Agora vocês se arriscam a despertar novamente essa fúria para atrair um Cavaleiro?

— Preciso de um, meus poderes estão a ponto de sair do controle e… — Segunda respirou fundo. — Logo logo será impossível manter a sanidade.

— Não é tão ruim quanto parece. Todos tem medo de uma Dama louca… — os olhos da Dama do Mar se acenderam com um brilho frio. — Por que não sabem o que é ser uma.

A água subiu como um turbilhão e prendeu Segunda. A água do mar girava cada vez mais veloz ao redor da jovem Dama, o atrito com a água começou a rasgar a pele.

— O que está fazendo?

— O mesmo que estou fazendo às suas irmãs — sorriu a Dama do Mar. — Logo seus corpos serão apenas uma mancha de sangue, mas o teu… Eu quero rasgar com minhas próprias mãos

— Eu só vou avisar uma vez — rosnou Segunda. — Não faça nada às minhas irmãs.

— Este é meu santuário, ninguém me ameaça no meu santuário.

— Está enganada, Dama do Mar — sorriu Segunda um sorriso dolorido. — Não consegue sentir?

O sorriso da Dama do Mar se desfez. Alguma coisa estava errada, alguma força estranha estava penetrando no santuário.

— O feriado está acabando, nobre senhora, imagine a quantidade de mortais que está resmungando e se irritando neste momento. Quantos estão experimentando o sublime momento em que se lembram que hoje é segunda-feira e que amanhã precisam voltar para o trabalho — Segunda parecia sentir o gosto doce de cada palavra que dizia. — No coração dos mortais segunda-feira começa na noite de domingo e não existe nada mais forte do que o sentimento da noite de domingo em uma segunda.

— Impossível! Nada pode penetrar meu santuário!

— Quem está no meu santuário é você, Dama do Mar — uma força terrível emanava de Segunda-feira. — Nós Damas da Semana temos um dia para cada uma, um santuário de vinte e quatro horas, mas só eu consigo canalizar a energia do santuário… Por que só eu posso dividir o poder com minhas irmãs.

Quarta sentiu uma força externa tomando conta do seu corpo.

— Segunda está me mandando energia, acho que consigo tirar a gente daqui — disse Quarta-feira.

— Me tira primeiro Quarta — adiantou-se Sexta. — Quinta, me acelera.

— Só preciso de um instante pra me concentrar– ao dizer isso Quinta fechou os olhos, o semblante de dor levou poucos segundos para desaparecer, a conexão com a irmã estava completa. Uma batida eletrônica tomou conta da caverna, forte, alta e cada vez mais acelerada. Em um nível que tornava a música um ruído quase incompreensível

Quarta tirou Sexta de dentro do turbilhão. Quando a jovem Dama ficou livre deixou a música invadir o corpo. A música da irmã sempre causava uma sensação maravilhosa, ela sentia o coração acelerar, a vontade de dançar era quase irresistível.

— Quebra aquela sereia fajuta, Sextinha — disse Quinta com um sorriso raivoso.

Então o mundo parou. Sexta estava tão acelerada que o tempo parecia congelado. Em uma fração mínima de segundo ela chegou ao fundo da caverna, o ar deslocado foi suficiente para desfazer o turbilhão que envolvia Segunda-feira, mas ela estava só passando. Tudo que ela queria era dançar sobre a água, dançar sobre a luz por um instante, um instante que duraria quase uma eternidade. Fazer isso em uma velocidade tão alta criou um grande turbilhão e no meio dele estava a Dama do Mar. Poucos segundos depois ela estava no chão meio alagado, caída diante de Segunda e Sexta.

— Fazia tempo que eu não dançava tanto — disse Sexta ainda na euforia da música. — Tudo bem, Segunda?

— Vai ficar. Vai lá ver como estão as outras eu preciso conversar com nossa irmã sereia aqui.

Sexta ainda estava acelerada o suficiente para chegar onde as irmãs se recuperavam em um piscar de olhos. Segunda esperou a Dama do Mar se recompor.

— Me desculpe — lamentou Segunda. — Não queria apelar pra violência.

— Não precisa se desculpar, jovem Dama — disse a Dama do Mar em um tom brando. — Graças a isso posso gozar de um raro momento de lucidez. Meu santuário é um cárcere voluntário, aqui dentro não posso ferir ninguém… O que me pedes é uma maldição, Segunda-feira. Meu canto nasceu comigo, faz parte da minha natureza, não da sua. Aprendê-lo no seu estado é um convite ao desastre.

— Só preciso que funcione uma vez. Não me incomodo de abrir mão dele depois disso.

A Dama do Mar pegou um pouco de água com as mãos e modelou uma esfera. Uma bolha parcialmente cheia com um líquido esverdeado. Da bolha puxou dois cordões para formar uma gargantilha.

–Coloque isso no pescoço e o canto será seu — disse a Dama do Mar entregando o colar para Segunda. — Escolha bem o momento de usá-lo, terás apenas uma chance.

— Obrigado, Dama do Mar.

Ela sorriu em resposta, se ergueu na cauda de sereia e mergulhou no poço. Segunda correu para encontrar as irmãs.

— Alguém ferido? — perguntou Segunda.

— Só o orgulho — respondeu Terça. — Conseguiu alguma coisa?

— Sim, mas eu conto no caminho. Quarta, tira a gente daqui.

— Nem precisa pedir duas vezes. Aqui tem muita interferência pra abrir uma passagem, segurem em mim.

Um piscar de olhos depois e elas não estavam mais lá.

Contos de Segunda #50 – Parte 01

Essa é a terceira parte da história da Dama da Segunda-feira. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

Desde tempos imemoriais as Damas escolhem entre os mortais aqueles dignos de receber uma porção de seus poderes. Uma dádiva que está além da imaginação de qualquer mortal. Foi para finalmente encontrar um Cavaleiro que a Dama da Segunda-feira resolveu procurar pela Dama do Mar e aprender o seu canto de sereia.

    — Por que a gente nunca viaja de carro? — Perguntou Sexta-feira.

    Era uma segunda-feira de feriado. As Damas da Semana tinham entrado em uma passagem dimensional criada por Quarta-feira e saído em uma pequena cidade litorânea.

    — Eu gostava mais quando a gente viajava antigamente — resmungou Quinta-feira. — Parece que vocês não gostam mais de juntar as irmãs.

    — Estamos prestes a cometer um crime, temos uma irmã que consegue dobrar o tempo e o espaço e outra que está quase pirando — disse Terça-feira contando nos dedos.

    — Ei! — Interrompeu Segunda-feira. — Eu não estou pirando… Pelo menos ainda não.

    A verdade é que aquele feriado tinha drenado tanto das energias excedentes de Segunda que ela sentia a cabeça funcionando muito melhor do que nos últimos dias.

    — Isso é maluquice — disse Quarta-feira como se falasse sozinha. — A Mãe vai transformar a gente em pó.

    — Não se a gente fizer rápido — rebateu Terça. — E agora, Segunda?

    — Peguei uma dica com uma Dama do Rio que é minha aluna de literatura. Ela contou que nessa praia tem uma trilha que só uma Dama pode enxergar, se seguirmos a trilha chegamos ao santuário da Dama do…

    — Santuário!? — interrompeu Quarta com o sangue fugindo do rosto. — E eu pensando que a Mãe ia nos matar. A gente vai morrer antes!

    — Relaxa que a gente já entrou em outros santuários — tranquilizou Sexta.

    — Um ou dois, Sexta, e eles estavam vazios — lembrou Quinta.

    — Uma Dama é absoluta em seu santuário, Segunda — disse Terça olhando nos olhos da irmã. — Ela é mais antiga do que a gente e praticamente invencível em seu lugar de poder. Tem certeza que quer fazer isso?

    Apenas o silêncio respondeu à pergunta da Dama. Segunda sabia do perigo de enfrentar uma entidade tão poderosa em seu território, mas o tempo corria contra ela e as alternativas eram poucas.

    — Coloquem os biquínis e me esperem na praia — disse Segunda com um tom sério. —  Volto assim que achar a trilha. Tentem não chamar atenção

    Segunda sumiu antes que as irmãs pudessem questionar. Para as quatro que ficaram só restou acatar as ordens e partir para a praia.

    A areia estava lotada. A maré estava alta e a área disponível para os guardassóis estava drasticamente reduzida. Mesmo fora de seus dias correspondentes, as Damas da Semana emanavam poder suficiente para chamar a atenção de todos os mortais, alguns já estavam completamente enfeitiçados pela beleza feérica do quarteto.

    — Temos que ficar separadas — disse Quarta. — Mais tempo juntas e metade da praia vai entrar em transe.

    — Preciso me conectar às forças que circulam nesse lugar — disse Terça tirando da bolsa uma placa que dizia “LEIO SUA MÃO! É GRÁTIS”. — Não estou conseguindo sentir o futuro direito. Vou ficar no calçadão lendo mãos.

    — Vi um quiosque logo ali que parece ter umas bebidas interessantes, acho que vou para lá — completou Quarta.

    — Você quer dizer umas bebidas caras, né? — Desdenhou Quinta. — Eu ouvi música em algum lugar. Eu e Sexta vamos seguir o rastro do som.

    — Não se preocupem em chamar atenção, tá todo mundo olhando pra mim — provocou Sexta.

    Algumas horas se passaram antes de Segunda convocar as irmãs. Quando elas sentiram uma vontade incontrolável de ir para a parte mais deserta da praia, sabiam que era a irmã mais velha chamando. O mar castigava as pedras e a maré ainda não tinha revelado nenhuma trilha.

    — Segunda — disse Terça. — Temos que esperar a maré baixar.

    — Não — respondeu Segunda. — A maré aqui nunca baixa. Faz horas que chegamos e a maré não diminuiu um centímetro.

    — Mas e a trilha? — Perguntou Sexta.

    — É uma trilha que apenas uma Dama pode ver — lembrou Quinta. — A água é para afastar os mortais, não outras Damas.

    Quinta andou em direção às pedras. A cada passo que dava a água se abria diante dos seus pés. Poucos passos depois e já era possível ver uma grande fenda no meio do paredão rochoso. As outras seguiram atrás, pouco tempo depois estavam todas dentro da caverna. Durante alguns minutos elas andaram pelo chão de rocha úmida, nenhuma luz do sol chegava ali, mas algo no fundo da caverna mantinha o ambiente iluminado. Antes de chegarem à fonte de luz uma voz fez as cinco congelarem.

    — O que temos aqui? Cinco Damas — as silabas eram ditas lentamente, o som escorregava para dentro dos ouvidos delas. — Tão jovens, tão belas… Espero que tenham um bom motivo para invadir meu santuário… Ou vou esquecer que não gosto de matar minhas irmãs.

 

Contos de Segunda #43

Para saber mais sobre a história da Dama da Segunda-feira é só ler a primeira aparição dela em Contos de Segunda #38.

Um ser místico. A personificação das fantasias humanas. A encarnação de algo intangível. Qualquer uma dessas definições poderiam ser usadas para definir uma Dama. Desde tempos ancestrais elas se manifestam no plano terreno e escolhem entre os mortais os seus Cavaleiros. Uma forma de evitar a degeneração da sua consciência e o descontrole de seus poderes. Porém encontrar um Cavaleiro nem sempre é algo fácil, principalmente se você é a Dama da Segunda-feira.

    Segunda estava triste desde seu último encontro com a Mãe-de-Todas. A Dama da Lua havia determinado que ela precisava conseguir um Cavaleiro e que todas as outras Damas teriam o dever de ajudá-la. Semanas se passaram desde então e Segunda não tinha movido uma palha para atender às ordens da Mãe. Pelo menos até aquele momento. O celular começou a tocar. Era Terça-feira, a segunda Dama da Semana começou a falar antes do “alô” da irmã.

    — A Mãe-de-Todas te dá uma prensa e você não me conta nada?

    — Boa tarde pra você também, Terça-feira. Eu vou muito bem, obrigada por perguntar.

    — Nem tente me enrolar com suas ironias. Se a Mãe te chamou pra falar disso as coisas devem estar sérias. Tá sentindo alguma coisa? Lapsos de memória? Alguém perto de você começou a agir estranho do nada?

    — Não, não e não. Não tem nada sério acontecendo, Terça… Só que… Sei lá, eu não queria ninguém no meu pé. Você sabe como isso é complicado.

    — Guarda o choro pra quando estivermos as cinco juntas. Quarta-feira vai te buscar em dois minutos

    Quarta apareceu em um minuto. A irmã do meio era o puro estereótipo da mulher de negócios. Roupas formais, aspecto impecável e cara de que o tempo dela valia ouro.

    — Sabe que não precisamos fazer tudo que ela manda, né?

    — Ela é a Mãe, Segunda-feira. Você pode comandar nós quatro, mas ela comanda todas as outras.

    Segunda deu ombros. A irmã abriu novamente a passagem dimensional por onde tinha vindo e instantes depois elas estavam na casa de Terça-feira. Tanto a casa quanto a dona pareciam ter sido transportadas direto dos anos sessenta. Terça tinha uma capacidade de clarividência forte o suficiente para fazer dela uma das videntes mais requisitadas da cidade.

    — Finalmente, estava ficando preocupada. Quinta, Sexta, elas chegaram.

    As gêmeas pareciam ter vindo de uma festa de música eletrônica. Quinta tinha os cabelos pretos, usava maquiagem pesada e roupas escuras, Sexta era loira, usava roupas multicoloridas e maquiagem extravagante. Apesar da aparência diferente, as duas pareciam quase sincronizadas, principalmente no quesito empolgação.

    — É só me dizer uma balada legal, Segunda. A gente entra lá e só sai com seu Cavaleiro — disse Quinta.

    — Quem sabe a gente não arruma mais de um, tô meio enjoada do meu Cavaleiro — falou Sexta.

    — O assunto é sério, meninas — Começou Terça-feira. — Nossa Mãe colocou Segunda contra a parede e disse que ela precisava arrumar um Cavaleiro já e de quebra ainda ordenou que toda e qualquer Dama ajudasse nessa empreitada. Sentem-se que eu preciso fazer uma coisa antes de continuar — as Damas se sentaram nas almofadas do chão. Terça revelou uma bola de cristal e colocou entre ela e Segunda. — Primeiro precisamos saber o quanto você está perto de ficar pirada.

    — Eu não vou ficar pirada.

    — Calada. Coloque as mãos na bola.

    Segunda-feira obedeceu. Colocou suas mãos sobre o globo e esperou. A esfera começou a brilhar. A luz foi aumentando aos poucos. Mudando de cor, oscilando, piscando. Em alguns momentos parecia bater como um coração. A luz diminuiu até se apagar, depois disso a bola de cristal ficou completamente escura e opaca.

    — E aí? — Disse Quinta.

    — E aí que temos um problema — respondeu Terça. — O nível de energia dela está bem acima do normal. Próxima segunda é feriado, isso deve te descarregar um pouco, mas não podemos demorar muito com isso.

    — O que você sugere, Terça? — Disse Segunda externando toda a raiva que sentia com aquela situação. — O que sugerem irmãs? Que eu enlouqueça por causa de um mortal? Que eu conceda uma dádiva a um ser humano indigno?

    — Não precisa levar tudo tão a sério. Um Cavaleiro é só uma ferramenta, uma ajuda na manutenção dos nossos poderes — Interrompeu Sexta.

    — Isso é pra você, Sexta — rebateu Segunda. — Antigamente as Damas escolhiam seus Cavaleiros como se escolhe um filho e os amavam como se fossem seus irmãos. Quinta, não é muito diferente disso. Para os mortais ela é casada com o Cavaleiro dela.

    — Casos como o meu são cada vez mais raros, irmã. Veja Terça, que trocou o último Cavaleiro por cinco.

    — Cinco? — Disse Quarta. — Que obscenidade é essa? Nosso poder não pode ser distribuído desse jeito.

    — É um time de MOBA, não tem como agraciar apenas um deles com minha dádiva.

    — O que é MOBA? — Perguntou Sexta.

    — Deve ser algum tipo de seita — respondeu Quarta.

    — Ah, esquece — interrompeu Terça. — Não estamos aqui pra discutir as nossas escolhas. Precisamos ajudar nossa irmã e se alguém não tiver algo útil pra dizer é melhor não dizer nada.

    — Na verdade tem uma forma de conseguir um Cavaleiro — Quinta falou essas palavras com cuidado, como se quisesse garantir que as irmãs saberiam o que ela falaria em seguida.— Existe uma Dama que pode ajudar, mas se a Mãe-de-Todas sonhar que encontramos com ela…

    — Não, não podemos — interrompeu Quarta. — Ela foi banida, é uma Dama renegada, por pouco não foi executada pela Mãe. Se você ousou entrar em contato com ela, Quinta-feira…

    — Não sou tão transgressora quanto pareço, Quarta-feira. Ela e eu… Nos conhecemos muito antes de tudo acontecer. Antes dos crimes, antes de toda aquela confusão.

    — O que acha, Segunda? — Perguntou Terça.

    — O que eu acho? Eu acho que vamos precisar colocar um ou dois biquínis na mala, meninas.

    Quinta não conseguiu segurar o sorriso. Sexta bateu palmas de satisfação. Quarta fez uma careta de reprovação e Terça cobriu o rosto com as mãos.

    — Vamos atrás da Dama Renegada. Eu quero aprender o canto de sereia da Dama do Mar.

Contos de Segunda #38

Desde os tempos mais primórdios o ser humano sonha, imagina e fantasia. E dos sonhos, imaginações e fantasias nasceram todos os tipos de seres. Mas nem tudo que o ser humano imaginou era coisa nova, muitas vezes coisas mundanas ganharam personalidade, forma, rosto e voz. E a força do imaginário humano fez nascer um tipo diferente de ser. Seres ligados a coisas naturais, terrenas, comuns, mundanas. Foi da mente dos homens que nasceram as Damas.

    Ao longo dos anos as Damas foram mudando. Não eram mais a Chuva, a Lua ou a Floresta que nasciam da imaginação dos homens. A Guerra, a Fome e a Justiça vieram depois. O tempo continuou passando e as Damas continuaram nascendo. Recebendo personalidade, forma, rosto e voz do imaginário mortal. Foi assim que nasceu Segunda, uma das cinco Damas da Semana. Apesar de satisfeita com seus poderes, de ter um dia dedicado só pra ela e de ser a líder das Cinco, ela ainda tinha um problema. Toda Dama precisa de um Cavaleiro. Das Cinco só Segunda que não tinha um, e isso estava preocupando a Mãe-de-Todas. Foi isso que levou Segunda à presença da Mãe naquele início de semana.

    Só uma Dama pode atravessar as portas para o Salão da Mãe. Onde a Dama da Lua observa o globo terrestre de seu trono prateado.

    — Saudações, Dama da Lua. Fonte de tudo que é bom e mãe de todas nós — Segunda fez uma reverência.

    — Pensei que atenderia mais rápido ao chamado, Segunda-Feira.

    — Só posso chegar ao Salão da Mãe quando estou com todos os meus poderes, Dama-Mãe, ou quando estou junto com minhas irmãs.

    — Poderia tê-las chamado, não és a líder das Cinco? Suas irmãs não te negariam esse favor.

    Provavelmente negariam. O chamado da Lua chegou na quinta-feira. As gêmeas, Quinta e Sexta, decidiram que todas as irmãs precisavam cair na farra. Com sorte elas encontrariam um candidato para ser o Cavaleiro que Segunda-Feira precisava. Esse tipo de plano normalmente acabava frustrado, Segunda sabia estragar prazeres, era um dos poderes que ela mais gostava de possuir.

    — Talvez… Mas eu já sei qual o assunto e… — Ela olhou para baixo encarando os próprios pés. — Não é tão urgente assim.

    — Como pode não ser urgente, jovem Dama? Sabes bem o que acontece com uma de nós quando não existe um Cavaleiro.

    — Eu sei, eu sei, mas… Dizem que a insanidade pode demorar muito pra aparecer, ainda tenho tempo.

    — Não é só isso que me preocupa, pequenina. Teus poderes podem ficar fora de controle bem antes de qualquer sinal de insanidade. Uma Dama descontrolada é um dos maiores perigos do universo.

    — Eu sei, eu sei, mas Mãe… Eu não consigo encontrar um candidato.

    — Seria mais fácil se tuas vestes estivessem de acordo — Lua apontou para sua filha. Enquanto a Mãe-de-Todas vestia um longo vestido branco que brilhava como a lua cheia e adornos feitos pela Noite em seus cabelos prateados, Segunda usava um casaco, cachecol e botas de inverno, uma touca de lã e óculos grandes de armação grossa.

    — Mãe, eu vivo no mundo mortal, preciso me misturar com eles. Todas as Cinco usam roupas mundanas.

    — Mas tuas irmãs não escondem a nossa beleza feérica debaixo de tantos tecidos, nem cortam os cabelos tão curtos e o que é isso no teu rosto?

    — Óculos…Já nasci com eles.

    — Pelo menos poderias optar por um modelo que valorizasse teus olhos, minha querida… E quanto ao candidato? O que esperas de um candidato a Cavaleiro?

    — Ah, Mãe, sei lá… Atualmente só queria que meu Cavaleiro não quisesse cortar os pulsos depois de acordar numa segunda-feira.

    — Ninguém tem tal desejo, filha.

    — Mãe, os meus poderes vêm da aversão que os mortais têm pelo meu dia. Os resmungos, queixas e reclamações dos humanos me dão tanta energia que nem Sexta em semana de feriadão consegue rivalizar com minha força. Eu não sou líder das Cinco por acaso.

    — Então basta encontrar esse mortal que não tem tal desejo, um que não resmungue ou reclame do teu dia. Ache este mortal e terás um Cavaleiro.

    — Muito fácil pra senhora dizer, nunca faltaram Cavaleiros da Lua, mesmo depois que o primeiro Cavaleiro partiu.

    — Calada, Dama da Segunda-Feira — os olhos da Lua se estreitaram de fúria, a sala ficou gelada e escura, apenas a luz da Mãe iluminava o ambiente. — Como ousa se dirigir a mim nesse tom — o ar ficou mais pesado, se Segunda não estivesse com todos os poderes, certamente seria esmagada. — Existem mais mortais na Terra do que podemos contar, volte, procure algum que se encaixe, peça ajuda às suas irmãs. Todas elas, a partir de hoje, têm o dever de ajudá-la nessa busca. AGORA VÁ!

    A luz da Mãe-de-Todas cegou Segunda por um instante. Quando os olhos recuperaram a visão ela estava no meio da rua, em uma calçada de um centro movimentado. O celular tocou no bolso do casaco. Um lembrete da hora da próxima aula. Seus alunos estavam esperando.

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