Cachorros de Bikini

Mais ágil que uma velha, mais rápido que um saco de cimento

Foi A Vida Adulta que Aconteceu Conosco

    Essa semana estava eu tentando marcar uma jogatina offline com meu irmão. Eu digo tentando porque hoje é sexta, a gente tentou desde segunda e o sábado vai chegar sem a gente conseguir fazer nada. Imediatamente eu lembrei de todas as coisas que eu não consigo fazer com os meus amigos por motivos de agenda, trabalho ou grana. Também lembrei que esses mesmos amigos estão em momentos diferentes da vida. Tem amigo que já casou, ou que já é mais ou menos casado, tem amigo noivo com casamento previsto, tem amigo noivo sem previsão de casar, tem amigo trabalhando demais, tem amigo sem trabalho, uns que estão saindo da faculdade e outros que acabaram de entrar e ainda amigo que não marcaria “Nenhuma das Alternativas” no questionário da pesquisa. Nesse ponto da história surge uma pergunta em minha cabeça:

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Independente de quem meus amigos são na fila do pão, a verdade é que aquela história de fazer aquilo que a gente quer quando a gente quer se provou mito muito mais ligeiro do que eu imaginei. Hoje em dia você quer marcar pra encontrar os amigos, mas aí tá todo mundo ocupado ou com algum impedimento. Você resolve juntar a galera pra jogar pela internet ou pra fazer uma atividade lúdica pelo Skype, só que esbarra nos mesmos empecilhos mesmo com cada um na sua casa. Muitas vezes até conversar pelo vatezape com alguns se mostra um trabalho hercúleo. Mais uma vez a pergunta retorna: o que diabos está acontecendo? Não demora muito pra resposta vir.

    Quando eu penso direito na pergunta eu vejo o quão absurda ela é. Acontecendo? Sinto muito, mas não tem nada acontecendo, já aconteceu. O que foi que aconteceu? Acho que no título desse post eu já adiantei a resposta. Foi a vida adulta que aconteceu conosco.

    Em 2017 todos os nascidos na década de 1990 serão maiores de idade. Isso quer dizer que as crianças do início dos 90 já tão nessa de ser adulto faz um bom tempo. Assim como aqueles do final dos 80 e outros que nasceram um pouco antes. Isso quer dizer que a esmagadora maioria dos meus chegados está vivendo na plenitude das suas ocupações e responsabilidades. Isso quer dizer que todo mundo já recebeu o seu diploma de adulto e se brincar já tem gente terminando o mestrado ou o doutorado.

A verdade é que ninguém quer ser adulto. Ser adulto é uma bela de uma bosta e muito se ilude quem tá doido pra ser crescido e dono do próprio nariz. Trabalho, salário, dinheiro, boleto, falta de dinheiro pra pagar o boleto, falta tempo pra gastar com você, sobra tempo que você só pode gastar com você porque os outros não tem tempo pra você gastar tempo com eles, hora extra, preço das coisas subindo, imposto, dor nas costas, taxa, orçamento, voto obrigatório. No final você olha pro lado e tá todo mundo meio perdido nesse tiroteio que é a vida adulta. Os que ficam menos perdidos são os que aceitam mais rápido o estado adulto do seu ser. Simplesmente se jogam aos leões sem olhar pra trás e param de tentar utilizar plenamente a suposta liberdade que a gente achava que ia ter quando fosse adulto.

Antes que você diga que esse post ficou muito pra baixo eu vou deixar uma mensagem de esperança. Hoje eu quero dizer que vale a pena sim lutar contra os intempéries da vida adulta. Vale a pena porque de tanto tentar a gente acaba conseguindo. Acontece muito? Não, mas quando acontece é tão bom que a gente fica com gás suficiente pra continuar tentando. Na prática só vira adulto de vez quem quer ou quem deixa. Eu todo dia reafirmo meu compromisso de tentar levar uma vida menos adulta e é por isso que eu desejo uma vida menos adulta pra todo mundo.

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Contos de Segunda #66

Jorge e Cristina estão com a história cada vez mais enrolada. Depois dos eventos relatados no Contos de Segunda #27 (Parte 01 e Parte 02) e das aventuras do dia dos namorados no Contos de Segunda #46, eles voltam pra continuar o que começou lá no Contos de Segunda #61.

  Jorge levantou preguiçoso naquela manhã de segunda-feira. Era o último dia do aviso prévio e a disposição dele estava do tamanho de um micróbio. Mais ou menos um mês tinha se passado desde que o Ministério Público convocou os aprovados em do seu último concurso. Jorge estava entre os aprovados. Imediatamente ele pediu demissão e iniciou o aviso prévio. Apesar de só assumir o cargo no início do ano, Jorge resolveu sair do emprego no início de dezembro e tirar uns dias de folga. Desde então o trabalho virou o inferno.

    Desde cedo o chat do pessoal do jurídico estava explodindo de mensagens. Aparentemente todo mundo estava empolgado com a despedida de Jorge.

    “Mas isso tudo quem vai pagar é Jorge. Ele vai virar funcionário público, nada mais justo do que pagar o almoço”, disse Oscar em certo ponto da conversa.

    “Acho justo”, concordou Paulo César.

    “Nem comecem com essa história”, interrompeu Jorge.

    “Qual é, Jorge? Último dia, tu vai receber uma grana boa de rescisão, vai passar o resto de dezembro de folga e ainda não quer pagar o almoço?”, argumentou Rômulo.

    “Metade do escritório disse que quer almoçar comigo hoje. Tem gente que fala disso todo dia. Se eu pagar o almoço de todo mundo vou falir”, rebateu Jorge.

    “Relaxa, Jorge. A gente consegue driblar a galera no almoço e faz uma coisinha só com a nossa galera”, disse Silveira.

    “Se ficar só com a gente eu pago o almoço. E depois do expediente?”, lembrou Jorge.

    “O bar de um amigo meu abre dia de segunda e fica aqui perto. A gente passa o rádio pro pessoal do escritório e quem quiser aparece lá. Roberta até falou que ia levar as amigas dela pra socializar com a gente”, respondeu Rômulo.

    “Nem comece com essa conversa, Rômulo. Se alguma amiga minha aparecer não vai ser porque eu levei”, rebateu Roberta.

    “Tu só fala isso porque Jorge é tretado com aquelas duas lá. É até melhor que Jorge vá embora, pelo menos tuas amigas vão aparecer quando a gente marcar alguma coisa”, completou Oscar.

    “E eu aqui pensando o que seria de vocês sem mim”, respondeu Jorge antes de bloquear a tela do celular.

    Apesar do histórico, Jorge não entrava em atrito com Cristina há um bom tempo. Principalmente por causa da correria que o último mês se tornou. A empresa estava sendo processada, Jorge precisou dobrar os esforços para trabalhar junto com os colegas na defesa e dar um jeito de eliminar as pendências antes do final do aviso prévio. Depois de algumas horas de sono a menos e uma dose extra de stress, Jorge estava preparado para passar o dia arrumando as coisas e se despedindo do pessoal.

    Se despedir era bem mais fácil na teoria. Depois de alguns anos trabalhando no mesmo lugar onde a vida profissional começou, ir embora era um pouco assustador. Ao se despedir de todos os amigos que fizera entre aquelas paredes, Jorge se lembrou de muitas ´histórias, como tinha conhecido cada um deles, como uma parte deles sempre estendeu a mão quando ele precisou de ajuda e como muitos mais encontraram a mão dele estendida pronta para oferecer ajuda. Juntar as coisas também era mais fácil na teoria. As fotos em cima da mesa mostravam pessoas que partiram, outras que ficaram e mais algumas que estavam indo junto com ele. Boa parte das coisas sobre a mesa eram presentes. Agora ele precisava arrumar um lugar para tudo aquilo. Para tudo aquilo e para si. Aquele que foi o lugar de Jorge no mundo não era mais. E foi divagando sobre esse assunto que ele foi tomar um café. Se não estivesse tão distraído, teria percebido que outra pessoa também estava tomando café.

    — Ah… Oi, Jorge

    — Oi, Cristina… Não vi que você estava por aqui… Melhor eu deixar o café pra depois.

    — Relaxa, Jorge, hoje eu não vou brigar contigo — respondeu ela procurando algo nos armários da copa. — O falatório sobre a tua despedida tá tão grande que esse nosso encontro casual não vai gerar nenhum comentário.

    — Espero que sim — disse ele enchendo uma xícara. — Se tem uma coisa que eu não vou ter saudade é de toda essa fofoca por causa da gente — deu um gole no café.

    — Pelo menos pra alguma coisa tua demissão tem que servir, Jorge. O pessoal do jurídico já tá chorando só de pensar em como vai ser a partir de amanhã. Ao menos alguma coisa positiva tem que sair disso.

    — A galera vai ficar bem, eu não vou fazer essa falta toda. O pessoal só precisa aprender uma ou duas coisas pra poder brigar de igual pra igual contigo. Fora isso vai ficar tudo bem.

    — Teus amigos são meio moles mesmo. Vou começar a tratar só com Roberta. A gente se entende bem sem precisar brigar… Ficar brigando por tudo cansa.

    — Nem me fale… Não vou dizer que vou sentir falta de brigar com você duas ou três vezes por semana… Mas tirando a parte das brigas, foi bom trabalhar contigo, Cristina. Pelo menos até antes da tua amiga começar a espalhar histórias por aí.

    — Pois é — ela ficou alguns segundos em silêncio. — Acho que a gente ainda vai se ver por aí. Do jeito que vai o rolo de Fábio e Luciana, já já a gente vira padrinho.

— Nem me lembra disso. Fábio só fala da tua amiga o tempo todo. Qualquer dia eles casam… Eu ainda passo por aqui esse ano. No dia do amigo secreto do jurídico eu apareço por aqui.

— Passa lá pra dar um alô.

— Passo sim.

Cristina saiu sem dizer mais nada. Deixou Jorge sozinho com o resto do café e dos pensamentos. Ele estava mexendo no celular quando chegou uma mensagem dela.

“Boa sorte, Jorge… Eu ainda te odeio.”

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Contos de Segunda #61

O conto a seguir é uma continuação dos eventos do nosso especial do Dia dos Namorados. Para saber o que aconteceu entre Jorge e Cristina nessa data tão romântica é só dar uma lida no Contos de Segunda #46.

  Cristina estava contando os minutos para as seis da tarde. Normalmente a segunda, apesar de ser o pior dia da semana para ela, costumava passar rápido, mas aquela segunda em especial estava custando a passar… E o mau humor de Cristina estava crescendo junto com a lerdeza das horas.

    — Que cara é essa, amiga? — A pergunta vinha de uma pessoa que ultimamente estava se esforçando para não ser brutalmente assassinada por Cristina.

    — Só tenho essa cara, Luciana — respondeu Cristina passando os olhos rapidamente pela caixa de emails e anotando algumas coisas em um bloquinho.

    — Nem parece que o final de semana foi bom — disse Luciana sem tirar os olhos das fotos na tela do computador. Aparentemente ela tinha esquecido de organizar as fotos dos eventos da empresa desde o início do ano, mas estava tão tranquila com o prazo apertado que parecia estar adiantando trabalho do ano que vem.

    — Não tem nada a ver com meu fim de semana, Luciana.

    — Ah, então quer dizer que o professor rendeu alguma coisa. Muita malvadeza tua não compartilhar com as amigas.

    — Nem tem o que compartilhar, Luciana. O professor é um cara legal, mas… — Ela tirou a cabeça da frente do monitor. — Sei lá, não deu aquele estalo.

    — Que nem dá com Jorge?

    Apesar de não ter gostado do comentário Cristina não podia negar. Depois do Dia dos Namorados ela não tinha mais falado com Jorge sobre assuntos que não fossem relacionados ao trabalho. De lá pra cá ela saiu com pelo menos quatro caras diferentes e outros três foram eliminados antes do primeiro encontro. Todos eles eram bajuladores. Cristina não gostava de ficar num pedestal. Namoro tinha que ser uma mistura de queda de braço, cumplicidade criminosa, alguns nãos antes dos sins e uma pitada de rivalidade. Fugir do restaurante japonês junto com Jorge no Dia dos Namorados teve um sabor parecido.

— Jorge não dá nada, Luciana, nada além de trabalho. Sabia que ele veio reclamar comigo por causa da ação do Dia das Crianças no nosso site?

— Só por causa da falta de autorização do uso das imagens?

— Ninguém ia ligar praquelas imagens, ele só queria arrumar motivo pra se meter no trabalho da gente. O trabalho seria bem mais tranquilo se ele fosse embora.

Roberta entrou na sala assim que a frase terminou. Qualquer um que olhasse no rosto dela pensaria que ela ia explodir se não começasse a falar logo.

— Volte daí mesmo, Roberta — disparou Cristina assim que viu a amiga. — A vontade de te assassinar ainda não passou toda.

— Deixa eu soltar a bomba que eu saio — rebateu Roberta virando imediatamente na direção de Luciana. — Jorge foi chamado pra trabalhar no Ministério Público… Ele começou a cumprir aviso prévio hoje.

— Roberta, fecha a porta — disse Luciana puxando uma cadeira para a amiga sentar. — Explica essa história.

— Jorge passou num concurso antes de vir trabalhar aqui. Na verdade ele tinha trabalhado aqui quando era estagiário e saiu pra poder estudar pra esse concurso. Esse resultado saiu tem quase dois anos. Ele tinha acabado de voltar pra cá.

— Ele vai embora no começo do mês que vem? — Perguntou Luciana.

— Isso. Pelo menos ele pediu pra não tirar ele do amigo secreto do jurídico, o que é uma maravilha por que ele sempre dá presente bom.

— É bem a cara dele gostar dessas coisas de amigo secreto — desdenhou Cristina.

— Que maldade, Cristina — Roberta fez um bico. — Jorge é uma das melhores pessoas dessa empresa e você fica com essas coisas.

— Liga não, Roberta — o tom de Luciana dava uma prévia da dose de veneno contida na frase seguinte. — Ela tá assim por que ela não agarrou o boy e agora ele vai embora.

— Morreu esse assunto por hoje! — Esbravejou Cristina. — Roberta, volta pra tua sala antes que o pessoal volte do café e te veja por aqui. Luciana, organiza logo essas fotos que é melhor

Cristina respirou fundo, pegou a caneca térmica e tomou um gole longo de café. Pela porta que Roberta deixou aberta ela conseguia ver uma movimentação anormal no corredor. Aparentemente muita gente apareceu para dar os parabéns a Jorge. Ela nunca tinha reparado em quantos amigos ele tinha no escritório. Quando o gole acabou ela ainda estava pensando se também sentiria falta dele.

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Contos de Segunda #46

Todo o plano de Luciana e Roberta para juntar Jorge e Cristina não começou hoje. Esse conto, além do retorno de Jorge e Cristina à nossa série semanal,  é uma continuação dos Contos de Segunda#34, Contos de Segunda #42 e Contos de Segunda #44.

— Você e seu rolo atual vão jantar no dia dos namorados, mas em vez de aproveitar o romantismo de um momento a dois comendo sushi, vocês vão articular um blind date comigo e um amigo dele.

    Era sexta-feira. O dia dos namorados daquele ano caía no domingo e Luciana estava tentando convencer Cristina a não passar o dia 12 sozinha em casa. As duas estavam almoçando, Luciana resolveu comer um sanduíche, ela sabia que Cristina comeria alguma salada complicada que deixaria metade do cérebro dela ocupado durante a refeição. Quando o sanduíche terminou o prato de salada ainda estava na metade.

    — Falando desse jeito até parece um absurdo, Cristina. Minhas intenções são puras e minhas ações movidas exclusivamente pelo sentimento sincero que eu nutro por você – uma dose cavalar de teatralidade estava depositada em cada palavra.

    — Sei lá, Luciana. Não tô no clima de romance ultimamente, principalmente quando aparece uma oferta pra segurar vela em dupla — apesar da complicação da salada o cérebro de Cristina estava funcionando melhor que o esperado.

    — Vai ser legal, amiga. Preciso que você vá lá pra aprovar meu guitarrista. Lembra dos meus outros namorados? Graças a você eu me livrei de dois malucos, um eco terrorista e um fanático por futebol. Nunca namorei um músico, sua avaliação se faz necessária… E vai ser de graça.

    Cristina revirou os olhos como se procurasse uma solução dentro da própria cabeça. Olhou para o prato de salada, mas o alface não parecia ter uma solução escrita nas folhas. Ela respirou fundo, olhou Luciana nos olhos e disse:

    — Tá bom, tá bom — ao ouvir essas palavras Luciana bateu palmas eufóricas de satisfação. — Mas você tem que me garantir que esse amigo não é um daqueles malucos de academia, nem um que vai votar em Bolsonaro, nem daquela galera do “ain, não tinha isso no livro” e nem aqueles malucos por quadrinhos — cada um dos tipos proibidos era contado nos dedos.

    — Relaxa, gata. Pode ter certeza que o cara é perfeito pra você.

    — Já te disse pra não me chamar assim

    — Assim como?

    — “Gata”. Vi em algum lugar que não se deve confiar em uma mulher que chama a outra de “gata”, acabei ficando com isso na cabeça. Não sei se isso tem fundamento, mas por via das dúvidas não me chame desse jeito.

    O dia 12 não demorou para chegar. Era fim de tarde quando Luciana colocou a chave do carro na mão do manobrista. O restaurante japonês não era tão grande, mas era bem refinado. Em condições normais seria impossível conseguir uma reserva para o dia dos namorados tão em cima da hora, mas o guitarrista de Luciana faria uma apresentação no restaurante às oito da noite, de alguma forma aquilo ajudou com a reserva. Pouco depois de cruzar a porta um rapaz se aproximou para atendê-las.

    — Boa tarde, senhoritas. Qual o nome que está na reserva?

    — Boa tarde — respondeu Luciana. — A reserva está em nome de Fábio. Imagino que ele já esteja por aí.

    — Está sim, me acompanhem por favor.

    O rapaz conduziu as duas até chegar a um salão. Próximo do bar estava um pequeno palco onde uma moça tocava piano e cantava. Cinco mesas antes do palco estavam Fábio e seu amigo. Os dois conversavam empolgados e não notaram as moças até que as duas estivessem bem perto.

    — … Eu tô dizendo, meu velho, essas coisas só funcionam na televisão e… Olha elas aí — disse Fábio.

    Instintivamente o outro homem da mesa se virou ainda achando graça da conversa interrompida. Em uma fração de segundos o ar de riso foi convertido em uma cara de velório. A reação de Cristina não foi muito melhor.

    — Ah, não… — Disse ela baixinho. — Oi… Jorge.

    — Cristina, que… Surpresa — o olhar de Jorge foi desviado imediatamente para Luciana. — Não sabia que a menina de quem Fábio estava falando era você, Luciana.

    — É sempre bom te ver também, Jorge. A gente chegou muito cedo, Guitarrista?

    — Na hora certa, Lulu — Fábio se levantou, deu um beijo no rosto de Luciana e ofereceu a cadeira ao lado de Jorge. — E você é Cristina. Sou curioso pra te conhecer faz tempo.

    — Digo o mesmo, Fábio. Não sabia que você e Jorge eram amigos — respondeu Cristina sentando de frente para Jorge, o olhar dos dois se encontrou por um instante. Ele estava tão raivoso quanto ela.

    — Então, Luciana, foi Roberta que apresentou vocês dois? — Perguntou Jorge desbloqueando a tela do celular.

    — Ela me levou pra um ensaio do casamento do irmão dela e a gente se conheceu lá.

    — Ah, é mesmo? — Os dedos de Jorge digitavam rapidamente uma mensagem para Roberta. “Você não devia ter se metido nisso, Roberta”.

    — Eu não tinha sido convidada pro casamento e estava curiosa sobre a banda. Cristina não topou me levar de penetra e Roberta acredita piamente que o irmão dela me detesta.

    — Tenho a forte impressão que o irmão dela também acredita nisso — interrompeu Cristina enquanto enviava uma mensagem para Roberta. “Vou te enforcar com as tuas tripas, Roberta”.

    — Se vocês me dão licença, eu vou no banheiro e volto logo — disse Jorge olhando diretamente para Cristina.

    A moça entendeu a deixa. Jorge podia estar no topo da lista negra, mas eles precisariam trabalhar juntos pra sair dessa situação.

    — Eu vou dar uma passada no bar, estou com planos de ficar meio bêbada, melhor começar cedo.

    Os dois seguiram caminhos distintos. Jorge partiu em direção ao banheiro, mas antes disso entregou um cartão a um garçom qualquer pedindo para entregá-lo à moça que estava chegando no bar. Assim que o cartão chegou Cristina discou o número.

    — Se você tiver alguma coisa a ver com essa história… Alguma coisa com saquê e morango, por favor. Se você estiver no meio disso, Jorge, pode ter certeza que eu te mato antes de matar Roberta.

    — Me mata depois, aí eu te ajudo a esfolar Roberta viva. Eu convenci Fábio a tocar no casamento do irmão dela e é assim que ela me paga.

    — A culpa só podia ser tua, Jorge. Deus queira que esse teu amigo da guitarra não tenha muita coisa pra contar a Luciana.

    — Relaxa que Fábio sabe menos coisa do que Luciana, pelo menos sabia. A gente precisa de um plano.

    — Depois dessa mão-de-obra toda não tem plano? E Luciana ainda quer me juntar contigo, sinceramente.

    — E ainda me perguntam por que eu não gosto de você… Fábio toca às oito, são dez pras seis. Imagino que ele vai sair da mesa pelo menos meia hora antes…

    — Eu não vou ficar mais de duas horas olhando pra tua cara, Jorge. Antes disso eu pulo no pescoço de Luciana e a gente vai daqui pra delegacia ou pro hospital… Tais de carro?

    — Sim. E pelo jeito da pergunta Luciana é a tua carona.

    — Foco na solução, Jorge. É só a gente dar um jeito de disfarçar e depois dá uma escapulida. Eu fico no bar e você finge que tá com dor de barriga.

    — Por que eu tenho que fingir que estou com cag… Dor de barriga? É só eu ir pro bar também, digo que quero ver a pianista de perto.

    — Nós dois no mesmo lugar e eles não vão tirar os olhos da gente. Vou voltar pra mesa, lá a gente pensa em alguma coisa.

    Meia hora se passou. Luciana e Fábio pediram sushi, Jorge não pediu nada e Cristina resolveu não tomar mais nada alcoólico. A tensão da mesa era crescente. Luciana e Fábio pareciam estar se divertindo muito com toda a situação, enquanto Jorge e Cristina estavam se sentindo feras enjauladas.

    — Jorge, já comeu desses sushis com camarão? — Perguntou Fábio. — Eu acho meio estranho.

    — Esqueceu que eu sou alérgico? Se eu colocar um camarão na boca já começo a ter reação.

    — Sério? — Perguntou Luciana genuinamente surpresa.

    Cristina olhou para Jorge. Quando ele olhou de volta ela indicou o camarão com os olhos. Ele fez “não” com a cabeça, ela fez “sim.

    — Sério, Luciana. Vê só — antes que alguém pudesse ver Jorge jogou um pedaço de camarão dentro da boca, mastigou duas vezes e cuspiu.

    Imediatamente a língua dele dobrou de tamanho, o rosto ficou vermelho e estava começando a inchar.

    — Meu Deus, Jorge! — Gritou Cristina da forma mais exagerada que ela pode. — Tá doido? A gente tem que te levar pro hospital.

    — Assho que ffffim — respondeu o pobre Jorge.

    — Me dá a chave do carro, eu te levo — disse Cristina. — Fábio precisa tocar e Luciana leva ele depois.

    Os dois se levantaram e saíram correndo. Antes que Luciana e Fábio pudessem entender tudo, Cristina já estava dando partida no carro. Jorge abriu o porta-luvas, sacou um tubo de plástico, tirou uma ponta e cravou na perna. O antialérgico tinha sido rápido o suficiente para salvar Jorge de um possível choque anafilático. Cristina se colocou no caminho de casa, pouco antes de chegar lá Jorge conseguiu falar.

    — Você só pode ser doida, Cristina.

    — Não te obriguei a fazer nada, Jorge, mas não vou ser injusta com você. Parabéns pela coragem.

    — Não pensei muito, dois segundos a mais de raciocínio e a gente ainda estaria lá — o nervosismo na voz dele era perceptível.

    — A gente precisa dar um jeito nisso, Jorge, a situação tá fora de controle.

    — Segunda-feira a gente pensa nisso, Cristina. Esse remédio já tá me deixando com um sono inacreditável. Me deixa em casa que eu te coloco num táxi ou pego meu carro na tua casa amanhã cedo.

    — Eu que não vou pagar táxi, acabei de salvar tua vida. Mereço no mínimo uma carona, com ou sem você no carro.

    — Então considere isso como o seu presente… Feliz dia dos namorados, Cristina.

    Antes que ela pudesse responder Jorge já estava dormindo. Um sorriso surgiu no rosto da moça. Ela dobrou uma esquina e parou em um posto de gasolina, pegou o telefone de Jorge e ligou para a mãe dele. Ele dormiu antes de dizer onde morava.

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Mulher Larga Emprego para Amamentar Namorado

Sim. É isso mesmo. Você não leu errado. Na última quarta-feira eu estava olhando o meu feed do facebook e eis que vejo uma noticia compartilhada por um grande portal de notícias daqui. O título da notícia era  “Mulher larga emprego para amamentar namorado a cada duas horas, uma manchete chocante e auto explicativo na mesma proporção. Na hora que eu vi esse negócio o cérebro desligou. Antes que pudesse pensar qualquer outra coisa eu pensei:

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Passado o susto inicial fui lá dar uma averiguada boa na notícia. Vamos resumir bem pra diminuir a chance de trauma. Uma moça ouviu falar da prática de amamentação adulta… Vou abrir um parênteses aqui só pra dizer que só de saber que isso existe eu já fiquei traumatizado. Segundo ela, essa prática desenvolve um vínculo único entre as pessoas envolvidas e essa ideia fascinou a jovem. Depois disso começou a saga da moça atrás de um rapaz que topasse essa parada de mamar depois de velho. Ela procurou muito, muito mesmo, a moça realmente estava muito determinada e depois de quase perder as esperanças finalmente encontrou um rapaz disposto e agora os dois estão juntos. A moça amamenta seu namorado a cada duas horas para estimular a produção de leite, largou até o seu emprego como garçonete pra manter a regularidade da amamentação. Os dois estão super felizes com isso e vivendo as maravilhas que apenas o vínculo criado na amamentação pode proporcionar.

  Agora é a parte do post em que eu comento sobre o ocorrido… É, vamos lá.

Sobre isso eu não tenho muito a dizer. Faz tempo que esse mundo tá sem freio e a internet, essa terra maravilhosa, nos ajuda a conhecer mais sobre as coisas malucas que existem no nosso pálido ponto azul. Tudo bem que eu não sou tão velho, não posso dizer que já vi de tudo, mas posso afirmar que vi muita coisa. Nada que eu já vi na minha vida mais ou menos breve se compara com essa maluquice. Notem que a moça não inventou essa onda de amamentar gente crescida, é uma prática com adeptos suficientes pra ser divulgada por aí. Um monte de gente por aí mamando e sendo mamada, literalmente mamando e sendo mamada, sem duplo sentido e nem maldade na afirmação. Pessoas estão aí se nutrindo de leite materno depois de adultos…

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Acho que é isso, até a próxima.

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Contos de Segunda #44

 As peripécias de Luciana e Roberta para fazer Jorge e Cristina ficarem juntos não começou hoje. Esse conto é uma continuação dos Contos de Segunda#34 e Contos de Segunda #42.

   — Deixa eu ver se eu entendi direito. Vai rolar um ensaio do casamento do seu irmão. A banda do amigo de Jorge vai estar lá e você quer que eu apareça lá pra chegar nele? — Luciana aparentava uma confusão proposital.

    — É — respondeu Roberta mais concentrada no salmão defumado do que nas sutilezas da amiga.

    As duas não se falaram muito desde o dia em que Fábio confirmou que tocaria no casamento do irmão de Roberta. Um ensaio do casamento marcado em cima da hora fez as duas almoçarem juntas

    — Quem ensaia casamento em dia de segunda?

    — Alguém que não pode ensaiar outro dia — no ranking da atenção de Roberta, Luciana estava atrás do salmão e do celular.

    — Foco, Roberta, estamos discutindo coisa séria.

    — Nem tem muito o que discutir. Hoje você aparece comigo lá no ensaio e quando acabar tudo conversa com Fábio. Simples assim.

    — Preferia fazer isso no casamento do teu irmão.

    — Não sei se você sabe, mas Cristina estudou com Beto na faculdade e ela vai estar lá no casamento. Acabo de lembrar que ele estudou contigo também, mas até onde eu sei Beto não vai com a tua cara.

    — E daí?

    — E daí que esse seu plano só vai funcionar se ela não suspeitar de nada. Por que se ela sentir o cheiro dessa armação, vai cantar essa pedra pra Jorge e já era esse teu Game of Thrones versão cupido.

    Contra esse argumento Luciana não encontrou resposta além do silêncio. O relógio estava quase nas nove horas da noite quando ela e Roberta chegaram ao salão de festas. Os noivos já tinham combinado a trilha sonora da cerimônia e agora estavam ensaiando a valsa. Somewhere Only We Know seguido de Burnin’ Love. A banda de Fábio tinha um homem no vocal, mas uma voz feminina foi recrutada para ajudar na versatilidade da banda e permitir os duetos.

    — Acho que ainda vai demorar — Roberta analisava o relógio arrependida, devia ter comprado um maior.

    — Então é a nossa chance — Luciana já tinha analisado todo o ambiente.

    — De quê?

    — De chamar a atenção de Fábio, o que mais seria?

    — O cara tá trabalhando, Luciana. Tem umas cadeiras ali e…

    — Nada disso — Luciana rapidamente se posicionou atrás da amiga, colocou as mãos nos ombros dela e começou a empurrar. — A gente vai esperar um pouco, quando eles se prepararem pra repetir a música você vai ali cumprimentar seu irmão e vai aproveitar a deixa pra falar com Fábio e vai dizer que é amiga de Jorge. Isso vai chamar a atenção dele o suficiente pra ele dar uma olhada ou outra pra onde a gente estiver sentada, o resto é comigo.

    Elas precisaram esperar só um minuto. A música terminou. Beto e sua noiva estavam bem satisfeitos com a performance deles e da banda. Roberta aproveitou a pausa para se aproximar.

    — Caramba, Beto. Não pensei que essa valsa ia ficar tão boa. Obviamente não por causa da noiva, sempre confiei em você, Angela.

    — Eu também pensei que não ia rolar. Nem sei como te agradecer por ter conseguido a banda.

    — Não fiz nada, Jorge que conseguiu convencer a banda a aceitar o convite — ela se virou para a banda. — Boa noite, pessoal.

    — Boa noite! — Respondeu a banda em coro.

— Você deve ser Roberta? — A pergunta vinha do guitarrista.

— Sou eu. Falei contigo no telefone.

— Avise a Jorge que ele só não fica me devendo essa, por que se der certo a gente pretende aproveitar esse segmento matrimonial. Vai ficar pra ver o ensaio?

— Sim, tô ali com uma amiga. Comentei sobre essa história de vocês tocando no casamento e ela ficou curiosa — Roberta olhou pro relógio. — Olha só a hora, e eu aqui atrapalhando. Vou ficar ali até vocês terminarem.

O ensaio recomeçou. Uma dúzia de passos e Roberta chegou onde estava Luciana.

— Valeu, amiga. Agora é só ele agir como o previsto e tá no papo.

O plano de Luciana deu certo. Volta e meia Fábio dava uma olhada discreta para onde as duas amigas estavam. Luciana respondia com olhadas nem tão discretas para o guitarrista. Quando os olhares ficaram mais frequentes ela resolveu brincar com o ego musical dele. Luciana começou a cantar as músicas junto, depois começou a se mexer na cadeira e terminou puxando Roberta para dançar imitando os passos dos noivos. Fábio já estava com a guitarra dentro do case quando foi falar com as duas.

— Que bom que gostaram da música.

— Vocês são muito bons mesmo eu até…

— Tô apaixonada pelo som de vocês — interrompeu Luciana. — Você deve ser o amigo de Jorge, né? Luciana, prazer — A mão já estava estendida antes do “prazer” terminar de sair da boca.

— Fábio. Se gostou agora vai ficar impressionada no casamento, vão rolar umas surpresas bem interessantes.

— Eu não fui convidada, há quem diga que o noivo me detesta.

— Jorge também não fala muito bem de você.

Luciana corou. Todas as dezenas de respostas possíveis morreram ainda na garganta. Ela gaguejou e não saiu nada. Fábio abriu um sorriso.

— É uma pena que você não vai pro casamento, mas se quiser ouvir a gente tocar e estiver com a quinta-feira livre, é só dar uma chegada nesse bar aqui — Fábio sacou um folheto do bolso e entregou a Luciana. — Depois do show você me explica por que Jorge gosta tão pouco de você. Agora preciso ir pra não perder a carona. Até mais.

    Elas esperaram o guitarrista se afastar em silêncio. Luciana ainda estava corada quando Roberta falou.

    — Pois é, amiga. Parece que tudo deu certo. Fico impressionada com a tua capacidade de interpretação.

    — Tô achando que não foi bem isso, Roberta — as palavras saíram devagar da boca de Luciana. — Acho que essa história não vai ficar só com Jorge e Cristina.

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Contos de Segunda #42

Os fatos narrados a seguir são uma continuação direta do Contos de Segunda #34 e tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

Roberta estava impaciente. Fazia três semanas que ela tentava extrair uma informação muito importante: para qual amigo Jorge contava tudo da vida dele. Essa informação era vital para o plano de Luciana de juntar Jorge e Cristina. Roberta não entendia bem o por quê, mas concordou em ajudar. De fato teria ajudado, se Jorge não tivesse passado quase duas semanas viajando e tivesse voltado ao trabalho por tempo o suficiente para contrair zika, mas estaria de volta a partir daquela segunda-feira. Exatamente uma semana antes de Cristina voltar de férias e poder interceptar o plano. O problema era como fazer isso. Roberta estava perdida em pensamentos cupidoconspiratórios quando Luciana entrou na sala.

    — O boy de Cristina morreu? Volta mais não?

    — Bom dia pra você também, Luciana.

    — Eu aviso quando estiver bom — ela puxou uma cadeira para perto de Roberta e sentou.

— Três semanas, Roberta, três malditas semanas que não me renderam nada. Pensei que você e Jorge eram amigos o suficiente pra desenrolar fácil essa história.

— Faz três, como é mesmo? Malditas semanas que eu não vejo Jorge, e até onde eu sei, só encontro com ele aqui no escritório.

— Nem pra pescar no Facebook, Roberta?

— Depois que você começou com essa história ele desfez a amizade comigo, disse que não era nada contra mim, era por sua causa. Depois disso ele ativou opções de privacidade que nem Mark Zuckerberg conhece.

— Instagram?

— Jorge é tão inativo no Instagram quanto minha vó. Ela sempre espera um neto passar lá pra ajudar ela com os filtros.

— Nem Linkedin?

— Nem sei, não uso Linkedin.

    — Deve ter alguma coisa em algum lugar. E-mail ou celular… Isso, preciso do celular.

    — Ah, não. Não vou roubar celular de seu ninguém.

    — Deixa de ser dramática, Roberta. Esse vai ser o plano B. Se não der pra conseguir nada hoje, amanhã a gente tenta o celular.

    — A gente você, Luciana. Eu tô fora dessa de pegar celular dos outros.

    — Só não te digo umas verdades por que o boy já passou ali do outro lado e eu tenho uns cinco segundos pra sair sem ele me ver. Vê se consegue as coisas hoje, beijo.

    Poucos segundos depois Jorge entrou na sala. Ele parecia estar totalmente recuperado.

    — Bom dia, Roberta. Como ficaram as coisas aqui enquanto eu estava fora?

    — Melhor do que você imagina. Curtiu bem a zika?

    — O máximo que eu pude. Nos primeiros dias eu fiquei dormindo sem parar, só depois que eu consegui fazer alguma coisa. E os preparativos do casamento?

    — Meu irmão tá me deixando maluca, é pior que a noiva. Agora ele cismou que quer uma banda que toque só rock.

    — Um amigo meu é guitarrista. A banda dele é muito boa, toca todo tipo de rock. Se quiser eu passo o contato.

    — Sério?

    — Sério. Nunca vi ele dizendo que tocou em casamento, mas acho que ele topa. Se ele disser que não aceita, me avisa que eu converso com ele. Tenho alguns favores pra cobrar.

    — Ah, Jorge — o rosto de Roberta corou de leve . Nunca que eu ia te pedir pra fazer uma coisa dessas.

    — Fábio é quase meu irmão, pra mim ele desenrola essa guerra.

    — Valeu mesmo, Jorge.

    Roberta voltou para seu computador. Quando estava para voltar ao trabalho teve um estalo. Um detalhe que por pouco escapava. Foi quando a chama da conspiração se acendeu no seu peito. Ela pegou o celular, abriu o chat com Luciana e mandou uma mensagem.

    “Já tenho o nome do alvo.”

    “Só com o nome não dá pra achar.”

    “Nome e telefone. Depois eu explico melhor.”

    O pacto de cumplicidade acabava de ser selado. Roberta não gostava muito de fazer essas coisas… Mas agora não tinha mais volta.

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Dia das Mães

No último domingo, também conhecido como dia 8 de Maio de 2016, foi comemorado o Dia das Mães. Nem preciso dizer que o tema do texto dessa quarta-feira já estava definido muito tempo atrás, afinal esse é o primeiro Dia das Mães do Cachorros de Bikini e data tão importante não poderia passar batida. Já tinha me preparado pra fazer alguma coisa parecida com o que eu fiz no Dia dos Pais, mas eis que um evento recente fez tudo mudar. A análise sobre a data em si vai ter que ficar pra 2017.

Na semana passada foi aniversário de Vó. No dia 4 de Maio ela chegou à impressionante marca de 84 anos. Infelizmente não pude dar os parabéns pessoalmente no dia 4, por isso dei uma ligada pra ela. Até aí nada de muito diferente dos anos anteriores, foi quando ela me disse uma coisa que me deixou pensativo. Em meio à alegria de receber os parabéns, ela me diz “você é um filho que eu não tive, os outros todos eu tive, não tive você, mas você ainda é meu filho”. Caso as palavras de Dona Irene tenham te deixado com dúvida, me dê um momento e eu vou esclarecer. Vovó teve um monte de filhos, alguns morreram ainda muito pequenos, o mais velho morreu adulto, e os outros cinco que restaram são todos filhos ótimos, ou seja, de filho minha vó não tem do que reclamar. Pra ela os netos sempre foram tão filhos quanto qualquer um dos outros, filhos que não foram gerados por ela. Pode parecer redundante falar isso, afinal, por definição, vó é mãe duas vezes, mas uma coisa é você saber que é assim, outra é você ouvir isso da matrona da família Gomes. Até por que nem todas as avós pensam nos netos efetivamente como filhos. Refletindo sobre isso atentei para um detalhe. Atentei pra todas as mães que tem filhos que elas não tiveram.

A maternidade é algo natural. Ela deriva dos instintos de preservação da espécie e zelo pela prole, acredito que todos os mamíferos agem movidos por esse instinto. Porém nem sempre o processo de gerar um filho é obrigatório para manifestação da maternidade. Tem vez que acontece por escolha, outras por acidente, mas boa parte das pessoas acaba sendo um filho pra várias mães. Tias, avós, vizinhas e derivados são candidatas fortes à essa maternidade extra-uterina, principalmente as que já geraram seus filhos e os rebentos já estão crescidos. A prole cresce, fica independente, mas mãe não funciona do mesmo jeito. Mãe é mãe e pronto. Outras candidatas fortes são as que sempre quiseram, mas nunca geraram um filho. Com essas é um pouco diferente, nesses casos a maternidade não é só o instinto, é um chamado. Mulheres que nasceram com um alerta luminoso no coração que diz “INSIRA UM FILHO AQUI”.

E isso tudo eu falei só pra poder dizer que pra ser mãe basta ser mulher. Basta ter amor, vontade de nutrir e cuidar, um coração com espaço pra sempre caber mais um. Pra ser mãe basta ter um útero, não importa se ele já gerou dez filhos ou nenhum. Nem todo útero consegue gerar um filho, mas todos eles conseguem gerar uma mãe.

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“Eu Vou Celebrar Um Casamento”

A frase que dá título ao texto de hoje apareceu no meu feed do Facebook no início dessa semana. Ela foi escrita por uma grande amiga minha que está pulando num pé só de tanta felicidade. O motivo já dá pra adivinhar, ela vai celebrar um casamento. Ela não é (até onde eu sei) juíza de paz, não é sacerdotisa  e (ainda) não é representante de nenhum tipo de religião. Ela foi convidada pelos noivos apenas por ser uma amiga do casal e principal responsável pela união dos dois, pelo menos foi o que ela disse. Diante da peculiaridade do fato, fico pensando como é passar por uma experiência tão singular.

    Imagine que um casal de amigos te chamou pra ser padrinho ou madrinha. Agora multiplique isso por cem. Provavelmente essa é a sensação de ser convidado pra celebrar um casamento. Somos acostumados a testemunhar as uniões, eu mesmo fui testemunha de um casamento ano passado e fui lá assinar o livro amarradão, mas uma porcentagem ínfima da população vai a um casamento pra promover, diante de Deus e dos homens, a união entre duas pessoas que, pelo menos até aquele momento, desejam passar o resto dos dias juntos. Juntar as escovas de dente, apesar de não ser muito recomendado pelos dentistas, ter aquela velha conversa de alcova, acordar com o mesmo alguém do lado até que a morte os separe. E tudo isso só vai acontecer por que você estava lá diante dos noivos, padrinhos, madrinhas, família, amigos e da divindade preferida pelos noivos pra fazer uma das perguntas mais conhecidas da humanidade. “Você aceita (insira o nome do noivo ou noiva) como seu/sua legítimo/legítima esposo/esposa?”.

    Eu sei que nunca vai acontecer comigo. Mesmo se convidar amigos pra celebrar uniões fosse uma prática comum, eu não sou uma boa opção pra exercer essa função, mas nem por isso eu deixo de imaginar como seria. A sensação de ficar na frente de toda aquela gente, e principalmente na frente dos noivos. Quem já parou pra observar essa dupla já deve ter notado que, pelo menos naquele momento, eles estão explodindo de felicidade. Talvez a seriedade da cerimônia limite um pouco essa manifestação, mas quem celebra o casamento não tem risco de pegar um lugar ruim pra assistir a cerimônia. Quem celebra o casamento não precisa torcer pra não acabar sentando atrás de uma pessoa com dois metros de altura. Quem celebra está lá, diante dos noivos. Duas almas prontas pra atingir o último patamar na escala de evolução dos relacionamentos. Uma felicidade que transborda por todos os lados. Que escorre como lágrimas, que ilumina os sorrisos e faz as mãos se segurarem com uma firmeza nervosa. Mas principalmente uma felicidade que transborda no olhar. E é para o celebrante da cerimônia que os olhos estão voltados. Olhos de quem só quer dizer o “SIM” e dar o fora dali. Os noivos podem ser o centro das atenções pros convidados, mas se você celebra o casamento, você que é o centro das atenções… Pelo menos pros noivos.

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Contos de Segunda #34

Os fatos narrados a seguir tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

    O celular tocou de novo. Já era a quarta vez. O zumbido baixinho que o aparelho fazia não era suficiente para fazer Roberta acordar. Luciana sabia disso. Também sabia que Ned, o cachorro de Roberta, detestava o som do celular vibrando. Caso o celular passasse muito tempo vibrando, ele ficava com vontade de fazer xixi. Ned só fazia xixi na rua, então nesses momentos de desespero ele pedia ajuda à sua dona. Roberta não pôde negar o pedido do cachorro. Desceu vestindo as roupas de dormir, com uma cara amassada e os olhos ainda se acostumando com a claridade. Na frente do prédio uma moça a esperava encostada em um carro.

    — Até que enfim, faz um tempão que eu tô tentando falar contigo.

    — São cinco e meia da manhã, Luciana — respondeu Roberta. O sono ainda não tinha permitido que o cérebro da moça percebesse cem por cento do absurdo daquele momento.

    — Se você tivesse respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações, nenhuma de nós estaria aqui.

    — Eu só vim trazer Ned pra fazer xixi e… Ei, pera aí — finalmente ela tinha acordado. — Você deixou ele nervoso com a vibração do celular de novo?

    — Você podia ter atendido — disse Luciana de um jeito que pareceu mais um “não teve outro jeito”. — Preciso de ajuda.

    — Luciana, qualquer tipo de ajuda pode esperar até o horário comercial.

    — Que horror, Roberta. Eu aqui precisando e você me trata desse jeito?

    Roberta respirou fundo. Olhou para Ned que alegremente marcava o pneu do carro de Luciana. Olhou para o céu como se procurasse um sinal. Olhou para os próprios pés pra tentar criar coragem.

    — Vai, diz o que é.

    Luciana não conseguiu conter o sorriso.

    — Sabe que dia é hoje?

    — Segunda.

    — Sério, Roberta — disse ela fingindo estar ofendida. — Cristina entra de férias hoje.

    — E daí?

    — E daí que nós temos trinta dias para: número um, descobrir o que rolou com ela e o boy no fim do ano e número dois, ajeitar as coisas pra juntar os dois assim que ela voltar.

    — Ah, não. Nem venha, Luciana — Roberta sacudia as mãos. — Essa história já tá me deixando maluca. Deixa os dois se detestarem em paz.

— Que exagero, amiga. Eu conheço Cristina, ela quer o boy dela… Só não se ligou nisso ainda.

— E o que Jorge quer não conta?

— Ele é homem, Roberta. Não interessa o que ele quer.

— Ignorando essa parte. Qual o plano pra descolar a informação?

— Cristina não vai me contar nada. Já tentei de todo jeito, até soro caseiro da verdade ela tomou e não soltou a língua. A esperança é saber por Jorge, é aí que você entra.

— Ihhhhhhhh, nem invente. Jorge anda de péssimo humor e cada dia ele gosta menos dessa historinha que você espalha dele com Cristina.

— Não espalhei nada.

— Luciana, o estagiário que chegou semana passada entrou na sua sala por engano e voltou comentando o que tinha rolado entre Cristina e Jorge.

— Detalhes, detalhes. Eu tenho um plano perfeito pra conseguir matar dois coelhos de uma vez.

— Lá vem.

— Jorge e Cristina são muito parecidos. Cristina não consegue guardar tudo que acontece só pra ela. Ela sempre me conta tudo… Exceto o que aconteceu entre ela e o boy, mas isso é diferente. A gente precisa encontrar a pessoa pra quem ele conta as coisas e chegar no cara.

— Defina “chegar no cara”.

— Isso é comigo, sua parte é me mostrar o alvo.

    — Como não deve ter outro jeito, eu vou te ajudar, mas agora me deixa voltar pra cama. Só ajudo os outros em horário comercial.

    Luciana deu um pulo de alegria e abraçou a amiga. Entrou no carro e partiu. Deixando para trás a amiga sonolenta e seu cachorro mijão.

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