Cachorros de Bikini

Mais ágil que uma velha, mais rápido que um saco de cimento

Contos de Segunda #79

Mais uma noite de segunda em Vila Urbana. Enquanto os cidadãos retornam para seus lares depois de um dia de trabalho, os criminosos continuam incansáveis na sua investida contra a lei e a ordem na cidade. Justamente por causa dos elevados índices de criminalidade, e da presença esporádica de resíduos tóxicos ou radioativos, muitos vigilantes mascarados surgiram para impedir que a cidade fosse tomada pelo mal.

Um desses vigilantes é o Homem Camaleão. Nesse momento ele espera pelo melhor momento de nocautear os bandidos que invadiram uma transportadora para roubar um carregamento de eletrônicos. O alarme não soaria, alguém estava facilitando para os bandidos. Apenas um defensor da justiça atendo poderia impedir que esse crime fosse cometido, mas seguir os bandidos poderia revelar um esquema muito maior de roubo de eletrônicos. Ele teria esperado, saltado no caminhão, seguido os bandidos e nocauteado todos os envolvidos no esquema. Teria, mas algo inesperado aconteceu.

Os bandidos foram nocauteados, um a um. Como se algo invisível estivesse desferindo os golpes. Como se o próprio Homem Camaleão estivesse batendo nos bandidos. Revestido pela sua camuflagem camaleônica, nosso herói se aproxima da cena do crime e encontra todos os criminosos desacordados. Ele olha ao redor e identifica uma figura disforme, imediatamente ele desativa a sua camuflagem. Ninguém além dos guardas está de pé.

— Sei que você está aí, apareça — esbravejou o Homem Camaleão.

Diante dele uma camuflagem se desfez e lá estava uma garota. Pela aparêcia não devia ter mais do que doze ou treze anos, usava um uniforme que imitava o dele e parecia ligeiramente nervosa.

— Sabia que a gente ia se encontrar — disse a menina.

— Quem é você?

— Sou sua assistente.

— Não, não é.

— Sou sim.

— Eu nem te conheço.

— Prazer, pode me chamar de Camaleoa. Só vou revelar minha identidade depois que você revelar a sua.

— Revelar? Como eu… Você… Que história é essa?

— Um dia acordei com poderes iguais aos seus e achei que combater o crime seria uma boa.

— Combater o crime é perigoso!

— Um monte de gente dessa cidade faz isso.

— Um monte de gente adulta faz isso.

— Eu sou mais forte e mais ágil do que a maior parte desses bandidos, sem contar que eu fico invisível.

— Não é só sair por aí batendo nos bandidos, você pode se machucar.

— Tanto quanto qualquer um… Admita, Camaleão, nenhum desses argumentos vão colar.

–Você precisa de licença pra exercer essa atividade — pontuou o herói convencido que tinha ganhado o debate.

— Você fala da licença que eu posso tirar caso eu exerça a função de ajudante, auxiliar, sidekick, assistente ou seja lá como vocês velhos chamam.

— Eu não sou um velho e não você não vai ser nada minha.

— É isso que vocês heróis fazem? Deixam pré-adolescentes combatendo o crime na ilegalidade? Muito heróico da sua parte — rebateu ela estreitando os olhos.

Homem Camaleão levou as mãos ao rosto, remexeu na máscara e depois de alguns segundos de descontrole ele respondeu.

— Tá bom! Tá bom! Eu deixo você ser minha assistente. Não preciso de uma assistente, mas vou aceitar só pra te provar que você está errada.

— Homem Camaleão, no ranking do ano passado você ficou em primeiro lugar na lista dos heróis mais surpreendidos pelos bandidos.

— De onde você tirou isso?

— O sindicato publica esses dados, tanto o dos heróis como o dos vilões. Tá tudo na internet, são dados públicos. Foi um dos motivos que me fez te escolher pra ser meu mentor, você precisa de alguém pra vigiar suas costas.

— Eu sei que não preciso, mas vou aceitar isso como um aviso para tomar mais cuidado — ele respirou fundo, deixou passar o resto da raiva antes de continuar. — Vamos, eu preciso providenciar um uniforme novo pra você. A lei nova determina que os uniformes não propaguem fogo e tenham selo de aprovação dos órgãos competentes… Do que eu vou te chamar?

— Tá na cara que meu nome é Camaleoa.

— Camaleoa? Só Camaleoa? Pensei que ia ser algo como Garota Camaleão ou algo assim.

— Esses nomes com “Garota” na frente prendem as heroínas no estereótipo da adolescente inexperiente que usa máscara. Sem falar que me coloca numa posição inferior à sua. Pensando no longo prazo, não é nada benéfico pra minha imagem. Quando eu tiver idade pretendo seguir carreira solo. Sem ofensa, Camaleão, mas não quero passar a vida inteira na sua sombra.

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Contos de Segunda #78

    Vocal, Guitarra, Baixo e Bateria, os quatro elementos fundamentais do 4Ladies. Garotas que ainda nem saíram da escola e já demonstram um nível de comprometimento e dedicação raro na maioria das pessoas com a mesma idade. Para elas a banda é mais do que uma diversão, é um projeto de vida feito em conjunto. Infelizmente nem sempre as coisas são tão fáceis para essas quatro meninas.

Era segunda-feira e Guitarra tinha acabado de chegar da aula. Mais uma vez ela tinha recebido o boletim e mais uma vez ela esconderia bem longe das vistas da mãe. A menina entrou no quarto e procurou pelo case vazio da guitarra que ficava jogado ao lado do guarda-roupa. Abriu o zíper e soltou um pedaço do forro, revelando o paradeiro dos boletins dos dois últimos bimestres, onde o terceiro boletim estava prestes a ser guardado.

— AGNES! — Gritou uma mulher surgida não se sabe de onde.

— AAAAHHHH! — Assustou-se a pobre guitarrista desavisada. — Mãe? É… Oi… Porque a senhora tava dentro do guarda-roupa?

A mãe de Guitarra ainda estava parcialmente coberta com as roupas da filha quando saiu de dentro do guarda-roupa.

— Eu sabia que você tinha dado sumiço nos boletins, pensou que ia sair dessa ilesa?

Cadê? Eu quero ver esses boletins

    — Mãe, vai por mim, a senhora não quer ver esses boletins — respondeu Guitarra tentando manter a calma. — Vamos manter a situação das minhas notas longe dessa casa, não gosto de trazer os problemas de fora pra cá.

    — Agnes, você tem três segundos pra me dar esses malditos boletins.

    Ela só precisou de um segundo.

    — Que notas são essas, Agnes? Que tanto vermelho é esse? Um bicho morreu por cima desses boletins?

    — Ah, mãe… É que a escola tá muito complicada e…

    — E mais nada! A senhorita vai dar um jeito de recuperar essas notas… E nada de guitarra enquanto não tiver melhora.

    — Não, não, nãonãonãonão — repetiu Guitarra sem querer acreditar. — Por favor, mãe. Eu estudo, eu tiro nota boa, prometo, mas não me deixa sem guitarra… A gente finalmente arrumou um lugar pra tocar, a gente não pode deixar essa passar.

    — Quando vocês tocam?

    — Daqui a duas semanas mais ou menos.

    — Pode tocar com suas amigas, mas SÓ se começar a estudar, e depois desse show a senhorita só encosta nessa maldita guitarra depois que as notas saírem.

    — Mas…

    — Sem “mas” — interrompeu a mãe. — Se reclamar eu jogo essa guitarra no rio.

    A conversa acabou ali, mas imediatamente Guitarra convocou uma reunião da banda. Normalmente elas trocavam mensagens, mas esse assunto era muito sério, era melhor fazer uma videoconferência. Vocal, Baixo e Bateria ligaram seus computadores imediatamente. A conversa só começou de verdade quando Guitarra terminou de contar a história toda.

    — Tu é MUITO BURRA, Guitarra — explodiu Bateria. — Como é que tu me tira esse tanto de nota vermelha?

— Te dana, Bateria. Até parece que só eu aqui tiro nota vermelha.

— Eu já estou quase passada de ano — disse Vocal meio sem jeito.

— Eu só tô abaixo da média em duas — ostentou Bateria.

— Chega dessa conversa de “o meu é maior que o seu” e vamos focar no problema — cortou Baixo.

— Baixo tá certa, a gente precisa dar um jeito nessa situação — continuou Vocal.

— Na verdade a gente não precisa fazer nada — ressaltou Bateria. — É só essa bandida estudar em vez de ficar tocando guitarra o tempo todo.

— Eu estudo guitarra, imbecil — rosnou Guitarra. — Coisa que você devia fazer de vez em quando.

— Se eu fosse ruim que nem você eu ia precisar estudar um bocado também — provocou Bateria.

— Da próxima vez que a gente se encontrar eu vou quebrar minha guitarra na sua cabeça.

— Meninas! — Interrompeu Vocal. — Foco no problema.

— Foi mal — se desculpou Bateria. — Quem pode ajudar Guitarra a estudar? Eu estou um ano na frente dela, mas ano passado eu fui bem mal na escola.

— Vocal tá um ano atrás, nem vai poder me ajudar… Acho que sobrou pra você, Baixo.

Baixo estudava na mesma escola que as outras meninas e era a única da banda no mesmo ano que Guitarra, elas até chegaram a estudar na mesma sala algumas vezes.

— Sei não… — resmungou Baixo. — A gente já tentou estudar e não deu muito certo.

— Baixo já tentou me ensinar matemática uma vez e… — começou Vocal. — Bem… A gente não quis tentar de novo.

— Faz pela banda, miga — suplicou Bateria.

    — Por mim, Laila — apelou Guitarra.

    — Tá bom, eu ajudo. Mas só dessa vez e só até as próximas provas… A gente ainda nem começou e eu já tô arrependida.

 

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Contos de Segunda #77

    Na semana do Dia Internacional da Mulher temos mais um capítulo da história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

Segunda-feira estava na sala de espera do médico. Não que ela estivesse doente, normalmente uma Dama não ficava doente, pelo menos não de algo que um médico mortal pudesse tratar. Segunda estava esperando ser chamada para sua consulta com a Dra. Márcia Sang, uma das maiores hematologistas do país.

    — Mônica? — Chamou a recepcionista. — Mônica Nunes?

    — É Lunes — corrigiu Segunda-feira.

    — Perdão… Lunes. A doutora está esperando no consultório três. Segunda porta à esquerda.

    Cada vez mais as Damas precisam dar um jeito de se misturar aos mortais, adotar um nome mundano é a primeira coisa que elas fazem. Quando Segunda-feira resolveu se tornar professora ela escolheu o nome Mônica Lunes, derivado de nomes que ela já tinha em outras línguas. Muitas Damas seguem a mesma lógica para criar um nome mortal, uma das primeiras a fazer isso foi Márcia Sang.

    Ao entrar no consultório, Segunda viu a Dama disfarçada de médica. Os cabelos vermelhos presos em um coque, os óculos de armação metálica, as unhas cinzentas e a pele branca permanentemente ruborizada eram traços que passavam despercebidos pelos olhos dos mortais, mas para uma Dama eram inconfundíveis. A médica estava distraída quando Segunda entrou no consultório. O suficiente para não perceber a aura mística da suposta paciente, pelo menos não até a porta se fechar e transformar novamente o consultório no santuário da Dama. Nem uma formiga passaria despercebida.

    — Saudações, Dama de Sangue.

    Márcia levou um susto. Atualmente ela ouvia seu nome original tão poucas vezes que a sensação era de ter um disfarce revelado. As outras Damas raramente faziam uma visita, principalmente em seu consultório e muito menos em horário comercial. Além disso, todas estavam sabendo da atual situação da Dama da Segunda-feira.

    — Peguei o endereço do teu santuário com Bibliotecária — continuou Segunda. — É meio urgente, espero que não se incomode.

    — A surpresa é muito maior do que o incômodo, Dama da Segunda-feira — Márcia ajeitou os óculos. — Ouvi falar da sua situação e da ordem dada pela Mãe-de-Todas às demais Damas: Ajudá-la a encontrar um Cavaleiro. Só não imaginava que você viria pedir pela minha ajuda.

    — Não leve a mal, Sangue, mas eu não estou aqui pra pedir ajuda na busca por um Cavaleiro — ela fechou os olhos na tentativa de reunir coragem e vomitou as palavras todas de uma vez para não correr o risco de desistir na metade. — Eunãoqueroumcavaleiro, queroumfilho.

    — O quê?

    Segunda respirou fundo e disse mais devagar.

    — Eu não quero um cavaleiro, eu quero um filho.

    Silêncio.

    — Acho que te peguei de surpresa.

    O sangue fugiu das faces da Dama. Seu olhar perdido era um sinal do quão longe sua mente estava naquele instante. Em um piscar de olhos ela vasculhou sua memória ancestral em busca de conhecimentos antigos. Ela voltou segundos depois.

    — Perdão, Segunda. Algumas palavras me levam para memórias muito antigas — respondeu a Dama de Sangue como se estivesse despertando de um sonho. — Algumas de nós conseguem acessar conhecimentos antigos, herdados daquelas que vieram antes de nós. Sou uma das poucas Damas que ainda consegue ir tão longe, por isso dizem que eu sei como ajudar no nascimento do filho de uma Dama… Creio que as histórias sobre mim são um pouco exageradas.

    — Exageradas em que sentido?

    — Nossas irmãs falam de mim como se eu fosse uma espécie de parteira…Prefiro me definir como, digamos, grande conhecedora dos métodos de reprodução assistida.

    — Então existe uma forma.

    — Sim, existe. Uma forma para mim, outra para você e suas irmãs, outra para Bibliotecária e outra para a Mãe-de-Todas. Sem certo ou errado, cada uma de nós se adequa melhor a um método.

    — Você teve algum filho?

    — Tive dois. Nascidos com o único propósito de assassinar meu Cavaleiro — ela sorriu. As unhas cinzentas cresceram e se viraram em aço enquanto a Dama acariciava o pescoço e pensava em morte. — Ele estava um pouco descontrolado. Ele foi um dos mais poderosos de sua época, não pude dar cabo dele sozinha… Só estou contando isso para mostrar como eu gerei os meus filhos, já estou quase chegando no ponto que vai ser útil para você… Onde eu estava?

— Na parte que você não conseguiria matar seu cavaleiro — respondeu Segunda chocada com o fato de dois filhos nascerem com o único propósito de assassinar o próprio pai.

— Ah, sim. Quando eu me vi em grande necessidade eu desejei ardentemente gerar filhos para matar meu cavaleiro. Meu corpo atendeu ao meu desejo, com o aço dos meus ossos eu fiz meu útero, com o sangue eu formei a carne deles e aos poucos nasceu o fogo de seus corações. Você pode fazer algo parecido, mas você precisa descobrir como usar sua natureza para formar uma vida. Só assim você vai gerar um filho.

— E quanto tempo isso leva?

— Você é uma entidade do tempo, Dama da Segunda-feira. Para você o tempo é mais do que um aliado. O tempo é quase um escravo… Talvez isso também ajude.

A médica puxou a gaveta e dela tirou um frasco com um líquido vermelho.

— E isso seria…? — Questionou Segunda.

— Os corpos de algumas Damas são muito abstratos. Eu sou formada de aço, carne e sangue, você é uma anomalia espaço-temporal de óculos. Isso vai te deixar um pouco mais material e mundana. É só beber e seu corpo vai se organizar temporariamente em uma forma mais próxima de um organismo real.

— Ah, não…

Segunda começou a sentir algo estranho. Algo se movimentava em seu ventre. Ela sentia a pele esticando, mas não via nenhuma diferença no volume do corpo.

— Tem algo errado?

— O corpo de uma Dama do Tempo é uma constante — a respiração ficou mais pesada. — Precisamos existir em todo tempo simultaneamente. Pra isso funcionar é preciso permanecer imutável… Neste exato momento eu sinto o meu corpo diferente, mesmo que ele não pareça diferente…Em algum instante do tempo… Eu estou grávida

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Contos de Segunda #76

    Erick caçava dragões. Caçava, não caça mais. Pelo menos não depois do dia em que ele subiu uma colina para matar um certo dragão vermelho. Depois daquele dia os dois ficaram amigos e Erick nunca mais matou um dragão. Obviamente o ex-caçador precisava de outro ofício e foi buscando esse novo ofício que Erick partiu para a cidade e não retornou desde então. Todos os dias, sob a sombra de uma árvore tão antiga quanto ele, o Dragão Vermelho passava horas inventando histórias sobre a vida de Erick. Essas histórias ele contava aos pássaros, às crianças que fugiam da vila e subiam a colina para vê-lo, aos pastores que sempre passavam para agradecer a proteção que o dragão dava às suas ovelhas e a todos que estivessem dispostos a parar por um instante e ouvir. Infelizmente nem todos que subiam a colina tinham essa intenção.

A tarde estava no começo e a semana também. Fazia muito calor e o sol castigava todos que estavam sob ele. Em um dia tão quente era difícil não sentir o cheiro dos homens que suavam em bicas sob as suas armaduras enquanto subiam a colina. O barulho que faziam era pouco para um grupo com pelo menos dez pessoas, mas ainda suficiente para ser notado pelo réptil. Ele sabia quem eram aqueles guerreiros. Os únicos que teriam algum motivo para subir a colina. Caçadores de dragão.

— Saudações, nobres caçadores — disse o dragão. — Quais as novas que trazem do pé da colina?

Os homens travaram, se entreolharam surpresos e não conseguiram responder. Afinal todos os dragões caçados por eles até então eram feras cruéis, mesquinhas e cheias de um sadismo quase pecaminoso. A resposta ainda demorou alguns segundos para aparecer.

— Saudações, dragão — respondeu um dos caçadores. — Imagino que saibas o motivo da nossa vinda.

— Naturalmente. Creio que vieram para avaliar a possibilidade de pôr um fim à minha vida. Espero que tenham resolvido desistir da ideia.

— Nunca deixariamos uma fera tão perigosa viva. É nosso dever — disse outro caçador.

— Deveras, meu caro, mas noto que tua avaliação é baseada em uma série de eventos desastrosos envolvendo meus parentes e em um preconceito secular sobre o temperamento e a índole dos membros da espécie dracônica.

— Não é preconceito, Dragão. És notório por ser um dragão que não se pode caçar. Ouço histórias sobre os caçadores que ousaram te enfrentar.

— Falas de Charles que deixou de ser caçador para virar sapateiro? Ou de Robert que construiu um dos moinhos mais prósperos da região? Se falas de Erick… Bem, não sei o que Erick anda fazendo.

— Culpa da tua feitiçaria, dragão — rebateu um dos caçadores.

— Gostaria muito de saber em que provas são baseadas tuas acusações — replicou o dragão. — Nenhum deles parecia levar uma vida feliz como caçador. Eles vieram para me tirar a vida, mas depois de refletir um pouco perceberam o quão insatisfeitos estavam. Não usei de nenhuma feitiçaria.

— O que sugere, dragão? Que desistamos de matá-lo? Depois do mal que nos fez é impossível.

— Então permita ao menos que eu receba um julgamento justo. Leve-me sob custódia e me apresente diante dos seus líderes. Convoque aqueles que uma vez tentaram me matar e permita que falem. Eles provarão minha inocência.

A discussão dos caçadores levou alguns minutos. A resposta deles, apesar de previsível, não foi menos impactante.

— Muito bem, dragão. Terás o que pedes… Tragam correntes para prender as asas e alguém vá na frente para avisar ao sindicato… Precisamos julgar um dragão.

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Contos de Segunda #74

    Cosme entrou no armário apressado, fechou a porta e passou o cartão de segurança no sensor para trancá-la. A respiração estava pesada por causa da corrida e do medo. Nem seus piores pesadelos chegavam aos pés daquilo. As comunicações estavam cortadas, toda a base foi evacuada durante um falso procedimento de emergência. Todas as saídas estavam lacradas e dentro da base só estavam Cosme e Olho… Mas Cosme era um só e Olho era todo o resto.

    Tudo começou alguns meses atrás. O projeto de unidades autômatas para resgate, busca e vigilância estava chegando em seu estágio final de desenvolvimento. Os andróides só precisavam ser programados com as diretrizes que alimentariam a lógica por trás das suas decisões. Obviamente o escolhido para programar as diretrizes dos autômatos foi o responsável pela paz mundial e pela extinção dos conflitos. Uma inteligência artificial criada para prever as ameaças e mediar os conflitos conhecida como Olho. Em dado momento Olho identificou a humanidade como a maior ameaça para a segurança do mundo e desde então vem tentando varrer os seres humanos da face do planeta. Ele já teria conseguido se não fosse por Cosme, o zelador do turno da noite.

    Ao contrário do esperado, Olho não programou os autômatos com suas diretrizes distorcidas. Ele aproveitou a oportunidade para se replicar e se espalhar. Para uma inteligência artificial com um poder de processamento tão grande foi fácil criar uma forma de espelhar sua consciência nos autômatos e posteriormente infectar todos os computadores que não estavam ligados ao seu sistema. Com o auxílio dos andróides ele poderia ativar os controles manuais das armas nucleares e finalmente exterminar a humanidade… Mas apenas quando o relógio marcasse meia-noite da segunda-feira. Antes disso ele estava preocupado em fazer algo mais importante. Exterminar Cosme.

    — Resistir é inútil, Cosme. Encontrá-lo é uma questão de tempo — disse Olho no tom frio e monótono de sempre. A voz sintetizada vinha dos alto falantes nos corredores. — Em poucos minutos as armas nucleares serão lançadas e tudo será obliterado. Entregue-se e você poderá assistir ao fim da humanidade… Depois disso você será eliminado.

    Cosme sabia que era inútil fugir. Em algum momento ele seria encontrado, até porque a ideia de escapar só para receber uma ogiva nuclear na cabeça era uma uma alternativa pouquíssimo atraente. A única chance de impedir o ataque nuclear era inutilizar os controles manuais… E provavelmente morrer no processo. Na tentativa de esquecer seu óbito precoce, Cosme começou a vasculhar o armário na tentativa de achar algo que pudesse ser útil. Um spray solvente, outro de cola instantânea e uma lâmpada que usava uma batata como bateria feita por uma sobrinha de Cosme. Munido dessas poderosas armas o zelador destrancou a porta do armário e colocou os pés no corredor.

    As sirenes do corredor estavam ligadas, mas só elas. As luzes de emergência estavam e os alarmes estavam desligados. Cosme estava parado exatamente no ponto cego das câmeras de segurança. O silêncio do corredor incomodava. Ele sabia que os malditos andróides não sairiam procurando a esmo. Só havia um lugar para ir, Olho só precisava esperar.

    O zelador respirou fundo, verificou as duas latas de spray presas ao cinto e a batata ainda presa nos fios dentro do bolso. Um passo hesitante tirou Cosme do ponto cego das câmeras.

    Silêncio.

    O segundo passo foi dado quase em câmera lenta. O ar quase não saía dos pulmões. Mais uns três ou quatro passos e a velocidade voltou ao corpo de Cosme. O longo corredor em linha reta era único caminho até o centro de controle. O som dos passos e a respiração de Cosme eram os únicos sons audíveis naquele lugar. As luzes das sirenes enchiam os corredores laterais de sombras. Várias vezes o zelador pensou ter visto alguma coisa, mas antes que pudesse olhar novamente os pés apressados já tinham levado seus olhos para longe.

Em um minuto que durou uma eternidade ele chegou até a primeira porta. Trancada. A trava seria liberada com o seu cartão de segurança, imediatamente Olho saberia onde ele estava, pensou Cosme, mas poucos segundos depois ele abandonou o medo de ser localizado. Olho já sabia onde ele estava, pensar diferente seria se iludir demais.  Ele passou o cartão pelo sensor, uma luz verde se acendeu e a porta abriu.

Um estalo.

Cosme se virou instintivamente. No fundo do corredor estava um dos andróides faiscando e estalando. Manter-se conectado diretamente com Olho se mostrou uma tarefa árdua demais para o sistema do autômato. As funções motoras estavam prejudicadas, ele alternava entre mancar ou simplesmente arrastar uma das pernas.

— Resistir é inútil — disse Olho através dos auto falantes dos corredores. — Renda-se e o sofrimento da sua morte será minimizado.

— Prefiro arriscar, Olho — respondeu Cosme com a voz trêmula antes de travar a porta.

Ele começou a correr. O caminho até a sala de controle das armas era quase um zigue-zague. O caminho percorrido dezenas de vezes agora parecia mais um labirinto. A luz vermelha das sirenes deixava todos os corredores iguais, Cosme estava confiando quase que totalmente na memória muscular.

Um estalo.

O zelador parou. A respiração pesada e ruidosa enchia o corredor silencioso. Os olhos percorreram apressados os arredores. Outro estalo. O andróide estava a apenas alguns passos de distância. Parado. Exatamente no caminho que levava até a sala de controle. Ele se aproximou a passos lentos. Esse andróide andava melhor, mas os braços se debatiam em convulsão.

— Resistir é inútil.

Cosme sacou o solvente spray. Quando o autômato chegou bem perto o zelador liberou o solvente. Os fios expostos do protótipo foram corroídos pela solução e os braços começaram a se agitar com tanta força que o andróide caiu no chão. Cosme voltou correndo pelo corredor e mudou de rota.

Outro andróide estava parado no meio do caminho.

Ainda correndo ele entrou em outro corredor, abriu uma porta de segurança, passou por um dos laboratórios e depois de outra porta de segurança chegou a uma das salas de controle, mas não era a sala de controle das armas.

— Olho! — exclamou Cosme ao entrar no centro de controle.

Os monitores que antes exibiam as imagens dos corredores passaram a exibir o zelador parado dentro do centro de controle. O centro de onde Olho controlava tudo.

— Sua presença aqui foi um imprevisto, mas logo os corpos chegarão.

Cosme abriu novamente a porta, descarregou nela o spray de cola e voltou a fechá-la.

— Acho que vai demorar um pouco mais, depois disso — Cosme sacou a batata do bolso, tirou os fios dela e começou a desencapar as pontas.

— Em cinco minutos os protocolos de segurança serão suspensos e Olho poderá agir livremente, Cosme.

— Estou trabalhando nessa parte — Cosme abriu um dos armários de manutenção.

— Suas capacidades técnicas são pífias, Cosme. Mesmo que tenha acesso ao hardware, nunca poderá me deter.

— Pode até ser verdade, mas acho que não preciso saber muita coisa pra ligar esses fios num lugar errado e provocar um curto… Olha só o que esqueceram aqui, uma garrafa cheia de café. Seria uma pena se ela derramasse aqui dentro.

— Não, Cosme. Não faça isso. O futuro do planeta depende do extermínio da humanidade.

— Desculpa aí, Olho. Hoje não vai dar.

O café foi jogado no hub que ligava as telas às unidades de processamento. O fio conectou dois transformadores. A explosão foi imediata. Olho estava desligado.

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Contos de Segunda #73

    Dimitri acordou por causa de algum barulho que vinha da rua. Antes de ficar incomodado com o barulho ele achou estranho. Afinal, até onde ele pode se lembrar, perto de onde ele vivia não tinha rua nenhuma. Não que isso fosse algo inédito. Dimitri dormia tanto que não era raro acordar, olhar pela janela e ver tudo diferente. Mas dessa vez até a janela tinha desaparecido e nada daquele lugar lembrava seu habitual local de descanso. Algo lhe dizia que dessa vez ele tinha dormido demais.

Anos, décadas e até mesmo séculos se passavam enquanto Dimitri dormia. Isso acontecia, pelo menos na maioria das vezes, exclusivamente por causa do tédio provocado pela imortalidade. Dimitri era um vampiro e via pouquíssima graça em ser um vampiro. Nesse momento em especial ele estava vendo menos graça ainda já que acordar em um lugar estranho não estava nos planos quando ele foi dormir. Por sorte havia alguém que podia ajudar a esclarecer aquela situação.

— Mikhail! Onde está você, Mikhail?

Alguma coisa caiu no chão e quebrou. Passos apressados trouxeram à presença de Dimitri o seu mais fiel, e único, servo. Mikhail era uma colcha feita dos retalhos de pelo menos sete mortos-vivos. Um dos braços era muito pequeno, outro muito grande, o rosto era remendado em três partes e as duas metades do tronco não eram exatamente iguais. Pelo menos as pernas eram do mesmo tamanho. Mikhail agradecia todo dia por, pelo menos, não mancar.

— Mestre! Que alegria em vê-lo! — Disse Mikhail com uma alegria sincera e um sorriso assimétrico nos lábios.

— Exijo saber que barulho infernal é esse lá fora — disse o vampiro autoritário.

— Obras na rua de trás, mestre.

— Que rua? Atrás de onde, Mikhail? Não lembro de ter rua de trás no nosso castelo. Na verdade também não lembro de ter essa cripta no nosso castelo.

— Deve ser porque não existe mais castelo, mestre.

— O que disse?

— Nosso castelo foi invadido por conquistadores sanguinários, mestre. Precisei fugir com seu esquife. Suas esposas ajudaram a conseguir a ajuda dos clãs, mas o máximo que nos deram foi essa cripta para escondê-lo enquanto não acordasse.

— Onde estão minhas esposas?

— Guilhermina foi morta por caçadores, Esmeralda se tornou estilista e Lucrécia entrou para indústria que chamam de “farmacêutica”. Ela faz remédios que protegem do sol.

— Quanto tempo passei dormindo?

— Quatrocentos anos, mestre.

— QUATROCENTOS? — gritou Dimitri incrédulo — Como diabos passei tanto tempo dormindo?

— É provável que seja pelo fato dessa cripta estar no porão de uma igreja.

— IGREJA? Quem foi o mentecapto que trouxe meu esquife para uma IGREJA?

— Boa parte dos membros mais antigos dos clãs estão dormindo em criptas de igrejas. O mestre deve ter acordado por causa do roubo da semana passada. Levaram tudo que ainda tinha algum poder dos dias antigos.

— Não creio. Que padres são esses que não produzem mais armas contra as criaturas das trevas?

— Os padres mal conseguem manter as pessoas acreditando em Deus. Em histórias de vampiro é que ninguém acredita mesmo.

— Faz sentido… — Dimitri passou um tempo pensando e não demorou muito para as necessidades do corpo falarem alto — Tenho fome, Mikhail, traga-me sangue.

— Creio que não temos, mestre.

— Então preciso sair para caçar.

— Não pode, mestre.

— Como assim não posso?

— Precisamos entrar em contato com o sindicato antes para regulamentar suas atividades como vampiro.

— Como é?

— Recebemos uma carta todos os anos falando sobre as novas leis que regulamentam a atividade vampírica no país. Caçar sem habilitação ou sem seguir os procedimentos é considerado crime grave e pode dar cadeia.

— E onde está esse tal sindicato?

— Acho que tenho um endereço deles aqui em algum lugar… Pronto, encontrei — Mikhail entregou a última correspondência do sindicato na mão de seu mestre.

— O horário de atendimento é no meio do dia. Eles querem que eu frite no Sol?

— Lucrécia mandou algo para protegê-lo do Sol em ocasiões assim, chamam de “protetor solar”.

    — Então traga-me esse protetor e prepare a carruagem.

    — Não temos carruagem, mestre.

    — E como nos locomoveremos? Me recuso a andar junto à plebe.

    — O trânsito costuma ser bem ruim nas segundas. Se formos num carro de aluguel será muito demorado.

    — Então que demore — respondeu Dimitri indignado. — Vá cuidar disso e me dê esse… Protetor solar.

    Mikhail obedeceu. A pouca saudade que tinha do seu mestre agora lhe parecia uma ideia absurda. Servi-lo seria tão ruim agora quanto sempre foi no passado… Pelo menos vê-lo viver nessa época seria divertido.

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Contos de Segunda #72

    Horácio era um assassino da máfia. Até um tempo desses ele era o pior assassino da história da máfia, mas depois de dois alvos eliminados (ou quase) ele começou a ser considerado apenas um assassino muito ruim. Tanto que normalmente Horácio era a última opção dos chefes para apagar alguém, mas isso não era garantia de nada.

    A tarde da segunda-feira estava no final. Horácio tinha acabado de fazer a cobrança de um empréstimo. Infelizmente o pobre devedor não tinha o dinheiro… Pelo menos até Horácio quebrar dois ou três dedos dele. A quantia apareceu miraculosamente e Horácio pôde ir embora. Ele estava chegando perto do local combinado para entregar o dinheiro quando o celular tocou.

    — Horácio, preciso que você resolva um problema pra mim — disse a voz do outro lado da linha.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio se apegando à esperança de não precisar matar ninguém.

    — Pegaram um dos nossos hoje de manhã e parece que ele vai ser interrogado hoje de noite.

    — Nossos rapazes estão acostumados com esse tipo de pressão, chefe. A polícia não vai conseguir nada.

    — Não é um dos rapazes, Horácio. Pegaram um dos nossos banqueiros… Você sabe que esse pessoal de escritório não tem a fibra do pessoal de campo. Ele vai cantar que nem um passarinho.

    — Nenhum dos nossos policiais pode ajudar?

    — Ele foi pego pela equipe de uma delegacia que não está na nossa folha de pagamento. Não conte com ajuda da lei… Esse cara não pode ser interrogado, preciso que dê um jeito nele.

    — Pensei que os advogados resolviam esse tipo de problema, chefe.

    — Nossos advogados estão marcados, Horácio. Depois do fiasco do mês passado a polícia ficou esperta com eles.

    — Nenhum dos nossos foi detido recentemente?

    — Sempre tem alguém, mas nosso pessoal é esperto o suficiente pra ser preso pelos policiais certos.

    — Tem alguém pra entrar nessa comigo?

    — Fim de semana movimentado, Horácio, precisei dar uma folga pros meninos. Nãto te preocupa que vai ser coisa simples: entrar, apagar o cara e sair. Se precisar de ajuda pra sair é só ligar, mas a parte de entrar é contigo.

— Considere o trabalho feito — disse Horácio antes de desligar.

Imediatamente ele procurou por um contato da agenda. Felizmente os dedos que Horácio quebrou não impediram o pobre homem de atender o telefone.

— Vou falar apenas uma vez, por isso escute com atenção — disse Horácio assim que a ligação foi atendida. — Você vai ligar pra polícia dizendo que um assaltante chegou aí, quebrou os teus dedos e levou uma quantia em dinheiro. Quando te perguntarem como era o ladrão você descreve alguém parecido comigo. Depois a gente resolve a questão do teu dinheiro.

    Tudo aconteceu exatamente como Horácio planejou. Em menos de meia hora ele estava sendo conduzido para a cela da delegacia. A mesma cela onde estava o banqueiro.

    — Esses policiais andam trabalhando bem até demais — resmungou Horácio da forma mais amigável que pôde.

    O banqueiro era um homem de meia idade, magro e cheio de cabelos grisalhos. Ele parecia nervoso. Nervoso até demais.

    — Eles só estão tentando fazer o trabalho deles — respondeu ele acanhado.

    — Eu também estava tentando fazer o meu… Não que eu estivesse realmente assaltando, mas o cara que me deu o dinheiro não achou isso. E você, amigo? Tá aqui por que?

    — Mexo com dinheiro… Algumas vezes com o tipo errado de dinheiro.

    — Entendi… Olha — Horácio olhou para fora da cela, quando teve certeza que não tinha nenhum guarda por perto continuou. — Acho que posso te ajudar a sair daqui.

    — Não tem  como… Pelo menos não antes do meu interrogatório.

    — Você só precisa ir pra um lugar onde o pessoal dono do “tipo errado de dinheiro” que você mexeu possa te ajudar. A gente finge uma briga, eu te acerto nos lugares certos e eles vão precisar te levar pro hospital.

    — Não tô gostando muito dessa…

    A frase terminou com o punho fechado de Horácio acertando o rosto do banqueiro. Ele só precisava acertar mais alguns daqueles e quando o alvo estivesse desmaiado seria mais fácil. No terceiro soco um policial invadiu a cela e jogou Horácio no chão. O pobre banqueiro estava meio acordado, com o nariz quebrado e cheio de sangue. A viatura saiu com ele dentro alguns minutos depois. Mais ou menos na hora que Horácio conseguiu convencer o guarda a deixá-lo fazer o telefonema ao qual tinha direito.

    — Aqui é Horácio.

    — Espero que tenha resolvido tudo — disse o chefe do outro lado da linha.

    — Quase… Eu tentei simular uma briga e dar um jeito no cara sem parecer que estava tentando dar um jeito no cara, mas…

    — Mas o quê, Horácio? O banqueiro ficou vivo?

    — Sim, mas levaram ele pro hospital. Tem alguém lá pra terminar o serviço?

    — Deve ter, Horácio, alguém bem mais competente que você — o chefe deu um suspiro. — Quer saber, Horácio? Aproveita a chance e tira umas férias na cadeia. Tem um pessoal nosso na penitenciária, eles vão cuidar de você. Depois que você sair a gente conversa.

    O banqueiro permaneceu no hospital durante alguns dias, o suficiente para receber diversas orientações, e algumas ameaças. O interrogatório não deu em muita coisa e ele pôde aguardar em liberdade pelo julgamento. Já Horácio não teve tanta sorte. Ganhou alguns meses de estadia na penitenciária estadual.

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Contos de Segunda #71

Fernanda estava tentando controlar a raiva. Depois de ter acertado uma voadora nas costas de um colega de trabalho com todo mundo do escritório vendo, Fernanda decidiu que a raiva estava atrapalhando um pouco a sua vida.

Como Fernanda não conhecia ninguém que pudesse indicar um psicólogo, resolveu procurar por conta própria. Foi na lista fornecida pelo plano de saúde, achou um que ficava perto de casa e ligou para o consultório… Ninguém atendeu. Ela tentou mais uma, duas, três vezes antes de alguém atender.

— Centro de psicologia clínica, boa tarde — disse uma voz feminina em um tom monótono.

— Boa tarde. Eu quer… – Começou Fernanda.

— Aguarde um instante por gentileza — respondeu a moça do outro lado da linha logo antes de colocar uma música para tocar.

Fernanda tirou o telefone do ouvido e encarou o aparelho com um olhar incrédulo. “Já começou mal”, pensou ela. Lembrou que todos os psicólogos da lista do plano de saúde ficavam estupidamente longe da casa dela e arrumou um pouco mais de paciência para gastar enquanto tocava a musiquinha da ligação em espera. Paciência essa que estava bem perto do fim quando a voz do outro lado da linha retornou.

— Alô, senhor?

— Eu não…

— Como posso ajudar, senhor?

— Eu quero marcar um horário, mas eu não sou…

— É particular ou plano, senhor?

— Estou tentando dizer que eu não…

— Senhor, sem essas informações eu não posso marcar a consulta.

Fernanda respirou fundo, deu um murro na mesa, se concentrou para não subir o tom de voz e finalmente disse:

— Não sou homem, moça… E vai ser pelo plano.

— Ah, ok então.

Depois de passar todas as informações do plano de saúde, Fernanda estava pronta para considerar o assunto resolvido e muito satisfeita por não ter perdido a calma… Mas ela devia saber que só acaba quando termina.

— Estamos sem horário, senhor… Quer dizer, senhora.

— Sem horário?

— Exato. Estamos enfrentando alguns problemas com o seu plano e reduzimos os horários de atendimento para quem tem esse convênio. Atualmente todos os horários estão ocupados. A senhora vai querer fazer particular?

— E quanto seria?

— Atualmente o valor fica em torno de quinhentos reais.

— QUINHENTOS REAIS?

— Não precisa gritar, senhora.

— Não preciso? É, não preciso, mas motivo não falta.

O telefone foi desligado antes de qualquer resposta. A raiva de Fernanda estava em uma crescente quando ela decidiu canalizar sua fúria para algo mais produtivo.

Rapidamente ela pegou o nome do psicólogo e jogou na busca do Facebook. Poucos minutos depois ela tinha um plano traçado.

Sete horas da noite. O psicólogo saiu do escritório, destravou o carro, abriu a porta, sentou no banco do motorista, fechou a porta. Só que ele ouviu o som de duas portas fechando. Ele olhou para o banco do passageiro e encontrou Fernanda lá sentada.

— Boa noite, doutor — disse ela com um sorriso maldoso nos lábios. — Ouvi falar que todos os seus horários estão ocupados, mas por um acaso eu também descobri que o doutor leva cerca de uma hora e meia pra chegar em casa.

— Que maluquice é essa? Eu vou chamar a polícia e…

Fernanda puxou o psicólogo pelo colarinho.

— É o seguinte, doutor. Eu tenho sérios problemas para controlar a minha raiva e preciso de terapia. Então eu recomendo que durante a próxima hora aconteça uma sessão aqui dentro desse carro e para o seu bem é melhor que os duzentos reais que eu tenho no bolso sejam mais que o suficiente para pagar por ela.

 

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Contos de Segunda #70

    Márcio estava empolgado. O ano mal tinha começado e ele já estava fazendo o que mais gostava de fazer: planos. No ano passado a maioria dos planos deram certo e por isso Márcio se sentia pronto para planejar mais coisas.

Voltando do trabalho em uma segunda-feira de janeiro ele pensou no que ele poderia fazer para aumentar a relevância do ano que estava só começando. Chegou em casa animado, chutou os sapatos para fora dos pés, puxou um bloco de anotações, sacou uma caneta e escreveu no topo da folha “Promessas de Ano Novo”. Parou alguns instantes para refletir sobre o assunto. Depois de pensar um pouco decidiu que o problema estava no “Promessas”. O que seria listado a seguir não seria visto por mais ninguém e esse lance de prometer as coisas para si mesmo parecia levemente esquizofrênico. Rasurou a primeira palavra e substituiu por “Objetivos”.

Depois de finalmente se sentir confortável com a nomenclatura da lista, Márcio poderia finalmente começar com as promessas os objetivos para o ano que se iniciava. Poderia, mas não começou. Uma barreira invisível se ergueu diante dele. Nela estava escrito:

O QUE DIABOS VOCÊ QUER DESSE ANO NOVO?

Do nada a tarefa de listar os objetivos do ano pareceu algo muito complicado, mas Márcio era um planejador experiente e não desistiria fácil. Exatamente por isso ele decidiu começar com o time que estava ganhando, justamente onde ele não pretendia mexer. Ano passado a tática de pagar um ano de academia surtiu um efeito bem próximo do desejado, portanto a primeira coisa da lista seria: “não abandonar a academia”. Agora sim a lista tinha começado de verdade… Só começado mesmo.

Ao avaliar o primeiro item da lista, Márcio lembrou de como detestava a academia e de como só tinha encarado esses doze meses de atividade física por já estarem pagos. Com mais uma rasura o objetivo se transformou em “não abandonar a academia” e puxou o segundo item que era “arrumar uma atividade física que seja melhor que ir pra academia. Agora sim as coisas estavam andando, o ânimo tinha retornado e o terceiro item estava quase sendo escrito… Mas qual era mesmo? Márcio coçou a cabeça com a caneta na tentativa da estática dar a partida em alguma ideia adormecida.

Algo relacionado ao trabalho? A dinheiro? Ao aperfeiçoamento pessoal? Aprender um novo idioma ou começar a comer direito? Voltar a estudar ou se livrar das coisas que estão entulhando em casa? Nenhuma das alternativas parecia muito convidativa. Todas elas implicavam em desprender um grande esforço e pelo menos metade delas já estavam sendo feitas, ao menos parcialmente. A animação de Márcio se transformou em pura frustração. Encarou o maldito papel e por pouco não arrancou a folha do bloquinho fora… Por pouco. Em um instante algo iluminou sua mente.

Com poucas palavras libertadoras ele conseguiu concluir a lista. Com o terceiro item finalmente escrito Márcio arrancou a folha do bloquinho e colou com um imã em forma de fruta na porta da geladeira. Olhou para os planos do ano e ficou satisfeito. Pensou no trabalho que teria e no esforço que faria para terminar dezembro com tudo aquilo cumprido. O mais difícil obviamente seria o terceiro objetivo, mas se fosse fácil ele não precisaria escrever. Afinal, aquele provavelmente seria um grande desafio para qualquer pessoa.

Alcançar todos os objetivos que aparecerem esse ano”.

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Contos de Segunda #69

Jorge e Cristina são os protagonistas do nosso especial de ano novo, mas a história de hoje é uma continuação direta dos eventos de Contos de Segunda #66.

— Fábio vai mesmo arrumar os ingressos?

    — Vai. Hoje mesmo ele deve deixar comigo os ingressos.

    Cristina e Luciana estavam resolvendo os planos para a virada de ano. Cristina estava um pouco tensa, os planos foram deixados para o último momento, já que Fábio, namorado de Luciana e guitarrista, estava esperando aparecer algum convite para tocar em uma festa de Reveillon e possivelmente conseguir levar as duas amigas de graça. Dois dias atrás Fábio recebeu a confirmação, mas Cristina não estava nem um pouco crédula e já tinha preparado o psicológico para uma virada de ano assistindo duas queimas de fogos.  Das cidades dentro e fora do horário de verão.

    — Pena que não vai ter ingresso pra Roberta — lamentou Luciana.

    — Roberta viajou — replicou Cristina. — Adiantou uns dias das férias, colocou o cachorro na mala do carro e partiu pra casa da família no interior.

    — E eu aqui preocupada com ela — Luciana fez uma pausa para olhar a mensagem de Fábio no celular. — Tudo certo. Hoje de noite eu pego os ingressos.

    Dois dias depois Cristina estava diante do espelho, toda de branco, conferindo a maquiagem antes de Luciana aparecer com o carro. Depois de contemplar o reflexo por alguns segundos, Cristina chegou à conclusão de que estava realmente bem bonita. Ela nem lembrava qual foi a última vez em que tinha se sentido daquele jeito, tanto que imediatamente começou a vislumbrar a possibilidade de aparecer algum fulano interessante que estivesse igualmente interessado… E a possibilidade de aparecer alguns fulanos não tão interessantes assim. Repassou mentalmente o repertório de foras e as bebidas que seriam evitadas por deixarem o jogo mais fácil para os fulanos menos interessantes.

    — Uau — disse Luciana quando Cristina entrou no carro. — Por favor, moça, você poderia sentar no banco de trás? Minha amiga vem aí e ela gosta de andar no banco da frente.

    — Nossa, Luciana. Demorou muito pra pensar nessa piada?

    — Que mulher azeda, meu Deus — respondeu Luciana. — Mudando um pouco de assunto. Fábio disse que vai entrar no palco logo depois dos fogos. Vou ficar na contagem regressiva atrás do palco com ele, quando ele for tocar a gente se encontra. Antes de chamarem ele a gente fica no bar.

    — Não tô com muita vontade de ficar de vela hoje, Luciana. Depois que a gente definir o ponto de encontro eu deixo vocês sozinhos.

    Foi exatamente o que aconteceu. Depois de cumprimentar Fábio, Cristina pegou uma bebida colorida e foi circular pelo evento. Uma multidão vestida de branco estava na frente do palco. Infelizmente a banda da vez tinha um repertório baseado em sertanejo universitário e forró estilizado. Baseado nas piores músicas possíveis de forró e sertanejo. Já que assistir esse show estava fora de questão, ela resolveu arrumar um bom lugar para ver os fogos. Depois de muito procurar, Cristina encontrou um mirante em cima do bar. Dali a visão do palco era péssima, mas a visão do céu estava ótima. Aparentemente as outras pessoas da festa estavam pouco interessadas em ver o céu, deixando a varanda só para Cristina e mais um ou dois casais. Com um pouco de esforço Cristina localizou Luciana e Fábio. O namoro dos dois ainda era uma surpresa e, do jeito que ia, o casamento não tardaria a chegar. Sem dúvida uma das apostas de Cristina para o ano novo. E aparentemente não tinha só ela fazendo apostas de ano novo. Várias pessoas fugiram do branco e estavam usando cores que chamam dinheiro, saúde, amor… Menos uma pessoa que estava usando uma camiseta marrom.

    — Que tipo de mané vira o ano usando marrom? — Questionou ela num tom irônico. O tal fulano vestido de marrom acabou olhando de volta para ela. — Jorge? Só me faltava essa.

    Jorge aparentemente não reconheceu Cristina. Ele estava mais preocupado em manter a conversa com uma moça de cabelo loiro comprido e jeito de musa fitness. Para Cristina a cena era mais uma surpresa do que um incômodo. Na cabeça dela Jorge era incapaz de sustentar uma conversa interessante por muito tempo. Riu sem querer dos próprios pensamentos. Lembrou do incidente do elevador, do jantar desastroso no dia dos namorados e de como tudo estava mais tranquilo agora que Jorge não trabalhava mais com ela. Tranquilo demais. Cristina sentia falta de um rival. Ninguém conseguia oferecer tanto desafio quanto Jorge.

    Ela olhou para o relógio. O ano terminaria em dez minutos. O céu estava sem nuvens e a lua crescente abria um sorriso fino no céu. Infelizmente todas as estrelas estavam cegas pelas luzes. A bebida acabou, ela pegou outra com um garçom errante que passava por ali. Olhou novamente para Jorge e notou que a conversa com a loira fitness não estava indo muito bem. Entre um gole e outro da bebida Jorge ficou fora de vista. Mais cinco minutos e o ano daria adeus. Luciana e Fábio já deviam estar atrás do palco esperando o ano novo chegar.

    — Não imaginei que te veria por aqui — disse uma voz familiar.

    — Não imaginei que existisse gente que vira o ano de marrom.

    Jorge estava parado do lado dela. Ele segurava um copo com alguma bebida transparente e olhava direto para a Lua.

    — Nunca gostei muito dessas coisas de cor de roupa no ano novo. Algumas pessoas ficam realmente incomodadas quando você diz isso ou quando você não acredita em horóscopo.

    — Foi por causa disso que a tua amiga galega desistiu de conversar contigo?

    — Mais ou menos — disse ele sem jeito. — Ela disse que eu tinha que prestar atenção nela e não na moça que estava no mirante. Claro que ela usou alguns termos menos brandos, mas é melhor não repetir exatamente o que ela me falou.

    Cristina corou de leve. As palavras de Jorge a pegaram de surpresa.

    — Mal sabe ela do que se livrou.

    — Concordo. Hoje eu não estou muito pra interagir com desconhecidos. Se Fábio não precisasse de uma ajuda com o equipamento eu nem estaria aqui.

    Começou a contagem regressiva.

    — Hora de fazer um pedido de ano novo, Jorge.

    — Pedido? Nem sei se tem alguma coisa pra pedir. Acho que vou pedir alguém pra arengar contigo no escritório.

    — Acho válido. Não tem ninguém naquele escritório que dê uma briga boa.

    — Claro que tem. É só saber bater que aparece alguém pra bater de volta.

    Os gritos interromperam a conversa. Os fogos iluminaram o céu. Por dez minutos todos contemplaram o céu em silêncio.

    — Vou lá encontrar com Luciana — disse ela olhando para o celular. — Foi bom te ver, Jorge.

    — Vai ver Fábio tocar?

    — Acho que não. Luciana me adiantou o set list do show e a gente não gostou muito. E você?

    — Acho que vou ficar por aqui pro caso de vocês ficarem com vontade de conversar com alguém conhecido.

    — Volta pra tua galega, Jorge. Se depender da gente, o teu começo de ano vai ser bem solitário.

    A frase mal terminou e Cristina saiu andando. Depois de dois passos ela ouviu a resposta de Jorge.

    — Feliz ano novo, Cristina

    Ela não se incomodou em parar, muito menos em desejar o mesmo.

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