Cachorros de Bikini

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Tag: Vida Adulta (Página 1 de 3)

Qual o Seu Tipo de Pessoa?

Ontem estava eu fazendo meu cadastro para poder baixar um conteúdo gratuito de uma certa loja. Em dado momento fui eu preencher aquelas informações que eles colocam na nota fiscal. O primeiro campo para preencher era esse aqui:

TipoPessoa

Imediatamente fui levado à uma reflexão relâmpago. Obviamente que o formulário só queria saber se eu era uma pessoa física ou jurídica, inclusive eu fiquei tão estupefato pelo efeito do campo “Tipo de Pessoa” que foi um alívio ver que só existiam essas duas opções. Concluí meu pedido, o PDF chegou no meu email, mas aquela interrogação permaneceu na minha cabeça. Que tipo de pessoa eu sou afinal?

A primeira coisa que precisamos estabelecer aqui é se de fato as pessoas podem ser divididas em tipos. Nosso procedimento normal ao conhecer uma pessoa, seja pra valer ou superficialmente, é encaixar essa pessoa em alguma, ou algumas, das categorias de pessoas que criamos ao longo das nossas vidas. Não classifico isso como um comportamento preconceituoso, na prática precisamos disso pra criar uma espécie de bússola social. Saber onde pisa é o primeiro cuidado que precisamos tomar ao viver em sociedade e esses rótulos que colocamos nos outros nos ajudam a evitar alguns conflitos desnecessários. A parte ruim disso é que corremos o risco de cair na tentação de sermos muito taxativos.

Precisamos lembrar que vivemos num mundo onde as pessoas são tridimensionais. Mesmo que muitos não pareçam, todos os seres humanos podem ser encaixados em algumas, se não várias, categorias e normalmente a quantidade de categorias nas quais encaixamos as pessoas é proporcional ao tanto que conhecemos elas. Pensando nisso eu lembrei de uma parada que eu acabei de descobrir como se chama do diagrama de Venn. Fica fácil de entender como ele funciona observando o exemplo 100% verídico abaixo:

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Seguindo por etapas nós dividimos as pessoas em uma e, dependendo da pessoa ou do nível de conhecimento que temos dela, vemos em quais outras categorias ela se encaixa e criamos uma espécie de diagrama para cada pessoa. Essa ideia foi colocada em prática de uma maneira trinta e cinco vezes mais inspiradora do que nesse texto por uma rede de TV dinamarquesa. Se for assistir, lembre de se certificar que as LEGENDAS ESTÃO LIGADAS.

Mas aí chegamos ao ponto crítico desse tema. Você já se perguntou que tipo de pessoa você é? Normalmente somos relativamente cientes daquilo que não somos. Digo relativamente porque o autoconhecimento pleno é uma coisa difícil de conseguir e que normalmente não colocamos como meta da vida. Inclusive é bem provável que você, caro leitor, esteja na mesma situação que eu. E eu não consigo dar uma resposta 100% para uma pergunta dessa. Eu posso ficar aqui pensando um tempão e continuar insatisfeito com a resposta. Sempre vai ter alguma coisa que eu não estou enxergando ou algum traço de personalidade que passe despercebido. Exatamente por isso que vou tentar chegar a uma resposta decente pra essa pergunta e recomendo que você faça o mesmo. Quem sabe a gente não aprende alguma coisa?

Foi A Vida Adulta que Aconteceu Conosco

    Essa semana estava eu tentando marcar uma jogatina offline com meu irmão. Eu digo tentando porque hoje é sexta, a gente tentou desde segunda e o sábado vai chegar sem a gente conseguir fazer nada. Imediatamente eu lembrei de todas as coisas que eu não consigo fazer com os meus amigos por motivos de agenda, trabalho ou grana. Também lembrei que esses mesmos amigos estão em momentos diferentes da vida. Tem amigo que já casou, ou que já é mais ou menos casado, tem amigo noivo com casamento previsto, tem amigo noivo sem previsão de casar, tem amigo trabalhando demais, tem amigo sem trabalho, uns que estão saindo da faculdade e outros que acabaram de entrar e ainda amigo que não marcaria “Nenhuma das Alternativas” no questionário da pesquisa. Nesse ponto da história surge uma pergunta em minha cabeça:

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Independente de quem meus amigos são na fila do pão, a verdade é que aquela história de fazer aquilo que a gente quer quando a gente quer se provou mito muito mais ligeiro do que eu imaginei. Hoje em dia você quer marcar pra encontrar os amigos, mas aí tá todo mundo ocupado ou com algum impedimento. Você resolve juntar a galera pra jogar pela internet ou pra fazer uma atividade lúdica pelo Skype, só que esbarra nos mesmos empecilhos mesmo com cada um na sua casa. Muitas vezes até conversar pelo vatezape com alguns se mostra um trabalho hercúleo. Mais uma vez a pergunta retorna: o que diabos está acontecendo? Não demora muito pra resposta vir.

    Quando eu penso direito na pergunta eu vejo o quão absurda ela é. Acontecendo? Sinto muito, mas não tem nada acontecendo, já aconteceu. O que foi que aconteceu? Acho que no título desse post eu já adiantei a resposta. Foi a vida adulta que aconteceu conosco.

    Em 2017 todos os nascidos na década de 1990 serão maiores de idade. Isso quer dizer que as crianças do início dos 90 já tão nessa de ser adulto faz um bom tempo. Assim como aqueles do final dos 80 e outros que nasceram um pouco antes. Isso quer dizer que a esmagadora maioria dos meus chegados está vivendo na plenitude das suas ocupações e responsabilidades. Isso quer dizer que todo mundo já recebeu o seu diploma de adulto e se brincar já tem gente terminando o mestrado ou o doutorado.

A verdade é que ninguém quer ser adulto. Ser adulto é uma bela de uma bosta e muito se ilude quem tá doido pra ser crescido e dono do próprio nariz. Trabalho, salário, dinheiro, boleto, falta de dinheiro pra pagar o boleto, falta tempo pra gastar com você, sobra tempo que você só pode gastar com você porque os outros não tem tempo pra você gastar tempo com eles, hora extra, preço das coisas subindo, imposto, dor nas costas, taxa, orçamento, voto obrigatório. No final você olha pro lado e tá todo mundo meio perdido nesse tiroteio que é a vida adulta. Os que ficam menos perdidos são os que aceitam mais rápido o estado adulto do seu ser. Simplesmente se jogam aos leões sem olhar pra trás e param de tentar utilizar plenamente a suposta liberdade que a gente achava que ia ter quando fosse adulto.

Antes que você diga que esse post ficou muito pra baixo eu vou deixar uma mensagem de esperança. Hoje eu quero dizer que vale a pena sim lutar contra os intempéries da vida adulta. Vale a pena porque de tanto tentar a gente acaba conseguindo. Acontece muito? Não, mas quando acontece é tão bom que a gente fica com gás suficiente pra continuar tentando. Na prática só vira adulto de vez quem quer ou quem deixa. Eu todo dia reafirmo meu compromisso de tentar levar uma vida menos adulta e é por isso que eu desejo uma vida menos adulta pra todo mundo.

Um Dia Eu Peguei e Fui Embora

Foi ano passado, também conhecido como o ano da graça de Nosso Senhor de 2015, que eu li Cidades de Papel. Li pra poder gravar um episódio do Epifania, podcast da Roda de Escritores, que sairia junto com o filme. O podcast nunca foi gravado, mas pelo menos eu gostei do livro e por causa parei pra refletir sobre um conceito bem interessante: a sensação de ir embora.

Em Cidades de Papel temos uma moça chamada Margot Roth Spiegelman que é famosa por desaparecer de tempos em tempos. Em dado momento a jovem comenta sobre a maravilhosa sensação de ir embora, sobre como é libertador deixar tudo pra trás e desaparecer. A ideia de sumir do mapa sempre habitou meu imaginário, tanto que um dos meus poucos contos publicados antes do blog tratava um pouco disso, mas foi só depois de ler Cidades de Papel que eu realmente tive vontade de saber como seria ir embora do nada. Esse ano finalmente aconteceu. Esse ano finalmente eu peguei e fui embora.

Teria sido mais legal se fosse sem aviso, mas não foi. Teria sido mais dramático se eu desaparecesse do mapa de um jeito que ninguém nem soubesse por onde eu andava, mas não foi nem perto. Eu não fugi de casa, eu saí do emprego, também não desapareci, só fiquei fora do alcance do radar das pessoas que trabalhavam comigo. Uma experiência muito banal, totalmente comum e sem qualquer traço do DNA de uma história fantástica, mas a sensação de fazer tudo isso não poderia ter sido melhor.

Ir embora, deixar tudo pra trás, acordar na manhã seguinte e lembrar de como ontem tudo estava diferente me fez sentir mais próximo da legítima liberdade social do que nunca. Obviamente as contas continuaram vencendo no dia dez, o dólar continuou nas alturas e o preço da gasolina continuou pela hora da morte. Dinheiro não começou a brotar das árvores e não demorou muito pro emprego novo começar, mas o gosto doce de ter ido embora ainda se faz sentir quando eu paro pra pensar na vida.

Desconheço as suas aspirações em relação ao abandono das coisas e às partidas inesperadas. Não sei quantas vezes você já fez algo do tipo na vida, mas achei que não haveria forma melhor de encerrar um hiato. Ir embora pode ser sensacional, mas muitas vezes o bom mesmo é estar de volta.

Eu Não Me Arrependo de Nada

Hoje estava eu conversando com uma amiga minha. A conversa ficou meio séria e ela falou ligeiramente sobre o impacto que algumas escolhas tiveram na vida dela. Por um instante eu pensei que ela estava se lamentando, mas uma coisa que ela disse me fez mudar radicalmente de ideia. Pra fechar todo o discurso ela disse: “”mas eu não me arrependi”. Imediatamente vieram duas coisas na minha cabeça. A primeira foi esse GIF da galinha que não se arrepende de nada.

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A segunda foi que nem tudo que a gente não fez é motivo de arrependimento.

Pare pra pensar em quantas coisas que você fez e geraram algum tipo de arrependimento. Quantas dessas coisas você se arrependeu de fazer só por que os outros esperavam que você se arrependesse? Não falo de erros, falo de escolhas. Coisas que cabiam apenas a você decidir e o único a sofrer as consequências foi você mesmo. Se você desistiu de fazer alguma coisa ou de seguir algum rumo e a decisão foi sua, não pense em como poderia ter sido ou como seria tomar outro caminho. Saboreie o mérito de segurar as rédeas da sua própria vida. Olhe na cara fria e cruel da realidade e diga:

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Boa parte das nossas inseguranças vem do medo de se arrepender depois. Não digo para sermos inconsequentes, mas naquelas horas que faltar um pouco de coragem, olhe para o abismo e quando der aquele salto de fé na direção do vazio diga:

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Mudar os planos, desistir, aceitar e seguir em frente faz parte da vida. Não deixe ninguém te fazer sentir um falso arrependimento. Lembre que é pra frente que se anda e essas coisas só fazem ocupar um espaço que não é delas. Se você parar pra pensar vai ver que muito do que muita coisa que você passou não teve nada a ver com erro ou acerto. Muitas vezes não existiram escolhas erradas ou certas, apenas escolhas e não foi mais ninguém além de você quem decidiu. Aposto que quando você fizer uma retrospectiva disso vai chegar à mesma conclusão que esse macaco aqui chegou.

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Não tenho muito pra dizer depois disso, só desejo menos arrependimento e um pouco mais de leveza na vida de todo mundo. Esqueçam um pouco essas coisas chatas e aproveitem o passeio… Ou a descida do barranco.

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Você Não Sabe de Nada, João das Neves

Todo mundo que atualmente habita nas internets sabe que um dos personagens mais populares da atualidade é Jon Snow. Personagem preferido de muitos fãs de Game of Thrones e um dos meus personagens preferidos d’As Crônicas de Gelo e Fogo, João das Neves é um cara relativamente azarado fora da série. Mesmo depois de fazer e acontecer nas últimas seis temporadas de Game of Thrones e em quatro dos últimos cinco livros, ele tem todas as suas proezas ofuscadas por uma única frase.

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    Isso mesmo, por causa dessa moça ruiva o bastardo preferido da cultura pop ficou conhecido como o cara que não sabe nada. De fato Jon Snow percebe que no fim das contas ele não sabe de nada. Seguindo o exemplo de João das Neves, eu já me convenci tem um tempo que eu não sei de nada, mas acho que até essa semana eu nunca tinha percebido o quanto eu sei pouco. Por uma grande coincidência essa epifania me ocorreu por causa de uma moça ruiva.

Aconteceu no último domingo. Estava eu conversando com uma comadre minha sobre uma conquista pessoal que ela tinha compartilhado no Facebook. Entre um ou outro parabéns acabamos conversando um pouco sobre a vida, o universo e tudo mais. Como em todas as vezes em que eu converso com essa minha comadre ruiva, a conversa terminou e eu fiquei com a sensação de que tava conversando com uma pessoa muito mais adulta que eu. Essa sensação pra mim é bastante familiar, até por que boa parte dos meus amigos é bem mais adulta que eu, mas nenhuma dessas outras pessoas é oito anos mais novo que eu e parece ser uns dez anos mais velho.

Não que seja muito difícil parecer mais adulto que eu, mas eu costumo ganhar da galera que nunca foi obrigado a votar ou que precisou fazer CPF pra poder se inscrever no ENEM. Não é muito difícil de imaginar que eu olhei pra minha tela de chat e cheguei à conclusão que o significado por trás de toda aquela troca de mensagens era: “você não sabe de nada, Filipe Sena”. Aí percebi que estávamos eu e Jon Snow no mesmo barco. Estávamos nós dois sem saber de nada.

A vida depois dos meus vinte anos me fez pensar que eu tinha virado adulto. De fato quando eu coloco meu disfarce e saio pra trabalhar, quando eu pago minhas contas ou quando eu fico com dor nas costas por passar muito tempo num banco sem encosto, eu me sinto adulto (seja lá qual for a sensação de se sentir adulto). Mas a realidade é que eu nunca precisei ser muito adulto, só o suficiente pra passar por média. Não que isso me incomode, não que adultecer seja uma meta pra minha vida, o lance é que lembrar que você tá sabendo tanto quanto Jão Snow e que tem gente que saiu do colégio mais adulto que você te faz parar pra refletir.

Pra finalizar gostaria de compartilhar com todos o jeito que eu encontrei pra me conformar com essa história toda. Quando eu vejo essa minha comadre ruiva nas internets sendo mais adulta que eu, basta lembrar que algum tempo atrás ela publicou no Facebucket que X-Men: Apocalipse tinha sido o melhor filme do ano até então… Ela pode até estar uns dez anos na minha frente, mas essa menina ainda tem muito o que aprender. Pelo menos nisso eu (acho que) ganhei dela.

18 a 25 Anos

“Estamos ficando velhos, Magneto”. Essa frase eu mandei pro meu irmão poucos minutos depois da meia-noite do dia 14 de Maio de 2016, também conhecido como último sábado, dia em que chegamos à marca histórica de vinte e seis anos de idade. “Eita, Filipe, grandes merdas completar vinte e seis, nem dá pra dizer que é marca histórica”, pode até ser, mas eu só vou completar vinte e seis uma vez na minha vida inteira, o que qualifica essa como uma marca histórica. Com a cabeça nesse número me dei conta que eu ia mudar de faixa etária.

“Jovens de 18 a 25 anos”. Normalmente é a faixa considerada pela pesquisa. Diante desse cenário atentei para o fato que as pesquisas não me consideram mais jovem. Partindo do pressuposto de que a divisão de faixa etária feita pelas pesquisas tem lógica e coerência, posso dizer que não sou mais considerado jovem. Se não sou mais considerado jovem, então de fato me tornei um adulto… Pausa ligeira pra assimilar minha repentina saída da juventude e avaliar minha nova condição de ex-jovem de pesquisa.

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Obrigado pela paciência, vou continuar.

Logo no primeiro mês do Cachorros de Bikini eu falei sobre os mandamentos de um adulto feliz. Escrevi esse texto já com meus vinte e cinco e com essa idade já tinha acostumado com a ideia de ter virado um adulto, mas até então nunca tinha chegado alguém e carimbado “ADULTO” na minha testa. Paro, penso e vejo que no final isso não mudou foi nada.

A partir de um certo ponto da minha vida eu parei de me incomodar com esse lance de idade. O mundo tenta enfiar na sua cabeça que envelhecer é um negócio instantâneo. Ouvir coisas como “tá se sentindo mais velho?” é muito comum quando se faz aniversário, normalmente minha resposta é “não”. Criou-se a ideia de que quando o relógio marca 00:00 no dia do seu aniversário você automaticamente envelhece um ano. Quando eu acordei no sábado só tinha envelhecido um dia, assim como em todos os dias anteriores. Nessa de envelhecer um dia de cada vez passaram os meses, os anos. Do primeiro dia dos dezoito até o último dos vinte e cinco foram 2921 dias. Dias que me envelheceram um pouco de cada vez, que suavemente me transformaram no adulto que sou hoje.

A idade pesa? Pesa. Olhar pra trás e ver quanto tempo passou sempre é um momento meio amargo. Saber que uma criança que nasceu no dia em que eu fiz dezoito já sabe ler, escrever e precisa das duas mãos pra contar a própria idade, assusta. Assusta saber que as amizades já duraram tanto e da idade que as boas lembranças têm. Mas só os números assustam, só me assusto quando conto, só me assusta quando eu olho pra trás e vejo o quanto caminhei. Então eu esqueço dos números, lembro olhando pra frente e se precisar olhar pra trás eu olho o retrovisor. Ficar mais velho é inevitável, mas se repararmos bem, o tanto de mudança que chega com a idade depende só de nós mesmos… Exceto a dor que dá nas costas por sentar em assento sem encosto.

Contos de Segunda #37

Fernanda estava com um humor péssimo. O papagaio do vizinho começou a gritaria às quatro da manhã, exatamente três horas antes do despertador de Fernanda tocar. O maldito papagaio costumava fazer esse tipo de coisa, mas nunca tão cedo. Depois de falhar miseravelmente em voltar a dormir Fernanda resolveu antecipar sua corrida noturna. Chegou na rua, ligou a música e colocou os fones de ouvido. Depois de quinhentos metros a música parou. O player ainda reproduzia a música, mas nada de som. Ela experimentou tirar o fone, a música voltou. Ao colocar o fone novamente a música parou. Depois de algumas tentativas Fernanda desistiu, o fone de ouvido só funcionava com o rádio e o jeito foi correr ouvindo o noticiário policial com as noticias da madrugada.

    Depois da corrida desastrosa não foi difícil chegar cedo no trabalho. Ela ligou o computador e conectou os fones de ouvido. Aparentemente eles estavam funcionando perfeitamente. O dia prometia ser tranquilo e sem muitos aborrecimentos. Tudo que Fernanda precisava fazer era não tirar os fones do ouvido. Ela tinha começado recentemente no emprego e um dos seus colegas de sala produzia inúmeros barulhos praticamente insuportáveis. O teclado fazia muito barulho, o scroll do mouse rangia, as rodinhas da cadeira arrastavam no piso e ele tinha um pigarro eterno. Mas tudo isso era barrado, ou pelo menos minimizado, pela ação do fone de ouvido e pela biblioteca de música praticamente infinita do serviço de streaming. Era só carregar a página de um artista ou banda com uma discografia grande, fazer a lista de reprodução e tudo ficaria bem… Mas não ficou.

    “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. Foi o que apareceu na tela quando ela tentou acessar a página de um artista. Tentou com outro, mais um, uma banda. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O sangue de Fernanda começou a esquentar, de repente os 14,90 que ela pagava na assinatura do serviço pareceram uma quantia exorbitante. Tentou o player web, depois pelo aplicativo do celular. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O colega barulhento chegou mascando chiclete, da forma mais ruidosa e babada que um ser humano poderia mascar um chiclete. Fernanda já estava trincando os dentes, mas antes de perder completamente a calma ela se conformou em passar o dia ouvindo rádio. Como todas as rádios legais da internet eram bloqueadas pelo servidor, ela teve que se conformar com as rádios FM’s normais, com todas aquelas músicas repetidas e intervalos comerciais sem fim.

    Chegou em casa cedo desejando comer e dormir. Depois de comer um pedaço da lasanha do almoço de domingo ela estava pronta pra cair na cama… Quando o papagaio começou a gritar. Uma, duas, três horas. Já passava das 22h e o papagaio ainda berrava. Fernanda decidiu agir. Pegou uma faca, colocou entre os dentes, saiu pela janela da área de serviço, escalou um pedaço da fachada, cortou a tela de proteção e entrou na área de serviço do vizinho, lá ela encontrou o papagaio. Ela olhou furiosa para a ave tresloucada. Os gritos aumentaram. Ela pegou o bicho pelo pescoço e desceu a faca em um golpe vertical… Arrebentando a corrente que prendia o papagaio no poleiro. Ela levou o bicho seguro pelo pescoço até o quarto onde o vizinho dormia com sua esposa. Abriu a porta, jogou o papagaio dentro, fechou a porta e habilmente usou a faca para inutilizar a fechadura. Voltou para a área de serviço, desceu um pedaço da fachada até chegar em casa. Caiu na cama e dormiu bem como jamais dormiria outra vez na vida.

Contos de Segunda #27 – Parte 02

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Leia a primeira parte do Contos de Segunda #27 AQUI

“Deu merda, me liga”. Foi essa a mensagem que apareceu no celular de Jorge no começo da manhã. A mensagem era do chefe do departamento jurídico.

    — Sabe aquele deputado que ia fazer umas denuncias ontem?  Ele jogou um monte de gente na fogueira, inclusive um dos sócios da nossa empresa. Estou pegando o avião em cinco minutos pra encontrar com ele. Já falei com a equipe, vai todo mundo pro escritório agora de manhã, mas depois todo mundo vai meter a cara na rua pra resolver o que eu não puder. Você vai ficar por lá pra trabalhar com o pessoal de comunicação, precisamos emitir uma nota oficial e precisamos segurar a onda da imprensa. Era só isso, vou correr pro avião.

Jorge desligou. Para ele o resumo daquela ópera era o seguinte: ele teria de trabalhar no dia da confraternização da empresa e ainda teria que fazer isso na companhia ilustre de Cristina, quem normalmente era chamada para apagar esses incêndios.

Bom dia, pessoal.Quem vai fazer o quê hoje?”, disse Jorge no chat em grupo do pessoal do jurídico.

Eu vou colar na galera da contabilidade pra saber se alguma grana estranha entrou ou saiu nos últimos tempos… E nos tempos antes desses últimos”, respondeu Paulo César.

Eu vou entrar nessa com PC”, disse Rômulo.

Eu também”, reforçou Silveira.

Eu vou pro banco ver as movimentações das contas do cara ligadas à empresa”, disse Oscar.

Eu tô com Oscar”, completou Roberta.

Então não vai ter ninguém pra me ajudar com a amiga de Roberta?”, perguntou Jorge.

Desculpa, boy. Essa guerra hoje é só tua”, respondeu Roberta.

A palavra ‘boy’ devia ser proibida nesse grupo“.

A “guerra” em questão chegou um pouco depois das onze. Com uma garrafa de champagne que acabara de ganhar na confraternização e um humor tão bom quanto uma joelhada na quina da mesa.

— Bom dia, Cristina — Disse Jorge calmamente — Imagino que já saiba qual a nossa situação.

— Bom dia, Jorge — Disse ela impaciente —  Fui informada por alto, preciso saber do tamanho da confusão. Deixa só eu arrumar uma geladeira pra essa garrafa e a gente pode começar.

A confusão era gigante. O tal deputado estava com lama até o pescoço e saiu atirando pra todos os lados. O telefone não parava de tocar. A imprensa já estava na porta e o chefe do jurídico estava a beira de um ataque de nervos. As notícias que chegavam eram um pouco mais animadoras. As contas da empresa estavam limpas e nenhum dinheiro estranho tinha entrado por lugar nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O relógio já marcava 16 horas quando todas as informações chegaram e a nota oficial pôde ser concluída. O trabalho estava terminado.

— Terminamos — Falou Cristina com um suspiro.

— Pelo menos por enquanto — Completou Jorge verificando o celular— Preciso correr. Compromissos de fim de ano.

Uma mensagem piscou no celular de Cristina. Era Luciana.

Confra das meninas ficou pras 19h. Roberta disse que fica livre em 1h. E vc?”.

Estou quase saindo. Já fosse pra casa?”, respondeu Cristina.

Já, vem pra cá e a gente vai daqui. Nem invente de aproveitar pra beber com teu boy, traz o champagne que a gente bebe na volta da confra”.

— Também preciso correr – Disse Cristina tentando não se irritar com a última mensagem da amiga — Preciso pegar meu champagne na geladeira, você chama o elevador?

— Claro.

O elevador chegou um pouco antes de Cristina. Os dois entraram e automaticamente a atmosfera profissional se dissipou, dando lugar ao clima incômodo de sempre. Apenas cinco andares separavam os dois do térreo. Pareciam cinquenta. Cristina estava visivelmente impaciente e a impaciência dela estava começando a contaminar Jorge. Dois andares agora. As luzes do elevador começaram a falhar e ele parou. Ficou tudo escuro por alguns segundos antes das luzes de emergência acenderem.

— Só me faltava essa — Esbravejou Cristina antes de apertar o botão do interfone do elevador — Alô? Alguém ouvindo?

— Alô, boa tarde — Respondeu a voz do outro lado — Vocês ficaram presos no elevador?

Cristina respirou fundo três vezes antes de responder.

— Acho que só usam esse interfone em casos assim.

— A gente vai chamar o pessoal da manutenção, mas acho que vão ter que esperar a energia voltar.

Cristina soltou o botão do interfone e olhou para Jorge. O advogado estava aparentemente tranquilo. De alguma forma aquilo fez o sangue de Cristina esquentar.

— Você deve estar achando tudo isso uma maravilha, não é?

— Hã? Ficou doida, Cristina? Eu estou cheio de coisa pra fazer, atrasado e preso no elevador com uma pessoa que não é o que eu posso chamar de “melhor amiga”.

— Conversa, Jorge — O tom da voz dela começou a se elevar — Tá na cara que você se diverte muito com tudo isso. Faz meses que eu tenho que aguentar todo tipo de brincadeira por sua causa — Ela estava com o indicador no peito dele.

— Como é? Eu tive tanta culpa quanto você — O esforço para manter o controle era enorme nesse momento — E muito menos culpa do que a sua amiga.

Ele estava certo. Luciana era o arauto de todo esse caos. Foi por causa dela que a história vazou, mas ela não podia admitir. Só ela podia fazer esse tipo de acusação.

— Luciana não se aproveitou de ninguém louco de tequila.

Aquilo era golpe baixo. Jorge trincou os dentes. Finalmente ela tinha conseguido tirá-lo do sério.

— Não me venha com essa, Cristina. Você não estava tão louca assim. Ninguém ia fazer nada que você não quisesse.

— Me dê um motivo pra não enfiar a mão na sua cara.

— Você sabe que eu não estou errado.

Ela ficou sem ação. De fato ele não estava totalmente errado. As memórias daquela noite eram fortes o suficiente para que ela soubesse disso. E o relato de Luciana foi tão preciso que amnésia alcoólica não era um problema. A discussão havia terminado. Cristina sentou no canto do elevador, pegou um saca-rolhas de dentro da bolsa e abriu o champagne

— Eu te odeio, Jorge.

— Mas ainda vai precisar de mim pra terminar essa garrafa.

— Eu vou precisar de uma carona. E você, meu querido boy, é o amigo da vez.

Uma hora depois a energia voltou e o elevador funcionou novamente. A garrafa de champagne estava pela metade e Cristina estava bêbada o suficiente para tratar Jorge como um ser humano. Eram seis da tarde quando o carro de Jorge parou na frente da casa de Luciana. Ela saiu do carro e bateu a porta, deu dois passos antes de dar meia volta. Ele baixou o vidro.

— Eu não vou agradecer, você estava me devendo — Ela fez uma pausa como se procurasse as palavras certas, na falta de outras melhores usou as de sempre — Eu ainda te odeio, Jorge.

— Feliz natal, Cristina, e um feliz ano novo.

O vidro subiu e o carro partiu. O telefone de Cristina tocou. Era Luciana que observava tudo da varanda do terceiro andar.

Contos de Segunda #27 – Parte 01

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Pronta pra confra das meninas?”

    Era isso que dizia a mensagem que acabara de chegar no celular de Cristina. Ainda eram seis da manhã e aparentemente sua amiga Luciana não estava com nem um pouco de sono. E com um humor tão bom que quase dava nos nervos.

    “Pronta pra encarar a confra com o pessoal do escritório?”.

    “Mais pronta impossível, amiga, meu boy não trabalha comigo”.

    Cristina trincou os dentes de raiva. Desde o “acidente” ocorrido durante o show de um cover do Pearl Jam, a vida de Cristina tinha ficado um pouco complicada. Noventa por cento dessa complicação era culpa de Luciana. Desde aquele dia a moça se dedicava apenas a criar situações onde Cistina deveria encontrar com Jorge, ou como Luciana gostava de chamar “o boy”.

    “Tá bom de parar de testar nossa amizade, Luciana

    “Tá bom de parar de enrolar e agarrar logo teu boy, até parece q tu não quer

    O celular foi arremessado dentro do guarda-roupa, por sorte ele ficou preso em um casaco qualquer e não sofreu nenhuma avaria quando caiu no chão. A vontade de ficar em casa naquele dia estava batendo recorde, mas hoje era dia da “confra das meninas” e as meninas em questão estariam todas na confraternização da empresa. Então Cristina tentou colocar um pouco de ânimo junto com a maquiagem e partiu.

    O salão onde aconteceria a festa era no mesmo prédio em que funcionavam os escritórios. Cristina chegou cedo, pontualmente às nove da manhã. Queria reunir a assessoria de imprensa antes do evento começar. O presidente da empresa sempre fazia algum anúncio nesse tipo de evento que acabava tendo alguma repercussão. Ela contava os fotógrafos quando uma voz debochada a fez perder a conta.

    — Procurando teu boy, Cristina?

    — Trabalhando, Luciana. Não são todos que já estão de folga.

    — Pois é, deve ser por isso que teu boy não vai aparecer hoje.

    — Ele não vem? — A surpresa na voz não podia ser disfarçada.

    — Sabia que ficaria chocada — Luciana parecia se divertir cada vez mais — Nem ele, nem ninguém da galera do jurídico. Rolou algum tipo de incidente diplomático e o mundo vai desabar. Pelo menos era isso que parecia quando eu falei com Roberta mais cedo. Ela não vai pra confra das meninas.

    — Espero que seja só com eles. Da última vez que rolou um “ incidente diplomático” o pessoal da comunicação passou uma semana trabalhando junto do jurídico.

    — Pelo que eu lembro. Você passou uma semana trabalhando junto do teu boy.

    — VAI PRO INFERNO, LUCIANA.

    — Relaxa, amiga. Jorge tá de castigo e ninguém vai ficar cochichando nas costas de vocês. Pelo menos hoje

    Por que era isso que acontecia há meses. A história de Cristina e Jorge acabou “vazando” e sempre tinha alguém cochichando quando os dois se encontravam eventualmente. Não acontecer nada disso em um dia em que a maioria dos colegas estaria sob efeito de álcool era um alívio. Foi quando o telefone tocou, era Roberta.

    — Cristina, temos um problema — disse Roberta com uma voz meio triste.

    — Só me faltava essa. Que problema, Roberta?

    — Daqui a umas duas horas você precisa subir pro escritório. Dessa vez rolou um lance meio pesado, vai ter que sair uma nota oficial da empresa.

    — Ok. Subo já já e você me explica tudo.

    — Não vai dar, amiga, a galera daqui vai passar o dia resolvendo coisas fora do escritório — Ela fez uma pausa — Só vai ficar uma pessoa… E você já deve saber quem é. Tenho que ir, a gente se fala.

    Cristina desligou o telefone com vontade de matar alguém, mas no lugar disso ela falou:

    — Luciana — Respirou fundo, contou até três e continuou — Acho que eu não vou poder ir pra confra das meninas.

 

Amigo Secreto

    Poucas coisas no folclore do fim do ano conseguem ser mais notórias do que a boa e velha brincadeira de amigo secreto. Ponto alto de várias confraternizações  ou até mesmo algo que merece uma celebração particular, o amigo secreto é uma das poucas coisas que não muda em função da região, faixa etária ou da classe social dos participantes. Uma atividade lúdica e recreativa que movimenta o fim de ano de muita gente, principalmente quando se é adulto, gera uma comoção enorme entre os participantes e rende histórias pro ano inteiro. Mas o que o amigo secreto tem pra causar esse efeito nas pessoas?

    O primeiro fator determinante para a graça do amigo secreto é o fator aleatório. Não existe um ser humano na face do planeta que não veja nem um pouco de graça em sorteios e é isso que o amigo secreto é na prática, um jogo de sorte. O simples ato de tirar um papelzinho com o nome de uma pessoa já gera adrenalina equivalente à de um salto de paraquedas. A tensão, a expectativa e o risco de se dar mal transformam o ato do sorteio em algo único, ou nem tão único caso você tire seu próprio nome e tenha que refazer o sorteio. Logo depois da determinação dos resultados aleatórios temos mais uma etapa atribulada do processo: comprar o presente.

    Escolher presente pros outros nem sempre é uma tarefa simples. Caso a dama da sorte tenha lhe sorrido, seu amigo é uma pessoa que você conhece bem e, com um pouco mais de sorte, até mesmo um ser humano pelo qual você nutre alguma simpatia. Caso não você já começou a brincadeira se lascando na desvantagem, se a dama da sorte resolveu tirar uma bela onda com a sua face o risco de tirar uma pessoa que você detesta é bem grande, principalmente se o amigo secreto for realizado em ambiente de trabalho. Para fins pedagógicos vamos considerar que sempre ocorre a segunda opção. Lá está você quebrando a cabeça para dar um presente pra um ser humano que é quase um desconhecido, caso a pessoa tenha divulgado um presente que gostaria de ganhar a tarefa fica um pouco mais fácil, mas como estamos trabalhando com cenários adversos é melhor excluir essa possibilidade. Se você foi esperto o suficiente pra comprar algo genérico, não muito caro e que agrade todo tipo de pessoa, além de não ter caído na tentação de comprar um vale presente, você pode concorrer prêmio Nobel de amizade secreta, se não foi… Não tem muito o que fazer além de aceitar o fato de que o presente comprado só difere de um pedaço de cocô por causa do cheiro. Infelizmente é o que tem pra hoje, pelo menos o embrulho tá bonito e não vai fazer vergonha na hora da festa/confraternização/almoço/jantar/happy hour/desculpa que arrumaram pra justificar o amigo secreto.

    E eis que chega o grande dia. Cada um dos participantes aparece com pacotes e sacolas das mais variadas cores e tamanhos. A tensão e a expectativa crescem. Sempre tem algum desgraçado participante que falta, deixando uma pessoa sem presente e outra sem amigo secreto. Depois que finalmente todos chegam começa a brincadeira, alguém se habilita e começa o velho jogo de adivinhação, que acaba sendo meio furado por que ou o cara entrega de bandeja o nome do amigo ou faz uma descrição tão doida que ninguém acerta. O tempo vai passando e vai chegando a sua vez, a tensão começa a crescer, não só por causa do presente qualquer coisa que você comprou, mas também pelo medo de receber um presente tão qualquer coisa quanto. Sua vez chega antes, o cara que ia receber o presente acabou faltando rompendo a ordem da brincadeira, você começa a descrever seu amigo com o máximo de acurácia possível, vendo que ninguém vai acertar você diz logo quem é o fulano, entrega o presente e pela cara do sujeito se abrem duas possibilidades: ou você não errou o presente ou o cara merece o Oscar de melhor ator. Você volta pro seu lugar, aliviado, torcendo pra que o seu presente seja pelo menos o vale presente de uma loja legal.

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