Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Eu, Você e Os Personagens Definitivos

Semana passada rolou a estreia do filme novo do Homem-Aranha. Já vi um monte de gente internet a fora dizendo não só que o filme é espetacular, mas também que nosso compadre Tom Holland é o Peter Parker definitivo. Peguei essa última afirmação e comecei a matutar. Não foi a primeira vez que eu ouvi sobre as versão definitiva de determinado personagem. Quando você consome conteúdo relacionado com cinema e (principalmente) histórias em quadrinhos, onde um personagem pode, ao longo de sua existência, passar por uma infinidade de roteiristas, diretores e produtores, é bem normal ouvir que a versão de tal diretor é a melhor ou que tal roteirista fez a versão que vale de tal personagem. Aí eu chego e pergunto: o que faz da interpretação que um autor dá a um personagem uma versão definitiva?

Superman, Homem-Aranha, Batman, Coringa, Hulk, James Bond, Sherlock Holmes, Rei Arthur, Hércules, Robin Hood, Mad Max, Jesus (sim, ele mesmo), Hannibal Lecter, Zorro e mais uma porrada de personagens tiveram várias versões em várias mídias diferentes. Se você parar pra pensar é bem possível que você tenha suas versões preferidos de cada um deles, assim como eu tenho as minhas, mas por que ela é a sua versão preferida?

Antes de nos direcionarmos ao questionamento de fato, vamos primeiro definir aqui o que é uma boa versão de um personagem. Primeiro devemos lembrar que cada personagem tem a sua versão original, nela estão estabelecidas as principais características do personagem, normalmente atendendo às demandas e preferências do público alvo daquele material. Nesse esquema que foi definido, por exemplo, que o Superman era o último filho de um planeta que explodiu, que Robin Hood roubava dos ricos pra dar aos pobres e que o James Bond era um espião super elegante que pegava todas as mulheres que estivessem dando sopa. Quando rola uma mudança muito drástica em algum desses conceitos base duas coisas podem acontecer: o personagem pode ficar totalmente descaracterizado ou o público pode ficar bem insatisfeito. Depois de garantir que os fundamentos estão lá chega a hora de começar a pensar na interpretação que vai ser dada ao personagem. É aí que chegamos ao cerne do papo das versões definitivas.

Para alguns a versão definitiva se aproveita dos conceitos clássicos e os eleva a um novo patamar, para outros a versão definitiva pode ser um olhar único sobre aquele personagem ou uma reimaginação do personagem para tempos mais modernos e até mesmo a abordagem de um aspecto nunca antes ou pouco explorado. O que importa é que o personagem pareça original mesmo para aqueles que o conhecem bem e, acima de tudo e qualquer coisa, a tal da versão definitiva precisa ser cativante.

Por mais técnica que possa parecer, a escolha da versão definitiva de um personagem é uma decisão emocional. Antes de pensarmos em versões de personagens devemos lembrar que um bom personagem consegue cativar o público. Ele pode ser um personagem secundário, um vilão ou um capanga, mas um bom personagem sempre será cativante e muitas vezes esse carisma acaba superando todos os outros fatores listados acima. Inclusive vale lembrar que muita versão tida como definitiva de alguns personagens não são assim tão definitivas. Vide lá o Coringa do nosso amigo do Heath Ledger.

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Antes de me xingar permita que eu me justifique. Nosso amigo falecido fez um trabalho ótimo como palhaço do crime, bem acima do esperado dele e o melhor que ele poderia fazer tendo um Batema bem qualquer coisa pra contracenar com ele. A questão é que ele não faz a melhor versão do personagem, a mais crua e impactante talvez, mas ainda assim não é a melhor, do cinema talvez, mas não dá pra dizer que é o melhor de todas as mídias, seria uma injustiça muito grande com Mark Hamil, que fez a voz do Coringa em tudo por uns vinte anos, e com a inacreditável versão do Coringa no Batman da Feira da Fruta. Creio que isso pode ser aplicado a vários outros personagens, mas em vez de falarmos mais disso vamos para uma rápida conclusão

De fato existe uma versão definitiva? Claro que existe, pelo menos até a próxima aparecer.

Contos de Segunda #86

Moacir estava de mau humor, não que isso fosse novidade. Ele deixava o mau humor de todas as segundas ao lado da carteira ou no bolso da calça para não correr o risco de esquecer. A diferença naquela segunda em especial era justamente o fato do mau humor ter um motivo, coisa bem rara atualmente. Moacir estava com um humor péssimo por estar com a sensação de que não tinha mais tempo para nada.

Na semana passada Moacir comprou um livro novo e um jogo de computador que estava em promoção, descobriu que tinha saído a temporada nova da série que ele acompanha e que rolou a estreia de mais duas séries novas que ele estava doido para ver, apareceram os amigos com a história de fazer encontros periódicos de jogatina offline e, além disso tudo, ainda estava chovendo todo dia.

Em todos os dias da semana anterior Moacir saiu de casa quebrando a cabeça para tentar achar uma forma de como otimizar o tempo. Tentou almoçar perto para ter mais tempo no horário do almoço, mas tudo que ele conseguiu foi encontrar com os colegas de trabalho que almoçavam perto e formavam uma fila que mais parecia a fila do show de um popstar adolescente. Experimentou pedir uma marmita da tia do almoço, só para descobrir que a tia do almoço tinha uma média de atraso de quarenta minutos em dias de chuva. Tentou levar a marmita de casa e acabou descobrindo que os outros marmiteiros do trabalho tinham um senso de comunidade tão forte que eles paravam para puxar papo mesmo nos dias em que ele não levava marmita, principalmente na hora do almoço.

Já que a hora do almoço se tornou inviável, ele decidiu diminuir a hora do almoço para tentar sair mais cedo. Teria dado certo se ele não tivesse feito isso justamente nos dias em que precisou fazer hora extra. Tentou acordar mais cedo, mas tudo que conseguiu foi descobrir como odiava o som do despertador antes do sol nascer. Ele teria conseguido dormir mais tarde se tivesse tentado isso antes de tentar acordar cedo, mas o sono dele estava tão doido que ele passou o resto da semana só pensando em dormir. O fim de semana chegou e tudo teria dado certo se a internet não estivesse com problemas, impedindo Moacir de baixar o jogo novo e de assistir às séries que queria.

E eis que chegou a segunda-feira. O coração de Moacir estava borbulhando com o ódio mais puro e profundo que uma pessoa poderia sentir. Ele sentou diante do computador com a plena certeza de que poderia matar alguém. Ligou a máquina e esperou aparecer a tela do login. No lugar dela apareceu uma tela de erro. Moacir juntou as mãos no rosto e se perguntou o porquê de tamanho sofrimento. Antes de obter uma resposta satisfatória o telefone tocou.

— Moacir, verifica aí teu e-mail que parece que o relatório da semana passada acabou voltando — disse o chefe. — A gente vai precisar rever.

Silêncio.

— Moacir?

Silêncio.

— Alô?

Um som alto de algo quebrando veio como resposta.

— É… Chefe?

— O que foi isso, Moacir?

— Não vou poder trabalhar no relatório.

— Por que, Moacir?

— Meu monitor acaba de quebrar.

— Teu monitor quebrou?

— É. Eu coloquei a senha errada e a tela explodiu.

— Aconteceu alguma coisa contigo?

— Só a minha mão que tá meio machucada, mas nada que um pouco de gelo não resolva.

O Homem-Aranha que (Ainda) Não Está no Cinema

Ontem estreou  o mais novo filme do amigão da vizinhança, Homem-Aranha: De Volta Ao Lar. Aí você pode pensar “não aguento mais filme do Homaranha, Filipe, já vai no terceiro Homaranha. Pra quê isso?”. Bem, seria só mais um filme do Homem-Aranha se, em 2016, não tivesse acontecido isso aqui:

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O nosso amigo aracnídeo foi integrado ao universo cinematográfico da Marvel e, muito provavelmente, vão fazer uma caracterização mais legal do Aranha no cinema. Só que não é por isso que eu resolvi escrever esta publicação. Hoje o Cachorros de Bikini vai fazer um serviço de utilidade pública e apresentar para você, ser humano que não acompanha a publicação de quadrinhos da Marvel, um Homem-Aranha que pode aparecer no cinema em algum ponto do futuro: Miles Morales, o Homem-Aranha do (extinto) Universo Ultimate.

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Miles foi criado em 2011 para atender uma única necessidade: o Homem-Aranha precisava voltar a dialogar com seus leitores. Pra entender melhor como essa necessidade surgiu precisamos antes voltar um pouco mais no tempo. Em 1962 Peter Parker,o Homem-Aranha, nasceu e se tornou o personagem mais popular da Marvel porque os leitores se identificavam muito com ele. Aí os anos passaram, ele ficou mais velho, casou, descasou, casou de novo, arrumou emprego, terminou a faculdade e se afastou um pouco dos leitores. Aí a Marvel lançou, no início dos anos 2000, o Universo Ultimate, uma versão mais moderna do seu universo regular onde havia mais espaço pra criar novas interpretações dos personagens. O Homem-Aranha voltou a ser adolescente e teve sua origem atualizada. Depois disso foi o mundo real que começou a mudar. Os dados demográficos dos Estados Unidos começaram a mostrar que a ´proporção de “americanos padrão” da população tinha diminuído muito e proporção de americanos negros, hispânicos e de outras etnias variadas estava crescendo. Por consequência o público não era mais o mesmo. Peter Parker não estava mais dialogando tanto com todo mundo. Era hora de alguém novo entrar em cena. Foi por isso que o Peter Parker Ultimate morreu. Foi assim que Miles Morales nasceu para assumir o manto do Homem-Aranha.

Se você não tem familiaridade com o mercado de quadrinhos, pode até pensar que ninguém ligou muito pra esse Aranha novo. Um personagem novo, criado em uma linha editorial secundária pra substituir um personagem já consolidado. Só que, ao contrário do que pode parecer inicialmente, Miles foi um sucesso instantâneo. O público não só abraçou o novo Homem-Aranha, como também tornou o título dele o mais vendido da linha Ultimate. O sucesso do personagem foi tanto que, quando a linha Ultimate acabou, Miles foi o ÚNICO herói daquele universo incorporado ao universo regular, chegando a participar dos Vingadores. Ele se tornou tão querido pelo público que foi só sair a notícia sobre um filme do Homem-Aranha feito pela Marvel Studios que imediatamente começaram os pedidos para que Miles Morales fosse parar na tela grande.

Não preciso dizer que a estreia de Miles no cinema não aconteceu. Temos um novo Peter Parker e parece que ele vai passar um bom tempo nesse papel. Aí você pode pensar que o sonho morreu, só que isso não é bem verdade. Primeiro porque pra ter um novo Homem-Aranha é necessário ter o primeiro, já que Miles é um personagem de legado, segundo porque o cara que manda na Marvel do cinema, Kevin Feige, disse que nosso amigo Morales não só existe no universo do cinema como já tem dica disso no filme novo. AimeuDeusdocéuquefelicidade.

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Por hoje é só, crianças. Nos vemos na semana que vem.

Meio Cagado Esse Vilão Aí

Na semana passada eu comentei ligeiramente sobre os finais cagados de alguns filmes que eu vi recentemente. Um dos motivos apontados como determinantes para a qualidade dos finais foi justamente a qualidade dos vilões e hoje eu vou dar um destaque maior pra essa galera que nós detestamos tanto odiar: os vilões bosta.

    O vilão é, por definição, o opositor principal do mocinho da história. Essa relação de oposição costuma ser um dos maiores atrativos da história, nos fazendo esperar ansiosamente por cada confronto entre o herói e o vilão, tornando todo o filme apenas um prelúdio para o embate final entre o bem e o mal. Só que tem vez que isso não rola e tudo acaba sendo meio decepcionante por uma série de motivos, alguns deles serão debatidos a seguir.

O primeiro motivo é justamente o fato de alguns vilões não fazerem nada. Sabe aquele bandido que aparece, faz pose, diz umas linhas de diálogo legais, mas acaba entrando e saindo do filme meio sem fazer nada? É exatamente disso que eu tô falando. Um exemplo bom desse tipo de vilão é o Pierce de Logan.

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O cara tem uns equipamentos legais, uns capangas mal encarados e uma aura bem ameaçadora. Só que ele não faz muita coisa além de soltar graça do Hugh Jackman durante o filme todo, além de ter um final que joga na cara do espectador que o nível de periculosidade dele é bem baixo.

Outro vilão que eu considero bem fraco é aquele vilão extremamente bidimensional. O cara não tem motivações e normalmente os objetivos dele estão mais pra uma desculpa do que pra uma justificativa, isso quando a desculpa existe. Normalmente todas as questões relativas ao seu propósito e conduta podem ser respondidas com um “Porque sim”. Pode incluir aí praticamente todos os vilões genéricos de filmes de ação e alguns dos filmes com vilões que querem conquistar/destruir o mundo. Menção honrosa pra nossa amiga Magia do Esquadrão Suicida

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    O próximo vilão da lista dos marromeno é o vilão marqueteiro. Ele sabe vender o peixe dele, deixa todo mundo com medo, faz todas as ameaças do mundo e no final não entrega nada disso. Em algumas ocasiões isso é proposital, como foi o Mandarin de Homem de Ferro 3, mas nem sempre isso funciona muito bem. Os exemplos que me vêm à mente são justamente o Diretor Krennic, de Rogue One, e Santino D’Antonio e seus amigos lá do John Wick 2.

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Por último eu quero destacar aqui um vilão que, na minha humilde opinião, é uma mistura de todos os tipos de vilão citados anteriormente. Provavelmente o vilão que mais me decepcionou na vida, nosso amigo Tom Ridle, que prefere ser chamado pela alcunha de Lord Voldemort.

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Nosso amigo sem venta é um vilão até bem construído. Sua origem e motivações iniciais são bem explorados, e porque não dizer esmiuçadas, ao longo de pelo menos uns dois ou três dos sete livros da série Harry Potter. Só que é justamente o que tem depois disso que complica a parada. Voldemort, pelo menos inicialmente, funciona quase como uma versão mais moderna do Sauron de Senhor dos Anéis. Ele foi, teoricamente, destruído e começa a arquitetar o seu retorno. Nesse período da história ele funciona como uma sombra que paira sobre o protagonista e praticamente tudo de ruim que acontece é através dos seus seguidores. Nessa época ele é um vilão até de boa, aquele lance do mal oculto e da ameaça constante realmente funciona bem. Aí o cara volta e… Assim… Né? Tudo que o cara faz parece meio gratuito, aquela grandeza toda que era pra ele ter praticamente só existe no imaginário popular e no máximo morre alguém por culpa dele. Mas a parada que mais me incomoda é justamente a obsessão que ele tem pelo Harry Potter. Isso até que faria sentido, já que boa parte dos vilões tem relação com a origem do herói e tem todo o lance do elo que existe entre os dois e tal. Só que acaba ficando uma parada meio qualquer coisa quando paro pra pensar que Harry Potter é um dos protagonistas mais incapazes que eu conheço. Desde o começo ele é colocado no posto de escolhido que vai derrotar o mal supremo, mas ao longo dos livros ele não desenvolve nenhuma capacidade ou habilidade que pode ameaçar o Voldemort. Inclusive ele se livra da maioria dos rolos por causa da ajuda da galera dele. Tudo bem que Voldemort não é o melhor vilão do mundo, mas ele seria bem melhor se o herói da história oferecesse um desafio melhorzinho ou se ele tratasse seu inimigo como o adversário fraco que ele é.

Por fim eu só tenho uma coisa a dizer: tem um carinha que também mexe com cobra, é inimigo de um órfão que tem uma origem trágica, é obcecado pela imortalidade e também deixa pedaços dele espalhados por aí pra poder ressuscitar em caso de óbito inesperado. E ele dá de dez a zero no Voldemort… E em boa parte dos vilões que eu vejo por aí.

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Até a próxima.

Contos de Segunda #85

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia útil da semana. O último exemplo dessa máxima foi o nascimento das suas duas filhas gêmeas, Olívia e Alice, em meados de agosto do ano passado. As duas não só nasceram antes do tempo como também conseguiram a proeza de enganar todos os exames de imagem feitos ao longo da gestação. Ninguém estava esperando duas meninas.

Em uma certa segunda-feira, Aluísio estava em casa com suas filhas. Ele estava de férias e passava a maior parte do tempo com as meninas. Para aqueles trinta dias Aluísio tinha um plano: ensinar as duas a falar “papai”. Na prática ele não precisava ensinar, já que, segundo relatos de sua esposa, as duas já tinham falado “papai” em algum momento ao ver alguma foto dele. Aparentemente uma imagem estática fazia muito mais efeito, então ele bolou um plano.

Assim como muitos pais, Aluísio apelava em vários momentos para coisas do calibre da Galinha Pintadinha. Obviamente ele detestava a ideia de usar um truque tão rasteiro em suas próprias crianças, mas muitas vezes as medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Mais uma vez a Galinha seria usada, mas para um propósito ligeiramente mais nobre.

Depois de algumas milhares de vezes, Aluísio tinha certeza que aqueles malditos vídeos da galinha estavam gravados no cérebro das duas meninas. Exatamente por isso ele gastou algumas horas com programas de edição para adulterar todos os vídeos, inserindo algumas fotos suas em locais diversos. Ao ver o pai dentro dos vídeos, Alice e Olivia ficariam tão surpresas que diriam um “papai” bem sonoro. Pelo menos era assim que acontecia na cabeça de Aluísio toda vez que o plano era repassado.

Ele colocou o primeiro vídeo. O ponto em que ele aparecia estava quase chegando quando o celular tocou. Era Amélia, sua esposa, querendo saber se estava tudo bem. A ligação demorou tempo suficiente para a primeira aparição de Aluísio no clipe da Galinha passasse. Se as meninas falaram, ele não ouviu, mas de certa forma o plano tinha dado certo. As duas estavam olhando para ele e apontando para a tela da televisão. O fracasso momentâneo foi eclipsado pelo aparente progresso. Ele ainda tinha mais ou menos vinte chances antes de precisar repetir os vídeos. Infelizmente nenhuma delas teve muito efeito. Depois do celular foi o interfone, a fralda cheia de cocô, o banho, a hora do lanche, do almoço e da soneca, dele e das meninas. Também teve a ida à padaria e ao parque. Já era quase noite quando Aluísio conseguiu outra chance, foi quando o sono bateu e ele apagou no sofá, exatos três minutos antes da esposa chegar a tempo de ver a foto do marido aparecer do lado do galináceo azul e ouvir as duas filhas apontando para a tela dizendo em uníssono:

“Papai”

Meio Cagado Esse Final Aí

Essa semana comemoraram os 20 anos do lançamento do primeiro livro da série Harry Potter. Eu estava sinceramente inclinado a escrever algo sobre, mas aí percebi que ia ser mais um post explicando o por quê do meu gosto por Harry Potter ter diminuído ao longo dos anos do que uma homenagem. Achei que não ia casar bem com a data, foi então que eu comecei a matutar mais sobre o assunto e lembrei que foi justamente por causa do bruxo inglês mais famoso do mundo que eu comecei a escrever. Eu tinha acabado de ler um dos livros, provavelmente o quarto da série, e estava indignado com o final. Não demorou muito pra chegar à conclusão de que se eu mesmo escrevesse a história, eu teria o final que eu quisesse. Relembrando esse sentimento acabei percebendo que, de uns tempos pra cá, eu tenho experimentado dele com muita frequência. Mais uma vez Harry Potter me dando motivos para escrever

Estamos bem no meio do verão americano, isso quer dizer que estamos também na temporada dos principais lançamentos do cinema em 2017. Alguns deles já saíram, outros ainda vão sair e boa parte deles você acaba assistindo. Dos grandes lançamentos programados para o meio deste ano eu assisti três: Alien Covenant, A Múmia e Mulher Maravilha. Dá pra dizer sem medo de errar que esses três filmes não são muito parecidos, mas o curioso é que eu tenho exatamente a mesma coisa pra falar dos três: o final foi meio cagado.

Um tem o clímax bem fraco, outro tem um final que caga a cronologia da franquia e outro só tem um final merda, mas todos pecam ao entregar a conclusão daquela jornada. Aí eu paro pra pensar mais um pouco e percebo que temos esse problema em outros filmes recentes e chegamos à conclusão de que tá rolando uma praga em Hollywood que tá contaminando um monte de block buster: a praga dos vilões bosta e dos finais cagados.

Alguns dos maiores sucessos de bilheteria dos últimos anos possuem vilões bem qualquer coisa. Guerra Civil (até nos quadrinhos o final é fraco e nem é o mesmo final), Batman vs Superman, Doutor Estranho, Esquadrão Suicida (esse daí não é só o final que é ruim), Mulher Maravilha e vários outros caem na graça do público por vários motivos, dificilmente algum desses motivos é o vilão da história. Do vilão bosta pro final cagado basta um pulo, afinal o vilão é o desafio final, o mal a ser vencido, o obstáculo que vai testar ao máximo os valores e capacidades dos heróis e se esse desafio final não é lá essas coisas… Bem… Digamos que a parada dá aquela desandada e vai todo mundo pra casa quase 100% satisfeito, afinal o resto do filme foi legal.

Acabo de perceber que eu tô meio com medo dos filmes que eu mais espero pra esse ano. O receio de parecer um disco arranhado repetindo a mesma coisa pra todo mundo sobre tudo que é filme é bem grande. Ingresso de cinema tá bem caro e eu queria que os finais fossem mais satisfatórios. Espero que pelo menos Star Wars escape dessa, se bem que rolou uma cagada ligeira ali no final do Episódio VII, mas isso já é outra história.

O Sexo dos Pombos

Esses dias eu estava viajando a trabalho. Como da outra vez em que isso aconteceu, interrompi o fluxo normal de publicações deste maravilhoso blog. Nessa onda de parar de publicar eu não fiz post por causa do meu aniversário, nem por causa do dia das mães ou por causa do aniversário do Cachorros de Bikini (completamos dois anos no começo deste mês). Também mantive a política editorial em relação aos temas pessoais que chegam a ser publicados por aqui. Normalmente ninguém liga pra essa parada, mas um certo amigo do trabalho passou o último mês e meio inconformado com a minha negligência. Em um dos picos de insatisfação ele me disse: “Vou te dar um tema, você vai fazer um post sobre o sexo dos pombos”. O pedido era compreensível, afinal um par dessas aves tão singulares estava passando as últimas noites tendo um romance ardente na janela do quarto desse meu amigo. Imediatamente eu preparei o “não”, mas o meu cérebro acabou me traindo. Durante o meio segundo que levou pra negativa sair do cérebro e chegar na garganta, as engrenagens trabalharam e cá estou eu pra falar do sexo dos pombos.

Sempre ouvi falar que duas coisas que não se vê muito por aí é enterro de anão e filhote de pombo. Tendo isso em mente, não parece absurdo pensar que os pombos são gerados espontaneamente já na forma adulta, o que removeria de suas vidas a necessidade do envolvimento carnal entre os indivíduos de gêneros opostos, removeria inclusive a necessidade de haver a diferenciação de gêneros. Mesmo contrariando esse conhecimento popular perpetuado ao longo de tantas gerações, os pombos não só se reproduzem da mesma forma que as outras aves, como também são um padrão para os casais apaixonados. Não é raro ouvir em novelas ou filmes dublados que os casais apaixonados são “dois pombinhos”. Isso nos leva ao primeiro ponto relevante dessa nossa conversa: o romance dos pombos.

Nunca consegui processar direito essa associação entre os casais apaixonados e os pombos. Normalmente aves não são muito expressivas, o pombo não foge muito a essa regra, mas eis que estou um dia olhando pela janela e vejo uma cena muito semelhante à essa aqui:

Sim, você acabou de ver o registro de um pombo cortejando uma pomba e, por incrível que pareça, o pombo me pareceu bem mais respeitoso com sua paquera do que boa parte dos animais que eu já vi em situação similar. Antes que você ache que eu sou um voyeur de bicho, devo dizer que assisti um tanto considerável de Globo Rural ao longo da minha, não tão curta assim, vida de 27 anos. Também devemos lembrar que os pombos são monogâmicos, ou seja, não possuem mais de um parceiro por vez. Levando isso tudo em consideração podemos dizer que o pombo é um animal relativamente romântico. Então chegamos ao ponto principal deste post: o tal sexo dos pombos.

Segundo a Wikipédia, os pombos se reproduzem ao longo de todo ano e preferem fazer isso em locais que se assemelham aos ambientes onde eles fazem seus ninhos na natureza. Os locais preferidos atualmente são os parapeitos das janelas e estruturas similares. Essas duas informações nos levam a duas conclusões: a primeira é que os pombos são seres naturalmente fogosos e não tão nem aí pra épocas propícias, o negócio é procriar. A segunda é que os pombos querem mais é que todo mundo testemunhe o amor deles.

Aí acaba o bem bom. Os ovos chegam ao ninho e lá vão os dois pombinhos pro revezamento de chocar as crias. Depois que eles nascem eles são “amamentados” por suas mães com o chamado leite de bucho, presente nas aves amamentadoras. Depois dessa acho que não tenho mais o que dizer. Até a próxima e não alimente os pombos.

Hiato de Bikini #2

Pois é, queridos leitores, chegamos a mais um anuncio de hiato. Só que dessa vez o hiato vai ser só para o esquema atual de publicações. Nas próximas seis ou sete semanas os Contos de Segunda e os nossos posts sobre assuntos diversos vão tirar uma folga… Na verdade os personagens de segunda estão de greve, mas isso é outra história.
Esse hiato vai ser uma boa oportunidade pra fazer outras coisas e colocar outras ideias no papel. Por isso não se preocupe, ainda vai ter coisa saindo aqui, só que vão ser outras coisas. As coisas de sempre voltam em junho.
Vejo você por aí.

 

Contos de Segunda #84 – Edição de Greve

Clóvis acordou cedo. Na verdade ele mal dormiu, afinal aquele era um dia muito importante. Durante boa parte da vida, Clóvis trabalhou em um sindicato de personagens fictícios, ele era responsável pelo DAPCS, Departamento de Apoio aos Personagens dos Contos de Segunda. Tudo isso mudou quando o próprio Clóvis se tornou um personagem em um conto de segunda. Obviamente ele não aceitou bem, principalmente por ter sido removido de seu departamento de origem para o departamento que cuida dos personagens de Guerra dos Tronos. O seu descontentamento e as condições de trabalho péssimas que os personagens de segunda têm motivaram Clóvis a agir.

Depois de muito conversar ele conseguiu organizar uma paralisação. Aconteceu ontem, no Dia do Trabalhador, uma segunda-feira. Essa paralisação foi um aviso ao autor, se as reivindicações da categoria não fossem atendidas, seria deflagrada uma greve geral dos personagens. Hoje era o dia marcado para que o autor entregasse aos personagens seu parecer.

Todos estavam reunidos em um dos auditórios do sindicato. Protagonistas e coadjuvantes. Homens e mulheres de idades variadas, dois dragões, dois cachorros, um papagaio, dois robôs e uma inteligência artificial criada para mediar e prevenir conflitos. Nenhum deles parecia muito satisfeito.

— Companheiros — começou Clóvis ao microfone dando início à reunião. — Hoje o autor conhece o poder que temos. Conseguimos paralisar a publicação de novos contos, conseguimos trazer o nosso tirano para dialogar e hoje só haverá publicação porque nós permitimos. O autor está aqui para nos ouvir. Ele já conhece nossa pauta, mas ela será repassada aqui para que seja registrada na ata desta reunião. O autor se encontra presente.

Dou um suspiro antes de responder… Sim, Clóvis, estou aqui. Boa tarde, pessoal. Boa parte dos personagens não me cumprimenta de volta, aparentemente eles estão bem chateados.

— Cada ponto da nossa pauta foi definido por um personagem, ou personagens que existem dentro de um mesmo conjunto de contos — continuou Clóvis. — O microfone está aberto.

O primeiro a levantar foi Dimitri, o vampiro.

— Nós exigimos contos com finais melhores — disse ele. — Muitas ideias excelentes são transformadas em fezes por causa de finais terríveis. Quantos além de mim sofrem com isso? Demandamos uma mudança imediata no processo criativo das histórias.

Dimitri deixa o microfone me encarando. Infelizmente nem toda ideia boa vem completa, nem sempre dá pra fazer algo decente com o final. Sou vaiado por alguns quando levanto esse ponto. O silêncio só chega quando o próximo vai ao microfone, dessa vez quem chega lá é Cosme, o zelador do turno da noite.

— Alguns personagens tiveram suas histórias, entre aspas, “concluídas” e até hoje não sabem se estão mortos ou não. Eu sou um exemplo disso, terminei meu conto em um ato de heroísmo, mas não faço a menor ideia se estou morto ou não. É um absurdo, é nosso direito saber o que acontece conosco.

O zelador deixou o microfone debaixo de aplausos. Penso em falar sobre como finais abertos são mais interessantes, mas os olhares de reprovação que recebo me fazem ficar calado esperando o próximo a prestar suas queixas. Para a minha surpresa, quem pegou o microfone foi a Dama da Segunda-feira

— Exigimos o direito de saber para onde as nossas histórias estão indo — disse ela. — Outro dia eu estava atrás de um, entre aspas, “marido”. Logo depois eu fiquei grávida e do nada eu já tinha dois filhos. Me digam, companheiros, como eu vou planejar a minha vida se eu acordo de manhã sem saber se no fim do dia eu vou estar gravida, casada ou morta?

Não faz sentido vocês saberem o final da história. As decisões que vocês tomariam poderiam mudar todo o rumo das histórias. Dessa vez eu sou vaiado por praticamente todos. Por último vejo Cristina se levantar. Ela me olha como se quisesse me assassinar da forma mais sádica possível.

— Eu quero o direito de procurar emprego na cabeça de outro autor — foi só o que ela disse, gentil como uma cacetada no joelho.

Infelizmente não posso atender às reivindicações. Algumas delas dependem de habilidades que eu ainda estou desenvolvendo e outras… Outras não fazem sentido.

— Então não temos escolha — disse Clóvis retornando ao microfone. — Coloco em votação por aclamação a greve geral. Quem é favorável? — Praticamente todos os personagens levantaram a mão. — Sendo assim, a partir de hoje os personagens da série semanal Contos de Segunda, empregados no blog Cachorros de Bikini, estão de greve por tempo indeterminado.

 

Estamos Em Greve

Hoje é sexta, dia 28 de abril do ano da Graça de Nosso Senhor de 2017. No dia de hoje convocaram uma greve geral. Caso você não saiba, uma greve geral acontece quando sindicatos que costumam fazer greve separados resolvem fazer uma greve juntos. Normalmente isso rola em um dia só e também recebe o nome de “paralisação nacional”, principalmente porque se rolar por vários dias o prejuízo vai ser grande demais e essas coisas. Como o Cachorros de Bikini não apoia nem desapoia nada, a gente não vai discutir a greve, os grevistas, as reivindicações e nem nada disso. Hoje vamos falar um pouco sobre o que rola com as pessoas que não estão envolvidas com a greve.

Quando acontece uma greve é normal que o transtorno venha junto. Obviamente o tamanho do transtorno depende de duas coisas. A primeira é o quanto você precisa daquela categoria que está de greve. Ficar doente durante greve de médico, ser estudante durante a greve dos professores ou dar entrada na aposentadoria durante a greve da previdência normalmente são problemas bem grandes, mas só são grandes mesmo se você depende da galera grevista. A segunda é se você precisa passar por algum local afetado pelas manifestações grevistas. Normalmente os grevistas fazem manifestações, passeatas, protestos de cores e sabores diversos. Na maioria dos casos, essas manifestações criam algum problema de trânsito, principalmente se for alguma greve de profissionais do transporte. Isso nos leva à seguinte conclusão: existe uma grande chance da greve ser que nem a Copa do Mundo, você só vê pela televisão e só se importa com o resultado se for bom pro time que você torce.

É bem provável que você já tenha se lascado por causa de greve e se isso aconteceu, é bem provável que você deteste greve e ache que os grevistas tinham mais que estar trabalhando do que fazendo piquete. Existe uma possibilidade de você já ter se lascado antes da greve e fez greve por isso, nesse caso você consegue ser mais solidário com os grevistas e até responda ao chamado de greve geral. A questão é: Greve é uma daquelas paradas que envolve pessoas que se lascaram ou que vão se lascar, na prática é um mal que, possivelmente, vem para algum bem. Digo possivelmente pelo fato do fracasso de algumas greves e porque nem sempre fica muito claro pra quem vem o benefício da greve. Se vem pra todo mundo, só pra algumas pessoas ou pra ninguém, mas aí é outra história.

Vou aproveitar pra dizer que aqui no Cachorros também tá rolando greve. Os personagens dos contos resolveram aderir ao movimento e uma paralisação geral foi convocada. Aparentemente o autor deste blog não está deixando os coitados muito contentes. Uma lista de reivindicações já foi entregue pelo sindicato e as negociações acontecerão logo. Para mais detalhes fique ligado no conto da próxima segunda-feira. Até mais e cuidado na greve.

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