Márcio estava empolgado. O ano mal tinha começado e ele já estava fazendo o que mais gostava de fazer: planos. No ano passado a maioria dos planos deram certo e por isso Márcio se sentia pronto para planejar mais coisas.
Voltando do trabalho em uma segunda-feira de janeiro ele pensou no que ele poderia fazer para aumentar a relevância do ano que estava só começando. Chegou em casa animado, chutou os sapatos para fora dos pés, puxou um bloco de anotações, sacou uma caneta e escreveu no topo da folha “Promessas de Ano Novo”. Parou alguns instantes para refletir sobre o assunto. Depois de pensar um pouco decidiu que o problema estava no “Promessas”. O que seria listado a seguir não seria visto por mais ninguém e esse lance de prometer as coisas para si mesmo parecia levemente esquizofrênico. Rasurou a primeira palavra e substituiu por “Objetivos”.
Depois de finalmente se sentir confortável com a nomenclatura da lista, Márcio poderia finalmente começar com as promessas os objetivos para o ano que se iniciava. Poderia, mas não começou. Uma barreira invisível se ergueu diante dele. Nela estava escrito:
“O QUE DIABOS VOCÊ QUER DESSE ANO NOVO?”
Do nada a tarefa de listar os objetivos do ano pareceu algo muito complicado, mas Márcio era um planejador experiente e não desistiria fácil. Exatamente por isso ele decidiu começar com o time que estava ganhando, justamente onde ele não pretendia mexer. Ano passado a tática de pagar um ano de academia surtiu um efeito bem próximo do desejado, portanto a primeira coisa da lista seria: “não abandonar a academia”. Agora sim a lista tinha começado de verdade… Só começado mesmo.
Ao avaliar o primeiro item da lista, Márcio lembrou de como detestava a academia e de como só tinha encarado esses doze meses de atividade física por já estarem pagos. Com mais uma rasura o objetivo se transformou em “não abandonar a academia” e puxou o segundo item que era “arrumar uma atividade física que seja melhor que ir pra academia”. Agora sim as coisas estavam andando, o ânimo tinha retornado e o terceiro item estava quase sendo escrito… Mas qual era mesmo? Márcio coçou a cabeça com a caneta na tentativa da estática dar a partida em alguma ideia adormecida.
Algo relacionado ao trabalho? A dinheiro? Ao aperfeiçoamento pessoal? Aprender um novo idioma ou começar a comer direito? Voltar a estudar ou se livrar das coisas que estão entulhando em casa? Nenhuma das alternativas parecia muito convidativa. Todas elas implicavam em desprender um grande esforço e pelo menos metade delas já estavam sendo feitas, ao menos parcialmente. A animação de Márcio se transformou em pura frustração. Encarou o maldito papel e por pouco não arrancou a folha do bloquinho fora… Por pouco. Em um instante algo iluminou sua mente.
Com poucas palavras libertadoras ele conseguiu concluir a lista. Com o terceiro item finalmente escrito Márcio arrancou a folha do bloquinho e colou com um imã em forma de fruta na porta da geladeira. Olhou para os planos do ano e ficou satisfeito. Pensou no trabalho que teria e no esforço que faria para terminar dezembro com tudo aquilo cumprido. O mais difícil obviamente seria o terceiro objetivo, mas se fosse fácil ele não precisaria escrever. Afinal, aquele provavelmente seria um grande desafio para qualquer pessoa.
“Alcançar todos os objetivos que aparecerem esse ano”.














