Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Contos de Segunda #66

Jorge e Cristina estão com a história cada vez mais enrolada. Depois dos eventos relatados no Contos de Segunda #27 (Parte 01 e Parte 02) e das aventuras do dia dos namorados no Contos de Segunda #46, eles voltam pra continuar o que começou lá no Contos de Segunda #61.

  Jorge levantou preguiçoso naquela manhã de segunda-feira. Era o último dia do aviso prévio e a disposição dele estava do tamanho de um micróbio. Mais ou menos um mês tinha se passado desde que o Ministério Público convocou os aprovados no seu último concurso. Jorge estava entre os aprovados. Imediatamente ele pediu demissão e iniciou o aviso prévio. Apesar de só assumir o cargo no início do ano, Jorge resolveu sair do emprego no início de dezembro e tirar uns dias de folga. Desde então o trabalho virou o inferno.

    Desde cedo o chat do pessoal do jurídico estava explodindo de mensagens. Aparentemente todo mundo estava empolgado com a despedida de Jorge.

    “Mas isso tudo quem vai pagar é Jorge. Ele vai virar funcionário público, nada mais justo do que pagar o almoço”, disse Oscar em certo ponto da conversa.

    “Acho justo”, concordou Paulo César.

    “Nem comecem com essa história”, interrompeu Jorge.

    “Qual é, Jorge? Último dia, tu vai receber uma grana boa de rescisão, vai passar o resto de dezembro de folga e ainda não quer pagar o almoço?”, argumentou Rômulo.

    “Metade do escritório disse que quer almoçar comigo hoje. Tem gente que fala disso todo dia. Se eu pagar o almoço de todo mundo vou falir”, rebateu Jorge.

    “Relaxa, Jorge. A gente consegue driblar a galera no almoço e faz uma coisinha só com a nossa galera”, disse Silveira.

    “Se ficar só com a gente eu pago o almoço. E depois do expediente?”, lembrou Jorge.

    “O bar de um amigo meu abre dia de segunda e fica aqui perto. A gente passa o rádio pro pessoal do escritório e quem quiser aparece lá. Roberta até falou que ia levar as amigas dela pra socializar com a gente”, respondeu Rômulo.

    “Nem comece com essa conversa, Rômulo. Se alguma amiga minha aparecer não vai ser porque eu levei”, rebateu Roberta.

    “Tu só fala isso porque Jorge é tretado com aquelas duas lá. É até melhor que Jorge vá embora, pelo menos tuas amigas vão aparecer quando a gente marcar alguma coisa”, completou Oscar.

    “E eu aqui pensando o que seria de vocês sem mim”, respondeu Jorge antes de bloquear a tela do celular.

    Apesar do histórico, Jorge não entrava em atrito com Cristina há um bom tempo. Principalmente por causa da correria que o último mês se tornou. A empresa estava sendo processada, Jorge precisou dobrar os esforços para trabalhar junto com os colegas na defesa e dar um jeito de eliminar as pendências antes do final do aviso prévio. Depois de algumas horas de sono a menos e uma dose extra de stress, Jorge estava preparado para passar o dia arrumando as coisas e se despedindo do pessoal.

    Se despedir era bem mais fácil na teoria. Depois de alguns anos trabalhando no mesmo lugar onde a vida profissional começou, ir embora era um pouco assustador. Ao se despedir de todos os amigos que fizera entre aquelas paredes, Jorge se lembrou de muitas ´histórias, como tinha conhecido cada um deles, como uma parte deles sempre estendeu a mão quando ele precisou de ajuda e como muitos mais encontraram a mão dele estendida pronta para oferecer ajuda. Juntar as coisas também era mais fácil na teoria. As fotos em cima da mesa mostravam pessoas que partiram, outras que ficaram e mais algumas que estavam indo junto com ele. Boa parte das coisas sobre a mesa eram presentes. Agora ele precisava arrumar um lugar para tudo aquilo. Para tudo aquilo e para si. Aquele que foi o lugar de Jorge no mundo não era mais. E foi divagando sobre esse assunto que ele foi tomar um café. Se não estivesse tão distraído, teria percebido que outra pessoa também estava tomando café.

    — Ah… Oi, Jorge

    — Oi, Cristina… Não vi que você estava por aqui… Melhor eu deixar o café pra depois.

    — Relaxa, Jorge, hoje eu não vou brigar contigo — respondeu ela procurando algo nos armários da copa. — O falatório sobre a tua despedida tá tão grande que esse nosso encontro casual não vai gerar nenhum comentário.

    — Espero que sim — disse ele enchendo uma xícara. — Se tem uma coisa que eu não vou ter saudade é de toda essa fofoca por causa da gente — deu um gole no café.

    — Pelo menos pra alguma coisa tua demissão tem que servir, Jorge. O pessoal do jurídico já tá chorando só de pensar em como vai ser a partir de amanhã. Ao menos alguma coisa positiva tem que sair disso.

    — A galera vai ficar bem, eu não vou fazer essa falta toda. O pessoal só precisa aprender uma ou duas coisas pra poder brigar de igual pra igual contigo. Fora isso vai ficar tudo bem.

    — Teus amigos são meio moles mesmo. Vou começar a tratar só com Roberta. A gente se entende bem sem precisar brigar… Ficar brigando por tudo cansa.

    — Nem me fale… Não vou dizer que vou sentir falta de brigar com você duas ou três vezes por semana… Mas tirando a parte das brigas, foi bom trabalhar contigo, Cristina. Pelo menos até antes da tua amiga começar a espalhar histórias por aí.

    — Pois é — ela ficou alguns segundos em silêncio. — Acho que a gente ainda vai se ver por aí. Do jeito que vai o rolo de Fábio e Luciana, já já a gente vira padrinho.

— Nem me lembra disso. Fábio só fala da tua amiga o tempo todo. Qualquer dia eles casam… Eu ainda passo por aqui esse ano. No dia do amigo secreto do jurídico eu apareço por aqui.

— Passa lá pra dar um alô.

— Passo sim.

Cristina saiu sem dizer mais nada. Deixou Jorge sozinho com o resto do café e dos pensamentos. Ele estava mexendo no celular quando chegou uma mensagem dela.

“Boa sorte, Jorge… Eu ainda te odeio.”

Os Planos (Problemáticos) de Fim de Ano

    Uma das coisas mais comuns no final do ano é ter um plano. Uma programação, uma tradição, algo que se repete ritualisticamente a cada doze meses. Como dezembro tem toda aquela vibe de união das pessoas e derivados, o mais comum (e mais óbvio) é reunir a família pra todo mundo passar junto essa época bonita que antecede o falecimento de mais um ano. Só que, assim como tudo que envolve família, essas atividades lúdico-alimentícias são potencialmente problemáticas.

    Existem famílias de várias formas, tamanhos, cores e sabores. E é justamente por causa dessa diversidade que nem sempre estar com a família é uma atividade prazerosa. Primos que você não gosta, tios que fazem perguntas constrangedoras, agregados inconvenientes e aqueles parentes que não se bicam travando uma guerra fria que por pouco não vai virar um apocalipse nuclear. Talvez isso não aconteça com você. Talvez a sua família não tenha nenhum dos arquétipos listados acima, mas o que pega todo mundo é justamente o dever, quase a obrigatoriedade.

    “Esse ano eu nem queria ir”. Essa frase já pode ter saído pela sua boca ou entrado pelos seus ouvidos. Mas a realidade é uma só: boa parte dos problemas das programações de fim de ano está no simples fato da programação existir. Vamos exemplificar pra ficar mais claro. Imagine que você faz algo todo ano com a sua família, agora imagine que apareceu algo que você quer muito fazer com pessoas que não são da sua família. Imaginou? Agora sabe do que eu estou falando. Por isso as pessoas relutam tanto em mudar as tradições de fim de ano, porque o natural do ser humano é evitar problemas pra si mesmo, um instinto de autopreservação que está em todos nós… Só que uma das coisas que o ser humano faz melhor é desafiar os seus instintos e por isso entramos no lado B da história.

    Muitas das atividades de fim de ano, mesmo as ruins, são perfeitamente administráveis ou no mínimo suportáveis, mas todas elas têm potencial pra se tornar bem pior do que já é. Uma forma excelente de fazer isso é introduzir um amigo secreto no meio dos festejos. E, como eu já falei no ano passado, amigo secreto pode ser um prazer ou um suplício. Em condições ideais de temperatura e pressão, você vai fazer a brincadeira em um ambiente onde todas as pessoas se conhecem e todos podem dizer o que querem. Normalmente o que acontece é que você não tira a pessoa que seria fácil de dar presente e termina tirando aquela sua tia que você (e todo mundo) só vê no Natal. E se for na pior das situações possíveis vai rolar um daqueles amigos secretos onde cada um leva um presente, os amigos secretos são tirados na hora e o limite de valor é cinquenta reais.

    “Não acredito que você não vai” é uma frase que já deve ter saído das nossas bocas ou entrado nos nossos ouvidos. Como um defensor das tradições familiares, eu nunca cheguei a ouvir, mas entendo perfeitamente o dilema vivido por nós quando precisamos decidir entre seguir os hábitos ou tentar algo diferente. E, a menos que seja uma experiência realmente desgraçada, recomendo que você opte pela família sempre que possível. Nunca passe mais de dois anos seguidos longe dos ritos do seu clã e tente ao máximo não criar problemas pra você mesmo. O final do ano já pode ser uma época bem ruim sozinho, ele não precisa da sua ajuda pra ficar pior.

A Mentira Nossa de Cada Fim de Ano

Dezembro está no ar e com ele a temporada de fim de ano. Essa época tão peculiar do ano que é carregada de mentiras e enganação. E foi por causa de um amigo meu que eu parei pra pensar em como o fim de ano é um aglomerado de mentiras, invenções e derivados.

A mentira já começa na infância, onde somos induzidos a pensar que os presentes que ganhamos são trazidos por um velho escandinavo obeso que voa pelo mundo em uma velocidade sub-lúmica em seu trenó puxado por renas voadoras. A pior parte disso tudo é que os nossos pais, que normalmente compram os nossos presentes, não recebem nenhum crédito. Mesmo gastando um pedaço considerável do seu salário, nossos pobres genitores têm seu esforço eclipsado pela figura vermelha e redonda vinda sei lá de onde. A pior parte disso é que normalmente são eles que nos induzem a acreditar no velho Noel.

Outra mentira contada é sobre o clima natalino. Por causa dos filmes, séries, desenhos e afins que consumimos, somos levados a pensar no natal como uma época cheia de neve, com pinheiro pra todo lado, boneco de neve e essas coisas. Todos os enfeites remetem a neve, frio, gelo, inverno e essas coisas que só existem nos países mais pra cima do globo. Só que nós vivemos, como diz aquela música, rente aos trópicos, onde as águas de março costumavam (em alguns lugares ainda costumam) fechar o verão. Note que são as águas DE MARÇO que acabam com o verão e fazendo a conta inversa é fácil perceber que o nosso natal acontece no começo do verão. Ou seja, não dá nem pra dizer que tá pegando uma brisa fresquinha no natal, quanto mais associar o aniversário de Jesus com alguma coisa fria. E isso me lembra mais uma invenção do fim de ano.

Não sei se você sabe, mas em lugar nenhum da bíblia tem dizendo quando Jesus nasceu. É bem provável que ele tenha nascido no meio do ano, já que o relato biblíco fala de pastores dormindo no meio do campo e acordando com um coral de anjos e em dezembro faz muito frio lá pros lados da palestina, impossibilitando os pastores de dormirem ao relento com seus animais. Aí você pode estar se perguntando: “e de onde a gente tirou que Jesus nasceu no natal?”. Devemos isso aos nossos compadres romanos, que estavam numa vibe de adorar um deus chamado Mitra antes do imperador se converter a uma religião quase recém nascida chamada cristianismo. Por causa disso os cristãos deixaram de ser comida de leão do coliseu e o imperador decidiu que todo mundo tinha que ser cristão junto com ele. Mas até pro imperador romano é meio ruim de convencer todo mundo a mudar de crença do nada, por isso ele aproveitou que Mitra tinha uma história parecida com a de Jesus, instituiu o aniversário de Cristo no fim do ano e pediu pra galera bater parabéns pra ele em vez de fazer isso pra Mitra.

Como você pode ver o final de cada ano é cheio de enganação e de histórias mal contadas. Praticamente tudo que a gente faz não tem o seu propósito original ou é a adaptação de alguma coisa mais antiga. No final todos nos deixamos enganar, até porque uma coisa que costumamos evitar no fim do ano é parecer chato, e ficar reclamando de todas essas mentiras contadas desde sempre nos faz parecer bem azedos.

Contos de Segunda #65 – Especial de 200 Posts

    — Boa noite, galera. Nós somos as 4Ladies e viemos pra arrebentar essa cerimônia — disse Vocal para uma platéia que, apesar de estar sentada nas cadeiras do teatro, estava muito animada. — Eu sou Vocal e aqui comigo eu tenho Guitarra, Baixo, Bateria e fazendo uma participação especial, dando um reforço com sua guitarra, nosso querido amigo Fábio — ela esperou o final dos aplausos para voltar a falar. — Estão prontos, pessoal? Então pode contar.

    Guitarra subiu o volume dos captadores e acionou dois pedais, Baixo ativou a distorção, Fábio estalou os dedos e Bateria ajustou a altura do microfone antes de começar a contar.

    — Um, dois e um,dois, três, quatro.

    As luzes explodiram no palco. A plateia explodiu nas cadeiras e o som das 4Ladies conseguia ser mais explosivo do que as duas coisas juntas.

    Foi assim que começou o show de abertura da cerimônia de entrega do Bikini de Ouro, o maior prêmio que um personagem de um conto de segunda pode receber. Todos os personagens estavam lá: Maurício pegou uma carona na máquina do tempo e veio direto do fim do mundo, Erick e seu amigo Dragão Vermelho pegaram um feitiço do tempo errado e chegaram dois anos antes do evento, mas estavam felizes por concorrerem em várias categorias. As Damas da Semana estavam totalmente apaixonadas por Elvis, o primeiro cachorro a estrelar um conto de segunda, e Ribeiro estava totalmente despreocupado com o trabalho, afinal amanhã estaria de folga. Moacir e Fernanda encontraram o Homem Camaleão e estavam conversando empolgados com o alienígena Radrax, enquanto Aderbal ainda tentava encontrar o assento com o seu nome escrito.

Coordenando todo esse evento estava Cristina. Atenta a todos os detalhes e desejando ardentemente a chegada do final do evento e ela pudesse considerar o trabalho bem feito.

— Cadê teu boy, Cristina? — Perguntou Luciana que por causa da amiga estava trabalhando nos bastidores.

— Despachei ele direto pra recepção dos personagens — respondeu a moça sem tirar os olhos do palco. Estavam entregando o prêmio de melhor vilão. — Temos alguns viajantes do tempo, um alienígena, um dragão, um cachorro que veio desacompanhado e um capo da máfia que a polícia não pode saber que está aqui. Jorge sabe cuidar desses pepinos. Também coloquei ele pra apresentar um prêmio de alguma categoria técnica.

— Horácio, né? Gostei do cara, não parece perigoso.

— Ele é legal, deu umas dicas ótimas de segurança — Cristina correu os olhos pela planilha que estava na prancheta. — Já já chega na categoria de coadjuvante. Volta lá pro teu lugar que a câmera tem que te dar um close quando anunciarem os indicados.

Quem levou o prêmio de melhor vilão foi Olho. Como ele não podia comparecer pessoalmente, por um motivo de falta de corpo, quem recebeu o prêmio em nome dele foi seu antagonista e zelador. Cosme não conseguiu segurar as lágrimas quando falou de como dividir um conto com Olho mudou a vida dele… E como está quase destruindo a humanidade do futuro.

— Cristina, a atriz famosona que ia apresentar o prêmio de melhor protagonista deu pra trás e o marido dela também — disse Marcelo que estava trabalhando de assistente de produção.

— Como é? — Questionou Cristina incrédula. — E agora?

— O diretor de TV recomendou que você fosse com alguém.

— Eu? Mas eu não estou com roupa de gala.

— O vestido da famosona tá no camarim… E por um acaso ela é praticamente do teu tamanho.

— Ai, meu Deus… Tá, tá certo. Agora eu não entro sozinha naquele palco. Arruma um zé qualquer pra entrar comigo.

Jorge tinha acabado de sair do palco depois de anunciar Carmim como vencedor da categoria Maior Conto. O detetive também ganhou a estatueta da categoria Melhor Minissérie. As Damas da Semana levaram na categoria Melhor Série Longa e Fernanda ganhou o prêmio de Melhor Série de Histórias Independentes. O próximo prêmio, de Personagem Revelação, seria apresentado por Aluísio. Devido à sua relação peculiar com a segunda-feira, não é difícil imaginar que ele foi considerado o melhor apresentador da noite. A vencedora do prêmio foi Anabela.

— Eu não esperava ganhar esse prêmio — disse ela emocionada. — Concorrer com Horácio e com a Dama da Segunda-feira foi uma honra e um privilégio. Agradeço a todos que me apoiaram, aos que votaram em mim e aos que me indicaram ao prêmio… Muito, muito obrigada.

Em seguida foi a vez da Dama da Lua apresentar o prêmio de Melhor Coadjuvante. Cristina já esperava do lado de fora do palco. A categoria de Melhor Protagonista seria a próxima.

— Pronto, Cristina, cheguei — disse Jorge olhando para o relógio.

— Chegou pra quê, Jorge?

— Marcelo falou que você precisava de “um zé qualquer”. Não sou bem um zé, mas sou o melhor tapa buracos disponível.

Cristina teria argumentado caso Luciana não estivesse descendo do palco com a estatueta na mão.

— Essa tua amiga passa o ano aparecendo às nossas custas e ainda ganha prêmio — desdenhou Jorge. — Só pode ser marmelada.

— Quieto, é a nossa vez de entrar.

Os dois colocaram os pés no palco e o teatro veio abaixo. Muitos elogiariam a produção do evento por ter escolhido dois personagens tão queridos para juntos apresentarem o melhor prêmio da noite.

— Hoje comemoramos a marca de duzentas publicações no Cachorros de Bikini — anunciou Jorge.

— Exatamente hoje, quando é publicado o conto de segunda de número sessenta e cinco, vamos premiar os melhores em diversas categorias e também o melhor de todos — disse Cristina tentando não gaguejar na frente de tanta gente.

— Os indicados são: Fernanda… Erick, o Caçador de Dragões… Horácio… 4Ladies e Cosme juntamente com seu antagonista Olho.

— E o prêmio de Melhor Protagonista… — Começou Jorge.

— … Vai para…– Completou Cristina

— Erick! — Anunciaram os dois juntos.

O caçador subiu radiante ao palco. Apertou a mão dos apresentadores, pegou a estatueta, olhou para o teatro lotado e disse:

— Alegro-me deveras, nobres personagens de segunda! Gostaria de fazer um discurso à altura da importância do prêmio… Mas no meu lugar discursará o meu amigo Dragão Vermelho.

O réptil subiu ao palco e começou a falar. Ele falou por tanto tempo que praticamente todo mundo desistiu ainda na metade. Os corajosos que ficaram garantem que ouvir aquele dragão mudou a vida deles.

O Número 200 Sai Segunda

    Isso mesmo, querida criança leitora. A presente publicação é o post de número duzentos deste humilde blog conhecido universalmente como Cachorros de Bikini. Faz exatamente 294 dias que o post de número 100 saiu e se não fossem os dois hiatos (um deles inevitável) essa marca teria sido atingida bem antes, mas mesmo assim temos muito o que comemorar… Na verdade nem tanto assim, mas como o Cachorros de Bikini não é lá grandes coisas qualquer motivo é válido pra comemoração. O post de hoje é especial

    Modéstia à parte, esses últimos noventa e nove textos já estão com resultados bem melhores do que os cem primeiros. Começa que a média de palavras por texto subiu de 412 pra 550. É como se eu pegasse todos os primeiros cem textos e acrescentasse um tweet em cada um. Os principais responsáveis por isso são os Contos de Segunda que saíram de uma média de 438 palavras para a nada impressionante média de 773 palavras por texto. Inclusive vale ressaltar que dos trinta e um contos publicados, dois deles divididos em duas partes, em três ocasiões alcançamos marcas superiores a 1500 palavras. O que isso quer dizer? Quer dizer que o Cachorros logo logo será um depósito de textão tão grande quanto o Facebook. Essa daí nem Zuckerberg viu chegando.

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    Também vale lembrar que isso não seria possível sem a ajuda dos 15 protagonistas da nossa série de contos que nasceram nos últimos tempos e da nossa querida Luciana, que já tinha aparecido, mas que foi elevada ao patamar de protagonista em algumas publicações. Esse número tá meio inflado por causa de uma banda de rock e cinco seres míticos que só aparecem juntos, mas o que vale é a matemática.

    Mais uma vez eu me pego feliz com os resultados, mas ao mesmo tempo com os pés plantados no chão, a bunda na cadeira e as mãos no teclado do computador. Chegar a duzentas postagens não deixa de ser uma marca histórica, mas ao mesmo tempo não deixa de ser uma marca pequena. Se eu tivesse lançado um texto por dia eu não teria nem um ano de publicação. Se eu lançasse um por semana eu teria menos de quatro anos de publicação. Não, duzentos não é muito. Duzentos é pouco e a cada nova marca atingida será ainda menos, mas nem por isso eu vou deixar de comemorar. Afinal a felicidade reside nas pequenas coisas.

2016, Um Ano para Recordar (?)

    Esse ano um evento movimentou as interwebs. Do nada os meus feeds foram invadidos por todo o tipo de manifestação apaixonada, sites que eu visito começaram a falar sobre isso, podcasts que eu escuto foram afetados e pessoas que eu conheço foram totalmente absorvidas pela magia desse acontecimento. Esse ano rolou o retorno/despedida de Gilmore Girls. Aqui no Brasil a última temporada das Lorelai lá ganhou um subtítulo bastante sugestivo: Um Ano para Recordar. Depois de filtrar todo esse excesso de nostalgia e overdose de Lorelai, café, diálogos rápidos e fãs tirando a poeira do Stars Hollow que existe dentro de seus corações, meu cérebro começou a trabalhar.

2016 está no fim. Hoje é o último dia de novembro e amanhã começa oficialmente o fim do ano. Finalmente os enfeites de natal estarão dentro do contexto, os comerciais da Coca-Cola vão mostrar a magia dessa época e vão começar a anunciar a programação de fim de ano da Globo. Pensando sobre o final de mais um ciclo solar e em todas as desgraças coisas que aconteceram nesses trezentos e trinta e poucos dias me veio a seguinte questão: 2016 é um ano para recordar?

Nem sempre os anos são memoráveis. Muitas vezes os anos são tão qualquer coisa que a gente vive lembrando das coisas que rolaram nele como se acontecessem em algum outro ano que foi mais relevante. Outras vezes os anos são tão bons que a gente nem se incomoda dele demorar um pouco mais a passar, outras vezes o bom e o ruim se equilibram de tal forma que fica difícil de saber se o saldo do ano foi negativo ou positivo. Algumas vezes os anos são 2016.

É bem provável que 2016 termine com um saldo negativo pra maioria das pessoas, mas de todo jeito algumas coisas boas aconteceram em 2016 pra todo mundo. Olhando para o calendário eu vejo que o ano pareceu longo por causa do tanto de coisa que aconteceu e quando eu penso mais um pouco vejo que apesar de muito canalha, 2016 foi um ano que trouxe consigo muitas coisas legais. Talvez não em número suficiente pra suplantar as coisas boas, mas em número suficiente pra nos fazer aguentar até agora esse ano cão. É só procurar que dá pra achar, é só catucar que aparece é só raspar que eu tenho certeza que tem.

É bem provável que o meu 2016 seja melhor de lembrar do que foi de viver. Inclusive algumas das coisas boas desse ano aconteceram dentro das páginas deste humilde blog. Conquistas pequenas como a publicação de número cem, os cinquenta contos de segunda, a página do Facebook e o primeiro aniversário, são tão significativas e tão banais quanto todas as outras pequenas coisas que aconteceram fora da internet. Em algum momento algo bom aconteceu no 2016 de todo mundo. Nem que seja o retorno/despedida de uma série que mora no coração.

Contos de Segunda #64

Erick caçava dragões. Depois de uma orientação profissional relativamente ineficiente, ele virou vendedor ambulante na fila do desemprego. O Caldo do Dragão ficou tão famoso que Erick tinha funcionários vendendo o ensopado em mais três pontos da cidade. Erick finalmente havia encontrado uma profissão menos mortal e os negócios estavam crescendo. Tudo parecia bem… Até um certo dia em que o passado bateu na porta do caçador.

Asas negras fizeram sombra sobre a cidade. Jatos de fogo lambiam os telhados das casas e uma cauda açoitava o alto das muralhas. Com uma frase a apresentação foi encerrada.

— Tragam-me Erick, o caçador — a poderosa voz do dragão podia ser ouvida em toda a cidade.

Ninguém precisou dizer a Erick o que ele precisava fazer. Mesmo longe da profissão, o escudo revestido de couro de dragão e a espada sempre estavam com ele. O elmo, a placa do peito e as manoplas da armadura estavam disfarçadas entre os ingredientes do caldo. O selo mágico dado pelo sindicato foi rompido. Mesmo um caçador aposentado tinha um juramento a cumprir. Seguindo o selo quebrado outros chegariam logo, mas ele precisava ganhar tempo. Precisava tirar o dragão da cidade.

Erick subiu na construção mais alta que encontrou. Não precisou nem se esforçar, o dragão chegou antes que ele pudesse pensar em uma forma de chamar atenção. Negro e cinza tingiam as escamas da fera. Um dos olhos fora arrancado. As inúmeras cicatrizes eram lembranças vivas das inúmeras batalhas travadas pela besta alada.

— Ah, caçador. Pensaste que teu novo disfarce te esconderia de mim?

— Jamais, nobre Cicatriz. Apenas acreditei que meus colegas seriam um pouco mais eficientes ao tratar contigo.

Um jato de fogo que teria largado a carne de Erick dos ossos foi segurado pelo escudo. Aproveitando a distração, Erick saiu do alcance do fogo pelo lado do olho cego do dragão e deu uma estocada entre os dedos da criatura. Saltou para o próximo telhado e depois para a rua na direção do portão principal.

— Foges de mim, caçador? — Debochou Cicatriz. — Das outras vezes te mostraste um combatente mais digno.

A serpente alada saiu no encalço de Erick por cima dos telhados. O escudo de Erick já estava nas costas para prevenir qualquer sopro de fogo que viesse por trás. O portão estava perto, logo ele atrairia o dragão para longe da cidade. O plano daria certo se o dragão não tivesse se colocado entre Erick e o portão.

— Não escaparás agora, caçador.

Espada de volta na bainha e escudo de volta no braço esquerdo. Erick não queria ferir o dragão, só precisava de uma abertura para passar. Correu para o lado cego da fera, forçando o maldito a se virar para enxergá-lo. Tudo para tirar a cauda da besta do portão. Correu com o escudo na frente. As chamas banharam a investida, mas o dragão não soprou chamas por muito tempo, ele precisava localizar o alvo que já estava quase passando por ele. Tentou acertar Erick com a garra das asas, mas com um salto e um rolamento o caçador se livrou do ataque. Quando Cicatriz se deu conta o caçador já tinha passado pelos portões. Em uma investida mal planejada ele se lançou contra o homem de armadura, mas não terminou o ataque. O corpo do dragão ficou preso no portão.

— Muito esperto, caçador. Mas muito te enganas se achas que estou derrotado.

— Infelizmente, Cicatriz, não há escapatória para ti hoje. Os caçadores logo chegarão para te dar o fim que mereces. Eu poderia te oferecer uma refeição enquanto esperas, mas meu caldeirão de ensopado ficou do lado de dentro dos muros.

Hoje é Black Friday

Sexta-feira. Até pouco tempo atrás esta seria uma sexta comum, afinal faz bem pouco tempo que a sexta-feira depois da 4ª quinta-feira de novembro começou a significar alguma coisa para nós brasileiros. Faz pouco tempo que chegou no Brasil a Black Friday.

Pelo nome já dá pra concluir que a Black Friday é coisa de norte-americano. Nos Estados Unidos as lojas costumam fazer promoções violentas na sexta-feira depois do Dia de Ação de Graças como uma forma de abrir a temporada de compras de Natal e aproveitar que muita gente está de folga por causa do feriado de Ação de Graças. Por lá isso rola faz bastante tempo. De acordo com um artigo da Wikipédia em inglês, o costume de fazer promoções nesse dia começou em 1932. Obviamente naquela época as coisas aconteciam em escala muito menor.

Então chegamos ao Brasil. A Black Friday brasileira começou lá em 2010 em mais ou menos cinquenta lojas online. A prática Black Friday foi ganhando força até chegar às lojas físicas e até mesmo aos comerciantes informais. Aparentemente todo mundo quer entrar na brincadeira, mas não, ninguém quer uma multidão de consumidores em uma histeria coletiva e por isso que a Black Friday no Brasil não é aquela coisa que se diga “minha nossa, mas que Black Friday”.

A verdade é que os calendários das promoções para os lojistas é mais ou menos fixo e adivinhem o que acontece quando entra uma data promocional nova no calendário? Exato, todo mundo quer participar, mas participar do dia do ano em que, pelo menos teoricamente, os preços deveriam atingir seu nível mais baixo menos de um mês antes do natal…

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É, se eu fosse um dono de loja não ia me parecer uma ideia muito boa, mas como participar então? Aí depende da matemática de cada um. Tem loja que sobe preço e dá o desconto que puxa de volta o produto pro preço antigo, tem loja que aproveita pra desencalhar aquelas paradas que ninguém quer e outras gambiarras diversas que só o brasileiro é capaz de fazer. E como tudo feito por brasileiro, boa parte dessas promoções realmente estão tirando onda com a sua cara.

Imagine que você quer um negócio. Agora imagine que existe um produto similar que é um pouco melhor, mas bem mais caro e que provavelmente é bem menos vendido. Você espera pela Black Friday e quando ela chega… O produto mais caro ficou um pouco mais barato e o que você queria continua a mesma bosta. Não é muito difícil que você acabe comprando exatamente aquilo que o lojista quer. Pior que isso só aqueles descontos mínimos que no máximo compensam o valor do frete.

Mas aí eu pergunto: como vai ser a Black Friday com todo mundo liso?

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É, acho que vai ser meio, digamos, morna essa Black Friday de hoje. Desconto é desconto, mas a fatura do cartão ainda chega no fim do mês e o efeito das magias mentais dos lojistas andam cada vez mais fracos. Eu mesmo estou determinado a não… Pior que tem um negócio que eu ia comprar de todo jeito na promoção e um jogo que eu sou bem curioso pra jogar tá com um desconto muito louco… Boa Black Friday pra vocês e até semana que vem.

Eu, Você e A Indecisão

    Desde ontem uma pergunta martela na minha cabeça: sobre o que escrever no post de quarta? Lembrei que queria escrever um negócio faz tempo, mas depois senti que devia escrever sobre outra coisa, cogitei usar um tema sobre o qual estou querendo muito escrever, mas só vai sair em dezembro por ser um post com a cara do fim do ano, também veio à mente uma conversa que tive ontem e hoje percebi que tinha esquecido de fazer um post sobre uma determinada música. O resultado disso tudo foi que eu não não consegui escolher. A minha sorte é que aqui eu posso escrever sobre tudo e qualquer coisa, inclusive sobre não conseguir escolher as coisas. Hoje vamos falar de indecisão.

    Até um tempo atrás a gente conseguia ser mais assertivo com as coisas. Um dos males da modernidade e da ascensão do capitalismo é que nós temos opção demais pra tudo. Tudo que é possível consumir apresenta um leque de opções tão grande que escolher está cada vez mais difícil. Desde uma roupa ou um celular, até os filmes no Netflix ou os jogos em diversas plataformas, pra tudo temos opções suficientes pra perdermos horas escolhendo e não nos decidirmos por nada.

    Imagine que você precisa comprar um calçado. A primeira escolha é: loja física ou virtual. Depois você precisa escolher a loja e finalmente iniciar as buscas pelo modelo desejado. Se você estiver ciente exatamente do que você precisa já temos metade do caminho andado, se não você se lascou e muito provavelmente vai perder um tempo considerável perdido entre todos os sapatos, sandálias e derivados. É bem provável que a impossibilidade de escolher te faça comprar mais de um ou de comprar nenhum. Depende também da verba disponível, saldo do cartão de crédito e mais algumas outras variáveis dessa natureza.

    Percebeu que a simples compra de um calçado apresenta uma quantidade enorme de escolhas que precisam ser feitas? Pois é, pequena criança leitora, veja o tanto de escolhas precisamos fazer antes de colocar um pé no chinelo. Agora imagine que a todo momento fazemos escolhas. Boa parte delas são automáticas e para nós nem se parecem com escolhas, já que a decisão é tão rápida que nem parece que escolhemos alguma coisa. Agora imagine que muitas das alternativas apresentadas parecem igualmente boas, ou igualmente ruins. Imagine que a pessoa que precisa escolher não sabe bem o que diabos ela quer. Eis que surge a indecisão.

Algumas pessoas são indecisas por natureza. De fato nem sempre é possível decidir ligeiro sobre algo, mas eu imagino o pânico sentido por uma pessoa que não consegue decidir nunca ou a raiva que sente uma pessoa que depende de uma pessoa indecisa pra saber o que deve fazer. Agora imagine isso em um mundo que cada vez mais se esforça pra nos deixar na dúvida. É, eu também achei essa imagem mental uma bosta.

Eu sei que muitas ideias me ocorreram para o final deste post, mas como não consegui escolher nenhuma vou encerrar por aqui mesmo.

Contos de Segunda #63

    Moacir estava de mau humor. Não que isso fosse novidade, principalmente em segundas-feiras. Se bem que para Moacir o ano inteiro foi uma grande segunda-feira. Tudo deu errado desde o primeiro dia do ano. As piadas sobre o presente errado que ele deu no amigo secreto que normalmente duravam até o carnaval ainda estavam rolando no Dia de Finados. O aumento de salário que foi prometido não veio, assim como o novo computador e a entrega do apartamento. A mudança devia ter acontecido enquanto Moacir estava de férias, mas uma briga entre a construtora e a imobiliária acabou atrasando a mudança em três meses. Fazia duas semanas que Moacir empacotava as coisas.

    Naquela segunda em específico ele estava de mau humor por causa do ano que custava terminar. O calendário que ficava pendurado na parede da cozinha foi feito em pedaços, o bom dia do porteiro foi respondido com alguma grosseria ininteligível e todos os xingamentos possíveis e imagináveis foram ditos no caminho até o trabalho. Chegando lá Moacir se depara com alguns colegas tendo alguma discussão banal sobre qualquer coisa. Passou por ela torcendo para que ninguém tentasse puxá-lo para dentro da conversa, mas uma frase frustrou seus planos.

— Num dá vontade de dar uma voadora nas costas com um murro na nuca de um sujeito desses?

— Só sendo muito idiota pra achar que dá pra fazer um negócio desses — rebateu Moacir.

Um silêncio funeral tomou conta da roda de conversa. Talvez se Moacir tivesse pensado por meio segundo ele não teria dito aquilo. Porque ninguém naquele recinto tinha coragem de falar daquele jeito com a autora da frase. A autora da frase era Fernanda, provavelmente a pessoa mais raivosa da face da terra, uma mulher que normalmente era bastante controlada… Até que alguém soltasse uma resposta igual a essa de Moacir.

— Como é, Moacir? — Fernanda estava claramente começando a ferver por dentro.

Moacir olhou nos olhos da moça, viu a fera que se escondia atrás deles e decidiu que precisava brigar com alguém.

— É, Fernanda, tem que ser idiota pra pensar um negócio desses. Imagina a cena. Não dá pra acertar uma voadora nas costas de uma pessoa e um murro na nuca ao mesmo tempo. Você já deu uma voadora em alguém? Já tentou fazer alguma coisa enquanto dava uma voadora em alguém?

— Tá maluco, Moacir? Você chega, nem pra dar um “bom dia” pro pessoal, ouve a conversa pela metade e ainda fica me chamando de idiota? — Ela deu um murro na mesa. — Eu não tenho culpa que você acordou de ovo virado hoje. Se você quiser falar merda pra alguém que vai aguentar calado, você vá falar com a senhora sua mãe ou praquela mosca morta que você chama de namorada.

— Eu não tenho que falar com ninguém. A culpa não é minha se você não aguenta ouvir uma verdade.

— Verdade? VERDADE? Agora você conseguiu me irritar de verdade.

— Ainda por cima fica fingindo raiva. Sabia que essa tua fama de esquentada era só marketing.

Uma caneca saiu voando na direção de Moacir. Por sorte Fernanda tinha errado.

— Ficou louca? E se aquilo me acertasse?

— Se te acertasse eu fazia questão de aparecer no hospital pra arrancar os pontos que iam fazer no buraco da tua cara. Só pra te ver sangrar mais um pouco, filho da…

A frase não terminou. Fernanda foi segurada por alguns colegas enquanto outros recomendavam que Moacir fosse embora. Ele obedeceu. Saiu andando pelo corredor e quando estava chegando perto da porta da sala ele ouviu passos acelerados, como se alguém estivesse correndo. A ideia disso estar acontecendo parecia tão absurda que ele nem fez questão de se virar na direção do som. Um piscar de olhos depois ele estava de cara no chão, com uma dor no meio das costas.

— É. Parece que não dá pra acertar um murro na nuca enquanto se dá uma voadora… Babaca.

Fernanda levantou e saiu andando. Ela gostou tanto de acertar um chute em Moacir quanto ele gostou de receber. No final todos receberam um convite a comparecer na sala do chefe e precisaram ouvir um sermão de meia hora. Não dá para dizer que eles se tornaram amigos, mas nunca mais eles se estranharam.

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