O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Pronta pra confra das meninas?”

    Era isso que dizia a mensagem que acabara de chegar no celular de Cristina. Ainda eram seis da manhã e aparentemente sua amiga Luciana não estava com nem um pouco de sono. E com um humor tão bom que quase dava nos nervos.

    “Pronta pra encarar a confra com o pessoal do escritório?”.

    “Mais pronta impossível, amiga, meu boy não trabalha comigo”.

    Cristina trincou os dentes de raiva. Desde o “acidente” ocorrido durante o show de um cover do Pearl Jam, a vida de Cristina tinha ficado um pouco complicada. Noventa por cento dessa complicação era culpa de Luciana. Desde aquele dia a moça se dedicava apenas a criar situações onde Cistina deveria encontrar com Jorge, ou como Luciana gostava de chamar “o boy”.

    “Tá bom de parar de testar nossa amizade, Luciana

    “Tá bom de parar de enrolar e agarrar logo teu boy, até parece q tu não quer

    O celular foi arremessado dentro do guarda-roupa, por sorte ele ficou preso em um casaco qualquer e não sofreu nenhuma avaria quando caiu no chão. A vontade de ficar em casa naquele dia estava batendo recorde, mas hoje era dia da “confra das meninas” e as meninas em questão estariam todas na confraternização da empresa. Então Cristina tentou colocar um pouco de ânimo junto com a maquiagem e partiu.

    O salão onde aconteceria a festa era no mesmo prédio em que funcionavam os escritórios. Cristina chegou cedo, pontualmente às nove da manhã. Queria reunir a assessoria de imprensa antes do evento começar. O presidente da empresa sempre fazia algum anúncio nesse tipo de evento que acabava tendo alguma repercussão. Ela contava os fotógrafos quando uma voz debochada a fez perder a conta.

    — Procurando teu boy, Cristina?

    — Trabalhando, Luciana. Não são todos que já estão de folga.

    — Pois é, deve ser por isso que teu boy não vai aparecer hoje.

    — Ele não vem? — A surpresa na voz não podia ser disfarçada.

    — Sabia que ficaria chocada — Luciana parecia se divertir cada vez mais — Nem ele, nem ninguém da galera do jurídico. Rolou algum tipo de incidente diplomático e o mundo vai desabar. Pelo menos era isso que parecia quando eu falei com Roberta mais cedo. Ela não vai pra confra das meninas.

    — Espero que seja só com eles. Da última vez que rolou um “ incidente diplomático” o pessoal da comunicação passou uma semana trabalhando junto do jurídico.

    — Pelo que eu lembro. Você passou uma semana trabalhando junto do teu boy.

    — VAI PRO INFERNO, LUCIANA.

    — Relaxa, amiga. Jorge tá de castigo e ninguém vai ficar cochichando nas costas de vocês. Pelo menos hoje

    Por que era isso que acontecia há meses. A história de Cristina e Jorge acabou “vazando” e sempre tinha alguém cochichando quando os dois se encontravam eventualmente. Não acontecer nada disso em um dia em que a maioria dos colegas estaria sob efeito de álcool era um alívio. Foi quando o telefone tocou, era Roberta.

    — Cristina, temos um problema — disse Roberta com uma voz meio triste.

    — Só me faltava essa. Que problema, Roberta?

    — Daqui a umas duas horas você precisa subir pro escritório. Dessa vez rolou um lance meio pesado, vai ter que sair uma nota oficial da empresa.

    — Ok. Subo já já e você me explica tudo.

    — Não vai dar, amiga, a galera daqui vai passar o dia resolvendo coisas fora do escritório — Ela fez uma pausa — Só vai ficar uma pessoa… E você já deve saber quem é. Tenho que ir, a gente se fala.

    Cristina desligou o telefone com vontade de matar alguém, mas no lugar disso ela falou:

    — Luciana — Respirou fundo, contou até três e continuou — Acho que eu não vou poder ir pra confra das meninas.

 

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