Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Contos de Segunda #53

Renato tinha um blog. Todas as segundas-feiras estava lá Renato publicando um conto, pelo menos até agora.

O fim de semana foi comprido. Todas as possíveis horas de descanso foram preenchidas com toda a sorte de atividades. “Preciso de outro final de semana”, pensou Renato enquanto se arrastava para a cama na noite de domingo. “Preciso fazer o conto de amanhã”, pensou enquanto os olhos se fechavam no domingo e ainda estava pensando nisso quando os olhos se abriram na segunda. Ele ainda estava cansado.

O dia passou preguiçoso. A cabeça anuviada não se mostrou um terreno fértil para as ideias. Imediatamente Renato se viu tentado a fingir que tinha esquecido da publicação de segunda. Nada de bom sairia de sua cabeça cansada naquela semana. Ele só precisava de uma folga e voltaria na semana que vem com força total. Era um plano fácil de executar, mas que deixava um gosto meio amargo na boca.

Essa seria a primeira vez que haveria uma falha na publicação. Pela primeira vez uma segunda-feira não teria texto novo. E o único motivo seria sua falta de disposição. Envergonhado pela própria fraqueza, Renato sentou de frente pro computador e encarou o editor de texto. A cabeça latejava pela falta de sono, os olhos ardiam pela claridade do monitor, e a luta para se manter acordado era grande demais. Ele resolveu desistir.

Encostou a cabeça no travesseiro e não se deteve muito tempo ruminando as ideias. Dormiu um sono regado à própria derrota pessoal, acordou esquecido de tudo isso. Afinal ele ainda estava cansado. Pensou no que tinha deixado de fazer. Pensou se aquela seria a única vez em que ele deixaria de publicar. Resolveu ver se tinha algum comentário sobre a falta de publicação. Nada no blog e nem no Facebook, aparentemente ele tinha passado incólume. A tentação de abandonar aquela rotina ingrata de publicações bateu forte, mas ele não queria se preocupar com aquilo agora. Ele precisava voltar a dormir.

Jogos Olímpicos 2016

    Agosto de 2016. Pela primeira vez na televisão na história da humanidade o Brasil vai sediar os Jogos Olímpicos. Diante disso nosso assunto de hoje não poderia ser outro além de Pokémon Go da Olimpíada.

    Não preciso dizer que os Jogos são uma das coisas mais incríveis do mundo. Na minha humilde opinião isso nem é por causa da cerimônia da abertura, da quantidade absurda de pessoas envolvidas na organização/realização dos trocentos eventos que acontecem em um período muito curto ou algo relacionado ao tamanho do evento. Eu acho tudo incrível por que eu sempre tento fazer o exercício mental de me colocar na perspectiva de um daqueles atletas.

    Imagine que toda a sua vida foi regida por um único objetivo. Horas de dedicação todos os dias. Durante todos os anos de mais da metade da sua vida. Aí você chega lá. Mesmo praticando um esporte extremamente desconhecido você tem a chance de se transformar em um herói nacional. Você está na elite, vestindo as cores da sua pátria, amada ou não, ao lado de lendas vivas do esporte, perseguindo um lugar entre os imortais do esporte. Toda a sua vida, todo o seu esforço e todos os seus sacrifícios te levaram até ali e você tem poucos dias, na maioria dos casos poucas horas ou até mesmo poucos minutos pra determinar se tudo foi em vão ou não. Imagine o tamanho da ansiedade de um ser humano desse.

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    Então ampliamos o nosso espectro e observamos tudo de um plano um pouco mais amplo e as coisas ficam ainda mais impressionantes. Nos Jogos as coisas mais incríveis que um ser humano pode fazer acontecem. Onde pessoas levam seus corpos ao limite humano e fazem coisas que só dá pra acreditar por que tem replay.

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    Obviamente não só do épico vivem os Jogos, afinal os atletas são pessoas, tão humanas quanto qualquer um de nós. Carrancudos, bem humorados, sérios ou descontraídos, com todos os gritos, choros, risos, caretas, mungangas e cacuetes, são eles que dão personalidade aos Jogos. Deixando uma marca singular, talvez não na história do esporte, mas pelo menos no coração do público.

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Infelizmente esse ano a Olimpíada tem um gosto meio amargo. Consequência do gosto amargo que o Brasil tem de uns tempos pra cá. Só fazendo um exercício mental pesado vai dar pra ver tudo acontecendo sem ficar indignado. Vou tentar imaginar tudo aquilo que eu vou ver na televisão e na internet como se estivesse acontecendo em um lugar bem longe daqui. Como se o Brasil estivesse sediando os Jogos Olímpicos de Marte e os do planeta Terra estivessem acontecendo em universo diferente… É, acho que desse jeito dá certo.

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Eu, Você e Pokémon Go

    Acho que faz quase um ano que foi anunciado o Pokémon Go. Lembro que quando eu vi essa notícia a minha reação foi mais ou menos essa.

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    Lembro de ter pensado “ok, é um Pokémon pra quem não joga Pokémon”. Lembro de ter pensado que ninguém devia ter achado essa história de Pokémon pra celular grandes coisas. Aos poucos percebi que eu estava errado, um comentário aqui, uma notícia ali e não demorou muito pra ter um monte de gente em efervescência falando como ia ser legal, não vou precisar comprar um vídeo game pra jogar Pokémon maravilha da tecnologia e derivados. Foi então que eu notei que muita gente, mas muita gente mesmo queria jogar Pokémon Go.

    Antes de continuar devo abrir um parênteses. Eu me considero um fã dos jogos Pokémon. Já gastei algumas centenas de horas da minha vida jogando Pokémon, ou seja, qualquer palavra desse texto está totalmente desprovida de qualquer tipo de ódio por Pikachu e seus amigos. Sigamos com o tema.

    Pokémon Go é a confirmação da minha teoria de que Pokémon é uma doença. Se o vírus dele te infectar é pra vida toda. Mesmo depois de um, dois, dez, quinze anos sem nem ver um Pikachu na sua frente, basta o mínimo de interação com qualquer coisa relacionada a esses bichos malditos maravilhosos que tudo volta com força. Se não acredita basta dar uma sacada nesse infográfico divulgado esses dias e que eu roubei lá do site Pokémon Blast News.

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    Praticamente metade dos usuários ativos acima dos 13 anos de idade tem entre 18 e 29 anos. Isso quer dizer que metade dos usuários do aplicativo eram crianças no tempo em que a febre do Pokémon pegava mais gente que dengue e zika. Uma geração inteira que teve muito pouco ou nenhum contato com os jogos da série e guardou o sentimento de o desejo de treinar seus próprios pokémons durante a vida inteira. Pessoas que eram órfãs e não sabiam, pessoas que sempre quiseram jogar uma pokébola e ver um “Gotcha!” na tela ou ter o gosto de triunfar em uma batalha difícil contra um líder de ginásio. Milhões e milhões que nunca de fato foram até o Pokémon, mas que estavam de braços abertos quando Pokémon chegou até eles. Aí você me pergunta onde eu fico nessa história toda?

    Fico aqui de boa só observando essa loucura. Qualquer dia eu faço um post só sobre como o mundo enlouqueceu por causa desse negócio, mas existe uma chance muito remota de eu jogar Pokémon Go. A curiosidade que eu tinha está sendo satisfeita pelo que eu converso com as pessoas que estão jogando. O único motivo que eu vejo pra jogar é ter muito mais gente pra batalhar interagir do que no jogo normal, mas ainda assim a novidade que me anima é novo Pokémon que sai agora em Novembro. Pokémon Go pode ser o que for, mas não tem um Sandshrew iglu.

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    Já dizia o filósofo: “Temos Que Pegar”.

Contos de Segunda #52

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia da semana. E dessa vez não poderia ser diferente.

    Era a primeira segunda-feira de Agosto. Agosto era uma espécie de 29 de Fevereiro em doses homeopáticas. Só que no lugar de coisas ruins, eram as coisas improváveis que aconteciam. Aluísio tinha acabado de estacionar o carro no estacionamento do escritório quando o telefone tocou, o número era de Amélia, sua esposa grávida de sete meses, mas a voz do outro lado era do enfermeiro que estava com ela na ambulância. O barulho da sirene e dos gritos da esposa não deixaram Aluísio entender absolutamente nada do que o enfermeiro disse, mas ele não precisava ser um gênio para entender que o bebê ia chegar mais rápido do que o esperado.

    Pulou dentro do carro e virou a chave no contato… Nada. O carro não pegou. Tentou mais uma, duas, três vezes e nada. Sem tempo para uma chupeta na bateria, Aluísio foi pra rua atrás de um táxi. Foi quando lembrou que os taxistas estavam protestando contra os motoristas de um certo aplicativo que estava teoricamente roubando seus passageiros. O jeito foi baixar o maldito aplicativo e chamar um motorista que não estivesse protestando. O tal motorista chegou em dez minutos e antes de ter a chance de oferecer uma água, uma jujuba ou um chocolate, foi metralhado pelo endereço do hospital e uma dúzia de indicações de como chegar lá. Antes que o motorista pudesse puxar qualquer tipo de conversa sobre o tempo, a política ou o Campeonato Brasileiro, Aluísio já tinha avisado a pelo menos vinte parentes por mensagem enquanto ligava para mais meia dúzia.

    Estava tudo correndo bem até que ao virar uma esquina Aluísio deu de cara com o protesto dos taxistas. Antes que o pobre motorista do aplicativo pudesse dar meia volta o carro foi cercado por algumas dezenas de taxistas furiosos. Em poucos segundos Aluísio foi arrancado de dentro do carro e jogado no meio da rua. Com essa manobra exótica o celular de Aluísio decolou e se espatifou no chão. A parte boa disso tudo é que nenhum taxista foi atrás quando ele saiu correndo, a parte ruim é que ainda faltava pagar duas prestações do telefone espatifado.

    Depois de correr por quase um quilômetro, Aluísio chegou no hospital arrependido de todos os seus anos de vida sedentária, mas finalmente estava lá, suado, vermelho e quase tendo uma falência pulmonar. Pronto para testemunhar o nascimento de sua primeira cria. Na contramão do regulamento social vigente, ele e Amélia tinham deixado para saber o sexo da criança no dia do nascimento. Levou alguns minutos para Aluísio localizar a sala de parto, quando ele chegou não pode passar da porta. Ele teve que passar mais meia hora ouvindo toda a sinfonia de gritos que sua esposa estava promovendo dentro da sala, sinfonia essa que foi substituída por outra. Dessa vez os gritos vinham de uma garganta nova em folha. O choro parou, mas depois voltou com força redobrada. Na hora que a enfermeira estava saindo da sala de parto, um exército de parentes invadiu o corredor. Eles chegaram bem a tempo de ver Aluísio desmaiar quando a enfermeira disse:

    “Parabéns, são duas meninas”.

Sobre O Nada

Hoje estava eu pensando sobre qual assunto o texto desta sexta-feira falaria. Depois de pensar um bocado percebi que a minha cabeça estava tão fértil quanto o solo de Cartago, mas eu não podia desistir, não poderia deixar de fazer a publicação de sexta. De fato hoje eu não tinha nada sobre o que escrever. Esse quadro desesperador peculiar fez meu cérebro começar a trabalhar.

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    Foi aí que uma ideia piscou na minha cabeça. Inspirado pelos melhores episódios do Pauta Livre News, hoje eu falaria sobre… O Nada.

    Muita gente tem uma verdadeira aversão ao nada. Nada pra ler, nada pra assistir, nada interessante na internet, nada de bom passando no cinema, nada de novo no front e o mais desagradável de todos, o nada acontece feijoada nada pra fazer. Mas havemos de convir que o nada é um dos maiores agentes de mudança do mundo. O nada é provavelmente é o fertilizante mais poderoso para as ideias. O que seria da humanidade se não existisse o nada? O que seria da humanidade se as pessoas nunca tivessem nada pra fazer? Eu acredito piamente que pelo menos metade das ideias que mais mudaram o mundo vieram de uma bela brisada.

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    Por isso, caro leitor, se uma maré inacreditável de nada te cobrir dos pés à cabeça, não encare como uma coisa negativa. Aproveite o ócio, aproveite o tédio, aproveite a brisa, aproveite o nada como a bênção divina que ele é. Aproveite enquanto pode, por que já já aparece alguma coisa e quando você se der conta o nada foi embora e você não fez nada com ele.

Você Não Sabe de Nada, João das Neves

Todo mundo que atualmente habita nas internets sabe que um dos personagens mais populares da atualidade é Jon Snow. Personagem preferido de muitos fãs de Game of Thrones e um dos meus personagens preferidos d’As Crônicas de Gelo e Fogo, João das Neves é um cara relativamente azarado fora da série. Mesmo depois de fazer e acontecer nas últimas seis temporadas de Game of Thrones e em quatro dos últimos cinco livros, ele tem todas as suas proezas ofuscadas por uma única frase.

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    Isso mesmo, por causa dessa moça ruiva o bastardo preferido da cultura pop ficou conhecido como o cara que não sabe nada. De fato Jon Snow percebe que no fim das contas ele não sabe de nada. Seguindo o exemplo de João das Neves, eu já me convenci tem um tempo que eu não sei de nada, mas acho que até essa semana eu nunca tinha percebido o quanto eu sei pouco. Por uma grande coincidência essa epifania me ocorreu por causa de uma moça ruiva.

Aconteceu no último domingo. Estava eu conversando com uma comadre minha sobre uma conquista pessoal que ela tinha compartilhado no Facebook. Entre um ou outro parabéns acabamos conversando um pouco sobre a vida, o universo e tudo mais. Como em todas as vezes em que eu converso com essa minha comadre ruiva, a conversa terminou e eu fiquei com a sensação de que tava conversando com uma pessoa muito mais adulta que eu. Essa sensação pra mim é bastante familiar, até por que boa parte dos meus amigos é bem mais adulta que eu, mas nenhuma dessas outras pessoas é oito anos mais novo que eu e parece ser uns dez anos mais velho.

Não que seja muito difícil parecer mais adulto que eu, mas eu costumo ganhar da galera que nunca foi obrigado a votar ou que precisou fazer CPF pra poder se inscrever no ENEM. Não é muito difícil de imaginar que eu olhei pra minha tela de chat e cheguei à conclusão que o significado por trás de toda aquela troca de mensagens era: “você não sabe de nada, Filipe Sena”. Aí percebi que estávamos eu e Jon Snow no mesmo barco. Estávamos nós dois sem saber de nada.

A vida depois dos meus vinte anos me fez pensar que eu tinha virado adulto. De fato quando eu coloco meu disfarce e saio pra trabalhar, quando eu pago minhas contas ou quando eu fico com dor nas costas por passar muito tempo num banco sem encosto, eu me sinto adulto (seja lá qual for a sensação de se sentir adulto). Mas a realidade é que eu nunca precisei ser muito adulto, só o suficiente pra passar por média. Não que isso me incomode, não que adultecer seja uma meta pra minha vida, o lance é que lembrar que você tá sabendo tanto quanto Jão Snow e que tem gente que saiu do colégio mais adulto que você te faz parar pra refletir.

Pra finalizar gostaria de compartilhar com todos o jeito que eu encontrei pra me conformar com essa história toda. Quando eu vejo essa minha comadre ruiva nas internets sendo mais adulta que eu, basta lembrar que algum tempo atrás ela publicou no Facebucket que X-Men: Apocalipse tinha sido o melhor filme do ano até então… Ela pode até estar uns dez anos na minha frente, mas essa menina ainda tem muito o que aprender. Pelo menos nisso eu (acho que) ganhei dela.

Contos de Segunda #51

Robson queria roubar uma cadeira. Obviamente ele não precisava de uma cadeira em um nível tão grande de urgência, Robson apenas queria roubar uma cadeira.

    Tudo começou em um sábado. Robson estava no shopping esperando a esposa concluir as compras. Como a loja em questão era cheia de toda a espécie de perfume que atacava a alergia de Robson, ele esperou do lado de fora. Avistou uma cadeira convidativa e se sentou. Foi amor a primeira vista. A partir daquele momento o coração de Robson nunca mais saiu daquela cadeira, ele precisava roubá-la.

    Claro que roubar foi a última opção do pobre coitado. Ele tentou encontrar a cadeira em todas as lojas possíveis e imagináveis. Tentou entrar em contato com a gerência do shopping para tentar comprar a cadeira e não teve nenhuma resposta positiva. Ao longo de meses Robson foi ao shopping apenas para sentar naquela cadeira maravilhosa… E para planejar como levaria ela de lá. Não devia ser muito difícil, afinal era só uma cadeira.

    O plano foi executado em uma segunda-feira na hora do shopping fechar. Robson tinha passado em uma sex shop mais cedo e comprado um par de algemas. Assim que os corredores esvaziaram ele se algemou na cadeira. Alguns minutos depois o segurança do shopping chegou para ver o que estava havendo, Robson usou o máximo dos seus dotes de ator para convencer o segurança de que tinha se algemado à cadeira por acidente. No carro ele tinha as ferramentas necessárias para quebrar as algemas, porém precisaria da ajuda do segurança para carregar a cadeira. O segurança, no auge do seu altruísmo e morrendo de pena de um homem que tinha se algemado acidentalmente com algemas eróticas no meio de um local público, carregou a cadeira com Robson até o estacionamento.

    Estacionado entre duas picapes estava o carro de Robson. Ele abriu o porta malas e pediu gentilmente para que o segurança procurasse pelas ferramentas. Enquanto o solícito funcionário procurava pelas ferramentas, Robson jogou a cadeira na caçamba da picape, abriu as algemas, o carro deu a partida e saiu. O segurança levou uns dois minutos para perceber o que tinha ocorrido. A desculpa de Robson foi que colocou a cadeira na caçamba para ter uma posição melhor para quebrar as algemas, o segurança não sabia se tinha acreditado ou não, ele estava muito ocupado passando um rádio para os outros seguranças.

Robson fechou o porta malas e foi andando disfarçadamente na direção da porta do motorista. A satisfação gerada pelo plano bem sucedido foi gigante. Agora bastava ligar para o cúmplice e combinar o horário de entrega. Não é difícil imaginar a surpresa de Robson ao ouvir o toque do celular do cúmplice vindo da picape que ainda estava parada ao lado do seu carro. Mais surpreso ainda ficou Robson ao ver o seu cúmplice dormindo  do banco do motorista.

Robson entrou no carro, deu a partida e saiu. A derrota amargava em sua boca, a tristeza pesava em seu peito e como se não bastasse tudo isso, ele chegou na cancela de saída, colocou o ticket na máquina, mas não conseguiu sair. Ele tinha esquecido de pagar o estacionamento.

Tá Frio

Tá frio. Até porque estamos no inverno e o mínimo que se espera é que faça frio, mas esse ano o frio está enchendo o saco mais do que de costume e depois de uma conversa ligeira com minha mãe, resolvi discorrer sobre essa sensação térmica tão, digamos, “refrescante”.giphy

Eu não gosto de frio. Graças ao bom Deus eu moro em uma região especialmente ensolarada do Brasil, conhecida como estado de Pernambuco ou, como algumas pessoas de outras regiões preferem dizer pra simplificar, no “Nôrdeste”. Aqui é quente, bem mais quente que em boa parte do Brasil, mas ainda assim bem menos que em outras partes do Nordeste do país, ou seja, aqui a gente tá acostumado a sentir calor, ser impiedosamente agredido pelo sol, ficar agoniado por causa da quentura, ficar preguento de suor, mas é só bater um vento diferente que a gente acha que tá frio. De Maio pra Junho os ventos começam a ficar meio diferentes e chega a boa e velha frieza.

Antes de continuar devo abrir um parênteses. Se você está lendo esse presente texto e mora em algum lugar abaixo da Bahia pode pensar “ain, mas tu não passa frio, Filipe, aqui tá fazendo 5º de meio-dia”. Sim, eu sei. Eu sei que aqui não faz frio pra valer. Eu sei que aqui inverno é uma versão soft e chuvosa do verão, mas infelizmente eu não sou adaptado pra viver muito abaixo dos 25° e se meu corpo me diz que tá frio eu acredito.

Na prática aqui só faz frio quando não tem Sol. Quando a noite chega escura e cheia de terrores o frio bate, a temperatura vai caindo e na hora de dormir já tá aquela delícia. Fazer coisas como acordar de madrugada pra ir no banheiro ou acordar antes das 6 (em alguns dias antes das 7) da manhã é uma verdadeira provação. Fico pensando nessa galera que pega 5°, 3°, 0° ou até mesmo temperatura negativa e agradeço por não estar em nenhum lugar desse. A inveja de quem consegue ver neve, geada e outros derivados glaciais é tão baixa quanto a temperatura, tanto que as únicas coisas que eu imagino acontecendo comigo em um lugar desse é o meu falecimento precoce ou um tormento sem precedentes… seguido de um falecimento precoce.

A melhor parte dessa história toda é que o tempo frio está quase passando. Setembro vem aí e com ele um pouco mais de calor na nossa vida, mas isso é futuro. Enquanto mais um equinócio não chega, eu fico aqui congelando no meu frio que não é tão frio assim, mas que continua frio demais pra mim.

Acho Que Já Falei Disso

Ter um blog é uma experiência que eu classifico como, no mínimo, interessante. Mas a parte interessante da parada nem tem muita relação com a repercussão dos posts ou com os temas em si, a parte legal é justamente o que fica por trás de toda essa geração de conteúdo. A tensão de ficar sem ideia, as buscas malucas que chegam no seu site e principalmente a administração das publicações dentro da sua cabeça. Em algum momento da vida eu fiquei com medo de chegar em um ponto de não ter mais do que falar, mas hoje percebi que o perigo real é esquecer que já falei de alguma coisa.

    Tudo aconteceu por causa do Dia do Amigo. Hoje, 20 de Julho, é o Dia do Orkut Dia do Amigo e também um dia em que eu estava seco de ideia. Como em todas as vezes em que eu estou sem ideia, olhei pro calendário e pensei “vou falar sobre o Dia do Amigo”, mas não demorou nem cinco segundos pra que eu lembrasse que eu fiz um post sobre o Dia do Amigo… No ano passado. Nesse exato instante me bateu aquele velho medo. Hoje eu lembrei, mas e se eu não conseguir lembrar todas as vezes?

    Contando com esta presente publicação, o Cachorros de Bikini publicou 155 posts. 102 desses posts pertencem à categoria “Crônicas e Similares”, onde eu publico textos sobre assuntos variados como este aqui. O blog tem um ano, ainda rola de lembrar mais ou menos dos principais assuntos publicados, mas já já o Cachorros vai ter dois, três quatro anos e esses 102 vão virar 204, 306, 408. E o que dizer da cabeça do autor do blog, conhecido internacionalmente como “eu”? Esse ser humano que, apesar de um nível relativamente satisfatório de inteligência, consegue se mostrar um verdadeiro quadrúpede em alguns momentos da vida. Como um indivíduo desse vai evitar esses momentos caducos da vida blogueira?

    Eu simplesmente não faço a mínima ideia de como vai ser. Se não acontecer, bom, se acontecer… Sei lá, sempre vai ter alguém que nunca me viu falando sobre aquilo, alguma opinião minha que mudou ou até mesmo alguma coisa que merece mais um ou outro parágrafo. Fico imaginando que não vai ser muito difícil ver alguma coisa repetida por aqui. Se eu ficar velho escrevendo nesse blog é certeza que isso vai rolar, mas aí eu vou ter uma desculpa. Afinal, velho gosta de repetir assunto, provavelmente eu não fugirei à regra.

Contos de Segunda #50 – Parte 02

Pra ler a primeira metade desse conto é só acessar esse link para o Contos de Segunda #50 – Parte 01. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— Vou perguntar apenas uma vez — disse a Dama do Mar. — O que traz vocês cinco até meu santuário?

    — Viemos pedir sua ajuda, Dama do Mar — respondeu Segunda-feira.

    Uma risada maligna penetrou nos ouvidos das jovens Damas como uma agulha. A temperatura do ambiente caiu e a água invadiu a caverna, aos poucos a lâmina d’água começou a subir.

    — Ela vai matar a gente — sussurrou Quarta-feira. — Eu sabia que a gente devia ter ficado em casa.

    — O futuro está nebuloso, Segunda — falou Terça-feira. — Não consigo ver nada.

    — Deixa eu tentar falar com ela, Segunda — interrompeu Quinta-feira. — Dama do Mar, fui eu quem disse para virmos pedir sua ajuda… Me ajudou antes, imaginei que poderia ajudar agora.

    — Que história é essa, Quinta? — disse Sexta surpresa, e não era o tipo bom de surpresa.

    Os olhares das irmãs estavam todos voltados para Quinta-feira.

    — Não é o que vocês… — gaguejou Quinta.– Certo, sem rodeios. Eu só consegui manifestar minhas habilidades musicais por causa dela… Criar música com o corpo não é tão simples pra uma entidade do tempo.

    — Sim, eu me lembro jovem Quinta-feira — a voz da Dama do Mar sorria. — Sua música precisava de ajuda para sair, mas teu medo não te permitiu aprender tudo que eu tinha para ensinar.

    — O canto de uma Dama é muito poderoso, nobre senhora. — replicou Quinta. — Aprendi o suficiente.

    A água já estava na altura dos joelhos.

    — Aprendeste o suficiente para evitar a tua queda, Quinta-feira — o tom da Dama do Mar agora estava severo. — Não querias correr o risco de cometer os mesmos crimes que eu. Que tipo de ajuda procuras se já sabes do que precisas?

    — Eu preciso de ajuda, Dama do Mar — vociferou Segunda-feira. — Preciso aprender o canto de sereia para atrair um Cavaleiro.

— Então venha olhar nos meus olhos e dizer isso — respondeu a Dama do Mar. — Mas venha só! — A água subiu como um turbilhão e envolveu Terça, Quarta, Quinta e Sexta, as deixando apenas as cabeças para fora. — Estou no fundo da caverna, venha.

Segunda-feira hesitou por um instante. Quarta-feira estava paralisada de medo, Quinta tinha o olhar baixo para não encarar as irmãs, Sexta tentava se mover, mas não conseguia, Terça fechou os olhos e começou a falar.

— O futuro está clareando, mas a Dama do Mar não me deixa enxergá-la — disse ela calmamente. — Vejo muitos futuros para você, Segunda, mas todos eles estão distantes, não posso te dizer o que te aguarda… Toma cuidado.

— Obrigado, Terça. Vou tomar.

Algumas dezenas de metros separavam Segunda do fundo da caverna. Lá ela encontrou um poço muito largo que emitia uma luz tênue, no centro do poço estava uma rocha e na rocha uma figura muito similar a uma sereia.

— Saudações, Dama do Mar — cumprimentou Segunda.

— Saudações, Dama da Segunda-feira — respondeu a Dama do Mar. — Tens ideia do tamanho do teu pedido?

— Tenho.

— Conheces os meus crimes?

— Não há Dama que não conheça.

— Sabes o que me levou a cometê-los?

— Amor e… Dor — a última palavra foi dita quase como um sussurro.

— Isso mesmo — os olhos frios da Dama do Mar por um instante se perderam em um passado distante. — Meu Cavaleiro foi tirado de mim e a dor me levou à…

— Violência — os olhos de Segunda estavam marejados. — Todas nós ficamos sabendo… Quando a Dama do Mar usou seu canto e atraiu dez Cavaleiros para a morte.

— Nove — o semblante dela continuava inexpressivo, mas os olhos não escondiam os sentimentos tão bem. — Naquela época o Cavaleiro da Lua possuía uma esposa. Ele foi o primeiro filho legítimo de uma Dama e o único a se tornar Cavaleiro. A Dama da Lua o presenteou com uma esposa, uma humana que recebeu sua dádiva. Ela também veio… Eu também tirei a vida dela com minhas próprias mãos.

— A Mãe-de-Todas te condenou à morte, mas o teu santuário te salvou.

— A fúria da Mãe passou, demorou, mas passou — ela olhou ao redor. — Agora vocês se arriscam a despertar novamente essa fúria para atrair um Cavaleiro?

— Preciso de um, meus poderes estão a ponto de sair do controle e… — Segunda respirou fundo. — Logo logo será impossível manter a sanidade.

— Não é tão ruim quanto parece. Todos tem medo de uma Dama louca… — os olhos da Dama do Mar se acenderam com um brilho frio. — Por que não sabem o que é ser uma.

A água subiu como um turbilhão e prendeu Segunda. A água do mar girava cada vez mais veloz ao redor da jovem Dama, o atrito com a água começou a rasgar a pele.

— O que está fazendo?

— O mesmo que estou fazendo às suas irmãs — sorriu a Dama do Mar. — Logo seus corpos serão apenas uma mancha de sangue, mas o teu… Eu quero rasgar com minhas próprias mãos

— Eu só vou avisar uma vez — rosnou Segunda. — Não faça nada às minhas irmãs.

— Este é meu santuário, ninguém me ameaça no meu santuário.

— Está enganada, Dama do Mar — sorriu Segunda um sorriso dolorido. — Não consegue sentir?

O sorriso da Dama do Mar se desfez. Alguma coisa estava errada, alguma força estranha estava penetrando no santuário.

— O feriado está acabando, nobre senhora, imagine a quantidade de mortais que está resmungando e se irritando neste momento. Quantos estão experimentando o sublime momento em que se lembram que hoje é segunda-feira e que amanhã precisam voltar para o trabalho — Segunda parecia sentir o gosto doce de cada palavra que dizia. — No coração dos mortais segunda-feira começa na noite de domingo e não existe nada mais forte do que o sentimento da noite de domingo em uma segunda.

— Impossível! Nada pode penetrar meu santuário!

— Quem está no meu santuário é você, Dama do Mar — uma força terrível emanava de Segunda-feira. — Nós Damas da Semana temos um dia para cada uma, um santuário de vinte e quatro horas, mas só eu consigo canalizar a energia do santuário… Por que só eu posso dividir o poder com minhas irmãs.

Quarta sentiu uma força externa tomando conta do seu corpo.

— Segunda está me mandando energia, acho que consigo tirar a gente daqui — disse Quarta-feira.

— Me tira primeiro Quarta — adiantou-se Sexta. — Quinta, me acelera.

— Só preciso de um instante pra me concentrar– ao dizer isso Quinta fechou os olhos, o semblante de dor levou poucos segundos para desaparecer, a conexão com a irmã estava completa. Uma batida eletrônica tomou conta da caverna, forte, alta e cada vez mais acelerada. Em um nível que tornava a música um ruído quase incompreensível

Quarta tirou Sexta de dentro do turbilhão. Quando a jovem Dama ficou livre deixou a música invadir o corpo. A música da irmã sempre causava uma sensação maravilhosa, ela sentia o coração acelerar, a vontade de dançar era quase irresistível.

— Quebra aquela sereia fajuta, Sextinha — disse Quinta com um sorriso raivoso.

Então o mundo parou. Sexta estava tão acelerada que o tempo parecia congelado. Em uma fração mínima de segundo ela chegou ao fundo da caverna, o ar deslocado foi suficiente para desfazer o turbilhão que envolvia Segunda-feira, mas ela estava só passando. Tudo que ela queria era dançar sobre a água, dançar sobre a luz por um instante, um instante que duraria quase uma eternidade. Fazer isso em uma velocidade tão alta criou um grande turbilhão e no meio dele estava a Dama do Mar. Poucos segundos depois ela estava no chão meio alagado, caída diante de Segunda e Sexta.

— Fazia tempo que eu não dançava tanto — disse Sexta ainda na euforia da música. — Tudo bem, Segunda?

— Vai ficar. Vai lá ver como estão as outras eu preciso conversar com nossa irmã sereia aqui.

Sexta ainda estava acelerada o suficiente para chegar onde as irmãs se recuperavam em um piscar de olhos. Segunda esperou a Dama do Mar se recompor.

— Me desculpe — lamentou Segunda. — Não queria apelar pra violência.

— Não precisa se desculpar, jovem Dama — disse a Dama do Mar em um tom brando. — Graças a isso posso gozar de um raro momento de lucidez. Meu santuário é um cárcere voluntário, aqui dentro não posso ferir ninguém… O que me pedes é uma maldição, Segunda-feira. Meu canto nasceu comigo, faz parte da minha natureza, não da sua. Aprendê-lo no seu estado é um convite ao desastre.

— Só preciso que funcione uma vez. Não me incomodo de abrir mão dele depois disso.

A Dama do Mar pegou um pouco de água com as mãos e modelou uma esfera. Uma bolha parcialmente cheia com um líquido esverdeado. Da bolha puxou dois cordões para formar uma gargantilha.

–Coloque isso no pescoço e o canto será seu — disse a Dama do Mar entregando o colar para Segunda. — Escolha bem o momento de usá-lo, terás apenas uma chance.

— Obrigado, Dama do Mar.

Ela sorriu em resposta, se ergueu na cauda de sereia e mergulhou no poço. Segunda correu para encontrar as irmãs.

— Alguém ferido? — perguntou Segunda.

— Só o orgulho — respondeu Terça. — Conseguiu alguma coisa?

— Sim, mas eu conto no caminho. Quarta, tira a gente daqui.

— Nem precisa pedir duas vezes. Aqui tem muita interferência pra abrir uma passagem, segurem em mim.

Um piscar de olhos depois e elas não estavam mais lá.

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