Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

E ATEEEEENÇÃO!

Pessoas morrem todos os dias, mas as lendas morrem só de vez em quando. Um desses “de vez em quando” aconteceu ontem, 17 de Novembro de 2015, ontem faleceu Gino César, o Repórter do Bandeira 2.

Caso você, nobre amigo leitor, não resida em Pernambuco ou passou toda a sua vida sem ouvir nem um segundo do Bandeira 2, recomendo que assista esse vídeo abaixo. Caso seu tempo e sua disposição sejam muito limitados, não se preocupe, vou tentar não complicar a história.

Gino César faleceu aos 79 anos e trabalhou no rádio durante a maior parte deles, apesar de ter feito outros trabalhos ficou famoso como repórter policial, trabalho que fazia desde os 22 anos. Sem dúvida alguma o Bandeira 2 é o mais emblemático noticiário do gênero e Gino César o maior ícone do jornalismo policial no rádio pernambucano. Não falo isso apenas pela idade do sujeito, mas também pela forma peculiar de conduzir o noticiário, que acabou transformando o Repórter do Bandeira 2 numa figura folclórica, principalmente entre aqueles que estavam sempre com o ouvido colado no rádio durante as primeiras horas da manhã. Mas qual a minha relação com essa parada toda?

Uma boa parte do público do Bandeira 2 é formado por motoristas de táxi, profissão exercida pelo meu pai. Levando isso em conta, não é de se estranhar que em algum momento eu acabasse escutando o noticiário apresentado por Gino César. Sempre que eu estava no carro junto com meu pai de manhã bem cedo era o Bandeira 2 que tocava no rádio. Eu sempre achei muito curioso, e até divertido, ouvir uma notícia sobre um homem que chegou baleado no Hospital da Restauração que terminava com uma lista de todos os funcionários do hospital que participaram do socorro. Logo depois, sem alterar o tom da voz ou o ritmo da fala, Gino César fazia propaganda de água sanitária e de cuscuz e sem o menor aviso ele soltava um “E ATEEENÇÃO!” antes de voltar para as notícias da madrugada.

Gino César foi o primeiro e único Repórter do Bandeira 2 durante vários anos de sua vida. Não só virou referência para um gênero, mas também se tornou um personagem da cultura popular, um sinônimo de noticiário policial. Fico pensando como Gino César noticiaria o seu falecimento, não é um exercício de imaginação muito difícil para aqueles que o ouviram no rádio, principalmente por que todos sabem como começaria uma noticia dessa importância.

Contos de Segunda #22

O conto de hoje é uma continuação direta da história de Maurício, protagonista do Contos de Segunda #2.

    O mundo acabou. A essa altura do campeonato isso já não era mais novidade, o apocalipse chegou meses atrás e , ao contrário do que era esperado, muita gente sobreviveu. Maurício é um desses sobreviventes e ele estava profundamente decepcionado com o fim dos tempos.

    A primeira coisa que Maurício fez foi arrumar um emprego. Ele trabalhava com uma atividade bastante curiosa: ele era chefe do departamento de coleta de pilhas. Pilhas eram um item muito importante no mundo pós-apocalipse, por algum motivo inexplicável a radiação das armas nucleares utilizadas na guerra transformara as pilhas alcalinas em uma fonte de energia inesgotável. Maurício detestava ficar catando pilhas e por isso todas as segundas ele acordava de manhã e pensava: “Bem que o mundo podia ter acabado direito”. Esse pensamento se repetia no caminho para o trabalho quando ele passava pelos religiosos que continuavam protestando contra Deus por tê-los abandonado num mundo destruído, e quando ele precisava encarar a fila da tirolesa para atravessar o abismo deixado pela ponte que ruiu na semana passada. O pensamento continuava quando ele via o tanto que as pessoas continuavam reclamando, principalmente por motivos que não tinham nenhuma relação com a situação desgraçada que era viver no fim do mundo. Ultimamente as pessoas começaram a reclamar da reclamação alheia. Era quase uma epidemia, chegava a ser pior do que as doenças do tempo do fim do mundo. Maurício precisava mudar de vida, mas as opções estavam bastante restritas. Ele precisava fazer algo radical.

    Na hora do almoço ele parou para contemplar uma pilha palito que havia sido encontrada num controle remoto quebrado. Ela emitia uma luz verde e tinha um cheiro esquisito. “E se eu engolir uma pilha dessas, só pra ver qual é?”, pensou Maurício. Ele não precisou de muita reflexão antes da pilha descer pela sua garganta. Depois de uma azia de quinze minutos, Maurício começou a enxergar as coisas meio esverdeadas, as unhas ficaram pretas e o cabelo começou a pesar na cabeça. A eletricidade começou a fluir pelo seu corpo e ele começou a sentir os dedos formigando. Ele não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas o fim do mundo estava ficando mais interessante do que ele esperava.

O Poder da Inconveniência

Ano passado eu li um livro muito simpático com o sugestivo título de Todos os Meus Amigos São Super Heróis. Nesse livro os personagens que são considerados os super-heróis de Toronto possuem poderes bastante peculiares, características aparentemente banais são tratadas como super poderes. Caso esse conceito fosse aplicado ao mundo real haveria um poder compartilhado por várias pessoas: o poder da inconveniência

Pessoas inconvenientes estão por todos os lados, mas algumas delas possuem o dom de exercer a inconveniência com maestria. A gama de habilidades desse tipo de ser humano é enorme. Pessoas barulhentas, que ocupam espaço demais na cadeira do ônibus, que ocupam duas vagas no estacionamento, que furam fila, que aparecem em horas estranhas na sua casa. Todas elas e muitas outras poderiam ser super heróis da vida real, usando seus poderes maravilhosos para tornar a existência de outros um pouco menos confortável. Porém, ao contrário dos super heróis normais, essas pessoas não tem nenhuma fraqueza.

A inconveniência reveste essas pessoas de um campo de distorção da realidade, já que seus poderes só surtem efeito quando esses seres excepcionais fazem isso inconscientemente. Por isso é impossível vencer um herói inconveniente, pelo fato de ser impossível convencê-lo do incômodo que ele está causando. Se você, caro leitor, está se lembrando de algum ser humano que foi convencido do mal que ele estava causando, é muito provável de que essa pessoa não possua poderes derivados da inconveniência.

Talvez você esteja se perguntando o motivo pelo qual ainda estou me referindo a eles como “heróis”, mas preciso esclarecer que, dentre todas as habilidades que essas pessoas possuem, a capacidade de ficar incomodado com os outros é uma das mais bem desenvolvidas. Esses seres, ao contrário do que pode parecer, são praticamente canibais. Eles vivem uma relação de antagonismo entre si em um combate sem fim, gastando a maior parte dos seus poderes um no outros.

Vai Sair Um Disco Novo

Essa semana estava eu passeando pela minha caixa de email e me deparei com a notificação de um serviço de streaming me avisando do lançamento da nova música de uma cantora que eu gosto muito. Prontamente entrei no site da moça e vi uma maravilhosa notícia: vai sair um disco novo no início do ano que vem. Sem nenhum motivo aparente essa notícia me fez escrever esse texto.

    Se você acompanha o trabalho de algum artista, seja ele músico, escritor, ator, diretor, desenhista, roteirista e derivados, deve conhecer qual a sensação de saber que algo novo desse fulano está pra chegar. A data do lançamento é o Natal do fã e o disco/livro/filme é o presente. Diferente das tradições que envolvem as festas natalinas, o presente vai ser trazido por uma pessoa de carne e osso, sobre a qual não há dúvidas quanto à existência. A expectativa é muito parecida também, já que normalmente o fã é alimentado aos poucos com inúmeras prévias, teasers, trailers, imagens de bastidores, singles do álbum vindouro e coisas do tipo. Nosso monstrinho da expectativa é alimentado e vai crescendo até que chega a fatídica data de abrir o presente… Mas não são todos que procedem assim.

    As vezes somos surpreendidos com lançamentos que não foram anunciados previamente, que escaparam do nosso radar ou que não tiveram prévias para alimentar monstrinho nenhum. É quando somos pegos de jeito, estamos desarmados e desprevenidos, despidos de qualquer preconceito e talvez mais abertos aquilo que nos será apresentado. A expectativa dá lugar a um momento breve de tensão e ansiedade, o momento que fica entre  o nosso “O que é isso aqui?” e o primeiro acorde da canção, primeira página do livro ou a cena de abertura do filme. Instantes que são quase uma apneia mental ou o último suspiro antes do mergulho.

    Então é chegada a hora da verdade. Hora de ver se a espera realmente vale a pena. O momento em que bate aquele medo de tudo ser uma grandessíssima bosta, mas normalmente ele é vencido pela confiança naqueles que nunca nos decepcionam. Às vezes somos recompensados pela nossa espera, às vezes não, mas se de um lado nos decepcionamos, por outro temos nossas expectativas superadas. Quando eu vejo que vai sair um disco novo eu fico com um pé atrás, nunca se sabe quando esses músicos vão inventar alguma maluquice, mas a música que me motivou a escrever esse texto ficou tão legal que o monstrinho da expectativa já começou a crescer. Falta muito pra fevereiro?

Contos de Segunda #21

Erick caçava dragões. Oficio bastante perigoso, tendo em vista que normalmente ele só dispunha de um escudo feito com couro de dragão, sua espada e uma catapulta. Apesar de não parecer, matar dragões era algo bastante sistemático e bem monótono em alguns casos. Mas não havia nada mais incômodo do que as exigências do sindicato: um dragão por semana, a carcaça devia ser entregue todas as segundas-feiras ao meio-dia em uma das sedes do sindicato espalhadas pelo reino. Era segunda-feira e Erick não caçara nenhum dragão.

Vontade de abandonar o emprego não era algo raro. O perigo do trabalho não estava compensando, o salário não era essas coisas todas e estava cada vez mais difícil caçar um dragão por semana e essa não era a primeira vez que Erick chegava ao primeiro dia útil da semana com as mãos vazias. Enquanto quebrava o jejum na estalagem ouviu dois viajantes conversando. Eles falavam de um dragão que aparecia toda segunda-feira no topo da colina e de como todos os caçadores de dragões que tentaram caçá-lo nunca mais foram vistos novamente por ninguém do sindicato. Caçar um dragão era sempre perigoso, caçar um que era impossível de ser caçado talvez garantisse uma aposentadoria precoce.

O caçador chegou ao topo da colina. O dragão estava lá. Grande e vermelho, dormindo aninhado sob a sombra de uma árvore tão velha quanto ele. Parecia uma presa fácil. Uma manobra padrão vinte e dois resolveria, contanto que ele se mantivesse no chão. Erick se aproximou silenciosamente, posicionou-se contra o vento para que a fera não sentisse o seu cheiro, a exatos vinte metros do alvo ele correu, sacou a espada e se preparou para saltar e desferir um golpe certeiro no olho esquerdo, mas uma voz o interrompeu.

– Tem certeza que quer fazer isso?

– Claro que sim, Dragão – as palavras saíam em tom de desdém.

– Hoje é só o começo da semana, Caçador. Não percebes que o dia já é ruim por si só? Não basta o tormento rotineiro de toda semana? Ainda queres me matar?

– Nada pessoal, Dragão, mas tua morte tornará meu começo de semana um pouco menos penoso.

– Teu ofício já é penoso o suficiente, estando eu vivo ou morto. Ainda terás de matar outro dragão nessa semana, do contrário te acharás na mesma desgraça daqui a sete dias.

– Detesto admitir, serpente desgraçada, mas a razão te cobre como a sombra desta árvore. O que sugeres que eu faça?

– Assenta-te recostado nesta árvore, dizem que o aroma de suas folhas esclarece os pensamentos e atrai pensamentos sensatos. Caso tenha desistido de me matar, obviamente.

– Desisti, Dragão. Creio que esta é uma boa hora para repensar a minha vida.

Erick se sentou recostado no tronco da velha árvore. Viu a luz do sol através das folhas e sentiu o aroma que preenchia o topo da colina. Em nenhuma outra segunda-feira Erick foi visto no sindicato dos caçadores de dragões.

Aqui Jaz

Outro dia uma moça que trabalha na mesma empresa que eu me relatou sobre a sua momentânea falta de animo. Segundo ela o desanimo estava tão grande que ela estava morta. Sugeri então que fosse colocada uma plaquinha com um “Aqui jaz…” em cima da mesa. A ideia agradou tanto que eu continuei o comentário sugerindo um epitáfio completo, que ficou mais ou menos assim:

“Aqui jaz (nome da moça)

Fillha Amada e Esposa Dedicada”

Empolgada com a ideia e não muito satisfeita com um resumo tão sucinto ela disse “E Amiga…”, dando a deixa pra que a frase fosse completada por mim. Incapaz de imaginar algo no momento resolvi pedir um tempo pra pensar e, enquanto voltava para meu local de trabalho comecei a refletir.

Desde criança eu gosto de epitáfios. Claro que eu gostava dos que apareciam nos filmes e desenhos animados, mas a ideia de resumir o que uma pessoa significava para seus  entes queridos ou de passar uma mensagem que ilustra a personalidade do falecido usando apenas algumas palavras é um conceito que me maravilha até hoje. Porém toda essa conversa de epitáfio, lápide e defunto me fez atentar para a injustiça cometida. Depois de morrer só temos direito a uma frase. Uma só, umazinha. Não mais que algumas palavras serão nossa herança para os transeuntes do cemitério.

Imagine só viver uma vida inteira, casar e ter filhos, ser um profissional de qualquer área, ter um hobbie, ser um cidadão ativo, ajudar as pessoas, envelhecer, ou não fazer nada disso, mas ainda assim fazer alguma coisa da vida. Depois de tudo isso ter direito a apenas uma frase. Um punhado de palavras para mostrar àqueles que nunca te conheceram o que você era. Prosseguindo com meu raciocínio cheguei à conclusão de que eu estava prestes a cometer essa mesma injustiça ao completar a frase e finalizar o épitáfio da minha colega de trabalho. Uma frase é muito pouco, não só pra ela, pra qualquer um.

No final acabei completando a frase: “…de todas as horas, até nas horas finais”. A frase foi bem recebida, mas ainda senti aquele gosto que fica na boca quando se comete uma injustiça.

Dia de (Re)Finados

Todo ano é assim, novembro mal começa e já rola feriado. Ao contrário dos demais dias de folga do ano, o primeiro feriado de novembro carrega uma vibe um pouco diferente. Convenhamos que esse feriado em específico tem um ar meio mórbido, afinal ele acaba sendo mais uma data para lembrar do que para celebrar. Talvez seja desnecessário dizer, mas eu estou falando do Dia de Finados.

Não é exclusividade do nosso país ter uma data para lembrar daqueles que já foram. A forma como esse dia é celebrado vária um pouco de país pra país, mas com certeza o feriado fúnebre mais famoso do mundo é o Dia de Los Muertos, uma das maiores festas do México. Quando eu lembro dessa festa duas coisas vêm imediatamente na minha cabeça: a primeira é a Calavera Catrina, sempre retratada como uma morta bastante elegante, e a segunda é como a morte pode ser encarada sob uma perspectiva tão diferente da nossa.

Celebrar os mortos é algo que faz parte do povo mexicano desde antes da chegada dos conquistadores espanhóis. Os antigos Astecas e Maias tinham um ponto de vista em relação à morte bem diferente da nossa. Eles acreditavam que encontrar com seus deuses era uma honra e privilégio, inclusive cabe lembrar dos sacrifícios humanos que eles faziam e que ser escolhido para ser sacrificado era motivo de orgulho. Infelizmente a morte não é encarada de forma tão simples por nós. A perda de uma pessoa querida normalmente é algo pouco agradável e isso é perfeitamente reconhecível, mas sempre fico pensando em como seriam as coisas caso pensássemos diferentes.

Imagino como seria se os enterros fossem sempre grandes festas, com os falecidos em trajes de gala em um evento tão grande quanto um casamento, transformando a celebração fúnebre em algo mais refinado. Como seria legal se os funerais vikings virassem moda e todos os pertences fossem queimados junto com seu dono. Não que eu acredite que alguma dessas coisas possam ser usadas pelo defunto na vida eterna, mas o fogo em grandes proporções normalmente tem um efeito estético bastante interessante. Mesmo que não tivesse nada disso seria bom se, quando víssemos alguém partir, nos lembrássemos menos da falta que essa pessoa vai fazer e mais da diferença que ela fez.

Contos de Segunda #20

  Aderbal morreu. Aconteceu numa segunda-feira, Dia de Finados. Toda a família estava viajando, mas Aderbal acabou ficando em casa, queria aproveitar os dias de folga para fazer alguns pequenos consertos na casa e adiantar um trabalho extra que ele tinha conseguido. O plano parecia bom, o tempo parecia suficiente, tudo deu certo… Pelo menos até no domingo.

    Aderbal caiu da escada. Por sorte ele só quebrou a perna, mas acabou passando a noite no hospital. Junto com ele estava internado um segundo Aderbal, uns 15 anos mais velho e com uma dúzia de doenças diferentes. Durante a madrugada de segunda uma dessas doenças acabou matando o segundo Aderbal. Quando isso aconteceu o Aderbal da perna quebrada estava na sala de espera da emergência assistindo um dos seus filmes preferidos no Corujão. Todos esses fatores acabaram criando o cenário perfeito para fazer todos pensarem que os dois Aderbais faleceram naquela madrugada.

    Os analgésicos da meia-noite acabaram fazendo bem depois do esperado, isso deixou Aderbal nocauteado na sala de espera até a metade da manhã. Esse tempo foi suficiente para que as famílias dos dois Aderbais fossem comunicadas pelo hospital. Como só havia um corpo a ser reconhecido e todos estavam bastante perturbados pela perda recente, não é de se estranhar que tudo terminasse em confusão. Gritaria, agressões de todos os tipos, a especulação de que Aderbal tinha duas famílias e a quantidade crescente de parentes acabaram fazendo a confusão tomar conta de toda a emergência do hospital. A confusão foi tamanha que ninguém notou quando Aderbal acordou na sala de espera, agilizou sua alta com um dos médicos que ainda estava fora da confusão. Ele também não percebeu nada, a dor na perna era suficiente para ocupar todos os seus pensamentos. Ao colocar a mão no bolso percebeu que o celular havia ficado em casa. Aderbal parou o primeiro táxi que passou, estava com pressa, precisava chegar em casa antes do resto da família. Só Deus sabe o que eles pensariam quando chegassem lá e não encontrassem ninguém.

Contos de Segunda #19

Renato tirou férias do blog. Trinta dias para respirar, reciclar algumas ideias e refrescar a cabeça. Porém algo ocorre com todos aqueles que tiram um merecido recesso de qualquer atividade. Dentro de cada um cresce a vontade de não voltar mais das férias. Com Renato não foi diferente.

Claro que ele gostava de escrever. De todas as coisas que ele fazia, que não eram muitas, a escrita era uma das preferidas, mas manter o blog dava trabalho e não rendia dinheiro. A quantidade de pessoas alcançadas por ele era tão pequena que talvez nem valesse o trabalho. “E se…”, era como começavam os pensamentos de Renato sobre seu blog, mas nenhum deles terminava. As férias ainda não tinham acabado, ele pensaria nisso depois.

O tempo passou rápido. Muitas coisas aconteceram e muitas outras deixaram de acontecer. Renato ainda não havia chegado a qualquer tipo de decisão. O assunto foi varrido pra baixo do tapete, convenientemente esquecido. Até que, não mais do que de repente, ele sentiu que precisava voltar. Olhou no calendário e viu o final de suas férias. Ele esperaria a folga acabar, mas em seu interior ele já sentia como se estivesse de volta.

Contos de Segunda #18

Segunda-feira. Feriado. Feriadão. O sol que fez o mês inteiro levou Robson e sua família inteira para a praia. Estava tudo preparado e planejado: a casa estava alugada, as crianças estavam empolgadas, logo cedo eles estariam a caminho e fugiriam do trânsito. Chegando lá eles encontrariam com o irmão e a cunhada de Robson, que normalmente cuidavam das crianças enquanto Robson e sua esposa podiam descansar. Seria tudo uma maravilha… Se tivesse acontecido como o planejado.

A viagem de ida se mostrou um tormento. Dois acidentes transformaram o trânsito numa amostra grátis do inferno. A casa estava lá, mas o irmão de Robson só poderia chegar no domingo, o que não fazia muita diferença, já que uma chuva torrencial começou no sábado e só terminou na noite do domingo. Se a chuva continuasse na segunda a volta seria antecipada para fugir do transito, mas o sol resolveu sair. Robson acabou ficando pelas crianças e passou o dia tentando se preparar psicológicamente para encarar o caminho de volta.

Segunda-feira. Feriado. Fim de tarde. Alternando a atenção entre o carro da frente e o sol no horizonte, Robson tentava descobrir para onde fora o seu feriado. As crianças dormiam no banco de trás, a esposa dormia no banco da frente enquanto ele tentava se lembrar de algo bom que tenha acontecido nesses dias, não estava tendo muito sucesso . O trânsito estava fluindo melhor do que o esperado, logo logo estariam todos em casa. De alguma forma o fato de algo que era quase certo de dar errado estava dando certo trouxe uma paz que Robson raramente experimentava. Durante     o resto do caminho ele encontrou o feriado que estava procurando.

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