Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Presente

Um dos componentes mais importantes dos rituais de fim de ano, sem a menor sombra de dúvida, é o presente. Seja um presente de natal, amigo secreto ou só uma coisa que você comprou usando as festas de dezembro como desculpa, o presente sempre está em alta no fim do ano. Mas afinal, qual é o lance por trás dessa parada de dar presente?

Se não me engano o habito de presentear durante essa época tem origem na história do nascimento de Jesus. Segundo o relato bíblico, Jesus recebeu a visita de três sábios vindos de uma terra distante, cada um deles trouxe um presente para o recém nascido. Cabe ressaltar que em alguns países as crianças não recebem presentes no natal, elas recebem no dia de reis, que faz alusão justamente à visita desses três carinhas ao nosso amigo recém nascido. O tempo passou e, como ninguém sabe direito em que época do ano Jesus nasceu, alguém resolveu que ele ia fazer aniversário em dezembro. Foi quando instituíram também a temporada de troca de presentes.

Basta dezembro começar, o décimo terceiro entrar na conta e as primeiras confraternizações serem marcadas pra começar um surto de complexo de Noel. Não é preciso se esforçar muito pra ouvir palavras como “presente”, “lembrancinha”, “embrulho”, “encomenda”. Boa parte dessas palavras vem acompanhada de “falta”, “comprar”, “tenho que” e o nome do grupo ou pessoa para quem os presentes estão destinados. E se você for como algumas pessoas que eu conheço, muito provavelmente tem uma lista longa de presentes pra escolher e comprar. Realizando um esforço quase hercúleo pra conseguir comprar tudo antes do fatídico dia 25, sem contar que provavelmente você também está fazendo um esforço titânico pra manter o presente em segredo até a hora de ser entregue.

Presentear outras pessoas é uma coisa que eu gosto bastante. Não que eu faça isso com muita frequência, nem faço isso com todo mundo, mas não é muito fácil resistir à tentação de comprar algo que eu sei que o presente acerta em cheio. Principalmente quando aquilo é tudo que a pessoa queria, mas não sabia disso até aquele momento. E esse momento de descoberta é que faz o ato de presentear valer a pena.

Amigo Secreto

    Poucas coisas no folclore do fim do ano conseguem ser mais notórias do que a boa e velha brincadeira de amigo secreto. Ponto alto de várias confraternizações  ou até mesmo algo que merece uma celebração particular, o amigo secreto é uma das poucas coisas que não muda em função da região, faixa etária ou da classe social dos participantes. Uma atividade lúdica e recreativa que movimenta o fim de ano de muita gente, principalmente quando se é adulto, gera uma comoção enorme entre os participantes e rende histórias pro ano inteiro. Mas o que o amigo secreto tem pra causar esse efeito nas pessoas?

    O primeiro fator determinante para a graça do amigo secreto é o fator aleatório. Não existe um ser humano na face do planeta que não veja nem um pouco de graça em sorteios e é isso que o amigo secreto é na prática, um jogo de sorte. O simples ato de tirar um papelzinho com o nome de uma pessoa já gera adrenalina equivalente à de um salto de paraquedas. A tensão, a expectativa e o risco de se dar mal transformam o ato do sorteio em algo único, ou nem tão único caso você tire seu próprio nome e tenha que refazer o sorteio. Logo depois da determinação dos resultados aleatórios temos mais uma etapa atribulada do processo: comprar o presente.

    Escolher presente pros outros nem sempre é uma tarefa simples. Caso a dama da sorte tenha lhe sorrido, seu amigo é uma pessoa que você conhece bem e, com um pouco mais de sorte, até mesmo um ser humano pelo qual você nutre alguma simpatia. Caso não você já começou a brincadeira se lascando na desvantagem, se a dama da sorte resolveu tirar uma bela onda com a sua face o risco de tirar uma pessoa que você detesta é bem grande, principalmente se o amigo secreto for realizado em ambiente de trabalho. Para fins pedagógicos vamos considerar que sempre ocorre a segunda opção. Lá está você quebrando a cabeça para dar um presente pra um ser humano que é quase um desconhecido, caso a pessoa tenha divulgado um presente que gostaria de ganhar a tarefa fica um pouco mais fácil, mas como estamos trabalhando com cenários adversos é melhor excluir essa possibilidade. Se você foi esperto o suficiente pra comprar algo genérico, não muito caro e que agrade todo tipo de pessoa, além de não ter caído na tentação de comprar um vale presente, você pode concorrer prêmio Nobel de amizade secreta, se não foi… Não tem muito o que fazer além de aceitar o fato de que o presente comprado só difere de um pedaço de cocô por causa do cheiro. Infelizmente é o que tem pra hoje, pelo menos o embrulho tá bonito e não vai fazer vergonha na hora da festa/confraternização/almoço/jantar/happy hour/desculpa que arrumaram pra justificar o amigo secreto.

    E eis que chega o grande dia. Cada um dos participantes aparece com pacotes e sacolas das mais variadas cores e tamanhos. A tensão e a expectativa crescem. Sempre tem algum desgraçado participante que falta, deixando uma pessoa sem presente e outra sem amigo secreto. Depois que finalmente todos chegam começa a brincadeira, alguém se habilita e começa o velho jogo de adivinhação, que acaba sendo meio furado por que ou o cara entrega de bandeja o nome do amigo ou faz uma descrição tão doida que ninguém acerta. O tempo vai passando e vai chegando a sua vez, a tensão começa a crescer, não só por causa do presente qualquer coisa que você comprou, mas também pelo medo de receber um presente tão qualquer coisa quanto. Sua vez chega antes, o cara que ia receber o presente acabou faltando rompendo a ordem da brincadeira, você começa a descrever seu amigo com o máximo de acurácia possível, vendo que ninguém vai acertar você diz logo quem é o fulano, entrega o presente e pela cara do sujeito se abrem duas possibilidades: ou você não errou o presente ou o cara merece o Oscar de melhor ator. Você volta pro seu lugar, aliviado, torcendo pra que o seu presente seja pelo menos o vale presente de uma loja legal.

Contos de Segunda #25

“Preciso de férias”.

    Foi a primeira coisa que Ribeiro pensou quando abriu os olhos naquela segunda-feira ensolarada. Dezembro mal começara e ele já contava os dias para o início das suas férias. Apenas catorze dias… Catorze ansiosos e impacientes quadradinhos no calendário que se recusavam a passar. Dias piores do que qualquer segunda-feira.

    Ribeiro chegou na hora. Empilhou os volumes do relatório do controle de qualidade do fornecedor em cima da mesa. A gerente passaria por ali em uns dez minutos e pela primeira vez em meses ela não teria do que reclamar. Estava tudo em dia, afinal tudo deveria ficar pronto antes das férias.

    “Preciso de férias”.

    Disse Ribeiro em voz baixa para si mesmo depois de passar cerca de um minuto encarando a tela do computador.  Esse minuto foi tempo suficiente para esperança de que isso o fizesse lembrar do que deveria ser feito em seguida evaporasse. Nessa hora apareceu uma notificação na tela, um email acabava de chegar avisando de uma reunião do departamento no início da tarde. Naquele dia uma pancada no joelho seria muito melhor.

    “Preciso de férias”.

    Foi a única coisa que passou pela cabeça do pobre Ribeiro durante toda a reunião. Principalmente por que nada de importante foi dito ou resolvido. De todas as reuniões do ano, com certeza aquela tinha sido a mais inútil de todas. Não que Ribeiro tivesse uma opinião diferente caso ela fosse uma reunião útil, ele só queria que aquele dia passasse logo. Pelo menos já passava da metade da tarde quando o pobre homem voltou para sua mesa. Ele encarou mais uma vez o calendário. Contou os dias novamente, olhou para o relógio e ficou ligeiramente animado. Mais um dia passou, faltavam treze.

    “Pessoal, vou passar na mesa de cada um pra sortear os nomes do amigo secreto”, disse alguém que passava no corredor. Depois de ouvir aquilo a pouca animação de Ribeiro virou pó. O rosto se enterrou nas mãos e ele grunhiu entre os dentes cerrados.

    “Eu preciso de férias… Muito mesmo”.

Dezembro

Eis que chegamos à ultima página do calendário. Finalmente caiu a ficha de que 2015 está nos deixando, levando consigo uma quantidade incontável de mazelas. Porém ainda não é dessa vez que comentarei sobre esse ano tão cabuloso, o texto de hoje tem como protagonista o décimo segundo mês do ano, mais conhecido como Dezembro.

Dezembro é um dos meus meses preferidos, muito disso vem dos tempos de escola, onde Dezembro sinalizava o final de mais um ano e o início de mais um período de férias. Os filmes de natal começavam a passar na televisão, a decoração das lojas mudava e o clima de fim de ano era tão presente que era quase palpável. Hoje em dia esse mês tão cabalístico não tem o mesmo gosto de antigamente, a vida adulta acabou me roubando um pouco daquilo que me contagiava nessa época. Isso acabou me permitindo observar os curiosos ritos presentes nessa época.

Quando você fica adulto os sinais do final de ano ficam um pouco diferentes. No lugar das provas finais nós temos trabalho pra terminar antes do recesso, no lugar do presente de natal nós temos o bom e velho amigo secreto, mas não tem arauto maior do final do ano do que a confraternização. Quando a gente é criança essa palavra passa um pouco longe do nosso radar, mas quando envelhecemos é praticamente uma lei do final do ano. Seja da turma do trabalho, da faculdade, amigos do tempo do colégio, pessoal da academia, aula de inglês, pessoal da trilha, do grupo de corrida, do grupo de ciclismo ou qualquer derivado, nessa época “confraternização” é uma palavra de ordem, tudo é desculpa pra se confraternizar. Afinal é disso que as festas de ano se tratam, todo mundo junto de mão dada celebrando o amor e a união entre os povos. O lance é que em boa parte das vezes você não vê muito motivo pra se confraternizar. Em boa parte das vezes você não quer quebrar a cabeça pra achar um presente de amigo secreto que não seja uma bosta. Por isso entramos na parte mais interessante do final do ano: você não quer parecer chato.

Essa época induz um comportamento muito curioso nas pessoas, não estou falando do desejo frenético de confraternizar como se não houvesse amanhã, me refiro à aversão que você desperta nessas pessoas quando não quer participar. Isso é tratado como um crime social,  talvez o único que não tem perdão e que realmente é visto com péssimos olhos pelos demais. Afinal que tipo de pessoa se negaria a dividir momentos preciosos com essas pessoas que fizeram o seu ano uma parada tão especial?

Hoje em dia eu não vejo mais filmes de natal na tv, não sinto muito o clima de fim de ano e não me empolgo muito com a decoração natalina. Hoje em dia o fim do ano é uma linha de chegada, não só por que minhas férias começam depois do natal, mas também por que dificilmente algo fica pro ano que vem. No final do ano realmente acaba e a sensação desse término é o barato do meu dezembro.

Incoerência

Quem tem idade pra se lembrar de como era a vida antes da internet ser o que é hoje viu uma série de hábitos que surgiram em função do avanço da tecnologia. Talvez uma das mudanças que mais influenciaram o comportamento das pessoas nas redes sociais foi o aparecimento da fotografia digital.

Se você está vivo a tempo suficiente pra lembrar do filme fotográfico e do termo “revelar foto”, provavelmente presenciou a mudança proporcionada pelo aparecimento das câmeras digitais. Ver como uma foto ficou sem precisar esperar uma versão física dela foi algo que maravilhou todo mundo na época, mas um detalhe acabou mudando a vida de muitas pessoas para sempre: agora era possível tirar infinitas fotos. Com o custo de revelação eliminado e a possibilidade de armazenar as fotos digitalmente, sem ocupar espaço físico, as pessoas adquiriram o curioso habito de tirar fotos que não tinham a menor intenção de guardar um momento para o futuro. A fotografia digital espalhou pelo mundo o habito de tirar fotos que não servem pra muita coisa. A maior representante dessa categoria fotográfica, sem sombra de duvida, é a auto foto, também conhecida pela alcunha irritante de selfie.

Antes que você, amigo leitor, pense que eu vou tecer uma crítica furiosa sobre as pessoas que fazem seus próprios retratos, peço mais algumas linhas para deixar claro o assunto desse texto. Eu não tenho problemas com pessoas que tiram fotos delas mesmas, também não tenho nada contra as pessoas que publicam essas fotos em suas redes sociais. O fato que me deixa com a cabeça levemente desgraçada não são as fotos, são as legendas.

Eu não sei como funciona esse lance de legenda de foto. Na verdade não sei como funciona esse lance de colocar uma foto sua com uma legenda que não tem ligação alguma com a foto.Eu sou de um tempo que a legenda servia pra ilustrar aquilo que estava na imagem, mas hoje não é raro olhar pro meu feed e ver uma foto, que poderia ser tranquilamente publicada sem legenda, junto de um texto que podia muito bem ter sido publicado sem foto alguma. Algum tipo de aura misteriosa envolve as redes sociais que faz com que as pessoas compartilhem a busca dos seus sonhos, perseverança diante das dificuldades, alegria de viver, fé em Deus e derivados juntamente com uma foto que não ilustra nenhum tipo de busca pelos sonhos, perseverança ou fé em Deus. A alegria de viver escapa, afinal é muito difícil alguém tirar uma foto todo triste. Lembrando que essa mesma foto poderia ser utilizada em qualquer uma das temáticas listadas anteriormente sem prejudicar a falta de conexão entre a imagem e o texto.

Caso alguém que esteja lendo isso aqui esteja ofendido com o que acabei de falar peço desculpas, não é nada pessoal. Se existe alguma lógica ou significado por trás dessa parada, infelizmente eu não consigo entender, inclusive prefiro continuar na ignorância. Não julgo nem condeno quem faz esse tipo de coisa, não me considero melhor do que os outros por não fazer, só acho que não tem problema em publicar uma foto sem legenda ou uma legenda sem foto. Já que elas não fazem parte uma da outra, não tem problema elas aparecerem separadas.

Contos de Segunda #24

Fernanda parou na frente do computador e apertou o botão de ligar. O humor dela não podia estar melhor, a noite de domingo tinha sido incrivelmente produtiva e o relatório seria entregue sem problemas na metade da tarde… Mas o computador não ligou. Ela apertou o botão novamente… Nada, nem um apito, bip ou ruído de espécie alguma. O humor dela começou a piorar. O botão foi apertado mais três vezes antes de Fernanda entrar em um frenesi e apertar a pobre peça plástica mais rápido do que os olhos podiam ver. Nada. Nesse ponto Fernanda já estava trincando os dentes e esmurrando a mesa. “Maldito computador”, pensava ela. O rosto estava quente de raiva, a respiração estava acelerada. Ela levantou e começou a dar voltas pelo quarto, quando a paciência chegou a um nível abaixo de zero um chute atingiu a mesa. Miraculosamente o computador ligou.

Pouco tempo depois a tela de login apareceu. Oito letras e um enter depois o humor de Fernanda começava a dar sinais de melhora. “Senha Incorreta”. “É o quê?”, pensou a pobre moça enquanto digitava a senha novamente. “Senha Incorreta”. Um punho cerrado caiu pesadamente sobre a mesa. “Senha Incorreta”. “Filho da …”, a moça quase explodiu de fúria. Depois de respirar fundo três vezes ela digitou a senha novamente, pouco antes de teclar enter ela notou que a tela não exibia o seu usuário. Depois de inserir o seu nome de usuário e a senha correta a tela exibiu um “Bem Vindo”. E foi só isso que a tela mostrou por mais de cinco minutos.

Nesse ponto Fernanda já estava cega de ódio. O tempo estava correndo e o relatório não estava ficando pronto. Quando o computador finalmente exibiu a área de trabalho a pobre moça foi direto na pasta de documentos. A pasta não abriu. Mais alguns cliques frenéticos e nada. Fernanda estava à beira de um infarte quando a pasta finalmente abriu, o arquivo do relatório também e o trabalho pôde ser concluído. Agora bastava enviar o arquivo por email e tudo terminaria bem. Foi quando a internet resolveu cair.

Naquele inicio de tarde um laptop saiu voando pela janela. Fernanda estava com seu relatório são e salvo na nuvem. Ela sabia bem disso, tudo tinha dado certo, mas o computador não podia sair ileso.

“Meu Amigo Secreto…”

Nesses últimos dias uma hashtag tem figurado bastante nas redes sociais, estou falando da tag #MeuAmigoSecreto. Caso você, caro leitor desavisado, desconheça o que diabos é esse lance de #MeuAmigoSecreto, não se preocupe pois eu vou esclarecê-lo. Façamos um exercício de imaginação, imagine todas aquelas indiretas que vemos todos os dias no facebook, imaginou? Agora imagine que essas indiretas são disparadas, não para gerar a intriga virtual nossa de cada dia, mas para expôr o mau comportamento de outro ser humano. Tudo isso sem necessariamente revelar a identidade do sujeito, naquele esquema de “você sabe que eu estou falando de você seu babaca”. Obviamente toda essa onda me inspirou para escrever esse texto. Nem preciso dizer que aquilo que vem a seguir não tem muita coisa a ver com esse movimento da internet brasileira.

    Esses dias, por causa da hashtag, me lembrei da tradicional brincadeira de amigo secreto. Fim do ano chegando e com ele a temporada de confraternizações. Não vai ser dessa vez que eu vou falar de todas as desventuras que envolvem essa tão desgraçada maravilhosa brincadeira do folclore nacional, vou me ater a um dos aspectos mais notórios da brincadeira: a hora de entregar o presente para o amigo secreto.

    Quando eu vi #MeuAmigoSecreto pela primeira vez no meu feed imaginei que fosse só alguém falando do seu amigo secreto, tanto é que eu nem li o resto, desde aquele dia eu fiquei com uma coisa na cabeça: como é cabuloso fazer esse jogo de adivinhação do amigo secreto. Descrever uma pessoa pode parecer fácil, mas não é muito quando o objetivo é não deixar os outros saberem de quem você está falando. Lembrando que na tentativa de dificultar o jogo da adivinhação você acaba falando um monte de coisa que não tem nada com nada e que pode inclusive gerar um descontentamento gigantesco no seu amigo secreto. Aí fica você com um sorriso amarelo e o seu amigo com cara de bunda, logo depois ele solta um sonoro “mas eu não sou (insira aqui a característica nada a ver que você falou)”. Apesar da situação descrita anteriormente ser bem chata ainda existe a maldita possibilidade do amigo secreto não concordar com alguma  coisa verdadeira que você falou, e pode ter certeza que vai aparecer um gaiato pra confirmar tudo dizendo “fulano é assim mesmo”.

    Pra encerrar eu gostaria de dizer que esse ano eu estou duplamente feliz. Primeiramente pelo fato de não estar em nenhuma brincadeira de amigo secreto e em segundo lugar por finalmente encontrarem uma utilidade pras indiretas nas redes sociais.

Vamos Falar Sério?

“Eu vou falar algo sério?”, essa é uma pergunta que eu me fiz assim que comecei a pensar no que seria o Cachorros de Bikini. Essa é uma pergunta que eu tenho me feito nesses últimos dias. Antes de responder tal questionamento prefiro explicar qual foi a origem dele.

A internet acabou proporcionando algo nunca antes visto na história desse país: todo mundo ganhou voz. Em uma era em que o textão toma conta de quase todas as redes sociais, por motivos óbvios o Twitter está fora dessa onda, e o mimimi se alastra como uma praga, ainda existem pessoas que usam a internet de forma racional para falar com seriedade sobre assuntos realmente relevantes. Para a minha sorte eu conheço algumas dessas pessoas. Pessoas que eu chamo de “amigos” e que, para minha sorte, também usam essa palavra quando se referem a mim. Em boa parte das vezes eu os encho de razão e assino em baixo daquilo que é declamado no meu feed. Nessas horas eu penso “talvez eu devesse expor minha opinião sincera sobre um assunto realmente relevante, afinal eu consigo falar sobre coisas sérias”. Logo depois eu paro e penso “será que eu devo mesmo?”.

Quando escolhi o nome “Cachorros de Bikini” o que eu tinha em mente era, em primeiro lugar, falar sobre coisas conhecidas de todos, mas de um jeito um pouco diferente do comum. Se eu consigo ou não fazer isso é outra história, mas a ideia sempre foi essa. Em segundo lugar eu sempre pensei nessas páginas azuladas como uma espécie de refúgio, um lugar onde o leitor pudesse desligar da vida real por um ou dois minutos. Um lugar onde o banal e o irrelevante podiam ser enxergados como coisas que realmente fazem a diferença na nossa vida, pelo menos por um ou dois minutos. Por isso quando eu estou tentando ter uma ideia para um texto novo a pergunta sempre volta. “Eu vou falar algo sério?”.

A resposta é sempre a mesma: Não. Quem me conhece há mais tempo sabe bem, quando eu começo a ficar sério em algum texto rola uma velha tesourada e alguma coisa acaba sendo censurada. Eu poderia falar algo sério e relevante? Talvez, mas não aqui dentro, aqui é não é lugar pra isso. Ser crítico e ácido é algo que eu até consigo, mas eu deixo pra ser assim fora daqui, caso contrário aquelas frases que aparecem junto com o título do blog seriam mentira. Aqui dentro temos “Coisas bestas da vida tratadas com o cuidado que elas merecem”, “Reflexões rasas sobre coisas profundas e reflexões profundas sobre coisas rasas”, por isso o Cachorros de Bikini se compromete a continuar “Sem nenhum compromisso de mudar a sua vida”. Caso você, caro leitor, queira ver opiniões balizadas sobre questões sérias e importantes, eu posso até indicar algumas pessoas muito mais competentes nesse campo do que eu pra você seguir, mas não espere isso de mim, pelo menos não aqui dentro.

Contos de Segunda #23

O despertador tocou outra vez. Era o segundo alarme. Marcelo estava acordado desde o primeiro e só levantaria da cama depois do terceiro alarme tocar. Era segunda-feira e Marcelo não tinha a menor pressa de levantar da cama, afinal hoje teoricamente seria seu ultimo dia no estágio. Mesmo decidido em trabalhar tão bem quanto nos outros dias, seu nível de empolgação era comparável a de uma pia de cozinha. O terceiro alarme tocou e ele pulou da cama.

O tempo estava meio nublado, mas fazia um calor dos infernos. A época do ano em que o sol do meio-dia ficava durante dez horas no céu. Marcelo tinha conseguido a façanha de subir no ônibus em movimento e não chegaria atrasado. Apesar dessa não ser a sua intenção, meia hora de atraso significaria meia hora a menos naquele ultimo dia. Ele passou pela recepção e entrou sozinho no elevador, refletiu sobre todas as outras vezes em que aquilo acontecera e em como esta era a ultima vez em que estava acontecendo. Quando o elevador chegou ao seu destino, Marcelo respirou fundo e saiu para encarar o último dia de sua rotina.

O final do seu contrato de estágio era desconhecido pelos demais colegas, qualquer evento de despedida só deixaria tudo pior, até por que boa parte daquelas pessoas não sentiriam falta dele. Marcelo sentou na frente do computador, enquanto esperava a máquina iniciar as funções reparou que havia um bilhete preso no teclado. “Vá na minha sala assim que chegar”, dizia o recado do seu supervisor que também era um dos gerentes do setor onde ele trabalhava. Mais uma vez ele respirou fundo, tentou colocar no rosto todo o ânimo que não tinha e seguiu para a sala do chefe.

Cinco minutos depois Marcelo saiu de lá. Pegou suas coisas e foi em direção ao elevador. Enquanto descia para a recepção lembrou das últimas palavras do chefe: “…vou te dar o resto do dia pra pegar os documentos e fazer o exame admissional. A partir de amanhã vou te explicar as suas novas funções”. Ele pensou na rotina que continuaria, na luta que seria acordar todas as manhãs, principalmente nas segundas, pensou em como os seus planos de vagabundagem foram frustrados e em como a função de estagiário tinha muito menos responsabilidade… Apesar de tudo isso o ânimo que estava no seu rosto era genuíno.

Tocou O Alarme

    “Tocou o alarme”. Talvez não seja algo que você pensa com frequência, mas com certeza é algo que você sente de vez em quando. Mesmo sendo seres, na maioria das vezes,  racionais, nós ainda temos instintos que dirigem muitas das nossas ações. Normalmente esses instintos são discretos, mas alguns deles funcionam como verdadeiros alarmes mentais e como todo bom alarme acabam nos deixando meio malucos.

    Não importa a situação, nem onde você esteja, em algum momento aleatório vai soar um alerta na sua cabeça avisando da necessidade urgente de fazer determinada coisa. Seja a vontade repentina de voltar pra casa ou um desejo irresistível de pegar um caminho diferente na ida pro trabalho. Em algum momento toca um alerta vermelho dentro da sua cabeça e ele não vai parar até você fazer aquela determinada coisa, e todos nós sabemos que agir contra alguns instintos básicos demanda um esforço mental cabuloso que normalmente gera uma série de sensações desagradáveis. Provando que de nada vale ser uma criatura racional quando o alarme inventa de tocar. O senso de urgência nos atinge sem aviso, nosso corpo entra em sintonia com o campo magnético da Terra e nos empurra para a direção que devemos seguir quase às cegas em um movimento quase involuntário, tudo para que o alarme pare de tocar.

    No meu caso acontece algo muito parecido com o instinto migratório de outros animais. Em dada época do ano toca um alarme na minha cabeça pra me avisar de que eu preciso tirar minhas férias. Acho que nem preciso dizer que ele tocou um dia desses e me motivou a escrever esse pequeno relato do cotidiano, na tentativa de diminuir a minha ansiedade pelos dias de folga. Ainda preciso encarar 30 dias na rotina pesada do fim do ano antes de ser temporariamente alforriado. Enquanto isso o alarme soa cada vez mais alto.

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