Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Contos de Segunda #28

    Márcio levantou radiante. Era a primeira segunda-feira de janeiro e o recesso de fim de ano tinha terminado. Mas as férias só estavam começando. Ele já tinha tudo planejado. Todas as segundas ele acordaria cedo pra ir à academia. Ele tinha feito um plano anual e pago tudo de uma vez, numa tentativa de se obrigar a não desistir da academia dessa vez. Depois ele assistiria séries até a hora do almoço, que na segunda se resumia ao que tinha sido possível salvar do almoço de domingo na casa dos pais. A tarde seria preenchida com leitura, principalmente por causa do eReader que ele tinha ganho no Natal. A noite seria reservada para ir ao cinema. E acabaria a segunda-feira, uma maravilha. Planos simples que não podiam dar errado.

    Na verdade podiam. Márcio sabia disso, mas preferiu ignorar. Afinal a esperança devia ser mantida.

    O despertador não tocou. Estava desligado desde o começo do recesso. Isso fez Márcio levantar duas horas mais tarde do que o previsto. Como o trânsito estaria ruim naquela hora, o percurso de cinco minutos até a academia se tornou uma caminhada de meia hora. No caminho de volta Márcio foi atropelado por uma ciclista idosa, esse acidente fez Márcio perder a chave do apartamento. Ele tinha uma chave reserva no escritório e outra na casa dos pais. Preferiu a segunda opção.

    Ligou para a mãe. Ela não estava em casa, mas a faxineira estava. A faxineira não sabia onde estavam as chaves e Márcio tinha uma alergia violenta que apareceria assim que ele colocasse o pé na área da faxina. Ele teria que esperar. Voltou pra academia e fez uma aula qualquer que fez ele sentir como se tivesse a coordenação motora de uma pia. Lembrou que a chave do carro estava no apartamento trancado. Pegou um táxi, apanhou a mãe no caminho e finalmente pegou as chaves. Obviamente ela o convidou pra almoçar, ele não podia recusar, pelo menos os restos que serviriam de almoço seriam salvos pro jantar.

    Depois do almoço percebeu que não tinha dinheiro para outro táxi. A mãe disse que o pai dele estaria de volta no meio da tarde e podia levá-lo. Foi o que aconteceu. Quando Márcio finalmente entrou em casa a tarde já estava quase no fim, todos os seus planos estavam frustrados. Pelo menos ele poderia ir ao cinema. Se houvesse alguma sessão na noite daquela segunda. Diante de tamanho fracasso a única alternativa foi fingir que a segunda estava só começando e começar o plano do início.

“…E Ano Novo Também”

2016 finalmente chegou e como só temos chance de falar sobre esse assunto uma vez por ano, não é nenhuma surpresa que o texto de hoje fala sobre esse evento tão especial que acontece todo ano: a celebração da chegada do Ano Novo.

    Dia 31 de dezembro é a data de uma das maiores, para muitos a maior, festa do ano. É quando celebramos a final de mais um ano e o início de um novo. Nesse dia é feito todo tipo de simpatia, promessa, resolução e derivados. Quando as pessoas manifestam seus desejos pro ano que vai chegar de várias maneiras, principalmente pela cor das roupas. Mas no fundo todo mundo quer a mesma coisa: um ano bom, um ano melhor ou simplesmente um ano diferente. A parte mais interessante disso é que na nossa cabeça tudo isso rola instantaneamente.

    Marcos cronológicos sempre nos fazem pensar de maneira episódica. Vivemos dividindo a vida em etapas. Os anos da escola e os períodos da faculdade nos ajudam a pensar dessa maneira, além da convivência com todas as outras pessoas que foram, de certa forma, tão induzidas a pensar dessa forma como nós. A verdade é que não funciona exatamente desse jeito.Dividimos nossa vida em anos, mas os anos não dividem nossa vida. As etapas que passamos tem transições suaves e graduais, nada é tão imediato quanto gostamos de pensar.

    É provável que aquela grana que você desejou quando colocou sua roupa amarela só venha em abril, ou aquela dieta que você prometeu fazer só faça efeito lá pra fevereiro. Os resultados da academia que você falou que ia começar a frequentar só devem aparecer mesmo lá pra metade do ano. A promoção no trabalho ou aquele grande amor talvez só deem as caras lá pra outubro e é provável que tudo que você falou que ia ser nesse ano não seja realidade até antes do próximo natal. Se alguma das coisas listadas acima acontecer, não quer dizer q você é azarado, nem relapso ou coisa do tipo. Só nos lembra que o calendário não é um jogo do Mario, você não vai sair da fase do deserto e cair direto na fase do gelo pra depois ir direto pra fase espacial.

    Mesmo com o calendário dizendo o contrário, 2015 ainda não terminou. Os ecos de seus acontecimentos ainda serão ouvidos por um bom tempo. Uma transição gradual e suave, como sempre foi, mas a gente nunca lembra disso. Mesmo assim algo já está diferente, é só prestar atenção. Feliz Ano Novo, e um ano bom pra todos nós.

Retrospectiva 2015

    2015 acaba amanhã e nada mais justo do que o último post do ano ser um ligeiro resumo do que aconteceu ao longo desses últimos trezentos e sessenta e poucos dias. O texto de hoje é um pouco mais sério do que de costume. Espero que você não se importe.

    2014 foi um ano muito cabuloso. Graças a isso todo mundo esperava de 2015 uma folguinha. Mas no lugar disso tivemos um ano que se esforçou pra superar o seu antecessor. 2015 foi cabuloso na  mesma proporção, mas ele conseguiu ser cabuloso de uma maneira muito diferente. Esse ano foi o ano do absurdo.

    De dólar batendo quatro e vinte até barragem de lama rompendo, passando por pedofilia ao vivo pra internet toda ver e policial batendo em menor de idade. Esse ano foi um ano de notícias que não davam pra acreditar. Cada olhada no jornal era um exercício de incredulidade. Um ano em que descobriram que uma mulher que fugiu por engano da Coréia do Norte, vazaram uma carta do nosso vice-presidente e bloquearam o Whatsapp é um ano digno de nota. E não citei esses últimos exemplos por serem mais importantes, mas por serem tão absurdos quanto as coisas sérias que rolaram nesse ano cão.

    Particularmente eu considero que 2015 foi um grande aprendizado. Normalmente é isso que a gente consegue aproveitar de tempo ruim. Esse ano muita coisa deu errado, muita mesmo. Apesar da quantidade grande de cagadas e arrependimentos acabei aprendendo uma ou duas coisas. Não necessariamente as coisas que eu de fato precisava aprender, mas foi o que deu pra fazer. Esse ano eu atingi picos de stress nunca antes vistos, tive alguns dos momentos mais divertidos e emocionantes da vida, ganhei um LEGO de presente, comprei uma estante e finalmente coloquei o Cachorros de Bikini no ar. Comecei a ver coisas que eu não via antes e olhar de forma diferente pra coisas que eu sempre enxerguei.

    2015 nos deixa meio quebrados. Foram quase doze meses apanhando desse calendário que demorou pra terminar. A mensagem que ele deixa pra 2016 é simples: lute. Se 2015 foi carrasco, 2016 não quer ficar atrás. Lute. Esse ano tudo vai jogar contra a gente. Lute. Não precisa levantar bandeira nem se alistar em nenhum exército, basta enfrentar e resistir. Lute. Foram o que os bons exemplos de 2015 me mostraram. Foi o que eu aprendi com Imperatriz Furiosa em Mad Max, Rey em Star Wars e com várias mulheres de carne e osso que levantaram suas vozes em 2015. 2016 está nos chamando pra briga e não temos como fugir. Lute, mas se é pra lutar, lute como uma menina. Elas entendem muito bem disso, bem mais do que você pode imaginar.

 

Contos de Segunda #27 – Parte 02

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Leia a primeira parte do Contos de Segunda #27 AQUI

“Deu merda, me liga”. Foi essa a mensagem que apareceu no celular de Jorge no começo da manhã. A mensagem era do chefe do departamento jurídico.

    — Sabe aquele deputado que ia fazer umas denuncias ontem?  Ele jogou um monte de gente na fogueira, inclusive um dos sócios da nossa empresa. Estou pegando o avião em cinco minutos pra encontrar com ele. Já falei com a equipe, vai todo mundo pro escritório agora de manhã, mas depois todo mundo vai meter a cara na rua pra resolver o que eu não puder. Você vai ficar por lá pra trabalhar com o pessoal de comunicação, precisamos emitir uma nota oficial e precisamos segurar a onda da imprensa. Era só isso, vou correr pro avião.

Jorge desligou. Para ele o resumo daquela ópera era o seguinte: ele teria de trabalhar no dia da confraternização da empresa e ainda teria que fazer isso na companhia ilustre de Cristina, quem normalmente era chamada para apagar esses incêndios.

Bom dia, pessoal.Quem vai fazer o quê hoje?”, disse Jorge no chat em grupo do pessoal do jurídico.

Eu vou colar na galera da contabilidade pra saber se alguma grana estranha entrou ou saiu nos últimos tempos… E nos tempos antes desses últimos”, respondeu Paulo César.

Eu vou entrar nessa com PC”, disse Rômulo.

Eu também”, reforçou Silveira.

Eu vou pro banco ver as movimentações das contas do cara ligadas à empresa”, disse Oscar.

Eu tô com Oscar”, completou Roberta.

Então não vai ter ninguém pra me ajudar com a amiga de Roberta?”, perguntou Jorge.

Desculpa, boy. Essa guerra hoje é só tua”, respondeu Roberta.

A palavra ‘boy’ devia ser proibida nesse grupo“.

A “guerra” em questão chegou um pouco depois das onze. Com uma garrafa de champagne que acabara de ganhar na confraternização e um humor tão bom quanto uma joelhada na quina da mesa.

— Bom dia, Cristina — Disse Jorge calmamente — Imagino que já saiba qual a nossa situação.

— Bom dia, Jorge — Disse ela impaciente —  Fui informada por alto, preciso saber do tamanho da confusão. Deixa só eu arrumar uma geladeira pra essa garrafa e a gente pode começar.

A confusão era gigante. O tal deputado estava com lama até o pescoço e saiu atirando pra todos os lados. O telefone não parava de tocar. A imprensa já estava na porta e o chefe do jurídico estava a beira de um ataque de nervos. As notícias que chegavam eram um pouco mais animadoras. As contas da empresa estavam limpas e nenhum dinheiro estranho tinha entrado por lugar nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O relógio já marcava 16 horas quando todas as informações chegaram e a nota oficial pôde ser concluída. O trabalho estava terminado.

— Terminamos — Falou Cristina com um suspiro.

— Pelo menos por enquanto — Completou Jorge verificando o celular— Preciso correr. Compromissos de fim de ano.

Uma mensagem piscou no celular de Cristina. Era Luciana.

Confra das meninas ficou pras 19h. Roberta disse que fica livre em 1h. E vc?”.

Estou quase saindo. Já fosse pra casa?”, respondeu Cristina.

Já, vem pra cá e a gente vai daqui. Nem invente de aproveitar pra beber com teu boy, traz o champagne que a gente bebe na volta da confra”.

— Também preciso correr – Disse Cristina tentando não se irritar com a última mensagem da amiga — Preciso pegar meu champagne na geladeira, você chama o elevador?

— Claro.

O elevador chegou um pouco antes de Cristina. Os dois entraram e automaticamente a atmosfera profissional se dissipou, dando lugar ao clima incômodo de sempre. Apenas cinco andares separavam os dois do térreo. Pareciam cinquenta. Cristina estava visivelmente impaciente e a impaciência dela estava começando a contaminar Jorge. Dois andares agora. As luzes do elevador começaram a falhar e ele parou. Ficou tudo escuro por alguns segundos antes das luzes de emergência acenderem.

— Só me faltava essa — Esbravejou Cristina antes de apertar o botão do interfone do elevador — Alô? Alguém ouvindo?

— Alô, boa tarde — Respondeu a voz do outro lado — Vocês ficaram presos no elevador?

Cristina respirou fundo três vezes antes de responder.

— Acho que só usam esse interfone em casos assim.

— A gente vai chamar o pessoal da manutenção, mas acho que vão ter que esperar a energia voltar.

Cristina soltou o botão do interfone e olhou para Jorge. O advogado estava aparentemente tranquilo. De alguma forma aquilo fez o sangue de Cristina esquentar.

— Você deve estar achando tudo isso uma maravilha, não é?

— Hã? Ficou doida, Cristina? Eu estou cheio de coisa pra fazer, atrasado e preso no elevador com uma pessoa que não é o que eu posso chamar de “melhor amiga”.

— Conversa, Jorge — O tom da voz dela começou a se elevar — Tá na cara que você se diverte muito com tudo isso. Faz meses que eu tenho que aguentar todo tipo de brincadeira por sua causa — Ela estava com o indicador no peito dele.

— Como é? Eu tive tanta culpa quanto você — O esforço para manter o controle era enorme nesse momento — E muito menos culpa do que a sua amiga.

Ele estava certo. Luciana era o arauto de todo esse caos. Foi por causa dela que a história vazou, mas ela não podia admitir. Só ela podia fazer esse tipo de acusação.

— Luciana não se aproveitou de ninguém louco de tequila.

Aquilo era golpe baixo. Jorge trincou os dentes. Finalmente ela tinha conseguido tirá-lo do sério.

— Não me venha com essa, Cristina. Você não estava tão louca assim. Ninguém ia fazer nada que você não quisesse.

— Me dê um motivo pra não enfiar a mão na sua cara.

— Você sabe que eu não estou errado.

Ela ficou sem ação. De fato ele não estava totalmente errado. As memórias daquela noite eram fortes o suficiente para que ela soubesse disso. E o relato de Luciana foi tão preciso que amnésia alcoólica não era um problema. A discussão havia terminado. Cristina sentou no canto do elevador, pegou um saca-rolhas de dentro da bolsa e abriu o champagne

— Eu te odeio, Jorge.

— Mas ainda vai precisar de mim pra terminar essa garrafa.

— Eu vou precisar de uma carona. E você, meu querido boy, é o amigo da vez.

Uma hora depois a energia voltou e o elevador funcionou novamente. A garrafa de champagne estava pela metade e Cristina estava bêbada o suficiente para tratar Jorge como um ser humano. Eram seis da tarde quando o carro de Jorge parou na frente da casa de Luciana. Ela saiu do carro e bateu a porta, deu dois passos antes de dar meia volta. Ele baixou o vidro.

— Eu não vou agradecer, você estava me devendo — Ela fez uma pausa como se procurasse as palavras certas, na falta de outras melhores usou as de sempre — Eu ainda te odeio, Jorge.

— Feliz natal, Cristina, e um feliz ano novo.

O vidro subiu e o carro partiu. O telefone de Cristina tocou. Era Luciana que observava tudo da varanda do terceiro andar.

É Natal

    25 de Dezembro, também conhecido como Natal é uma das datas mais importantes do nosso calendário. Nesse dia celebramos o aniversário de Jesus, nosso chapa de longa data que ninguém sabe exatamente em que parte do ano nasceu. Celebramos também toda aquela parada de esperança, amor e união que veio junto com o nosso caro messias. Porém o Natal acaba tendo um gosto diferente pra cada um.

    Para alguns o Natal é a desculpa perfeita para reunir todos os parentes, ou pelo menos a maior parte deles. Para outros é a desculpa pra comprar uma tonelada de presentes, caros ou não. Obviamente não podemos esquecer daqueles que aproveitam pra comprar toda sorte de itens de vestuário com o tão esperado décimo terceiro. E tem aqueles que não fazem nada disso e só esperam chegar o pseudo aniversário de Jesus pra poder comer e beber até passar mal, ganhar um ou outro presente dos amigos e parentes mais altruístas e curtir a ressaca do dia 25 sem pressa nem culpa. Outros aproveitam pra replicar a mensagem de amor e união, mesmo quando elas mesmas passam o ano todo sem fazer a menor questão de amar ou se unir com ninguém. E não podemos esquecer das crianças, que são as mais envolvidas pela magia dessa data tão festiva… Ou são simplesmente os que ganham os melhores presentes.

    Natal é tradição. É habito e ritual. Natal é a data onde todos fazem a mesma coisa de todo ano. Sempre existe um ou outro ano em que rola uma exceção, mas sempre voltamos para a configuração padrão e quando menos esperamos estamos lá fazendo charada pra dizer qual tia é a nossa amiga secreta, reclamando do parente que fica perguntando do seu namorado, ou se você e sua noiva marcaram o casamento e de como o filho de fulana é fuleiro por não ter aparecido naquele dia tão especial. Por que se não tivesse nada disso não seria Natal.

    Pra fechar esse texto vou deixar uma musiquinha que combina bem com essa época. E com essa pequena canção o Cachorros de Bikini deseja a todos um feliz Natal.

Despertou

Foi em 2005. Lembro muito bem da comoção gerada, eu mesmo estava bastante animado pra fazer uma coisa inédita na minha vida: ver um filme de Star Wars no cinema. Não era qualquer filme, era a conclusão da nova trilogia, onde finalmente veriamos Anakin Skywalker se trasformar em Darth Vader. Independente dos defeitos do filme, ou da repercussão negativa que a trilogia nova teve entre os fãs, aquela era a despedida de Star Wars no cinema, pelo menos era isso que eu sentia na época.

    O Ano era 2012. Nesse ano recebemos uma notícia que pegou todos de surpresa: Star Wars foi comprado pela Disney. Todos sabiam o que isso significava, todos já podiam sentir o que estava por vir. Só precisávamos saber a data, mas todo mundo já sabia que Star Wars voltaria pro cinema e que não seria pelas mãos de George Lucas.

    Chegamos a dezembro de 2015. Depois de meses de ansiedade, finalmente entrei no cinema para ver mais um filme de Star Wars, com o sugestivo titúlo de O Despertar da Força. Mas eu não estou aqui pra falar sobre o filme. O que me motiva a escrever esse texto foi tudo que eu vi antes. “Despertar”, foi isso que eu vi ao longo de todo o ano de 2015. Durante todo o ano os fãs foram reaparecendo, relembrando uma paixão que estava meio esquecida. Fãs mais jovens ou mais recentes que nunca puderam assistir um universo tão querido nas telas do cinema finalmente teriam sua chance. Não só isso, ao longo de todo o ano muitos se descobriram fãs do universo povoado por Jedis, Siths, palco do conflito épico entre Império e Rebelião. Star Wars despertou dentro de muitos durante esse ano. “Despertar” define bem o que aconteceu esse ano, foi assim que muitos fãs nasceram do dia pra noite, contaminados pela empolgação dos mais antigos e contagiando os mais novos.

Talvez Star Wars seja algo tão singular dentro da cultura pop por isso, por ser algo que acaba passando de geração em geração, que une pessoas de várias idades através de um sentimento único. Foi esse sentimento que os caras do marketing apelidaram de “Força”. Assim como na mitologia dos filmes, algo que nos envolve e nos une. Sabendo disso não é de se admirar a minha felicidade ao ver minha mãe, que viu os primeiros filmes de Star Wars no cinema há mais de 35 anos, junto dos meus primos, que eram pequenos demais pra lembrar da última vez que Star Wars passou no cinema, e dos meus tios e do meu primo mais velho, que acabaram passando pra mim toda essa admiração que tenho pelo universo de George Lucas.

A Força despertou em 2015. Star Wars despertou em 2015. Despertou com uma cara nova, com a cara dos tempos de hoje, com empoderamento feminino e representatividade étnica, em uma galáxia distante que está cada vez próxima de nós. Não sei se alguém esperava algo diferente, mas eu não esperava mais do que o Episódio VII foi. A melhor parte disso tudo é que está só começando.

Contos de Segunda #27 – Parte 01

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Pronta pra confra das meninas?”

    Era isso que dizia a mensagem que acabara de chegar no celular de Cristina. Ainda eram seis da manhã e aparentemente sua amiga Luciana não estava com nem um pouco de sono. E com um humor tão bom que quase dava nos nervos.

    “Pronta pra encarar a confra com o pessoal do escritório?”.

    “Mais pronta impossível, amiga, meu boy não trabalha comigo”.

    Cristina trincou os dentes de raiva. Desde o “acidente” ocorrido durante o show de um cover do Pearl Jam, a vida de Cristina tinha ficado um pouco complicada. Noventa por cento dessa complicação era culpa de Luciana. Desde aquele dia a moça se dedicava apenas a criar situações onde Cistina deveria encontrar com Jorge, ou como Luciana gostava de chamar “o boy”.

    “Tá bom de parar de testar nossa amizade, Luciana

    “Tá bom de parar de enrolar e agarrar logo teu boy, até parece q tu não quer

    O celular foi arremessado dentro do guarda-roupa, por sorte ele ficou preso em um casaco qualquer e não sofreu nenhuma avaria quando caiu no chão. A vontade de ficar em casa naquele dia estava batendo recorde, mas hoje era dia da “confra das meninas” e as meninas em questão estariam todas na confraternização da empresa. Então Cristina tentou colocar um pouco de ânimo junto com a maquiagem e partiu.

    O salão onde aconteceria a festa era no mesmo prédio em que funcionavam os escritórios. Cristina chegou cedo, pontualmente às nove da manhã. Queria reunir a assessoria de imprensa antes do evento começar. O presidente da empresa sempre fazia algum anúncio nesse tipo de evento que acabava tendo alguma repercussão. Ela contava os fotógrafos quando uma voz debochada a fez perder a conta.

    — Procurando teu boy, Cristina?

    — Trabalhando, Luciana. Não são todos que já estão de folga.

    — Pois é, deve ser por isso que teu boy não vai aparecer hoje.

    — Ele não vem? — A surpresa na voz não podia ser disfarçada.

    — Sabia que ficaria chocada — Luciana parecia se divertir cada vez mais — Nem ele, nem ninguém da galera do jurídico. Rolou algum tipo de incidente diplomático e o mundo vai desabar. Pelo menos era isso que parecia quando eu falei com Roberta mais cedo. Ela não vai pra confra das meninas.

    — Espero que seja só com eles. Da última vez que rolou um “ incidente diplomático” o pessoal da comunicação passou uma semana trabalhando junto do jurídico.

    — Pelo que eu lembro. Você passou uma semana trabalhando junto do teu boy.

    — VAI PRO INFERNO, LUCIANA.

    — Relaxa, amiga. Jorge tá de castigo e ninguém vai ficar cochichando nas costas de vocês. Pelo menos hoje

    Por que era isso que acontecia há meses. A história de Cristina e Jorge acabou “vazando” e sempre tinha alguém cochichando quando os dois se encontravam eventualmente. Não acontecer nada disso em um dia em que a maioria dos colegas estaria sob efeito de álcool era um alívio. Foi quando o telefone tocou, era Roberta.

    — Cristina, temos um problema — disse Roberta com uma voz meio triste.

    — Só me faltava essa. Que problema, Roberta?

    — Daqui a umas duas horas você precisa subir pro escritório. Dessa vez rolou um lance meio pesado, vai ter que sair uma nota oficial da empresa.

    — Ok. Subo já já e você me explica tudo.

    — Não vai dar, amiga, a galera daqui vai passar o dia resolvendo coisas fora do escritório — Ela fez uma pausa — Só vai ficar uma pessoa… E você já deve saber quem é. Tenho que ir, a gente se fala.

    Cristina desligou o telefone com vontade de matar alguém, mas no lugar disso ela falou:

    — Luciana — Respirou fundo, contou até três e continuou — Acho que eu não vou poder ir pra confra das meninas.

 

Férias

Não é novidade pra ninguém que muita coisa que você fazia/dizia/sentia/gostava quando era criança muda totalmente quando você vira adulto. Elas são uma forma da vida te convencer de que a era de ouro da sua vida já  era e que toda esperança de que ela voltará deve ser abandonada e a vida tem que seguir rumo à maturidade. Um dos grandes exemplos disso é o significado diferente que uma das palavras mais sublimes da língua portuguesa pode ter. Estou falando das belas, maravilhosas e ansiosamente aguardadas Férias.

Quando você é criança, e até um tempo depois disso, as Férias nada mais são do que um período em que você fica longe da escola. É quando se tem tempo de sobra pra fazer a única coisa que dá pra fazer nas idades mais baixas: ser criança. Coisa que fica muito mais fácil quando a escola não está lá pra atrapalhar. Tudo isso muda muito quando a gente cresce, por um simples fato: um adulto é dono do seu próprio nariz, mas não é dono do seu próprio tempo.

Pra todo mundo, ou pelo menos pra maior parte das pessoas, chega uma hora da vida em que é preciso oferecer sua força de trabalho em troca de alguns cobres no fim do mês. Por causa disso todo o tempo que possuímos é gasto com o trabalho ou tem o uso que fazemos dele limitado por causa do trabalho. Por isso a sensação que se tem quando as Férias chegam e você é adulto é justamente a de que seu tempo é seu mais uma vez.

Mas ao contrário dos tempos de criança, nem sempre as férias chegam de maneira tranquila. Elas são um direito garantido de todo o trabalhador com carteira assinada, mas elas podem sofrer um ataque severo dos chefes e acabarem adiadas, reduzidas ou simplesmente ignoradas. Além disso nada pode ficar pendente. Sair de férias e deixar trabalho pra depois está totalmente fora de questão. O único trabalho que deve esperar pela sua volta é o trabalho que surgiu durante sua ausência e não o que já estava lá antes de você sair.

Depois de todas as barreiras vencidas e todos os gigantes derrubados é chegado o momento sublime em que sentimos nossas velas estufadas pelos ventos da liberdade e navegamos para as águas tranquilas de um paraíso onde o dinheiro entra na sua conta sem que uma palha seja movida.

Depois de alguns dias voltamos pra guerra. Em pouco tempo as férias serão limadas de nossas mentes e não serão nada além de um pensamento distante de uma outra vida que não parece ser a nossa. Mas é como diz aquela musica, você não precisa de férias quando não tem do que fugir… Mas todos nós temos e por isso tiramos férias.

2015, 75 Anos e 75 Textos

    Semana passada dei uma olhada no contador de postagens do painel do WordPress e percebi que estava se aproximando a postagem de número 75. Como eu tenho um certo gosto por números terminados em cinco, não podia deixar de fazer uma postagem alusiva a esse número tão bonito. Mas o que eu poderia falar sobre o número 75? Depois de matutar um pouco acabei lembrando que 2015 foi o ano em que vários personagens de histórias em quadrinhos completaram 75 anos, isso me levou a questionar: quem mais completou 75 anos em 2015?

    Começando pela música temos Sérgio Reis chegando ao 75º aniversário. Juntamente com Milionário, da dupla Milionário e José Rico. Além deles tem uns outros carinhas menos importantes como Ringo Starr e John Lennon, que morreu tem um bom tempo e nem chegou a ficar tão velho quanto seu outro companheiro de banda.

    No cinema temos umas coisas mais interessantes. Como os 75 anos do Pinóquio da Disney. Sim, você não leu errado, Pinóquio completou 75 anos em 2015 e provavelmente é um dos únicos, ou o único, filme de 1940 que é lembrado até hoje pelo grande público. Na lista de contemporâneos do garoto de madeira temos George Romero, o cara responsável por trazer os zumbis pro estrelato, Al Pacino, Bruce Lee e mais uma galera. Obviamente nenhum deles chega aos pés do ser humano mais notável que nasceu naquele ano, o mito maior das internets, Chuck Norris. Depois dessa vou até passar pro próximo tópico.

    Entre os personagens fictícios da televisão os maiores destaques são uma parte considerável do que passava no SBT quando eu era pequeno: Pernalonga, Pica-Pau, Tom e Jerry. Além deles temos Margarida, namorada do pato Donald, e Lassie, um dos cães mais famosos da ficção. Não sei se o que me deixa mais impressionado é a longevidade desses personagens ou o tempo que esses desenhos foram reprisados

    Por último eu gostaria de listar os personagens das histórias em quadrinhos que estão completando 75 anos em 2015. Entre os vilões mais relevantes temos o Coringa, talvez o vilão mais conhecido dessa lista, a Mulher Gato, o Cara de Barro e o Lex Luthor, o único dessa lista que não é inimigo do Batema. Entre os heróis temos as primeiras versões do Flash e do Lanterna Verde, o Espectro, o Capitão Marvel, que é atualmente conhecido como Shazam, e o primeiro Robin, Dick Grayson.

Sempre simpatizei com o primeiro Robin, e recentemente eu descobri, através de um podcast que eu gosto muito, que ele foi criado por que o Batman não tinha com quem interagir durante suas investigações. Como ficar discutindo sozinho era uma parada meio esquizofrênica, foi criado o menino prodígio. Mais tarde ele acabou servindo como desculpa pra questionar a sexualidade do Batman, o que acabou ajudando a desencadear uma onda de censura nos quadrinhos que moldou toda a indústria nos anos seguintes. Mas isso é assunto pra outra hora. Agora eu desejo parabéns aos aniversariantes e comemoro o 75º texto desse humilde blog.

Contos de Segunda #26

    Moacir estava com um humor péssimo. Desde o começo a segunda-feira estava tão maravilhosa quanto um tratamento de canal. Da topada no pé da cama ao acidente com café que acabou mudando a cor de uma camisa novinha, aquela segunda-feira estava se esforçando para ser um dia especialmente desagradável. Estava tão ruim que o humor do pobre Moacir estava começando a melhorar, afinal não tinha como o dia ficar pior.

–  Moacir, tira aqui o nome do teu amigo secreto.

O palavrão saiu da garganta, mas morreu entre os dentes trincados do pobre coitado. Ele respirou fundo duas vezes e tentou fingir que não era com ele.

– Moacir, tira logo o teu amigo secreto que eu ainda tenho que passar lá no pessoal do design.

A mão de um homem um pouco mais controlado puxou um papelzinho de dentro da sacola. Essa mesma mão se juntou com sua irmã gêmea para receber o rosto de um homem que nunca antes tinha desejado com tanta força a queda de um meteoro. Nem precisava ser um dos grandes, só o suficiente para esmagá-lo e terminar com aquela segunda-feira maldita.

Os amigos secretos com o pessoal do trabalho sempre eram um desastre. Perfumes que causaram reação alérgica, chocolates que causaram diarreia e uma caneca personalizada do time de futebol rival eram só algumas amostras dos presentes desastrosos que Moacir acabava comprando todo ano. Esse ano não seria diferente, ele sabia, por mais que ele se esforçasse nunca dava certo. Ele tentou comprar exatamente o que a pessoa queria, tentou pegar uma dica com colegas do setor do amigo secreto, tentou ser genérico e criativo. Nunca deu certo… Na verdade “dar certo” era um extremo tão oposto que as piadas sobre os presentes de Moacir costumavam durar até o carnaval.

A porta de entrada para a desgraça de todo fim de ano estava ali, em um pedacinho de papel. Pouco mais de uma semana para o dia do amigo secreto. A contagem regressiva acabara de começar e o stress já tinha atingido os níveis mais altos do ano.

“Qual vai ser o presente que eu vou transformar em desgraça esse ano?”, se perguntava Moacir a cada dois minutos enquanto voltava pra casa. Pelo menos ele podia comprar alguma desgraça barata, era ano de crise e ninguém se importaria de se dar mal a um custo baixo. Era nisso que estava pensando quando enfiou a chave na tranca da porta. “Hoje não podia ter sido pior”, era nisso que ele pensava quando entrou no apartamento. Mas a segunda-feira estava se esforçando de verdade para que aquele homem não tivesse um bom início de semana, e uma pergunta foi a cereja daquele bolo de cocô.

– Eita… Quem foi que eu tirei mesmo no amigo secreto?

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