Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Meus Problemas com Barba

Há mais ou menos dois anos já estava formado o embrião que se tornaria o Cachorros de Bikini. Naquela época eu escrevi alguns dos textos publicados nos últimos meses, alguns dos que ainda serão publicados e outros que nunca virão a público. Dentre os componentes desse último grupo está um texto com o sugestivo título de “Barba”.

Recentemente resolvi deixar os pelos da face crescerem a vontade, por isso publicar um texto da reserva com essa temática me pareceu uma boa ideia, mas alguma coisa me fez desistir. Puxei pela memória e percebi que o tempo afastou aquelas palavras de mim. Minha voz não estava mais naquele texto, pelo menos não como eu a escuto hoje, e isso me levou a refletir. O que mudou ao longo desse tempo?

Muito provavelmente a maioria das coisas continua no mesmo lugar, mas talvez eu tenha mudado ou mudado a minha relação com a minha barba. Quem sabe a qualidade do texto me pareça menor do que antes ou simplesmente o tema não me interesse como interessou na época. Será que no futuro olharei para meus cachorros publicados e pensarei a mesma coisa?

Foram só dois anos (na verdade um pouco menos), mas foi o suficiente para que alguma coisa mudasse e provavelmente as coisas continuarão mudando. Fico pensando se isso foi só o começo de uma mudança maior ou de uma mudança na ótica pela qual eu enxergo minha produção recente. Talvez em algum momento eu olhe para os cachorros que habitam nesse humilde sitio e perceba que as roupas de banho que eles usam estão fora de moda. Provavelmente algo desse tipo nunca vai acontecer, afinal estamos no Brasil e por aqui bikini nunca saiu de moda. Sem contar que sungas, maiôs e tanguinhas não me parecem trajes adequados para os meus cachorros.

Contos de Segunda #14

Quando Marcio repousou sua cabeça no travesseiro na noite do domingo ele estava feliz da vida. Afinal o dia seguinte seria um feriado e feriado em dia de segunda virou raridade nos últimos tempos. Por isso a segunda-feira de Marcio seria dedicada única e exclusivamente à preguiça.

Um plano infalível já estava traçado. Ele dormiria até tarde, ainda na cama começaria sua maratona de episódios acumulados das séries que acompanhava. Perto da hora do almoço ele finalmente levantaria da cama para pedir o almoço num restaurante próximo de casa. Como o dono era chinês, o estabelecimento não fechava dia nenhum e, apesar de não ter serviço de entregas, o restaurante entregava em qualquer lugar onde o pobre faz-tudo conseguia ir e voltar  a pé em menos de vinte minutos. Depois do almoço terminaria o livro que estava encostado há meses  e logo depois ligaria o video game e só desligaria para jantar os restos do almoço. Antes de dormir ele assistiria a novela infantil da vez, coisa que ele faz escondido de todo mundo. Assim acabaria o feriado, estava no plano, não tinha como dar errado.

Tinha. Sempre tem. Tanto é que teve.

O despertador tocou às cinco e meia como em todos os outros dias. Marcio pulou da cama e conseguiu desligá-lo cinco segundos depois. Conseguiu voltar a dormir, mas acordou uma hora depois com o som de um acidente de transito na rua onde morava. O som da cantoria dos pneus ativou uma memória quase suprimida de quando ele quase fora atropelado. A quantidade de adrenalina descarregada no sangue foi o suficiente para eliminar os últimos restos de sono que ainda resistiam. Ele teria que pular para a segunda parte do plano e iniciar a maratona de séries.

A maratona começou bem. A sequência de seis episódios só foi interrompida pela fome. Fome que foi bem difícil de matar, já que Marcio estava porcamente munido de provisões. O resultado foi a mistura de restos de várias coisas meio velhas que estavam na geladeira, tudo empurrado pra baixo com um copo de leite que não parecia estar muito dentro do prazo de validade. A maratona teria voltado com força total, mas um poste fora danificado no acidente que aconteceu mais cedo, a energia estava caindo a cada dois minutos. O término do livro teria que ser adiantado.

A satisfação de finalmente cumprir com perfeição uma das partes do plano foi enorme. Dois capítulos excelentes fechando a trama e dando espaço pra uma continuação que já estava confirmada. Já era hora do almoço. O telefone do restaurante tocou duas vezes antes de ser atendido, mas não haveriam entregas naquele dia, o faz-tudo estava no hospital. O mesmo carro que atropelou o poste na rua de Marcio havia atropelado o pobre rapaz dois quarteirões antes.

Diante dessa quantidade cavalar de infortúnios o plano foi abandonado. Marcio partiu a pé para a casa da mãe, já que o portão da garagem do prédio não abria por falta de energia. Os sobrinhos estavam lá e sua mãe sempre fazia um almoço bom quando ele aparecia. Ele acabaria jogando damas com o pai e jogaria conversa fora com a irmã. Talvez quando ele voltasse o poste estivesse consertado. Talvez não fosse possível jogar video game, mas ainda desse para ver a novela.

Solidão

Muitas vezes nos deparamos com uma situação bastante singular em nossas vidas: a Solidão. Antes que o nobre leitor me julgue mal, quero deixar claro que este não é um texto sobre relacionamento, homem ou mulher que sai pra comprar cigarro e não volta mais ou sobre aqueles pobres corações esquecidos pelo Cupido. Não, eu vou falar do fato puro e simples de estar em um lugar totalmente livre da presença e/ou interferência de outro ser humano.

Ficar sozinho não é algo difícil de acontecer. Em vários momentos nos vemos sem ninguém por perto, seja no trabalho ou em casa. A diferença está justamente na forma em que cada um encara a falta de companhia.

Para muitos a solidão é uma benção. Um breve, ou nem tão breve assim, momento de paz em que os pensamentos são os únicos que ainda teimam em se aproximar. Para outros a solidão é disfarçada com o som da televisão, música, rádio ou simplesmente por alguma rede social qualquer, mas nem por isso ela se torna menos agradável. Há também aqueles fingem estar sozinhos, seja por necessidade de concentração ou por pura antipatia, e dão um jeito de se isolar dos demais. Cabe uma menção honrosa aos fones de ouvido, que tanto nos ajudam nessas horas.

Tem aqueles que amaldiçoam os momentos em que estão desprovidos de companhias. De fato a Solidão não é uma acompanhante muito agradável em muitas ocasiões. Não ter nenhuma outra pessoa por perto pode ser extremamente perturbador, se não fosse assim os prisioneiros iriam pra uma “Coletiva” e não pra uma “Solitária”. Nada pior do que passar por um dia ruim e não ter nenhum ombro amigo onde se possa chorar pelo leite derramado. Tal situação também é um terror para os excessivamente comunicativos, também conhecidos como tagarelas, matracas ou similares, porém o Silêncio se mostra mais vilão do que a Solidão em si, já que ouvir apenas o som da própria voz é igualmente perturbador.  Talvez isso seja um dos causadores de grande parte do que vemos em todas as redes sociais, que estão cada vez mais apinhadas de pessoas querendo um pouco de atenção.

Quanto à minha relação com a Solidão não tenho muito o que dizer. Todo aquele que tem gosto pela escrita sabe dar valor aos momentos solitários, já que dificilmente alguém escreve acompanhado. Mas a Solidão só é boa mesmo quando você sabe que chega a hora em que ela acaba. Até os escritores, maiores exemplos dos que fazem trabalho solo, escrevem pensando nos outros, pois escritor sem leitor é das duas uma: egoísta ou o ser mais solitário da face da Terra.

Segunda-feira Treze

Treze. Um número bastantes controverso que tem uma série de partidários, desafetos e eleitores, podendo representar tanto a sorte quanto o azar. Numero esse que combinado com um dia da semana e um mês do ano faz um dos combos mais famosos no universo da superstição: a Sexta-feira 13 de Agosto.

Em 2015 o mês de Agosto passou e não teve sexta 13, mas por um acaso eu acabei vendo o 13 combinado com um outro dia da semana nesse mês 08 de 2015. Nessa ultima segunda-feira, 31 de Agosto do ano da graça de 2015, foi publicado o décimo terceiro texto da série Contos de Segunda. Uma segunda-feira (o oposto de uma sexta), dia 31 (que não passa de um 13 invertido). Em meio a essa quantidade inexplicável e sem nenhum significado de coincidências eu publiquei um texto que acaba servindo de marco. Não tem nada a ver com o numero 13 em si, mas sim com o fato desse texto marcar a décima terceira semana de Cachorros de Bikini no ar.

Lembro de um dia ter contado nove textos dentro de uma pasta, hoje eu conto treze semanas de trabalho. Mantendo sempre a rotina de publicar três textos por semana, o que não é lá grande coisa, sem nunca atrasar, o que também não é grande coisa. Independente da quantidade de acessos e leitores, as primeiras semanas de vida desse blog foram um teste. Me desafiei e consegui, produzi mais do que eu esperava e publiquei tanto quanto eu queria.

Segunda 13. A décima terceira. Espero ainda publicar muitos outros treze. Espero continuar contando todas as semanas sem falhar nas publicações. Para finalizar com os números, cabe lembrar de que este é a publicação de número quarenta do Cachorros de Bikini e eu sinceramente espero ainda ter bem mais que treze ideias pulando da cabeça direto pro papel

Contos de Segunda #13

Robson queria fugir. Não, ele não é parte da população carcerária Brasileira. Robson trabalha num escritório de direito, de terno e gravata, todos os dias das 8 às 17. Não havia ninguém tão correto no trabalho quanto ele, que sempre chegava no horário e nunca faltava, mas secretamente ele nutria um desejo: fugir do trabalho

A raiz disso está nos tempos do colégio. Um belo dia o jovem Robson escapuliu do colégio cerca de uma hora e meia mais cedo do que o normal. Não parece muito, mas aquela sensação de estar em um lugar onde não deveria embriagou aquele adolescente que hoje estava dentro de um escritório. A sensação de fugir com certeza seria mais forte, pelo menos era isso que ele imaginava, e só era possível fazer tentando.

Ao longo da semana anterior Robson plantou uma série de informações falsas e, até certo ponto, contraditórias. A secretária do departamento sabia que ele estaria no fórum, seus amigos de baia o ouviram comentar sobre como estava chegando o último dia para recorrer de uma multa de estacionamento que ele levou por engano, a recepcionista lembrava de ouvir algo sobre ele precisar ir ao médico, seu chefe estava em reunião com clientes importantes durante todo o dia. Ninguém estranharia a ausência dele.

A ideia não era simplesmente escapar e ir para casa. Ele fugiria para algum lugar onde as pessoas estariam plenamente convencidas de que ele não devia estar ali. Por isso ele iria para a praia, de gravata, em uma segunda-feira. Quando a hora do almoço chegou ele esperou que todos saíssem, pegou suas coisas e partiu. Passou o corredor com passos acelerados, evitou o elevador e desceu os quatro andares de escada até o estacionamento, no dia em questão ele tinha vindo com o carro da irmã que, apesar de ter uma cor meio feminina, tinha uma película escura nos vidros. Chegou na rua e foi para a praia.

Liberdade. O gosto doce daquela dama preenchia sua boca e transbordava em forma de um largo sorriso. Nem o transito, nem a falta de vagas desanimaram Robson, muito menos o tempo meio nublado. Quando os pulmões dele se encheram daquela brisa salgada e ele viu um homem bastante familiar sentado em uma cadeira na areia. Embaixo de um guarda-sol estava o seu chefe, de gravata e com as mangas arregaçadas, tomando água de coco com um ar de felicidade extrema. Robson decidiu que iria para casa, pelo menos seus dois filhos estariam plenamente convencidos de que ele não deveria estar ali.

Agosto

Agosto acabou. Na verdade ainda tem um restinho de mês pela frente, mas na prática esse mês já era. Gostaria de fazer uma bela introdução a este assunto, mas o tema me deixa tão impaciente que, provavelmente pela primeira vez, eu vou direto ao assunto. Pra mim Agosto é o pior mês do ano.

Peço perdão aos queridos amigos que completam idade nova em Agosto e aos pais, que são homenageados nesse mês tão cabuloso, mas preciso expressar a antipatia que nutro pelo mês 08 do ano. Começando por ser o mês de volta às aulas, passando pelas superstições populares e finalmente chegando ao fato de Agosto não ter nenhum feriado, além de, na maioria dos anos, chover tanto quanto em Julho e ser tão quente quanto Setembro, vemos que Agosto tem tudo pra ser um dos piores meses do ano, mas de uns tempos pra cá creio que ele ficou muito pior.

No trabalho Agosto tem sido um dos piores meses do ano, justamente por ser o verdadeiro inicio do segundo semestre, uma prévia da desgraça que vai ser o fim do ano em relação às demandas profissionais. Sem contar que Agosto é um mês ruim pros lojistas de varejo, tirando o dia dos pais ninguém compra nada em dia nenhum. Até a quantidade de casamentos cai drasticamente em Agosto. Na minha cabeça se existe um mês em que uma noiva não quer se casar é por que tem alguma coisa muito errada com ele.

Mês do desgosto, mês do cachorro louco, e a velha piadinha de calendário “Agosto… A gosto de Deus”, tudo joga contra o oitavo mês do ano. Se a maioria das pessoas tem problemas com a segunda-feira, eu tenho com o mês de Agosto na mesma proporção. inclusive vou encerrar esse texto antes do previsto apenas pelo fato de ter “Agosto” como título.

Só Não Pode Deixar Morrer

Quem mora no Recife sabe que algumas das melhores e mais antigas bancas de jornal da cidade estão na Av. Guararapes, Centro do Recife, por isso toda vez que eu vou fazer alguma coisa pelo Centro acabo passando por lá pra dar uma olhada nos quadrinhos. Por um mero acaso acabei entrando numa rápida conversa trivial com o senhor dono (pelo menos eu imagino que seja o dono) da banca sobre uma certa coleção de encadernados que anda saindo e está fazendo bastante sucesso. Tal conversa acabou me fazendo levantar um ponto relevante em relação ao meu relacionamento com as histórias em quadrinhos. Apontei três razões principais que não me deixavam comprar tudo que eu gostaria de ler: a falta de tempo para ler, falta de espaço pra guardar e a falta de grana. A resposta que eu recebi me pareceu tão interessante na hora que me motivou a escrever o texto dessa quarta-feira.

“Tempo a gente arruma”. Faz tempo que o tempo anda apertado. Se você tem a mesma sensação te dou os parabéns por já ter virado um adulto. Infelizmente o tempo é um recurso cada vez mais escasso e nós, pobres seres humanos, temos o costume de diminuir o tempo disponível para nossos hobbies e atividades recreativas de uma maneira geral. Com um pouco de esforço é possível arrumar uma brechinha na nossa vida corrida pra encaixar as coisas que fazemos por pura e simples satisfação. Cara da Banca 1×0 Filipe.

“Espaço a gente ajeita”. Quem é adepto da mídia física sabe o problema que é guardar a coleção, seja de livros, revistas ou seja lá o que for. Muitas vezes a decisão de comprar ou não comprar leva em conta o espaço disponível na estante ou prateleira. Esse tipo de raciocínio acaba sendo levado um pouco pra nossa própria vida. Quantas pessoas se privam de conhecer alguém por não ter “espaço” em suas vidas para um relacionamento? E os que deixam de fazer aquela aula daquele idioma esquisito ou desistem de voltar a estudar por acharem que já tem muitos afazeres na vida e não querem mais uma coisas pra se preocupar? Mais um ponto pro Cara da Banca. Cara da Banca 2×0 Filipe.

Obviamente ele teve que concordar comigo sobre o fator grana. Pelo menos dessa vez nós dois marcamos ponto. Cara da Banca 3×1 Filipe. Mas o que ele me disse depois foi o que realmente me impactou:

“Só não pode deixar o quadrinho morrer”.

Claro que o mercado brasileiro de quadrinhos está muito longe de ser o paraíso para as editoras, grandes e pequenas, que se atrevem a publicar obras de arte sequencial, mas será mesmo que ele estava falando sobre isso? Acredito que essa frase poderia ser lida como “Só não pode deixar o quadrinho morrer pra você”. Fim de jogo, vitória do Cara da Banca.

Contos de Segunda #12

Sono. Era o que Jorge sentia quando buscou a irmã no aeroporto às duas horas da manhã do sábado. Depois de uma série de problemas com a bagagem ele ainda sentia sono às oito da manhã, hora em que sua tia deveria estar chegando na rodoviária. Porém um acidente envolvendo duas motos, um caminhão cheio de melancias e uma viatura do Corpo de Bombeiros só deixou a pobre senhora chegar ao seu destino às dez. Jorge continuava com sono.

Sono este que persistiu ao longo de todo o sábado, enquanto Jorge ajudava o pai a comprar toda a comida e bebida que seria consumida no domingo. Os pais de Jorge completariam trinta e cinco anos de casados, a festa seria boa, parentes de todos os lados fizeram questão de aparecer. Parentes como os quatro primos de Jorge que chegaram às onze da noite, duas horas depois de dois tios e uma tia. Todos eles foram buscados por Jorge, que caiu na cama à meia-noite e acordou as cinco para começar a encher quatrocentos e noventa e oito balões de hélio.

Depois de encarar uma maratona de domingo com todos aqueles parentes, que comiam, bebiam e faziam muito barulho, Jorge só conseguia pensar no quanto estava com sono, em como estaria com sono no trabalho na segunda-feira e de como aquilo já parecia tão ruim dentro da sua pobre cabeça. E seria bem ruim, caso o despertador tivesse sido ouvido. Se Jorge tivesse conseguido chegar no escritório antes da hora do almoço, se a reunião dos chefes não tivesse durado a manhã toda ou se a simulação de incêndio não tivesse acontecido vinte minutos atrás. Apesar de tudo isso, ainda havia um problema que continuava sem solução. Jorge ainda estava com sono.

Não Deu pra Terminar

Sentei na cadeira. Escrevi. Não consegui continuar. Parei pra ler. Ficou ruim. Levantei e arrumei algo melhor pra fazer.

Foi exatamente isso que aconteceu com um texto que eu queria escrever há tempos. Um tema que na minha cabeça prometia, tema bastante conhecido por mim inclusive: a hora extra. Tive umas ideias, pensei que ficariam legais no papel. Eu comecei o texto até empolgado. Mas não veio, não deu aquele barato. Quando eu percebi que o processo de escrita estava me incomodando resolvi ler o que tinha saído até então. Na hora eu notei, mas demorou pra que finalmente eu aceitasse. Ficou tão ruim que não dava vontade de continuar escrevendo.

Não é a primeira vez que acontece. Faz tempo que eu abandonei a ideia de que cada texto escrito precisa ser melhor do que o anterior. Mas esse texto conseguiu me tirar o sossego. Não sei se foi a frustração de ver um tema, aparentemente, divertido ser transposto pro papel de forma tão desinteressante e sem brilho.

Eu queria ter conseguido falar sobre a trilha sonora pitoresca que rola nas horas extras, das besteiras que a galera consome e das coisas esquisitas que acontecem conforme o relógio avança. De como a proximidade da meia-noite nos deixa com as ideias trocadas e de como é chato chegar de manhã no escritório e ver que o sono te fez esmerdalhar tudo e que o seu adicional noturno não valeu de muita coisa. Fazer isso tudo de um jeito interessante não rolou. Sério. Não deu.

Fiquei desanimado um tempo. Isso somado com as correrias da vida me fizeram perder um pouco da vontade de escrever por um tempo, mas agora já foi. Não tenho coragem de apagar o coitado, assim como não apaguei os meus outros escritos que deram errado, pouco certo ou ficaram bem ruins. É bom deixar ele lá pra caso eu escreva alguma coisa muito boa. Vou precisar de algo pra me lembrar que a qualquer hora eu posso escrever uma coisa muito ruim.

Tá Tudo Uma Bosta

O título dessa postagem não é uma frase de minha autoria, ela foi dita por uma amiga/leitora. Foi um dia desses, quando eu perguntei “Como estão as coisas?” e ela prontamente me respondeu “Tá tudo uma bosta. (foi mal a negatividade rsrsrs)”. De fato estar tudo uma bosta é uma situação bem longe do ideal, mas o que realmente me chamou a atenção foi o “foi mal a negatividade”. Naquele instante um tema pro texto dessa quarta-feira apareceu.

Desde muito jovens somos encorajados a responder perguntas do tipo “Tudo bem?”, “Como você está?” e similares com uma resposta positiva. Basta lembrar das aulas de inglês, onde as únicas respostas que aprendíamos a dar eram “I’m fine, thanks” ou algo similar. A atitude positiva automática é uma coisa que entra na nossa programação tão cedo que constatar a verdade através de uma resposta negativa nos parece um crime. Principalmente hoje, quando existe praticamente uma ditadura da felicidade.

Em um mundo em que pessoas fazem uma propaganda massiva da própria felicidade, não se sentir feliz é visto com maus olhos. Ser sincero ao ponto de dizer que tudo está uma bosta é classificado por muitos como pessimismo, negativismo ou puro e simples exagero. Eu tenho pra mim que sempre tem algo bom acontecendo, mas em alguns momentos olhamos para os lados e chegamos a conclusão de que “Tá tudo uma bosta”. Nesses momentos se recriminar por pensar assim me parece tão errado quanto dizer que está tudo certo mesmo não estando. Pessimismo não é admitir que tudo está uma bosta, mas sim desanimar diante da bosta em que tudo aparentemente se transformou. Admitir que as coisas não vão bem é o primeiro passo pra colocá-las nos eixos.

Por último gostaria de deixar bem claro que, apesar de ser uma pessoa que oscila entre o realismo e o otimismo, já vi tudo ao meu redor se transformar em fezes algumas vezes. Não vou mentir dizendo que em todas essas vezes eu encarei com coragem e determinação todas as dificuldades. Bastou só um pouco de otimismo e paciência. Os tempos ruins sempre passam, mas enquanto eles não passam, não se sinta mal em admitir que está tudo uma bela bosta.

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