Cachorros de Bikini

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Tag: Detetive

Contos de Segunda #41 – Parte 02

Para ler o início dessa história é só dar uma lida em Contos de Segunda #29 e Contos de Segunda #32. Para ler a primeira parte desse conto, é só clicar no link e ler Contos de Segunda #41 – Parte 01.

O táxi até o jockey club consumiu praticamente tudo que restava na minha carteira. Segunda-feira não costumava ser um dia movimentado, os páreos principais aconteciam normalmente no domingo. No máximo alguma categoria amadora ou juvenil competiria naquele dia. Diante do fraco movimento imaginei que seria fácil conversar com alguém que trabalha na bolsa de apostas. Passava um pouco do meio-dia e o tempo estava correndo. Angela dependia de mim para comprovar a sua inocência.

    Não demorou muito para encontrar a bolsa de apostas. Vários nichos protegidos por grades de ferro. Não era muito diferente de uma bilheteria. A maioria dos guichês estava fechada, apenas um estava aberto. Um funcionário operava uma máquina calculadora e não parecia notar a minha presença.

    — Boa tarde — tentei parecer o mais gentil que o meu estômago faminto me permitiu.

    — Boa tarde, senhor. Hoje as apostas estão fechadas, voltamos só na quarta-feira.

    — Não estou aqui para apostar, meu caro. Estou aqui por causa de um apostador.

    — Não costumamos trabalhar com informações de nossos apostadores, senhor — uma resposta tão metódica e desprovida de emoção deixava claro a falta de suspeita daquele homem.

    — Vou ser bem direto. Preciso saber sobre alguém que ganhou alguma quantidade de dinheiro fora do comum nos últimos dias.

    — Infelizmente, senhor, nenhuma quantidade de dinheiro é considerada fora do comum na nossa bolsa de apostas. E de qualquer forma, eu não costumo ver os apostadores que vêm reclamar seus prêmios maiores.

    Aquilo teria me deixado encurralado, mas meu cérebro não me deixou na mão daquela vez.

    — Imagino que os apostadores mais antigos daqui se conheçam.

    — Creio que sim, principalmente os que costumam ganhar pouco.

    — Algum desses está por aqui hoje?

    — Não… Mas todos eles são conhecidos de Gregório. Gregório é o responsável pela manutenção dos estábulos. Todos vão atrás dele tentando conseguir uma dica valiosa. Você sabe, algum jóquei doente ou um cavalo que esteja mais cansado do que o normal.

    — Agradeço pela atenção, meu amigo. Boa tarde.

    Estábulos. Talvez a única área do jockey que funcionava sete dias por semana. Alguns cavalos ficavam aqui a semana toda, outros só chegavam para as provas, mas nenhum deles entrava ou saía sem que Gregório soubesse. Não foi difícil de vê-lo assim que cheguei. Um homem corpulento com mais ou menos sessenta anos estava dando uma bronca em um jovem de uns quinze anos. Aparentemente o proprietário de um dos cavalos estava insatisfeito por culpa dele. Esperei Gregório ficar sozinho para me aproximar.

    — Boa tarde, senhor. Imagino que seja Gregório?

    — Quem deseja? — ele parecia desconfiado, mas nem por isso menos cortês.

    — Pode me chamar de Carmim. Sou um investigador particular e estou trabalhando em um caso de desaparecimento.

    — Bem, senhor… Carmim, certo? Não sei como ajudá-lo, como pode ver eu só cuido dos estábulos e não me recordo de nenhum conhecido meu que tenha desaparecido.

    — Estou tentando encontrar Humberto Solini. Soube que ele costuma apostar por aqui. Ouvi falar que o senhor conhece os apostadores mais antigos daqui.

    — A segunda afirmação está correta, a primeira… Nem tanto — ele não parecia querer se esquivar do assunto, parecia mais que ele só estava me esperando perguntar.

    — E por que não estaria?

    — Solini não é só um apostador. Ele é dono de um dos melhores cavalos de corrida da região.

    — Então ele deve gostar de apostar no próprio cavalo.

    — Normalmente é isso que acontece, mas Solini não gostava de apostar quando o cavalo dele estava correndo. Você deve saber que apostar em um cavalo que vence quase sempre não paga muito bem. Isso ficava pros amigos dele. Eles sempre vinham aqui me perguntar dos outros cavalos do páreo.

    — Solini nunca apostava no páreo do próprio cavalo?

    — Nunca é um pouco exagerado, ele apostava às vezes. Outras vezes ele apostava nos cavalos concorrentes. Sempre aparece algum campeão regional pra correr por aqui. Ele fez isso nesse último sábado, apostou em um outro cavalo. Um azarão como eu nunca vi. Primeiro páreo dele e ganhou com um pescoço de vantagem. O cavalo de Solini ficou em terceiro. O jóquei dele não estava bem, morreu no sábado — mais um corpo na pilha.

    — E os amigos de Solini?

    — Não lembro deles por aqui.

    — Soube de alguém que perdeu muito dinheiro com essa corrida?

    — Não lembro de tanta gente perdendo dinheiro em um páreo. Era uma barbada, o cavalo de Solini era o melhor de todos, sem sombra de dúvida. Deve ter perdido por causa do jóquei. Solini devia saber, por isso apostou em outro cavalo.

    — Depois disso imagino que não tenha ouvido falar mais nada sobre Solini.

    — Nada… Mas talvez você consiga saber alguma coisa com o pessoal que vai levar o cavalo dele. Eles normalmente chegam em dia de segunda — ele conferiu o relógio. — Devem chegar a qualquer momento.

    — Qual o nome do cavalo?

    — Cubano.

    — Muito obrigado, Gregório.

    Finalmente um pouco de sorte. Bastava esperar os homens que buscariam o cavalo e segui-los até Solini. Ninguém estava vendendo cachorro quente naquela segunda, o almoço teria que esperar mais um pouco. O relógio marcava duas da tarde quando vieram buscar o cavalo. Não foi difícil me esconder no caminhão sem ser notado. Eu dividiria o compartimento de carga com Cubano, nunca tive afinidade com animais, mas ele me pareceu um cavalo simpático. A viagem foi rápida. Aparentemente Solini estava escondido em uma propriedade nos arredores da cidade. Esperei o cavalo sair e os homens se afastarem. Desci do caminhão e me dirigi para um casarão onde provavelmente Solini estava.

    De fato Solini estava lá. Provavelmente ele teria cooperado comigo e me explicado toda a situação, mas três carros cheios de homens armados e sem nenhuma paciência ou cortesia estacionaram na frente da casa. Ele não teve tempo de falar muita coisa além de…

    — Cuidado!

    A primeira rajada de balas não passou nem perto de acertar. Era só um aviso. Humberto tremia na minha frente, dava pra ver nos olhos do coitado que ele nunca tinha passado por uma situação semelhante. Eu precisava ajudar. Saquei minha pistola. Eu só tinha dois pentes, um deles estava carregando a arma. uma das janelas estava quebrada, me aproximei para espiar lá fora. Sete homens bem vestidos, todos eles armados. Um deles me viu.

    — Jogue a arma pra cá e saia de mãos pra cima, Carmim. Você não tem como fugir.

    — Não atrapalhe nosso serviço e te deixamos sair ileso dessa.

    — Parece que tem algumas pessoas muito irritadas contigo, senhor Solini.

    — Nada disso devia acontecer, estava tudo certo. Se não fosse aquele maldito jóquei.

    — Esqueça o jóquei, precisamos sair daqui. Angela está esperando, ela me contratou para encontrá-lo.

    — Angela? Me esperando? Rá! Aquela desgraçada tem mais culpa nisso do que aquela meia dúzia de capangas lá na frente.

    — Droga, Angela — falei tão baixo que quase não consegui me ouvir. — De todo jeito precisamos sair daqui. Alguma ideia?

    — Eu tenho um carro na garagem lá de trás, um rápido.

    — Acha que consegue fugir sozinho?

    — Não quer vir comigo, senhor?

    — Serei mais útil como distração. Precisa ir direto à polícia. É o único jeito.

    — Mas e o meu dinheiro?

    — Melhor sem dinheiro do que morto — não havia como contra argumentar. Ele saiu correndo pela porta da sala, aparentemente ninguém tinha reparado. Coloquei a cabeça para fora da janela e falei com meus amigos armados. — Tudo bem, eu vou sair. Por favor, não atirem.

    Caminhei lentamente pela porta com as mãos para cima. Os homens tinham total atenção em mim.

    — Onde está Humberto Solini?

    — Não vi esse tal Solini — a mentira não podia falhar. — Quem abriu a porta foi o caseiro… Ele foi baleado e está caído ali no chão.

    — Baleado? — Pelo menos um tinha caído na mentira, os outros cairiam também.

    —O chefe pediu pra não ter ninguém ferido além do Solini — suas palavras expressavam preocupação.

    — Eu sei, eu sei. Vamos dar um jeito.

O ronco de um motor. Um carro esportivo saiu a toda velocidade pela estrada. Os meus novos amigos demoraram um pouco para entender o que estava acontecendo. Aquele que parecia o líder deles deu as ordens.

— Vocês três, entrem na casa, encontrem o dinheiro e não tirem os olhos desse detetive . O resto vem comigo.

Aparentemente eles esqueceram da parte de ficar de olho em mim. Passaram um bom tempo vasculhando o casarão. Tempo suficiente para não me ver entrar no caminhão que trouxe o cavalo e pegar a estrada para longe da perseguição. Meu trabalho havia terminado, agora tudo dependia de Solini.

No dia seguinte os jornais estampavam a história de um rico diretor de um banco que cometeu o erro de apostar contra o próprio cavalo em uma corrida que já tinha resultado definido. Todos aqueles que perderam grandes quantidades de dinheiro na ocasião estavam sendo investigados pela polícia. Aparentemente nenhum detetive que gostava de vermelho corria risco de vida. Eu estava quase aliviado quando o telefone tocou.

— Muito obrigado por nada, Carmim — a mulher no telefone não parecia nem um pouco agradecida.

— De nada, Angela. Da próxima vez que escolher um namorado novo, lembre que não precisa matar o namorado antigo. Bastava se separar, fazem muito disso hoje em dia.

— Não precisaria me preocupar com isso se um certo detetive não gostasse de planejar fugas.

— Da próxima vez arrume capangas mais eficientes.

— Ah, Carmim. Você não cansa de me maltratar, não é?

— Digo o mesmo, Angela. Digo o mesmo.

O telefone bateu de leve no gancho. Angela me mataria se pudesse, mas a lista de corpos já estava grande demais. A polícia não tinha descoberto a ligação dela com os assassinatos, provavelmente nunca descobriria. Mas ela ficaria com um bom pedaço do dinheiro recuperado de Solini. Apesar de tudo isso um envelope chegou na minha caixa de correio. A caligrafia do remetente era inconfundível. Angela podia estar furiosa comigo, mas pelo menos ela me pagou pelo serviço. Nada mal para uma segunda-feira de trabalho.

Contos de Segunda #41- Parte 01

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que já apareceu  em Contos de Segunda #29 e Contos de Segunda #32.

A lista de corpos desse caso estava me deixando preocupado. Primeiro o marido de Angela, Emilio Zappa, é misteriosamente assassinado. A última pessoa que viu Emilio com vida foi seu colega de trabalho, Humberto Solini, desaparecido desde então. O amor de Humberto por charutos e apostas provavelmente daria uma pista de seu paradeiro, mas o homem que vendia os charutos importados para Solini, o velho Mendez, também foi assassinado.

Você não sabe no que está se metendo, detetive

A frase ainda martelava na minha cabeça. Precisava resolver aquilo rápido, antes que meu corpo fosse o próximo a aparecer sem vida. Cadáveres sempre costumavam render pistas frias, mas eu tinha um pressentimento de que o de Mendez tinha deixado um rastro ainda quente. Resolvi fazer uma visita ao estabelecimento do falecido.

A loja de artigos importados não ficava muito longe do hotel. Ela estava bastante movimentada para uma loja com o dono recém falecido. A porta tinha sido presa por um peso. Imagino que os clientes costumeiros tenham aparecido para prestar condolências. Mas quem estava recebendo as condolências de todas essas pessoas? Um homem saiu de dentro da loja. Usava camisa com uma gravata, colete e avental. Aparentemente uma espécie de garçom. Sua expressão carregava uma tristeza contida, seus olhos estavam levemente avermelhados, provavelmente devido ao choro recente, ou a uma noite mal dormida.

— Bom dia — precisava parecer o menos informado possível.

— Bom dia, senhor. Infelizmente a loja está fechada.

— Fechada?

— Sim, senhor. O proprietário faleceu ontem, as portas estão abertas para aqueles que eram próximos do senhor Mendez. O filho dele está lá dentro, ele achou melhor receber as pessoas aqui embaixo e não em casa, a senhora Mendez está sofrendo muito. Não me recordo do senhor, mas caso seja um amigo da família, sinta-se a vontade para entrar.

A loja estava menos cheia do que eu esperava. Alguns homens, visivelmente podres de rico, estavam espalhados pelo recinto. Alguns bebiam, todos falavam baixo. Em uma mesa ao fundo estava o filho do velho Mendez. Trinta e poucos anos, olhos frios voltados para o copo de uísque na frente dele. Ele obviamente não estava nada feliz com o falecimento do pai, mas não estava tão triste quanto eu pensei que estaria.

— Meus sentimentos, senhor Mendez. Fiquei surpreso quando soube da notícia.

— Eu gostaria de ter ficado tão surpreso quanto o senhor…

— Pode me chamar de Carmim. Esperava falar com seu pai hoje. Infelizmente isso não é mais possível.

— O conhecia, senhor Carmim?

— Não, mas esperava que ele soubesse algo sobre um cliente dele que desapareceu recentemente. Humberto Solini é o nome dele.

— Senhor Carmim, como eu estava dizendo, gostaria muito que a morte do meu pai fosse uma surpresa. Melhor desistir de encontrar Humberto Solini, caso contrário sua morte também não será uma surpresa.

— Espero que não seja uma ameaça, senhor Mendez.

— É um aviso, Carmim — pela primeira vez os olhos dele encontraram os meus. — Algumas pessoas não devem ser irritadas. Seu amigo Solini deve ter descoberto isso.

— Imagine que eu queira, digamos, irritar algumas pessoas. Por onde deveria começar?

— Gosta de apostas, senhor Carmim?

— Não costumo ter muita sorte com apostas.

— Quem sabe jogar não precisa de sorte… Só de cuidado — ele se levantou, olhou ao redor, aproximou-se de mim e continuou com a voz baixa. — De algumas pessoas não vale a pena ganhar.

— Agradeço pelo aviso.

Sem maiores despedidas deixei aquele homem com seu luto. O relógio já marcava mais de meio-dia. O estômago clamava por um almoço, mas ele teria que se contentar com um cachorro-quente. Mais especificamente com o cachorro-quente do jockey clube. Zappa, Solini e Mendez fizeram uma aposta muito errada… Ou muito certa. A única certeza é de que alguém bem perigoso é um péssimo perdedor.

 

Contos de Segunda #32

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que apareceu pela primeira vez em Contos de Segunda #29.

Você não sabe no que está se metendo, detetive”. A frase martelava na minha cabeça. Ângela estava metida em coisa grande, dava pra sentir o cheiro do problema de longe. Mas eu não podia me preocupar com isso, a chave de tudo tinha nome: Humberto Solini, o homem que não foi visto depois do assassinato do marido de Ângela. Eu precisava encontrá-lo logo, e já sabia por onde começar.

Lembro de quando Ângela conheceu o marido. Ela tinha uma pista quente sobre um ladrão de joias que estava tirando o sossego da polícia fazia meses. Na época eu estava colaborando com a polícia, Ângela tinha passado por uma rodada de “negociações agressivas” com o tal ladrão e temia pela sua segurança. O esquema com o ladrão era simples, ela recebia as joias roubadas através de um mensageiro. Ia para Lo-Fi, o bar do maior hotel da cidade usando as joias, o comprador aparecia deixava o dinheiro e levava as joias. O mensageiro passava e levava o dinheiro. Na noite em que prendemos o mensageiro Ângela não vendeu nenhuma joia. O comprador apareceu, assim como o mensageiro, mas ela não levou nenhuma joia. Naquela segunda-feira tudo que eu ganhei foi um olho roxo e um tiro que pegou de raspão. Ângela acabou ganhando o coração do comprador. Um ano depois ela estava se casando com Emilio Zappa no salão daquele mesmo hotel. Enquanto eu enchia a cara de vodka no mesmo Lo-Fi que me daria uma pista do paradeiro de Humberto Solini.

O bar estava bem vazio. Era quase hora do almoço e eu procurava pelo meu contato. Cassiano era barman do Lo-Fi há quase dez anos e depois de ter resolvido o caso do desaparecimento da irmã dele, tínhamos nos tornado grandes amigos. Ele estava atrás do balcão servindo algo recém batido para um estrangeiro, aparentemente hospede do hotel.

— Mande o de sempre, Cassiano — me sentei num dos bancos antes de terminar a frase.

— Quase não o reconheço sem o sobretudo vermelho, Carmim.

— O calor não me ajuda a manter o estilo. Pelo menos ainda posso usar chapéu.

— Quem está procurando dessa vez, detetive? — Uma pista sobre um cliente do bar, como pedido de sempre.

— Lembra de Ângela Bevoir?

— Ela arrumou um marido na minha frente, Carmim. E passou a perna em mais uma dúzia dentro dessas paredes.

— Deve saber que o marido dela passou dessa pra melhor.

— Ouvi falar dessa história.

— A morte de Zappa é um caso meio nebuloso. Preciso achar um cara que pode jogar uma luz em cima disso tudo. O nome é Humberto Solini. Todos aqueles cães do banco vivem por aqui. Você deve saber de alguma coisa.

— Eu sei que Solini é apaixonado por duas coisas: charutos e apostas. Se ele está escondido provavelmente não vai ficar muito tempo longe de qualquer uma dessas coisas. Se deram um sumiço nele… Bom, é provável que ele tenha perdido uma aposta bem grande.

— A próxima dose vai ser por conta da casa. — Deixo uma nota de cem em cima do balcão e me levanto.

— Se quiser algo para fumar, detetive, talvez deva visitar o velho Mendez.

Não me virei para ouvir, continuei andando. Não me parecia muito promissor ficar contando os charutos importados, o jockey club era a melhor opção… Pelo menos era o que eu pensava naquele momento. O vento jogou no meu rosto uma página de jornal. O jornal era de ontem e a notícia que tinha acabado de, literalmente, voar no meu rosto tinha como título:

Grande Importador Assassinado ao Sair De Loja”

Algo me dizia que o velho Mendez tinha muito mais a me dizer morto do que tinha quando estava vivo.

Contos de Segunda #29

— Jogue a arma pra cá e saia de mãos pra cima, Carmim. Você não tem como fugir.

    Por esse e outros motivos eu não trabalho nas segundas, sempre acontece alguma coisa assim. Ossos do ofício, ou não, a verdade é que nem tudo são flores na vida de um detetive particular.

    Tudo começou naquela manhã. Apesar do dia nublado fazia um calor dos infernos. Eu estava esperando a ligação do meu contato no escritório do juiz, mas quando o telefone tocou uma voz diferente estava do outro lado da linha.

    — Você nunca conseguiu deixar o telefone tocar muito tempo, não é? — A voz feminina do outro lado da linha era mais do que familiar. As silabas lentas e a voz ligeiramente rouca eram inconfundíveis.

    — Só acontece quando você liga, Ângela, costumo ter pressa para arrumar problemas — eu não estava exagerando, ela nunca ligava quando o assunto não era problema. Algum problema dela que acabava virando problema meu.

    — Não seja tão rude comigo, meu querido, eu não ligaria se não estivesse realmente precisando.

    — Estou ouvindo.

    — Mataram meu marido e a polícia está convencida de que fui eu quem fez o serviço — Eu também pensaria assim se fosse a polícia, afinal não é todo dia que um banqueiro morre e deixa como herdeira apenas sua esposa vinte anos mais nova. Principalmente quando essa esposa é Ângela Bevoir.

    — Você não parece muito triste para uma mulher que acabou de perder o marido.

    — Eu estaria bem menos triste se não corresse o risco de ser presa — a voz dela estava mais séria. — Estou desesperada, Carmim, não tenho mais a quem recorrer.

    — O que você precisa que eu faça, Ângela?

    — Preciso que encontre um homem, Humberto Solini, ele estava com meu marido pouco antes do assassinato. Eles trabalhavam juntos no banco e coincidentemente ninguém tem noticias dele desde o ocorrido. Não deve ser problema pra você.

    — A menos que alguém além de mim esteja procurando pelo sujeito.

    — Creio que não haverá qualquer tipo de complicação… Mas devido ao caráter urgente da situação, quanto antes nossa testemunha for localizada melhor.

    Eu já tinha um nome e uma pista. Peguei o meu chapéu, tranquei a porta e desci as escadas. Olhei minha caixa de correio e lá estava uma foto de Ângela, no verso estava escrito:

Você não sabe no que está se metendo, detetive

    De fato eu não sabia, mas estava começando a ficar interessante. Já sabiam que Ângela ia me procurar, e aparentemente não faz muita diferença se eu aceitei ou não ajudá-la. Dessa vez ela deve ter ido longe demais e acabou me levando junto. Eu não tinha ideia no que eu estava me metendo, mas escapar dessas roubadas sempre era bom para os negócios.

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