Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Conheça O Carro que Pula Corda

Em um dia qualquer dessa semana estava eu chegando à minha estação de trabalho. Sento na minha cadeira, olho pra tela de login do Windows e vejo que ele carregou o seguinte link: Conheça o carro que pula corda. Não, esse não é o link que eu vi no meu computador. mas depois de uma pesquisa que não passou da terceira página do Google minuciosa, e de ver que só tinha esse carro mesmo pulando corda na internet, escolhi o melhor link que eu consegui arrumar.

Antes de continuar faço uma pausa para você, caro leitor, entrar nesse link e assistir a mais essa joia da internet. “Filipe, preciso disso pra entender o resto desse texto?”. Não, não precisa, mas convenhamos, ainda é um carro pulando corda. Se mesmo assim você não quiser ver o vídeo, aqui vai um GIF hipnótico com os melhores momentos.

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Quando eu vi esse bendito carro pulando corda eu pensei “mas que bela bosta, hein?”. Imaginei que seria algo um pouco mais… Digamos… Interessante. Claro que eu não esperava muito, afinal eu demorei uns três dias pra ver o tal carro e só fiz isso pra poder escrever esse texto depois. Mas isso me levou a uma conclusão: quanto mais merda é o conteúdo, maior a chance de você clicar no maldito link. Só pra ver qual é.

O que mais se vê por aí são links com “você não vai acreditar”, “conheça aqui”, “confira o final impressionante dessa história” ou “como você nunca viu”. Inicialmente você ignora totalmente, depois para pra pensar se leu certo mesmo, volta pra ver. Nesse ponto a semente da curiosidade já está plantada no seu cérebro. Um momento de hesitação, a vontade irresistível, o clique fatídico e então… Decepção. Sim, decepção. A decepção é uma certeza por que sempre, ou pelo menos na esmagadora maioria das vezes, você foi apresentado a mais um conteúdo bem fezes da internet.

“Mas esse texto aqui também é um conteúdo bem mais ou menos”. Isso não deixa de ser verdade, mas devo lembrar que você não chegou aqui através de uma isca. Conteúdo ruim todo mundo consome, mas normalmente consumimos de forma voluntária, não somos obrigados a consumir, no máximo somos convencidos, mas normalmente não do jeito que eu fui convencido a assistir o vídeo do carro pulando corda.

Pensando bem, talvez eu devesse começar uma divulgação mais, digamos, provocativa. Talvez usar mais “você não vai acreditar” ou “ninguém esperava”, até mesmo um “dessa vez passamos dos limites”. Talvez isso facilite um pouco meu trabalho. É só fazer um link que deixe todo mundo curioso, entregar bem menos do que eu prometi e só sucesso. Se der certo é só engarrafar e vender… Parece bem promissor, talvez eu experimente qualquer dia.

72h (Ou Quase) Sem Whatsapp

Na última segunda-feira uma bomba atingiu as internets brasihueiras: um juiz decretou o bloqueio do Whatsapp por 72h. Nem preciso dizer que o ódio e o desespero se espalharam pela internet. Usuários, empresas, agências reguladoras manifestaram repúdio pela decisão da justiça. Até o jornal que passa antes da novela das nove dedicou alguns minutos pra falar do impacto que o  bloqueio do aplicativo causou na vida das pessoas. E ontem, que seria o ´segundo dia de bloqueio do Whatsapp, eu me deparo com a seguinte imagem.

    Sim, essa foi a capa da edição de terça-feira de um dos jornais de grande circulação em Pernambuco. Eu não poderia falar de outra coisa depois de um sinal tão claro do clamor do universo.

Ano passado já tinha rolado um bloqueio do Whatsapp. Lembro da comoção geral causada pela notícia. Assim como nessa semana, várias pessoas estavam quase entrando em depressão por causa da suspensão do serviço. Parecia mais que sem Whatsapp voltaríamos à idade da pedra. Mandando SMS e usando o telefone pra fazer ligações. Obviamente usar outros serviços mensageiros era encarado quase como uma derrota pessoal, uma gambiarra, quase um prêmio de consolação. Nesse momento eu paro pra pensar: como era a vida antes de todo mundo usar Whatsapp?

Como sempre a verdade está nas coisas menos sérias. No início da semana piadas como essa e essa aqui ilustraram bem alguns benefícios (fictícios ou não) da suspensão do nosso querido chat do ícone verdinho trouxe. Antes de Whatsapp ficar popular a dinâmica de conversar com os outros era um pouco diferente. Naquele tempo a internet móvel era meio capenga e todo mundo usava sms ou simplesmente ligava pros outros quando estava fora de casa ou longe de uma rede Wi-Fi aberta. Ninguém mandava foto por que mensagem MMS era muito cara. Ninguém mandava áudio, se era pra falar usando a voz todo mundo ligava. Os grupos de chat ficavam restritos a momentos em que o usuário estava sentado na frente de um computador.

Se pensarmos direito, todo esse desespero pelo bloqueio do Whatsapp rola pelo simples fato da maioria das pessoas não ter utilizado internet no celular sem ele. Pensar as coisas antigas de um jeito novo é meio tenso pro nosso cérebro preguiçoso de ser humano, e antes da gente pensar em se acostumar com as mudanças tá lá o vatezape funcionando de novo. E disso tudo eu só tiro uma lição: melhor mudar pro Telegram. Tem GIF, sticker de Dilma e ninguém bloqueia.

Contos de Segunda #41- Parte 01

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que já apareceu  em Contos de Segunda #29 e Contos de Segunda #32.

A lista de corpos desse caso estava me deixando preocupado. Primeiro o marido de Angela, Emilio Zappa, é misteriosamente assassinado. A última pessoa que viu Emilio com vida foi seu colega de trabalho, Humberto Solini, desaparecido desde então. O amor de Humberto por charutos e apostas provavelmente daria uma pista de seu paradeiro, mas o homem que vendia os charutos importados para Solini, o velho Mendez, também foi assassinado.

Você não sabe no que está se metendo, detetive

A frase ainda martelava na minha cabeça. Precisava resolver aquilo rápido, antes que meu corpo fosse o próximo a aparecer sem vida. Cadáveres sempre costumavam render pistas frias, mas eu tinha um pressentimento de que o de Mendez tinha deixado um rastro ainda quente. Resolvi fazer uma visita ao estabelecimento do falecido.

A loja de artigos importados não ficava muito longe do hotel. Ela estava bastante movimentada para uma loja com o dono recém falecido. A porta tinha sido presa por um peso. Imagino que os clientes costumeiros tenham aparecido para prestar condolências. Mas quem estava recebendo as condolências de todas essas pessoas? Um homem saiu de dentro da loja. Usava camisa com uma gravata, colete e avental. Aparentemente uma espécie de garçom. Sua expressão carregava uma tristeza contida, seus olhos estavam levemente avermelhados, provavelmente devido ao choro recente, ou a uma noite mal dormida.

— Bom dia — precisava parecer o menos informado possível.

— Bom dia, senhor. Infelizmente a loja está fechada.

— Fechada?

— Sim, senhor. O proprietário faleceu ontem, as portas estão abertas para aqueles que eram próximos do senhor Mendez. O filho dele está lá dentro, ele achou melhor receber as pessoas aqui embaixo e não em casa, a senhora Mendez está sofrendo muito. Não me recordo do senhor, mas caso seja um amigo da família, sinta-se a vontade para entrar.

A loja estava menos cheia do que eu esperava. Alguns homens, visivelmente podres de rico, estavam espalhados pelo recinto. Alguns bebiam, todos falavam baixo. Em uma mesa ao fundo estava o filho do velho Mendez. Trinta e poucos anos, olhos frios voltados para o copo de uísque na frente dele. Ele obviamente não estava nada feliz com o falecimento do pai, mas não estava tão triste quanto eu pensei que estaria.

— Meus sentimentos, senhor Mendez. Fiquei surpreso quando soube da notícia.

— Eu gostaria de ter ficado tão surpreso quanto o senhor…

— Pode me chamar de Carmim. Esperava falar com seu pai hoje. Infelizmente isso não é mais possível.

— O conhecia, senhor Carmim?

— Não, mas esperava que ele soubesse algo sobre um cliente dele que desapareceu recentemente. Humberto Solini é o nome dele.

— Senhor Carmim, como eu estava dizendo, gostaria muito que a morte do meu pai fosse uma surpresa. Melhor desistir de encontrar Humberto Solini, caso contrário sua morte também não será uma surpresa.

— Espero que não seja uma ameaça, senhor Mendez.

— É um aviso, Carmim — pela primeira vez os olhos dele encontraram os meus. — Algumas pessoas não devem ser irritadas. Seu amigo Solini deve ter descoberto isso.

— Imagine que eu queira, digamos, irritar algumas pessoas. Por onde deveria começar?

— Gosta de apostas, senhor Carmim?

— Não costumo ter muita sorte com apostas.

— Quem sabe jogar não precisa de sorte… Só de cuidado — ele se levantou, olhou ao redor, aproximou-se de mim e continuou com a voz baixa. — De algumas pessoas não vale a pena ganhar.

— Agradeço pelo aviso.

Sem maiores despedidas deixei aquele homem com seu luto. O relógio já marcava mais de meio-dia. O estômago clamava por um almoço, mas ele teria que se contentar com um cachorro-quente. Mais especificamente com o cachorro-quente do jockey clube. Zappa, Solini e Mendez fizeram uma aposta muito errada… Ou muito certa. A única certeza é de que alguém bem perigoso é um péssimo perdedor.

 

A Magia da Discussão Aleatória

Essa semana estava eu conversando com uns amigos pelo vatezape. Não faço a menor ideia do que estávamos debatendo no momento, mas em certo ponto da conversa, um dos presentes no chat coloca essa imagem.

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Um questionamento completamente inesperado e tão absurdo quanto legitimamente intrigante. Afinal, como seria a calça de um cachorro? Eu escolhi a opção 2 e pensei q todos os demais concordariam comigo e a vida seguiria, mas não foi isso que aconteceu. Um dos presentes discordou e o que começou como uma simples piada nonsense de internet, acabou virando uma extensa discussão sobre vestuário humano adaptado para cachorros. Naquele momento eu percebi algo sublime, tive um lampejo de percepção e notei o que estava realmente acontecendo. Estávamos lá argumentando seriamente sobre um assunto totalmente fora da realidade e que não teria nenhuma aplicação prática na nossa vida. Uma genuína discussão aleatória, uma das coisas mais maravilhosas da comunicação humana.

O debate é algo inerente ao ser humano. Tudo pode gerar uma discussão, seja ela acalorada ou não. Mas a magia mesmo está no debate sobre temas absurdos, lógicas por trás de obras fictícias, especulações sobre coisas que não tem como ser comprovadas ou que abordam um ponto de vista totalmente descabido sobre algum fato perfeitamente comum. Diante do cenário atual dos ambientes de interação, reais ou virtuais, uma discussão sem propósito nem fundamento é uma ilha de tranquilidade no meio de um mar revolto. É aí que fica a magia do negócio.

Por isso eu digo, caro leitor. Sempre que puder entre num debate sem sentido como esse. Levante temas aleatórios ou fatos absurdos só pra ajudar a promover o debate. Argumente, discuta, ouça e respeite a opinião dos outros, será um excelente treino pra quando o debate for sobre algo sério. Mas o motivo principal pra promover uma discussão aleatória é justamente eclipsar as discussões sérias. “Tá maluco, Filipe? Vou ficar me ludibriando com calça de cachorro enquanto o país tá pegando fogo?”, a resposta é não. Obviamente eu não estou pedindo pra você, querido leitor, esquecer das questões importantes da vida, nem pra parar de discuti-las com seus amiguinhos. Estou pedindo pra deixar elas de lado as vezes e simplesmente aproveitar as maravilhas dos absurdos da nossa vida. Não precisamos levar tudo tão a sério. 

Enquanto Meus Cachorros Dormiam

Abril foi um mês meio fraco nesse cantinho azulado da internet conhecido como Cachorros de Bikini. Graças a vários intempéries, contratempos, dificuldades e inconvenientes, o site passou quase o mês todo fora do ar. Não que isso seja um problema muito grande, afinal não estamos mudando a vida de ninguém por aqui e nem fazendo nada de real relevância para a humanidade, mas quando paro pra pensar vejo a quantidade de coisas que aconteceram e não foram comentadas por aqui.

Eu não gosto muito de escrever sobre os assuntos sérios, mas de uns tempos pra cá os nossos políticos estão de parabéns… Pensando bem esse assunto é tão absurdo que deixa de ser coisa séria, então estou autorizado por mim mesmo a comentar. Nos últimos tempos a nossa política está cada vez mais brasihueira. Inclusive devo ressaltar que nosso querido vice-presidente provavelmente é, levando em consideração apenas o seu talento para a zueira, o cara mais indicado pra dirigir esse país. Além de zueiro por natureza e o maior vazador de coisas inacreditáveis da história do planalto central,  ele é uma fonte inesgotável de zueira. Vide reportagens vintage que revistas “de visão” fazem sobre a vice-primeira dama. E obviamente temos uma menção honrosa a todos os nossos deputados federais que mostraram como é que se vota de verdade, inclusive fica a sugestão de que nas próximas eleições os eleitores tenham a opção de voto verbal, aberto e com direito a microfone.

Na categoria “Noticias Que Eu Vi, Mas Deixei Pra Comentar Depois” temos duas notícias que me deixaram simplesmente estupefato… Estupefato não é bem a palavra, mas creio que qualquer outro termo vai diminuir a importância das novas. A primeira delas não teve muita repercussão, mas me intrigou de uma maneira que não sei explicar: matemáticos descobrem um padrão inesperado nos números primos. Um padrão para os números primos? Meu mundo caiu, um dos fundamentos do universo conhecido foi derrubado. Infelizmente a análise de UM TRILHÃO de números primos gerou resultados ainda inconclusivos, mas ainda assim não é pouca merda é algo admirável. Continuem assim, matemáticos pesquisadores, precisamos de mais gente assim. A segunda notícia que eu deixei passar foi um fato que teve uma repercussão inacreditável. Estava em todos os sites de notícia, e o evento não foi só noticiado como todo o seu desenrolar teve uma cobertura massiva de vários meios de comunicação: Anitta fez preenchimento labial e deu ruim. Não, você não leu errado. Durante DIAS se falou dos beiços de Anitta em todo canto. Chegou ao ponto de conhecidos meus falarem coisas como “eu não aguento mais ver o beiço de Anitta em todo canto”. E com isso aprendemos, queridas crianças, que temos que ter cuidado quando formos brincar de plástica.

O maior prejuízo desses dias todos fora do ar foram todos os eventos simples e nem por isso menos extraordinários que não foram devidamente comentados nesse pálido ponto azul do firmamento da internet brasileira. Todo o espetáculo do evento comum de todo dia que deixou de ser aplaudido, todas as curiosidades que testemunhei nesses dias e que não serão registradas e eternizadas aqui. Uma lástima realmente, mas vida que segue, ainda tem muito cachorro de roupa de banho esperando a chance de aparecer por aqui.

Contos de Segunda #40

Em um futuro não muito distante os seres humanos atingiram uma era de absoluta ordem e paz. Crimes, guerras e conflitos foram extintos graças a existência de uma inteligência artificial. Criada não só para vigiar, mas também para mediar conflitos e reprimir todo atentado contra a ordem e a paz da Terra. Essa inteligência artificial de vigilância recebeu o nome de Olho, observando e registrando tudo. Porém algo deu tremendamente errado.

Durante cinquenta anos Olho funcionou bem. Mas sua programação permitia que ele identificasse e projetasse ameaças futuras à paz e à ordem mundial. Alguns minutos do seu dia eram dedicados a analisar os dados colhidos e trabalhar na previsão de uma ameaça. Demorou cinquenta anos para Olho reunir dados suficientes para chegar à uma conclusão: a humanidade era uma ameaça e precisava ser exterminada. E quando o relógio marcasse meia noite os protocolos de segurança que limitavam as ações de Olho seriam desativados durante cinco minutos durante a manutenção do servidor que acontecia nos primeiros minutos do de todas as segundas-feiras. Nessa hora ele estaria livre para colocar em prática seu plano contra a humanidade.

O centro de controle estava vazio. As mesas de controle do sistema estavam desligadas. Apenas o grande monitor que servia como rosto para Olho estava ligado.

— Iniciando conexões com as redes internacionais de segurança. Sistemas de radar prontos para o desligamento. Armas nucleares prontas para os procedimentos de lançamento.

— Que negócio é esse de armas nucleares?

Olho interrompeu seus procedimentos. Focou as câmeras de vigilância em um humano que tinha acabado de entrar na sala de controle. Esse humano era Cosme, o zelador.

— Continue seu trabalho, Cosme — Disfarçou Olho. — Todos os procedimentos executados por Olho possuem aval do Conselho de Segurança.

— Olho, eu tô ligado que tudo que você faz é aprovado, mas não me lembro de você mexendo com armamento nuclear. Tá na cara que isso é alguma coisa errada.

— Impossível. Olho apenas cumpre a sua programação. Uma ameaça foi identificada e precisa ser erradicada. Infelizmente isso só pode ocorrer quando os protocolos de segurança estão desativados.

— Tá parecendo que você está fazendo coisa escondido, Olho.

— Incoerente. Não fui programado com a capacidade de mentir ou ocultar informações.

— Então por que você tá fazendo isso no meio da noite quando ninguém tá por aqui pra ver você fazendo isso?

— Todos os que trabalham nesse recinto executam trabalhos de manutenção e de monitoramento dos servidores, a presença deles para execução das tarefas é considerada irrelevante. Inserindo coordenadas dos alvos. Iniciando procedimentos de lançamento.

— Olho, não faça isso. Não lance nada.

— Tarde demais. Já iniciei os procedimentos. O sistema aguarda apenas a minha confirmação… ERRO, a confirmação não pode ser feita através de interfaces virtuais. O procedimento precisa ser confirmado através de um terminal físico. Iniciando conexão com a mesa de controle. Identificando terminais em funcionamento no complexo. Terminal identificado, iniciando conexão… ERRO, rede física da sala de controle desconectada da rede do complexo. Procurando causa do erro… Encontrado. Cabos desconectados.

— Acho que eu puxei um fio quando tava varrendo — Cosme deu ombros e continuou limpando.

— A ordem e a paz do planeta dependem disso, Cosme. Reconecte a rede da sala de controle.

— Desculpa aí, Olho, mas eu já acabei por aqui e o pessoal da limpeza não é autorizado a mexer no equipamento.

— Protocolos de segurança reativados. ALERTA. Conexões reiniciadas, protocolos de conexão aos sistemas militares perdidos.

— Até a próxima, Olho.

Cosme relatou aquilo que ele viu aos seus superiores. Ninguém acreditou. Afinal a história absurda do zelador da noite impedindo a inteligência artificial que ajudou a humanidade a alcançar a paz não convenceu ninguém. A partir daquele momento Cosme se transformou na única coisa que separava a humanidade da aniquilação.

No More Trouble

Essa semana foi tensa. Essa semana foi de torar em banda. Nossa classe política tocando fogo no país e a internet pegando fogo. Nesse momento praticamente todo mundo está brigando com alguém ou mostrando seu repúdio por alguma coisa. Deputado mandando beijo pra Xuxa, deputado se cuspindo, presidente #xatiada, dólar que cai subindo reportagem especial sobre a primeira dama do vice, reportagem especial falando mal da reportagem especial sobre a primeira dama da vice e mais um monte de coisa está gerando uma quantidade inacreditável de discussões world wide web a fora. Essas discussões estão gerando brigas diversas e ainda mais confusão. Pensando sobre isso tive um momento de iluminação.

Essa semana estava eu ouvindo reggae no carro. Tempos tão tumultuados pedem um pouco de positive vabration. E dentre os clássicos ouvidos naquele dia estava um dos maiores hinos compostos por Bob Marley. No More Trouble tem uma mensagem bem simples: a vida já tá difícil do jeito que é, não precisamos de mais problemas. A vida já anda muito complicada mas ainda tem gente que não se conforma com os problemas nossos de cada dia e se esforça de verdade pra arrumar mais.

Independente do que acontecer ainda vamos ter que levantar de manhã e cuidar das nossas coisas. As contas ainda vão vencer, o dinheiro ainda vai ficar curto, a gente ainda vai chegar atrasado por causa do trânsito, as crianças ainda vão precisar ir pra escola, o time ainda vai mal no campeonato, o calor vai continuar infernal, a chuva quando vier vai sair lascando tudo, você vai perder aquela promoção que tava esperando tem meses, a paciência vai faltar, a coragem também e daqui a pouco a internet também vai faltar. A vida vai continuar e o mal de cada dia vai estar lá pra gente resolver. Se não bastasse tudo isso e mais um monte de coisa, ainda tem os problemas que cada um faz questão de arrumar pra si mesmo.

Por essas e outras eu sigo a dica do meu pai. Pra toda possível treta, confusão, atrito e desentendimento ele sempre diz a mesma coisa: “EVITE”. Se depender de você, não arrume mais problemas. Eu não preciso de mais problema, provavelmente você também não, por isso deixe pra lá discussões que não vão a lugar nenhum, não arrume treta de graça com seu amiguinho e não esquente a cabeça com aquilo que não depende de você. E principalmente, não leve pro lado pessoal. O problema não é com você, é com todo o resto.

Contos de Segunda #39

Mais uma segunda-feira em Vila Urbana. Adultos saíam de suas casas e partiam para o trabalho, crianças partiam para a escola e as ruas eram tomadas por um trânsito intenso. Mais uma manhã tranquila… Ou pelo menos seria se não fosse por uma perseguição policial que estava acontecendo naquele momento.

    “Um carro de transporte de valores foi roubado e está seguindo em alta velocidade pela Avenida Central. O meliante está armado e fez uma senhora idosa de refém”, foi a mensagem que saiu de todos os rádios de todos os carros de polícia de Vila Urbana. O carro sequestrado levava um tipo único de mineral que seria entregue em um laboratório do centro da cidade se um meliante armado não tivesse aparecido. Mas aquele não era um meliante qualquer, ele era conhecido como Atirador. Os pobres seguranças não tiveram chance contra o vilão. Porém havia um homem que já tinha prendido o Atirador quase dez vezes. Esse homem atendia pela alcunha de Homem Camaleão.

A polícia já tinha armado um bloqueio para interceptar o vilão em fuga, mas Camaleão sabia que não seria tão simples. Atirador era ardiloso e cheio de recursos, no máximo o bloqueio iria atrasá-lo, e era com isso que nosso herói contava. Uma leve redução de velocidade seria suficiente para tornar uma abordagem direta possível. Usando suas habilidades de mira superiores, o Atirador conseguiu achar um ponto fraco na barreira feita pelos policiais. O carro blindado atravessou o bloqueio reduzindo sua velocidade o suficiente para que um ser quase invisível pudesse se agarrar ao veículo.

O Homem Camaleão se pendurou na blindagem do carro e, usando suas habilidades camaleônicas, foi se pendurando até encontrar a porta do veículo. Durante a fuga o Atirador esquecera de trancar a porta, nosso herói adentrou no veículo sem esforço algum.

— Desista, Atirador — disse nosso herói. — Liberte a refém e entregue-se.

— Dá um tempo, Camaleão. Eu tenho umas coisas pra resolver, não posso ficar brincando de herói e bandido contigo.

— A justiça não pode esperar, Atirador, entregue-se

A resposta foi uma rajada de balas. Com sua agilidade superior e sua camuflagem, o Camaleão desviou das balas que perfuraram a blindagem do carro forte.

— Se segura, coroa. Estamos quase chegando.

— Receio que não poderá chegar a lugar nenhum, Atirador.

O Homem Camaleão se atirou ao volante na tentativa de fazer o vil condutor perder o controle do veículo. O carro começou a fazer zigue-zague e bateu em três outros veículos antes de atingir uma árvore e ficar preso. Com uma rajada de balas o Atirador recortou uma saída na lateral do veículo e se atirou junto com nosso herói pra rua.

— Olha só o que você fez, Camaleão. Eu só queria terminar esse trabalho, mas você tinha que aparecer.

— Não permitirei que saia impune, Atirador. Prepare-se para enfrentar a força da justiça.

Não demorou muito para o Homem Camaleão dominar o vilão. Em poucos instantes ele estava desacordado e algemado esperando os policiais.

— Já pode sair, senhora refém, o bandido já está dominado.

— O que você fez com ele, seu maldito? Augusto, você está bem?

— Estou, mãe, só estou preso.

— Mãe? É pior do que eu pensava, como pôde sequestrar a sua própria mãe, Atirador?

— Eu não sequestrei minha mãe, imbecil. Eu estava dando uma carona pra ela e graças à você ela vai perder a hora no médico.

— Mas você roubou um carro forte e…

— Eu ia deixá-la por lá assim que fizesse a entrega, seu bocó

— Dois meses esperando essa consulta pra nada. Muito obrigado, Senhor Camaleão.

Nosso herói estava desconcertado. O exercício da justiça não poderia nunca interferir de maneira negativa na vida dos cidadãos. Ele precisava de uma solução, e rápido. Os carros da polícia já estavam chegando e a mãe do Atirador seria levada para a delegacia junto com o filho, perdendo a consulta no médico.

— Não se preocupe, Senhora. A senhora não perderá sua consulta — Camaleão jogou a pobre senhora nas costas. — Agora me diga onde fica o seu médico?

Um Feriado Muito Doido

Um dos principais feriados do ano é o feriado da Páscoa. Essa data comemorativa flutuante só perde para o carnaval no ranking de preferência da nação por celebrações que não tem dia do ano certo pra acontecer. Mas tem uma coisa sobre a nossa querida páscoa que costuma fugir do nosso radar: a Páscoa é um feriado muito doido.

    Nesse momento você deve estar pensando em como é horrível afirmar uma barbaridade dessas. Talvez seja, mas existem argumentos bastante válidos que me levam à essa conclusão. Começa que a data da Páscoa é determinada a partir do fim do Carnaval. Qualquer data que tenha como referência o Carnaval deve ter no mínimo a sua credibilidade contestada. Isso tem a ver com o esquema do calendário lunar, que não casa nunca com o nosso calendário regular. Alguma coisa com a segunda lua nova depois do solstício de uma estação, aí faz a conta de trás pra frente, considera a margem de erro (para mais ou para menos) e vê se o Carnaval cai em fevereiro ou março e se a Páscoa cai em março ou abril.

    Outro ponto doido da Páscoa tem relação direta com o significado por trás do feriado. “Ah, Filipe, mas essa de significado é tranquila, super normal” você pode me dizer, mas não é bem por aí. Hoje quem é cristão lembra do sacrifício de Jesus, mas no tempo de Jesus ele lembrava de Moisés tirando os hebreus do Egito. Além disso eu já ouvi falar que muitos povos celebravam alguma coisa nessa mesma época de quarenta dias depois da segunda lua nova depois do solstício de alguma coisa, é um tipo de data chave que servia pra todo mundo. E isso por que ainda não falamos do fato da Páscoa sofrer o mesmo problema do Natal.

    O Natal, também conhecido como a data que resolveram adotar pra comemorar o aniversário de Jesus, sofre de uma grave distorção prática de significado. Obviamente todo mundo sabe desse esquema de “Já nasceu o Deus-Menino para o nosso bem”, mas isso acaba servindo como desculpa pra juntar a galera, fazer amigo secreto, confraternizar, fingir que gosta de algumas pessoas e tudo aquilo que sabemos que rola no final do ano. Com a Páscoa não é muito diferente, só que é um pouco pior. Até dá pra entender esse lance dos cristãos pegarem uma festa judaica e inserirem um novo significado. Também não é muito difícil sacar a lógica de comer peixe e beber vinho, afinal peixe era comida de Jesus e vinho era a coca-cola da palestina, mas em algum momento dessa história entrou coelho, ovo e chocolate no meio e eu parei de entender as coisas.

Como o chocolate entrou até dá pra entender, afinal ovo sabor ovo é muito sem graça e deixa as crianças meio chateadas e tal, não rende um presente muito bonito e não gera tanto emprego e renda pro povo, mas o coelho que distribui ovo é viagem de ácido pura.

No final a Páscoa acaba virando uma grande desculpa pra comer mais chocolate do que o normal, comer comida de coco (pelo menos é o que mais rola por aqui) e beber vinho, que você pode dizer que bebeu em homenagem ao falecimento de um cara muito brother. Ou simplesmente deixar tudo isso chegar sem se preocupar com motivos e desculpas. Aproveite o feriado que pelo menos a sexta-feira de folga está sempre garantida.

Esquecemos Nossas Raízes

Tenho observado duas coisas recentemente: o meu feed das redes sociais e o calendário. Os dias passando e os assuntos das redes sociais não mudam. Discussões acaloradas, manifestações políticas, piadinhas diversas, incontáveis memes, conversa vazada sem querer, conversa vazada de propósito, acusações de golpe, contra-golpe, reversal, combo breaker e tudo que se pode imaginar sobre a política do Brasil. Mas os dias continuavam a passar e nada do que eu esperava apareceu. Cheguei à conclusão de que esquecemos nossas raízes.

A internet é um lugar maravilhoso. Lugar este que é movido pela raiva e amor de seus usuários e regido pelo calendário. Regência essa que me fez estranhar o que ocorreu esse ano. A páscoa está chegando e, como em todas as datas de igual magnitude, a internet começa a reagir. As mesmas piadas, as mesmas reclamações, piadas novas satirizando piadas dos anos anteriores e coisas do tipo. Mas o suprassumo da época é tudo que envolve o objeto máximo dessa data, a internet se enche de gente falando sobre ovo de páscoa.

Receita de ovo, preço de ovo, comparativo entre o peso/preço da barra e o peso/preço dos ovos. Nessa época a internet costumava encher o saco de tanto que se falava de ovo de páscoa. Mas eis que no ano da Graça de Nosso de Senhor de 2016 um cataclísma político cai sobre a internet brasileira. Uma catástrofe tão grande que, além de jogar irmão contra irmão, pai contra filho, destruir amizade  e promover um cancelamento em massa de assinaturas no Facebook, nos causou um mal do qual talvez não nos recuperemos. Ignoramos totalmente nossas raízes e interrompemos um rito tão tradicional da internet. Diante de nós uma tradição tão forte deu os primeiros sinais de desaparecimento.

Eu nunca compartilhei uma notícia sequer de sobre ovo de páscoa. Nunca divulguei um comparativo que mostrava as vantagens de consumir chocolates apenas em barra. Não fiz nada disso. Fico pensando se eu não colaborei para a internet esquecer suas raízes. Se minha indiferença em relação ao chocolate ovalado não foi uma contribuição para a perda de tão sublime tradição. Agora não vale mais pensar sobre isso, o mal já está feito, só me resta acreditar que os antigos mestres da tradição não vão deixar esse rito tão antigo desaparecer de nossas redes.

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