Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Contos de Segunda #38

Desde os tempos mais primórdios o ser humano sonha, imagina e fantasia. E dos sonhos, imaginações e fantasias nasceram todos os tipos de seres. Mas nem tudo que o ser humano imaginou era coisa nova, muitas vezes coisas mundanas ganharam personalidade, forma, rosto e voz. E a força do imaginário humano fez nascer um tipo diferente de ser. Seres ligados a coisas naturais, terrenas, comuns, mundanas. Foi da mente dos homens que nasceram as Damas.

    Ao longo dos anos as Damas foram mudando. Não eram mais a Chuva, a Lua ou a Floresta que nasciam da imaginação dos homens. A Guerra, a Fome e a Justiça vieram depois. O tempo continuou passando e as Damas continuaram nascendo. Recebendo personalidade, forma, rosto e voz do imaginário mortal. Foi assim que nasceu Segunda, uma das cinco Damas da Semana. Apesar de satisfeita com seus poderes, de ter um dia dedicado só pra ela e de ser a líder das Cinco, ela ainda tinha um problema. Toda Dama precisa de um Cavaleiro. Das Cinco só Segunda que não tinha um, e isso estava preocupando a Mãe-de-Todas. Foi isso que levou Segunda à presença da Mãe naquele início de semana.

    Só uma Dama pode atravessar as portas para o Salão da Mãe. Onde a Dama da Lua observa o globo terrestre de seu trono prateado.

    — Saudações, Dama da Lua. Fonte de tudo que é bom e mãe de todas nós — Segunda fez uma reverência.

    — Pensei que atenderia mais rápido ao chamado, Segunda-Feira.

    — Só posso chegar ao Salão da Mãe quando estou com todos os meus poderes, Dama-Mãe, ou quando estou junto com minhas irmãs.

    — Poderia tê-las chamado, não és a líder das Cinco? Suas irmãs não te negariam esse favor.

    Provavelmente negariam. O chamado da Lua chegou na quinta-feira. As gêmeas, Quinta e Sexta, decidiram que todas as irmãs precisavam cair na farra. Com sorte elas encontrariam um candidato para ser o Cavaleiro que Segunda-Feira precisava. Esse tipo de plano normalmente acabava frustrado, Segunda sabia estragar prazeres, era um dos poderes que ela mais gostava de possuir.

    — Talvez… Mas eu já sei qual o assunto e… — Ela olhou para baixo encarando os próprios pés. — Não é tão urgente assim.

    — Como pode não ser urgente, jovem Dama? Sabes bem o que acontece com uma de nós quando não existe um Cavaleiro.

    — Eu sei, eu sei, mas… Dizem que a insanidade pode demorar muito pra aparecer, ainda tenho tempo.

    — Não é só isso que me preocupa, pequenina. Teus poderes podem ficar fora de controle bem antes de qualquer sinal de insanidade. Uma Dama descontrolada é um dos maiores perigos do universo.

    — Eu sei, eu sei, mas Mãe… Eu não consigo encontrar um candidato.

    — Seria mais fácil se tuas vestes estivessem de acordo — Lua apontou para sua filha. Enquanto a Mãe-de-Todas vestia um longo vestido branco que brilhava como a lua cheia e adornos feitos pela Noite em seus cabelos prateados, Segunda usava um casaco, cachecol e botas de inverno, uma touca de lã e óculos grandes de armação grossa.

    — Mãe, eu vivo no mundo mortal, preciso me misturar com eles. Todas as Cinco usam roupas mundanas.

    — Mas tuas irmãs não escondem a nossa beleza feérica debaixo de tantos tecidos, nem cortam os cabelos tão curtos e o que é isso no teu rosto?

    — Óculos…Já nasci com eles.

    — Pelo menos poderias optar por um modelo que valorizasse teus olhos, minha querida… E quanto ao candidato? O que esperas de um candidato a Cavaleiro?

    — Ah, Mãe, sei lá… Atualmente só queria que meu Cavaleiro não quisesse cortar os pulsos depois de acordar numa segunda-feira.

    — Ninguém tem tal desejo, filha.

    — Mãe, os meus poderes vêm da aversão que os mortais têm pelo meu dia. Os resmungos, queixas e reclamações dos humanos me dão tanta energia que nem Sexta em semana de feriadão consegue rivalizar com minha força. Eu não sou líder das Cinco por acaso.

    — Então basta encontrar esse mortal que não tem tal desejo, um que não resmungue ou reclame do teu dia. Ache este mortal e terás um Cavaleiro.

    — Muito fácil pra senhora dizer, nunca faltaram Cavaleiros da Lua, mesmo depois que o primeiro Cavaleiro partiu.

    — Calada, Dama da Segunda-Feira — os olhos da Lua se estreitaram de fúria, a sala ficou gelada e escura, apenas a luz da Mãe iluminava o ambiente. — Como ousa se dirigir a mim nesse tom — o ar ficou mais pesado, se Segunda não estivesse com todos os poderes, certamente seria esmagada. — Existem mais mortais na Terra do que podemos contar, volte, procure algum que se encaixe, peça ajuda às suas irmãs. Todas elas, a partir de hoje, têm o dever de ajudá-la nessa busca. AGORA VÁ!

    A luz da Mãe-de-Todas cegou Segunda por um instante. Quando os olhos recuperaram a visão ela estava no meio da rua, em uma calçada de um centro movimentado. O celular tocou no bolso do casaco. Um lembrete da hora da próxima aula. Seus alunos estavam esperando.

Charme

Uma coisa interessante sobre as mulheres são os efeitos que elas conseguem causar em um homem. Não falo apenas daquelas que fazem a cabeça dos transeuntes virar ou recebem uma buzinada indiscreta na rua. Os efeitos que um ser feminino pode causar em um macho são vários, semelhantes à primeira vista, porém bastante distintos. Esses efeitos vão desde o despertar dos instintos mais primitivos do homem primata até o mais puro e simples abestalhamento, quando o indivíduo não consegue fazer muito além de olhar e babar. Mas tem uma coisa que algumas mulheres tem, uma coisa que deixa os homens perplexos e confusos desde a antiguidade. Na falta de um nome melhor conhecemos isso como Charme.

Toda a natureza misteriosa e sobrenatural do ser humano, ou pelo menos boa parte dela, está nas mulheres.  O charme não pode ser explicado de outra forma senão essa. É a capacidade que uma mulher tem de ser bonita e atraente sem necessariamente bonita e atraente. Complicado? Um exemplo prático é melhor, talvez as moças nunca tenham passado por isso, mas acredito que seja um exemplo válido. Todo homem já se deparou com uma mulher que, apesar de não ter uma aparência muito exuberante, chamou sua atenção de uma maneira incomum. Mesmo sem entender, o cara não conseguia tirar os olhos dela. Isso acontece principalmente por que ele mesmo não entende a natureza do magnetismo que a sujeita em questão tem. Ele analisa o que está diante dos olhos e vê que ali não tem nada de incomum, mas o seu pensamento já está preso. Preso por algo que ele não sabe o que é, mas é bonito e o atrai de uma maneira mística, misteriosa e incontrolável.

Em resumo o charme é a habilidade natural que uma mulher tem de ser bonita e feia ao mesmo tempo. Isso pode parecer absurdo, mas acontece. Esse efeito pode ser sentido principalmente quando uma mulher parece muito mais atraente pessoalmente do que nas fotos. Nas cópias estáticas da realidade apenas a aparência da sujeita é registrada. Mas pessoalmente, ao ver o jeito que ela se move, olha, fala e interage, não dá pra tirar os olhos dela. E ainda assim sem saber por que não consegue. Mulheres desse tipo são mestras do “show don’t tell”, ou em bom português “mostre, não diga”. Todas as pistas estão lá, mas você não sabe o que elas querem dizer, e ela não vai te contar. Faz parte do jogo.

Se as informações acima não foram convincentes o suficiente então cabe lembrar que o efeito contrario também acontece. Algumas mulheres atendem a todos os requisitos necessários para serem consideradas bonitas, mas não dão aquele estalo no cérebro. Não fazem muito além de despertar um sentimento de atração física. São seres sem encanto, que revelam mais do que escondem, e não estou falando sobre o modo de vestir. Mulheres sem mistério que não estão sintonizadas com os poderes ancestrais das deusas cultuadas antigamente. Mas pelo menos essas são as mais inofensivas. Se não cantam como sereias, não podem te afogar.

Dia Internacional da Mulher

8 de Março, também conhecido como ontem, dia em que foi comemorado o Dia Internacional da Mulher. Uma data comemorada em todo mundo e que nos lembra da luta feminina pelos seus direitos e por uma sociedade mais justa para pessoas de diferentes gêneros. Como o Cachorros de Bikini não publica nada nas terças este texto está automaticamente atrasado. Como ano que vem o dia 08 vai cair em uma quarta-feira, um texto que vai explorar melhor o significado dessa data e qualquer reflexão do tipo vai ficar pra 2017. Em 2016 vou falar um pouco sobre o ritual folclórico que cerca o dia 08 de Março.

    Março mal começa e vemos todo o tipo de propaganda, vinheta, cartaz, outdoor e derivados fazendo as devidas homenagem aos seres humanos femininos. Homenagens e mais homenagens que se acumulam e aumentam em número, culminando na enxurrada final do dia 08. Dia Internacional da Mulher, dia de ganhar aquela bela rosa acompanhada por um Sonho de Valsa ou similar e um cartão, mensagem ou algo que o valha. Todos os lugares se vestem de rosa, ou não já que atualmente rosa só rola mais em Outubro, e a quantidade exorbitante de parabéns por todos os lados. O que eu acho mais legal de tudo isso é que essa é mais uma prova cabal de que o Dia do Homem é uma parada muito nada a ver.

    O dia 8 de Março não é bem melhor que o 15 de Julho por que todo mundo gosta de adular as moças. Todo o movimento por trás disso é uma mostra de como as questões lembradas no Dia da Mulher são bem mais relevantes. Já começa que ninguém lembra que dia é o Dia do Homem, mas muitas crianças que não sabem nem consultar o calendário sabem qual o Dia Internacional da Mulher, por aí você tira a disparidade que existe entre os dois. Se não acredita é só consultar o datascomemorativas.me. Nesse calendário aparecem datas relevantes como o Dia Nacional do Trovador, o Dia da Identificação, o Dia da Vacina BCG e mais inúmeras datas tão relevantes quanto. Adivinha qual data não aparece nesse calendário? Agora adivinha qual data aparece marcada com uma estrelinha? Essa daí foi tão na cara que nem tem mais como continuar esse tópico.

Pra encerrar esse texto, que já nasceu atrasado, só resta dizer que o Cachorros de Bikini dá os parabéns a todas as moças deste e de outros universos. Vocês merecem bem mais do que uma rosa ou um Sonho de Valsa. Merecem mais do que um “parabéns” ou uns instantes de adulação. Só não digo que merecem o mundo inteiro por que provavelmente se um dia vocês ganhassem iam acabar dividindo ele com os homens. E esse lance de homem cuidando do mundo, seja ele inteiro ou só um pedaço, já sabemos o quão errado dá.

Contos de Segunda #37

Fernanda estava com um humor péssimo. O papagaio do vizinho começou a gritaria às quatro da manhã, exatamente três horas antes do despertador de Fernanda tocar. O maldito papagaio costumava fazer esse tipo de coisa, mas nunca tão cedo. Depois de falhar miseravelmente em voltar a dormir Fernanda resolveu antecipar sua corrida noturna. Chegou na rua, ligou a música e colocou os fones de ouvido. Depois de quinhentos metros a música parou. O player ainda reproduzia a música, mas nada de som. Ela experimentou tirar o fone, a música voltou. Ao colocar o fone novamente a música parou. Depois de algumas tentativas Fernanda desistiu, o fone de ouvido só funcionava com o rádio e o jeito foi correr ouvindo o noticiário policial com as noticias da madrugada.

    Depois da corrida desastrosa não foi difícil chegar cedo no trabalho. Ela ligou o computador e conectou os fones de ouvido. Aparentemente eles estavam funcionando perfeitamente. O dia prometia ser tranquilo e sem muitos aborrecimentos. Tudo que Fernanda precisava fazer era não tirar os fones do ouvido. Ela tinha começado recentemente no emprego e um dos seus colegas de sala produzia inúmeros barulhos praticamente insuportáveis. O teclado fazia muito barulho, o scroll do mouse rangia, as rodinhas da cadeira arrastavam no piso e ele tinha um pigarro eterno. Mas tudo isso era barrado, ou pelo menos minimizado, pela ação do fone de ouvido e pela biblioteca de música praticamente infinita do serviço de streaming. Era só carregar a página de um artista ou banda com uma discografia grande, fazer a lista de reprodução e tudo ficaria bem… Mas não ficou.

    “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. Foi o que apareceu na tela quando ela tentou acessar a página de um artista. Tentou com outro, mais um, uma banda. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O sangue de Fernanda começou a esquentar, de repente os 14,90 que ela pagava na assinatura do serviço pareceram uma quantia exorbitante. Tentou o player web, depois pelo aplicativo do celular. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O colega barulhento chegou mascando chiclete, da forma mais ruidosa e babada que um ser humano poderia mascar um chiclete. Fernanda já estava trincando os dentes, mas antes de perder completamente a calma ela se conformou em passar o dia ouvindo rádio. Como todas as rádios legais da internet eram bloqueadas pelo servidor, ela teve que se conformar com as rádios FM’s normais, com todas aquelas músicas repetidas e intervalos comerciais sem fim.

    Chegou em casa cedo desejando comer e dormir. Depois de comer um pedaço da lasanha do almoço de domingo ela estava pronta pra cair na cama… Quando o papagaio começou a gritar. Uma, duas, três horas. Já passava das 22h e o papagaio ainda berrava. Fernanda decidiu agir. Pegou uma faca, colocou entre os dentes, saiu pela janela da área de serviço, escalou um pedaço da fachada, cortou a tela de proteção e entrou na área de serviço do vizinho, lá ela encontrou o papagaio. Ela olhou furiosa para a ave tresloucada. Os gritos aumentaram. Ela pegou o bicho pelo pescoço e desceu a faca em um golpe vertical… Arrebentando a corrente que prendia o papagaio no poleiro. Ela levou o bicho seguro pelo pescoço até o quarto onde o vizinho dormia com sua esposa. Abriu a porta, jogou o papagaio dentro, fechou a porta e habilmente usou a faca para inutilizar a fechadura. Voltou para a área de serviço, desceu um pedaço da fachada até chegar em casa. Caiu na cama e dormiu bem como jamais dormiria outra vez na vida.

“Só O Homem Penitente Passará”

Outro dia estava eu me lembrando de um dos maiores clássicos do cinema mundial, Indiana Jones e A Última Cruzada. Nesse filme de 1989, Indiana Jones parte atrás do Santo Graal e se mete em muitas confusões por causa de uma turminha do barulho. Já no final do filme, Dr. Jones precisa resolver uns puzzles pra conseguir chegar no graal. Cada um desses desafios tem uma dica marota que deve ser desvendada pelo nosso herói, caso contrário ele não só perderá o graal, mas também poderá perder a vida. Não lembro direito quais são esses desafios ou quais as dicas pra solucioná-los, mas uma dessas dicas ficou gravada na minha memória: “Só o homem penitente passará”.

Essa frase me veio na cabeça durante conversas que tive com diferentes pessoas ao longo dos últimos dias. Todas elas relataram estar passando por alguma dificuldade ou estar desanimado por causa de algum ocorrido na vida. Para todas elas eu disse a mesma coisa: “o que aprendemos em Indiana Jones e A Última Cruzada? Só o homem penitente passará”. Não que alguma dessas pessoas estivesse de fato pagando alguma penitência, mas acho que essa frase se encaixa bem em vários momentos da nossa vida.

Por definição, penitência é uma pena imposta, ou auto imposta, para expiar a culpa gerada por cometer algum erro. Na prática a penitência nada mais é do que um sofrimento e/ou sacrifício temporário que nos faz melhorar em algum aspecto do nosso caráter. Partindo desse conceito podemos afirmar que somos todos penitentes, já que o sofrimento e o sacrifício são tão comuns em nossas vidas que praticamente não existe um momento em que estamos totalmente livres de uma dessas duas coisas. Então quando estiver passando por um momento meio marromeno, quando faltar ânimo e disposição pra encarar os desafios, lembre-se que a dificuldade é uma oportunidade de crescimento, desenvolvimento e evolução. Que muitas vezes uma frase besta de um filme velho que tem pouco compromisso com a realidade pode gerar uma reflexão interessante. Então não se esqueça: “Só o homem penitente passará”.

“Eu Vou Celebrar Um Casamento”

A frase que dá título ao texto de hoje apareceu no meu feed do Facebook no início dessa semana. Ela foi escrita por uma grande amiga minha que está pulando num pé só de tanta felicidade. O motivo já dá pra adivinhar, ela vai celebrar um casamento. Ela não é (até onde eu sei) juíza de paz, não é sacerdotisa  e (ainda) não é representante de nenhum tipo de religião. Ela foi convidada pelos noivos apenas por ser uma amiga do casal e principal responsável pela união dos dois, pelo menos foi o que ela disse. Diante da peculiaridade do fato, fico pensando como é passar por uma experiência tão singular.

    Imagine que um casal de amigos te chamou pra ser padrinho ou madrinha. Agora multiplique isso por cem. Provavelmente essa é a sensação de ser convidado pra celebrar um casamento. Somos acostumados a testemunhar as uniões, eu mesmo fui testemunha de um casamento ano passado e fui lá assinar o livro amarradão, mas uma porcentagem ínfima da população vai a um casamento pra promover, diante de Deus e dos homens, a união entre duas pessoas que, pelo menos até aquele momento, desejam passar o resto dos dias juntos. Juntar as escovas de dente, apesar de não ser muito recomendado pelos dentistas, ter aquela velha conversa de alcova, acordar com o mesmo alguém do lado até que a morte os separe. E tudo isso só vai acontecer por que você estava lá diante dos noivos, padrinhos, madrinhas, família, amigos e da divindade preferida pelos noivos pra fazer uma das perguntas mais conhecidas da humanidade. “Você aceita (insira o nome do noivo ou noiva) como seu/sua legítimo/legítima esposo/esposa?”.

    Eu sei que nunca vai acontecer comigo. Mesmo se convidar amigos pra celebrar uniões fosse uma prática comum, eu não sou uma boa opção pra exercer essa função, mas nem por isso eu deixo de imaginar como seria. A sensação de ficar na frente de toda aquela gente, e principalmente na frente dos noivos. Quem já parou pra observar essa dupla já deve ter notado que, pelo menos naquele momento, eles estão explodindo de felicidade. Talvez a seriedade da cerimônia limite um pouco essa manifestação, mas quem celebra o casamento não tem risco de pegar um lugar ruim pra assistir a cerimônia. Quem celebra o casamento não precisa torcer pra não acabar sentando atrás de uma pessoa com dois metros de altura. Quem celebra está lá, diante dos noivos. Duas almas prontas pra atingir o último patamar na escala de evolução dos relacionamentos. Uma felicidade que transborda por todos os lados. Que escorre como lágrimas, que ilumina os sorrisos e faz as mãos se segurarem com uma firmeza nervosa. Mas principalmente uma felicidade que transborda no olhar. E é para o celebrante da cerimônia que os olhos estão voltados. Olhos de quem só quer dizer o “SIM” e dar o fora dali. Os noivos podem ser o centro das atenções pros convidados, mas se você celebra o casamento, você que é o centro das atenções… Pelo menos pros noivos.

Contos de Segunda #36

Aluísio tinha uma relação muito particular com a Segunda-feira. Praticamente todas as coisas relevantes da sua vida aconteciam no primeiro dia útil da semana. Em muitas das segundas não acontecia nada, em outras aconteciam coisas demais. Independente do nível de acontecimentos, Aluísio sempre sentia quando algo muito importante aconteceria. Ele estava com essa sensação desde as primeiras horas de 2016. Ano bissexto, com vinte e nove dias em Fevereiro. Vinte e nove, terminando em uma segunda-feira. Da última vez que isso tinha acontecido não foi nada bom pro pobre Aluísio.

O ano era 1988. Aluísio, com seis anos na época, já tinha alguma noção da sua relação com o calendário. Por isso o primeiro dia útil da semana acabou se tornando o seu favorito. Pelo menos até aquela segunda-feira 29 de Fevereiro. Durante um passeio da escola ao Jardim Botânico, o pequeno Aluísio se perdeu. Passou todas as horas da segunda-feira sozinho no meio do mato. Havia grande chance de ocorrer algo tão ruim quanto. Ele podia sentir.

O dia começou bem e tudo parecia normal. Até a mensagem de Amélia, esposa de Aluísio chegar. Ela estava passando mal e estava indo para o hospital. Aluísio pegou um táxi e foi atrás dela. Depois de ouvir a notícia de um protesto no rádio o taxista abandonou Aluísio, que saiu andando na esperança de passar pela área do protesto e pegar outro táxi. Ele teria pego se ao cruzar o protesto não fosse confundido com um famoso sindicalista idolatrado por todos os manifestantes da cidade. Rapidamente a notícia de que o movimentos foi legitimado pela presença de Aluísio correu. A polícia foi acionada e a quantidade de manifestantes aumentou quase duas vezes em meia hora. Depois de muito protestar, Aluísio foi detido pela polícia e colocado dentro de uma viatura. Quando deu no rádio que o verdadeiro sindicalista famoso tinha aparecido na manifestação dizendo que o patronato tinha infiltrado um sósia dele no protesto para dispersar o movimento, os policiais soltaram Aluísio e ofereceram uma carona como forma de remediar o transtorno. Ele prontamente aceitou.

No caminho para o hospital os policiais precisaram parar. Uma casa lotérica estava sendo assaltada. Os bandidos conseguiram fugir na viatura e acabaram levando Aluísio como refém. O celular vibrou, era mensagem da esposa. O aparelho foi sacado do bolso só para ser atirado pela janela da viatura. Apesar do susto, Aluísio estava feliz. A mensagem de Amélia era curta o suficiente para ser lida em um instante.

“Você vai ser papai”.

Oscar 2016

No próximo domingo, também conhecido como 28 de Fevereiro, acontecerá a cerimônia do Oscar, a maior premiação do cinema deste lado do universo, que junta uma galera de Hollywood pra premiar os melhores filmes, roteiristas, editores, compositores, sonoplastas, maquiadores, figurinistas, atores e diretores do ano de 2015. Como a maioria desses filmes favoritos aos prêmios, que são sucesso de crítica e entram pra história como marcos do cinema, eu normalmente não assisto, eu me limito a torcer por dois tipos de concorrentes: os blockbusters bons e os filmes de animação que concorrem fora da categoria de Melhor Filme de Animação. Além dos motivos regulares, nesse ano eu tenho alguns a mais pra torcer.

Neste ano, representando a categoria Filmes que O Povão Foi Ver temos Star Wars Episódio VII e Mad Max: Estrada da Fúria. Star Wars nunca foi uma franquia que costuma concorrer nas categorias mais nobres do Oscar, mas como sempre está lá figurando nas categorias técnicas: Efeitos Visuais, Edição, Edição de Som e Mixagem de Som.

Ele levaria fácil se não estivesse concorrendo com Mad Max em todas essas categorias, a briga vai ser entre esses dois. Cabe ressaltar que eu não vi nada dos outros concorrentes, mas convenhamos, é Star Wars e Mad Max, se nenhum desses dois ganhar nessas categorias vai ser marmelada. Além das categorias técnicas, nossa querida Guerra Nas Estrelas está obviamente concorrendo ao Oscar de Melhor Trilha Sonora graças ao nosso velho conhecido John Williams. Nessa categoria vamos ver um embate interessante entre nosso bom e velho John e a lenda do faroeste Ennio Morricone, com seu trabalho em Os Oito Odiados. Como eu sou louco por Star Wars e um admirador de faroeste, qualquer um dos dois que ganhar pra mim tá de bom tamanho.

Mas minha torcida desse ano está mesmo com Mad Max. Além das categorias que concorre com Star Wars, nossa querida Estrada da Fúria também está concorrendo aos prêmios de Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Diretor e Melhor Filme. A dobradinha Melhor Filme e Melhor Diretor não tá muito fácil, cheias de filmes com atuações espetaculares e histórias bem mais trabalhadas do que Mad Max, mas se fosse pra apostar eu apostaria em George Miller levando o prêmio de Melhor Diretor. Melhor Maquiagem e Melhor Figurino também estão entre as categorias que Mad Max tem mais chance. Também não assisti nenhum dos outros filmes que estão concorrendo nessas categorias, mas Mad Max tem a Charlize Theron com uma protese mecânica e com maquiagem de graxa explodindo coisa durante uma perseguição frenética no deserto, não preciso dizer mais nada.

Além dos filmes sempre tem algumas pessoas pra quem eu torço. Esse ano eu estou na torcida pra nosso compadre Leonardo DiCaprio finalmente ganhar um careca dourado. Depois de bater na trave um monte de vezes, o nosso amigo merece ganhar um Oscar pra chamar de seu. Mas minha maior torcida desse ano vai pra Silvester Stallone, que já ganhou o Globo de Ouro e está concorrendo ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela sua atuação em Creed – Nascido Para Lutar, a melhor atuação da vida do Stallone. Vai ser difícil, mas ver Rocky Balboa de volta ao cinema pode mexer com o coração dos membros da Academia.

Na categoria de Filmes Sem Gente de Carne e Osso temos Divertida Mente concorrendo aos prêmios de Melhor Filme de Animação e Melhor Roteiro. Também concorrendo ao prêmio de Melhor Animação temos pela primeira vez um filme brasileiro, O Menino e O Mundo está lá na lista de indicados. Dificilmente ele vai levar a estatueta, mas só de estar lá já vale muito. E pra finalizar temos uma menção honrosa. Lady Gaga está concorrendo junto com Diane Warren ao prêmio de Melhor Canção Original. Não ouvi a música delas e nem a dos concorrentes, mas eu simpatizo com nossa comadre Gaga e sempre é melhor torcer pelo improvável. Afinal quem poderia imaginar que Lady Gaga concorreria ao Oscar algum dia.

Sobre Ideias E Coisas Guardadas

Ontem estava eu sem ideias sobre o que escrever nesta quarta-feira, por isso acabei lembrando da minha lista de ideias. Em algum momento antes de começar a publicar meus escritos nesse humilde sítio virtual, eu tinha anotado algumas ideias para futuros textos. Acabou que essa lista não serviu pra nada e eu acabei escrevendo sobre tudo menos o que estava nela. Por um grande acaso lá tinha um tema que me pareceu promissor, mas não é sobre ele que escreverei hoje. Hoje o tema é a ideia que eu tive quando lembrei da minha lista de ideias.

    Eu não tenho o costume de jogar as coisas fora. A menos que elas sejam de fato coisas que não valem a pena guardar, provavelmente passarão os anos em algum lugar no fundo da gaveta até que eu os encontre por acaso. Se você, assim como eu, tem essa prática pouco recomendada de acumular todo tipo de tralha e cacareco sabe do que eu estou falando. Principalmente por que a parte boa de juntar todas essas coisas está justamente na magia que cerca esse reencontro casual.

    Encontrar um velho guardado que nem se lembrava mais que existia é quase como ver uma foto antiga de família ou encontrar um velho amigo. Imediatamente sensações de épocas passadas retornam com tudo e somos inundados pela mais pura nostalgia. Logo depois direcionamos todo o nosso carinho para aquela peça do passado recém redescoberta. Obviamente nenhum desses sentimentos nos fez guardar aquilo, só fomos guardando, foi ficando, ficando e ficou. Nós não jogamos fora pra preservar o passado ou eternizar nossas memórias. Não jogamos fora por falta de organização, preguiça, a ilusão de que aquilo vai servir pra alguma coisa algum dia ou então ficamos com tanta pena daquilo estragar que guardamos tão bem, mas tão bem, que acabamos não usando. Mas o mesmo não acontece depois do reencontro.

    Magia define o que acontece nesse momento singular. Se antes guardamos as coisas por um mero acaso, depois que nos reencontramos com elas o motivo é outro. Guardamos com carinho. Carinho recém adquirido pelo amor recém descoberto. Infelizmente o romantismo dessa história acaba quando guardamos as coisas de volta. O espaço que elas ocupam continuará sendo um espaço indisponível. Você vai ter que arrumar mais espaço pras suas tralhas novas e provavelmente vai tender a acumular menos tralhas em função disso… Ou você vai virar um acumulador pra valer e tudo vai ficar ainda pior, mas aí já é outra história.

Contos de Segunda #35

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Maurício. Se quiser conhecer melhor as aventuras do nosso sobrevivente do fim do mundo basta clicar nos links dos Contos de Segunda #2 e #22.

O mundo acabou e continuou tão ruim quanto antes. De um jeito diferente, mas ainda era ruim. Era isso que Maurício pensava sempre, pelo menos até um dia desses. Ele tinha engolido uma pilha palito radioativa e sofrido uma espécie de mutação. Os olhos se tornaram totalmente verdes e os cabelos pareciam ter se transformado em uma espécie de tentáculos, as unhas ficaram pretas e a pele começou a acumular eletricidade. Ninguém sabia ainda. Nem ele mesmo sabia bem o que estava acontecendo, mas por via das dúvidas decidiu manter o segredo.

Maurício disfarçou a mutação durante um bom tempo. Sempre usando chapéu ou capuz para esconder os cabelos e óculos escuros para esconder os olhos. A parte boa do disfarce é que ele funcionava, a parte ruim é que ele estava vestido igual aos punks saqueadores que apareceram durante a revolta das máquinas, que aconteceu na sexta-feira da semana em que o mundo acabou. Os punks saqueadores não eram vistos desde que as máquinas foram destruídas, mas eles tinham uma rixa antiga com os arruaceiros matadores de zumbis. Os mesmos arruaceiros que Maurício encarava sempre que ia trabalhar. Os arruaceiros estavam cada dia menos propensos a fazer arruaça, mas continuavam odiando mortalmente os punks saqueadores ou qualquer um que parecesse com eles.

Um belo dia ele foi cercado por cinco deles. Eles pareciam muito mal humorados e não quiseram conversar muito. Eles usavam armas simples, barras de ferro, facas e correntes. Foi uma corrente que enroscou no braço de Maurício quando o primeiro arruaceiro atacou. Toda a eletricidade acumulada na pele saiu pela corrente atingindo o pobre atacante com um choque violento. Maurício se sentiu fraco por um instante, mas não teve tempo para se recuperar, os outros arruaceiros atacaram.

Eles pareciam se mover em câmera lenta. Uma brecha no círculo, a rota de fuga perfeita. Maurício já estava fora do alcance dos seus adversários antes que pudesse notar. Agora eles se moviam normalmente, e pareciam muito zangados. Um deles puxou um apito e soprou com força. Vários outros arruaceiros matadores de zumbi começaram a aparecer de todos os lados. Fugir era sua única chance, então ele começou a correr. Foi quando uma arma disparou. A perna foi acertada de raspão, Maurício começou a mancar o mais rápido que pôde. Mais tiros e gritos de vários homens e mulheres que não pareciam nada contentes.

“É o fim”, pensou Maurício, “Sobrevivi aos zumbis, às máquinas, às armas nucleares, aos terremotos, ao fim da internet, e vou ser morto por um bando de arruaceiros”. A perna doía cada vez mais, apesar de mancar numa velocidade pavorosa, os matadores de zumbi estavam se aproximando. “A ponte!”, pensou Maurício. Se ele conseguisse atravessar na tirolesa estaria livre. Suas esperanças foram pelo ralo quando ele viu a quantidade de gente que estava na fila. O cabo da tirolesa estava partido, ninguém poderia atravessar. Os arruaceiros estavam chegando. Não havia muito tempo, não havia saída.

“Que se dane, esse mundo já acabou mesmo”, foi o que Maurício pensou antes de correr até a beirada da grande fenda que antes dos terremotos era um rio. Ele não hesitou. Se jogou de braços abertos. Caiu no abismo. Abraçou a escuridão.

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