Cachorros de Bikini

Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Dois Minutos de Ódio

Eu nunca li nem assisti 1984. Em um tempo que nem se pensava em coisas como Jogos Vorazes, Divergente, Convergente, Detergente, Vem Com A Gente e outras distopias juvenis, uma galera já escrevia sobre futuros que não tinham dado certo. Um desses caras foi George Orwell, autor de 1984. Apesar de nunca ter lido esse clássico da ficção do século XX, acabei ouvindo um ou outro comentário aqui e ali a cerca da obra. E uma das coisas que mais ficou na minha memória foi justamente o horário que unificava toda uma nação: os Dois Minutos de Ódio.

    Funcionava de uma maneira bem simples. Todos os dias o governo super controlador retratado no livro exibia na casa das pessoas um vídeo mostrando um famoso inimigo do Estado. Durante essa exibição todas as pessoas colocavam pra fora todo o ódio que sentiam. Direcionando esse sentimento destrutivo para um inimigo do Estado e não para o Estado, que era o verdadeiro vilão dessa história. Aí fica a duvida de onde eu quero chegar com esse papo todo. Estava eu pensando outro dia se talvez não fosse bom instituir os Dois Minutos de Ódio.

    Ódio é uma palavra muito feia e normalmente usada de forma precipitada. Um sentimento tão negativo talvez tenha sido experimentado genuinamente em pouquíssimas ocasiões ao longo de nossas vidas. Talvez se somarmos todas as coisas que nos irritam na vida, possamos chegar perto do que é o ódio verdadeiro, e se de fato fizéssemos isso? Se resolvêssemos focar todos os nossos sentimentos negativos em um único ponto? Será que o efeito seria igual ao livro? Esqueceríamos de detestar aquilo que realmente nos faz mal e simplesmente agíssemos como se nada de realmente ruim estivesse nos acontecendo?

    Imagino que instituir esse tipo de extravasor tenha um efeito positivo. Principalmente pelo fato de deixarmos de nos irritar com coisas q não valem a pena, pois todo o nosso ódio estaria direcionado para um único ponto. Quem sabe eu institua algo como Dois Parágrafos de Ódio, só pra descarregar toda a minha raiva sobre alguma coisa. Isso provavelmente ocorreria pouquíssimas vezes… Talvez só depois de ler algo do tipo “Filmes Que Você Vai Querer Ver em 20XX”… Sempre tem uns filmes que me dão uma raiva descomunal, principalmente certos filmes de super herói produzidos pela FOX, mas isso fica pra outra hora. Esse tipo de ódio tem hora pra ser externado… Dois minutos, pra ser mais preciso.

Sabemos Coisas Terríveis Sobre Nós Mesmos

Outro dia estava eu vagabundeando pelo meu feed do facebook e me deparo com uma publicação deveras interessante. Uma amiga minha estava compartilhando uma página. Segundo a descrição da página, aquele era um lugar que promovia discussões saudáveis de todos os tipos, promovendo o enriquecimento intelectual de todos aqueles dispostos a participar. Como eu não sou um usuário hard de facebook e como meu intelecto fez um voto de pobreza, se negando a ficar rico, acabei atentando para o texto que essa minha amiga utilizou quando compartilhou a página. Entre outras coisas ela dizia “sabemos coisas terríveis sobre nós mesmos”. Isso já foi o suficiente pra deixar minha cabeça em estado de ebulição.

Pode parecer extremamente óbvio, mas somos as pessoas que mais sabem dos nossos próprios podres. Somos as maiores testemunhas dos nossos próprios crimes. Tudo que fazemos é conhecido por pelo menos uma pessoa. Mas esse conceito é bem besta, o que eu quero sugerir é um pequeno exercício mental.

Imagine uma pessoa hipotética, uma pessoa que sabe absolutamente tudo sobre você. Tudo mesmo. Vamos chamá-la de Pessoa A. Pessoa A está conversando sobre você com uma Pessoa B. Pessoa B só faz te elogiar, de um jeito que faz a Pessoa A ficar irritada. Como ela sabe tudo sobre você, decide acabar com a imagem que a Pessoa B tem de você. Então ela solta um podre cabuloso, daqueles que poderiam terminar uma amizade, um namoro, um casamento ou simplesmente fazer você parecer a pessoa mais horrível do mundo. Que podre seria esse?

O que fizemos que pode ser usado em uma fofoca venenosa? O que temos medo que seja descoberto? O que faria com que todo mundo nos visse de forma diferente? Essas perguntas são bem simples de responder. Não importa se você precisa pensar um pouco, se precisa pensar muito ou se tem a resposta na ponta da língua. Não existe uma Pessoa A, mas você sabe exatamente qual a resposta.

A verdade é que sabemos coisas terríveis sobre nós mesmos. Que talvez sejam terríveis só pra nós e mais ninguém. Ou que sabemos que seriam terríveis para outras pessoas. Caso você ainda esteja em dúvida sobre quais coisas terríveis são essas, basta fazer um exercício bem simples: pense em você como se fosse outra pessoa. Talvez isso te renda mais conhecimento do que imagina.

Contos de Segunda #34

Os fatos narrados a seguir tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

    O celular tocou de novo. Já era a quarta vez. O zumbido baixinho que o aparelho fazia não era suficiente para fazer Roberta acordar. Luciana sabia disso. Também sabia que Ned, o cachorro de Roberta, detestava o som do celular vibrando. Caso o celular passasse muito tempo vibrando, ele ficava com vontade de fazer xixi. Ned só fazia xixi na rua, então nesses momentos de desespero ele pedia ajuda à sua dona. Roberta não pôde negar o pedido do cachorro. Desceu vestindo as roupas de dormir, com uma cara amassada e os olhos ainda se acostumando com a claridade. Na frente do prédio uma moça a esperava encostada em um carro.

    — Até que enfim, faz um tempão que eu tô tentando falar contigo.

    — São cinco e meia da manhã, Luciana — respondeu Roberta. O sono ainda não tinha permitido que o cérebro da moça percebesse cem por cento do absurdo daquele momento.

    — Se você tivesse respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações, nenhuma de nós estaria aqui.

    — Eu só vim trazer Ned pra fazer xixi e… Ei, pera aí — finalmente ela tinha acordado. — Você deixou ele nervoso com a vibração do celular de novo?

    — Você podia ter atendido — disse Luciana de um jeito que pareceu mais um “não teve outro jeito”. — Preciso de ajuda.

    — Luciana, qualquer tipo de ajuda pode esperar até o horário comercial.

    — Que horror, Roberta. Eu aqui precisando e você me trata desse jeito?

    Roberta respirou fundo. Olhou para Ned que alegremente marcava o pneu do carro de Luciana. Olhou para o céu como se procurasse um sinal. Olhou para os próprios pés pra tentar criar coragem.

    — Vai, diz o que é.

    Luciana não conseguiu conter o sorriso.

    — Sabe que dia é hoje?

    — Segunda.

    — Sério, Roberta — disse ela fingindo estar ofendida. — Cristina entra de férias hoje.

    — E daí?

    — E daí que nós temos trinta dias para: número um, descobrir o que rolou com ela e o boy no fim do ano e número dois, ajeitar as coisas pra juntar os dois assim que ela voltar.

    — Ah, não. Nem venha, Luciana — Roberta sacudia as mãos. — Essa história já tá me deixando maluca. Deixa os dois se detestarem em paz.

— Que exagero, amiga. Eu conheço Cristina, ela quer o boy dela… Só não se ligou nisso ainda.

— E o que Jorge quer não conta?

— Ele é homem, Roberta. Não interessa o que ele quer.

— Ignorando essa parte. Qual o plano pra descolar a informação?

— Cristina não vai me contar nada. Já tentei de todo jeito, até soro caseiro da verdade ela tomou e não soltou a língua. A esperança é saber por Jorge, é aí que você entra.

— Ihhhhhhhh, nem invente. Jorge anda de péssimo humor e cada dia ele gosta menos dessa historinha que você espalha dele com Cristina.

— Não espalhei nada.

— Luciana, o estagiário que chegou semana passada entrou na sua sala por engano e voltou comentando o que tinha rolado entre Cristina e Jorge.

— Detalhes, detalhes. Eu tenho um plano perfeito pra conseguir matar dois coelhos de uma vez.

— Lá vem.

— Jorge e Cristina são muito parecidos. Cristina não consegue guardar tudo que acontece só pra ela. Ela sempre me conta tudo… Exceto o que aconteceu entre ela e o boy, mas isso é diferente. A gente precisa encontrar a pessoa pra quem ele conta as coisas e chegar no cara.

— Defina “chegar no cara”.

— Isso é comigo, sua parte é me mostrar o alvo.

    — Como não deve ter outro jeito, eu vou te ajudar, mas agora me deixa voltar pra cama. Só ajudo os outros em horário comercial.

    Luciana deu um pulo de alegria e abraçou a amiga. Entrou no carro e partiu. Deixando para trás a amiga sonolenta e seu cachorro mijão.

Esse Aqui É O Número 100!

Cem. One Hundred. Hundert. Hyaku. Miaya. Bǎi. Cent. Sto. Baeg. Cien. Ekató. 100. Esse é o número do post de hoje. Essas linhas que você está lendo, estão compondo a centésima publicação deste humilde blog. Essa marca que não vale de nada impressionante merece um texto comemorativo. Depois de muito matutar… Nem tanto assim… Na verdade eu matutei bem pouco, mas acabei resolvendo juntar alguns números aleatórios para celebrar essa graça alcançada.

O Cachorros de Bikini está ativo há 253 dias. Ao longo desse tempo foram publicados 100 textos, totalizando 41.247 palavras. Sim, você não se enganou. Quem leu todos os textos publicados passou a vista em QUARENTA E UMA MIL DUZENTAS E QUARENTA E SETE PALAVRAS. Uma média de 412 palavras por publicação. Se considerarmos que cada texto demorar mais ou menos uma hora pra ficar pronto, chegamos a pouco mais de 100 horas de trabalho. Se o Cachorros de Bikini fosse um trabalho com carga de 44 horas semanais, eu precisaria trabalhar mais ou menos duas semanas e dois dias. Se eu gastasse esse tempo assistindo séries de TV com episódios de 42 minutos, eu teria assistido quase 143 episódios. É como se eu tivesse assistido Grey’s Anatomy  ou CSI e parado perto do final da sétima temporada, também teria conseguido terminar com folga Friends, How I Met Your Mother.

Dessas milhares de palavras, 14.907 foram escritas em Contos de Segunda. A série especial de início de semana chegou ao seu número 33 na última segunda-feira. Nesses trinta e três contos, nós tivemos 21 protagonistas diferentes e nem preciso dizer que as figurinhas que mais se repetiram foram Cristina e Jorge, o quase-casal mais amado do Cachorros de Bikini. Também é dessa série o maior texto publicado até então, com 1242 palavras o Contos de Segunda #27 – Parte 02  é o recordista. Não por acaso ele foi a primeira vez que Cristina e Jorge dividiram o protagonismo do início de semana.

Uma centena. Paro e penso “Caramba!” e “UAU!”, e logo depois eu penso “Blz, e agora?”. Obviamente eu não esperava atingir esse número e por consequência atingi-lo nunca foi de fato um objetivo. Mas cá estou eu, com uma centena de textos e vontade de fazer mais algumas centenas deles. Já já o blog vai fazer um ano, mais uns cinquenta textos e eu chego lá. Daqui a pouco o número das publicações chega em 200 e eu nem vou sentir. Números são números, mas quando eu olho os números do Cachorros de Bikini o que eu vejo tem muito mais relação com valor do que com quantidade. Se milhares de palavras foram publicadas, isso quer dizer que outras milhares foram apagadas ou sequer chegaram a ser escritas. Se todo esse tempo foi gasto para escrever todas essas publicações, muito mais foi gasto pensando no que escrever e principalmente no que não escrever. Tem gosto de conquista? Tem. Tem gosto de vitória? De leve. Mas acima de tudo tem gosto de surpresa, de alcançar o inesperado. Que venham mais cem, mais mil ou mais dois mil. Um por um. Uma letra, uma linha, um texto de cada vez.

Relaxa, É Carnaval

Carnaval. Festa da Carne. Quatro (ou cinco) dias de festa, alegria, álcool, música, sol no quengo, suor, calor humano, fantasias variadas, músicas que tocam todo ano, hits feitos de chiclete vindos da Bahia, amores que acabam na quarta-feira, outros que vão durar mais alguns muitos carnavais, muita, mas muita “NOTA…DEZ” e todo tipo de sacanagem lúdica e recreativa.

Apesar de não gostar da folia, é impossível ficar totalmente isolado dessa atmosfera. Diante disso resolvi que o texto dessa quarta-feira(de cinzas) seria sobre o carnaval, mas o que falar dessa festa que eu nem de longe vejo? Realmente de festa eu não entendo, mas uma coisa que eu ainda consigo fazer é observar as pessoas. E no carnaval, assim como em outras épocas do ano, as pessoas adquirem um comportamento muito curioso. Não existe época em que as pessoas são mais tolerantes do que no carnaval.

Pode parecer besteira, mas se você parar pra reparar “É Carnaval” não é só uma frase, é quase um sentimento. Nessa história de “É Carnaval”, o folião não se queixa do sol, nem do calor da fantasia. Não liga pro aperto, é solidário com o folião desconhecido que tá passando aperto. E aperto é o que não falta durante o reinado de Momo. Atrás do trio, da orquestra ou seja lá do que for, o espaço é disputado no nível do metrô em hora de pico. Mas no carnaval quem está se apertando não queria estar em outro lugar.

As piadas fazem mais graça, a música parece melhor e aquela fantasia que talvez não tivesse graça nenhuma faz você morrer de rir. Machistas nível “Orgulho de Ser Hétero”  se vestem de mulher e moças que passam 360 e poucos dias do ano falando mal do tamanho da roupa das piriguetes, mas reservam esses quatro dias pra se vestir pior do que elas. Isso sem contar que coisas que normalmente incomodariam muito, acabam sendo quase ignoradas no carnaval. Andar um tempão pra poder pegar um ônibus ou metrô, improvisar banheiro e até cerveja quente acabam sendo parte do que é se aventurar no carnaval.

Mas hoje é quarta-feira e acabou-se o carnaval. Fim da folga para todos, seja folião ou não. Vou aproveitar a deixa para desejar um feliz ano novo para todos. Afinal, todo mundo sabe que 2016 só começa pra valer a partir de amanhã… Mas amanhã já é quinta… Melhor deixar pra segunda.

Contos de Segunda #33

Aderbal desapareceu. Carnaval, segunda-feira. Os planos de viajar foram frustrados por uma série de infortúnios e imprevistos. Mas nenhum dos imprevistos era maior do que a visita da sobrinha. O irmão de Aderbal morava em um cidade onde a diferença entre o carnaval e o dia de finados era o tamanho do feriado. Não seria estranho que em algum momento Adriana, sobrinha de Aderbal, resolvesse passar o carnaval em um canto onde ele de fato existe.

    Ela chegou no sábado de manhã, mas Aderbal só precisaria se preocupar com ela a partir da segunda. O combinado era encontrá-la perto do centro, onde ficava o apartamento de um dos amigos da moça. Como algumas ruas estavam fechadas, Aderbal precisou estacionar um pouco longe. Ele estava com o nome da rua, Adriana ficou de confirmar o prédio assim que o tio chegasse à rua… E teria confirmado caso atendesse o celular. Diante disso Aderbal resolveu voltar para o carro. Chegando lá ele percebeu que um bloco estava se concentrando exatamente na rua onde o carro estava estacionado. O porta estandarte do bloco tinha caído e quebrado o braço. Os demais presentes estavam tentando resolver quem tomaria seu lugar. Com medo de não conseguir sair com o carro por causa do bloco, Aderbal se ofereceu para levar o estandarte do bloco, talvez assim eles saíssem de lá mais rápido.

    O final do percurso do bloco era um encontro de blocos. Aparentemente todas as agremiações da redondeza se encontravam na segunda-feira de carnaval. Ao perceber que aquilo demoraria mais do que o previsto, Aderbal resolveu ligar para Adriana ou para casa. Ao colocar a mão no bolso não encontrou nada. O celular havia sido furtado. Ele estava pronto para pedir o celular de alguém quando alguém espirrou um spray de espuma no seu rosto. Imediatamente começou uma reação alérgica que fez o rosto e a língua do pobre homem ficarem inchados, ninguém conseguia entender o que ele estava falando.

    Ainda na metade do encontro de blocos outra pessoa resolveu assumir o estandarte. Aderbal voltou correndo para o carro. Quando ele tentou destravar as portas, o controle do alarme entrou em curto e o veículo começou a apitar. Isso ocorreu justamente quando uma viatura da polícia militar passava pela área. Os policiais não acreditaram na história de Aderbal, pelo menos na parte que eles conseguiram entender. O inchaço do rosto o deixara muito diferente das fotos que estavam nos documentos. Os policiais chegaram à conclusão de que aqueles documentos e aquelas chaves haviam sido roubados e o suspeito seria levado à delegacia.

    Adriana não conseguiu uma carona. Ao chegar de táxi na casa dos tios informou a família sobre o sumiço de Aderbal. Resolveram esperar mais algumas horas até que ele aparecesse. Tal fato só ocorreria na metade da madrugada. Quando o rosto de Aderbal finalmente voltou a ter alguma semelhança com as fotos dos documentos. Para tentar minimizar os transtornos, os policiais deixaram Aderbal em casa. Mas a família toda tinha resolvido ir procurá-lo nos hospitais, delegacias e no IML. Infelizmente ele precisava esperar alguém voltar antes de entrar em casa. As chaves ficaram no carro.

Escrever Sobre Qualquer Coisa

    Há uns anos atrás, por indicação de um amigo, eu li o maravilhoso Para Ler Como Um Escritor de Francine Prose. Dentre as várias coisas comentadas nesse livro, está a obra de um russo chamado Anton Tchekhov. Esse cara que era médico, dramaturgo e escritor, morreu aos 44 anos de idade vítima de tuberculose e deixou mais ou menos 600 contos escritos. Só pra ter uma ideia do tanto que é isso, é só imaginar que em um ano eu vou chegar na marca de, mais ou menos, 50 contos publicados no Cachorros de Bikini. Contos minúsculos comparados com o tamanho dos contos que esses escritores contistas costumam escrever. Mas de todas as coisas relatadas sobre Tchekhov no livro, a mais impressionante, na minha humilde opinião, é sobre o método de escrita do autor.

    Uma vez nosso compadre russo foi questionado sobre qual era seu método de composição. Ele pegou um cinzeiro da mesa e respondeu “este é meu método de composição, amanhã vou escrever um conto chamado ‘O Cinzeiro’”. Eu nunca li Tchekhov, mas foi só ler isso que comecei a admirar o cara. Até hoje eu penso em como eu gostaria de criar universos como Neil Gaiman, ter uma narrativa tão boa quanto Raphael Draccon ou falar do cotidiano tão bem quanto Xico Sá, mas depois de ler a resposta de Tchekhov meus anseios como escritor ficaram um pouco mais modestos. Atualmente meu maior objetivo é conseguir escrever sobre qualquer coisa.

    Tchekhov não só, segundo ele mesmo, conseguia se inspirar em praticamente tudo. Ele usava essa inspiração pra produzir boa literatura. Fico pensando em como seria fantástico sempre ter sobre o que escrever. Como seria incrível fazer uma boa história inspirado apenas por um copo de plástico, um carregador de celular ou um pedaço de bolo. E também penso no tanto de habilidade que você precisa ter pra conseguir fazer isso e ainda sair uma coisa boa.

    Desde o começo do Cachorros esse foi o maior desafio. Conseguir escrever sobre qualquer coisa é um sonho ainda distante, mas acho que estou fazendo minha parte. Os assuntos aleatórios continuam saindo da cabeça e passando pro papel. Um exemplo disso é que, em plena sexta-feira antes do carnaval, eu estou aqui falando de um russo que conseguia escrever sobre tudo. Até mesmo um misero cinzeiro.

Nascido Para Lutar

    Eu lembro de quando eu era pequeno e muitos dos clássicos dos anos 80 ainda eram reprisados na TV. Dentre os mais reprisados, e com certeza o que está mais vivo na minha memória, está um dos filmes mais icônicos da história desse nosso universo: Rocky IV. Onde Rocky Balboa, “interpretado brilhantemente” por Silvester Stallone, luta contra Ivan Drago, interpretado com bem menos brilho por Dolph Lundgren. Rocky e Rocky II eu só vi quando estava bem mais velho, juntamente com o sexto filme da série Rocky Balboa. O sexto filme não foi só o retorno do velho Balboa, mas também a sua despedida dos ringues. Rocky voltou para mais uma luta e como sempre a luta não foi apenas dentro do ringue, principalmente por causa da relação conflituosa de Rocky com o filho, que acabou gerando uma das cenas mais icônicas do cinema nos últimos anos. Não é difícil adivinhar a minha felicidade quando soube que Rocky Balboa voltaria para o cinema. Dessa vez não seria ele a subir no ringue. Nesse novo filme seriamos apresentados a um novo lutador: Adonis Creed. E para treinar o filho do antigo rival e amigo, Apollo Creed, Rocky Balboa retornou no sensacional Creed, que recebeu merecidamente o subtítulo nacional de “Nascido para Lutar”.

    Eu não vou falar sobre a história do filme. Qualquer resumo que eu fizesse aqui não seria melhor do que qualquer sinopse que tem por aí. Falar sobre como gostei do filme, como o Stallone está atuando muito melhor do que o normal ou de como a trilha sonora é sensacional seria perda de tempo. “Então o que eu tô fazendo lendo esse texto?” deve ser a pergunta que surgiu na sua cabeça, caro leitor. Vamos analisar sob outra ótica. Se repararmos bem, em todos esses filmes, o boxe não é a coisa mais importante.

Em todos esses filmes não só a vida daqueles que lutam gira em torno do ringue. O boxe era uma oportunidade única pra Balboa e ele agarrou com unhas e dentes, e essa escolha mudou a vida dele e de todos ao seu redor. Mas e se lutar fosse uma pura questão de escolha e não a melhor chance de mudar de vida? Não seria spoiler dizer que é justamente isso que acontece com nosso novo protagonista. Adonis Creed escolhe o boxe. Decide ceder à atração irresistível do ringue e mergulha de cabeça. Mas o peso do nome acaba tornando ele o tipo de personagem que eu mais gosto: o personagem de Legado.

Wally West, Tim Drake, Kyle Rayner, Miles Morales e tantos outros personagens das histórias em quadrinhos herdaram o manto dos heróis que vieram antes deles. O que eles tem em comum é a vontade de honrar o manto, o desejo de se provar digno do título, de ser maior que o nome e deixar a sua marca no mundo, de construir algo seu. Adonis não foge muito desse modelo, mas foge totalmente do personagem que Rocky Balboa foi nos primeiros filmes. E é aí que está o brilho do personagem. É nesse ponto que nos enxergamos um pouco no jovem Creed. Foi nesse ponto que eu me rendi à essa história.

Não dá pra discutir muito mais sem entregar mais coisas da história. O que eu vi na tela grande não foi nada revolucionário, mas eu saí do cinema com a impressão de que tinha acabado de ver um clássico instantâneo. Assim como o seu protagonista, o filme é o herdeiro de um legado, o novo detentor do manto, aquele que será responsável por essa série daqui pra frente. E é só o começo da construção de um novo legado.

Contos de Segunda #32

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que apareceu pela primeira vez em Contos de Segunda #29.

Você não sabe no que está se metendo, detetive”. A frase martelava na minha cabeça. Ângela estava metida em coisa grande, dava pra sentir o cheiro do problema de longe. Mas eu não podia me preocupar com isso, a chave de tudo tinha nome: Humberto Solini, o homem que não foi visto depois do assassinato do marido de Ângela. Eu precisava encontrá-lo logo, e já sabia por onde começar.

Lembro de quando Ângela conheceu o marido. Ela tinha uma pista quente sobre um ladrão de joias que estava tirando o sossego da polícia fazia meses. Na época eu estava colaborando com a polícia, Ângela tinha passado por uma rodada de “negociações agressivas” com o tal ladrão e temia pela sua segurança. O esquema com o ladrão era simples, ela recebia as joias roubadas através de um mensageiro. Ia para Lo-Fi, o bar do maior hotel da cidade usando as joias, o comprador aparecia deixava o dinheiro e levava as joias. O mensageiro passava e levava o dinheiro. Na noite em que prendemos o mensageiro Ângela não vendeu nenhuma joia. O comprador apareceu, assim como o mensageiro, mas ela não levou nenhuma joia. Naquela segunda-feira tudo que eu ganhei foi um olho roxo e um tiro que pegou de raspão. Ângela acabou ganhando o coração do comprador. Um ano depois ela estava se casando com Emilio Zappa no salão daquele mesmo hotel. Enquanto eu enchia a cara de vodka no mesmo Lo-Fi que me daria uma pista do paradeiro de Humberto Solini.

O bar estava bem vazio. Era quase hora do almoço e eu procurava pelo meu contato. Cassiano era barman do Lo-Fi há quase dez anos e depois de ter resolvido o caso do desaparecimento da irmã dele, tínhamos nos tornado grandes amigos. Ele estava atrás do balcão servindo algo recém batido para um estrangeiro, aparentemente hospede do hotel.

— Mande o de sempre, Cassiano — me sentei num dos bancos antes de terminar a frase.

— Quase não o reconheço sem o sobretudo vermelho, Carmim.

— O calor não me ajuda a manter o estilo. Pelo menos ainda posso usar chapéu.

— Quem está procurando dessa vez, detetive? — Uma pista sobre um cliente do bar, como pedido de sempre.

— Lembra de Ângela Bevoir?

— Ela arrumou um marido na minha frente, Carmim. E passou a perna em mais uma dúzia dentro dessas paredes.

— Deve saber que o marido dela passou dessa pra melhor.

— Ouvi falar dessa história.

— A morte de Zappa é um caso meio nebuloso. Preciso achar um cara que pode jogar uma luz em cima disso tudo. O nome é Humberto Solini. Todos aqueles cães do banco vivem por aqui. Você deve saber de alguma coisa.

— Eu sei que Solini é apaixonado por duas coisas: charutos e apostas. Se ele está escondido provavelmente não vai ficar muito tempo longe de qualquer uma dessas coisas. Se deram um sumiço nele… Bom, é provável que ele tenha perdido uma aposta bem grande.

— A próxima dose vai ser por conta da casa. — Deixo uma nota de cem em cima do balcão e me levanto.

— Se quiser algo para fumar, detetive, talvez deva visitar o velho Mendez.

Não me virei para ouvir, continuei andando. Não me parecia muito promissor ficar contando os charutos importados, o jockey club era a melhor opção… Pelo menos era o que eu pensava naquele momento. O vento jogou no meu rosto uma página de jornal. O jornal era de ontem e a notícia que tinha acabado de, literalmente, voar no meu rosto tinha como título:

Grande Importador Assassinado ao Sair De Loja”

Algo me dizia que o velho Mendez tinha muito mais a me dizer morto do que tinha quando estava vivo.

Muito Mais Música

    Logo no começo do ano da Graça de 2016 eu estava de bobeira nas internets e me deparei com uma postagem bem interessante. A postagem em questão saiu em um site de cultura pop que eu costumo frequentar, nela são apresentadas sete resoluções de ano novo que podem ser adotadas por qualquer pessoa. Entre resoluções sérias e outras nem tanto, estava uma que eu considerei deveras relevante para a vida prática de qualquer ser humano. O número 2 da lista de resoluções para 2016, segundo essa lista, é “Ouvir Muito Mais Música”.

    Ouvir música atualmente dá muito menos trabalho do que já deu um dia. Praticamente todos os celulares de hoje em dia reproduzem música, inclusive os fones de ouvido costumam vir junto com o aparelho. De todas as mídias que migraram pro digital, a música foi a que melhor conseguiu fazer essa transição, eliminando totalmente a necessidade de mídia física. Mas por que será que ainda consumimos música de um jeito, em boa parte do tempo, preguiçoso?

Na lista o autor não critica gêneros ou estilos específicos. A crítica é contra o igual, o padronizado.Existe muita coisa por aí pra ser ouvida, e principalmente pra ser gostada. Graças a essa maravilha chamada internet, tecnologia que veio pra ficar, qualquer um pode gravar uma música e jogar no mundo pra todo mundo ouvir. Coisas antigas antes de difícil acesso, agora estão a dois cliques de distância. E ainda assim continuamos ouvindo as mesmas coisas de sempre. Não que seja culpa nossa, fazemos inconscientemente.  Quase sempre escutamos o que nos é familiar. Muitos dos artistas novos que experimentando são apenas variantes daquilo que já conhecemos.

O autor da lista desafia todos nós a nos tornarmos nossos ouvidos mais curiosos. Ouvir um artista relacionado, procurar a versão original de um cover, ir atrás daquele carinha que fez uma participação especial naquela faixa e coisas do tipo, são práticas simples que podem ter resultados surpreendentes. Quando menos esperamos, topamos com algum artista interessante que ninguém ouviu falar, ou damos chance pra um estilo que nunca pensávamos que existia. E tenho certeza que quando isso acontece você se sente como eu. Como se aquilo fosse o primeiro passo para um universo muito maior.

Page 21 of 31

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén