Armando estava se aposentando. Trabalhava na mesma empresa há quinze anos e era considerado um funcionário exemplar. Pontual e com pouquíssimas faltas ao longo desses anos todos. Ele não andava muito satisfeito com o trabalho, mas a eminencia da aposentadoria estava fazendo maravilhas com seu humor. Pelo menos até a ultima sexta-feira, quando ele notou que segunda seria seu ultimo dia de trabalho.
Passando os olhos nervosos pelo calendário ele lembrou de um feriado que passou batido. Ele ainda precisaria trabalhar mais um dia. Imediatamente o clima de “festa de despedida” foi construído em sua mente. Pessoas que ele não queria mais ver na vida colocariam a máscara de amigos de trabalho e descarregariam uma tonelada de palavras falsas em seus ouvidos. A paciência já estaria esgotada antes da hora do almoço, quando provavelmente ele seria coagido a almoçar junto com um bando de colegas de trabalho que sentirão pouca ou nenhuma falta dele. E além de tudo isso ainda seria segunda-feira.
O sábado e o domingo foram uma tortura. Todo o desgaste mental foi antecipado de um jeito que Armando acordou naquela segunda como se tivesse passado o fim de semana numa guerra. De fato a guerra existiu, dentro da cabeça dele. Ao entrar no carro já estava com raiva de metade do mundo. Quando virou a esquina na rua do escritório já tinha listado os prós e os contras de cometer alguns homicídios.
No momento em que passou pela frente do prédio ele teve uma epifania. A velocidade não reduziu, ele passou direto pela entrada da garagem, virou duas esquerdas, caiu no engarrafamento de uma avenida. Quando ele estacionou o carro na beira mar respirou fundo, encarou o mar, olhou nos olhos da segunda-feira e disse:
“Não hoje, nem nunca mais”