Cachorros de Bikini

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Tag: Desaparecimento

Contos de Segunda #93

A publicação a seguir é uma continuação direta do Contos de Segunda #88.

— Não sei do que está falando, Carmim.

Angela estava sentada na minha frente, na minha cadeira e com os pés sobre minha mesa. Sacou um isqueiro para acender o cigarro surrupiado da minha gaveta.

— Três das pessoas mais ricas da cidade desapareceram nas últimas semanas — puxei uma cadeira. — Agora você aparece dizendo que tentaram te sequestrar, não me parece coincidência.

— Duvido muito que seja, detetive — desdenhou Angela. — Quem são os desaparecidos?

— Willian Doyle, Klaus Gleizer…

— O dono da fábrica de tecidos e o banqueiro — interrompeu ela. — É mais provável uma viagem em segredo com uma amante do que um desaparecimento.

— Talvez, mas com Dominique Loup na lista acabei descartando a hipótese.

Com o susto Angela saltou da cadeira e ficou olhando para mim com os olhos arregalados.

— Dominique desapareceu!?

— Duas semanas antes de Klaus Gleizer.

Angela saiu de trás da minha mesa e começou a andar de um lado para outro. Os dedos tremiam quando o cigarro foi levado à boca para uma longa tragada. Aproveitei a deixa para retornar à minha cadeira. O assento reservado aos visitantes era propositalmente desconfortável.

— Não sabia que era conhecida sua.

— Lembra de quando trabalhou para ela no caso da chantagem? Eu te indiquei para o serviço.

— Então vocês eram próximas?

— Éramos recém chegadas na cidade quando nos conhecemos — ela deu mais um trago no cigarro. — Ela queria ser cantora, eu queria ser atriz. Nós duas nos tornamos artistas, mas eu não virei atriz.

— Nem todos encaram golpes e mentiras como arte, Angela, só os que já te viram em ação.

— Gentileza sua, detetive.

— Quanto tempo faz desde a última vez em que você encontrou com Dominique?

— um mês.

— Notou algo diferente? Ela parecia preocupada com alguma coisa?

— Dominique nunca estava preocupada com nada. A carreira ia bem, o dinheiro estava entrando aos montes e os candidatos a amante só eram mais numerosos do que os candidatos a marido. Ela gosta de ser bajulada, mas acredita demais nessas besteiras de amor verdadeiro. Nenhum desses homens nunca conseguiu nada.

— Algum deles pode ter passado dos limites.

— Dominique andava com um segurança a tiracolo.

— Para alguns isso não é um problema.

— O homem é praticamente um gorila. Dois metros de altura, ex-pugilista e ex-militar. Um problema para qualquer um.

— Então ele é o primeiro da lista de suspeitos.

— Não me importo com sua lista, Carmim. Encontre Dominique e eu dobro o seu pagamento.

— A polícia costuma me pagar muito bem.

— Se isso fosse verdade, teria pelo menos um cigarro decente na sua gaveta.

Angela jogou o cigarro no cinzeiro, pegou a bolsa e partiu sem tocar no assunto da tentativa de sequestro. Livrar a própria pele está tão alto na lista de prioridades dela que só algo muito grave roubaria a atenção disso. Por mais amiga que Dominique fosse, nenhuma amizade poderia ser maior do que o apreço de Angela Bevoir por Angela Bevoir. Algo mais estava acontecendo e ela não ia me dizer. Eu precisava descobrir.

Com todas essas minhocas na cabeça eu telefonei para o número que estava no verso da foto que o chefe de polícia me entregou. A moça que me atendeu forneceu o nome do segurança e contou o pouco que sabia do que aconteceu com o homem. Mario Luppi foi encontrado desacordado em um beco no dia seguinte ao desaparecimento da patroa. Um dos braços estava quebrado, o crânio foi rachado por uma pancada, juntamente com algumas costelas. Depois de alguns dias em coma ele acordou no hospital e estava lá desde então. O horário da visita tinha acabado de começar quando eu coloquei os pés no hospital. Orientado por uma enfermeira adentrei no quarto onde Mario admirava a chuva que batia na janela.

— Boa tarde, senhor Luppi.

— Boa tarde, senhor…

— Pode me chamar de Carmim.

— É por causa das roupas vermelhas?

— Gostos pessoais pouco convencionais costumam gerar essas alcunhas.

— A que devo sua visita, senhor Carmim?

— Estou colaborando com a polícia no caso de desaparecimento da sua patroa e de outras duas pessoas.

O rosto de Mario era um misto de raiva, surpresa e espanto.

— A polícia já fez perguntas demais, senhor. Respondi a todas.

— Algo me diz que a polícia não fez todas as perguntas, pelo menos não todas as perguntas certas.

— Essa investigação não vai dar em nada. Acredite em mim, senhor, a polícia não pode resolver nada.

— Bem, a polícia me contratou para encontrar três pessoas, mas Angela Bevoir me contratou para encontrar sua patroa.

Mario ficou pálido. Aparentemente seria melhor que o próprio diabo tivesse me contratado no lugar de Angela.

— Ela me disse que é uma amiga íntima de Dominique e me ofereceu um bom dinheiro para encontrá-la.

— A senhora Bevoir deve estar se sentindo culpada. Não que ela tenha culpa no sumiço, mas nada disso teria acontecido se ela não tivesse levado a senhorita Loup ao… Não, nada. Esqueça.

— Não precisa me contar muito, Mario. Só precisa me colocar na direção certa. Para onde Angela levou Dominique?

Ele respirou fundo, reuniu coragem e disse baixinho:

— Para o Clube do Inferno.

Contos de Segunda #88

— Puxe uma cadeira, Carmim, a história é meio longa — foi o que o chefe de polícia disse quando eu abri a porta da sala.

Era uma segunda-feira chuvosa de um dos invernos mais gelados dos últimos anos. Eu mal tinha terminado de almoçar quando recebi uma ligação do departamento de polícia. Não quiseram me adiantar nada pelo telefone, mas pediram para aparecer na central assim que possível, de preferência imediatamente. O cheiro ruim chegou às minhas narinas bem antes de eu sair do meu escritório e não melhorou nada depois da minha conversa com o Chefe O’Hara.

— Não estou para histórias longas, Chefe.

— Muito ocupado?

— Bem menos do que eu gostaria, mas algo me diz que o senhor me chamou aqui porque arrumou um problema que está difícil de resolver. Um problema que não é meu, mas vai ser, assim como todos os prejuízos que a resolução desse problema vai trazer.

— Deixe de ser chorão, Carmim — desdenhou o chefe torcendo o rosto em uma careta. — Você sempre foi muito bem remunerado pelos serviços prestados ao Departamento.

— Além de todas as despesas médicas. Da última vez eu fui baleado duas vezes, uma delas por um dos seus homens.

— Nem sempre é possível saber quais dos policiais têm ligação com o crime, detetive, e suas roupas vermelhas também não te ajudam quando alguém precisa decidir em quem atirar.

— Melhor cortar essa discussão e partir logo para o assunto, Chefe.

— Pois bem — disse ele se ajeitando na cadeira. — Imagino que esteja ciente do desaparecimento de algumas pessoas nos últimos tempos.

— Pessoas desaparecem, Chefe. Acontece em todo lugar.

— Já ouviu falar de William Doyle?

— Magnata da indústria têxtil.

— Desaparecido há cinco semanas — disse O’Hara colocando a foto do desaparecido sobre a mesa. — Lembra de Dominique Loup?

— A cantora? Ela estava sendo vítima de chantagem e me contratou para descobrir quem era o chantagista.

— Três semanas atrás ela cantou na rádio e errou o caminho quando voltava para casa — mais uma foto sobre a mesa. — Não foi vista desde então. Imagino que conheça Klaus Gleizer.

— Não costumo me relacionar com banqueiros, mas sei bem quem é.

— Desapareceu na semana passada — outra foto sobre a mesa.

— Pensei que os ricaços só desapareciam quando sequestrados.

— Não é o caso, Carmim. Não houve nenhum contato posterior ao desaparecimento.

— A polícia sabe onde eles desapareceram?

— Não. Os três circulavam por áreas bem distintas da cidade e não encontramos nenhuma ligação entre eles.

— Alguma informação útil das famílias?

— Doyle é viúvo e nunca teve filhos, Dominique aparentemente cortou ligações com a família quando decidiu seguir a carreira artística, quem nos procurou foi o seu empresário.

— E Klaus Gleizer?

— A família toda vive na Europa e a diretoria do banco optou por manter o desaparecimento em segredo por enquanto. Eles imaginam que tudo se resolverá em poucos dias.

— Alguma notícia de outros desaparecimentos em circunstâncias similares?

— Até agora não.

— Infelizmente não vou poder cobrar o valor de sempre. Esse caso tem cara de que vai dar muito trabalho ou muita dor de cabeça.

— Considere um aumento de vinte por cento. Estou sendo pressionado por todos os lados por causa desses desaparecimentos.

— Algum dos seus vai me auxiliar?

— Me aponte um culpado e vai ter todo o auxílio que precisar.

Provavelmente algum auxílio médico.

— Darei notícias assim que possível — me levantei ainda no meio da frase. — Se importa se eu ficar com as fotos?

— De forma alguma. Pedi para colocarem algumas informações úteis no verso. Não posso fornecer nossos arquivos, mas não vou te deixar às cegas.

— Não esperava menos do senhor.

Na verdade eu esperava bem mais, sempre se espera bem mais da polícia.

A volta para o escritório foi rápida. As informações dadas pelo Chefe O’Hara estavam se batendo sem rumo dentro do meu cérebro e eu precisava começar a ligar os pontos, mas não antes de dar alguns telefonemas. Uma busca minuciosa na casa dos desaparecidos e as coisas começariam a fazer sentido. Entrei no prédio, subi alguns lances de escada e parei diante da porta entreaberta. Saquei a pistola e tentei ver algo pela brecha da porta. Não pude ver nada, mas o perfume que eu senti me fez guardar a arma, mas não me deixou mais tranquilo. Abri a porta devagar e encarei a mulher que me esperava sentada na minha cadeira com os pés sobre a mesa.

— Precisa de trancas melhores, Carmim.

— Trancas boas não me dizem quando alguém arromba meu escritório, Angela. Pensei que não gostasse de vir aqui, você costuma ligar.

Angela Bevoir era um dos maiores problemas da minha vida e também uma boa cliente. Normalmente o pagamento compensava a dor de cabeça, mas só a dor de cabeça.

— Não gosto. A localização é péssima, a limpeza é no mínimo questionável e os degraus são muito altos, mas o assunto é urgente.

— E qual seria?

— Ontem eu quase fui sequestrada — disse ela acendendo um cigarro. — Quero saber o porquê. Pode me ajudar?

— Depende.

— Do quê?

— Do quanto você sabe sobre a nova moda entre os ricaços da cidade.

— E qual seria?

— Desaparecer.

 

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