Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Tag: Livros

Hora Certa

    Creio que todos saibam que antes de escrever o sujeito metido a brincar com as letras era um simples leitor. Não que deixe de ser depois que inventa de escrever, mas isso é conversa pra outra hora. Enfim, completemos o raciocínio. Como todo leitor eu tenho um péssimo hábito: Comprar mais livros do que eu posso ler.

 Leitores são como as formigas da fábula famosa: gostam de garantir sua sobrevivência durante o inverno. E como já dizia aquele Stark que não é o Homem de Ferro “O Inverno está chegando”. E ele chega, pode crer que chega. E, assim como as formigas, os leitores começam seus trabalhos com antecedência, sem pressa, movidos pelo medo da escassez. A fobia de olhar pra uma estante repleta de livros que já foram lidos.

Pode parecer besteira, pode soar parcial ou redundante, mas eu concordo com a atitude desses seres que permeiam entre a ganância e a precaução. Antes que você, caro leitor, ache que eu estou justificando meus próprios maus costumes deixe-me concluir.

Todos nós precisamos de um tomo ainda não lido em nossas prateleiras. A própria perspectiva de uma novidade ao alcance de nossos dedos nos enche de esperança em um amanhã melhor. Ao nos relembrarmos constantemente de que ainda não lemos aquele livro que já fez aniversário exercitamos nossos instintos de zelo e responsabilidade. Mas acima de tudo, quando chegar a hora certa eles serão lidos.

É certo que por causa da escola acabamos lendo um monte de coisa imprópria para a nossa idade. Mas não é disso que eu falo. Livros são que nem músicas. Faz muito mais efeito quando lidos na hora certa. E, dependendo do momento, podem deixar de ser um simples entretenimento e se tornar uma parte importante da sua vida, da sua formação como pessoa ou simplesmente algo que aquece o coração só de lembrar. Podem nos ajudar em momentos difíceis e depois nos esquecermos deles. Ou então não fazerem sentido algum daqui a 2 meses, dois anos ou mais. Mas isso é depois. Antes disso tem magnetismo inicial, o flerte discreto e a atração irresistível que nos faz abrir páginas inexploradas e mergulhar nas suas profundezas durante um bom tempo. E o durante faz com que todo o antes faça sentido.

Contos de Segunda #9

Renato tinha um blog. Lá ele publicava um conto toda segunda-feira até então. Porém havia um problema: ele não tinha ideias para o conto da próxima segunda. Sentado diante do computador contemplava há horas o documento ainda em branco. Nada. Nenhuma palavra. Os olhos ardiam de tanto encarar o branco do editor de texto. Os dedos se contorciam de tensão sobre o teclado. A cabeça fervilhava com inúmeras coisas, nenhuma delas era uma ideia aproveitável. Ele precisava pensar em alguma coisa.

A primeira tentativa de ativar as ideias foi assistir um episódio de alguma série há muito deixada de lado. Depois de três episódios Renato estava plenamente convencido dos motivos que o levaram a abandonar a série. A segunda tentativa foi retomar a leitura de um livro enorme de fantasia medieval que estava sendo consumido em ordens homeopáticas. Depois de dois capítulos um dos personagens mais importantes morre de forma tão inexplicável e brutal que as próxima meia hora foi dedicada a xingar muito em alguma rede social. A terceira tentativa consistiu em olhar ao redor em busca de alguma inspiração, nisso e em pedir pelo amor de Deus que uma ideia viesse logo.

A ideia veio. Talvez não fosse a melhor ideia do mundo, mas qualquer coisa é melhor que nada. Os dedos correram frenéticos pelo teclado, os olhos mal piscavam e poucos instantes depois o primeiro parágrafo estava pronto. Estava bom o suficiente para garantir que o texto não seria abandonado sem conclusão. Escrever sobre alguém que não tinha o que escrever pareceu bastante interessante, talvez rendesse alguma coisa que prestasse. Começava mais ou menos assim:

“Tadeu tinha um blog. Lá ele publicava um conto toda segunda-feira até então. Porém havia um problema: ele não tinha ideias para o conto da próxima segunda…”

Me Sinto Responsável

Essa semana eu estava conversando com minha irmã sobre a minha falta de vontade de assistir alguma série de TV nova. Eu tenho o problema de sempre abandonar toda e qualquer série que eu assisto. Não importa se eu gosto ou não, sempre chega uma hora que eu paro de assistir e nunca mais volto, e isso me incomoda bastante. Dividi essa informação com minha irmã e ela foi bem taxativa em dizer que se eu estou pensando assim quer dizer que eu estou trabalhando mesmo sem estar trabalhando. Em seguida ela me falou sobre um vídeo que ela assistiu recentemente tratando desse assunto.

Antes de continuar vale a pena dar uma conferida no vídeo, ele se chama “When Does Play Becomes Work?“ e está em inglês e tem legendas também em inglês. Em resumo o carinha do vídeo fala sobre como a necessidade que criamos de consumir entretenimento faz com que, de certa forma, trabalhemos para os produtores de conteúdo. Ao nos tornarmos consumidores fieis de algum produto de mídia, seja ela qual for, arrumamos uma espécie de emprego. É sobre isso que eu quero falar, mas vou focar na minha experiência pessoal.

É muito difícil assistir/jogar/ler/ouvir 100% daquilo que queremos. Seja por falta de grana pra comprar ou falta de tempo pra consumir, nós vivemos “em débito” com alguma coisa. Não que realmente estejamos devendo, mas nos sentimos como se estivéssemos. Me pesa na consciência quando eu lembro das séries que eu deixei pra lá, mesmo sem nunca perder a vontade de assistir. Também me sinto mal quando olho todos os livros e quadrinhos que estão na minha estante e nunca foram lidos, sem contar os jogos que eu não terminei. Tudo isso me faz sentir responsável, mas pelo quê?

Será que é certo eu me sentir mal por isso? Será que eu estou transformando o meu entretenimento em uma obrigação? Até que ponto minha vontade de assistir, ler e jogar é genuína? A partir de que nível essa vontade se torna uma obrigação que eu criei com as coisas que eu gosto de consumir? Eu só sei que quando a diversão vira obrigação você precisa arrumar alguma outra coisa pra se divertir. Depois dessa divagação toda, gostaria de parafrasear minha irmã e dizer que não devemos nos desanimar por abandonar uma série (ou seja lá o que for), ela sempre acaba voltado pra gente.

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