Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Categoria: Crônicas e Similares Page 20 of 21

Me Sinto Responsável

Essa semana eu estava conversando com minha irmã sobre a minha falta de vontade de assistir alguma série de TV nova. Eu tenho o problema de sempre abandonar toda e qualquer série que eu assisto. Não importa se eu gosto ou não, sempre chega uma hora que eu paro de assistir e nunca mais volto, e isso me incomoda bastante. Dividi essa informação com minha irmã e ela foi bem taxativa em dizer que se eu estou pensando assim quer dizer que eu estou trabalhando mesmo sem estar trabalhando. Em seguida ela me falou sobre um vídeo que ela assistiu recentemente tratando desse assunto.

Antes de continuar vale a pena dar uma conferida no vídeo, ele se chama “When Does Play Becomes Work?“ e está em inglês e tem legendas também em inglês. Em resumo o carinha do vídeo fala sobre como a necessidade que criamos de consumir entretenimento faz com que, de certa forma, trabalhemos para os produtores de conteúdo. Ao nos tornarmos consumidores fieis de algum produto de mídia, seja ela qual for, arrumamos uma espécie de emprego. É sobre isso que eu quero falar, mas vou focar na minha experiência pessoal.

É muito difícil assistir/jogar/ler/ouvir 100% daquilo que queremos. Seja por falta de grana pra comprar ou falta de tempo pra consumir, nós vivemos “em débito” com alguma coisa. Não que realmente estejamos devendo, mas nos sentimos como se estivéssemos. Me pesa na consciência quando eu lembro das séries que eu deixei pra lá, mesmo sem nunca perder a vontade de assistir. Também me sinto mal quando olho todos os livros e quadrinhos que estão na minha estante e nunca foram lidos, sem contar os jogos que eu não terminei. Tudo isso me faz sentir responsável, mas pelo quê?

Será que é certo eu me sentir mal por isso? Será que eu estou transformando o meu entretenimento em uma obrigação? Até que ponto minha vontade de assistir, ler e jogar é genuína? A partir de que nível essa vontade se torna uma obrigação que eu criei com as coisas que eu gosto de consumir? Eu só sei que quando a diversão vira obrigação você precisa arrumar alguma outra coisa pra se divertir. Depois dessa divagação toda, gostaria de parafrasear minha irmã e dizer que não devemos nos desanimar por abandonar uma série (ou seja lá o que for), ela sempre acaba voltado pra gente.

Deixa Terminar

Na semana passada eu publiquei um texto falando sobre o final de uma série que eu gosto muito e sentimento que o fim das coisas desperta (caso não tenha lido clique aqui). Mas um dia desses recebi uma noticia que me fez refletir: Naruto acabou, mas voltou. Não sei exatamente se a volta foi definitiva ou se foi ligeira pra matar a saudade. A questão verdadeira aqui é a seguinte: não estão deixando as coisas terminarem. Mas o maior exemplo disso nem é Naruto, ele não chegou nem aos pés de Toy Story.

Quando saiu Toy Story 3 eu me preparei pra dar adeus a uma coisa que fez parte da minha infância. Lá em 1995 eu fui pro cinema pela primeira vez e o filme em cartaz era Toy Story. Nem preciso dizer que eu me apaixonei pelo filme, e pela Pixar, naquele momento. Foi todo esse amor que eu levei pra sala de cinema alguns anos depois, quando fui ver o ultimo Toy Story. No fim do filme eu e boa parte da galera estávamos aos prantos. Não só pelo desfecho emocionante de um filme carregado de emoção, mas também daquela ser a despedida de personagens que permearam minha infância e moldaram meu caráter infantil. Aí pegam e anunciam que vai ter um Toy Story 4.

A primeira coisa que eu pensei foi “e eu chorei aquilo tudo pra NADA?”. A segunda coisa foi “tão de sacanagem” “eles não querem largar o osso mesmo”. Dizem por aí que em time que tá ganhando não se mexe, mas de uns tempos pra cá a galera tá levando isso bem a sério. Não sei se é por medo de arriscar ou por puro comodismo, mas nunca antes se reciclou tanta ideia quanto hoje em dia. O retorno garantido deixou a possibilidade de fazer algo novo em segundo plano. A zona de conforto criativa se tornou confortável demais, pior pras ideias novas, que estão cada vez mais sem espaço.

Pra finalizar eu digo que se é pra terminar que termine, deixem que faça falta e dê saudade. Deixem que as coisas novas venham e conquistem seus próprios lugares dentro dos nossos corações. Não parem de procurar a fórmula do ouro só por que conseguiram fazer o chumbo ficar brilhante.

Hoje é Dia de Rock

3 de Julho. Por algum motivo, que eu não faço ideia qual seja, é comemorado o Dia Mundial do Rock. Diante da falta de ideias dessa data tão peculiar resolvi discorrer sobre a minha relação com esse tal de rock n’ roll e aproveitar a chance de deixar algumas opiniões pessoais sobre esse tema tão cativante.

Eu comecei a consumir musica de fato na adolescência. Como aqui em casa não se tinha o habito de ouvir musica, principalmente por falta de um aparelho de som, meus contatos iniciais foram através da Mtv. Graças à Music Television brasileira eu conheci muitos dos artistas que eu escuto até hoje. Quando começou a ter computador aqui em casa as mp3 começaram a aparecer também, foi quando eu comecei a ouvir o que eu via na Mtv e o que chegava aqui através dos meus primos. Praticamente tudo que chegava era rock e claro que, como um bom adolescente que era, eu elegi o rock como o melhor estilo musical e automaticamente todo o resto virou um monte de cocô.

Naquele tempo minha visão de música era muito limitada. Tanto que eu desprezava tudo que não era rock. O rock era o melhor, a verdade absoluta, a forma mais sensacional de musica no nível de pensar que quem gosta de rock não pode gostar disso ou daquilo. Só depois dos 18 que eu comecei a expandir um pouco mais meus horizontes. Como disse uma vez um famoso youtuber brasileiro vesgo: Chega uma hora que você tem que diminuir o nível de rock na sua vida. Não sei se era exatamente isso, mas era mais ou menos assim, e foi o que aconteceu comigo.

Hoje em dia boa parte do que eu escuto tem pouca ou nenhuma relação com rock. Aumentar a quantidade de música e diminuir o volume de rock foi uma coisa muito boa no fim das contas, mas nem por isso eu deixei de lado o bom e velho rock n’ roll. Descobri umas paradas antigas e visito regularmente uns lances alternativos. Ouvi coisa que estão lá nas raízes e outras que beberam da mesma fonte, mas que seguiram por outra vertente. Devido a essas viagens musicais meus amigos falam que eu escuto coisas muito estranhas que ninguém conhece. Apesar disso eu quero recomendar pra essa data tão festiva uma parada que todo mundo conhece. Pra hoje eu recomendo aquela música com o solo de guitarra que te arrepia, aquela que te dá vontade de cantar bem alto, com uma bateria que faz o coração bater mais forte e com um baixo marcante que faz a alegria dos seus ouvidos. Eu não preciso dizer qual música é, você sabe exatamente de qual eu estou falando. Aumenta o volume e deixa o som rolar que hoje é dia de rock, bebê.

Acabou

Acabou. Foi um dia desses. Não foi sem aviso, nem foi antes da hora, mas chegou ao fim. Depois de tanto tempo acabou. Não que fosse uma coisa muito importante na minha vida, mas fazia parte. Sentirei falta? É provável. Mas talvez o sentimento de que nunca mais aquilo será uma novidade é que me deixe um pouco triste, mas fazer o quê? Acabou. Nesse momento, nobre leitor, a pergunta que surge em sua cabeça deve ser “O que foi que acabou?”.

Um dia desses chegou ao fim uma das séries de maior sucesso de seu gênero, referência cultural pra toda uma geração. Antes de ouvir a resposta peço a você, caro leitor, que abandone esse texto apenas depois da conclusão do meu raciocínio. De acordo? Ótimo, então já posso dizer que, um dia desses, Naruto acabou.

Antes de descarregar ofensas contra mim deixe que eu me explique.

Não sinto nada pelo fim da série em si. Falo sério. Apesar de me considerar um fã não foi isso que me motivou a escrever essa pequena reflexão. Mas sim o que eu pensei depois do fim da história do ninja galego de cabelo espetado. O que eu sinto é aquilo que todos nós sentimos quando algo simples e aparentemente banal, como uma série de TV, de histórias em quadrinhos, filme ou novela, que faz parte de nossas vidas durante muito tempo acaba. A sensação de que as coisas estão mudando. E atire a primeira pedra aquele que se sente plenamente confortável com o sentimento de mudança. Não é culpa sua, fomos programados assim.

Pensar que nunca mais vou parar uns minutos pra debater sobre os últimos capítulos com algum amigo, ou ouvir alguma novidade que me faz correr atrás do que eu ainda não li tem um gosto meio amargo. Amarga a boca quando eu penso que um dos elos que eu ainda tinha com os meus tempos de adolescência virou passado, e hoje habita apenas na lembrança, junto com os meus 16 anos. De que a próxima vez que eu conversar sobre isso com alguém vou utilizar apenas verbos no passado. De que no máximo eu vou poder reler o que eu já li. Menos uma coisa na lista do que faz tempo que eu leio/assisto/acompanho. E isso amarga

Talvez pareça exagero da minha parte, mas quem nunca se sentiu assim? Quem nunca sentiu falta ao fim de uma série de filmes ou de livros, novela ou seriado de TV? Quem nunca pensou em como teria que arrumar outra coisa pra discutir com os amigos ou com os colegas de trabalho que compartilham o mesmo gosto pelo assunto?

No final todos esperam curiosos pelo fim, mas não querem romper os laços e deixar aquilo pra trás. Não vou cair no absurdo de dizer que minha vida nunca mais vai ser a mesma depois disso, mas sempre vai ser estranho pensar que acabou.

São João

Essa semana foi comemorado o dia de São João. Eu não sou devoto de santo nenhum, também não sou uma pessoa que gosta de festa, mas ainda assim o São João é uma das minhas datas preferidas do calendário.

Não sei se eu já comentei por aqui, mas eu moro em Pernambuco, e por aqui tem duas festas que são levadas muito a sério: o Carnaval e o São João. Como não tá na época o papo sobre o Carnaval vai ficar pra uma próxima vez, voltemos ao tema de hoje. Por aqui 24 de Junho é feriado, tem festa praticamente o mês todo no interior e toca forró ininterruptamente durante 30 dias. Mas não é nada disso que me faz gostar do São João. O que realmente mexe com meu coração acontece no dia anterior. O dia 23 é o dia que vale.

Não sei se todo mundo sabe, mas é na véspera dos dias dos 3 santos juninos que são acesas as fogueiras, e é São João que ganha no quesito numero de fogueiras acesas.  Durante mais de 20 anos da minha vida eu vi meu avô fazer fogueira na véspera de São João e na véspera de São Pedro, como todos os Pedros das antigas faziam. Durante esse mesmo tempo eu vi minha mãe e minha avó produzirem maravilhas da culinária junina, inclusive a pamonha que minha mãe faz é bem apreciada pelos demais familiares, apesar da minha preferência ser do pé-de-moleque. Mas isso ainda não é o que eu gosto mesmo do São João. Pra mim São João tem gosto de infância.

Dia 23 tem gosto de soltar bomba debaixo de lata de leite, de ficar surdo com o som dos foguetes subindo, de olhar pro céu pra ver rojão estourar e ter um susto violento com o pipoco de um espirro de bode. Tem gosto de acender fogueira pontualmente às 6 da tarde, de assar milho e salsichão na brasa. De responder satisfeito com um “Sim” quando meu avô perguntava “Pegou a fogueira?”.

Esse ano o São João foi meio mirrado. Como meu avô arengou com o cara que vendia lenha, esse ano não teve fogueira. Pouca gente da família apareceu e choveu tanto que foi impossível soltar os fogos de artifício. Mesmo assim a chuva não tirou do ar o cheiro da pólvora e da fumaça. O bolo de milho ainda tinha um gosto espetacular e ainda tive uns 2 sustos por causa das bombas. Dia 23 ainda teve gosto de São João, e enquanto tiver sempre vai ser uma data boa pra mim.

Nove

Nove.

Sempre achei um número bonito. Sempre olhei pra ele como uma forma crescida do 3, numero que eu particularmente gosto bastante.

O nove é o número do quase. Mas é o melhor tipo de quase: o quase perfeito. Nove é quase dez. Todos os campeões perseguem a nota perfeita, mas a esmagadora maioria acaba levantando o troféu ou garantindo a medalha por que chegou perto, não ganhou um dez, mas o nove foi mais do que o suficiente. Mas qual o motivo pra essa introdução aparentemente sem sentido?

Outro dia parei e contei os textos escritos para este projeto. Ao fim da ligeira contagem, mais ligeira do que eu gostaria, diga-se de passagem, soube que eles eram nove. Gostei tanto do número que me senti na obrigação de escolher com cuidado o tema do meu décimo texto… Infelizmente minha cabeça não trabalha de uma forma muito ordenada. Não consegui pensar em outra coisa que não fosse falar sobre o fato de ter escrito nove textos até então.

Quando eu comecei era só uma ideia, uma tentativa, um “se colar, colou”. Mas aqui estou eu, nove textos depois, querendo escrever cada vez mais. Quando comecei a escrever este texto achava que nove era muita coisa, mas alguns parágrafos depois já acho que é só o começo.

Ainda tem muita trivialidade pra ser dita, muitas teorias sem fundamento pra discutir e tudo que eu fiz foi escrever nove textos, dá pro Lula contar nos dedos sem recorrer ao auxilio dos pés. Talvez eu ainda precise de mais nove, mais dezenove ou mais noventa e nove até que eu esgote todas as inutilidades que tenho na cabeça. Espero que quando acabarem eu consiga arrumar mais algumas, não muitas, o suficiente pra escrever mais uns nove ou noventa e nove textos.

Mandamentos de um Adulto Feliz

Outro dia passeando por um site de notícias me deparei com um link bem interessante: “Os 9 Mandamentos de um Adulto Feliz”. Prontamente cliquei no link, não por ser um adulto infeliz, mas eu queria saber quais eram os tais mandamentos. Fui bater num daqueles sites que falam de moda, life style, e todas essas coisas que estão tão inseridas na minha vida quanto a migração das baleias jubarte. Mas como eu li a postagem antes de perceber qual era a do site consegui ler o texto sem preconceitos.

Antes de continuar recomendo que leia o texto nesse link aqui. Só pra nivelar o papo, mas se essa não for a sua vontade, caro leitor, não vai ter prejuízo algum. Agora voltemos ao tema.

Particularmente eu gostei dos mandamentos. O texto é bem escrito e alguns dos mandamentos são relacionados com filmes, o que ajuda a justificar o ponto da autora. Mas uma coisa me veio à mente quando terminei de ler: eu li esse texto por que eu sou um adulto.

Quando a maior parte da sua vida é composta por infância e adolescência não é tão fácil se imaginar como um ser humano adulto. Eu devo ter começado a me ver como tal lá nos meus 20 anos, quando eu comecei o meu estágio. De fato a vida profissional é a forja da vida adulta, tanto é que ao longo da história da humanidade os adultos se tornaram adultos cada vez mais tarde conforme o tempo passava, com isso foram aparecendo cada vez mais períodos de transição. Adolescência não existia até um dia desses e o termo Jovens Adultos já começa a aparecer. Como eu nunca consegui me sentir mais velho do que eu de fato era, imediatamente me enquadrei como um jovem adulto. Por que pra mim um jovem adulto é uma espécie de Pinóquio. Ele só quer ser um adulto de verdade.

Pode parecer exagero, mas ao atingir a maior idade nos tornamos adultos… só que não. Continuando com a analogia do Pinóquio podemos comparar o nosso aniversário de 18 anos com a noite em que o Pinóquio ganha vida.  Ele fica lá todo serelepe por que ficou vivo, que não tem mais cordões nele (sim, eu sei desse lance dos cordões por que assisti Vingadores, não por lembrar do filme do Pinóquio). Mas ele começa a notar que ser um boneco não é suficiente. Então ele corre atrás pra tentar virar um ser vivo de verdade.

Eu nunca fiz questão de correr atrás de coisa alguma pra virar um adulto de verdade, eu estava muito ocupado tentando me acostumar a ser um um adulto de madeira, talvez por isso eu fiquei tão surpreso com meus próprios pensamentos quando terminei o texto dos 9 mandamentos. Durante todo esse tempo eu devia estar tão distraído com o fato de ser um boneco que ganhou vida que não notei que estava me transformando em um menino de verdade. Tanto é que quando eu finalmente comecei a perceber eu já era de carne e osso.

Por não me enxergar como adulto nunca havia parado pra pensar em ser um adulto feliz. Por não ter alimentado meus momentos de infelicidade nunca havia parado pra pensar na felicidade como um objetivo de vida. E talvez por isso eu tenha gostado tanto do ultimo mandamento: crie seus próprios mandamentos. Como eu não poderia deixar de exercitar minha criatividade aqui vai um mandamento meu:

Não persiga a felicidade como se ela fosse a coisa mais importante, não transforme satisfação em obrigação. Deixe pra lá o que te faz infeliz, o que te faz feliz aparece por consequência.

Voz

Uma amiga veio falar comigo dizendo que achou um texto perdido dentro do computador dela e achava que o texto era meu. De fato era meu, tratava-se da primeira versão deste texto aqui. Segundo ela, parecia com as coisas que eu escrevia antigamente, antes de eu moldar a minha voz. Essa afirmação me fez refletir um pouco e achei que valia a pena escrever sobre isso.

Em 2011, quando o texto em questão foi escrito, eu tinha algumas aspirações enquanto escritor semi-amador. Uma dessas aspirações era ter meu próprio estilo. Algo nas minhas linhas que fosse uma espécie de impressão digital. Hoje quase posso dizer que consegui fazer isso, mas não foi pra falar de escrita que eu puxei essa conversa.

Fico pensando se em algum momento tive essa aspiração para minha vida. Se em algum momento eu desejei que a minha singularidade enquanto ser humano fosse não só reconhecida, mas reconhecível. Que nenhuma outra pessoa fosse ouvida através da minha voz. Provavelmente sim, mas não sei se isso é um desejo de todos.

Nos tempos de hoje, onde todos podem falar e ser ouvidos, o que eu mais vejo são palavras repetidas. A maioria parece ter mais vontade de engrossar o coro do que se fazer ouvir. Imagino se ainda existem pessoas que aspiram ter uma voz só sua. Pessoas que querem ser ouvidas em meio a unidade sonora da turba que nos cerca, tendo ou não algo pra dizer. Seres que podem não ser 100% originais, mas que de fato são 100% singulares mesmo dentro de sua falta de autenticidade. Talvez seja por isso que muita gente fica famosa aparentemente sem motivo, apenas por terem suas singularidades reconhecidas e admiradas. Eu sinceramente espero ver um pouco mais disso por aí, pessoas que conseguem falar com sua própria voz, mesmo sabendo que isso está ficando cada vez mais difícil. Já que as pessoas parecem querer ser qualquer coisa hoje em dia, menos elas mesmas.

Dia dos Namorados

12 de Junho. Também conhecido no Brasil como véspera do dia de Santo Antônio e Dia dos Namorados. Por uma coincidência em 2015 essa data tão festiva caiu numa sexta-feira, se caísse em outro dia eu ia falar dele mesmo assim por isso não podia deixar a oportunidade de discorrer sobre.

Eu nunca fui muito fã do Dia dos Namorados. Quando eu era mais novo não gostava pelo simples fato de sempre passar o 12/06 desacompanhado, motivo que eu considero até justo, mas que na prática é bem besta, tanto é que isso foi mudando com o tempo. Hoje em dia eu não gosto do Dia dos Namorados por causa do circo que armam em cima dessa data.

Imagino que em algum momento da história o dia 12 de Junho tenha sido um dia mais singelo, onde as demonstrações de carinho e afeição entre os namorados eram menos extravagantes e escancaradas. Não vou bater na tecla de que esse dia se transformou em uma data puramente comercial, não é novidade pra ninguém que no ritmo que as coisas vão logo logo o Dia da Árvore vai ser uma data importante pro comércio. Meu problema com o Dia dos Namorados vem justamente do fato de tudo ter se tornado público.

Com o advento das redes sociais tudo se tornou público. Uma quantidade incalculável de pessoas criou o hábito de colocar suas vidas na internet pra todo mundo ver, levando em consideração que os namoros fazem parte das vidas das pessoas não é de se estranhar o que acontece todos os anos. O romantismo em si não é um problema pra mim, o que realmente me incomoda é a facebookização do Dia dos Namorados.

Antes de continuar devo fazer um adendo. Se você, caro leitor enamorado (ou não), é uma pessoa que faz declarações de amor sinceras e verdadeiras na internet não deve se importar com o que eu vou dizer agora, não é sobre você que eu estou falando. Voltemos ao raciocínio.

Uma vez meu irmão me disse que quando uma empresa não tem um produto que pode ser vendido atravéz de propaganda ela faz propaganda pra se vender como empresa. Hoje a cria do nosso amigo Zuckerberg é praticamente um acervo de propaganda. As pessoas fazem propagandas de suas vidas, se vendendo como pessoas, e isso todo mundo tá cansado de ouvir, porém tomando como base esse raciocínio podemos dizer que muitos vendem seus relacionamentos em redes sociais da mesma forma. Quantas pessoas hoje farão suas declarações, obviamente ilustradas por um mosaico de fotos com momentos felizes do casal, mais preocupadas com o que os outros vão achar do que com a reação da pessoa amada? Quantos casais que estão trocando juras de amor nesse momento não conseguem nem passar um dia sem brigar?

Mas o texto está ficando muito sério e hoje é não é dia pra isso. Hoje é dia de ouvir aquele rock farofa dos anos 80, seja por estar com alguém ou pra ficar roendo na solidão, de mandar e receber flores, de fingir que gostou do presente de ganhar aquela coisa que te faz dizer “Não acredito!” e logo depois um “Não precisava” seguido de um “Adorei!”. Dia de fazer o mundo inteiro saber que você gosta de verdade de alguém, ou de simplesmente fazer a única pessoa que realmente importa lembrar disso, ou de fazê-la saber. Afinal nem toda declaração tem que ser feita pra todo mundo ver, por que o amor existe muito antes da internet e ninguém nunca precisou dela pra dizer o que sente até um tempo desses.

Nome

Tem coisas que a gente pensa que todo mundo tem. Como senso crítico, bom senso, noção e outras coisas. De fato poucas coisas todo mundo realmente tem. Entre elas está o nome.

Nome que te deram, nome que você se deu, nome que virou nome sem querer. Não importa. Todo mundo é chamado de alguma coisa, faz parte do nosso ser e é a pedra fundamental da nossa identidade, mas todo esse papo sobre nome foi motivado por um fato cotidiano ligeiramente curioso.

Fui assistir um filme no cinema antigão do centro do Recife, o São Luis. Só que essa conversa sobre nomes não tem relação alguma com o cinema em si ou com a sua idade, nem com o filme, menos ainda com o Recife. Tudo aconteceu quando eu entreguei meu ingresso na entrada do cinema, espiei o crachá do senhor que estava conferindo os bilhetes e vi em letras pretas o nome:

“Rock Stanley”

Claro que eu só consegui processar a informação alguns minutos depois. Não é todo dia que se encontra um senhor de óculos, com a barba e o cabelo grisalhos com um crachá escrito “Rock Stanley”. Imediatamente comecei a imaginar se esse é o real nome do sujeito ou se a galera pode colocar apelidos no crachá lá no São Luís. Também comecei a pensar se eu tinha lido errado, mas esses pensamentos foram afastados. É inúmeras vezes mais legal saber que no mundo existe alguém com o nome de Rock Stanley.

É quase inevitável não imaginar a professora fazendo a chamada e perguntando se Rock Stanley estava presente ou Rock Stanley sendo chamado pra entrar num consultório médico. E diante da tela do computador eu imagino uma lápide, um cartão de crédito e uma carteira de motorista com o nome “Rock Stanley”. Espero não ter lido mal e espero que não seja um apelido, porque agora o mundo está muito mais legal pra mim. Porque é muito legal saber que existe um Rock Stanley.

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