Cachorros de Bikini

Reflexões rasas sobre coisas profundas e reflexões profundas sobre coisas rasas

Contos de Segunda #68

    “Feliz Natal”

    Foi o que disse o taxista ao deixar Ribeiro no aeroporto. Uma viagem de trabalho tinha colocado em risco os planos de Natal dele, mas, mesmo com o cronograma apertado, Ribeiro chegaria a tempo para a ceia. Bem em cima da hora, mas ainda assim a tempo.

    “Feliz Natal”

    Foi o que Ribeiro ouviu da moça no guichê da companhia aérea. Algumas horas de atraso fizeram ele perder a conexão no aeroporto seguinte e consequentemente a ceia de Natal. Por sorte ele conseguiu ser encaixado em um voo direto… Que sairia algumas horas depois. Segundo a previsão ele chegaria em casa com umas duas horas de atraso, mas pelo menos ainda poderia desejar “Feliz Natal” para a maioria dos parentes.

    “Feliz Natal”

    Rosnou Ribeiro entre os dentes ao se despedir do funcionário da companhia aérea. Depois de uma hora correndo pelo aeroporto num estado que deixaria qualquer barata tonta com inveja, Ribeiro descobriu que conseguiu mudar de voo… Só ele, a bagagem estava no outro avião e só chegaria de manhã. Juntamente com os presentes que ele tinha comprado para os sobrinhos.

    Ele olhou no relógio. Os ponteiros marcavam três horas da manhã. Nenhum familiar atendia o celular e Ribeiro estava esperando apenas uma boa desculpa pra assassinar alguém. Todo mundo já tinha ido embora e a área do desembarque estava vazia. Nenhum voo estava previsto para o resto da madrugada. Tudo estava vazio e silencioso.

    O som de vários passos encheu o ambiente. O cheiro de comida encheu o ar e algumas vozes conhecidas foram ouvidas. Ao se virar para ver, Ribeiro deu de cara com a família. Duas dúzias de Ribeiros que estavam ali com uma parte considerável da ceia de Natal nas mãos. Ele não sabia bem como reagir. Poderia abraçar os sobrinhos, dar um beijo na mãe ou na avó, pegar um pedaço do chester ou se jogar no meio dos primos. Na dúvida ele só disse.

    “Feliz Natal”.

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E Esse Natal Aí?

    Mais uma vez estamos nas vésperas do Natal, o ano finalmente está começando de fato a acabar e os raios da aurora de 2017 já despontam no horizonte. Normalmente essa época cria uma grande comoção em todas as esferas da vida da gente. Confraternizações, amigos secretos, festas de família, gente contra as uvas passas, gente a favor das uvas passas, gente que é contra essa discussão sobre uvas passas e os tios das pessoas fazendo a piada do pavê.

   keep-calm-and-e-pave-ou-pacume

    Uma coisa que eu tô notando esse ano é que o clima de Natal tá meio estranho. Normalmente o fim do ano deixa todo mundo mais empolgado, seja por causa dos presentes, por causa das celebrações e reuniões que existem nessa época ou só pelo feriado em si. Só que esse ano aconteceu uma parada que literalmente nunca mais vai acontecer. Esse ano aconteceu 2016. E depois de encarar quase doze meses de 2016 ficou todo mundo cansado. Já tá todo mundo de saco cheio esperando o fim das festas pra começar logo o outro e deixar essa história de 2016 pra lá. Nesse ponto eu, do alto da minha insatisfação com 2016, pergunto: e esse Natal aí, hein?

    Esse ano eu não tô vendo muita gente falando de Natal. Eu não tô vendo muitos enfeites por aí e ainda não ouvi a voz de Simone. Fico pensando o quanto disso é culpa de 2016, já que o clima de Natal tem ficado, digamos, “mais ameno” na minha percepção e isso não é de hoje. Todo ano alguém fala algo do tipo “esse Natal não tá com cara de Natal” ou “nem parece que já já é Natal”. Afinal, o que diabos aconteceu com a magia do Natal?

    Eu gostaria muito de ter alguma sacada genial e apresentar um argumento convincente, mas creio que pra essa pergunta não tenho resposta. Talvez estejamos, assim como nos livros de fantasia, vendo a magia desaparecer do mundo por causa da falta de crença da humanidade ou então eu só estou frequentando os lugares errados. De todo jeito alguma coisa está diferente e é melhor nem saber o que é, vai que bate uma tristeza por causa disso e a famosa bad de Natal resolve aparecer no lugar do Papai Noel.

    Depois de tanta negatividade natalina, gostaria de deixar um “Feliz Natal” para todos vocês, queridos leitores. Que o Natal de todo mundo seja o mais mágico possível e que vocês ganhem todos os presentes que pediram. Feliz Natal!

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Os Planos (Problemáticos) de Fim de Ano

    Uma das coisas mais comuns no final do ano é ter um plano. Uma programação, uma tradição, algo que se repete ritualisticamente a cada doze meses. Como dezembro tem toda aquela vibe de união das pessoas e derivados, o mais comum (e mais óbvio) é reunir a família pra todo mundo passar junto essa época bonita que antecede o falecimento de mais um ano. Só que, assim como tudo que envolve família, essas atividades lúdico-alimentícias são potencialmente problemáticas.

    Existem famílias de várias formas, tamanhos, cores e sabores. E é justamente por causa dessa diversidade que nem sempre estar com a família é uma atividade prazerosa. Primos que você não gosta, tios que fazem perguntas constrangedoras, agregados inconvenientes e aqueles parentes que não se bicam travando uma guerra fria que por pouco não vai virar um apocalipse nuclear. Talvez isso não aconteça com você. Talvez a sua família não tenha nenhum dos arquétipos listados acima, mas o que pega todo mundo é justamente o dever, quase a obrigatoriedade.

    “Esse ano eu nem queria ir”. Essa frase já pode ter saído pela sua boca ou entrado pelos seus ouvidos. Mas a realidade é uma só: boa parte dos problemas das programações de fim de ano está no simples fato da programação existir. Vamos exemplificar pra ficar mais claro. Imagine que você faz algo todo ano com a sua família, agora imagine que apareceu algo que você quer muito fazer com pessoas que não são da sua família. Imaginou? Agora sabe do que eu estou falando. Por isso as pessoas relutam tanto em mudar as tradições de fim de ano, porque o natural do ser humano é evitar problemas pra si mesmo, um instinto de autopreservação que está em todos nós… Só que uma das coisas que o ser humano faz melhor é desafiar os seus instintos e por isso entramos no lado B da história.

    Muitas das atividades de fim de ano, mesmo as ruins, são perfeitamente administráveis ou no mínimo suportáveis, mas todas elas têm potencial pra se tornar bem pior do que já é. Uma forma excelente de fazer isso é introduzir um amigo secreto no meio dos festejos. E, como eu já falei no ano passado, amigo secreto pode ser um prazer ou um suplício. Em condições ideais de temperatura e pressão, você vai fazer a brincadeira em um ambiente onde todas as pessoas se conhecem e todos podem dizer o que querem. Normalmente o que acontece é que você não tira a pessoa que seria fácil de dar presente e termina tirando aquela sua tia que você (e todo mundo) só vê no Natal. E se for na pior das situações possíveis vai rolar um daqueles amigos secretos onde cada um leva um presente, os amigos secretos são tirados na hora e o limite de valor é cinquenta reais.

    “Não acredito que você não vai” é uma frase que já deve ter saído das nossas bocas ou entrado nos nossos ouvidos. Como um defensor das tradições familiares, eu nunca cheguei a ouvir, mas entendo perfeitamente o dilema vivido por nós quando precisamos decidir entre seguir os hábitos ou tentar algo diferente. E, a menos que seja uma experiência realmente desgraçada, recomendo que você opte pela família sempre que possível. Nunca passe mais de dois anos seguidos longe dos ritos do seu clã e tente ao máximo não criar problemas pra você mesmo. O final do ano já pode ser uma época bem ruim sozinho, ele não precisa da sua ajuda pra ficar pior.

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A Mentira Nossa de Cada Fim de Ano

Dezembro está no ar e com ele a temporada de fim de ano. Essa época tão peculiar do ano que é carregada de mentiras e enganação. E foi por causa de um amigo meu que eu parei pra pensar em como o fim de ano é um aglomerado de mentiras, invenções e derivados.

A mentira já começa na infância, onde somos induzidos a pensar que os presentes que ganhamos são trazidos por um velho escandinavo obeso que voa pelo mundo em uma velocidade sub-lúmica em seu trenó puxado por renas voadoras. A pior parte disso tudo é que os nossos pais, que normalmente compram os nossos presentes, não recebem nenhum crédito. Mesmo gastando um pedaço considerável do seu salário, nossos pobres genitores têm seu esforço eclipsado pela figura vermelha e redonda vinda sei lá de onde. A pior parte disso é que normalmente são eles que nos induzem a acreditar no velho Noel.

Outra mentira contada é sobre o clima natalino. Por causa dos filmes, séries, desenhos e afins que consumimos, somos levados a pensar no natal como uma época cheia de neve, com pinheiro pra todo lado, boneco de neve e essas coisas. Todos os enfeites remetem a neve, frio, gelo, inverno e essas coisas que só existem nos países mais pra cima do globo. Só que nós vivemos, como diz aquela música, rente aos trópicos, onde as águas de março costumavam (em alguns lugares ainda costumam) fechar o verão. Note que são as águas DE MARÇO que acabam com o verão e fazendo a conta inversa é fácil perceber que o nosso natal acontece no começo do verão. Ou seja, não dá nem pra dizer que tá pegando uma brisa fresquinha no natal, quanto mais associar o aniversário de Jesus com alguma coisa fria. E isso me lembra mais uma invenção do fim de ano.

Não sei se você sabe, mas em lugar nenhum da bíblia tem dizendo quando Jesus nasceu. É bem provável que ele tenha nascido no meio do ano, já que o relato biblíco fala de pastores dormindo no meio do campo e acordando com um coral de anjos e em dezembro faz muito frio lá pros lados da palestina, impossibilitando os pastores de dormirem ao relento com seus animais. Aí você pode estar se perguntando: “e de onde a gente tirou que Jesus nasceu no natal?”. Devemos isso aos nossos compadres romanos, que estavam numa vibe de adorar um deus chamado Mitra antes do imperador se converter a uma religião quase recém nascida chamada cristianismo. Por causa disso os cristãos deixaram de ser comida de leão do coliseu e o imperador decidiu que todo mundo tinha que ser cristão junto com ele. Mas até pro imperador romano é meio ruim de convencer todo mundo a mudar de crença do nada, por isso ele aproveitou que Mitra tinha uma história parecida com a de Jesus, instituiu o aniversário de Cristo no fim do ano e pediu pra galera bater parabéns pra ele em vez de fazer isso pra Mitra.

Como você pode ver o final de cada ano é cheio de enganação e de histórias mal contadas. Praticamente tudo que a gente faz não tem o seu propósito original ou é a adaptação de alguma coisa mais antiga. No final todos nos deixamos enganar, até porque uma coisa que costumamos evitar no fim do ano é parecer chato, e ficar reclamando de todas essas mentiras contadas desde sempre nos faz parecer bem azedos.

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Sério Que Já É Natal?

Primeiramente fora Temer preciso dizer que esse texto está algumas semanas atrasado. É bem provável que ele tivesse bem mais efeito se fosse lançado pelo menos uns quinze dias antes, mas como eu tinha algumas outras inutilidades pra usar de tema acabado de sair de um hiato de um mês e não tive essa ideia antes tinha outros temas mais importantes pra falar esse daqui acabou ficando pra depois.

Estamos em outubro, também conhecido como décimo mês do ano, e todo mundo sabe que daqui a dois meses estaremos celebrando o Natal. Também é sabido que no Natal as pessoas usam enfeites diversos que fazem alusão à coisas que o comercial da Coca-Cola e os filmes da Sessão da Tarde ensinaram que fazem parte do Natal. Até aí tudo normal, pelo menos até eu reparar que estamos em outubro e já tem enfeite de Natal no meio da rua desde o começo do mês.

Sério isso? Sério que já tem enfeite de Natal por aí? A primeira parcela do décimo terceiro nem caiu na conta e já tem pisca-pisca? As crianças nem enjoaram de brincar com os presentes do dia 12 e já tem guirlanda pendurada? As confraternizações ainda nem foram marcadas, a maldição do amigo secreto não retornou e já tem árvore de Natal por aí?

Do jeito que as coisas vão o Natal vai acabar que nem os modelos novos de carro. Em Abril já tem modelo de carro saindo como modelo do ano que vem. Se continuar nesse ritmo o que vai definir a data é se a páscoa cai em março ou abril. Convenhamos que ficaria estranho colocar os enfeites da festa que celebra o nascimento de Jesus antes de relembrar a morte e comemorar a ressurreição dele. Caso contrário seria uma versão do Tarantino pro nosso calendário.

É bem possível que tudo isso seja pressa pra terminar o ano. 2016 tá um ano meio cabuloso e já tem gente querendo pular pra 2018. Se não dá pra pular tanto assim o que resta é dar a dica pra ver se 2016 entende a indireta e termina antes do tempo. Vai ver que estão sem lugar pra guardar os enfeites e assim que podem já tão colocando os penduricalhos na rua pra otimizar o espaço. Foi assim que o boneco que efeita o escritório que eu trabalho passou quase cinco anos comemorando todos os feriados, inclusive o Natal.

Depois de tanto conjecturar não chego a uma conclusão. Não sou especialista em ciclos comemorativos ou conheço a lógica por trás das decisões dos donos das lojas e demais estabelecimentos comerciais. Só acho que a gente já vive rápido demais, não precisa apressar ainda mais as coisas.

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É Natal

    25 de Dezembro, também conhecido como Natal é uma das datas mais importantes do nosso calendário. Nesse dia celebramos o aniversário de Jesus, nosso chapa de longa data que ninguém sabe exatamente em que parte do ano nasceu. Celebramos também toda aquela parada de esperança, amor e união que veio junto com o nosso caro messias. Porém o Natal acaba tendo um gosto diferente pra cada um.

    Para alguns o Natal é a desculpa perfeita para reunir todos os parentes, ou pelo menos a maior parte deles. Para outros é a desculpa pra comprar uma tonelada de presentes, caros ou não. Obviamente não podemos esquecer daqueles que aproveitam pra comprar toda sorte de itens de vestuário com o tão esperado décimo terceiro. E tem aqueles que não fazem nada disso e só esperam chegar o pseudo aniversário de Jesus pra poder comer e beber até passar mal, ganhar um ou outro presente dos amigos e parentes mais altruístas e curtir a ressaca do dia 25 sem pressa nem culpa. Outros aproveitam pra replicar a mensagem de amor e união, mesmo quando elas mesmas passam o ano todo sem fazer a menor questão de amar ou se unir com ninguém. E não podemos esquecer das crianças, que são as mais envolvidas pela magia dessa data tão festiva… Ou são simplesmente os que ganham os melhores presentes.

    Natal é tradição. É habito e ritual. Natal é a data onde todos fazem a mesma coisa de todo ano. Sempre existe um ou outro ano em que rola uma exceção, mas sempre voltamos para a configuração padrão e quando menos esperamos estamos lá fazendo charada pra dizer qual tia é a nossa amiga secreta, reclamando do parente que fica perguntando do seu namorado, ou se você e sua noiva marcaram o casamento e de como o filho de fulana é fuleiro por não ter aparecido naquele dia tão especial. Por que se não tivesse nada disso não seria Natal.

    Pra fechar esse texto vou deixar uma musiquinha que combina bem com essa época. E com essa pequena canção o Cachorros de Bikini deseja a todos um feliz Natal.

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Presente

Um dos componentes mais importantes dos rituais de fim de ano, sem a menor sombra de dúvida, é o presente. Seja um presente de natal, amigo secreto ou só uma coisa que você comprou usando as festas de dezembro como desculpa, o presente sempre está em alta no fim do ano. Mas afinal, qual é o lance por trás dessa parada de dar presente?

Se não me engano o habito de presentear durante essa época tem origem na história do nascimento de Jesus. Segundo o relato bíblico, Jesus recebeu a visita de três sábios vindos de uma terra distante, cada um deles trouxe um presente para o recém nascido. Cabe ressaltar que em alguns países as crianças não recebem presentes no natal, elas recebem no dia de reis, que faz alusão justamente à visita desses três carinhas ao nosso amigo recém nascido. O tempo passou e, como ninguém sabe direito em que época do ano Jesus nasceu, alguém resolveu que ele ia fazer aniversário em dezembro. Foi quando instituíram também a temporada de troca de presentes.

Basta dezembro começar, o décimo terceiro entrar na conta e as primeiras confraternizações serem marcadas pra começar um surto de complexo de Noel. Não é preciso se esforçar muito pra ouvir palavras como “presente”, “lembrancinha”, “embrulho”, “encomenda”. Boa parte dessas palavras vem acompanhada de “falta”, “comprar”, “tenho que” e o nome do grupo ou pessoa para quem os presentes estão destinados. E se você for como algumas pessoas que eu conheço, muito provavelmente tem uma lista longa de presentes pra escolher e comprar. Realizando um esforço quase hercúleo pra conseguir comprar tudo antes do fatídico dia 25, sem contar que provavelmente você também está fazendo um esforço titânico pra manter o presente em segredo até a hora de ser entregue.

Presentear outras pessoas é uma coisa que eu gosto bastante. Não que eu faça isso com muita frequência, nem faço isso com todo mundo, mas não é muito fácil resistir à tentação de comprar algo que eu sei que o presente acerta em cheio. Principalmente quando aquilo é tudo que a pessoa queria, mas não sabia disso até aquele momento. E esse momento de descoberta é que faz o ato de presentear valer a pena.

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