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Tag: Preguiça

A Soneca do Despertador

Eu nunca fui uma pessoa de dormir demais. Tirando casos em que o cansaço atinge níveis muito elevados ou onde as horas de sono são muito reduzidas, perder a hora é algo que muito dificilmente acontece comigo. Justamente por isso eu tenho uma grande dificuldade de entender aquelas pessoas que sempre perdem a hora, que tem uma dificuldade extrema pra acordar ou que saem de casa, mas só se consideram acordados horas depois. Se você se encaixa em algumas dessas categorias, esse texto foi feito pra você.

Desde tempos antigos o ser humano se utiliza de sinais para despertar. Os raios do sol ou o canto do galo servem de alarme faz algumas centenas ou milhares de anos. Com o avanço da tecnologia o homem resolveu usar o relógio como base para os aparelhos despertadores e quando os celulares se tornaram mais populares o despertador se tornou ainda mais utilizado. Só que, pra variar, o ser humano sempre desvirtua as invenções e as utiliza para o mal e com os alarmes dos celulares não seria diferente. Imagine que os relógios despertadores só conseguem despertar em um horário, já que armazenam um horário de alarme por vez, mas os celulares não possuem essa limitação. Armazenar um, dois, três ou cinco alarmes não é problema até para os mais simples dos aparelhos. E foi aí que começou a loucura.

Colocar o celular pra te acordar de manhã é algo que todo mundo faz, seja com toques calmos ou com uma sirene que anuncia o apocalipse, é raro encontrar uma pessoa, por menos dorminhoca que seja, que não se utilize desse recurso tão prático. Com mais gente usando o despertador se tornaram mais e mais comuns os casos de gente passando direto por cima do alarme e acordando bem depois do pobre celular ter desistido de tocar. É aí que a engenhosidade humana entra. Já que não existe limite de armazenamento de alarmes, por que não colocar alguns vários alarmes em sequência?

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Já vi gente que coloca dois, três e até mais alarmes com intervalos variados entre si. Muitos deles servem só pra lembrar quanto tempo faz que o preguiçoso tá enrolando pra levantar da cama, mas outros são verdadeiros procedimentos de segurança, pra garantir que aquele ser humano acorde dentro do limite de tolerância do horário. Só que algumas dessas pessoas possuem capacidades sonâmbulas de manipular os objetos e aí entra a função mais controversa dos despertadores: a soneca.

Só dá pra fazer duas coisas quando o celular alarma, desligar o alarme ou ativar a função “soneca”, que faz o alarme ser repetido depois de alguns minutos. Quando a pessoa escuta o alarme, mas não acorda, a coisa mais fácil de acontecer é que ela desligue o alarme e volte a dormir. Até um tempo desses isso me parecia meio absurdo, até ouvir alguns relatos de pessoas que “desligaram o alarme dormindo”. Quando a pessoa escuta o alarme e acorda, é provável que a função soneca seja ativada e a hora de acordar seja adiada em alguns minutos.

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Se você faz esse tipo de coisa e de fato cochila junto com seu celular, é melhor parar de fazer isso.

Segundo essa matéria AQUI, acordar e dormir repetidas vezes em pouco tempo é o mesmo que bater o cérebro num liquidificador. O resultado disso é taquicardia, perdas de memória, confusão mental, dores e, veja só, irritabilidade. Isso quer dizer que usar a soneca do celular pode deixar você chato, dolorido, meio senil e ainda com o coração disparado. É uma maravilha, não é mesmo?

Por isso, criança leitora, ouça os alarmes, acorde de primeira e evite todos os efeitos malditos da preguiça. Melhor acordar assustado com o primeiro alarme do que acordar sem saber que lugar é aquele depois da terceira ou quarta soneca.

Preguiça da Vida

    Hoje estava eu pensando no que escrever nessa primeira sexta-feira de março. A verdade é que eu ando meio sem ideias e tem dia que é difícil espremer alguma coisa aproveitável da cabeça e hoje esse esforço pra ter uma ideia me cansou mais do que o normal. Na verdade não cansou, já que só em pensar no trabalho de ter uma ideia foi o suficiente pra me deixar cansado. Foi aí que eu liguei o computador do trabalho e me deparei com essa imagem na tela de login.

Three-toed sloth, Costa Rica

    Além de ter minhas angústias confortadas pelo semblante tranquilo do bicho preguiça, encarei essa visão como um sinal dos céus. Então a ideia brotou na minha cabeça e cá estou pra falar de preguiça, o bicho e a que a gente sente.

Ao digitar na pesquisa do Google a palavra “preguiça” me deparei com alguns significados para a palavra:

  1. Aversão ao trabalho; ócio, vadiagem.
  2. Estado de prostração e moleza, de causa orgânica ou psíquica.
  3. Falta de pressa ou de empenho, morosidade, lentidão.

    Para efeitos didáticos vamos ignorar o primeiro significado, pois ele sugere uma espécie de má vontade por parte do ser preguiçoso, e vamos tomar como significados mais úteis para a discussão os outros dois.

    A preguiça é uma parada tão cabulosa que está na lista mais famosa de coisas condenadas pela Bíblia. Um grupo seleto conhecido mundialmente como Os Sete Pecados Capitais. E de fato a preguiça é algo tão potencialmente danoso que podemos comparar a uma doença. A preguiça nos faz literalmente desistir da vida, nos faz exaustos antes mesmo de pensarmos em algo pra fazer ou simplesmente nos desacelera violentamente. Nesse ponto podemos associar bem o estado preguiçoso do ser humano com o bicho preguiça.

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    Note que o nosso amigo bicho não parece preguiçoso na forma em que estamos acostumados a ver em outros animais. Cachorros e gatos normalmente manifestam preguiça de uma forma similar à nossa, mas o bicho preguiça consegue transcender o conceito de estado preguiçoso. Pra ele não existem um estado diferente daquele ou um momento em que existe pressa. Pra preguiça o mundo passa acelerado enquanto ela desacelera até quase parar. A lentidão está entranhada na carne e nos ossos, das unhas dos pés até a cabeça.

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Aí vem o efeito que o bicho preguiça provoca em nós, seres que vivemos em diferentes velocidades. A preguiça tem uma aura deboísta tão forte que acabamos por desacelerar também. Como permanecer acelerado diante de uma imagem como essa?

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Essa desaceleração costuma ser tão brusca, que sentimos uma espécie de efeito anestésico. Relaxamos tão rápido que quase nos sentimos como o bicho que nos contaminou. Por um instante nos tornamos tão lentos quanto eles e talvez até tão good vibes quanto eles. Podemos até dizer que observar preguiças, seja em fotos ou vídeos, é algo quase terapêutico.

Chegou a hora de encerrar o post de hoje. Pensei em desenvolver um encerramento legal e tal, mas adivinha? Deu preguiça. Por isso vou encerrar com essa rara imagem de uma preguiça sorrindo.

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Até semana que vem.

 

Contos de Segunda #23

O despertador tocou outra vez. Era o segundo alarme. Marcelo estava acordado desde o primeiro e só levantaria da cama depois do terceiro alarme tocar. Era segunda-feira e Marcelo não tinha a menor pressa de levantar da cama, afinal hoje teoricamente seria seu ultimo dia no estágio. Mesmo decidido em trabalhar tão bem quanto nos outros dias, seu nível de empolgação era comparável a de uma pia de cozinha. O terceiro alarme tocou e ele pulou da cama.

O tempo estava meio nublado, mas fazia um calor dos infernos. A época do ano em que o sol do meio-dia ficava durante dez horas no céu. Marcelo tinha conseguido a façanha de subir no ônibus em movimento e não chegaria atrasado. Apesar dessa não ser a sua intenção, meia hora de atraso significaria meia hora a menos naquele ultimo dia. Ele passou pela recepção e entrou sozinho no elevador, refletiu sobre todas as outras vezes em que aquilo acontecera e em como esta era a ultima vez em que estava acontecendo. Quando o elevador chegou ao seu destino, Marcelo respirou fundo e saiu para encarar o último dia de sua rotina.

O final do seu contrato de estágio era desconhecido pelos demais colegas, qualquer evento de despedida só deixaria tudo pior, até por que boa parte daquelas pessoas não sentiriam falta dele. Marcelo sentou na frente do computador, enquanto esperava a máquina iniciar as funções reparou que havia um bilhete preso no teclado. “Vá na minha sala assim que chegar”, dizia o recado do seu supervisor que também era um dos gerentes do setor onde ele trabalhava. Mais uma vez ele respirou fundo, tentou colocar no rosto todo o ânimo que não tinha e seguiu para a sala do chefe.

Cinco minutos depois Marcelo saiu de lá. Pegou suas coisas e foi em direção ao elevador. Enquanto descia para a recepção lembrou das últimas palavras do chefe: “…vou te dar o resto do dia pra pegar os documentos e fazer o exame admissional. A partir de amanhã vou te explicar as suas novas funções”. Ele pensou na rotina que continuaria, na luta que seria acordar todas as manhãs, principalmente nas segundas, pensou em como os seus planos de vagabundagem foram frustrados e em como a função de estagiário tinha muito menos responsabilidade… Apesar de tudo isso o ânimo que estava no seu rosto era genuíno.

Contos de Segunda #14

Quando Marcio repousou sua cabeça no travesseiro na noite do domingo ele estava feliz da vida. Afinal o dia seguinte seria um feriado e feriado em dia de segunda virou raridade nos últimos tempos. Por isso a segunda-feira de Marcio seria dedicada única e exclusivamente à preguiça.

Um plano infalível já estava traçado. Ele dormiria até tarde, ainda na cama começaria sua maratona de episódios acumulados das séries que acompanhava. Perto da hora do almoço ele finalmente levantaria da cama para pedir o almoço num restaurante próximo de casa. Como o dono era chinês, o estabelecimento não fechava dia nenhum e, apesar de não ter serviço de entregas, o restaurante entregava em qualquer lugar onde o pobre faz-tudo conseguia ir e voltar  a pé em menos de vinte minutos. Depois do almoço terminaria o livro que estava encostado há meses  e logo depois ligaria o video game e só desligaria para jantar os restos do almoço. Antes de dormir ele assistiria a novela infantil da vez, coisa que ele faz escondido de todo mundo. Assim acabaria o feriado, estava no plano, não tinha como dar errado.

Tinha. Sempre tem. Tanto é que teve.

O despertador tocou às cinco e meia como em todos os outros dias. Marcio pulou da cama e conseguiu desligá-lo cinco segundos depois. Conseguiu voltar a dormir, mas acordou uma hora depois com o som de um acidente de transito na rua onde morava. O som da cantoria dos pneus ativou uma memória quase suprimida de quando ele quase fora atropelado. A quantidade de adrenalina descarregada no sangue foi o suficiente para eliminar os últimos restos de sono que ainda resistiam. Ele teria que pular para a segunda parte do plano e iniciar a maratona de séries.

A maratona começou bem. A sequência de seis episódios só foi interrompida pela fome. Fome que foi bem difícil de matar, já que Marcio estava porcamente munido de provisões. O resultado foi a mistura de restos de várias coisas meio velhas que estavam na geladeira, tudo empurrado pra baixo com um copo de leite que não parecia estar muito dentro do prazo de validade. A maratona teria voltado com força total, mas um poste fora danificado no acidente que aconteceu mais cedo, a energia estava caindo a cada dois minutos. O término do livro teria que ser adiantado.

A satisfação de finalmente cumprir com perfeição uma das partes do plano foi enorme. Dois capítulos excelentes fechando a trama e dando espaço pra uma continuação que já estava confirmada. Já era hora do almoço. O telefone do restaurante tocou duas vezes antes de ser atendido, mas não haveriam entregas naquele dia, o faz-tudo estava no hospital. O mesmo carro que atropelou o poste na rua de Marcio havia atropelado o pobre rapaz dois quarteirões antes.

Diante dessa quantidade cavalar de infortúnios o plano foi abandonado. Marcio partiu a pé para a casa da mãe, já que o portão da garagem do prédio não abria por falta de energia. Os sobrinhos estavam lá e sua mãe sempre fazia um almoço bom quando ele aparecia. Ele acabaria jogando damas com o pai e jogaria conversa fora com a irmã. Talvez quando ele voltasse o poste estivesse consertado. Talvez não fosse possível jogar video game, mas ainda desse para ver a novela.

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