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Tag: Segunda-Feira

Contos de Segunda #6

Rubens estava deprimido, como em todos os domingos quando terminava o Fantástico. O ultimo suspiro do fim de semana. O primeiro indício da chegada da segunda-feira. De tão tranquilo provavelmente a única coisa que fazia Rubens reclamar era a segunda-feira e tudo que tinha alguma relação com ela. Ele tinha isso bem vivo no pensamento quando tropeçou em uma lâmpada mágica de onde saiu um gênio oferecendo três desejos.

– Eu desejo que não exista mais segunda-feira – disse ele entusiasmado.

– Pense bem – respondeu o gênio – a semana de trabalho tem que começar por algum lugar, se não for a segunda será a terça. Não posso realizar esse tipo de desejo.

– Então acabe com o domingo. No desejo seguinte farei a sexta-feira se tornar um feriado eterno.

– O mal será o mesmo. Os dias mudarão de nome e carregarão o mesmo estigma. Não posso desperdiçar meus poderes cósmicos dessa forma. Não posso realizar esse tipo de desejo.

“Foi-se o tempo em que as coisas de graça eram realmente de graça” pensou Rubens. A suspeita de que o gênio estava tentando dar um jeito de não atender desejo algum. Tinha que ser algo que funcionasse bem e que o gênio não pudesse deixar de fazer. E foi o que aconteceu.

Na noite daquela mesma segunda-feira, Jorge ligou a TV e viu o resultado do seu primeiro desejo: o Fantástico mudara de horário, agora seria exibido nas noites de segunda. Logo depois o resultado do segundo desejo: nos domingos a noite os programas exibidos seriam totalmente aleatórios, impedindo que esses programas fossem de alguma forma associados com o fim do final de semana. Mas e o terceiro?

Bem, o terceiro desejo foi simples. Motivado pela insatisfação, raiva e frustração. Além da vontade de ajudar o próximo ser humano que topasse com o gênio. Rubens desejou que a partir daquele dia mais nenhum desejo podia ser negado. Nunca mais.

 

Contos de Segunda #5

O despertador tocou de novo. Era o terceiro alarme. Foi quando Marcelo acordou. Ele sabia que estava atrasado, também sabia que só pessoas desempregadas podem fazer festa até tarde no domingo de noite sem sofrer nenhum prejuízo. Mas Marcelo não estava nem aí. Pela primeira vez na história seu time do coração levantou a taça de campeão da segunda divisão do campeonato estadual. Isso merecia uma comemoração. Mas comemorar tanto quanto Marcelo comemorou era um pouco de exagero. Principalmente por que aquela era a sua segunda semana no novo estágio.

Ele caminhou até o espelho, olhou atentamente para o reflexo e se sentiu reprovado no teste do espelho. Sua semelhança atual com um paciente terminal de seriado médico o fez desistir totalmente de aparecer no escritório. Mas a pergunta era: como faltar sem queimar o filme?

A primeira opção era o bom e velho atestado médico, mas Marcelo tinha “RESSACA” escrito na testa e a segunda era um dia difícil pra conseguir atestados do jeito tradicional.

Marcelo tinha um amigo médico. Normalmente ele não ajudava com atestados fraudulentos, mas ele também estava feliz com o título de campeão da segunda divisão do estadual. Talvez ele abrisse uma exceção. Talvez, se ele não estivesse tão acabado quanto Marcelo, a diferença entre os dois é que o médico não precisava acordar cedo, tanto é que não acordou. Na quinta ligação o atestado médico foi riscado da lista de soluções possíveis. A segunda opção era que alguma catástrofe urbana estivesse acontecendo no caminho até o estágio. Depois de uma rápida busca em sites de notícia a possibilidade de ter um protesto, acidente ou greve interrompendo o transito foi descartada. O jeito era chegar lá e tentar convencer os outros de que a ressaca, a falta de sono e a cara de de desastre eram um tipo novo de virose.

Marcelo se arrumou o melhor que pôde, meteu os óculos escuros no rosto, respirou fundo e partiu. Durante todo o caminho ele rezou para todos os deuses e santos que ele conhecia. Refletiu sobre como o fanatismo pelo seu time estava atrapalhando sua vida e que não seria uma boa idéia adicionar um estágio de uma semana ao currículo. Mas ao descer do ônibus a primeira coisa que ele viu foi o cordão de isolamento dos bombeiros. O prédio onde ele trabalhava estava sendo evacuado. Segundo o corpo de bombeiros uma máquina de fotocópias explodiu ao tentar ser operada por um dos coordenadores da empresa. Testemunhas afirmam que o estagiário que fazia as cópias estava atrasado, o que levou a uma operação errada da máquina, resultando no acidente. Ninguém ficou ferido, fato que fez Marcelo permitir que um sorriso brotasse em seus lábios. Diante daquela situação ele só podia dar meia volta e partir pra casa.

 

Contos de Segunda #4

Em uma estrela distante orbitava o planeta Pix221. Nesse planeta habitava Radrax, um jovem que sofria com um problema que ninguém em seu planeta conseguia explicar. De tempos em tempos Radrax ficava mau humorado, não tinha paciência e apresentava níveis de preguiça incompatíveis com os demais indivíduos de sua raça.

A família de Radrax era pioneira na exploração espacial. Por gerações eles foram por todos os pontos da galáxia mapeando os sistemas e registrando os planetas. Porém as variações de humor de Radrax não inspiravam confiança aos seus superiores do programa espacial. A continuidade do legado de sua família estava em jogo. Ele começou a investigar.

Pelo que ele podia lembrar tudo isso começou quando seu pai retornou de uma longa viagem de exploração. Foram sete anos. Na volta ele foi presenteado com um pequeno tubo metálico preso em uma corrente, levava a corrente no pescoço desde então. Segundo o pai lhe dissera, aquela era uma lembrança do dia em que ele havia chegado no ultimo planeta que visitara. A tradição dizia que o conteúdo só podia ser revelado quando quem recebeu o presente deixasse Pix221 pela primeira vez. Mas a tradição deveria ser deixada de lado.No interior do tubo havia uma folha de papel. Nessa folha havia algo escrito num idioma e um valor representado no sistema numérico alienígena. Segundo seu pai, aquela era a representação do dia de sua chegada segundo os padrões de registro dos habitantes daquele planeta. Aquilo devia ter algum significado.

Nos dados divulgados sobre a missão não havia nada que pudesse ser relacionado, mas nos diários da missão havia uma observação bastante curiosa.Nos registros da missão seu pai relatou que os seres inteligentes daquele planeta eram afetados pelos marcos utilizados para registrar a passagem do tempo. Algo mexia com eles deixando-os irritados, preguiçosos e impacientes, mas em outros momentos eles se mostravam eufóricos, bem humorados e dispostos. O conteúdo do tubo era um marco cronológico. De alguma forma ele estava afetando Radrax e só havia uma forma de remediar isso.

Ele pegou uma nave. Definiu o curso para o terceiro planeta mais próximo de uma estrela distante e avisou para seus superiores que só voltaria para Pix221 depois de devolver aquele maldito papel para seu lugar de origem e retornar com um marco cronológico chamado “Sexta-feira”.

Contos de Segunda #3

Aluísio tinha uma relação muito particular com a Segunda-feira. Praticamente todas as coisas relevantes da sua vida aconteciam no primeiro dia útil da semana. Todas elas.

Nasceu em uma segunda-feira dia 02 de fevereiro, no segundo ano de mandato do presidente na época, coincidentemente o segundo ano da década. Numa segunda aprendeu a falar, em outra a andar. Nos tempos que jogava futsal na escola sempre se destacava, caso o jogo acontecesse em uma segunda. Sempre se destacou nas provas, caso o resultado das mesmas fosse divulgado no começo da semana. O mesmo ocorreu quando ele passou no vestibular, na segunda vez. Ele também conheceu Amélia numa segunda.

Amélia e Aluísio se conheceram, começara a namorar e ficaram noivos em três segundas bem distintas. E apesar de todas essas coincidências eles tentaram se casar em um domingo. Mal sabiam eles que não conseguiriam.

Ao marcar a data o detalhe do dia da semana passou despercebido. Na verdade só quando Aluísio acordou naquele domingo percebeu o tamanho do problema. Ele deveria ter marcado o casamento na sexta ou no sábado. O domingo estava tão perigosamente perto da segunda que ele já estava conformado com o insucesso da cerimônia. Como preocupar a noiva só anteciparia o desastre, nada em relação ao problema do calendário foi informado.

A cerimônia estava marcada para as 16 horas. A noiva entrou na igreja às 17. Essa hora de atraso acabou fazendo com que o padre tivesse uma reação alérgica devido ao tempo exposto às flores no altar. Enquanto ele era socorrido um ex-namorado de uma das madrinhas, inconformado com a separação, entrou armado na igreja e fez os convidados de refém. A polícia conseguiu prender o ex-namorado após algumas horas de negociação, mas todos os convidados precisaram prestar depoimento sobre o fato ocorrido. Tudo isso fez com que a mãe da noiva tivesse uma forte crise de ansiedade, o que deixou a noiva psicologicamente incapacitada por mais de uma hora. Mais ou menos na hora que o padre voltou do hospital. Mas o pobre sacerdote voltara praticamente sem voz. Por sorte ele e os noivos sabiam falar em linguagem de sinais,  mas faltou luz antes da cerimônia poder ser iniciada.

Quando o relógio bateu meia-noite a luz voltou, o ultimo convidado concluiu seu depoimento, a voz do padre voltou e os nervos da noiva se recuperaram. Afinal, era segunda e as coisas importantes da vida só aconteciam junto com ela, pelo menos com Aluísio era sempre assim.

Contos de Segunda #2

“É segunda-feira, mas não é o fim do mundo”, era isso que Maurício sempre falava pra si mesmo toda segunda de manhã antes de sair pra trabalhar. Até que de fato o mundo acabou. Segunda passada foi o início do fim dos tempos, e depois de uma sequência inacreditável de hecatombes como desastres naturais, guerras nucleares, infestações de zumbis, epidemias de super bactérias, colapso social e ondas de barbárie o mundo acabou.. Se Deus queria dar um fim pro mundo ele estava realmente apressado. Muito provavelmente por um motivo bastante simples: o primeiro dia depois do fim do mundo precisava ser uma segunda-feira.

Naquela manhã Mauricio se levantou pensando no que iria fazer. Se tem alguma coisa que te deixa sem muitas opções ela perde feio pro fim do mundo nesse quesito. Estava rolando um boato na vizinhança de que algumas pessoas estavam se organizando no centro da cidade. Doze quilômetros a pé por dentro de uma antiga área ocupada por zumbis. Atualmente só os arruaceiros matadores de zumbi viviam por lá, mas os zumbis estavam extintos e a maioria dos arruaceiros não queria mais fazer arruaça. A área ainda mostrava as consequências dos tempos  áureos em que o problema dos zumbis estava em alta, na terça-feira passada. Na falta do que fazer ir para o centro parecia ser a melhor opção

O caminho pro centro na manhã do primeiro dia útil da semana continuava tão ruim quanto era no mundo que acabou. As pontes que ligavam o centro às outras partes da cidade estavam com a estrutura comprometida por isso todos que precisavam atravessá-las faziam isso devagar e em pequenos grupos. Isso deixou o caminho pela ponte bem “congestionado”, juntamente com o protesto de religiosos enfurecidos de um movimento que reivindicava o direito de ir para o paraíso antes ou durante o fim do mundo.

Ao chegar no centro ele encontrou com uma movimentação meio acelerada de pessoas nas ruas. Algumas carregavam sacos com alimentos, outros com pedaços de escombros que ainda tinham alguma serventia eram acompanhados por pessoas com ferramentas. Não demorou muito para que ele fosse notado por alguém que estava organizando os trabalhos. Ele disse:

Procurando por trabalho? É só passar no Departamento Pessoal, lá eles encontram uma coisa pra você fazer.

Naquele momento Maurício precisou se conformar com o fato de que apesar do fim do mundo a segunda-feira continuava a mesma coisa. Enquanto esperava para ser atendido pelo Departamento Pessoal olhou ao redor, respirou fundo e pensou.

“Podia ser bem pior. É segunda-feira, mas não é o fim do mundo, isso foi na segunda-feira passada”.

Contos de Segunda #1

Armando estava se aposentando. Trabalhava na mesma empresa há quinze anos e era considerado um funcionário exemplar. Pontual e com pouquíssimas faltas ao longo desses anos todos. Ele não andava muito satisfeito com o trabalho, mas a eminencia da aposentadoria estava fazendo maravilhas com seu humor. Pelo menos até a ultima sexta-feira, quando ele notou que segunda seria seu ultimo dia de trabalho.

Passando os olhos nervosos pelo calendário ele lembrou de um feriado que passou batido. Ele ainda precisaria trabalhar mais um dia. Imediatamente o clima de “festa de despedida” foi construído em sua mente. Pessoas que ele não queria mais ver na vida colocariam a máscara de amigos de trabalho e descarregariam uma tonelada de palavras falsas em seus ouvidos. A paciência já estaria esgotada antes da hora do almoço, quando provavelmente ele seria coagido a almoçar junto com um bando de colegas de trabalho que sentirão pouca ou nenhuma falta dele. E além de tudo isso ainda seria segunda-feira.

O sábado e o domingo foram uma tortura. Todo o desgaste mental foi antecipado de um jeito que Armando acordou naquela segunda como se tivesse passado o fim de semana numa guerra. De fato a guerra existiu, dentro da cabeça dele. Ao entrar no carro já estava com raiva de metade do mundo. Quando virou a esquina na rua do escritório já tinha listado os prós e os contras de cometer alguns homicídios.

No momento em que passou pela frente do prédio ele teve uma epifania. A velocidade não reduziu, ele passou direto pela entrada da garagem, virou duas esquerdas, caiu no engarrafamento de uma avenida. Quando ele estacionou o carro na beira mar respirou fundo, encarou o mar, olhou nos olhos da segunda-feira e disse:
“Não hoje, nem nunca mais”

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