Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #16

    Moacir deu um pulo da cama quando ouviu o despertador. Ao contrário de boa parte dos dias, hoje ele estava estranhamente bem humorado. O zumbido do ar condicionado passara despercebido, assim como o raio de sol que sempre entrava pelo buraco na cortina. Ele sentia como se nada pudesse estragar seu dia, e ele se esforçaria para tal.

    Quando foi para o chuveiro decidiu que não ouviria rádio. A única estação sintonizável do banheiro sempre tocava músicas bem irritantes e propagandas com os jingles mais chicletes que se tem noticia. Saiu do banho se perguntando por que ele se torturava todas as manhãs ouvindo àquela rádio? Depois de se vestir decidiu que não usaria relógio naquele dia, o relógio era antigo e Moacir sempre esquecia de dar corda. Tal fato era notado bastante tempo depois e gerava uma irritação tremenda no pobre homem. Saiu do quarto se perguntado por que ainda insistia em usar um relógio que sempre o deixava na mão.

    Saindo do apartamento errou o caminho do elevador e foi direto para a escada, quatro andares de escada o separavam do térreo. Com isso deixou de ouvir o barulho produzido pela porta do elevador, que sempre o fazia trincar os dentes de agonia. Enquanto descia as escadas não parou de se perguntar por que não fizera isso antes. Chegou ao térreo e foi direto para a rua, resolveu que não usaria o carro hoje. Em vez de passar mais de uma hora no transito pesado, caminharia por cinco minutos até a rua de trás, pegaria um táxi até o bairro onde trabalhava. Da rua de trás o taxista podia ir pelo sentido que não engarrafava. Ele não se incomodou de caminhar dez minutos até o escritório para que o taxista não precisasse pegar uma rua engarrafada. Tal solução nunca antes tinha passado pela sua cabeça, mas o fato dela ter passado naquele momento acabou deixando o dia um pouco melhor.

    Moacir não precisou se esforçar muito para que o trabalho não estragasse seu dia. Bastaram fones de ouvido e algumas músicas do tempo de adolescente para que nada de ruim entrasse e nada de bom saísse. As queixas dos colegas passaram despercebidas, os gritos do chefe com os fornecedores no telefone foram ignorados. Na volta para casa o plano de usar o táxi funcionou novamente, assim como ir pela escada para não ouvir o elevador. Ao chegar em casa percebeu que o jornal não fora recolhido pela manhã, ao observar a data percebeu que aquele dia maravilhoso tinha sido uma segunda-feira. Diante disso acabou decidindo que não deixaria os dias seguintes serem estragados por nada. Principalmente por ele mesmo.

Contos de Segunda #15

Amadeu acordou achando o mundo um grande pedaço de cocô orbitando o Sol. Segunda-feira, a mesma porcaria de sempre. Mais um dia estressante no trabalho estava pela frente, cheio de clientes pentelhos, subalternos com inteligência de ameba e superiores que tem parentesco próximo com as portas. Nada na geladeira estava dentro da validade, com exceção da margarina, do óleo de soja e da cola super bonder.

No jornal não tinha uma noticia animadora. Crise, derrota do time do coração, audiência da novela em baixa e outro prédio histórico entregue às baratas. Só faltava ver o resultado da Sena pra desgraça estar completa. Estava lá 03 16 24 43 48 57… 03…16… 24… 43 … 48… 57… Um acertador. Só um. Em quinze segundos Amadeu ficou milionário.

Amadeu levantou da cadeira achando que o mundo era um grande pedaço de chocolate orbitando o Sol, essa estrela maravilhosa e sorridente que acariciava a todos com seu calor gentil. A segunda-feira estava especialmente maravilhosa e um dia sensacional no trabalho estava pela frente. Como sempre os clientes, criaturas tão simpáticas e gentis ocupariam o telefone durante todo o dia, mas Amadeu sabia que podia contar com seus colegas. Seus subordinados eram tão capazes e talentosos que davam orgulho. Sem contar os seus superiores que eram tão habilidosos na gestão das pessoas quanto na gestão dos negócios. Infelizmente a comida da geladeira continuava vencida. De fato algumas coisas não podem melhorar com uma simples mudança de ponto de vista.

Contos de Segunda #14

Quando Marcio repousou sua cabeça no travesseiro na noite do domingo ele estava feliz da vida. Afinal o dia seguinte seria um feriado e feriado em dia de segunda virou raridade nos últimos tempos. Por isso a segunda-feira de Marcio seria dedicada única e exclusivamente à preguiça.

Um plano infalível já estava traçado. Ele dormiria até tarde, ainda na cama começaria sua maratona de episódios acumulados das séries que acompanhava. Perto da hora do almoço ele finalmente levantaria da cama para pedir o almoço num restaurante próximo de casa. Como o dono era chinês, o estabelecimento não fechava dia nenhum e, apesar de não ter serviço de entregas, o restaurante entregava em qualquer lugar onde o pobre faz-tudo conseguia ir e voltar  a pé em menos de vinte minutos. Depois do almoço terminaria o livro que estava encostado há meses  e logo depois ligaria o video game e só desligaria para jantar os restos do almoço. Antes de dormir ele assistiria a novela infantil da vez, coisa que ele faz escondido de todo mundo. Assim acabaria o feriado, estava no plano, não tinha como dar errado.

Tinha. Sempre tem. Tanto é que teve.

O despertador tocou às cinco e meia como em todos os outros dias. Marcio pulou da cama e conseguiu desligá-lo cinco segundos depois. Conseguiu voltar a dormir, mas acordou uma hora depois com o som de um acidente de transito na rua onde morava. O som da cantoria dos pneus ativou uma memória quase suprimida de quando ele quase fora atropelado. A quantidade de adrenalina descarregada no sangue foi o suficiente para eliminar os últimos restos de sono que ainda resistiam. Ele teria que pular para a segunda parte do plano e iniciar a maratona de séries.

A maratona começou bem. A sequência de seis episódios só foi interrompida pela fome. Fome que foi bem difícil de matar, já que Marcio estava porcamente munido de provisões. O resultado foi a mistura de restos de várias coisas meio velhas que estavam na geladeira, tudo empurrado pra baixo com um copo de leite que não parecia estar muito dentro do prazo de validade. A maratona teria voltado com força total, mas um poste fora danificado no acidente que aconteceu mais cedo, a energia estava caindo a cada dois minutos. O término do livro teria que ser adiantado.

A satisfação de finalmente cumprir com perfeição uma das partes do plano foi enorme. Dois capítulos excelentes fechando a trama e dando espaço pra uma continuação que já estava confirmada. Já era hora do almoço. O telefone do restaurante tocou duas vezes antes de ser atendido, mas não haveriam entregas naquele dia, o faz-tudo estava no hospital. O mesmo carro que atropelou o poste na rua de Marcio havia atropelado o pobre rapaz dois quarteirões antes.

Diante dessa quantidade cavalar de infortúnios o plano foi abandonado. Marcio partiu a pé para a casa da mãe, já que o portão da garagem do prédio não abria por falta de energia. Os sobrinhos estavam lá e sua mãe sempre fazia um almoço bom quando ele aparecia. Ele acabaria jogando damas com o pai e jogaria conversa fora com a irmã. Talvez quando ele voltasse o poste estivesse consertado. Talvez não fosse possível jogar video game, mas ainda desse para ver a novela.

Contos de Segunda #13

Robson queria fugir. Não, ele não é parte da população carcerária Brasileira. Robson trabalha num escritório de direito, de terno e gravata, todos os dias das 8 às 17. Não havia ninguém tão correto no trabalho quanto ele, que sempre chegava no horário e nunca faltava, mas secretamente ele nutria um desejo: fugir do trabalho

A raiz disso está nos tempos do colégio. Um belo dia o jovem Robson escapuliu do colégio cerca de uma hora e meia mais cedo do que o normal. Não parece muito, mas aquela sensação de estar em um lugar onde não deveria embriagou aquele adolescente que hoje estava dentro de um escritório. A sensação de fugir com certeza seria mais forte, pelo menos era isso que ele imaginava, e só era possível fazer tentando.

Ao longo da semana anterior Robson plantou uma série de informações falsas e, até certo ponto, contraditórias. A secretária do departamento sabia que ele estaria no fórum, seus amigos de baia o ouviram comentar sobre como estava chegando o último dia para recorrer de uma multa de estacionamento que ele levou por engano, a recepcionista lembrava de ouvir algo sobre ele precisar ir ao médico, seu chefe estava em reunião com clientes importantes durante todo o dia. Ninguém estranharia a ausência dele.

A ideia não era simplesmente escapar e ir para casa. Ele fugiria para algum lugar onde as pessoas estariam plenamente convencidas de que ele não devia estar ali. Por isso ele iria para a praia, de gravata, em uma segunda-feira. Quando a hora do almoço chegou ele esperou que todos saíssem, pegou suas coisas e partiu. Passou o corredor com passos acelerados, evitou o elevador e desceu os quatro andares de escada até o estacionamento, no dia em questão ele tinha vindo com o carro da irmã que, apesar de ter uma cor meio feminina, tinha uma película escura nos vidros. Chegou na rua e foi para a praia.

Liberdade. O gosto doce daquela dama preenchia sua boca e transbordava em forma de um largo sorriso. Nem o transito, nem a falta de vagas desanimaram Robson, muito menos o tempo meio nublado. Quando os pulmões dele se encheram daquela brisa salgada e ele viu um homem bastante familiar sentado em uma cadeira na areia. Embaixo de um guarda-sol estava o seu chefe, de gravata e com as mangas arregaçadas, tomando água de coco com um ar de felicidade extrema. Robson decidiu que iria para casa, pelo menos seus dois filhos estariam plenamente convencidos de que ele não deveria estar ali.

Contos de Segunda #12

Sono. Era o que Jorge sentia quando buscou a irmã no aeroporto às duas horas da manhã do sábado. Depois de uma série de problemas com a bagagem ele ainda sentia sono às oito da manhã, hora em que sua tia deveria estar chegando na rodoviária. Porém um acidente envolvendo duas motos, um caminhão cheio de melancias e uma viatura do Corpo de Bombeiros só deixou a pobre senhora chegar ao seu destino às dez. Jorge continuava com sono.

Sono este que persistiu ao longo de todo o sábado, enquanto Jorge ajudava o pai a comprar toda a comida e bebida que seria consumida no domingo. Os pais de Jorge completariam trinta e cinco anos de casados, a festa seria boa, parentes de todos os lados fizeram questão de aparecer. Parentes como os quatro primos de Jorge que chegaram às onze da noite, duas horas depois de dois tios e uma tia. Todos eles foram buscados por Jorge, que caiu na cama à meia-noite e acordou as cinco para começar a encher quatrocentos e noventa e oito balões de hélio.

Depois de encarar uma maratona de domingo com todos aqueles parentes, que comiam, bebiam e faziam muito barulho, Jorge só conseguia pensar no quanto estava com sono, em como estaria com sono no trabalho na segunda-feira e de como aquilo já parecia tão ruim dentro da sua pobre cabeça. E seria bem ruim, caso o despertador tivesse sido ouvido. Se Jorge tivesse conseguido chegar no escritório antes da hora do almoço, se a reunião dos chefes não tivesse durado a manhã toda ou se a simulação de incêndio não tivesse acontecido vinte minutos atrás. Apesar de tudo isso, ainda havia um problema que continuava sem solução. Jorge ainda estava com sono.

Contos de Segunda #11

Cristina estava em pânico. Era segunda-feira, ela esperava pelo elevador. O maldito pedaço de lata estava parado no sexto andar fazia uma eternidade. “Descedescedescedesce”, pensava a pobre moça, a cada segundo que passava o terror aumentava. Se ela pudesse chegar rápido à sua baia lá em cima poderia se esconder durante todo o dia sem correr o risco de encontrar com Jorge. “AI, QUE ÓDIO!”, pensava Cristina quando se lembrava do rapaz do jurídico.

O telefone vibra. Chegou uma mensagem. Era de Luciana, sua amiga e colega de trabalho.

Encontrasse com teu boy?”

“VAI PRO INFERNO, LUCIANA”

“Kkkkk relaxa, amiga, Jorge nem deve lembrar do que rolou”

“Duvido”

“Ui! O rolo de vcs foi forte assim? E eu pensando que era impressão minha”

“AI Q ÓDIO”

O elevador ainda estava no sexto andar. Cristina começava a relembrar toda a série de acontecimentos que conduziram sua vida até aquele abismo de arrependimento e aflição. Era sábado, 19h. Cris estava preparada para passar o resto da noite assistindo Grey’s Anatomy, acordar às três da manhã largada no sofá em uma posição esquisita, partir pra cama e acordar cedo no domingo para andar de bicicleta. Plano à prova de falhas… Pelo menos até Luciana mandar as três palavras mágicas: Clone de Tequila. A mensagem foi visualizada e ignorada. Afinal Cristina precisava acordar cedo, apenas a magia da tequila não seria suficiente, mas vieram mais três palavras que fizeram a magia acontecer: Pearl Jam Cover.

“Qual Cover?”, dizia a mensagem que Cristina mandou desejando que a resposta não fosse o que ela achava que seria.

“O único que vale a pena”

O coração acelerou. Existia um único cover de Pearl Jam para Cristina, e eles normalmente não tocavam em locais e horários em que ela pudesse ir. Grey’s Anatomy ficaria pra depois.

Na terceira música a tequila já tinha feito bastante efeito. Na quinta música Jorge apareceu, sem muita intenção, só aproveitou a oportunidade de despertar um pouco de simpatia numa colega de trabalho que o detestava declaradamente. Quando tocou Alive Cristina pediu para subir nos ombros de Jorge. Mais três doses de tequila e eles passaram o resto das músicas como se fossem namorados no auge da paixão. Essa parte da história é um grande vazio na memória da moça, mas Luciana estava lá. Ao contrário da amiga, Luciana não gosta de tequila, ela gosta de testemunhar. Na manhã do domingo Cristina acordou com uma ressaca inacreditável e com um relato completo da noite anterior chegando em seu celular, com direito a registro fotográfico e dois vídeos de aproximadamente trinta segundos cada. A ressaca da tequila passou a incomodar muito menos.

O elevador finalmente tinha chegado. Cristina estava sozinha dentro dele, apertando freneticamente o botão para que as portas se fechassem. Por longos segundos a porta permaneceu aberta. Segundos em que o peito da pobre moça quase explodiu. A porta fechou… E abriu novamente… Para o estagiário do financeiro. A porta fechou, o elevador começou a subir. Mais uma vez o celular vibra, um lembrete que diz: “Reunião com o pessoal do jurídico 10h”.

Contos de Segunda #10

“Você está atrasado”.

Era o que dizia a mensagem recebida duas horas atrás. Quando o engarrafamento estava ainda na metade e o rádio anunciava o congestionamento recorde do ano. Ribeiro teve a infelicidade de precisar de um remédio que o deixava com muito sono, muito sono mesmo. Uma hora a mais de sono e ele perdera o horário em que o caminho para o trabalho não estava engarrafado. Logo na segunda-feira, quando o transito era pior por natureza, e quando sua gerente fazia questão de chegar no horário.

“Ribeiro, está atrasado”

Foi o que a gerente disse uma hora atrás. Ela estava lá esperando para ver a analise dos resultados do controle de qualidade do fornecedor. Por sorte isso estava pronto, mas provavelmente nenhuma das outras pendências estava, eram tantas que Ribeiro nem conseguia lembrar de todas. Era começo de Agosto e as demandas estavam se acumulando, como em todos os meses de Agosto de todos os anos passado.

“Está atrasado”

Dizia o email do dono do apartamento em que Ribeiro morava. Uma semana de atraso no aluguel, consequência de uma série de problemas com operações bancárias. Sem tempo de ir ao banco resolver, o dono do apartamento não aceitava outra forma de pagamento que não fosse dinheiro em espécie. Sendo assim ele ia ter que esperar.

“Está tudo atrasado”

Falou a gerente pelo telefone dois minutos atrás. A análise já tinha perdido a graça, ela precisava de mais alguma coisa para se entreter. Até o fim do dia pelo menos duas das pendências deveriam estar na mesa dela, e de fato estariam. A segunda-feira terminaria bem. Amanhã ainda estaria tudo atrasado, as demandas ainda se acumulariam e a gerente ainda cobraria muita coisa. Agosto ainda seria uma segunda-feira de 31 dias, tão ruim quanto qualquer Agosto de qualquer ano anterior. Ruim o suficiente para fazer Ribeiro pensar que o fim de ano estava atrasado. Deixando-o ansioso por Setembro, pelo fim desse mês cabuloso…  Mas isso ainda ia demorar um pouco e nesse exato segundo ele só conseguia pensar no próprio atraso.

Contos de Segunda #9

Renato tinha um blog. Lá ele publicava um conto toda segunda-feira até então. Porém havia um problema: ele não tinha ideias para o conto da próxima segunda. Sentado diante do computador contemplava há horas o documento ainda em branco. Nada. Nenhuma palavra. Os olhos ardiam de tanto encarar o branco do editor de texto. Os dedos se contorciam de tensão sobre o teclado. A cabeça fervilhava com inúmeras coisas, nenhuma delas era uma ideia aproveitável. Ele precisava pensar em alguma coisa.

A primeira tentativa de ativar as ideias foi assistir um episódio de alguma série há muito deixada de lado. Depois de três episódios Renato estava plenamente convencido dos motivos que o levaram a abandonar a série. A segunda tentativa foi retomar a leitura de um livro enorme de fantasia medieval que estava sendo consumido em ordens homeopáticas. Depois de dois capítulos um dos personagens mais importantes morre de forma tão inexplicável e brutal que as próxima meia hora foi dedicada a xingar muito em alguma rede social. A terceira tentativa consistiu em olhar ao redor em busca de alguma inspiração, nisso e em pedir pelo amor de Deus que uma ideia viesse logo.

A ideia veio. Talvez não fosse a melhor ideia do mundo, mas qualquer coisa é melhor que nada. Os dedos correram frenéticos pelo teclado, os olhos mal piscavam e poucos instantes depois o primeiro parágrafo estava pronto. Estava bom o suficiente para garantir que o texto não seria abandonado sem conclusão. Escrever sobre alguém que não tinha o que escrever pareceu bastante interessante, talvez rendesse alguma coisa que prestasse. Começava mais ou menos assim:

“Tadeu tinha um blog. Lá ele publicava um conto toda segunda-feira até então. Porém havia um problema: ele não tinha ideias para o conto da próxima segunda…”

Contos de Segunda #8

— Preciso disso pronto pra segunda, Ferreira. Já autorizei as horas extras no sistema. Segunda de manhã, sem adiamento.

Foi isso que Ferreira ouviu antes de uma pilha de papéis aterrissar em sua mesa. Na sexta-feira. Às 17 horas. No exato instante em que o cursor do mouse estava a meio centímetro do botão de desligar. Na última vez em que os olhos dele passaram pelo relógio, o mesmo marcava 23 horas e 58 minutos do domingo. Dois minutos para a segunda-feira e o relatório que o chefe pediu estava bem longe do fim.

Ferreira passou os últimos 5 minutos encarando a tela do computador. Durante esse tempo ele tentou pensar em algum jeito de terminar o trabalho. Como não conseguiu pensar em nenhum, começou a pensar em formas de não terminar o trabalho e ainda assim continuar empregado. O último minuto foi dedicado a dar um jeito de dar uma arrumada no relatório de modo que ele parecesse terminado mesmo sem estar terminado. O que daria tempo para que de fato o relatório fosse terminado, mas essa última solução pareceu tão complicada quanto as outras duas. O relógio marcou 23:59.

Ele não tinha muito tempo, mais duas horas e o cansaço não o deixaria continuar, precisava pensar rápido. Mas só conseguia pensar no desemprego, na crise, na prestação da fritadeira sem óleo e na viagem que faria no fim do ano, que ainda estava sendo paga. Imaginou que talvez pudesse trabalhar com o pai no bar da família, afinal ele nunca gostou do trabalho no escritório. O relógio marcou 00:00 da segunda-feira.

00:00. Ferreira encarou o relógio até ele marcar 00:01. Um sorriso torto nasceu em seus lábios. Ele pendurou a bolsa no ombro, desligou o computador de qualquer jeito e saiu correndo. Chamou um táxi e foi pra casa. Chegando lá pegou alguma coisa pra beber na geladeira e fez um brinde imaginário. Olhou para o relógio na tela do celular e constatou que ele não cometido nenhum engano. Aquela segunda era mesmo feriado.

Contos de Segunda #7

Josias era terapeuta. Ao longo dos anos ele percebeu em seus pacientes um ponto em comum. Todos sentiam aversão pela segunda-feira, mas alguns deles possuíam uma espécie de depressão associada ao primeiro dia útil da semana. Ele precisava dar um jeito nisso.

Depois de muita pesquisa e de muitas experiências, ele chegou à conclusão de que a hipnose seria a melhor forma de combater essa depressão. Através de uma série de gatilhos mentais, mensagens subliminares e coisas do tipo, o paciente se tornava incapaz de lembrar coisas associadas à segunda-feira. Coisas como se fosse impossível perceber que era segunda, ou que amanhã seria segunda, ou que ontem foi segunda. Saber que o dia 23 cai no início da semana, mas não saber que isso era uma segunda-feira. Criar esses bloqueios de modo que o paciente não seja prejudicado em sua vida cotidiana foi um verdadeiro desafio, rendendo renome internacional e vários prêmios. Porém Josias escondia um segredo. Na verdade ele mesmo foi o principal motivo para o início das pesquisas. Josias sofria da depressão associada à segunda-feira, mas por algum motivo misterioso ele era imune ao tratamento hipnótico.

Ele tentou com neurologistas e psiquiatras, mas não descobriu como poderia fazer o tratamento funcionar. Pelo menos não de forma tranquila. Cansado de ver pacientes livres de seus traumas, enquanto ele amargava o sofrimento e a tristeza gerada pela segunda, Josias resolveu aumentar a intensidade dos estímulos, ativar vários gatilhos mentais ao mesmo tempo e prolongar o tempo de exposição… Deu resultado… Mas não o resultado esperado.

Atualmente Josias ocupa uma cela no manicômio judiciário. Ele foi preso por ter assassinado um homem após uma discussão onde o mesmo afirmou ser quarta-feira. Para Josias era segunda-feira, assim como em todos os outros dias

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