Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #26

    Moacir estava com um humor péssimo. Desde o começo a segunda-feira estava tão maravilhosa quanto um tratamento de canal. Da topada no pé da cama ao acidente com café que acabou mudando a cor de uma camisa novinha, aquela segunda-feira estava se esforçando para ser um dia especialmente desagradável. Estava tão ruim que o humor do pobre Moacir estava começando a melhorar, afinal não tinha como o dia ficar pior.

–  Moacir, tira aqui o nome do teu amigo secreto.

O palavrão saiu da garganta, mas morreu entre os dentes trincados do pobre coitado. Ele respirou fundo duas vezes e tentou fingir que não era com ele.

– Moacir, tira logo o teu amigo secreto que eu ainda tenho que passar lá no pessoal do design.

A mão de um homem um pouco mais controlado puxou um papelzinho de dentro da sacola. Essa mesma mão se juntou com sua irmã gêmea para receber o rosto de um homem que nunca antes tinha desejado com tanta força a queda de um meteoro. Nem precisava ser um dos grandes, só o suficiente para esmagá-lo e terminar com aquela segunda-feira maldita.

Os amigos secretos com o pessoal do trabalho sempre eram um desastre. Perfumes que causaram reação alérgica, chocolates que causaram diarreia e uma caneca personalizada do time de futebol rival eram só algumas amostras dos presentes desastrosos que Moacir acabava comprando todo ano. Esse ano não seria diferente, ele sabia, por mais que ele se esforçasse nunca dava certo. Ele tentou comprar exatamente o que a pessoa queria, tentou pegar uma dica com colegas do setor do amigo secreto, tentou ser genérico e criativo. Nunca deu certo… Na verdade “dar certo” era um extremo tão oposto que as piadas sobre os presentes de Moacir costumavam durar até o carnaval.

A porta de entrada para a desgraça de todo fim de ano estava ali, em um pedacinho de papel. Pouco mais de uma semana para o dia do amigo secreto. A contagem regressiva acabara de começar e o stress já tinha atingido os níveis mais altos do ano.

“Qual vai ser o presente que eu vou transformar em desgraça esse ano?”, se perguntava Moacir a cada dois minutos enquanto voltava pra casa. Pelo menos ele podia comprar alguma desgraça barata, era ano de crise e ninguém se importaria de se dar mal a um custo baixo. Era nisso que estava pensando quando enfiou a chave na tranca da porta. “Hoje não podia ter sido pior”, era nisso que ele pensava quando entrou no apartamento. Mas a segunda-feira estava se esforçando de verdade para que aquele homem não tivesse um bom início de semana, e uma pergunta foi a cereja daquele bolo de cocô.

– Eita… Quem foi que eu tirei mesmo no amigo secreto?

Contos de Segunda #25

“Preciso de férias”.

    Foi a primeira coisa que Ribeiro pensou quando abriu os olhos naquela segunda-feira ensolarada. Dezembro mal começara e ele já contava os dias para o início das suas férias. Apenas catorze dias… Catorze ansiosos e impacientes quadradinhos no calendário que se recusavam a passar. Dias piores do que qualquer segunda-feira.

    Ribeiro chegou na hora. Empilhou os volumes do relatório do controle de qualidade do fornecedor em cima da mesa. A gerente passaria por ali em uns dez minutos e pela primeira vez em meses ela não teria do que reclamar. Estava tudo em dia, afinal tudo deveria ficar pronto antes das férias.

    “Preciso de férias”.

    Disse Ribeiro em voz baixa para si mesmo depois de passar cerca de um minuto encarando a tela do computador.  Esse minuto foi tempo suficiente para esperança de que isso o fizesse lembrar do que deveria ser feito em seguida evaporasse. Nessa hora apareceu uma notificação na tela, um email acabava de chegar avisando de uma reunião do departamento no início da tarde. Naquele dia uma pancada no joelho seria muito melhor.

    “Preciso de férias”.

    Foi a única coisa que passou pela cabeça do pobre Ribeiro durante toda a reunião. Principalmente por que nada de importante foi dito ou resolvido. De todas as reuniões do ano, com certeza aquela tinha sido a mais inútil de todas. Não que Ribeiro tivesse uma opinião diferente caso ela fosse uma reunião útil, ele só queria que aquele dia passasse logo. Pelo menos já passava da metade da tarde quando o pobre homem voltou para sua mesa. Ele encarou mais uma vez o calendário. Contou os dias novamente, olhou para o relógio e ficou ligeiramente animado. Mais um dia passou, faltavam treze.

    “Pessoal, vou passar na mesa de cada um pra sortear os nomes do amigo secreto”, disse alguém que passava no corredor. Depois de ouvir aquilo a pouca animação de Ribeiro virou pó. O rosto se enterrou nas mãos e ele grunhiu entre os dentes cerrados.

    “Eu preciso de férias… Muito mesmo”.

Contos de Segunda #24

Fernanda parou na frente do computador e apertou o botão de ligar. O humor dela não podia estar melhor, a noite de domingo tinha sido incrivelmente produtiva e o relatório seria entregue sem problemas na metade da tarde… Mas o computador não ligou. Ela apertou o botão novamente… Nada, nem um apito, bip ou ruído de espécie alguma. O humor dela começou a piorar. O botão foi apertado mais três vezes antes de Fernanda entrar em um frenesi e apertar a pobre peça plástica mais rápido do que os olhos podiam ver. Nada. Nesse ponto Fernanda já estava trincando os dentes e esmurrando a mesa. “Maldito computador”, pensava ela. O rosto estava quente de raiva, a respiração estava acelerada. Ela levantou e começou a dar voltas pelo quarto, quando a paciência chegou a um nível abaixo de zero um chute atingiu a mesa. Miraculosamente o computador ligou.

Pouco tempo depois a tela de login apareceu. Oito letras e um enter depois o humor de Fernanda começava a dar sinais de melhora. “Senha Incorreta”. “É o quê?”, pensou a pobre moça enquanto digitava a senha novamente. “Senha Incorreta”. Um punho cerrado caiu pesadamente sobre a mesa. “Senha Incorreta”. “Filho da …”, a moça quase explodiu de fúria. Depois de respirar fundo três vezes ela digitou a senha novamente, pouco antes de teclar enter ela notou que a tela não exibia o seu usuário. Depois de inserir o seu nome de usuário e a senha correta a tela exibiu um “Bem Vindo”. E foi só isso que a tela mostrou por mais de cinco minutos.

Nesse ponto Fernanda já estava cega de ódio. O tempo estava correndo e o relatório não estava ficando pronto. Quando o computador finalmente exibiu a área de trabalho a pobre moça foi direto na pasta de documentos. A pasta não abriu. Mais alguns cliques frenéticos e nada. Fernanda estava à beira de um infarte quando a pasta finalmente abriu, o arquivo do relatório também e o trabalho pôde ser concluído. Agora bastava enviar o arquivo por email e tudo terminaria bem. Foi quando a internet resolveu cair.

Naquele inicio de tarde um laptop saiu voando pela janela. Fernanda estava com seu relatório são e salvo na nuvem. Ela sabia bem disso, tudo tinha dado certo, mas o computador não podia sair ileso.

Contos de Segunda #23

O despertador tocou outra vez. Era o segundo alarme. Marcelo estava acordado desde o primeiro e só levantaria da cama depois do terceiro alarme tocar. Era segunda-feira e Marcelo não tinha a menor pressa de levantar da cama, afinal hoje teoricamente seria seu ultimo dia no estágio. Mesmo decidido em trabalhar tão bem quanto nos outros dias, seu nível de empolgação era comparável a de uma pia de cozinha. O terceiro alarme tocou e ele pulou da cama.

O tempo estava meio nublado, mas fazia um calor dos infernos. A época do ano em que o sol do meio-dia ficava durante dez horas no céu. Marcelo tinha conseguido a façanha de subir no ônibus em movimento e não chegaria atrasado. Apesar dessa não ser a sua intenção, meia hora de atraso significaria meia hora a menos naquele ultimo dia. Ele passou pela recepção e entrou sozinho no elevador, refletiu sobre todas as outras vezes em que aquilo acontecera e em como esta era a ultima vez em que estava acontecendo. Quando o elevador chegou ao seu destino, Marcelo respirou fundo e saiu para encarar o último dia de sua rotina.

O final do seu contrato de estágio era desconhecido pelos demais colegas, qualquer evento de despedida só deixaria tudo pior, até por que boa parte daquelas pessoas não sentiriam falta dele. Marcelo sentou na frente do computador, enquanto esperava a máquina iniciar as funções reparou que havia um bilhete preso no teclado. “Vá na minha sala assim que chegar”, dizia o recado do seu supervisor que também era um dos gerentes do setor onde ele trabalhava. Mais uma vez ele respirou fundo, tentou colocar no rosto todo o ânimo que não tinha e seguiu para a sala do chefe.

Cinco minutos depois Marcelo saiu de lá. Pegou suas coisas e foi em direção ao elevador. Enquanto descia para a recepção lembrou das últimas palavras do chefe: “…vou te dar o resto do dia pra pegar os documentos e fazer o exame admissional. A partir de amanhã vou te explicar as suas novas funções”. Ele pensou na rotina que continuaria, na luta que seria acordar todas as manhãs, principalmente nas segundas, pensou em como os seus planos de vagabundagem foram frustrados e em como a função de estagiário tinha muito menos responsabilidade… Apesar de tudo isso o ânimo que estava no seu rosto era genuíno.

Contos de Segunda #22

O conto de hoje é uma continuação direta da história de Maurício, protagonista do Contos de Segunda #2.

    O mundo acabou. A essa altura do campeonato isso já não era mais novidade, o apocalipse chegou meses atrás e , ao contrário do que era esperado, muita gente sobreviveu. Maurício é um desses sobreviventes e ele estava profundamente decepcionado com o fim dos tempos.

    A primeira coisa que Maurício fez foi arrumar um emprego. Ele trabalhava com uma atividade bastante curiosa: ele era chefe do departamento de coleta de pilhas. Pilhas eram um item muito importante no mundo pós-apocalipse, por algum motivo inexplicável a radiação das armas nucleares utilizadas na guerra transformara as pilhas alcalinas em uma fonte de energia inesgotável. Maurício detestava ficar catando pilhas e por isso todas as segundas ele acordava de manhã e pensava: “Bem que o mundo podia ter acabado direito”. Esse pensamento se repetia no caminho para o trabalho quando ele passava pelos religiosos que continuavam protestando contra Deus por tê-los abandonado num mundo destruído, e quando ele precisava encarar a fila da tirolesa para atravessar o abismo deixado pela ponte que ruiu na semana passada. O pensamento continuava quando ele via o tanto que as pessoas continuavam reclamando, principalmente por motivos que não tinham nenhuma relação com a situação desgraçada que era viver no fim do mundo. Ultimamente as pessoas começaram a reclamar da reclamação alheia. Era quase uma epidemia, chegava a ser pior do que as doenças do tempo do fim do mundo. Maurício precisava mudar de vida, mas as opções estavam bastante restritas. Ele precisava fazer algo radical.

    Na hora do almoço ele parou para contemplar uma pilha palito que havia sido encontrada num controle remoto quebrado. Ela emitia uma luz verde e tinha um cheiro esquisito. “E se eu engolir uma pilha dessas, só pra ver qual é?”, pensou Maurício. Ele não precisou de muita reflexão antes da pilha descer pela sua garganta. Depois de uma azia de quinze minutos, Maurício começou a enxergar as coisas meio esverdeadas, as unhas ficaram pretas e o cabelo começou a pesar na cabeça. A eletricidade começou a fluir pelo seu corpo e ele começou a sentir os dedos formigando. Ele não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas o fim do mundo estava ficando mais interessante do que ele esperava.

Contos de Segunda #21

Erick caçava dragões. Oficio bastante perigoso, tendo em vista que normalmente ele só dispunha de um escudo feito com couro de dragão, sua espada e uma catapulta. Apesar de não parecer, matar dragões era algo bastante sistemático e bem monótono em alguns casos. Mas não havia nada mais incômodo do que as exigências do sindicato: um dragão por semana, a carcaça devia ser entregue todas as segundas-feiras ao meio-dia em uma das sedes do sindicato espalhadas pelo reino. Era segunda-feira e Erick não caçara nenhum dragão.

Vontade de abandonar o emprego não era algo raro. O perigo do trabalho não estava compensando, o salário não era essas coisas todas e estava cada vez mais difícil caçar um dragão por semana e essa não era a primeira vez que Erick chegava ao primeiro dia útil da semana com as mãos vazias. Enquanto quebrava o jejum na estalagem ouviu dois viajantes conversando. Eles falavam de um dragão que aparecia toda segunda-feira no topo da colina e de como todos os caçadores de dragões que tentaram caçá-lo nunca mais foram vistos novamente por ninguém do sindicato. Caçar um dragão era sempre perigoso, caçar um que era impossível de ser caçado talvez garantisse uma aposentadoria precoce.

O caçador chegou ao topo da colina. O dragão estava lá. Grande e vermelho, dormindo aninhado sob a sombra de uma árvore tão velha quanto ele. Parecia uma presa fácil. Uma manobra padrão vinte e dois resolveria, contanto que ele se mantivesse no chão. Erick se aproximou silenciosamente, posicionou-se contra o vento para que a fera não sentisse o seu cheiro, a exatos vinte metros do alvo ele correu, sacou a espada e se preparou para saltar e desferir um golpe certeiro no olho esquerdo, mas uma voz o interrompeu.

– Tem certeza que quer fazer isso?

– Claro que sim, Dragão – as palavras saíam em tom de desdém.

– Hoje é só o começo da semana, Caçador. Não percebes que o dia já é ruim por si só? Não basta o tormento rotineiro de toda semana? Ainda queres me matar?

– Nada pessoal, Dragão, mas tua morte tornará meu começo de semana um pouco menos penoso.

– Teu ofício já é penoso o suficiente, estando eu vivo ou morto. Ainda terás de matar outro dragão nessa semana, do contrário te acharás na mesma desgraça daqui a sete dias.

– Detesto admitir, serpente desgraçada, mas a razão te cobre como a sombra desta árvore. O que sugeres que eu faça?

– Assenta-te recostado nesta árvore, dizem que o aroma de suas folhas esclarece os pensamentos e atrai pensamentos sensatos. Caso tenha desistido de me matar, obviamente.

– Desisti, Dragão. Creio que esta é uma boa hora para repensar a minha vida.

Erick se sentou recostado no tronco da velha árvore. Viu a luz do sol através das folhas e sentiu o aroma que preenchia o topo da colina. Em nenhuma outra segunda-feira Erick foi visto no sindicato dos caçadores de dragões.

Contos de Segunda #20

  Aderbal morreu. Aconteceu numa segunda-feira, Dia de Finados. Toda a família estava viajando, mas Aderbal acabou ficando em casa, queria aproveitar os dias de folga para fazer alguns pequenos consertos na casa e adiantar um trabalho extra que ele tinha conseguido. O plano parecia bom, o tempo parecia suficiente, tudo deu certo… Pelo menos até no domingo.

    Aderbal caiu da escada. Por sorte ele só quebrou a perna, mas acabou passando a noite no hospital. Junto com ele estava internado um segundo Aderbal, uns 15 anos mais velho e com uma dúzia de doenças diferentes. Durante a madrugada de segunda uma dessas doenças acabou matando o segundo Aderbal. Quando isso aconteceu o Aderbal da perna quebrada estava na sala de espera da emergência assistindo um dos seus filmes preferidos no Corujão. Todos esses fatores acabaram criando o cenário perfeito para fazer todos pensarem que os dois Aderbais faleceram naquela madrugada.

    Os analgésicos da meia-noite acabaram fazendo bem depois do esperado, isso deixou Aderbal nocauteado na sala de espera até a metade da manhã. Esse tempo foi suficiente para que as famílias dos dois Aderbais fossem comunicadas pelo hospital. Como só havia um corpo a ser reconhecido e todos estavam bastante perturbados pela perda recente, não é de se estranhar que tudo terminasse em confusão. Gritaria, agressões de todos os tipos, a especulação de que Aderbal tinha duas famílias e a quantidade crescente de parentes acabaram fazendo a confusão tomar conta de toda a emergência do hospital. A confusão foi tamanha que ninguém notou quando Aderbal acordou na sala de espera, agilizou sua alta com um dos médicos que ainda estava fora da confusão. Ele também não percebeu nada, a dor na perna era suficiente para ocupar todos os seus pensamentos. Ao colocar a mão no bolso percebeu que o celular havia ficado em casa. Aderbal parou o primeiro táxi que passou, estava com pressa, precisava chegar em casa antes do resto da família. Só Deus sabe o que eles pensariam quando chegassem lá e não encontrassem ninguém.

Contos de Segunda #19

Renato tirou férias do blog. Trinta dias para respirar, reciclar algumas ideias e refrescar a cabeça. Porém algo ocorre com todos aqueles que tiram um merecido recesso de qualquer atividade. Dentro de cada um cresce a vontade de não voltar mais das férias. Com Renato não foi diferente.

Claro que ele gostava de escrever. De todas as coisas que ele fazia, que não eram muitas, a escrita era uma das preferidas, mas manter o blog dava trabalho e não rendia dinheiro. A quantidade de pessoas alcançadas por ele era tão pequena que talvez nem valesse o trabalho. “E se…”, era como começavam os pensamentos de Renato sobre seu blog, mas nenhum deles terminava. As férias ainda não tinham acabado, ele pensaria nisso depois.

O tempo passou rápido. Muitas coisas aconteceram e muitas outras deixaram de acontecer. Renato ainda não havia chegado a qualquer tipo de decisão. O assunto foi varrido pra baixo do tapete, convenientemente esquecido. Até que, não mais do que de repente, ele sentiu que precisava voltar. Olhou no calendário e viu o final de suas férias. Ele esperaria a folga acabar, mas em seu interior ele já sentia como se estivesse de volta.

Contos de Segunda #18

Segunda-feira. Feriado. Feriadão. O sol que fez o mês inteiro levou Robson e sua família inteira para a praia. Estava tudo preparado e planejado: a casa estava alugada, as crianças estavam empolgadas, logo cedo eles estariam a caminho e fugiriam do trânsito. Chegando lá eles encontrariam com o irmão e a cunhada de Robson, que normalmente cuidavam das crianças enquanto Robson e sua esposa podiam descansar. Seria tudo uma maravilha… Se tivesse acontecido como o planejado.

A viagem de ida se mostrou um tormento. Dois acidentes transformaram o trânsito numa amostra grátis do inferno. A casa estava lá, mas o irmão de Robson só poderia chegar no domingo, o que não fazia muita diferença, já que uma chuva torrencial começou no sábado e só terminou na noite do domingo. Se a chuva continuasse na segunda a volta seria antecipada para fugir do transito, mas o sol resolveu sair. Robson acabou ficando pelas crianças e passou o dia tentando se preparar psicológicamente para encarar o caminho de volta.

Segunda-feira. Feriado. Fim de tarde. Alternando a atenção entre o carro da frente e o sol no horizonte, Robson tentava descobrir para onde fora o seu feriado. As crianças dormiam no banco de trás, a esposa dormia no banco da frente enquanto ele tentava se lembrar de algo bom que tenha acontecido nesses dias, não estava tendo muito sucesso . O trânsito estava fluindo melhor do que o esperado, logo logo estariam todos em casa. De alguma forma o fato de algo que era quase certo de dar errado estava dando certo trouxe uma paz que Robson raramente experimentava. Durante     o resto do caminho ele encontrou o feriado que estava procurando.

Contos de Segunda #17

Os fatos da vida de Jorge narrados a seguir têm relação direta com fatos ocorridos na vida de Cristina, protagonista do Contos de Segunda #11

Jorge estava quase tendo um ataque de nervos. Eram 9:30 da manhã de uma segunda-feira e o departamento jurídico teria uma reunião de rotina com os coordenadores do departamento de comunicação às 10h. Jorge era do departamento jurídico e Cristina era do departamento de comunicação. Cristina detestava Jorge, disso ele sabia, assim como todo o departamento jurídico e todo o departamento de comunicação e algumas pessoas de outros setores da empresa. Porém um fato recente acabou embaralhando toda essa história.

 Tudo começou na noite de sábado. Jorge estava em casa estudando Direito Constitucional quando o celular vibrou com uma mensagem

    “Jorginho, meu querido. Preciso que tu quebre um galho”

    “Tô estudando, Fábio”

    “Amanhã tu estuda, meu velho. Preciso de um favor meio grande”

    “Diz aí, só quero saber pra tu depois não dizer que eu neguei sem saber oq era”

Jorge não negou. O favor realmente era grande, mas era bem simples. Fábio tocava numa banda que se apresentava todas as noites de sábado em uma das casas mais famosas da cidade e por causa disso muitos dos seus amigos eram músicos, um deles tocava em uma banda que se apresentaria na mesma hora do outro lado da cidade… Se o guitarrista não tivesse sofrido um acidente e quebrado a guitarra e um dedo do pé. Fábio tinha duas guitarras em casa, casa essa que ficava na rua de Jorge, Jorge esse que morava do mesmo lado da cidade onde o amigo de Fábio tocaria com a sua banda. Tudo que Jorge precisava fazer era pegar a guitarra, levar para o cara do dedo quebrado, esperar o show terminar e trazer a guitarra de volta. O show começaria às 23h, a guitarra precisava chegar uma hora antes, o show não duraria mais do que uma hora. Daria para estudar por mais algumas horas… E era um cover do Pearl Jam, pelo menos o show não seria ruim.

Ele pegou a guitarra certa, chegou na hora certa e já conseguia se imaginar voltando para casa com a missão cumprida, mas lá estava Cristina. Jorge tentava evitar o contato com Cristina sempre que podia. Apesar de não compartilhar do ódio que a moça sentia por ele, encontrar com ela normalmente era uma situação pouco agradável… Mas a desgraçada estava tão linda e tinha acabado de virar uma dose de alguma bebida bem forte… Então ele foi lá e aconteceu… Ele estava sóbrio, não podia ter deixado aquilo acontecer, mas aconteceu e agora o relógio marcava 9:55. Cinco minutos e a reunião começaria. Enquanto caminhava até a sala de reunião Jorge só conseguia pensar em como teria sido melhor continuar estudando Direito Constitucional.

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