Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #35

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Maurício. Se quiser conhecer melhor as aventuras do nosso sobrevivente do fim do mundo basta clicar nos links dos Contos de Segunda #2 e #22.

O mundo acabou e continuou tão ruim quanto antes. De um jeito diferente, mas ainda era ruim. Era isso que Maurício pensava sempre, pelo menos até um dia desses. Ele tinha engolido uma pilha palito radioativa e sofrido uma espécie de mutação. Os olhos se tornaram totalmente verdes e os cabelos pareciam ter se transformado em uma espécie de tentáculos, as unhas ficaram pretas e a pele começou a acumular eletricidade. Ninguém sabia ainda. Nem ele mesmo sabia bem o que estava acontecendo, mas por via das dúvidas decidiu manter o segredo.

Maurício disfarçou a mutação durante um bom tempo. Sempre usando chapéu ou capuz para esconder os cabelos e óculos escuros para esconder os olhos. A parte boa do disfarce é que ele funcionava, a parte ruim é que ele estava vestido igual aos punks saqueadores que apareceram durante a revolta das máquinas, que aconteceu na sexta-feira da semana em que o mundo acabou. Os punks saqueadores não eram vistos desde que as máquinas foram destruídas, mas eles tinham uma rixa antiga com os arruaceiros matadores de zumbis. Os mesmos arruaceiros que Maurício encarava sempre que ia trabalhar. Os arruaceiros estavam cada dia menos propensos a fazer arruaça, mas continuavam odiando mortalmente os punks saqueadores ou qualquer um que parecesse com eles.

Um belo dia ele foi cercado por cinco deles. Eles pareciam muito mal humorados e não quiseram conversar muito. Eles usavam armas simples, barras de ferro, facas e correntes. Foi uma corrente que enroscou no braço de Maurício quando o primeiro arruaceiro atacou. Toda a eletricidade acumulada na pele saiu pela corrente atingindo o pobre atacante com um choque violento. Maurício se sentiu fraco por um instante, mas não teve tempo para se recuperar, os outros arruaceiros atacaram.

Eles pareciam se mover em câmera lenta. Uma brecha no círculo, a rota de fuga perfeita. Maurício já estava fora do alcance dos seus adversários antes que pudesse notar. Agora eles se moviam normalmente, e pareciam muito zangados. Um deles puxou um apito e soprou com força. Vários outros arruaceiros matadores de zumbi começaram a aparecer de todos os lados. Fugir era sua única chance, então ele começou a correr. Foi quando uma arma disparou. A perna foi acertada de raspão, Maurício começou a mancar o mais rápido que pôde. Mais tiros e gritos de vários homens e mulheres que não pareciam nada contentes.

“É o fim”, pensou Maurício, “Sobrevivi aos zumbis, às máquinas, às armas nucleares, aos terremotos, ao fim da internet, e vou ser morto por um bando de arruaceiros”. A perna doía cada vez mais, apesar de mancar numa velocidade pavorosa, os matadores de zumbi estavam se aproximando. “A ponte!”, pensou Maurício. Se ele conseguisse atravessar na tirolesa estaria livre. Suas esperanças foram pelo ralo quando ele viu a quantidade de gente que estava na fila. O cabo da tirolesa estava partido, ninguém poderia atravessar. Os arruaceiros estavam chegando. Não havia muito tempo, não havia saída.

“Que se dane, esse mundo já acabou mesmo”, foi o que Maurício pensou antes de correr até a beirada da grande fenda que antes dos terremotos era um rio. Ele não hesitou. Se jogou de braços abertos. Caiu no abismo. Abraçou a escuridão.

Contos de Segunda #34

Os fatos narrados a seguir tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

    O celular tocou de novo. Já era a quarta vez. O zumbido baixinho que o aparelho fazia não era suficiente para fazer Roberta acordar. Luciana sabia disso. Também sabia que Ned, o cachorro de Roberta, detestava o som do celular vibrando. Caso o celular passasse muito tempo vibrando, ele ficava com vontade de fazer xixi. Ned só fazia xixi na rua, então nesses momentos de desespero ele pedia ajuda à sua dona. Roberta não pôde negar o pedido do cachorro. Desceu vestindo as roupas de dormir, com uma cara amassada e os olhos ainda se acostumando com a claridade. Na frente do prédio uma moça a esperava encostada em um carro.

    — Até que enfim, faz um tempão que eu tô tentando falar contigo.

    — São cinco e meia da manhã, Luciana — respondeu Roberta. O sono ainda não tinha permitido que o cérebro da moça percebesse cem por cento do absurdo daquele momento.

    — Se você tivesse respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações, nenhuma de nós estaria aqui.

    — Eu só vim trazer Ned pra fazer xixi e… Ei, pera aí — finalmente ela tinha acordado. — Você deixou ele nervoso com a vibração do celular de novo?

    — Você podia ter atendido — disse Luciana de um jeito que pareceu mais um “não teve outro jeito”. — Preciso de ajuda.

    — Luciana, qualquer tipo de ajuda pode esperar até o horário comercial.

    — Que horror, Roberta. Eu aqui precisando e você me trata desse jeito?

    Roberta respirou fundo. Olhou para Ned que alegremente marcava o pneu do carro de Luciana. Olhou para o céu como se procurasse um sinal. Olhou para os próprios pés pra tentar criar coragem.

    — Vai, diz o que é.

    Luciana não conseguiu conter o sorriso.

    — Sabe que dia é hoje?

    — Segunda.

    — Sério, Roberta — disse ela fingindo estar ofendida. — Cristina entra de férias hoje.

    — E daí?

    — E daí que nós temos trinta dias para: número um, descobrir o que rolou com ela e o boy no fim do ano e número dois, ajeitar as coisas pra juntar os dois assim que ela voltar.

    — Ah, não. Nem venha, Luciana — Roberta sacudia as mãos. — Essa história já tá me deixando maluca. Deixa os dois se detestarem em paz.

— Que exagero, amiga. Eu conheço Cristina, ela quer o boy dela… Só não se ligou nisso ainda.

— E o que Jorge quer não conta?

— Ele é homem, Roberta. Não interessa o que ele quer.

— Ignorando essa parte. Qual o plano pra descolar a informação?

— Cristina não vai me contar nada. Já tentei de todo jeito, até soro caseiro da verdade ela tomou e não soltou a língua. A esperança é saber por Jorge, é aí que você entra.

— Ihhhhhhhh, nem invente. Jorge anda de péssimo humor e cada dia ele gosta menos dessa historinha que você espalha dele com Cristina.

— Não espalhei nada.

— Luciana, o estagiário que chegou semana passada entrou na sua sala por engano e voltou comentando o que tinha rolado entre Cristina e Jorge.

— Detalhes, detalhes. Eu tenho um plano perfeito pra conseguir matar dois coelhos de uma vez.

— Lá vem.

— Jorge e Cristina são muito parecidos. Cristina não consegue guardar tudo que acontece só pra ela. Ela sempre me conta tudo… Exceto o que aconteceu entre ela e o boy, mas isso é diferente. A gente precisa encontrar a pessoa pra quem ele conta as coisas e chegar no cara.

— Defina “chegar no cara”.

— Isso é comigo, sua parte é me mostrar o alvo.

    — Como não deve ter outro jeito, eu vou te ajudar, mas agora me deixa voltar pra cama. Só ajudo os outros em horário comercial.

    Luciana deu um pulo de alegria e abraçou a amiga. Entrou no carro e partiu. Deixando para trás a amiga sonolenta e seu cachorro mijão.

Contos de Segunda #33

Aderbal desapareceu. Carnaval, segunda-feira. Os planos de viajar foram frustrados por uma série de infortúnios e imprevistos. Mas nenhum dos imprevistos era maior do que a visita da sobrinha. O irmão de Aderbal morava em um cidade onde a diferença entre o carnaval e o dia de finados era o tamanho do feriado. Não seria estranho que em algum momento Adriana, sobrinha de Aderbal, resolvesse passar o carnaval em um canto onde ele de fato existe.

    Ela chegou no sábado de manhã, mas Aderbal só precisaria se preocupar com ela a partir da segunda. O combinado era encontrá-la perto do centro, onde ficava o apartamento de um dos amigos da moça. Como algumas ruas estavam fechadas, Aderbal precisou estacionar um pouco longe. Ele estava com o nome da rua, Adriana ficou de confirmar o prédio assim que o tio chegasse à rua… E teria confirmado caso atendesse o celular. Diante disso Aderbal resolveu voltar para o carro. Chegando lá ele percebeu que um bloco estava se concentrando exatamente na rua onde o carro estava estacionado. O porta estandarte do bloco tinha caído e quebrado o braço. Os demais presentes estavam tentando resolver quem tomaria seu lugar. Com medo de não conseguir sair com o carro por causa do bloco, Aderbal se ofereceu para levar o estandarte do bloco, talvez assim eles saíssem de lá mais rápido.

    O final do percurso do bloco era um encontro de blocos. Aparentemente todas as agremiações da redondeza se encontravam na segunda-feira de carnaval. Ao perceber que aquilo demoraria mais do que o previsto, Aderbal resolveu ligar para Adriana ou para casa. Ao colocar a mão no bolso não encontrou nada. O celular havia sido furtado. Ele estava pronto para pedir o celular de alguém quando alguém espirrou um spray de espuma no seu rosto. Imediatamente começou uma reação alérgica que fez o rosto e a língua do pobre homem ficarem inchados, ninguém conseguia entender o que ele estava falando.

    Ainda na metade do encontro de blocos outra pessoa resolveu assumir o estandarte. Aderbal voltou correndo para o carro. Quando ele tentou destravar as portas, o controle do alarme entrou em curto e o veículo começou a apitar. Isso ocorreu justamente quando uma viatura da polícia militar passava pela área. Os policiais não acreditaram na história de Aderbal, pelo menos na parte que eles conseguiram entender. O inchaço do rosto o deixara muito diferente das fotos que estavam nos documentos. Os policiais chegaram à conclusão de que aqueles documentos e aquelas chaves haviam sido roubados e o suspeito seria levado à delegacia.

    Adriana não conseguiu uma carona. Ao chegar de táxi na casa dos tios informou a família sobre o sumiço de Aderbal. Resolveram esperar mais algumas horas até que ele aparecesse. Tal fato só ocorreria na metade da madrugada. Quando o rosto de Aderbal finalmente voltou a ter alguma semelhança com as fotos dos documentos. Para tentar minimizar os transtornos, os policiais deixaram Aderbal em casa. Mas a família toda tinha resolvido ir procurá-lo nos hospitais, delegacias e no IML. Infelizmente ele precisava esperar alguém voltar antes de entrar em casa. As chaves ficaram no carro.

Contos de Segunda #32

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que apareceu pela primeira vez em Contos de Segunda #29.

Você não sabe no que está se metendo, detetive”. A frase martelava na minha cabeça. Ângela estava metida em coisa grande, dava pra sentir o cheiro do problema de longe. Mas eu não podia me preocupar com isso, a chave de tudo tinha nome: Humberto Solini, o homem que não foi visto depois do assassinato do marido de Ângela. Eu precisava encontrá-lo logo, e já sabia por onde começar.

Lembro de quando Ângela conheceu o marido. Ela tinha uma pista quente sobre um ladrão de joias que estava tirando o sossego da polícia fazia meses. Na época eu estava colaborando com a polícia, Ângela tinha passado por uma rodada de “negociações agressivas” com o tal ladrão e temia pela sua segurança. O esquema com o ladrão era simples, ela recebia as joias roubadas através de um mensageiro. Ia para Lo-Fi, o bar do maior hotel da cidade usando as joias, o comprador aparecia deixava o dinheiro e levava as joias. O mensageiro passava e levava o dinheiro. Na noite em que prendemos o mensageiro Ângela não vendeu nenhuma joia. O comprador apareceu, assim como o mensageiro, mas ela não levou nenhuma joia. Naquela segunda-feira tudo que eu ganhei foi um olho roxo e um tiro que pegou de raspão. Ângela acabou ganhando o coração do comprador. Um ano depois ela estava se casando com Emilio Zappa no salão daquele mesmo hotel. Enquanto eu enchia a cara de vodka no mesmo Lo-Fi que me daria uma pista do paradeiro de Humberto Solini.

O bar estava bem vazio. Era quase hora do almoço e eu procurava pelo meu contato. Cassiano era barman do Lo-Fi há quase dez anos e depois de ter resolvido o caso do desaparecimento da irmã dele, tínhamos nos tornado grandes amigos. Ele estava atrás do balcão servindo algo recém batido para um estrangeiro, aparentemente hospede do hotel.

— Mande o de sempre, Cassiano — me sentei num dos bancos antes de terminar a frase.

— Quase não o reconheço sem o sobretudo vermelho, Carmim.

— O calor não me ajuda a manter o estilo. Pelo menos ainda posso usar chapéu.

— Quem está procurando dessa vez, detetive? — Uma pista sobre um cliente do bar, como pedido de sempre.

— Lembra de Ângela Bevoir?

— Ela arrumou um marido na minha frente, Carmim. E passou a perna em mais uma dúzia dentro dessas paredes.

— Deve saber que o marido dela passou dessa pra melhor.

— Ouvi falar dessa história.

— A morte de Zappa é um caso meio nebuloso. Preciso achar um cara que pode jogar uma luz em cima disso tudo. O nome é Humberto Solini. Todos aqueles cães do banco vivem por aqui. Você deve saber de alguma coisa.

— Eu sei que Solini é apaixonado por duas coisas: charutos e apostas. Se ele está escondido provavelmente não vai ficar muito tempo longe de qualquer uma dessas coisas. Se deram um sumiço nele… Bom, é provável que ele tenha perdido uma aposta bem grande.

— A próxima dose vai ser por conta da casa. — Deixo uma nota de cem em cima do balcão e me levanto.

— Se quiser algo para fumar, detetive, talvez deva visitar o velho Mendez.

Não me virei para ouvir, continuei andando. Não me parecia muito promissor ficar contando os charutos importados, o jockey club era a melhor opção… Pelo menos era o que eu pensava naquele momento. O vento jogou no meu rosto uma página de jornal. O jornal era de ontem e a notícia que tinha acabado de, literalmente, voar no meu rosto tinha como título:

Grande Importador Assassinado ao Sair De Loja”

Algo me dizia que o velho Mendez tinha muito mais a me dizer morto do que tinha quando estava vivo.

Contos de Segunda #31

— Fernanda, já vou entrar pra fazer meu exame. É o tempo de você chegar aqui.

— Tá certo, mãe. Saio em dez minutos.

Fernanda desligou o telefone, colocou uma calça, pegou as chaves do carro e a bolsa. Era segunda-feira, janeiro. Mês preferido da mãe dela para ir a inúmeros médicos e realizar toda a sorte de exames. Aquele seria o último exame daquela manhã, logo depois as duas almoçariam juntas. Fernanda deixaria a mãe em casa e depois partiria para uma entrevista de emprego. Ela já tinha feito aquilo várias vezes, exceto pela parte da entrevista, o caminho era conhecido e não tinha erro. De fato não teve, mas nem sempre as coisas são tão fáceis.

Depois de entrar no carro a moça conectou o celular ao aparelho de som, escolheu uma playlist e partiu. Desceu a rua, virou uma esquina e caiu dentro do maior engarrafamento da sua vida até então. A rua estava passando por obras. Obras que tinham começado naquela manhã e que pegaram muitos motoristas de surpresa, inclusive Fernanda. A possibilidade de engatar a ré foi eliminada pelos oito carros parados atrás dela. Não tinha muito o que fazer além de continuar ouvindo música e andar a meio quilômetro por hora. O trecho até o ponto em obras era curto, não seria tanto transtorno. Foi quando começaram a buzinar.

Fernanda tinha um problema sério com buzinas. Bastava uma buzina para o pavio curto da moça ficar muito menor. Principalmente quando a primeira buzina era apenas o inicio de um verdadeiro coro. Quando a terceira buzina se juntou à sinfonia, Fernanda já apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos já estavam ficando brancos. Ela aumentou o volume da música, mas do nada o celular desconectou. Depois de cinco tentativas ela resolveu ouvir rádio. Só que naquela rua, por algum motivo desconhecido, praticamente todas as estações ficavam fora do ar. Problema que normalmente não incomodava, já que passar por ali nunca demorava. Ela teve que se conformar em escutar o debate com um ateu, um deputado, uma freira, o comandante da polícia militar e um cara que tem um vlog de sucesso no YouTube. O debate já estava ruim o suficiente quando o ar condicionado parou de funcionar.

Quarenta minutos depois Fernanda conseguiu passar pelo trecho de obras. Com raiva, suada, sem paciência e com uma vontade incontrolável de meter a mão nas fuças de um certo carinha do YouTube que conseguiu irritar muito mais do que as buzinas.

— Que demora foi essa, Fernanda? Tô esperando tem vinte minutos. Veio com os vidros abertos nesse calor?

— Mãe, vem logo que eu preciso fazer uma coisa antes da gente almoçar.

— Não me apresse que você sabe como é ruim entrar nesse seu carro. Quem é que tá falando no rádio? Ah, é aquele menino da internet. Eu adoro os vídeos dele, é tão engraçado, né?

Fernanda não respondeu. Ela teve que deixar a mãe em casa, aparentemente ela tinha perdido a fome. Provavelmente a “coisa” que precisava ser feita antes do almoço foi um choque muito grande. Naquela tarde os jornais noticiaram o triste acidente sofrido por um jovem de sucesso no YouTube. Ele foi atropelado quando atravessava a rua saindo de uma rádio. O motorista não pôde ser identificado e não conseguiram anotar a placa do veículo.

Contos de Segunda #30

A capacidade de se camuflar em qualquer ambiente, força e agilidade aprimoradas, visão telescópica multidirecional e um senso de justiça muito superior ao dos humanos comuns. Foi esse conjunto de habilidades que transformaram um jovem comum no super herói conhecido como Homem Camaleão, defensor feroz da justiça e dos mais fracos.

    Era apenas mais uma segunda-feira em Vila Urbana. E seria mais uma segunda-feira tranquila se não fosse pelo assalto ao maior banco da cidade. A polícia tinha chegado antes dos bandidos terem a chance de fugir. Encurralados como estavam, os bandidos decidiram fazer todos os presentes de refém. As negociações com a polícia estavam tensas, alguns disparos foram feitos e duas pessoas estavam feridas, um refém e um policial. As coisas só pioravam, mas em meio à confusão um ser quase invisível não foi notado. Ninguém percebeu quando os cacos de vidro do chão se moveram por causa de dois pés, nem quando a porta giratória se mexeu por causa de um homem. Um herói. Os dois bandido que vigiavam os reféns foram nocauteados. Depois foi a vez dos outros três que tentavam negociar com a polícia. Em cinco minutos os bandidos estavam algemados e a caminho da delegacia. O Homem Camaleão estava pronto para escapar dos jornalistas quando um homem o abordou.

    — O senhor é o Homem Camaleão, correto? — O homem tinha um pouco mais de quarenta anos, usava camisa social e verificava os itens de uma lista que estava em uma prancheta.

    — Isso mesmo, caro cidadão, em que posso ser útil?

    — O senhor tem autorização para conduzir operações de resgate desse tipo? — Disse o homem com a mesma naturalidade de quem compra o jornal, os olhos fixos na prancheta.

    — Autorização? — Por essa Camaleão não esperava. — Queira me perdoar, cidadão, mas não creio que seja necessário autorização para trazer justiça aos criminosos.

— Claro, filho, todo mundo diz isso. Seu alvará está em dia, senhor Camaleão?

— Al… Vará?

— Imagino que pelo menos o seu cadastro esteja atualizado.

— De qual cadastro o senhor está falando?

O homem respirou fundo. Olhou diretamente para o herói. Estudou aquela cara de confusão total que ele estava fazendo e chegou facilmente a uma conclusão.

— Senhor Camaleão, tenho uma forte impressão de que o senhor não tem a menor ideia de quais são os documentos que eu estou citando.

— Bem… Assim… Eu estou nessa faz pouco tempo… Sabe como é, né?

— Não. Não sei — ele respirou fundo novamente — eu sou só um fiscal da prefeitura tentando fazer o meu trabalho. Não entendo dessas coisas de super heroísmo, e pelo visto o senhor também não. — Ele tirou uma folha de papel da prancheta e entregou ao jovem — Vou te dar um desconto, filho. Apresente esse parecer que eu acabei de fazer junto com os documentos da lista na secretaria de assuntos especiais. Só precisa desse atestado de anomalia genética se seus poderes forem de nascença.

— Isso tudo é realmente necessário?

— Tem ideia de quantos malucos fantasiados existem nessa cidade, filho? Sabe quais deles são os mocinhos e quais são os bandidos? — O fiscal começou a ficar irritado. — Sabe quantos maníacos homicidas se metem com vocês supers todo ano? Sabe a diferença entre a quantidade da burocracia envolvida pra trocar um poste derrubado por um herói e um derrubado por um bandido? Faça um favor a todos dessa cidade, regularize sua situação. Essa cidade merece heróis que agem de acordo com as leis. Tenha um bom dia.

O fiscal girou nos calcanhares e foi embora. O Homem Camaleão observou a lista de documentos. Finalmente estava diante dele um inimigo que ele não conseguiria vencer. Algo muito mais poderoso do que ele. Uma luta para qual ele não estava preparado. A luta contra a burocracia.

Contos de Segunda #29

— Jogue a arma pra cá e saia de mãos pra cima, Carmim. Você não tem como fugir.

    Por esse e outros motivos eu não trabalho nas segundas, sempre acontece alguma coisa assim. Ossos do ofício, ou não, a verdade é que nem tudo são flores na vida de um detetive particular.

    Tudo começou naquela manhã. Apesar do dia nublado fazia um calor dos infernos. Eu estava esperando a ligação do meu contato no escritório do juiz, mas quando o telefone tocou uma voz diferente estava do outro lado da linha.

    — Você nunca conseguiu deixar o telefone tocar muito tempo, não é? — A voz feminina do outro lado da linha era mais do que familiar. As silabas lentas e a voz ligeiramente rouca eram inconfundíveis.

    — Só acontece quando você liga, Ângela, costumo ter pressa para arrumar problemas — eu não estava exagerando, ela nunca ligava quando o assunto não era problema. Algum problema dela que acabava virando problema meu.

    — Não seja tão rude comigo, meu querido, eu não ligaria se não estivesse realmente precisando.

    — Estou ouvindo.

    — Mataram meu marido e a polícia está convencida de que fui eu quem fez o serviço — Eu também pensaria assim se fosse a polícia, afinal não é todo dia que um banqueiro morre e deixa como herdeira apenas sua esposa vinte anos mais nova. Principalmente quando essa esposa é Ângela Bevoir.

    — Você não parece muito triste para uma mulher que acabou de perder o marido.

    — Eu estaria bem menos triste se não corresse o risco de ser presa — a voz dela estava mais séria. — Estou desesperada, Carmim, não tenho mais a quem recorrer.

    — O que você precisa que eu faça, Ângela?

    — Preciso que encontre um homem, Humberto Solini, ele estava com meu marido pouco antes do assassinato. Eles trabalhavam juntos no banco e coincidentemente ninguém tem noticias dele desde o ocorrido. Não deve ser problema pra você.

    — A menos que alguém além de mim esteja procurando pelo sujeito.

    — Creio que não haverá qualquer tipo de complicação… Mas devido ao caráter urgente da situação, quanto antes nossa testemunha for localizada melhor.

    Eu já tinha um nome e uma pista. Peguei o meu chapéu, tranquei a porta e desci as escadas. Olhei minha caixa de correio e lá estava uma foto de Ângela, no verso estava escrito:

Você não sabe no que está se metendo, detetive

    De fato eu não sabia, mas estava começando a ficar interessante. Já sabiam que Ângela ia me procurar, e aparentemente não faz muita diferença se eu aceitei ou não ajudá-la. Dessa vez ela deve ter ido longe demais e acabou me levando junto. Eu não tinha ideia no que eu estava me metendo, mas escapar dessas roubadas sempre era bom para os negócios.

Contos de Segunda #28

    Márcio levantou radiante. Era a primeira segunda-feira de janeiro e o recesso de fim de ano tinha terminado. Mas as férias só estavam começando. Ele já tinha tudo planejado. Todas as segundas ele acordaria cedo pra ir à academia. Ele tinha feito um plano anual e pago tudo de uma vez, numa tentativa de se obrigar a não desistir da academia dessa vez. Depois ele assistiria séries até a hora do almoço, que na segunda se resumia ao que tinha sido possível salvar do almoço de domingo na casa dos pais. A tarde seria preenchida com leitura, principalmente por causa do eReader que ele tinha ganho no Natal. A noite seria reservada para ir ao cinema. E acabaria a segunda-feira, uma maravilha. Planos simples que não podiam dar errado.

    Na verdade podiam. Márcio sabia disso, mas preferiu ignorar. Afinal a esperança devia ser mantida.

    O despertador não tocou. Estava desligado desde o começo do recesso. Isso fez Márcio levantar duas horas mais tarde do que o previsto. Como o trânsito estaria ruim naquela hora, o percurso de cinco minutos até a academia se tornou uma caminhada de meia hora. No caminho de volta Márcio foi atropelado por uma ciclista idosa, esse acidente fez Márcio perder a chave do apartamento. Ele tinha uma chave reserva no escritório e outra na casa dos pais. Preferiu a segunda opção.

    Ligou para a mãe. Ela não estava em casa, mas a faxineira estava. A faxineira não sabia onde estavam as chaves e Márcio tinha uma alergia violenta que apareceria assim que ele colocasse o pé na área da faxina. Ele teria que esperar. Voltou pra academia e fez uma aula qualquer que fez ele sentir como se tivesse a coordenação motora de uma pia. Lembrou que a chave do carro estava no apartamento trancado. Pegou um táxi, apanhou a mãe no caminho e finalmente pegou as chaves. Obviamente ela o convidou pra almoçar, ele não podia recusar, pelo menos os restos que serviriam de almoço seriam salvos pro jantar.

    Depois do almoço percebeu que não tinha dinheiro para outro táxi. A mãe disse que o pai dele estaria de volta no meio da tarde e podia levá-lo. Foi o que aconteceu. Quando Márcio finalmente entrou em casa a tarde já estava quase no fim, todos os seus planos estavam frustrados. Pelo menos ele poderia ir ao cinema. Se houvesse alguma sessão na noite daquela segunda. Diante de tamanho fracasso a única alternativa foi fingir que a segunda estava só começando e começar o plano do início.

Contos de Segunda #27 – Parte 02

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Leia a primeira parte do Contos de Segunda #27 AQUI

“Deu merda, me liga”. Foi essa a mensagem que apareceu no celular de Jorge no começo da manhã. A mensagem era do chefe do departamento jurídico.

    — Sabe aquele deputado que ia fazer umas denuncias ontem?  Ele jogou um monte de gente na fogueira, inclusive um dos sócios da nossa empresa. Estou pegando o avião em cinco minutos pra encontrar com ele. Já falei com a equipe, vai todo mundo pro escritório agora de manhã, mas depois todo mundo vai meter a cara na rua pra resolver o que eu não puder. Você vai ficar por lá pra trabalhar com o pessoal de comunicação, precisamos emitir uma nota oficial e precisamos segurar a onda da imprensa. Era só isso, vou correr pro avião.

Jorge desligou. Para ele o resumo daquela ópera era o seguinte: ele teria de trabalhar no dia da confraternização da empresa e ainda teria que fazer isso na companhia ilustre de Cristina, quem normalmente era chamada para apagar esses incêndios.

Bom dia, pessoal.Quem vai fazer o quê hoje?”, disse Jorge no chat em grupo do pessoal do jurídico.

Eu vou colar na galera da contabilidade pra saber se alguma grana estranha entrou ou saiu nos últimos tempos… E nos tempos antes desses últimos”, respondeu Paulo César.

Eu vou entrar nessa com PC”, disse Rômulo.

Eu também”, reforçou Silveira.

Eu vou pro banco ver as movimentações das contas do cara ligadas à empresa”, disse Oscar.

Eu tô com Oscar”, completou Roberta.

Então não vai ter ninguém pra me ajudar com a amiga de Roberta?”, perguntou Jorge.

Desculpa, boy. Essa guerra hoje é só tua”, respondeu Roberta.

A palavra ‘boy’ devia ser proibida nesse grupo“.

A “guerra” em questão chegou um pouco depois das onze. Com uma garrafa de champagne que acabara de ganhar na confraternização e um humor tão bom quanto uma joelhada na quina da mesa.

— Bom dia, Cristina — Disse Jorge calmamente — Imagino que já saiba qual a nossa situação.

— Bom dia, Jorge — Disse ela impaciente —  Fui informada por alto, preciso saber do tamanho da confusão. Deixa só eu arrumar uma geladeira pra essa garrafa e a gente pode começar.

A confusão era gigante. O tal deputado estava com lama até o pescoço e saiu atirando pra todos os lados. O telefone não parava de tocar. A imprensa já estava na porta e o chefe do jurídico estava a beira de um ataque de nervos. As notícias que chegavam eram um pouco mais animadoras. As contas da empresa estavam limpas e nenhum dinheiro estranho tinha entrado por lugar nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O relógio já marcava 16 horas quando todas as informações chegaram e a nota oficial pôde ser concluída. O trabalho estava terminado.

— Terminamos — Falou Cristina com um suspiro.

— Pelo menos por enquanto — Completou Jorge verificando o celular— Preciso correr. Compromissos de fim de ano.

Uma mensagem piscou no celular de Cristina. Era Luciana.

Confra das meninas ficou pras 19h. Roberta disse que fica livre em 1h. E vc?”.

Estou quase saindo. Já fosse pra casa?”, respondeu Cristina.

Já, vem pra cá e a gente vai daqui. Nem invente de aproveitar pra beber com teu boy, traz o champagne que a gente bebe na volta da confra”.

— Também preciso correr – Disse Cristina tentando não se irritar com a última mensagem da amiga — Preciso pegar meu champagne na geladeira, você chama o elevador?

— Claro.

O elevador chegou um pouco antes de Cristina. Os dois entraram e automaticamente a atmosfera profissional se dissipou, dando lugar ao clima incômodo de sempre. Apenas cinco andares separavam os dois do térreo. Pareciam cinquenta. Cristina estava visivelmente impaciente e a impaciência dela estava começando a contaminar Jorge. Dois andares agora. As luzes do elevador começaram a falhar e ele parou. Ficou tudo escuro por alguns segundos antes das luzes de emergência acenderem.

— Só me faltava essa — Esbravejou Cristina antes de apertar o botão do interfone do elevador — Alô? Alguém ouvindo?

— Alô, boa tarde — Respondeu a voz do outro lado — Vocês ficaram presos no elevador?

Cristina respirou fundo três vezes antes de responder.

— Acho que só usam esse interfone em casos assim.

— A gente vai chamar o pessoal da manutenção, mas acho que vão ter que esperar a energia voltar.

Cristina soltou o botão do interfone e olhou para Jorge. O advogado estava aparentemente tranquilo. De alguma forma aquilo fez o sangue de Cristina esquentar.

— Você deve estar achando tudo isso uma maravilha, não é?

— Hã? Ficou doida, Cristina? Eu estou cheio de coisa pra fazer, atrasado e preso no elevador com uma pessoa que não é o que eu posso chamar de “melhor amiga”.

— Conversa, Jorge — O tom da voz dela começou a se elevar — Tá na cara que você se diverte muito com tudo isso. Faz meses que eu tenho que aguentar todo tipo de brincadeira por sua causa — Ela estava com o indicador no peito dele.

— Como é? Eu tive tanta culpa quanto você — O esforço para manter o controle era enorme nesse momento — E muito menos culpa do que a sua amiga.

Ele estava certo. Luciana era o arauto de todo esse caos. Foi por causa dela que a história vazou, mas ela não podia admitir. Só ela podia fazer esse tipo de acusação.

— Luciana não se aproveitou de ninguém louco de tequila.

Aquilo era golpe baixo. Jorge trincou os dentes. Finalmente ela tinha conseguido tirá-lo do sério.

— Não me venha com essa, Cristina. Você não estava tão louca assim. Ninguém ia fazer nada que você não quisesse.

— Me dê um motivo pra não enfiar a mão na sua cara.

— Você sabe que eu não estou errado.

Ela ficou sem ação. De fato ele não estava totalmente errado. As memórias daquela noite eram fortes o suficiente para que ela soubesse disso. E o relato de Luciana foi tão preciso que amnésia alcoólica não era um problema. A discussão havia terminado. Cristina sentou no canto do elevador, pegou um saca-rolhas de dentro da bolsa e abriu o champagne

— Eu te odeio, Jorge.

— Mas ainda vai precisar de mim pra terminar essa garrafa.

— Eu vou precisar de uma carona. E você, meu querido boy, é o amigo da vez.

Uma hora depois a energia voltou e o elevador funcionou novamente. A garrafa de champagne estava pela metade e Cristina estava bêbada o suficiente para tratar Jorge como um ser humano. Eram seis da tarde quando o carro de Jorge parou na frente da casa de Luciana. Ela saiu do carro e bateu a porta, deu dois passos antes de dar meia volta. Ele baixou o vidro.

— Eu não vou agradecer, você estava me devendo — Ela fez uma pausa como se procurasse as palavras certas, na falta de outras melhores usou as de sempre — Eu ainda te odeio, Jorge.

— Feliz natal, Cristina, e um feliz ano novo.

O vidro subiu e o carro partiu. O telefone de Cristina tocou. Era Luciana que observava tudo da varanda do terceiro andar.

Contos de Segunda #27 – Parte 01

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Pronta pra confra das meninas?”

    Era isso que dizia a mensagem que acabara de chegar no celular de Cristina. Ainda eram seis da manhã e aparentemente sua amiga Luciana não estava com nem um pouco de sono. E com um humor tão bom que quase dava nos nervos.

    “Pronta pra encarar a confra com o pessoal do escritório?”.

    “Mais pronta impossível, amiga, meu boy não trabalha comigo”.

    Cristina trincou os dentes de raiva. Desde o “acidente” ocorrido durante o show de um cover do Pearl Jam, a vida de Cristina tinha ficado um pouco complicada. Noventa por cento dessa complicação era culpa de Luciana. Desde aquele dia a moça se dedicava apenas a criar situações onde Cistina deveria encontrar com Jorge, ou como Luciana gostava de chamar “o boy”.

    “Tá bom de parar de testar nossa amizade, Luciana

    “Tá bom de parar de enrolar e agarrar logo teu boy, até parece q tu não quer

    O celular foi arremessado dentro do guarda-roupa, por sorte ele ficou preso em um casaco qualquer e não sofreu nenhuma avaria quando caiu no chão. A vontade de ficar em casa naquele dia estava batendo recorde, mas hoje era dia da “confra das meninas” e as meninas em questão estariam todas na confraternização da empresa. Então Cristina tentou colocar um pouco de ânimo junto com a maquiagem e partiu.

    O salão onde aconteceria a festa era no mesmo prédio em que funcionavam os escritórios. Cristina chegou cedo, pontualmente às nove da manhã. Queria reunir a assessoria de imprensa antes do evento começar. O presidente da empresa sempre fazia algum anúncio nesse tipo de evento que acabava tendo alguma repercussão. Ela contava os fotógrafos quando uma voz debochada a fez perder a conta.

    — Procurando teu boy, Cristina?

    — Trabalhando, Luciana. Não são todos que já estão de folga.

    — Pois é, deve ser por isso que teu boy não vai aparecer hoje.

    — Ele não vem? — A surpresa na voz não podia ser disfarçada.

    — Sabia que ficaria chocada — Luciana parecia se divertir cada vez mais — Nem ele, nem ninguém da galera do jurídico. Rolou algum tipo de incidente diplomático e o mundo vai desabar. Pelo menos era isso que parecia quando eu falei com Roberta mais cedo. Ela não vai pra confra das meninas.

    — Espero que seja só com eles. Da última vez que rolou um “ incidente diplomático” o pessoal da comunicação passou uma semana trabalhando junto do jurídico.

    — Pelo que eu lembro. Você passou uma semana trabalhando junto do teu boy.

    — VAI PRO INFERNO, LUCIANA.

    — Relaxa, amiga. Jorge tá de castigo e ninguém vai ficar cochichando nas costas de vocês. Pelo menos hoje

    Por que era isso que acontecia há meses. A história de Cristina e Jorge acabou “vazando” e sempre tinha alguém cochichando quando os dois se encontravam eventualmente. Não acontecer nada disso em um dia em que a maioria dos colegas estaria sob efeito de álcool era um alívio. Foi quando o telefone tocou, era Roberta.

    — Cristina, temos um problema — disse Roberta com uma voz meio triste.

    — Só me faltava essa. Que problema, Roberta?

    — Daqui a umas duas horas você precisa subir pro escritório. Dessa vez rolou um lance meio pesado, vai ter que sair uma nota oficial da empresa.

    — Ok. Subo já já e você me explica tudo.

    — Não vai dar, amiga, a galera daqui vai passar o dia resolvendo coisas fora do escritório — Ela fez uma pausa — Só vai ficar uma pessoa… E você já deve saber quem é. Tenho que ir, a gente se fala.

    Cristina desligou o telefone com vontade de matar alguém, mas no lugar disso ela falou:

    — Luciana — Respirou fundo, contou até três e continuou — Acho que eu não vou poder ir pra confra das meninas.

 

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