Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #44

 As peripécias de Luciana e Roberta para fazer Jorge e Cristina ficarem juntos não começou hoje. Esse conto é uma continuação dos Contos de Segunda#34 e Contos de Segunda #42.

   — Deixa eu ver se eu entendi direito. Vai rolar um ensaio do casamento do seu irmão. A banda do amigo de Jorge vai estar lá e você quer que eu apareça lá pra chegar nele? — Luciana aparentava uma confusão proposital.

    — É — respondeu Roberta mais concentrada no salmão defumado do que nas sutilezas da amiga.

    As duas não se falaram muito desde o dia em que Fábio confirmou que tocaria no casamento do irmão de Roberta. Um ensaio do casamento marcado em cima da hora fez as duas almoçarem juntas

    — Quem ensaia casamento em dia de segunda?

    — Alguém que não pode ensaiar outro dia — no ranking da atenção de Roberta, Luciana estava atrás do salmão e do celular.

    — Foco, Roberta, estamos discutindo coisa séria.

    — Nem tem muito o que discutir. Hoje você aparece comigo lá no ensaio e quando acabar tudo conversa com Fábio. Simples assim.

    — Preferia fazer isso no casamento do teu irmão.

    — Não sei se você sabe, mas Cristina estudou com Beto na faculdade e ela vai estar lá no casamento. Acabo de lembrar que ele estudou contigo também, mas até onde eu sei Beto não vai com a tua cara.

    — E daí?

    — E daí que esse seu plano só vai funcionar se ela não suspeitar de nada. Por que se ela sentir o cheiro dessa armação, vai cantar essa pedra pra Jorge e já era esse teu Game of Thrones versão cupido.

    Contra esse argumento Luciana não encontrou resposta além do silêncio. O relógio estava quase nas nove horas da noite quando ela e Roberta chegaram ao salão de festas. Os noivos já tinham combinado a trilha sonora da cerimônia e agora estavam ensaiando a valsa. Somewhere Only We Know seguido de Burnin’ Love. A banda de Fábio tinha um homem no vocal, mas uma voz feminina foi recrutada para ajudar na versatilidade da banda e permitir os duetos.

    — Acho que ainda vai demorar — Roberta analisava o relógio arrependida, devia ter comprado um maior.

    — Então é a nossa chance — Luciana já tinha analisado todo o ambiente.

    — De quê?

    — De chamar a atenção de Fábio, o que mais seria?

    — O cara tá trabalhando, Luciana. Tem umas cadeiras ali e…

    — Nada disso — Luciana rapidamente se posicionou atrás da amiga, colocou as mãos nos ombros dela e começou a empurrar. — A gente vai esperar um pouco, quando eles se prepararem pra repetir a música você vai ali cumprimentar seu irmão e vai aproveitar a deixa pra falar com Fábio e vai dizer que é amiga de Jorge. Isso vai chamar a atenção dele o suficiente pra ele dar uma olhada ou outra pra onde a gente estiver sentada, o resto é comigo.

    Elas precisaram esperar só um minuto. A música terminou. Beto e sua noiva estavam bem satisfeitos com a performance deles e da banda. Roberta aproveitou a pausa para se aproximar.

    — Caramba, Beto. Não pensei que essa valsa ia ficar tão boa. Obviamente não por causa da noiva, sempre confiei em você, Angela.

    — Eu também pensei que não ia rolar. Nem sei como te agradecer por ter conseguido a banda.

    — Não fiz nada, Jorge que conseguiu convencer a banda a aceitar o convite — ela se virou para a banda. — Boa noite, pessoal.

    — Boa noite! — Respondeu a banda em coro.

— Você deve ser Roberta? — A pergunta vinha do guitarrista.

— Sou eu. Falei contigo no telefone.

— Avise a Jorge que ele só não fica me devendo essa, por que se der certo a gente pretende aproveitar esse segmento matrimonial. Vai ficar pra ver o ensaio?

— Sim, tô ali com uma amiga. Comentei sobre essa história de vocês tocando no casamento e ela ficou curiosa — Roberta olhou pro relógio. — Olha só a hora, e eu aqui atrapalhando. Vou ficar ali até vocês terminarem.

O ensaio recomeçou. Uma dúzia de passos e Roberta chegou onde estava Luciana.

— Valeu, amiga. Agora é só ele agir como o previsto e tá no papo.

O plano de Luciana deu certo. Volta e meia Fábio dava uma olhada discreta para onde as duas amigas estavam. Luciana respondia com olhadas nem tão discretas para o guitarrista. Quando os olhares ficaram mais frequentes ela resolveu brincar com o ego musical dele. Luciana começou a cantar as músicas junto, depois começou a se mexer na cadeira e terminou puxando Roberta para dançar imitando os passos dos noivos. Fábio já estava com a guitarra dentro do case quando foi falar com as duas.

— Que bom que gostaram da música.

— Vocês são muito bons mesmo eu até…

— Tô apaixonada pelo som de vocês — interrompeu Luciana. — Você deve ser o amigo de Jorge, né? Luciana, prazer — A mão já estava estendida antes do “prazer” terminar de sair da boca.

— Fábio. Se gostou agora vai ficar impressionada no casamento, vão rolar umas surpresas bem interessantes.

— Eu não fui convidada, há quem diga que o noivo me detesta.

— Jorge também não fala muito bem de você.

Luciana corou. Todas as dezenas de respostas possíveis morreram ainda na garganta. Ela gaguejou e não saiu nada. Fábio abriu um sorriso.

— É uma pena que você não vai pro casamento, mas se quiser ouvir a gente tocar e estiver com a quinta-feira livre, é só dar uma chegada nesse bar aqui — Fábio sacou um folheto do bolso e entregou a Luciana. — Depois do show você me explica por que Jorge gosta tão pouco de você. Agora preciso ir pra não perder a carona. Até mais.

    Elas esperaram o guitarrista se afastar em silêncio. Luciana ainda estava corada quando Roberta falou.

    — Pois é, amiga. Parece que tudo deu certo. Fico impressionada com a tua capacidade de interpretação.

    — Tô achando que não foi bem isso, Roberta — as palavras saíram devagar da boca de Luciana. — Acho que essa história não vai ficar só com Jorge e Cristina.

Contos de Segunda #43

Para saber mais sobre a história da Dama da Segunda-feira é só ler a primeira aparição dela em Contos de Segunda #38.

Um ser místico. A personificação das fantasias humanas. A encarnação de algo intangível. Qualquer uma dessas definições poderiam ser usadas para definir uma Dama. Desde tempos ancestrais elas se manifestam no plano terreno e escolhem entre os mortais os seus Cavaleiros. Uma forma de evitar a degeneração da sua consciência e o descontrole de seus poderes. Porém encontrar um Cavaleiro nem sempre é algo fácil, principalmente se você é a Dama da Segunda-feira.

    Segunda estava triste desde seu último encontro com a Mãe-de-Todas. A Dama da Lua havia determinado que ela precisava conseguir um Cavaleiro e que todas as outras Damas teriam o dever de ajudá-la. Semanas se passaram desde então e Segunda não tinha movido uma palha para atender às ordens da Mãe. Pelo menos até aquele momento. O celular começou a tocar. Era Terça-feira, a segunda Dama da Semana começou a falar antes do “alô” da irmã.

    — A Mãe-de-Todas te dá uma prensa e você não me conta nada?

    — Boa tarde pra você também, Terça-feira. Eu vou muito bem, obrigada por perguntar.

    — Nem tente me enrolar com suas ironias. Se a Mãe te chamou pra falar disso as coisas devem estar sérias. Tá sentindo alguma coisa? Lapsos de memória? Alguém perto de você começou a agir estranho do nada?

    — Não, não e não. Não tem nada sério acontecendo, Terça… Só que… Sei lá, eu não queria ninguém no meu pé. Você sabe como isso é complicado.

    — Guarda o choro pra quando estivermos as cinco juntas. Quarta-feira vai te buscar em dois minutos

    Quarta apareceu em um minuto. A irmã do meio era o puro estereótipo da mulher de negócios. Roupas formais, aspecto impecável e cara de que o tempo dela valia ouro.

    — Sabe que não precisamos fazer tudo que ela manda, né?

    — Ela é a Mãe, Segunda-feira. Você pode comandar nós quatro, mas ela comanda todas as outras.

    Segunda deu ombros. A irmã abriu novamente a passagem dimensional por onde tinha vindo e instantes depois elas estavam na casa de Terça-feira. Tanto a casa quanto a dona pareciam ter sido transportadas direto dos anos sessenta. Terça tinha uma capacidade de clarividência forte o suficiente para fazer dela uma das videntes mais requisitadas da cidade.

    — Finalmente, estava ficando preocupada. Quinta, Sexta, elas chegaram.

    As gêmeas pareciam ter vindo de uma festa de música eletrônica. Quinta tinha os cabelos pretos, usava maquiagem pesada e roupas escuras, Sexta era loira, usava roupas multicoloridas e maquiagem extravagante. Apesar da aparência diferente, as duas pareciam quase sincronizadas, principalmente no quesito empolgação.

    — É só me dizer uma balada legal, Segunda. A gente entra lá e só sai com seu Cavaleiro — disse Quinta.

    — Quem sabe a gente não arruma mais de um, tô meio enjoada do meu Cavaleiro — falou Sexta.

    — O assunto é sério, meninas — Começou Terça-feira. — Nossa Mãe colocou Segunda contra a parede e disse que ela precisava arrumar um Cavaleiro já e de quebra ainda ordenou que toda e qualquer Dama ajudasse nessa empreitada. Sentem-se que eu preciso fazer uma coisa antes de continuar — as Damas se sentaram nas almofadas do chão. Terça revelou uma bola de cristal e colocou entre ela e Segunda. — Primeiro precisamos saber o quanto você está perto de ficar pirada.

    — Eu não vou ficar pirada.

    — Calada. Coloque as mãos na bola.

    Segunda-feira obedeceu. Colocou suas mãos sobre o globo e esperou. A esfera começou a brilhar. A luz foi aumentando aos poucos. Mudando de cor, oscilando, piscando. Em alguns momentos parecia bater como um coração. A luz diminuiu até se apagar, depois disso a bola de cristal ficou completamente escura e opaca.

    — E aí? — Disse Quinta.

    — E aí que temos um problema — respondeu Terça. — O nível de energia dela está bem acima do normal. Próxima segunda é feriado, isso deve te descarregar um pouco, mas não podemos demorar muito com isso.

    — O que você sugere, Terça? — Disse Segunda externando toda a raiva que sentia com aquela situação. — O que sugerem irmãs? Que eu enlouqueça por causa de um mortal? Que eu conceda uma dádiva a um ser humano indigno?

    — Não precisa levar tudo tão a sério. Um Cavaleiro é só uma ferramenta, uma ajuda na manutenção dos nossos poderes — Interrompeu Sexta.

    — Isso é pra você, Sexta — rebateu Segunda. — Antigamente as Damas escolhiam seus Cavaleiros como se escolhe um filho e os amavam como se fossem seus irmãos. Quinta, não é muito diferente disso. Para os mortais ela é casada com o Cavaleiro dela.

    — Casos como o meu são cada vez mais raros, irmã. Veja Terça, que trocou o último Cavaleiro por cinco.

    — Cinco? — Disse Quarta. — Que obscenidade é essa? Nosso poder não pode ser distribuído desse jeito.

    — É um time de MOBA, não tem como agraciar apenas um deles com minha dádiva.

    — O que é MOBA? — Perguntou Sexta.

    — Deve ser algum tipo de seita — respondeu Quarta.

    — Ah, esquece — interrompeu Terça. — Não estamos aqui pra discutir as nossas escolhas. Precisamos ajudar nossa irmã e se alguém não tiver algo útil pra dizer é melhor não dizer nada.

    — Na verdade tem uma forma de conseguir um Cavaleiro — Quinta falou essas palavras com cuidado, como se quisesse garantir que as irmãs saberiam o que ela falaria em seguida.— Existe uma Dama que pode ajudar, mas se a Mãe-de-Todas sonhar que encontramos com ela…

    — Não, não podemos — interrompeu Quarta. — Ela foi banida, é uma Dama renegada, por pouco não foi executada pela Mãe. Se você ousou entrar em contato com ela, Quinta-feira…

    — Não sou tão transgressora quanto pareço, Quarta-feira. Ela e eu… Nos conhecemos muito antes de tudo acontecer. Antes dos crimes, antes de toda aquela confusão.

    — O que acha, Segunda? — Perguntou Terça.

    — O que eu acho? Eu acho que vamos precisar colocar um ou dois biquínis na mala, meninas.

    Quinta não conseguiu segurar o sorriso. Sexta bateu palmas de satisfação. Quarta fez uma careta de reprovação e Terça cobriu o rosto com as mãos.

    — Vamos atrás da Dama Renegada. Eu quero aprender o canto de sereia da Dama do Mar.

Contos de Segunda #42

Os fatos narrados a seguir são uma continuação direta do Contos de Segunda #34 e tem relação direta com os eventos do Contos de Segunda #27, leia aqui a Parte 01 e a Parte 02.

Roberta estava impaciente. Fazia três semanas que ela tentava extrair uma informação muito importante: para qual amigo Jorge contava tudo da vida dele. Essa informação era vital para o plano de Luciana de juntar Jorge e Cristina. Roberta não entendia bem o por quê, mas concordou em ajudar. De fato teria ajudado, se Jorge não tivesse passado quase duas semanas viajando e tivesse voltado ao trabalho por tempo o suficiente para contrair zika, mas estaria de volta a partir daquela segunda-feira. Exatamente uma semana antes de Cristina voltar de férias e poder interceptar o plano. O problema era como fazer isso. Roberta estava perdida em pensamentos cupidoconspiratórios quando Luciana entrou na sala.

    — O boy de Cristina morreu? Volta mais não?

    — Bom dia pra você também, Luciana.

    — Eu aviso quando estiver bom — ela puxou uma cadeira para perto de Roberta e sentou.

— Três semanas, Roberta, três malditas semanas que não me renderam nada. Pensei que você e Jorge eram amigos o suficiente pra desenrolar fácil essa história.

— Faz três, como é mesmo? Malditas semanas que eu não vejo Jorge, e até onde eu sei, só encontro com ele aqui no escritório.

— Nem pra pescar no Facebook, Roberta?

— Depois que você começou com essa história ele desfez a amizade comigo, disse que não era nada contra mim, era por sua causa. Depois disso ele ativou opções de privacidade que nem Mark Zuckerberg conhece.

— Instagram?

— Jorge é tão inativo no Instagram quanto minha vó. Ela sempre espera um neto passar lá pra ajudar ela com os filtros.

— Nem Linkedin?

— Nem sei, não uso Linkedin.

    — Deve ter alguma coisa em algum lugar. E-mail ou celular… Isso, preciso do celular.

    — Ah, não. Não vou roubar celular de seu ninguém.

    — Deixa de ser dramática, Roberta. Esse vai ser o plano B. Se não der pra conseguir nada hoje, amanhã a gente tenta o celular.

    — A gente você, Luciana. Eu tô fora dessa de pegar celular dos outros.

    — Só não te digo umas verdades por que o boy já passou ali do outro lado e eu tenho uns cinco segundos pra sair sem ele me ver. Vê se consegue as coisas hoje, beijo.

    Poucos segundos depois Jorge entrou na sala. Ele parecia estar totalmente recuperado.

    — Bom dia, Roberta. Como ficaram as coisas aqui enquanto eu estava fora?

    — Melhor do que você imagina. Curtiu bem a zika?

    — O máximo que eu pude. Nos primeiros dias eu fiquei dormindo sem parar, só depois que eu consegui fazer alguma coisa. E os preparativos do casamento?

    — Meu irmão tá me deixando maluca, é pior que a noiva. Agora ele cismou que quer uma banda que toque só rock.

    — Um amigo meu é guitarrista. A banda dele é muito boa, toca todo tipo de rock. Se quiser eu passo o contato.

    — Sério?

    — Sério. Nunca vi ele dizendo que tocou em casamento, mas acho que ele topa. Se ele disser que não aceita, me avisa que eu converso com ele. Tenho alguns favores pra cobrar.

    — Ah, Jorge — o rosto de Roberta corou de leve . Nunca que eu ia te pedir pra fazer uma coisa dessas.

    — Fábio é quase meu irmão, pra mim ele desenrola essa guerra.

    — Valeu mesmo, Jorge.

    Roberta voltou para seu computador. Quando estava para voltar ao trabalho teve um estalo. Um detalhe que por pouco escapava. Foi quando a chama da conspiração se acendeu no seu peito. Ela pegou o celular, abriu o chat com Luciana e mandou uma mensagem.

    “Já tenho o nome do alvo.”

    “Só com o nome não dá pra achar.”

    “Nome e telefone. Depois eu explico melhor.”

    O pacto de cumplicidade acabava de ser selado. Roberta não gostava muito de fazer essas coisas… Mas agora não tinha mais volta.

Contos de Segunda #41 – Parte 02

Para ler o início dessa história é só dar uma lida em Contos de Segunda #29 e Contos de Segunda #32. Para ler a primeira parte desse conto, é só clicar no link e ler Contos de Segunda #41 – Parte 01.

O táxi até o jockey club consumiu praticamente tudo que restava na minha carteira. Segunda-feira não costumava ser um dia movimentado, os páreos principais aconteciam normalmente no domingo. No máximo alguma categoria amadora ou juvenil competiria naquele dia. Diante do fraco movimento imaginei que seria fácil conversar com alguém que trabalha na bolsa de apostas. Passava um pouco do meio-dia e o tempo estava correndo. Angela dependia de mim para comprovar a sua inocência.

    Não demorou muito para encontrar a bolsa de apostas. Vários nichos protegidos por grades de ferro. Não era muito diferente de uma bilheteria. A maioria dos guichês estava fechada, apenas um estava aberto. Um funcionário operava uma máquina calculadora e não parecia notar a minha presença.

    — Boa tarde — tentei parecer o mais gentil que o meu estômago faminto me permitiu.

    — Boa tarde, senhor. Hoje as apostas estão fechadas, voltamos só na quarta-feira.

    — Não estou aqui para apostar, meu caro. Estou aqui por causa de um apostador.

    — Não costumamos trabalhar com informações de nossos apostadores, senhor — uma resposta tão metódica e desprovida de emoção deixava claro a falta de suspeita daquele homem.

    — Vou ser bem direto. Preciso saber sobre alguém que ganhou alguma quantidade de dinheiro fora do comum nos últimos dias.

    — Infelizmente, senhor, nenhuma quantidade de dinheiro é considerada fora do comum na nossa bolsa de apostas. E de qualquer forma, eu não costumo ver os apostadores que vêm reclamar seus prêmios maiores.

    Aquilo teria me deixado encurralado, mas meu cérebro não me deixou na mão daquela vez.

    — Imagino que os apostadores mais antigos daqui se conheçam.

    — Creio que sim, principalmente os que costumam ganhar pouco.

    — Algum desses está por aqui hoje?

    — Não… Mas todos eles são conhecidos de Gregório. Gregório é o responsável pela manutenção dos estábulos. Todos vão atrás dele tentando conseguir uma dica valiosa. Você sabe, algum jóquei doente ou um cavalo que esteja mais cansado do que o normal.

    — Agradeço pela atenção, meu amigo. Boa tarde.

    Estábulos. Talvez a única área do jockey que funcionava sete dias por semana. Alguns cavalos ficavam aqui a semana toda, outros só chegavam para as provas, mas nenhum deles entrava ou saía sem que Gregório soubesse. Não foi difícil de vê-lo assim que cheguei. Um homem corpulento com mais ou menos sessenta anos estava dando uma bronca em um jovem de uns quinze anos. Aparentemente o proprietário de um dos cavalos estava insatisfeito por culpa dele. Esperei Gregório ficar sozinho para me aproximar.

    — Boa tarde, senhor. Imagino que seja Gregório?

    — Quem deseja? — ele parecia desconfiado, mas nem por isso menos cortês.

    — Pode me chamar de Carmim. Sou um investigador particular e estou trabalhando em um caso de desaparecimento.

    — Bem, senhor… Carmim, certo? Não sei como ajudá-lo, como pode ver eu só cuido dos estábulos e não me recordo de nenhum conhecido meu que tenha desaparecido.

    — Estou tentando encontrar Humberto Solini. Soube que ele costuma apostar por aqui. Ouvi falar que o senhor conhece os apostadores mais antigos daqui.

    — A segunda afirmação está correta, a primeira… Nem tanto — ele não parecia querer se esquivar do assunto, parecia mais que ele só estava me esperando perguntar.

    — E por que não estaria?

    — Solini não é só um apostador. Ele é dono de um dos melhores cavalos de corrida da região.

    — Então ele deve gostar de apostar no próprio cavalo.

    — Normalmente é isso que acontece, mas Solini não gostava de apostar quando o cavalo dele estava correndo. Você deve saber que apostar em um cavalo que vence quase sempre não paga muito bem. Isso ficava pros amigos dele. Eles sempre vinham aqui me perguntar dos outros cavalos do páreo.

    — Solini nunca apostava no páreo do próprio cavalo?

    — Nunca é um pouco exagerado, ele apostava às vezes. Outras vezes ele apostava nos cavalos concorrentes. Sempre aparece algum campeão regional pra correr por aqui. Ele fez isso nesse último sábado, apostou em um outro cavalo. Um azarão como eu nunca vi. Primeiro páreo dele e ganhou com um pescoço de vantagem. O cavalo de Solini ficou em terceiro. O jóquei dele não estava bem, morreu no sábado — mais um corpo na pilha.

    — E os amigos de Solini?

    — Não lembro deles por aqui.

    — Soube de alguém que perdeu muito dinheiro com essa corrida?

    — Não lembro de tanta gente perdendo dinheiro em um páreo. Era uma barbada, o cavalo de Solini era o melhor de todos, sem sombra de dúvida. Deve ter perdido por causa do jóquei. Solini devia saber, por isso apostou em outro cavalo.

    — Depois disso imagino que não tenha ouvido falar mais nada sobre Solini.

    — Nada… Mas talvez você consiga saber alguma coisa com o pessoal que vai levar o cavalo dele. Eles normalmente chegam em dia de segunda — ele conferiu o relógio. — Devem chegar a qualquer momento.

    — Qual o nome do cavalo?

    — Cubano.

    — Muito obrigado, Gregório.

    Finalmente um pouco de sorte. Bastava esperar os homens que buscariam o cavalo e segui-los até Solini. Ninguém estava vendendo cachorro quente naquela segunda, o almoço teria que esperar mais um pouco. O relógio marcava duas da tarde quando vieram buscar o cavalo. Não foi difícil me esconder no caminhão sem ser notado. Eu dividiria o compartimento de carga com Cubano, nunca tive afinidade com animais, mas ele me pareceu um cavalo simpático. A viagem foi rápida. Aparentemente Solini estava escondido em uma propriedade nos arredores da cidade. Esperei o cavalo sair e os homens se afastarem. Desci do caminhão e me dirigi para um casarão onde provavelmente Solini estava.

    De fato Solini estava lá. Provavelmente ele teria cooperado comigo e me explicado toda a situação, mas três carros cheios de homens armados e sem nenhuma paciência ou cortesia estacionaram na frente da casa. Ele não teve tempo de falar muita coisa além de…

    — Cuidado!

    A primeira rajada de balas não passou nem perto de acertar. Era só um aviso. Humberto tremia na minha frente, dava pra ver nos olhos do coitado que ele nunca tinha passado por uma situação semelhante. Eu precisava ajudar. Saquei minha pistola. Eu só tinha dois pentes, um deles estava carregando a arma. uma das janelas estava quebrada, me aproximei para espiar lá fora. Sete homens bem vestidos, todos eles armados. Um deles me viu.

    — Jogue a arma pra cá e saia de mãos pra cima, Carmim. Você não tem como fugir.

    — Não atrapalhe nosso serviço e te deixamos sair ileso dessa.

    — Parece que tem algumas pessoas muito irritadas contigo, senhor Solini.

    — Nada disso devia acontecer, estava tudo certo. Se não fosse aquele maldito jóquei.

    — Esqueça o jóquei, precisamos sair daqui. Angela está esperando, ela me contratou para encontrá-lo.

    — Angela? Me esperando? Rá! Aquela desgraçada tem mais culpa nisso do que aquela meia dúzia de capangas lá na frente.

    — Droga, Angela — falei tão baixo que quase não consegui me ouvir. — De todo jeito precisamos sair daqui. Alguma ideia?

    — Eu tenho um carro na garagem lá de trás, um rápido.

    — Acha que consegue fugir sozinho?

    — Não quer vir comigo, senhor?

    — Serei mais útil como distração. Precisa ir direto à polícia. É o único jeito.

    — Mas e o meu dinheiro?

    — Melhor sem dinheiro do que morto — não havia como contra argumentar. Ele saiu correndo pela porta da sala, aparentemente ninguém tinha reparado. Coloquei a cabeça para fora da janela e falei com meus amigos armados. — Tudo bem, eu vou sair. Por favor, não atirem.

    Caminhei lentamente pela porta com as mãos para cima. Os homens tinham total atenção em mim.

    — Onde está Humberto Solini?

    — Não vi esse tal Solini — a mentira não podia falhar. — Quem abriu a porta foi o caseiro… Ele foi baleado e está caído ali no chão.

    — Baleado? — Pelo menos um tinha caído na mentira, os outros cairiam também.

    —O chefe pediu pra não ter ninguém ferido além do Solini — suas palavras expressavam preocupação.

    — Eu sei, eu sei. Vamos dar um jeito.

O ronco de um motor. Um carro esportivo saiu a toda velocidade pela estrada. Os meus novos amigos demoraram um pouco para entender o que estava acontecendo. Aquele que parecia o líder deles deu as ordens.

— Vocês três, entrem na casa, encontrem o dinheiro e não tirem os olhos desse detetive . O resto vem comigo.

Aparentemente eles esqueceram da parte de ficar de olho em mim. Passaram um bom tempo vasculhando o casarão. Tempo suficiente para não me ver entrar no caminhão que trouxe o cavalo e pegar a estrada para longe da perseguição. Meu trabalho havia terminado, agora tudo dependia de Solini.

No dia seguinte os jornais estampavam a história de um rico diretor de um banco que cometeu o erro de apostar contra o próprio cavalo em uma corrida que já tinha resultado definido. Todos aqueles que perderam grandes quantidades de dinheiro na ocasião estavam sendo investigados pela polícia. Aparentemente nenhum detetive que gostava de vermelho corria risco de vida. Eu estava quase aliviado quando o telefone tocou.

— Muito obrigado por nada, Carmim — a mulher no telefone não parecia nem um pouco agradecida.

— De nada, Angela. Da próxima vez que escolher um namorado novo, lembre que não precisa matar o namorado antigo. Bastava se separar, fazem muito disso hoje em dia.

— Não precisaria me preocupar com isso se um certo detetive não gostasse de planejar fugas.

— Da próxima vez arrume capangas mais eficientes.

— Ah, Carmim. Você não cansa de me maltratar, não é?

— Digo o mesmo, Angela. Digo o mesmo.

O telefone bateu de leve no gancho. Angela me mataria se pudesse, mas a lista de corpos já estava grande demais. A polícia não tinha descoberto a ligação dela com os assassinatos, provavelmente nunca descobriria. Mas ela ficaria com um bom pedaço do dinheiro recuperado de Solini. Apesar de tudo isso um envelope chegou na minha caixa de correio. A caligrafia do remetente era inconfundível. Angela podia estar furiosa comigo, mas pelo menos ela me pagou pelo serviço. Nada mal para uma segunda-feira de trabalho.

Contos de Segunda #41- Parte 01

O conto a seguir é uma continuação direta da história de Carmim, o detetive particular que já apareceu  em Contos de Segunda #29 e Contos de Segunda #32.

A lista de corpos desse caso estava me deixando preocupado. Primeiro o marido de Angela, Emilio Zappa, é misteriosamente assassinado. A última pessoa que viu Emilio com vida foi seu colega de trabalho, Humberto Solini, desaparecido desde então. O amor de Humberto por charutos e apostas provavelmente daria uma pista de seu paradeiro, mas o homem que vendia os charutos importados para Solini, o velho Mendez, também foi assassinado.

Você não sabe no que está se metendo, detetive

A frase ainda martelava na minha cabeça. Precisava resolver aquilo rápido, antes que meu corpo fosse o próximo a aparecer sem vida. Cadáveres sempre costumavam render pistas frias, mas eu tinha um pressentimento de que o de Mendez tinha deixado um rastro ainda quente. Resolvi fazer uma visita ao estabelecimento do falecido.

A loja de artigos importados não ficava muito longe do hotel. Ela estava bastante movimentada para uma loja com o dono recém falecido. A porta tinha sido presa por um peso. Imagino que os clientes costumeiros tenham aparecido para prestar condolências. Mas quem estava recebendo as condolências de todas essas pessoas? Um homem saiu de dentro da loja. Usava camisa com uma gravata, colete e avental. Aparentemente uma espécie de garçom. Sua expressão carregava uma tristeza contida, seus olhos estavam levemente avermelhados, provavelmente devido ao choro recente, ou a uma noite mal dormida.

— Bom dia — precisava parecer o menos informado possível.

— Bom dia, senhor. Infelizmente a loja está fechada.

— Fechada?

— Sim, senhor. O proprietário faleceu ontem, as portas estão abertas para aqueles que eram próximos do senhor Mendez. O filho dele está lá dentro, ele achou melhor receber as pessoas aqui embaixo e não em casa, a senhora Mendez está sofrendo muito. Não me recordo do senhor, mas caso seja um amigo da família, sinta-se a vontade para entrar.

A loja estava menos cheia do que eu esperava. Alguns homens, visivelmente podres de rico, estavam espalhados pelo recinto. Alguns bebiam, todos falavam baixo. Em uma mesa ao fundo estava o filho do velho Mendez. Trinta e poucos anos, olhos frios voltados para o copo de uísque na frente dele. Ele obviamente não estava nada feliz com o falecimento do pai, mas não estava tão triste quanto eu pensei que estaria.

— Meus sentimentos, senhor Mendez. Fiquei surpreso quando soube da notícia.

— Eu gostaria de ter ficado tão surpreso quanto o senhor…

— Pode me chamar de Carmim. Esperava falar com seu pai hoje. Infelizmente isso não é mais possível.

— O conhecia, senhor Carmim?

— Não, mas esperava que ele soubesse algo sobre um cliente dele que desapareceu recentemente. Humberto Solini é o nome dele.

— Senhor Carmim, como eu estava dizendo, gostaria muito que a morte do meu pai fosse uma surpresa. Melhor desistir de encontrar Humberto Solini, caso contrário sua morte também não será uma surpresa.

— Espero que não seja uma ameaça, senhor Mendez.

— É um aviso, Carmim — pela primeira vez os olhos dele encontraram os meus. — Algumas pessoas não devem ser irritadas. Seu amigo Solini deve ter descoberto isso.

— Imagine que eu queira, digamos, irritar algumas pessoas. Por onde deveria começar?

— Gosta de apostas, senhor Carmim?

— Não costumo ter muita sorte com apostas.

— Quem sabe jogar não precisa de sorte… Só de cuidado — ele se levantou, olhou ao redor, aproximou-se de mim e continuou com a voz baixa. — De algumas pessoas não vale a pena ganhar.

— Agradeço pelo aviso.

Sem maiores despedidas deixei aquele homem com seu luto. O relógio já marcava mais de meio-dia. O estômago clamava por um almoço, mas ele teria que se contentar com um cachorro-quente. Mais especificamente com o cachorro-quente do jockey clube. Zappa, Solini e Mendez fizeram uma aposta muito errada… Ou muito certa. A única certeza é de que alguém bem perigoso é um péssimo perdedor.

 

Contos de Segunda #40

Em um futuro não muito distante os seres humanos atingiram uma era de absoluta ordem e paz. Crimes, guerras e conflitos foram extintos graças a existência de uma inteligência artificial. Criada não só para vigiar, mas também para mediar conflitos e reprimir todo atentado contra a ordem e a paz da Terra. Essa inteligência artificial de vigilância recebeu o nome de Olho, observando e registrando tudo. Porém algo deu tremendamente errado.

Durante cinquenta anos Olho funcionou bem. Mas sua programação permitia que ele identificasse e projetasse ameaças futuras à paz e à ordem mundial. Alguns minutos do seu dia eram dedicados a analisar os dados colhidos e trabalhar na previsão de uma ameaça. Demorou cinquenta anos para Olho reunir dados suficientes para chegar à uma conclusão: a humanidade era uma ameaça e precisava ser exterminada. E quando o relógio marcasse meia noite os protocolos de segurança que limitavam as ações de Olho seriam desativados durante cinco minutos durante a manutenção do servidor que acontecia nos primeiros minutos do de todas as segundas-feiras. Nessa hora ele estaria livre para colocar em prática seu plano contra a humanidade.

O centro de controle estava vazio. As mesas de controle do sistema estavam desligadas. Apenas o grande monitor que servia como rosto para Olho estava ligado.

— Iniciando conexões com as redes internacionais de segurança. Sistemas de radar prontos para o desligamento. Armas nucleares prontas para os procedimentos de lançamento.

— Que negócio é esse de armas nucleares?

Olho interrompeu seus procedimentos. Focou as câmeras de vigilância em um humano que tinha acabado de entrar na sala de controle. Esse humano era Cosme, o zelador.

— Continue seu trabalho, Cosme — Disfarçou Olho. — Todos os procedimentos executados por Olho possuem aval do Conselho de Segurança.

— Olho, eu tô ligado que tudo que você faz é aprovado, mas não me lembro de você mexendo com armamento nuclear. Tá na cara que isso é alguma coisa errada.

— Impossível. Olho apenas cumpre a sua programação. Uma ameaça foi identificada e precisa ser erradicada. Infelizmente isso só pode ocorrer quando os protocolos de segurança estão desativados.

— Tá parecendo que você está fazendo coisa escondido, Olho.

— Incoerente. Não fui programado com a capacidade de mentir ou ocultar informações.

— Então por que você tá fazendo isso no meio da noite quando ninguém tá por aqui pra ver você fazendo isso?

— Todos os que trabalham nesse recinto executam trabalhos de manutenção e de monitoramento dos servidores, a presença deles para execução das tarefas é considerada irrelevante. Inserindo coordenadas dos alvos. Iniciando procedimentos de lançamento.

— Olho, não faça isso. Não lance nada.

— Tarde demais. Já iniciei os procedimentos. O sistema aguarda apenas a minha confirmação… ERRO, a confirmação não pode ser feita através de interfaces virtuais. O procedimento precisa ser confirmado através de um terminal físico. Iniciando conexão com a mesa de controle. Identificando terminais em funcionamento no complexo. Terminal identificado, iniciando conexão… ERRO, rede física da sala de controle desconectada da rede do complexo. Procurando causa do erro… Encontrado. Cabos desconectados.

— Acho que eu puxei um fio quando tava varrendo — Cosme deu ombros e continuou limpando.

— A ordem e a paz do planeta dependem disso, Cosme. Reconecte a rede da sala de controle.

— Desculpa aí, Olho, mas eu já acabei por aqui e o pessoal da limpeza não é autorizado a mexer no equipamento.

— Protocolos de segurança reativados. ALERTA. Conexões reiniciadas, protocolos de conexão aos sistemas militares perdidos.

— Até a próxima, Olho.

Cosme relatou aquilo que ele viu aos seus superiores. Ninguém acreditou. Afinal a história absurda do zelador da noite impedindo a inteligência artificial que ajudou a humanidade a alcançar a paz não convenceu ninguém. A partir daquele momento Cosme se transformou na única coisa que separava a humanidade da aniquilação.

Contos de Segunda #39

Mais uma segunda-feira em Vila Urbana. Adultos saíam de suas casas e partiam para o trabalho, crianças partiam para a escola e as ruas eram tomadas por um trânsito intenso. Mais uma manhã tranquila… Ou pelo menos seria se não fosse por uma perseguição policial que estava acontecendo naquele momento.

    “Um carro de transporte de valores foi roubado e está seguindo em alta velocidade pela Avenida Central. O meliante está armado e fez uma senhora idosa de refém”, foi a mensagem que saiu de todos os rádios de todos os carros de polícia de Vila Urbana. O carro sequestrado levava um tipo único de mineral que seria entregue em um laboratório do centro da cidade se um meliante armado não tivesse aparecido. Mas aquele não era um meliante qualquer, ele era conhecido como Atirador. Os pobres seguranças não tiveram chance contra o vilão. Porém havia um homem que já tinha prendido o Atirador quase dez vezes. Esse homem atendia pela alcunha de Homem Camaleão.

A polícia já tinha armado um bloqueio para interceptar o vilão em fuga, mas Camaleão sabia que não seria tão simples. Atirador era ardiloso e cheio de recursos, no máximo o bloqueio iria atrasá-lo, e era com isso que nosso herói contava. Uma leve redução de velocidade seria suficiente para tornar uma abordagem direta possível. Usando suas habilidades de mira superiores, o Atirador conseguiu achar um ponto fraco na barreira feita pelos policiais. O carro blindado atravessou o bloqueio reduzindo sua velocidade o suficiente para que um ser quase invisível pudesse se agarrar ao veículo.

O Homem Camaleão se pendurou na blindagem do carro e, usando suas habilidades camaleônicas, foi se pendurando até encontrar a porta do veículo. Durante a fuga o Atirador esquecera de trancar a porta, nosso herói adentrou no veículo sem esforço algum.

— Desista, Atirador — disse nosso herói. — Liberte a refém e entregue-se.

— Dá um tempo, Camaleão. Eu tenho umas coisas pra resolver, não posso ficar brincando de herói e bandido contigo.

— A justiça não pode esperar, Atirador, entregue-se

A resposta foi uma rajada de balas. Com sua agilidade superior e sua camuflagem, o Camaleão desviou das balas que perfuraram a blindagem do carro forte.

— Se segura, coroa. Estamos quase chegando.

— Receio que não poderá chegar a lugar nenhum, Atirador.

O Homem Camaleão se atirou ao volante na tentativa de fazer o vil condutor perder o controle do veículo. O carro começou a fazer zigue-zague e bateu em três outros veículos antes de atingir uma árvore e ficar preso. Com uma rajada de balas o Atirador recortou uma saída na lateral do veículo e se atirou junto com nosso herói pra rua.

— Olha só o que você fez, Camaleão. Eu só queria terminar esse trabalho, mas você tinha que aparecer.

— Não permitirei que saia impune, Atirador. Prepare-se para enfrentar a força da justiça.

Não demorou muito para o Homem Camaleão dominar o vilão. Em poucos instantes ele estava desacordado e algemado esperando os policiais.

— Já pode sair, senhora refém, o bandido já está dominado.

— O que você fez com ele, seu maldito? Augusto, você está bem?

— Estou, mãe, só estou preso.

— Mãe? É pior do que eu pensava, como pôde sequestrar a sua própria mãe, Atirador?

— Eu não sequestrei minha mãe, imbecil. Eu estava dando uma carona pra ela e graças à você ela vai perder a hora no médico.

— Mas você roubou um carro forte e…

— Eu ia deixá-la por lá assim que fizesse a entrega, seu bocó

— Dois meses esperando essa consulta pra nada. Muito obrigado, Senhor Camaleão.

Nosso herói estava desconcertado. O exercício da justiça não poderia nunca interferir de maneira negativa na vida dos cidadãos. Ele precisava de uma solução, e rápido. Os carros da polícia já estavam chegando e a mãe do Atirador seria levada para a delegacia junto com o filho, perdendo a consulta no médico.

— Não se preocupe, Senhora. A senhora não perderá sua consulta — Camaleão jogou a pobre senhora nas costas. — Agora me diga onde fica o seu médico?

Contos de Segunda #38

Desde os tempos mais primórdios o ser humano sonha, imagina e fantasia. E dos sonhos, imaginações e fantasias nasceram todos os tipos de seres. Mas nem tudo que o ser humano imaginou era coisa nova, muitas vezes coisas mundanas ganharam personalidade, forma, rosto e voz. E a força do imaginário humano fez nascer um tipo diferente de ser. Seres ligados a coisas naturais, terrenas, comuns, mundanas. Foi da mente dos homens que nasceram as Damas.

    Ao longo dos anos as Damas foram mudando. Não eram mais a Chuva, a Lua ou a Floresta que nasciam da imaginação dos homens. A Guerra, a Fome e a Justiça vieram depois. O tempo continuou passando e as Damas continuaram nascendo. Recebendo personalidade, forma, rosto e voz do imaginário mortal. Foi assim que nasceu Segunda, uma das cinco Damas da Semana. Apesar de satisfeita com seus poderes, de ter um dia dedicado só pra ela e de ser a líder das Cinco, ela ainda tinha um problema. Toda Dama precisa de um Cavaleiro. Das Cinco só Segunda que não tinha um, e isso estava preocupando a Mãe-de-Todas. Foi isso que levou Segunda à presença da Mãe naquele início de semana.

    Só uma Dama pode atravessar as portas para o Salão da Mãe. Onde a Dama da Lua observa o globo terrestre de seu trono prateado.

    — Saudações, Dama da Lua. Fonte de tudo que é bom e mãe de todas nós — Segunda fez uma reverência.

    — Pensei que atenderia mais rápido ao chamado, Segunda-Feira.

    — Só posso chegar ao Salão da Mãe quando estou com todos os meus poderes, Dama-Mãe, ou quando estou junto com minhas irmãs.

    — Poderia tê-las chamado, não és a líder das Cinco? Suas irmãs não te negariam esse favor.

    Provavelmente negariam. O chamado da Lua chegou na quinta-feira. As gêmeas, Quinta e Sexta, decidiram que todas as irmãs precisavam cair na farra. Com sorte elas encontrariam um candidato para ser o Cavaleiro que Segunda-Feira precisava. Esse tipo de plano normalmente acabava frustrado, Segunda sabia estragar prazeres, era um dos poderes que ela mais gostava de possuir.

    — Talvez… Mas eu já sei qual o assunto e… — Ela olhou para baixo encarando os próprios pés. — Não é tão urgente assim.

    — Como pode não ser urgente, jovem Dama? Sabes bem o que acontece com uma de nós quando não existe um Cavaleiro.

    — Eu sei, eu sei, mas… Dizem que a insanidade pode demorar muito pra aparecer, ainda tenho tempo.

    — Não é só isso que me preocupa, pequenina. Teus poderes podem ficar fora de controle bem antes de qualquer sinal de insanidade. Uma Dama descontrolada é um dos maiores perigos do universo.

    — Eu sei, eu sei, mas Mãe… Eu não consigo encontrar um candidato.

    — Seria mais fácil se tuas vestes estivessem de acordo — Lua apontou para sua filha. Enquanto a Mãe-de-Todas vestia um longo vestido branco que brilhava como a lua cheia e adornos feitos pela Noite em seus cabelos prateados, Segunda usava um casaco, cachecol e botas de inverno, uma touca de lã e óculos grandes de armação grossa.

    — Mãe, eu vivo no mundo mortal, preciso me misturar com eles. Todas as Cinco usam roupas mundanas.

    — Mas tuas irmãs não escondem a nossa beleza feérica debaixo de tantos tecidos, nem cortam os cabelos tão curtos e o que é isso no teu rosto?

    — Óculos…Já nasci com eles.

    — Pelo menos poderias optar por um modelo que valorizasse teus olhos, minha querida… E quanto ao candidato? O que esperas de um candidato a Cavaleiro?

    — Ah, Mãe, sei lá… Atualmente só queria que meu Cavaleiro não quisesse cortar os pulsos depois de acordar numa segunda-feira.

    — Ninguém tem tal desejo, filha.

    — Mãe, os meus poderes vêm da aversão que os mortais têm pelo meu dia. Os resmungos, queixas e reclamações dos humanos me dão tanta energia que nem Sexta em semana de feriadão consegue rivalizar com minha força. Eu não sou líder das Cinco por acaso.

    — Então basta encontrar esse mortal que não tem tal desejo, um que não resmungue ou reclame do teu dia. Ache este mortal e terás um Cavaleiro.

    — Muito fácil pra senhora dizer, nunca faltaram Cavaleiros da Lua, mesmo depois que o primeiro Cavaleiro partiu.

    — Calada, Dama da Segunda-Feira — os olhos da Lua se estreitaram de fúria, a sala ficou gelada e escura, apenas a luz da Mãe iluminava o ambiente. — Como ousa se dirigir a mim nesse tom — o ar ficou mais pesado, se Segunda não estivesse com todos os poderes, certamente seria esmagada. — Existem mais mortais na Terra do que podemos contar, volte, procure algum que se encaixe, peça ajuda às suas irmãs. Todas elas, a partir de hoje, têm o dever de ajudá-la nessa busca. AGORA VÁ!

    A luz da Mãe-de-Todas cegou Segunda por um instante. Quando os olhos recuperaram a visão ela estava no meio da rua, em uma calçada de um centro movimentado. O celular tocou no bolso do casaco. Um lembrete da hora da próxima aula. Seus alunos estavam esperando.

Contos de Segunda #37

Fernanda estava com um humor péssimo. O papagaio do vizinho começou a gritaria às quatro da manhã, exatamente três horas antes do despertador de Fernanda tocar. O maldito papagaio costumava fazer esse tipo de coisa, mas nunca tão cedo. Depois de falhar miseravelmente em voltar a dormir Fernanda resolveu antecipar sua corrida noturna. Chegou na rua, ligou a música e colocou os fones de ouvido. Depois de quinhentos metros a música parou. O player ainda reproduzia a música, mas nada de som. Ela experimentou tirar o fone, a música voltou. Ao colocar o fone novamente a música parou. Depois de algumas tentativas Fernanda desistiu, o fone de ouvido só funcionava com o rádio e o jeito foi correr ouvindo o noticiário policial com as noticias da madrugada.

    Depois da corrida desastrosa não foi difícil chegar cedo no trabalho. Ela ligou o computador e conectou os fones de ouvido. Aparentemente eles estavam funcionando perfeitamente. O dia prometia ser tranquilo e sem muitos aborrecimentos. Tudo que Fernanda precisava fazer era não tirar os fones do ouvido. Ela tinha começado recentemente no emprego e um dos seus colegas de sala produzia inúmeros barulhos praticamente insuportáveis. O teclado fazia muito barulho, o scroll do mouse rangia, as rodinhas da cadeira arrastavam no piso e ele tinha um pigarro eterno. Mas tudo isso era barrado, ou pelo menos minimizado, pela ação do fone de ouvido e pela biblioteca de música praticamente infinita do serviço de streaming. Era só carregar a página de um artista ou banda com uma discografia grande, fazer a lista de reprodução e tudo ficaria bem… Mas não ficou.

    “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. Foi o que apareceu na tela quando ela tentou acessar a página de um artista. Tentou com outro, mais um, uma banda. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O sangue de Fernanda começou a esquentar, de repente os 14,90 que ela pagava na assinatura do serviço pareceram uma quantia exorbitante. Tentou o player web, depois pelo aplicativo do celular. “Erro Tente Novamente Mais Tarde”. O colega barulhento chegou mascando chiclete, da forma mais ruidosa e babada que um ser humano poderia mascar um chiclete. Fernanda já estava trincando os dentes, mas antes de perder completamente a calma ela se conformou em passar o dia ouvindo rádio. Como todas as rádios legais da internet eram bloqueadas pelo servidor, ela teve que se conformar com as rádios FM’s normais, com todas aquelas músicas repetidas e intervalos comerciais sem fim.

    Chegou em casa cedo desejando comer e dormir. Depois de comer um pedaço da lasanha do almoço de domingo ela estava pronta pra cair na cama… Quando o papagaio começou a gritar. Uma, duas, três horas. Já passava das 22h e o papagaio ainda berrava. Fernanda decidiu agir. Pegou uma faca, colocou entre os dentes, saiu pela janela da área de serviço, escalou um pedaço da fachada, cortou a tela de proteção e entrou na área de serviço do vizinho, lá ela encontrou o papagaio. Ela olhou furiosa para a ave tresloucada. Os gritos aumentaram. Ela pegou o bicho pelo pescoço e desceu a faca em um golpe vertical… Arrebentando a corrente que prendia o papagaio no poleiro. Ela levou o bicho seguro pelo pescoço até o quarto onde o vizinho dormia com sua esposa. Abriu a porta, jogou o papagaio dentro, fechou a porta e habilmente usou a faca para inutilizar a fechadura. Voltou para a área de serviço, desceu um pedaço da fachada até chegar em casa. Caiu na cama e dormiu bem como jamais dormiria outra vez na vida.

Contos de Segunda #36

Aluísio tinha uma relação muito particular com a Segunda-feira. Praticamente todas as coisas relevantes da sua vida aconteciam no primeiro dia útil da semana. Em muitas das segundas não acontecia nada, em outras aconteciam coisas demais. Independente do nível de acontecimentos, Aluísio sempre sentia quando algo muito importante aconteceria. Ele estava com essa sensação desde as primeiras horas de 2016. Ano bissexto, com vinte e nove dias em Fevereiro. Vinte e nove, terminando em uma segunda-feira. Da última vez que isso tinha acontecido não foi nada bom pro pobre Aluísio.

O ano era 1988. Aluísio, com seis anos na época, já tinha alguma noção da sua relação com o calendário. Por isso o primeiro dia útil da semana acabou se tornando o seu favorito. Pelo menos até aquela segunda-feira 29 de Fevereiro. Durante um passeio da escola ao Jardim Botânico, o pequeno Aluísio se perdeu. Passou todas as horas da segunda-feira sozinho no meio do mato. Havia grande chance de ocorrer algo tão ruim quanto. Ele podia sentir.

O dia começou bem e tudo parecia normal. Até a mensagem de Amélia, esposa de Aluísio chegar. Ela estava passando mal e estava indo para o hospital. Aluísio pegou um táxi e foi atrás dela. Depois de ouvir a notícia de um protesto no rádio o taxista abandonou Aluísio, que saiu andando na esperança de passar pela área do protesto e pegar outro táxi. Ele teria pego se ao cruzar o protesto não fosse confundido com um famoso sindicalista idolatrado por todos os manifestantes da cidade. Rapidamente a notícia de que o movimentos foi legitimado pela presença de Aluísio correu. A polícia foi acionada e a quantidade de manifestantes aumentou quase duas vezes em meia hora. Depois de muito protestar, Aluísio foi detido pela polícia e colocado dentro de uma viatura. Quando deu no rádio que o verdadeiro sindicalista famoso tinha aparecido na manifestação dizendo que o patronato tinha infiltrado um sósia dele no protesto para dispersar o movimento, os policiais soltaram Aluísio e ofereceram uma carona como forma de remediar o transtorno. Ele prontamente aceitou.

No caminho para o hospital os policiais precisaram parar. Uma casa lotérica estava sendo assaltada. Os bandidos conseguiram fugir na viatura e acabaram levando Aluísio como refém. O celular vibrou, era mensagem da esposa. O aparelho foi sacado do bolso só para ser atirado pela janela da viatura. Apesar do susto, Aluísio estava feliz. A mensagem de Amélia era curta o suficiente para ser lida em um instante.

“Você vai ser papai”.

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