Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #53

Renato tinha um blog. Todas as segundas-feiras estava lá Renato publicando um conto, pelo menos até agora.

O fim de semana foi comprido. Todas as possíveis horas de descanso foram preenchidas com toda a sorte de atividades. “Preciso de outro final de semana”, pensou Renato enquanto se arrastava para a cama na noite de domingo. “Preciso fazer o conto de amanhã”, pensou enquanto os olhos se fechavam no domingo e ainda estava pensando nisso quando os olhos se abriram na segunda. Ele ainda estava cansado.

O dia passou preguiçoso. A cabeça anuviada não se mostrou um terreno fértil para as ideias. Imediatamente Renato se viu tentado a fingir que tinha esquecido da publicação de segunda. Nada de bom sairia de sua cabeça cansada naquela semana. Ele só precisava de uma folga e voltaria na semana que vem com força total. Era um plano fácil de executar, mas que deixava um gosto meio amargo na boca.

Essa seria a primeira vez que haveria uma falha na publicação. Pela primeira vez uma segunda-feira não teria texto novo. E o único motivo seria sua falta de disposição. Envergonhado pela própria fraqueza, Renato sentou de frente pro computador e encarou o editor de texto. A cabeça latejava pela falta de sono, os olhos ardiam pela claridade do monitor, e a luta para se manter acordado era grande demais. Ele resolveu desistir.

Encostou a cabeça no travesseiro e não se deteve muito tempo ruminando as ideias. Dormiu um sono regado à própria derrota pessoal, acordou esquecido de tudo isso. Afinal ele ainda estava cansado. Pensou no que tinha deixado de fazer. Pensou se aquela seria a única vez em que ele deixaria de publicar. Resolveu ver se tinha algum comentário sobre a falta de publicação. Nada no blog e nem no Facebook, aparentemente ele tinha passado incólume. A tentação de abandonar aquela rotina ingrata de publicações bateu forte, mas ele não queria se preocupar com aquilo agora. Ele precisava voltar a dormir.

Contos de Segunda #52

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia da semana. E dessa vez não poderia ser diferente.

    Era a primeira segunda-feira de Agosto. Agosto era uma espécie de 29 de Fevereiro em doses homeopáticas. Só que no lugar de coisas ruins, eram as coisas improváveis que aconteciam. Aluísio tinha acabado de estacionar o carro no estacionamento do escritório quando o telefone tocou, o número era de Amélia, sua esposa grávida de sete meses, mas a voz do outro lado era do enfermeiro que estava com ela na ambulância. O barulho da sirene e dos gritos da esposa não deixaram Aluísio entender absolutamente nada do que o enfermeiro disse, mas ele não precisava ser um gênio para entender que o bebê ia chegar mais rápido do que o esperado.

    Pulou dentro do carro e virou a chave no contato… Nada. O carro não pegou. Tentou mais uma, duas, três vezes e nada. Sem tempo para uma chupeta na bateria, Aluísio foi pra rua atrás de um táxi. Foi quando lembrou que os taxistas estavam protestando contra os motoristas de um certo aplicativo que estava teoricamente roubando seus passageiros. O jeito foi baixar o maldito aplicativo e chamar um motorista que não estivesse protestando. O tal motorista chegou em dez minutos e antes de ter a chance de oferecer uma água, uma jujuba ou um chocolate, foi metralhado pelo endereço do hospital e uma dúzia de indicações de como chegar lá. Antes que o motorista pudesse puxar qualquer tipo de conversa sobre o tempo, a política ou o Campeonato Brasileiro, Aluísio já tinha avisado a pelo menos vinte parentes por mensagem enquanto ligava para mais meia dúzia.

    Estava tudo correndo bem até que ao virar uma esquina Aluísio deu de cara com o protesto dos taxistas. Antes que o pobre motorista do aplicativo pudesse dar meia volta o carro foi cercado por algumas dezenas de taxistas furiosos. Em poucos segundos Aluísio foi arrancado de dentro do carro e jogado no meio da rua. Com essa manobra exótica o celular de Aluísio decolou e se espatifou no chão. A parte boa disso tudo é que nenhum taxista foi atrás quando ele saiu correndo, a parte ruim é que ainda faltava pagar duas prestações do telefone espatifado.

    Depois de correr por quase um quilômetro, Aluísio chegou no hospital arrependido de todos os seus anos de vida sedentária, mas finalmente estava lá, suado, vermelho e quase tendo uma falência pulmonar. Pronto para testemunhar o nascimento de sua primeira cria. Na contramão do regulamento social vigente, ele e Amélia tinham deixado para saber o sexo da criança no dia do nascimento. Levou alguns minutos para Aluísio localizar a sala de parto, quando ele chegou não pode passar da porta. Ele teve que passar mais meia hora ouvindo toda a sinfonia de gritos que sua esposa estava promovendo dentro da sala, sinfonia essa que foi substituída por outra. Dessa vez os gritos vinham de uma garganta nova em folha. O choro parou, mas depois voltou com força redobrada. Na hora que a enfermeira estava saindo da sala de parto, um exército de parentes invadiu o corredor. Eles chegaram bem a tempo de ver Aluísio desmaiar quando a enfermeira disse:

    “Parabéns, são duas meninas”.

Contos de Segunda #51

Robson queria roubar uma cadeira. Obviamente ele não precisava de uma cadeira em um nível tão grande de urgência, Robson apenas queria roubar uma cadeira.

    Tudo começou em um sábado. Robson estava no shopping esperando a esposa concluir as compras. Como a loja em questão era cheia de toda a espécie de perfume que atacava a alergia de Robson, ele esperou do lado de fora. Avistou uma cadeira convidativa e se sentou. Foi amor a primeira vista. A partir daquele momento o coração de Robson nunca mais saiu daquela cadeira, ele precisava roubá-la.

    Claro que roubar foi a última opção do pobre coitado. Ele tentou encontrar a cadeira em todas as lojas possíveis e imagináveis. Tentou entrar em contato com a gerência do shopping para tentar comprar a cadeira e não teve nenhuma resposta positiva. Ao longo de meses Robson foi ao shopping apenas para sentar naquela cadeira maravilhosa… E para planejar como levaria ela de lá. Não devia ser muito difícil, afinal era só uma cadeira.

    O plano foi executado em uma segunda-feira na hora do shopping fechar. Robson tinha passado em uma sex shop mais cedo e comprado um par de algemas. Assim que os corredores esvaziaram ele se algemou na cadeira. Alguns minutos depois o segurança do shopping chegou para ver o que estava havendo, Robson usou o máximo dos seus dotes de ator para convencer o segurança de que tinha se algemado à cadeira por acidente. No carro ele tinha as ferramentas necessárias para quebrar as algemas, porém precisaria da ajuda do segurança para carregar a cadeira. O segurança, no auge do seu altruísmo e morrendo de pena de um homem que tinha se algemado acidentalmente com algemas eróticas no meio de um local público, carregou a cadeira com Robson até o estacionamento.

    Estacionado entre duas picapes estava o carro de Robson. Ele abriu o porta malas e pediu gentilmente para que o segurança procurasse pelas ferramentas. Enquanto o solícito funcionário procurava pelas ferramentas, Robson jogou a cadeira na caçamba da picape, abriu as algemas, o carro deu a partida e saiu. O segurança levou uns dois minutos para perceber o que tinha ocorrido. A desculpa de Robson foi que colocou a cadeira na caçamba para ter uma posição melhor para quebrar as algemas, o segurança não sabia se tinha acreditado ou não, ele estava muito ocupado passando um rádio para os outros seguranças.

Robson fechou o porta malas e foi andando disfarçadamente na direção da porta do motorista. A satisfação gerada pelo plano bem sucedido foi gigante. Agora bastava ligar para o cúmplice e combinar o horário de entrega. Não é difícil imaginar a surpresa de Robson ao ouvir o toque do celular do cúmplice vindo da picape que ainda estava parada ao lado do seu carro. Mais surpreso ainda ficou Robson ao ver o seu cúmplice dormindo  do banco do motorista.

Robson entrou no carro, deu a partida e saiu. A derrota amargava em sua boca, a tristeza pesava em seu peito e como se não bastasse tudo isso, ele chegou na cancela de saída, colocou o ticket na máquina, mas não conseguiu sair. Ele tinha esquecido de pagar o estacionamento.

Contos de Segunda #50 – Parte 02

Pra ler a primeira metade desse conto é só acessar esse link para o Contos de Segunda #50 – Parte 01. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— Vou perguntar apenas uma vez — disse a Dama do Mar. — O que traz vocês cinco até meu santuário?

    — Viemos pedir sua ajuda, Dama do Mar — respondeu Segunda-feira.

    Uma risada maligna penetrou nos ouvidos das jovens Damas como uma agulha. A temperatura do ambiente caiu e a água invadiu a caverna, aos poucos a lâmina d’água começou a subir.

    — Ela vai matar a gente — sussurrou Quarta-feira. — Eu sabia que a gente devia ter ficado em casa.

    — O futuro está nebuloso, Segunda — falou Terça-feira. — Não consigo ver nada.

    — Deixa eu tentar falar com ela, Segunda — interrompeu Quinta-feira. — Dama do Mar, fui eu quem disse para virmos pedir sua ajuda… Me ajudou antes, imaginei que poderia ajudar agora.

    — Que história é essa, Quinta? — disse Sexta surpresa, e não era o tipo bom de surpresa.

    Os olhares das irmãs estavam todos voltados para Quinta-feira.

    — Não é o que vocês… — gaguejou Quinta.– Certo, sem rodeios. Eu só consegui manifestar minhas habilidades musicais por causa dela… Criar música com o corpo não é tão simples pra uma entidade do tempo.

    — Sim, eu me lembro jovem Quinta-feira — a voz da Dama do Mar sorria. — Sua música precisava de ajuda para sair, mas teu medo não te permitiu aprender tudo que eu tinha para ensinar.

    — O canto de uma Dama é muito poderoso, nobre senhora. — replicou Quinta. — Aprendi o suficiente.

    A água já estava na altura dos joelhos.

    — Aprendeste o suficiente para evitar a tua queda, Quinta-feira — o tom da Dama do Mar agora estava severo. — Não querias correr o risco de cometer os mesmos crimes que eu. Que tipo de ajuda procuras se já sabes do que precisas?

    — Eu preciso de ajuda, Dama do Mar — vociferou Segunda-feira. — Preciso aprender o canto de sereia para atrair um Cavaleiro.

— Então venha olhar nos meus olhos e dizer isso — respondeu a Dama do Mar. — Mas venha só! — A água subiu como um turbilhão e envolveu Terça, Quarta, Quinta e Sexta, as deixando apenas as cabeças para fora. — Estou no fundo da caverna, venha.

Segunda-feira hesitou por um instante. Quarta-feira estava paralisada de medo, Quinta tinha o olhar baixo para não encarar as irmãs, Sexta tentava se mover, mas não conseguia, Terça fechou os olhos e começou a falar.

— O futuro está clareando, mas a Dama do Mar não me deixa enxergá-la — disse ela calmamente. — Vejo muitos futuros para você, Segunda, mas todos eles estão distantes, não posso te dizer o que te aguarda… Toma cuidado.

— Obrigado, Terça. Vou tomar.

Algumas dezenas de metros separavam Segunda do fundo da caverna. Lá ela encontrou um poço muito largo que emitia uma luz tênue, no centro do poço estava uma rocha e na rocha uma figura muito similar a uma sereia.

— Saudações, Dama do Mar — cumprimentou Segunda.

— Saudações, Dama da Segunda-feira — respondeu a Dama do Mar. — Tens ideia do tamanho do teu pedido?

— Tenho.

— Conheces os meus crimes?

— Não há Dama que não conheça.

— Sabes o que me levou a cometê-los?

— Amor e… Dor — a última palavra foi dita quase como um sussurro.

— Isso mesmo — os olhos frios da Dama do Mar por um instante se perderam em um passado distante. — Meu Cavaleiro foi tirado de mim e a dor me levou à…

— Violência — os olhos de Segunda estavam marejados. — Todas nós ficamos sabendo… Quando a Dama do Mar usou seu canto e atraiu dez Cavaleiros para a morte.

— Nove — o semblante dela continuava inexpressivo, mas os olhos não escondiam os sentimentos tão bem. — Naquela época o Cavaleiro da Lua possuía uma esposa. Ele foi o primeiro filho legítimo de uma Dama e o único a se tornar Cavaleiro. A Dama da Lua o presenteou com uma esposa, uma humana que recebeu sua dádiva. Ela também veio… Eu também tirei a vida dela com minhas próprias mãos.

— A Mãe-de-Todas te condenou à morte, mas o teu santuário te salvou.

— A fúria da Mãe passou, demorou, mas passou — ela olhou ao redor. — Agora vocês se arriscam a despertar novamente essa fúria para atrair um Cavaleiro?

— Preciso de um, meus poderes estão a ponto de sair do controle e… — Segunda respirou fundo. — Logo logo será impossível manter a sanidade.

— Não é tão ruim quanto parece. Todos tem medo de uma Dama louca… — os olhos da Dama do Mar se acenderam com um brilho frio. — Por que não sabem o que é ser uma.

A água subiu como um turbilhão e prendeu Segunda. A água do mar girava cada vez mais veloz ao redor da jovem Dama, o atrito com a água começou a rasgar a pele.

— O que está fazendo?

— O mesmo que estou fazendo às suas irmãs — sorriu a Dama do Mar. — Logo seus corpos serão apenas uma mancha de sangue, mas o teu… Eu quero rasgar com minhas próprias mãos

— Eu só vou avisar uma vez — rosnou Segunda. — Não faça nada às minhas irmãs.

— Este é meu santuário, ninguém me ameaça no meu santuário.

— Está enganada, Dama do Mar — sorriu Segunda um sorriso dolorido. — Não consegue sentir?

O sorriso da Dama do Mar se desfez. Alguma coisa estava errada, alguma força estranha estava penetrando no santuário.

— O feriado está acabando, nobre senhora, imagine a quantidade de mortais que está resmungando e se irritando neste momento. Quantos estão experimentando o sublime momento em que se lembram que hoje é segunda-feira e que amanhã precisam voltar para o trabalho — Segunda parecia sentir o gosto doce de cada palavra que dizia. — No coração dos mortais segunda-feira começa na noite de domingo e não existe nada mais forte do que o sentimento da noite de domingo em uma segunda.

— Impossível! Nada pode penetrar meu santuário!

— Quem está no meu santuário é você, Dama do Mar — uma força terrível emanava de Segunda-feira. — Nós Damas da Semana temos um dia para cada uma, um santuário de vinte e quatro horas, mas só eu consigo canalizar a energia do santuário… Por que só eu posso dividir o poder com minhas irmãs.

Quarta sentiu uma força externa tomando conta do seu corpo.

— Segunda está me mandando energia, acho que consigo tirar a gente daqui — disse Quarta-feira.

— Me tira primeiro Quarta — adiantou-se Sexta. — Quinta, me acelera.

— Só preciso de um instante pra me concentrar– ao dizer isso Quinta fechou os olhos, o semblante de dor levou poucos segundos para desaparecer, a conexão com a irmã estava completa. Uma batida eletrônica tomou conta da caverna, forte, alta e cada vez mais acelerada. Em um nível que tornava a música um ruído quase incompreensível

Quarta tirou Sexta de dentro do turbilhão. Quando a jovem Dama ficou livre deixou a música invadir o corpo. A música da irmã sempre causava uma sensação maravilhosa, ela sentia o coração acelerar, a vontade de dançar era quase irresistível.

— Quebra aquela sereia fajuta, Sextinha — disse Quinta com um sorriso raivoso.

Então o mundo parou. Sexta estava tão acelerada que o tempo parecia congelado. Em uma fração mínima de segundo ela chegou ao fundo da caverna, o ar deslocado foi suficiente para desfazer o turbilhão que envolvia Segunda-feira, mas ela estava só passando. Tudo que ela queria era dançar sobre a água, dançar sobre a luz por um instante, um instante que duraria quase uma eternidade. Fazer isso em uma velocidade tão alta criou um grande turbilhão e no meio dele estava a Dama do Mar. Poucos segundos depois ela estava no chão meio alagado, caída diante de Segunda e Sexta.

— Fazia tempo que eu não dançava tanto — disse Sexta ainda na euforia da música. — Tudo bem, Segunda?

— Vai ficar. Vai lá ver como estão as outras eu preciso conversar com nossa irmã sereia aqui.

Sexta ainda estava acelerada o suficiente para chegar onde as irmãs se recuperavam em um piscar de olhos. Segunda esperou a Dama do Mar se recompor.

— Me desculpe — lamentou Segunda. — Não queria apelar pra violência.

— Não precisa se desculpar, jovem Dama — disse a Dama do Mar em um tom brando. — Graças a isso posso gozar de um raro momento de lucidez. Meu santuário é um cárcere voluntário, aqui dentro não posso ferir ninguém… O que me pedes é uma maldição, Segunda-feira. Meu canto nasceu comigo, faz parte da minha natureza, não da sua. Aprendê-lo no seu estado é um convite ao desastre.

— Só preciso que funcione uma vez. Não me incomodo de abrir mão dele depois disso.

A Dama do Mar pegou um pouco de água com as mãos e modelou uma esfera. Uma bolha parcialmente cheia com um líquido esverdeado. Da bolha puxou dois cordões para formar uma gargantilha.

–Coloque isso no pescoço e o canto será seu — disse a Dama do Mar entregando o colar para Segunda. — Escolha bem o momento de usá-lo, terás apenas uma chance.

— Obrigado, Dama do Mar.

Ela sorriu em resposta, se ergueu na cauda de sereia e mergulhou no poço. Segunda correu para encontrar as irmãs.

— Alguém ferido? — perguntou Segunda.

— Só o orgulho — respondeu Terça. — Conseguiu alguma coisa?

— Sim, mas eu conto no caminho. Quarta, tira a gente daqui.

— Nem precisa pedir duas vezes. Aqui tem muita interferência pra abrir uma passagem, segurem em mim.

Um piscar de olhos depois e elas não estavam mais lá.

Contos de Segunda #50 – Parte 01

Essa é a terceira parte da história da Dama da Segunda-feira. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

Desde tempos imemoriais as Damas escolhem entre os mortais aqueles dignos de receber uma porção de seus poderes. Uma dádiva que está além da imaginação de qualquer mortal. Foi para finalmente encontrar um Cavaleiro que a Dama da Segunda-feira resolveu procurar pela Dama do Mar e aprender o seu canto de sereia.

    — Por que a gente nunca viaja de carro? — Perguntou Sexta-feira.

    Era uma segunda-feira de feriado. As Damas da Semana tinham entrado em uma passagem dimensional criada por Quarta-feira e saído em uma pequena cidade litorânea.

    — Eu gostava mais quando a gente viajava antigamente — resmungou Quinta-feira. — Parece que vocês não gostam mais de juntar as irmãs.

    — Estamos prestes a cometer um crime, temos uma irmã que consegue dobrar o tempo e o espaço e outra que está quase pirando — disse Terça-feira contando nos dedos.

    — Ei! — Interrompeu Segunda-feira. — Eu não estou pirando… Pelo menos ainda não.

    A verdade é que aquele feriado tinha drenado tanto das energias excedentes de Segunda que ela sentia a cabeça funcionando muito melhor do que nos últimos dias.

    — Isso é maluquice — disse Quarta-feira como se falasse sozinha. — A Mãe vai transformar a gente em pó.

    — Não se a gente fizer rápido — rebateu Terça. — E agora, Segunda?

    — Peguei uma dica com uma Dama do Rio que é minha aluna de literatura. Ela contou que nessa praia tem uma trilha que só uma Dama pode enxergar, se seguirmos a trilha chegamos ao santuário da Dama do…

    — Santuário!? — interrompeu Quarta com o sangue fugindo do rosto. — E eu pensando que a Mãe ia nos matar. A gente vai morrer antes!

    — Relaxa que a gente já entrou em outros santuários — tranquilizou Sexta.

    — Um ou dois, Sexta, e eles estavam vazios — lembrou Quinta.

    — Uma Dama é absoluta em seu santuário, Segunda — disse Terça olhando nos olhos da irmã. — Ela é mais antiga do que a gente e praticamente invencível em seu lugar de poder. Tem certeza que quer fazer isso?

    Apenas o silêncio respondeu à pergunta da Dama. Segunda sabia do perigo de enfrentar uma entidade tão poderosa em seu território, mas o tempo corria contra ela e as alternativas eram poucas.

    — Coloquem os biquínis e me esperem na praia — disse Segunda com um tom sério. —  Volto assim que achar a trilha. Tentem não chamar atenção

    Segunda sumiu antes que as irmãs pudessem questionar. Para as quatro que ficaram só restou acatar as ordens e partir para a praia.

    A areia estava lotada. A maré estava alta e a área disponível para os guardassóis estava drasticamente reduzida. Mesmo fora de seus dias correspondentes, as Damas da Semana emanavam poder suficiente para chamar a atenção de todos os mortais, alguns já estavam completamente enfeitiçados pela beleza feérica do quarteto.

    — Temos que ficar separadas — disse Quarta. — Mais tempo juntas e metade da praia vai entrar em transe.

    — Preciso me conectar às forças que circulam nesse lugar — disse Terça tirando da bolsa uma placa que dizia “LEIO SUA MÃO! É GRÁTIS”. — Não estou conseguindo sentir o futuro direito. Vou ficar no calçadão lendo mãos.

    — Vi um quiosque logo ali que parece ter umas bebidas interessantes, acho que vou para lá — completou Quarta.

    — Você quer dizer umas bebidas caras, né? — Desdenhou Quinta. — Eu ouvi música em algum lugar. Eu e Sexta vamos seguir o rastro do som.

    — Não se preocupem em chamar atenção, tá todo mundo olhando pra mim — provocou Sexta.

    Algumas horas se passaram antes de Segunda convocar as irmãs. Quando elas sentiram uma vontade incontrolável de ir para a parte mais deserta da praia, sabiam que era a irmã mais velha chamando. O mar castigava as pedras e a maré ainda não tinha revelado nenhuma trilha.

    — Segunda — disse Terça. — Temos que esperar a maré baixar.

    — Não — respondeu Segunda. — A maré aqui nunca baixa. Faz horas que chegamos e a maré não diminuiu um centímetro.

    — Mas e a trilha? — Perguntou Sexta.

    — É uma trilha que apenas uma Dama pode ver — lembrou Quinta. — A água é para afastar os mortais, não outras Damas.

    Quinta andou em direção às pedras. A cada passo que dava a água se abria diante dos seus pés. Poucos passos depois e já era possível ver uma grande fenda no meio do paredão rochoso. As outras seguiram atrás, pouco tempo depois estavam todas dentro da caverna. Durante alguns minutos elas andaram pelo chão de rocha úmida, nenhuma luz do sol chegava ali, mas algo no fundo da caverna mantinha o ambiente iluminado. Antes de chegarem à fonte de luz uma voz fez as cinco congelarem.

    — O que temos aqui? Cinco Damas — as silabas eram ditas lentamente, o som escorregava para dentro dos ouvidos delas. — Tão jovens, tão belas… Espero que tenham um bom motivo para invadir meu santuário… Ou vou esquecer que não gosto de matar minhas irmãs.

 

Contos de Segunda #49

Vocal, Guitarra, Baixo e Bateria.  Na opinião de muitos, apenas isso é suficiente para fazer o bom e velho Rock n’ Roll. Como os quatro elementos da natureza eram as quatro meninas que formavam o 4Ladies, provavelmente a banda de rock composta apenas por garotas mais desconhecida da face do planeta Terra. Mas isso estava prestes a mudar.

— Vamos ver o que temos aqui — disse o delegado. — Quatro menores de idade invadiram um prédio desocupado, fizeram uma ligação clandestina de energia, provocaram a interrupção das aulas de uma faculdade, dois cursos pré-vestibulares e uma escola técnica e…

— A gente só tava fazendo nosso som, esse pessoal parou porque quis — interrompeu Bateria.

— Cala a boca, Bateria! — Gritou Guitarra. — Quer ser presa de verdade?

— Quietas, meninas — disse Vocal. — Desculpa, seu delegado. A gente não quer causar mais problema.

— Fico comovido com a sua consideração… — o delegado olhou para os documentos da mesa — Ivone, não é? E as outras são Bárbara, Agnes e Laila, certo?

— Isso mesmo delegado… Gostamos mais de Vocal, Bateria, Guitarra e Baixo, mas pode nos chamar como quiser.

— Ótimo, sou péssimo com nomes — o delegado olhou para as meninas por alguns segundos antes de continuar. — Podem me dizer o que diabos aconteceu?

— A gente só queria tocar, delegado, só isso — adiantou-se Bateria.

— Para de falar desse jeito ou a gente vai acabar se dando mal de verdade — repreendeu Guitarra, ela respirou fundo e continuou. — A gente começou a banda tem pouco tempo, delegado. Ninguém conhece a gente aí… A gente pensou em… Tipo, sei lá… Fazer alguma coisa pra ficar conhecida.

— Então vocês invadiram um prédio desocupado, fizeram uma ligação de energia clandestina até o telhado, armaram os equipamentos e fizeram uma apresentação que foi ouvida num raio de no mínimo duzentos metros.

— Não foi bem assim que aconteceu — explicou Vocal. — A gente meio que tinha a chave, então na prática não foi bem uma invasão.

— O prédio é meu, delegado — interrompeu Baixo. — Meu avô comprou e colocou em meu nome, por isso eu tenho a chave.

— Olha aí, a gente não fez nada de errado — cortou Bateria. — Acho que é melhor soltar a gente por causa das coisas de criança e adolescente.

— Para de falar, Bateria, tá piorando tudo — rosnou Guitarra entre os dentes cerrados. — Se for prender alguém prende ela, delegado. A gente tá colaborando aqui, ela que tá de desacato.

A paciência do delegado estava por um fio. Vocal notou a fúria crescente do homem e decidiu intervir.

— A gente teve essa ideia, mas não sabia bem o que estava fazendo, delegado — começou Vocal. — A gente usou energia de uma… Como se diz mesmo? Instalação provisória feita pelo pessoal que tá reformando o prédio. A gente arrumou um sistema de som, mas não sabia que ele era tão potente… A gente só queria chamar a atenção da galera da faculdade… O plano era tocar num dos intervalos entre as aulas e como o prédio da faculdade é bem mais alto, muita gente ia ver…

Que nem os Beatles — interrompeu Bateria. — Ou a banda do Homer Simpson.

— Eu vou dar na cara dessa menina — explodiu Guitarra. — Para de interromper os outros, a gente vai se complicar por sua causa.

— Cala a boca, Guitarra — desdenhou Bateria. — Essa raiva toda é só por que na hora do solo saiu tudo errado.

Guitarra não respondeu, partiu pra cima da amiga com tudo e se não fosse por Vocal e Baixo a briga teria começado ali mesmo.

— CHEGA! VOCÊ DA BATERIA PRA FORA! CANTORA, FORA TAMBÉM! AQUI DENTRO SÓ A DONA DO PRÉDIO E A DA GUITARRA, NÃO QUERO NINGUÉM BRIGANDO NA MINHA DELEGACIA! FORA!

O delegado bufava de raiva e estava mudando de cor algumas vezes por segundo. Ele buscou dentro de si o último traço de tranquilidade e agarrou-se nele. Quando a cor do delegado parecia normal novamente Guitarra começou a falar.

— Foi mal, delegado, é que quando eu erro…

— Você, — ele apontou o dedo para guitarra — quieta. Agora, dona do prédio, me convença a liberar vocês.

— Senhor delegado, o senhor tem que concordar que não cometemos nenhum crime de fato — explicou Baixo. — O proprietário do prédio autorizou a entrada e se a ligação de energia é irregular quem deve ser notificada é a empresa responsável pela reforma. Somos culpadas pelo barulho, mas entenda nosso lado, delegado, apenas queremos fazer nossa banda dar certo. Imagine o tanto de divulgação gratuita e espontânea nós estamos tendo neste momento com vídeos e fotos nossas sendo compartilhadas na internet. Acredito que a melhor saída é apreender nosso equipamento e liberá-lo mediante pagamento de multa, além de obviamente comunicar os nossos responsáveis.

Tanto o delegado quanto Guitarra estavam boquiabertos. Até Guitarra que conhecia Baixo desde criança estava surpresa como a amiga tinha conseguido tão facilmente pensar numa solução.

— Bem… Não é todo dia que aparece uma pessoa detida que apresenta uma solução razoável para sua situação — o delegado fez uma pausa para olhar os documentos. — Aguardem aqui enquanto falo com os responsáveis de vocês e vejo a questão da multa.

O delegado saiu e informou às duas meninas que aguardavam do lado de fora o que fora resolvido. Obviamente nenhuma das duas ficou muito feliz em saber que os seus pais seriam informados.

— Mandou bem, Baixo — disse Guitarra. — A gente vai se lascar um pouco, mas melhor que ser presa.

— Sem falatório, Guitarra — disse Baixo sacou o celular. — Aproveita enquanto o delegado não volta e sai procurando qualquer vídeo ou foto da gente na internet — Guitarra entendeu o recado, deu um sorriso e puxou o celular do bolso. — A gente vai dizer a todo mundo que essa bagunça toda é culpa nossa. Todo mundo tem que saber que é culpa das 4Ladies.

Contos de Segunda #48

    Fernanda estava muito feliz. Quando chegou em casa depois de uma segunda-feira de trabalho foi recebida por um e-mail de uma loja de sapatos. Promoções exclusivas para aqueles que clicassem no link. Fernanda clicou e poucos minutos depois estava sorrindo de orelha a orelha por causa do tamanho do desconto em um salto alto, que não só era a sua cara, mas também refletia vários aspectos interessantes de sua personalidade. Ele foi adicionado ao carrinho, Fernanda clicou em “Finalizar Pedido”, colocou o e-mail, a senha e os problemas começaram.

“Senha Incorreta”. De fato fazia muito tempo que Fernanda não comprava nada no site, esquecer a senha cadastrada era perfeitamente compreensível, por isso ela clicou em “Esqueci Minha Senha” e ficou esperando a senha provisória chegar. Um minuto, dois, ela olhou na caixa de spam e não tinha nada. Cinco, dez minutos se passaram e nada do e-mail com a senha. Ela foi lá e clicou novamente em “Esqueci Minha Senha” e dois minutos depois o sangue de Fernanda estava começando a ficar perigosamente quente. Antes de clicar pela terceira vez em “Esqueci Minha Senha” ela notou que tinha escrito “fermanda” e não “fernanda” no endereço de e-mail. Corrigido esse erro o sistema aceitou a senha e a página de confirmação dos dados e pagamento abriu. Tudo bem quando acaba bem… Ou seria se tivesse acabado.

Fernanda resolveu alterar o endereço de entrega, ela queria receber a encomenda no trabalho. Preencheu o novo endereço de entrega e os dados do cartão de crédito. A felicidade começou a voltar quando lembrou que a loja mantinha um estoque na cidade e a encomenda chegaria bem rápido. Dados conferidos, era só clicar em “Finalizar Pedido”. Ela clicou. A página exibiu o que estava sendo processado e… Ficou na mesma. A curta paciência de Fernanda só a permitiu clicar mais duas vezes.

Na terça-feira uma notícia tomou conta dos jornais. Uma mulher não identificada invadiu o galpão onde uma famosa loja de calçados na internet tem o seu estoque. Todos os seguranças foram desacordados e os cães de guarda foram encontrados apavorados, como se tivessem visto algo muito assustador. Nada foi roubado, apenas um par de sapatos de salto alto, mas segundo as informações divulgadas foi encontrada no local uma quantia em dinheiro, exatamente o valor do par de sapatos no site. O dinheiro foi encontrado dentro de um envelope onde se lia “EU TENTEI”.

Contos de Segunda #47

   Horácio era um assassino da máfia. Era assim que ele se enxergava, apenas um assassino da máfia. A máfia enxergava Horácio como o pior assassino de todos os tempos. Não que ele fosse um capanga incompetente, muito pelo contrário. Horácio era excelente em intimidação, cobrava dinheiro como ninguém, era treinado em todas as modalidades de briga de rua, dirigia como um verdadeiro piloto e tinha contatos em todos os lugares… Só não servia para matar os outros. Tanto que ele era sempre a última opção para esse tipo de serviço. Quando todos os matadores estavam impossibilitados de matar ligavam para Horácio.

    — Horácio, preciso que você faça um serviço — disse a voz do outro lado do telefone.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio.

    — Sabe o cara da alfandega? Ele pisou feio na bola, preciso que você garanta que essa foi a última vez que ele nos deixou na mão.

    — Não seria melhor só dar um susto no cara?

    — Ele já levou susto demais. Acabou a festa pra ele. Serviço limpo e discreto, Horácio, você é meu único homem na rua hoje.

    — E o resto do pessoal, chefe?

    — O fim de semana foi movimentado, Horácio, precisei dar uma folga pros meninos. Essa demanda apareceu de última hora, se não fosse urgente eu não te pedia. Só resolve isso, ok?

    A ligação foi encerrada antes que o pobre capanga pudesse argumentar. Pelo menos esse alvo seria mais fácil de eliminar do que os outros, o alvo em questão se chamava Carlos, tinha 58 anos e um problema na perna que o impedia de correr. Horácio entrou no carro e partiu para o porto.

    O escritório da alfandega ficava em uma das partes menos movimentadas do porto e como Carlos gostava de fazer hora extra, não seria difícil pegá-lo sozinho. O relógio marcava nove da noite quando o alvo finalmente saiu do escritório em direção ao carro. Horácio estava encostado na porta esperando por ele.

    — Boa noite, Carlos.

    — É… Boa noite… Horácio, não é? Transmita meus cumprimentos ao seu empregador e diga que já estou trabalhando para resolver o imprevisto de hoje.

    — Isso é ótimo, Carlos, mas meu empregador resolveu adotar medidas mais, digamos, permanentes.

    Horácio sacou a pistola. Um serviço limpo e discreto, foi o que o chefe solicitou. Normalmente isso significa um tiro na testa com uma pistola silenciada ou a simulação de um acidente, nenhuma testemunha. O capanga era um péssimo atirador, mas normalmente não errava a uma distancia tão curta. Fez mira e puxou o gatilho… Nada. Carlos olhou incrédulo para seu algoz. Outra tentativa… Nada. Depois da terceira Horácio lembrou de destravar a pistola. A essa altura Carlos já estava correndo o máximo que sua perna defeituosa permitia, bem mais do que Horácio esperava.

    O pobre funcionário da alfandega corria sem saber bem para onde. Os galpões estavam fechados, assim como os escritórios, a única saída era se jogar no mar e esperar que o assassino se contentasse com sua possível morte. Um tiro passou zunindo pela orelha de Carlos, ele começou a correr mais rápido. Outro disparo, o tiro passou raspando no ombro do futuro defunto, ele começou a chorar. A água não estava tão longe, o assassino estava cada vez mais perto.

    Então viu-se uma luz. Ouviu-se um barulho de freio e uma batida. O motorista do caminhão de presunto não esperava um senhor meio manco cruzando seu caminho naquela noite. Não conseguiu evitar, acertou o pobre Carlos em cheio, arremessando o pobre coitado algumas dezenas de metros na frente. Quando a ambulância chegou o coitado já tinha parado de respirar fazia um bom tempo.

    Horácio esperou até a ambulância chegar. Ele ligou para o contato no IML, dez minutos depois o contato ligou informando que um carro já estava a caminho do local. Finalmente Horácio podia comemorar a eliminação de um alvo e o melhor de tudo: ele não precisou matar ninguém.

Contos de Segunda #46

Todo o plano de Luciana e Roberta para juntar Jorge e Cristina não começou hoje. Esse conto, além do retorno de Jorge e Cristina à nossa série semanal,  é uma continuação dos Contos de Segunda#34, Contos de Segunda #42 e Contos de Segunda #44.

— Você e seu rolo atual vão jantar no dia dos namorados, mas em vez de aproveitar o romantismo de um momento a dois comendo sushi, vocês vão articular um blind date comigo e um amigo dele.

    Era sexta-feira. O dia dos namorados daquele ano caía no domingo e Luciana estava tentando convencer Cristina a não passar o dia 12 sozinha em casa. As duas estavam almoçando, Luciana resolveu comer um sanduíche, ela sabia que Cristina comeria alguma salada complicada que deixaria metade do cérebro dela ocupado durante a refeição. Quando o sanduíche terminou o prato de salada ainda estava na metade.

    — Falando desse jeito até parece um absurdo, Cristina. Minhas intenções são puras e minhas ações movidas exclusivamente pelo sentimento sincero que eu nutro por você – uma dose cavalar de teatralidade estava depositada em cada palavra.

    — Sei lá, Luciana. Não tô no clima de romance ultimamente, principalmente quando aparece uma oferta pra segurar vela em dupla — apesar da complicação da salada o cérebro de Cristina estava funcionando melhor que o esperado.

    — Vai ser legal, amiga. Preciso que você vá lá pra aprovar meu guitarrista. Lembra dos meus outros namorados? Graças a você eu me livrei de dois malucos, um eco terrorista e um fanático por futebol. Nunca namorei um músico, sua avaliação se faz necessária… E vai ser de graça.

    Cristina revirou os olhos como se procurasse uma solução dentro da própria cabeça. Olhou para o prato de salada, mas o alface não parecia ter uma solução escrita nas folhas. Ela respirou fundo, olhou Luciana nos olhos e disse:

    — Tá bom, tá bom — ao ouvir essas palavras Luciana bateu palmas eufóricas de satisfação. — Mas você tem que me garantir que esse amigo não é um daqueles malucos de academia, nem um que vai votar em Bolsonaro, nem daquela galera do “ain, não tinha isso no livro” e nem aqueles malucos por quadrinhos — cada um dos tipos proibidos era contado nos dedos.

    — Relaxa, gata. Pode ter certeza que o cara é perfeito pra você.

    — Já te disse pra não me chamar assim

    — Assim como?

    — “Gata”. Vi em algum lugar que não se deve confiar em uma mulher que chama a outra de “gata”, acabei ficando com isso na cabeça. Não sei se isso tem fundamento, mas por via das dúvidas não me chame desse jeito.

    O dia 12 não demorou para chegar. Era fim de tarde quando Luciana colocou a chave do carro na mão do manobrista. O restaurante japonês não era tão grande, mas era bem refinado. Em condições normais seria impossível conseguir uma reserva para o dia dos namorados tão em cima da hora, mas o guitarrista de Luciana faria uma apresentação no restaurante às oito da noite, de alguma forma aquilo ajudou com a reserva. Pouco depois de cruzar a porta um rapaz se aproximou para atendê-las.

    — Boa tarde, senhoritas. Qual o nome que está na reserva?

    — Boa tarde — respondeu Luciana. — A reserva está em nome de Fábio. Imagino que ele já esteja por aí.

    — Está sim, me acompanhem por favor.

    O rapaz conduziu as duas até chegar a um salão. Próximo do bar estava um pequeno palco onde uma moça tocava piano e cantava. Cinco mesas antes do palco estavam Fábio e seu amigo. Os dois conversavam empolgados e não notaram as moças até que as duas estivessem bem perto.

    — … Eu tô dizendo, meu velho, essas coisas só funcionam na televisão e… Olha elas aí — disse Fábio.

    Instintivamente o outro homem da mesa se virou ainda achando graça da conversa interrompida. Em uma fração de segundos o ar de riso foi convertido em uma cara de velório. A reação de Cristina não foi muito melhor.

    — Ah, não… — Disse ela baixinho. — Oi… Jorge.

    — Cristina, que… Surpresa — o olhar de Jorge foi desviado imediatamente para Luciana. — Não sabia que a menina de quem Fábio estava falando era você, Luciana.

    — É sempre bom te ver também, Jorge. A gente chegou muito cedo, Guitarrista?

    — Na hora certa, Lulu — Fábio se levantou, deu um beijo no rosto de Luciana e ofereceu a cadeira ao lado de Jorge. — E você é Cristina. Sou curioso pra te conhecer faz tempo.

    — Digo o mesmo, Fábio. Não sabia que você e Jorge eram amigos — respondeu Cristina sentando de frente para Jorge, o olhar dos dois se encontrou por um instante. Ele estava tão raivoso quanto ela.

    — Então, Luciana, foi Roberta que apresentou vocês dois? — Perguntou Jorge desbloqueando a tela do celular.

    — Ela me levou pra um ensaio do casamento do irmão dela e a gente se conheceu lá.

    — Ah, é mesmo? — Os dedos de Jorge digitavam rapidamente uma mensagem para Roberta. “Você não devia ter se metido nisso, Roberta”.

    — Eu não tinha sido convidada pro casamento e estava curiosa sobre a banda. Cristina não topou me levar de penetra e Roberta acredita piamente que o irmão dela me detesta.

    — Tenho a forte impressão que o irmão dela também acredita nisso — interrompeu Cristina enquanto enviava uma mensagem para Roberta. “Vou te enforcar com as tuas tripas, Roberta”.

    — Se vocês me dão licença, eu vou no banheiro e volto logo — disse Jorge olhando diretamente para Cristina.

    A moça entendeu a deixa. Jorge podia estar no topo da lista negra, mas eles precisariam trabalhar juntos pra sair dessa situação.

    — Eu vou dar uma passada no bar, estou com planos de ficar meio bêbada, melhor começar cedo.

    Os dois seguiram caminhos distintos. Jorge partiu em direção ao banheiro, mas antes disso entregou um cartão a um garçom qualquer pedindo para entregá-lo à moça que estava chegando no bar. Assim que o cartão chegou Cristina discou o número.

    — Se você tiver alguma coisa a ver com essa história… Alguma coisa com saquê e morango, por favor. Se você estiver no meio disso, Jorge, pode ter certeza que eu te mato antes de matar Roberta.

    — Me mata depois, aí eu te ajudo a esfolar Roberta viva. Eu convenci Fábio a tocar no casamento do irmão dela e é assim que ela me paga.

    — A culpa só podia ser tua, Jorge. Deus queira que esse teu amigo da guitarra não tenha muita coisa pra contar a Luciana.

    — Relaxa que Fábio sabe menos coisa do que Luciana, pelo menos sabia. A gente precisa de um plano.

    — Depois dessa mão-de-obra toda não tem plano? E Luciana ainda quer me juntar contigo, sinceramente.

    — E ainda me perguntam por que eu não gosto de você… Fábio toca às oito, são dez pras seis. Imagino que ele vai sair da mesa pelo menos meia hora antes…

    — Eu não vou ficar mais de duas horas olhando pra tua cara, Jorge. Antes disso eu pulo no pescoço de Luciana e a gente vai daqui pra delegacia ou pro hospital… Tais de carro?

    — Sim. E pelo jeito da pergunta Luciana é a tua carona.

    — Foco na solução, Jorge. É só a gente dar um jeito de disfarçar e depois dá uma escapulida. Eu fico no bar e você finge que tá com dor de barriga.

    — Por que eu tenho que fingir que estou com cag… Dor de barriga? É só eu ir pro bar também, digo que quero ver a pianista de perto.

    — Nós dois no mesmo lugar e eles não vão tirar os olhos da gente. Vou voltar pra mesa, lá a gente pensa em alguma coisa.

    Meia hora se passou. Luciana e Fábio pediram sushi, Jorge não pediu nada e Cristina resolveu não tomar mais nada alcoólico. A tensão da mesa era crescente. Luciana e Fábio pareciam estar se divertindo muito com toda a situação, enquanto Jorge e Cristina estavam se sentindo feras enjauladas.

    — Jorge, já comeu desses sushis com camarão? — Perguntou Fábio. — Eu acho meio estranho.

    — Esqueceu que eu sou alérgico? Se eu colocar um camarão na boca já começo a ter reação.

    — Sério? — Perguntou Luciana genuinamente surpresa.

    Cristina olhou para Jorge. Quando ele olhou de volta ela indicou o camarão com os olhos. Ele fez “não” com a cabeça, ela fez “sim.

    — Sério, Luciana. Vê só — antes que alguém pudesse ver Jorge jogou um pedaço de camarão dentro da boca, mastigou duas vezes e cuspiu.

    Imediatamente a língua dele dobrou de tamanho, o rosto ficou vermelho e estava começando a inchar.

    — Meu Deus, Jorge! — Gritou Cristina da forma mais exagerada que ela pode. — Tá doido? A gente tem que te levar pro hospital.

    — Assho que ffffim — respondeu o pobre Jorge.

    — Me dá a chave do carro, eu te levo — disse Cristina. — Fábio precisa tocar e Luciana leva ele depois.

    Os dois se levantaram e saíram correndo. Antes que Luciana e Fábio pudessem entender tudo, Cristina já estava dando partida no carro. Jorge abriu o porta-luvas, sacou um tubo de plástico, tirou uma ponta e cravou na perna. O antialérgico tinha sido rápido o suficiente para salvar Jorge de um possível choque anafilático. Cristina se colocou no caminho de casa, pouco antes de chegar lá Jorge conseguiu falar.

    — Você só pode ser doida, Cristina.

    — Não te obriguei a fazer nada, Jorge, mas não vou ser injusta com você. Parabéns pela coragem.

    — Não pensei muito, dois segundos a mais de raciocínio e a gente ainda estaria lá — o nervosismo na voz dele era perceptível.

    — A gente precisa dar um jeito nisso, Jorge, a situação tá fora de controle.

    — Segunda-feira a gente pensa nisso, Cristina. Esse remédio já tá me deixando com um sono inacreditável. Me deixa em casa que eu te coloco num táxi ou pego meu carro na tua casa amanhã cedo.

    — Eu que não vou pagar táxi, acabei de salvar tua vida. Mereço no mínimo uma carona, com ou sem você no carro.

    — Então considere isso como o seu presente… Feliz dia dos namorados, Cristina.

    Antes que ela pudesse responder Jorge já estava dormindo. Um sorriso surgiu no rosto da moça. Ela dobrou uma esquina e parou em um posto de gasolina, pegou o telefone de Jorge e ligou para a mãe dele. Ele dormiu antes de dizer onde morava.

Contos de Segunda #45

Erick caçava dragões. “Caçava”, hoje em dia não caça mais. Além de ser muito perigoso, muitas vezes chato e normalmente solitário, o sindicato conseguia deixar tudo ainda pior. Por causa de um dragão ele deixou essa vida de caçar dragão. Isso fez Erick e o dragão em questão se tornarem grandes amigos… Mas não ajudou a pagar as contas. Diante da perspectiva de falência, Erick deixou sua amizade com o dragão de lado e partiu em busca de trabalho.

    Ultimamente alguns reinos estavam em guerra e todo mundo estava meio perdido. Muitos fazendeiros estavam sem fazenda, soldados sem exercito, cavaleiros sem cavalo e taverneiros sem taverna. Muitas dessas pessoas acabavam fugindo para os reinos que estavam em paz e para organizar toda essa massa de trabalhadores os sindicatos fundaram um órgão regulador. Na falta de nomes melhores, as pessoas que trabalhavam nesse órgão ficaram conhecidos como ministros do trabalho. Justamente para encontrar esses ministros que Erick viajou para uma das maiores cidades do reino.

    O sol mal tinha saído quando o ex-caçador chegou ao portão principal e quase uma centena de pessoas já aguardava na fila. Vendedores ambulantes circulavam nos arredores vendendo pães, maçãs e carne seca, em algumas barraquinhas próximas era possível comprar cerveja e vinho, Erick pediu uma caneca de cerveja escura para o desjejum. Depois de um tempo suficiente para as pessoas que aguardavam ficarem todas amigas íntimas a fila começou a andar. Levou quase duas horas para Erick finalmente ser atendido pelo ministro.

    – Saudações, rapaz – disse Erick observando o jovem franzino sentado do outro lado da mesa. Um pergaminho em branco estava na frente dele e uma pena em sua mão.

    – Saudações, senhor. Em que posso ser útil?

– No momento procuro por um trabalho. Digamos que mudei de ramo recentemente e estou… Como posso dizer… Um pouco desinformado sobre as opções de ofício para um homem com as minhas habilidades.

O rapaz molhou a pena e se preparou para escrever.

– Como te chamas, senhor?

– Erick. Sem sobrenome, apenas Erick.

– Ocupação anterior, Erick?

– Eu caçava dragões.

O ministro levantou uma sobrancelha e encarou Erick por um instante. O couro do colete que ele usava sobre a camisa, a pele bronzeada, a queimadura no rosto e a cicatriz na testa confirmavam o que ele dizia.

– Entendo… – o jovem começou a escrever no pergaminho. – Quantos anos de experiência, Erick?

– Cinco anos de treinamento e serviço na sede do sindicato, três anos como caçador auxiliar operando catapultas e balistas e mais quatro como caçador titular, sendo um ano caçando totalmente sozinho.

– Tem familiaridade com quais tipos de arma, Erick? – A pena corria ligeira sobre o pergaminho.

– Espada, longa e de duas mãos, arco longo e de caça, martelo, mangual, machado de arremesso, lança de arremesso e longa. Minha especialidade é combater usando escudos de qualquer tamanho.

– Tens equipamento próprio, Erick? – A pena continuava frenética sobre o papel.

– Sim, é… Uma espada, um escudo revestido de couro de dragão, uma armadura leve feita com as escamas mais duras e uma cota de malha. Também tenho uma catapulta que pode ser convertida em balista, os documentos e a manutenção estão todos em dia.

– Alguma pendência com o sindicato?

– Creio que não. Meu desligamento ocorreu sem problemas.

– Sabes ler, Erick?

– O suficiente para entender as placas da estrada e as mensagens simples dos cartazes da cidade.

– Alguma habilidade adicional digna de nota?

– Trabalho bem com couro, principalmente de répteis, tenho bom senso de orientação, consigo viver durante longos períodos em regiões ermas. Sou acostumado a ambientes com temperaturas elevadas, toco alaúde e não tenho problemas de visão.

– Excelente – o ministro escreveu mais algumas linhas, parou e encarou o que estava escrito antes de continuar. – Erick, tuas opções são bem limitadas. Caso não queiras caçar outro tipo de fera, pode ajudar no treinamento dos patrulheiros da cidade. Nossos homens de armas mais habilidosos foram convocados para a fronteira por causa da eminência da guerra e os que patrulham a cidade têm pouca habilidade. Soube que os mercenários estão arrendando armas de cerco, caso esteja interessado. Nossos artesãos de couro não costumam ter uma demanda alta, mas nossos ferreiros costumam pagar bem para ajudantes que não desmaiam com o calor. Talvez alguém queira um guarda-costas, mas isso não posso garantir – o jovem derreteu um pouco de cera sobre o pergaminho e marcou com o anel. – Apresenta este documento quando procurares por trabalho. Tenha um bom dia e boa sorte na tua nova vida profissional.

Erick pegou o documento e saiu. A fila atrás dele parecia ainda maior, já passava e muito dos portões da cidade. Tantas pessoas procurando um rumo na vida deixaram o ex-caçador pensativo. Talvez ele seguisse alguma das indicações do ministro do trabalho, talvez seguisse todas, mas a vontade que tinha era de não seguir nenhuma delas. Pensou no que tinha conquistado até ali, no que tinha conseguido juntar para si e o que podia deixar de herança para seus possíveis filhos. Lembrou com uma certa saudade dos tempos antes da caça aos dragões. Lembrou de como era viver com a família cuidando de uma taverna e de como ele se imaginava fazendo aquilo no futuro… Ao lembrar daquilo Erick percebeu o que precisava fazer.

No outro dia ele retornou para a fila. Ficou nela desde o amanhecer até o sol se pôr. Chegou inseguro, passou o dia sorrindo e voltou para casa satisfeito. Ele passou o dia empurrando um carrinho com um panelão de ensopado. Por duas moedas a tigela era acompanha por meio pão, por três o freguês levava um pão inteiro e uma tira de carne seca de brinde e por dez era possível levar para casa uma escama de dragão como souvenir.

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