Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Tag: Trabalho

Contos de Segunda #8

— Preciso disso pronto pra segunda, Ferreira. Já autorizei as horas extras no sistema. Segunda de manhã, sem adiamento.

Foi isso que Ferreira ouviu antes de uma pilha de papéis aterrissar em sua mesa. Na sexta-feira. Às 17 horas. No exato instante em que o cursor do mouse estava a meio centímetro do botão de desligar. Na última vez em que os olhos dele passaram pelo relógio, o mesmo marcava 23 horas e 58 minutos do domingo. Dois minutos para a segunda-feira e o relatório que o chefe pediu estava bem longe do fim.

Ferreira passou os últimos 5 minutos encarando a tela do computador. Durante esse tempo ele tentou pensar em algum jeito de terminar o trabalho. Como não conseguiu pensar em nenhum, começou a pensar em formas de não terminar o trabalho e ainda assim continuar empregado. O último minuto foi dedicado a dar um jeito de dar uma arrumada no relatório de modo que ele parecesse terminado mesmo sem estar terminado. O que daria tempo para que de fato o relatório fosse terminado, mas essa última solução pareceu tão complicada quanto as outras duas. O relógio marcou 23:59.

Ele não tinha muito tempo, mais duas horas e o cansaço não o deixaria continuar, precisava pensar rápido. Mas só conseguia pensar no desemprego, na crise, na prestação da fritadeira sem óleo e na viagem que faria no fim do ano, que ainda estava sendo paga. Imaginou que talvez pudesse trabalhar com o pai no bar da família, afinal ele nunca gostou do trabalho no escritório. O relógio marcou 00:00 da segunda-feira.

00:00. Ferreira encarou o relógio até ele marcar 00:01. Um sorriso torto nasceu em seus lábios. Ele pendurou a bolsa no ombro, desligou o computador de qualquer jeito e saiu correndo. Chamou um táxi e foi pra casa. Chegando lá pegou alguma coisa pra beber na geladeira e fez um brinde imaginário. Olhou para o relógio na tela do celular e constatou que ele não cometido nenhum engano. Aquela segunda era mesmo feriado.

Me Sinto Responsável

Essa semana eu estava conversando com minha irmã sobre a minha falta de vontade de assistir alguma série de TV nova. Eu tenho o problema de sempre abandonar toda e qualquer série que eu assisto. Não importa se eu gosto ou não, sempre chega uma hora que eu paro de assistir e nunca mais volto, e isso me incomoda bastante. Dividi essa informação com minha irmã e ela foi bem taxativa em dizer que se eu estou pensando assim quer dizer que eu estou trabalhando mesmo sem estar trabalhando. Em seguida ela me falou sobre um vídeo que ela assistiu recentemente tratando desse assunto.

Antes de continuar vale a pena dar uma conferida no vídeo, ele se chama “When Does Play Becomes Work?“ e está em inglês e tem legendas também em inglês. Em resumo o carinha do vídeo fala sobre como a necessidade que criamos de consumir entretenimento faz com que, de certa forma, trabalhemos para os produtores de conteúdo. Ao nos tornarmos consumidores fieis de algum produto de mídia, seja ela qual for, arrumamos uma espécie de emprego. É sobre isso que eu quero falar, mas vou focar na minha experiência pessoal.

É muito difícil assistir/jogar/ler/ouvir 100% daquilo que queremos. Seja por falta de grana pra comprar ou falta de tempo pra consumir, nós vivemos “em débito” com alguma coisa. Não que realmente estejamos devendo, mas nos sentimos como se estivéssemos. Me pesa na consciência quando eu lembro das séries que eu deixei pra lá, mesmo sem nunca perder a vontade de assistir. Também me sinto mal quando olho todos os livros e quadrinhos que estão na minha estante e nunca foram lidos, sem contar os jogos que eu não terminei. Tudo isso me faz sentir responsável, mas pelo quê?

Será que é certo eu me sentir mal por isso? Será que eu estou transformando o meu entretenimento em uma obrigação? Até que ponto minha vontade de assistir, ler e jogar é genuína? A partir de que nível essa vontade se torna uma obrigação que eu criei com as coisas que eu gosto de consumir? Eu só sei que quando a diversão vira obrigação você precisa arrumar alguma outra coisa pra se divertir. Depois dessa divagação toda, gostaria de parafrasear minha irmã e dizer que não devemos nos desanimar por abandonar uma série (ou seja lá o que for), ela sempre acaba voltado pra gente.

Contos de Segunda #5

O despertador tocou de novo. Era o terceiro alarme. Foi quando Marcelo acordou. Ele sabia que estava atrasado, também sabia que só pessoas desempregadas podem fazer festa até tarde no domingo de noite sem sofrer nenhum prejuízo. Mas Marcelo não estava nem aí. Pela primeira vez na história seu time do coração levantou a taça de campeão da segunda divisão do campeonato estadual. Isso merecia uma comemoração. Mas comemorar tanto quanto Marcelo comemorou era um pouco de exagero. Principalmente por que aquela era a sua segunda semana no novo estágio.

Ele caminhou até o espelho, olhou atentamente para o reflexo e se sentiu reprovado no teste do espelho. Sua semelhança atual com um paciente terminal de seriado médico o fez desistir totalmente de aparecer no escritório. Mas a pergunta era: como faltar sem queimar o filme?

A primeira opção era o bom e velho atestado médico, mas Marcelo tinha “RESSACA” escrito na testa e a segunda era um dia difícil pra conseguir atestados do jeito tradicional.

Marcelo tinha um amigo médico. Normalmente ele não ajudava com atestados fraudulentos, mas ele também estava feliz com o título de campeão da segunda divisão do estadual. Talvez ele abrisse uma exceção. Talvez, se ele não estivesse tão acabado quanto Marcelo, a diferença entre os dois é que o médico não precisava acordar cedo, tanto é que não acordou. Na quinta ligação o atestado médico foi riscado da lista de soluções possíveis. A segunda opção era que alguma catástrofe urbana estivesse acontecendo no caminho até o estágio. Depois de uma rápida busca em sites de notícia a possibilidade de ter um protesto, acidente ou greve interrompendo o transito foi descartada. O jeito era chegar lá e tentar convencer os outros de que a ressaca, a falta de sono e a cara de de desastre eram um tipo novo de virose.

Marcelo se arrumou o melhor que pôde, meteu os óculos escuros no rosto, respirou fundo e partiu. Durante todo o caminho ele rezou para todos os deuses e santos que ele conhecia. Refletiu sobre como o fanatismo pelo seu time estava atrapalhando sua vida e que não seria uma boa idéia adicionar um estágio de uma semana ao currículo. Mas ao descer do ônibus a primeira coisa que ele viu foi o cordão de isolamento dos bombeiros. O prédio onde ele trabalhava estava sendo evacuado. Segundo o corpo de bombeiros uma máquina de fotocópias explodiu ao tentar ser operada por um dos coordenadores da empresa. Testemunhas afirmam que o estagiário que fazia as cópias estava atrasado, o que levou a uma operação errada da máquina, resultando no acidente. Ninguém ficou ferido, fato que fez Marcelo permitir que um sorriso brotasse em seus lábios. Diante daquela situação ele só podia dar meia volta e partir pra casa.

 

Contos de Segunda #4

Em uma estrela distante orbitava o planeta Pix221. Nesse planeta habitava Radrax, um jovem que sofria com um problema que ninguém em seu planeta conseguia explicar. De tempos em tempos Radrax ficava mau humorado, não tinha paciência e apresentava níveis de preguiça incompatíveis com os demais indivíduos de sua raça.

A família de Radrax era pioneira na exploração espacial. Por gerações eles foram por todos os pontos da galáxia mapeando os sistemas e registrando os planetas. Porém as variações de humor de Radrax não inspiravam confiança aos seus superiores do programa espacial. A continuidade do legado de sua família estava em jogo. Ele começou a investigar.

Pelo que ele podia lembrar tudo isso começou quando seu pai retornou de uma longa viagem de exploração. Foram sete anos. Na volta ele foi presenteado com um pequeno tubo metálico preso em uma corrente, levava a corrente no pescoço desde então. Segundo o pai lhe dissera, aquela era uma lembrança do dia em que ele havia chegado no ultimo planeta que visitara. A tradição dizia que o conteúdo só podia ser revelado quando quem recebeu o presente deixasse Pix221 pela primeira vez. Mas a tradição deveria ser deixada de lado.No interior do tubo havia uma folha de papel. Nessa folha havia algo escrito num idioma e um valor representado no sistema numérico alienígena. Segundo seu pai, aquela era a representação do dia de sua chegada segundo os padrões de registro dos habitantes daquele planeta. Aquilo devia ter algum significado.

Nos dados divulgados sobre a missão não havia nada que pudesse ser relacionado, mas nos diários da missão havia uma observação bastante curiosa.Nos registros da missão seu pai relatou que os seres inteligentes daquele planeta eram afetados pelos marcos utilizados para registrar a passagem do tempo. Algo mexia com eles deixando-os irritados, preguiçosos e impacientes, mas em outros momentos eles se mostravam eufóricos, bem humorados e dispostos. O conteúdo do tubo era um marco cronológico. De alguma forma ele estava afetando Radrax e só havia uma forma de remediar isso.

Ele pegou uma nave. Definiu o curso para o terceiro planeta mais próximo de uma estrela distante e avisou para seus superiores que só voltaria para Pix221 depois de devolver aquele maldito papel para seu lugar de origem e retornar com um marco cronológico chamado “Sexta-feira”.

Contos de Segunda #2

“É segunda-feira, mas não é o fim do mundo”, era isso que Maurício sempre falava pra si mesmo toda segunda de manhã antes de sair pra trabalhar. Até que de fato o mundo acabou. Segunda passada foi o início do fim dos tempos, e depois de uma sequência inacreditável de hecatombes como desastres naturais, guerras nucleares, infestações de zumbis, epidemias de super bactérias, colapso social e ondas de barbárie o mundo acabou.. Se Deus queria dar um fim pro mundo ele estava realmente apressado. Muito provavelmente por um motivo bastante simples: o primeiro dia depois do fim do mundo precisava ser uma segunda-feira.

Naquela manhã Mauricio se levantou pensando no que iria fazer. Se tem alguma coisa que te deixa sem muitas opções ela perde feio pro fim do mundo nesse quesito. Estava rolando um boato na vizinhança de que algumas pessoas estavam se organizando no centro da cidade. Doze quilômetros a pé por dentro de uma antiga área ocupada por zumbis. Atualmente só os arruaceiros matadores de zumbi viviam por lá, mas os zumbis estavam extintos e a maioria dos arruaceiros não queria mais fazer arruaça. A área ainda mostrava as consequências dos tempos  áureos em que o problema dos zumbis estava em alta, na terça-feira passada. Na falta do que fazer ir para o centro parecia ser a melhor opção

O caminho pro centro na manhã do primeiro dia útil da semana continuava tão ruim quanto era no mundo que acabou. As pontes que ligavam o centro às outras partes da cidade estavam com a estrutura comprometida por isso todos que precisavam atravessá-las faziam isso devagar e em pequenos grupos. Isso deixou o caminho pela ponte bem “congestionado”, juntamente com o protesto de religiosos enfurecidos de um movimento que reivindicava o direito de ir para o paraíso antes ou durante o fim do mundo.

Ao chegar no centro ele encontrou com uma movimentação meio acelerada de pessoas nas ruas. Algumas carregavam sacos com alimentos, outros com pedaços de escombros que ainda tinham alguma serventia eram acompanhados por pessoas com ferramentas. Não demorou muito para que ele fosse notado por alguém que estava organizando os trabalhos. Ele disse:

Procurando por trabalho? É só passar no Departamento Pessoal, lá eles encontram uma coisa pra você fazer.

Naquele momento Maurício precisou se conformar com o fato de que apesar do fim do mundo a segunda-feira continuava a mesma coisa. Enquanto esperava para ser atendido pelo Departamento Pessoal olhou ao redor, respirou fundo e pensou.

“Podia ser bem pior. É segunda-feira, mas não é o fim do mundo, isso foi na segunda-feira passada”.

Contos de Segunda #1

Armando estava se aposentando. Trabalhava na mesma empresa há quinze anos e era considerado um funcionário exemplar. Pontual e com pouquíssimas faltas ao longo desses anos todos. Ele não andava muito satisfeito com o trabalho, mas a eminencia da aposentadoria estava fazendo maravilhas com seu humor. Pelo menos até a ultima sexta-feira, quando ele notou que segunda seria seu ultimo dia de trabalho.

Passando os olhos nervosos pelo calendário ele lembrou de um feriado que passou batido. Ele ainda precisaria trabalhar mais um dia. Imediatamente o clima de “festa de despedida” foi construído em sua mente. Pessoas que ele não queria mais ver na vida colocariam a máscara de amigos de trabalho e descarregariam uma tonelada de palavras falsas em seus ouvidos. A paciência já estaria esgotada antes da hora do almoço, quando provavelmente ele seria coagido a almoçar junto com um bando de colegas de trabalho que sentirão pouca ou nenhuma falta dele. E além de tudo isso ainda seria segunda-feira.

O sábado e o domingo foram uma tortura. Todo o desgaste mental foi antecipado de um jeito que Armando acordou naquela segunda como se tivesse passado o fim de semana numa guerra. De fato a guerra existiu, dentro da cabeça dele. Ao entrar no carro já estava com raiva de metade do mundo. Quando virou a esquina na rua do escritório já tinha listado os prós e os contras de cometer alguns homicídios.

No momento em que passou pela frente do prédio ele teve uma epifania. A velocidade não reduziu, ele passou direto pela entrada da garagem, virou duas esquerdas, caiu no engarrafamento de uma avenida. Quando ele estacionou o carro na beira mar respirou fundo, encarou o mar, olhou nos olhos da segunda-feira e disse:
“Não hoje, nem nunca mais”

Page 5 of 5

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén