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Categoria: Contos de Segunda Page 8 of 10

Contos de Segunda #27 – Parte 02

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Leia a primeira parte do Contos de Segunda #27 AQUI

“Deu merda, me liga”. Foi essa a mensagem que apareceu no celular de Jorge no começo da manhã. A mensagem era do chefe do departamento jurídico.

    — Sabe aquele deputado que ia fazer umas denuncias ontem?  Ele jogou um monte de gente na fogueira, inclusive um dos sócios da nossa empresa. Estou pegando o avião em cinco minutos pra encontrar com ele. Já falei com a equipe, vai todo mundo pro escritório agora de manhã, mas depois todo mundo vai meter a cara na rua pra resolver o que eu não puder. Você vai ficar por lá pra trabalhar com o pessoal de comunicação, precisamos emitir uma nota oficial e precisamos segurar a onda da imprensa. Era só isso, vou correr pro avião.

Jorge desligou. Para ele o resumo daquela ópera era o seguinte: ele teria de trabalhar no dia da confraternização da empresa e ainda teria que fazer isso na companhia ilustre de Cristina, quem normalmente era chamada para apagar esses incêndios.

Bom dia, pessoal.Quem vai fazer o quê hoje?”, disse Jorge no chat em grupo do pessoal do jurídico.

Eu vou colar na galera da contabilidade pra saber se alguma grana estranha entrou ou saiu nos últimos tempos… E nos tempos antes desses últimos”, respondeu Paulo César.

Eu vou entrar nessa com PC”, disse Rômulo.

Eu também”, reforçou Silveira.

Eu vou pro banco ver as movimentações das contas do cara ligadas à empresa”, disse Oscar.

Eu tô com Oscar”, completou Roberta.

Então não vai ter ninguém pra me ajudar com a amiga de Roberta?”, perguntou Jorge.

Desculpa, boy. Essa guerra hoje é só tua”, respondeu Roberta.

A palavra ‘boy’ devia ser proibida nesse grupo“.

A “guerra” em questão chegou um pouco depois das onze. Com uma garrafa de champagne que acabara de ganhar na confraternização e um humor tão bom quanto uma joelhada na quina da mesa.

— Bom dia, Cristina — Disse Jorge calmamente — Imagino que já saiba qual a nossa situação.

— Bom dia, Jorge — Disse ela impaciente —  Fui informada por alto, preciso saber do tamanho da confusão. Deixa só eu arrumar uma geladeira pra essa garrafa e a gente pode começar.

A confusão era gigante. O tal deputado estava com lama até o pescoço e saiu atirando pra todos os lados. O telefone não parava de tocar. A imprensa já estava na porta e o chefe do jurídico estava a beira de um ataque de nervos. As notícias que chegavam eram um pouco mais animadoras. As contas da empresa estavam limpas e nenhum dinheiro estranho tinha entrado por lugar nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O relógio já marcava 16 horas quando todas as informações chegaram e a nota oficial pôde ser concluída. O trabalho estava terminado.

— Terminamos — Falou Cristina com um suspiro.

— Pelo menos por enquanto — Completou Jorge verificando o celular— Preciso correr. Compromissos de fim de ano.

Uma mensagem piscou no celular de Cristina. Era Luciana.

Confra das meninas ficou pras 19h. Roberta disse que fica livre em 1h. E vc?”.

Estou quase saindo. Já fosse pra casa?”, respondeu Cristina.

Já, vem pra cá e a gente vai daqui. Nem invente de aproveitar pra beber com teu boy, traz o champagne que a gente bebe na volta da confra”.

— Também preciso correr – Disse Cristina tentando não se irritar com a última mensagem da amiga — Preciso pegar meu champagne na geladeira, você chama o elevador?

— Claro.

O elevador chegou um pouco antes de Cristina. Os dois entraram e automaticamente a atmosfera profissional se dissipou, dando lugar ao clima incômodo de sempre. Apenas cinco andares separavam os dois do térreo. Pareciam cinquenta. Cristina estava visivelmente impaciente e a impaciência dela estava começando a contaminar Jorge. Dois andares agora. As luzes do elevador começaram a falhar e ele parou. Ficou tudo escuro por alguns segundos antes das luzes de emergência acenderem.

— Só me faltava essa — Esbravejou Cristina antes de apertar o botão do interfone do elevador — Alô? Alguém ouvindo?

— Alô, boa tarde — Respondeu a voz do outro lado — Vocês ficaram presos no elevador?

Cristina respirou fundo três vezes antes de responder.

— Acho que só usam esse interfone em casos assim.

— A gente vai chamar o pessoal da manutenção, mas acho que vão ter que esperar a energia voltar.

Cristina soltou o botão do interfone e olhou para Jorge. O advogado estava aparentemente tranquilo. De alguma forma aquilo fez o sangue de Cristina esquentar.

— Você deve estar achando tudo isso uma maravilha, não é?

— Hã? Ficou doida, Cristina? Eu estou cheio de coisa pra fazer, atrasado e preso no elevador com uma pessoa que não é o que eu posso chamar de “melhor amiga”.

— Conversa, Jorge — O tom da voz dela começou a se elevar — Tá na cara que você se diverte muito com tudo isso. Faz meses que eu tenho que aguentar todo tipo de brincadeira por sua causa — Ela estava com o indicador no peito dele.

— Como é? Eu tive tanta culpa quanto você — O esforço para manter o controle era enorme nesse momento — E muito menos culpa do que a sua amiga.

Ele estava certo. Luciana era o arauto de todo esse caos. Foi por causa dela que a história vazou, mas ela não podia admitir. Só ela podia fazer esse tipo de acusação.

— Luciana não se aproveitou de ninguém louco de tequila.

Aquilo era golpe baixo. Jorge trincou os dentes. Finalmente ela tinha conseguido tirá-lo do sério.

— Não me venha com essa, Cristina. Você não estava tão louca assim. Ninguém ia fazer nada que você não quisesse.

— Me dê um motivo pra não enfiar a mão na sua cara.

— Você sabe que eu não estou errado.

Ela ficou sem ação. De fato ele não estava totalmente errado. As memórias daquela noite eram fortes o suficiente para que ela soubesse disso. E o relato de Luciana foi tão preciso que amnésia alcoólica não era um problema. A discussão havia terminado. Cristina sentou no canto do elevador, pegou um saca-rolhas de dentro da bolsa e abriu o champagne

— Eu te odeio, Jorge.

— Mas ainda vai precisar de mim pra terminar essa garrafa.

— Eu vou precisar de uma carona. E você, meu querido boy, é o amigo da vez.

Uma hora depois a energia voltou e o elevador funcionou novamente. A garrafa de champagne estava pela metade e Cristina estava bêbada o suficiente para tratar Jorge como um ser humano. Eram seis da tarde quando o carro de Jorge parou na frente da casa de Luciana. Ela saiu do carro e bateu a porta, deu dois passos antes de dar meia volta. Ele baixou o vidro.

— Eu não vou agradecer, você estava me devendo — Ela fez uma pausa como se procurasse as palavras certas, na falta de outras melhores usou as de sempre — Eu ainda te odeio, Jorge.

— Feliz natal, Cristina, e um feliz ano novo.

O vidro subiu e o carro partiu. O telefone de Cristina tocou. Era Luciana que observava tudo da varanda do terceiro andar.

Contos de Segunda #27 – Parte 01

O conto a seguir é uma continuação da história de Cristina e Jorge, eles apareceram anteriormente nos Contos de Segunda #11 e #17

Pronta pra confra das meninas?”

    Era isso que dizia a mensagem que acabara de chegar no celular de Cristina. Ainda eram seis da manhã e aparentemente sua amiga Luciana não estava com nem um pouco de sono. E com um humor tão bom que quase dava nos nervos.

    “Pronta pra encarar a confra com o pessoal do escritório?”.

    “Mais pronta impossível, amiga, meu boy não trabalha comigo”.

    Cristina trincou os dentes de raiva. Desde o “acidente” ocorrido durante o show de um cover do Pearl Jam, a vida de Cristina tinha ficado um pouco complicada. Noventa por cento dessa complicação era culpa de Luciana. Desde aquele dia a moça se dedicava apenas a criar situações onde Cistina deveria encontrar com Jorge, ou como Luciana gostava de chamar “o boy”.

    “Tá bom de parar de testar nossa amizade, Luciana

    “Tá bom de parar de enrolar e agarrar logo teu boy, até parece q tu não quer

    O celular foi arremessado dentro do guarda-roupa, por sorte ele ficou preso em um casaco qualquer e não sofreu nenhuma avaria quando caiu no chão. A vontade de ficar em casa naquele dia estava batendo recorde, mas hoje era dia da “confra das meninas” e as meninas em questão estariam todas na confraternização da empresa. Então Cristina tentou colocar um pouco de ânimo junto com a maquiagem e partiu.

    O salão onde aconteceria a festa era no mesmo prédio em que funcionavam os escritórios. Cristina chegou cedo, pontualmente às nove da manhã. Queria reunir a assessoria de imprensa antes do evento começar. O presidente da empresa sempre fazia algum anúncio nesse tipo de evento que acabava tendo alguma repercussão. Ela contava os fotógrafos quando uma voz debochada a fez perder a conta.

    — Procurando teu boy, Cristina?

    — Trabalhando, Luciana. Não são todos que já estão de folga.

    — Pois é, deve ser por isso que teu boy não vai aparecer hoje.

    — Ele não vem? — A surpresa na voz não podia ser disfarçada.

    — Sabia que ficaria chocada — Luciana parecia se divertir cada vez mais — Nem ele, nem ninguém da galera do jurídico. Rolou algum tipo de incidente diplomático e o mundo vai desabar. Pelo menos era isso que parecia quando eu falei com Roberta mais cedo. Ela não vai pra confra das meninas.

    — Espero que seja só com eles. Da última vez que rolou um “ incidente diplomático” o pessoal da comunicação passou uma semana trabalhando junto do jurídico.

    — Pelo que eu lembro. Você passou uma semana trabalhando junto do teu boy.

    — VAI PRO INFERNO, LUCIANA.

    — Relaxa, amiga. Jorge tá de castigo e ninguém vai ficar cochichando nas costas de vocês. Pelo menos hoje

    Por que era isso que acontecia há meses. A história de Cristina e Jorge acabou “vazando” e sempre tinha alguém cochichando quando os dois se encontravam eventualmente. Não acontecer nada disso em um dia em que a maioria dos colegas estaria sob efeito de álcool era um alívio. Foi quando o telefone tocou, era Roberta.

    — Cristina, temos um problema — disse Roberta com uma voz meio triste.

    — Só me faltava essa. Que problema, Roberta?

    — Daqui a umas duas horas você precisa subir pro escritório. Dessa vez rolou um lance meio pesado, vai ter que sair uma nota oficial da empresa.

    — Ok. Subo já já e você me explica tudo.

    — Não vai dar, amiga, a galera daqui vai passar o dia resolvendo coisas fora do escritório — Ela fez uma pausa — Só vai ficar uma pessoa… E você já deve saber quem é. Tenho que ir, a gente se fala.

    Cristina desligou o telefone com vontade de matar alguém, mas no lugar disso ela falou:

    — Luciana — Respirou fundo, contou até três e continuou — Acho que eu não vou poder ir pra confra das meninas.

 

Contos de Segunda #26

    Moacir estava com um humor péssimo. Desde o começo a segunda-feira estava tão maravilhosa quanto um tratamento de canal. Da topada no pé da cama ao acidente com café que acabou mudando a cor de uma camisa novinha, aquela segunda-feira estava se esforçando para ser um dia especialmente desagradável. Estava tão ruim que o humor do pobre Moacir estava começando a melhorar, afinal não tinha como o dia ficar pior.

–  Moacir, tira aqui o nome do teu amigo secreto.

O palavrão saiu da garganta, mas morreu entre os dentes trincados do pobre coitado. Ele respirou fundo duas vezes e tentou fingir que não era com ele.

– Moacir, tira logo o teu amigo secreto que eu ainda tenho que passar lá no pessoal do design.

A mão de um homem um pouco mais controlado puxou um papelzinho de dentro da sacola. Essa mesma mão se juntou com sua irmã gêmea para receber o rosto de um homem que nunca antes tinha desejado com tanta força a queda de um meteoro. Nem precisava ser um dos grandes, só o suficiente para esmagá-lo e terminar com aquela segunda-feira maldita.

Os amigos secretos com o pessoal do trabalho sempre eram um desastre. Perfumes que causaram reação alérgica, chocolates que causaram diarreia e uma caneca personalizada do time de futebol rival eram só algumas amostras dos presentes desastrosos que Moacir acabava comprando todo ano. Esse ano não seria diferente, ele sabia, por mais que ele se esforçasse nunca dava certo. Ele tentou comprar exatamente o que a pessoa queria, tentou pegar uma dica com colegas do setor do amigo secreto, tentou ser genérico e criativo. Nunca deu certo… Na verdade “dar certo” era um extremo tão oposto que as piadas sobre os presentes de Moacir costumavam durar até o carnaval.

A porta de entrada para a desgraça de todo fim de ano estava ali, em um pedacinho de papel. Pouco mais de uma semana para o dia do amigo secreto. A contagem regressiva acabara de começar e o stress já tinha atingido os níveis mais altos do ano.

“Qual vai ser o presente que eu vou transformar em desgraça esse ano?”, se perguntava Moacir a cada dois minutos enquanto voltava pra casa. Pelo menos ele podia comprar alguma desgraça barata, era ano de crise e ninguém se importaria de se dar mal a um custo baixo. Era nisso que estava pensando quando enfiou a chave na tranca da porta. “Hoje não podia ter sido pior”, era nisso que ele pensava quando entrou no apartamento. Mas a segunda-feira estava se esforçando de verdade para que aquele homem não tivesse um bom início de semana, e uma pergunta foi a cereja daquele bolo de cocô.

– Eita… Quem foi que eu tirei mesmo no amigo secreto?

Contos de Segunda #25

“Preciso de férias”.

    Foi a primeira coisa que Ribeiro pensou quando abriu os olhos naquela segunda-feira ensolarada. Dezembro mal começara e ele já contava os dias para o início das suas férias. Apenas catorze dias… Catorze ansiosos e impacientes quadradinhos no calendário que se recusavam a passar. Dias piores do que qualquer segunda-feira.

    Ribeiro chegou na hora. Empilhou os volumes do relatório do controle de qualidade do fornecedor em cima da mesa. A gerente passaria por ali em uns dez minutos e pela primeira vez em meses ela não teria do que reclamar. Estava tudo em dia, afinal tudo deveria ficar pronto antes das férias.

    “Preciso de férias”.

    Disse Ribeiro em voz baixa para si mesmo depois de passar cerca de um minuto encarando a tela do computador.  Esse minuto foi tempo suficiente para esperança de que isso o fizesse lembrar do que deveria ser feito em seguida evaporasse. Nessa hora apareceu uma notificação na tela, um email acabava de chegar avisando de uma reunião do departamento no início da tarde. Naquele dia uma pancada no joelho seria muito melhor.

    “Preciso de férias”.

    Foi a única coisa que passou pela cabeça do pobre Ribeiro durante toda a reunião. Principalmente por que nada de importante foi dito ou resolvido. De todas as reuniões do ano, com certeza aquela tinha sido a mais inútil de todas. Não que Ribeiro tivesse uma opinião diferente caso ela fosse uma reunião útil, ele só queria que aquele dia passasse logo. Pelo menos já passava da metade da tarde quando o pobre homem voltou para sua mesa. Ele encarou mais uma vez o calendário. Contou os dias novamente, olhou para o relógio e ficou ligeiramente animado. Mais um dia passou, faltavam treze.

    “Pessoal, vou passar na mesa de cada um pra sortear os nomes do amigo secreto”, disse alguém que passava no corredor. Depois de ouvir aquilo a pouca animação de Ribeiro virou pó. O rosto se enterrou nas mãos e ele grunhiu entre os dentes cerrados.

    “Eu preciso de férias… Muito mesmo”.

Contos de Segunda #24

Fernanda parou na frente do computador e apertou o botão de ligar. O humor dela não podia estar melhor, a noite de domingo tinha sido incrivelmente produtiva e o relatório seria entregue sem problemas na metade da tarde… Mas o computador não ligou. Ela apertou o botão novamente… Nada, nem um apito, bip ou ruído de espécie alguma. O humor dela começou a piorar. O botão foi apertado mais três vezes antes de Fernanda entrar em um frenesi e apertar a pobre peça plástica mais rápido do que os olhos podiam ver. Nada. Nesse ponto Fernanda já estava trincando os dentes e esmurrando a mesa. “Maldito computador”, pensava ela. O rosto estava quente de raiva, a respiração estava acelerada. Ela levantou e começou a dar voltas pelo quarto, quando a paciência chegou a um nível abaixo de zero um chute atingiu a mesa. Miraculosamente o computador ligou.

Pouco tempo depois a tela de login apareceu. Oito letras e um enter depois o humor de Fernanda começava a dar sinais de melhora. “Senha Incorreta”. “É o quê?”, pensou a pobre moça enquanto digitava a senha novamente. “Senha Incorreta”. Um punho cerrado caiu pesadamente sobre a mesa. “Senha Incorreta”. “Filho da …”, a moça quase explodiu de fúria. Depois de respirar fundo três vezes ela digitou a senha novamente, pouco antes de teclar enter ela notou que a tela não exibia o seu usuário. Depois de inserir o seu nome de usuário e a senha correta a tela exibiu um “Bem Vindo”. E foi só isso que a tela mostrou por mais de cinco minutos.

Nesse ponto Fernanda já estava cega de ódio. O tempo estava correndo e o relatório não estava ficando pronto. Quando o computador finalmente exibiu a área de trabalho a pobre moça foi direto na pasta de documentos. A pasta não abriu. Mais alguns cliques frenéticos e nada. Fernanda estava à beira de um infarte quando a pasta finalmente abriu, o arquivo do relatório também e o trabalho pôde ser concluído. Agora bastava enviar o arquivo por email e tudo terminaria bem. Foi quando a internet resolveu cair.

Naquele inicio de tarde um laptop saiu voando pela janela. Fernanda estava com seu relatório são e salvo na nuvem. Ela sabia bem disso, tudo tinha dado certo, mas o computador não podia sair ileso.

Contos de Segunda #23

O despertador tocou outra vez. Era o segundo alarme. Marcelo estava acordado desde o primeiro e só levantaria da cama depois do terceiro alarme tocar. Era segunda-feira e Marcelo não tinha a menor pressa de levantar da cama, afinal hoje teoricamente seria seu ultimo dia no estágio. Mesmo decidido em trabalhar tão bem quanto nos outros dias, seu nível de empolgação era comparável a de uma pia de cozinha. O terceiro alarme tocou e ele pulou da cama.

O tempo estava meio nublado, mas fazia um calor dos infernos. A época do ano em que o sol do meio-dia ficava durante dez horas no céu. Marcelo tinha conseguido a façanha de subir no ônibus em movimento e não chegaria atrasado. Apesar dessa não ser a sua intenção, meia hora de atraso significaria meia hora a menos naquele ultimo dia. Ele passou pela recepção e entrou sozinho no elevador, refletiu sobre todas as outras vezes em que aquilo acontecera e em como esta era a ultima vez em que estava acontecendo. Quando o elevador chegou ao seu destino, Marcelo respirou fundo e saiu para encarar o último dia de sua rotina.

O final do seu contrato de estágio era desconhecido pelos demais colegas, qualquer evento de despedida só deixaria tudo pior, até por que boa parte daquelas pessoas não sentiriam falta dele. Marcelo sentou na frente do computador, enquanto esperava a máquina iniciar as funções reparou que havia um bilhete preso no teclado. “Vá na minha sala assim que chegar”, dizia o recado do seu supervisor que também era um dos gerentes do setor onde ele trabalhava. Mais uma vez ele respirou fundo, tentou colocar no rosto todo o ânimo que não tinha e seguiu para a sala do chefe.

Cinco minutos depois Marcelo saiu de lá. Pegou suas coisas e foi em direção ao elevador. Enquanto descia para a recepção lembrou das últimas palavras do chefe: “…vou te dar o resto do dia pra pegar os documentos e fazer o exame admissional. A partir de amanhã vou te explicar as suas novas funções”. Ele pensou na rotina que continuaria, na luta que seria acordar todas as manhãs, principalmente nas segundas, pensou em como os seus planos de vagabundagem foram frustrados e em como a função de estagiário tinha muito menos responsabilidade… Apesar de tudo isso o ânimo que estava no seu rosto era genuíno.

Contos de Segunda #22

O conto de hoje é uma continuação direta da história de Maurício, protagonista do Contos de Segunda #2.

    O mundo acabou. A essa altura do campeonato isso já não era mais novidade, o apocalipse chegou meses atrás e , ao contrário do que era esperado, muita gente sobreviveu. Maurício é um desses sobreviventes e ele estava profundamente decepcionado com o fim dos tempos.

    A primeira coisa que Maurício fez foi arrumar um emprego. Ele trabalhava com uma atividade bastante curiosa: ele era chefe do departamento de coleta de pilhas. Pilhas eram um item muito importante no mundo pós-apocalipse, por algum motivo inexplicável a radiação das armas nucleares utilizadas na guerra transformara as pilhas alcalinas em uma fonte de energia inesgotável. Maurício detestava ficar catando pilhas e por isso todas as segundas ele acordava de manhã e pensava: “Bem que o mundo podia ter acabado direito”. Esse pensamento se repetia no caminho para o trabalho quando ele passava pelos religiosos que continuavam protestando contra Deus por tê-los abandonado num mundo destruído, e quando ele precisava encarar a fila da tirolesa para atravessar o abismo deixado pela ponte que ruiu na semana passada. O pensamento continuava quando ele via o tanto que as pessoas continuavam reclamando, principalmente por motivos que não tinham nenhuma relação com a situação desgraçada que era viver no fim do mundo. Ultimamente as pessoas começaram a reclamar da reclamação alheia. Era quase uma epidemia, chegava a ser pior do que as doenças do tempo do fim do mundo. Maurício precisava mudar de vida, mas as opções estavam bastante restritas. Ele precisava fazer algo radical.

    Na hora do almoço ele parou para contemplar uma pilha palito que havia sido encontrada num controle remoto quebrado. Ela emitia uma luz verde e tinha um cheiro esquisito. “E se eu engolir uma pilha dessas, só pra ver qual é?”, pensou Maurício. Ele não precisou de muita reflexão antes da pilha descer pela sua garganta. Depois de uma azia de quinze minutos, Maurício começou a enxergar as coisas meio esverdeadas, as unhas ficaram pretas e o cabelo começou a pesar na cabeça. A eletricidade começou a fluir pelo seu corpo e ele começou a sentir os dedos formigando. Ele não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas o fim do mundo estava ficando mais interessante do que ele esperava.

Contos de Segunda #21

Erick caçava dragões. Oficio bastante perigoso, tendo em vista que normalmente ele só dispunha de um escudo feito com couro de dragão, sua espada e uma catapulta. Apesar de não parecer, matar dragões era algo bastante sistemático e bem monótono em alguns casos. Mas não havia nada mais incômodo do que as exigências do sindicato: um dragão por semana, a carcaça devia ser entregue todas as segundas-feiras ao meio-dia em uma das sedes do sindicato espalhadas pelo reino. Era segunda-feira e Erick não caçara nenhum dragão.

Vontade de abandonar o emprego não era algo raro. O perigo do trabalho não estava compensando, o salário não era essas coisas todas e estava cada vez mais difícil caçar um dragão por semana e essa não era a primeira vez que Erick chegava ao primeiro dia útil da semana com as mãos vazias. Enquanto quebrava o jejum na estalagem ouviu dois viajantes conversando. Eles falavam de um dragão que aparecia toda segunda-feira no topo da colina e de como todos os caçadores de dragões que tentaram caçá-lo nunca mais foram vistos novamente por ninguém do sindicato. Caçar um dragão era sempre perigoso, caçar um que era impossível de ser caçado talvez garantisse uma aposentadoria precoce.

O caçador chegou ao topo da colina. O dragão estava lá. Grande e vermelho, dormindo aninhado sob a sombra de uma árvore tão velha quanto ele. Parecia uma presa fácil. Uma manobra padrão vinte e dois resolveria, contanto que ele se mantivesse no chão. Erick se aproximou silenciosamente, posicionou-se contra o vento para que a fera não sentisse o seu cheiro, a exatos vinte metros do alvo ele correu, sacou a espada e se preparou para saltar e desferir um golpe certeiro no olho esquerdo, mas uma voz o interrompeu.

– Tem certeza que quer fazer isso?

– Claro que sim, Dragão – as palavras saíam em tom de desdém.

– Hoje é só o começo da semana, Caçador. Não percebes que o dia já é ruim por si só? Não basta o tormento rotineiro de toda semana? Ainda queres me matar?

– Nada pessoal, Dragão, mas tua morte tornará meu começo de semana um pouco menos penoso.

– Teu ofício já é penoso o suficiente, estando eu vivo ou morto. Ainda terás de matar outro dragão nessa semana, do contrário te acharás na mesma desgraça daqui a sete dias.

– Detesto admitir, serpente desgraçada, mas a razão te cobre como a sombra desta árvore. O que sugeres que eu faça?

– Assenta-te recostado nesta árvore, dizem que o aroma de suas folhas esclarece os pensamentos e atrai pensamentos sensatos. Caso tenha desistido de me matar, obviamente.

– Desisti, Dragão. Creio que esta é uma boa hora para repensar a minha vida.

Erick se sentou recostado no tronco da velha árvore. Viu a luz do sol através das folhas e sentiu o aroma que preenchia o topo da colina. Em nenhuma outra segunda-feira Erick foi visto no sindicato dos caçadores de dragões.

Contos de Segunda #20

  Aderbal morreu. Aconteceu numa segunda-feira, Dia de Finados. Toda a família estava viajando, mas Aderbal acabou ficando em casa, queria aproveitar os dias de folga para fazer alguns pequenos consertos na casa e adiantar um trabalho extra que ele tinha conseguido. O plano parecia bom, o tempo parecia suficiente, tudo deu certo… Pelo menos até no domingo.

    Aderbal caiu da escada. Por sorte ele só quebrou a perna, mas acabou passando a noite no hospital. Junto com ele estava internado um segundo Aderbal, uns 15 anos mais velho e com uma dúzia de doenças diferentes. Durante a madrugada de segunda uma dessas doenças acabou matando o segundo Aderbal. Quando isso aconteceu o Aderbal da perna quebrada estava na sala de espera da emergência assistindo um dos seus filmes preferidos no Corujão. Todos esses fatores acabaram criando o cenário perfeito para fazer todos pensarem que os dois Aderbais faleceram naquela madrugada.

    Os analgésicos da meia-noite acabaram fazendo bem depois do esperado, isso deixou Aderbal nocauteado na sala de espera até a metade da manhã. Esse tempo foi suficiente para que as famílias dos dois Aderbais fossem comunicadas pelo hospital. Como só havia um corpo a ser reconhecido e todos estavam bastante perturbados pela perda recente, não é de se estranhar que tudo terminasse em confusão. Gritaria, agressões de todos os tipos, a especulação de que Aderbal tinha duas famílias e a quantidade crescente de parentes acabaram fazendo a confusão tomar conta de toda a emergência do hospital. A confusão foi tamanha que ninguém notou quando Aderbal acordou na sala de espera, agilizou sua alta com um dos médicos que ainda estava fora da confusão. Ele também não percebeu nada, a dor na perna era suficiente para ocupar todos os seus pensamentos. Ao colocar a mão no bolso percebeu que o celular havia ficado em casa. Aderbal parou o primeiro táxi que passou, estava com pressa, precisava chegar em casa antes do resto da família. Só Deus sabe o que eles pensariam quando chegassem lá e não encontrassem ninguém.

Contos de Segunda #19

Renato tirou férias do blog. Trinta dias para respirar, reciclar algumas ideias e refrescar a cabeça. Porém algo ocorre com todos aqueles que tiram um merecido recesso de qualquer atividade. Dentro de cada um cresce a vontade de não voltar mais das férias. Com Renato não foi diferente.

Claro que ele gostava de escrever. De todas as coisas que ele fazia, que não eram muitas, a escrita era uma das preferidas, mas manter o blog dava trabalho e não rendia dinheiro. A quantidade de pessoas alcançadas por ele era tão pequena que talvez nem valesse o trabalho. “E se…”, era como começavam os pensamentos de Renato sobre seu blog, mas nenhum deles terminava. As férias ainda não tinham acabado, ele pensaria nisso depois.

O tempo passou rápido. Muitas coisas aconteceram e muitas outras deixaram de acontecer. Renato ainda não havia chegado a qualquer tipo de decisão. O assunto foi varrido pra baixo do tapete, convenientemente esquecido. Até que, não mais do que de repente, ele sentiu que precisava voltar. Olhou no calendário e viu o final de suas férias. Ele esperaria a folga acabar, mas em seu interior ele já sentia como se estivesse de volta.

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