Cachorros de Bikini

Mais ágil que uma velha, mais rápido que um saco de cimento

Contos de Segunda #76

em 27 de fevereiro de 2017

    Erick caçava dragões. Caçava, não caça mais. Pelo menos não depois do dia em que ele subiu uma colina para matar um certo dragão vermelho. Depois daquele dia os dois ficaram amigos e Erick nunca mais matou um dragão. Obviamente o ex-caçador precisava de outro ofício e foi buscando esse novo ofício que Erick partiu para a cidade e não retornou desde então. Todos os dias, sob a sombra de uma árvore tão antiga quanto ele, o Dragão Vermelho passava horas inventando histórias sobre a vida de Erick. Essas histórias ele contava aos pássaros, às crianças que fugiam da vila e subiam a colina para vê-lo, aos pastores que sempre passavam para agradecer a proteção que o dragão dava às suas ovelhas e a todos que estivessem dispostos a parar por um instante e ouvir. Infelizmente nem todos que subiam a colina tinham essa intenção.

A tarde estava no começo e a semana também. Fazia muito calor e o sol castigava todos que estavam sob ele. Em um dia tão quente era difícil não sentir o cheiro dos homens que suavam em bicas sob as suas armaduras enquanto subiam a colina. O barulho que faziam era pouco para um grupo com pelo menos dez pessoas, mas ainda suficiente para ser notado pelo réptil. Ele sabia quem eram aqueles guerreiros. Os únicos que teriam algum motivo para subir a colina. Caçadores de dragão.

— Saudações, nobres caçadores — disse o dragão. — Quais as novas que trazem do pé da colina?

Os homens travaram, se entreolharam surpresos e não conseguiram responder. Afinal todos os dragões caçados por eles até então eram feras cruéis, mesquinhas e cheias de um sadismo quase pecaminoso. A resposta ainda demorou alguns segundos para aparecer.

— Saudações, dragão — respondeu um dos caçadores. — Imagino que saibas o motivo da nossa vinda.

— Naturalmente. Creio que vieram para avaliar a possibilidade de pôr um fim à minha vida. Espero que tenham resolvido desistir da ideia.

— Nunca deixariamos uma fera tão perigosa viva. É nosso dever — disse outro caçador.

— Deveras, meu caro, mas noto que tua avaliação é baseada em uma série de eventos desastrosos envolvendo meus parentes e em um preconceito secular sobre o temperamento e a índole dos membros da espécie dracônica.

— Não é preconceito, Dragão. És notório por ser um dragão que não se pode caçar. Ouço histórias sobre os caçadores que ousaram te enfrentar.

— Falas de Charles que deixou de ser caçador para virar sapateiro? Ou de Robert que construiu um dos moinhos mais prósperos da região? Se falas de Erick… Bem, não sei o que Erick anda fazendo.

— Culpa da tua feitiçaria, dragão — rebateu um dos caçadores.

— Gostaria muito de saber em que provas são baseadas tuas acusações — replicou o dragão. — Nenhum deles parecia levar uma vida feliz como caçador. Eles vieram para me tirar a vida, mas depois de refletir um pouco perceberam o quão insatisfeitos estavam. Não usei de nenhuma feitiçaria.

— O que sugere, dragão? Que desistamos de matá-lo? Depois do mal que nos fez é impossível.

— Então permita ao menos que eu receba um julgamento justo. Leve-me sob custódia e me apresente diante dos seus líderes. Convoque aqueles que uma vez tentaram me matar e permita que falem. Eles provarão minha inocência.

A discussão dos caçadores levou alguns minutos. A resposta deles, apesar de previsível, não foi menos impactante.

— Muito bem, dragão. Terás o que pedes… Tragam correntes para prender as asas e alguém vá na frente para avisar ao sindicato… Precisamos julgar um dragão.

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