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Contos de Segunda #94

O título desse conto é Coração Apodrecido e foi originalmente escrito para uma seleção de uma coletânea. Como ele não foi selecionado e a semana do dia 31 de outubro é uma época boa pra lançar histórias meio macabras, resolvi tirar a poeira desse texto, terminei a revisão e o resultado você pode conferir aqui embaixo.

 

— Está frio demais — reclamou um guarda.

— Aqui é sempre frio — respondeu outro. Apesar da resposta ríspida, o frio anormal daquela noite não passara despercebido.

A dupla de sentinelas vigiava as bordas da floresta do alto dos muros do castelo do duque. Não que a floresta fosse uma fonte frequente de ameaças, em dias normais os guardas designados para vigiar suas bordas aceitavam tal tarefa com satisfação… Mas aquele não era um dia normal.

— Não, não é… Bem… É, mas não desse jeito… Ficou frio assim depois que a fera apareceu. A cada dia sinto mais frio.

— Fera?

— Sim… Faz alguns dias que um caçador desapareceu na floresta. Quando procuraram por ele as únicas coisas encontradas foram as carcaças dos seus cães… Costelas escancaradas e entranhas expostas.

— Que tipo de animal faria isso?

— Um que não come carne… pelo que dizem os cães estavam secos, as vísceras estavam pálidas… Como não houvesse uma gota de sangue sequer.

— Esses caçadores parecem mais viver de inventar histórias do que da caça.

— Foi o que falei quando me contaram, só que… Um fazendeiro estava ouvindo a conversa… Três dias atrás ele acordou com o barulho dos animais assustados e o som de madeira se partindo… As vacas e os cavalos haviam derrubado as portas do celeiro e corriam enlouquecidos pelo campo… Os porcos não tiveram a mesma sorte… Carcaças escancaradas, tripas reviradas e secos de sangue.

Silêncio.

Os minutos se arrastaram até que um deles tivesse algo para dizer.

— Estás ouvindo?

— Ouvindo o quê?

— Nada… Não ouço nada… Nem aquela coruja maldita que fica piando sem parar.

— Estou dizendo, homem, é o frio. Está frio demais até para os animais… Deve ser por isso que há tantas velas acesas na capela.

— Velas? — O guarda olhou por cima do ombro. — Não há luz alguma vindo da capela.

— Então de onde vem esse cheiro? É como se centenas de velas estivessem queimando aqui perto…

— Deve ser imaginação. Pare de falar e fique de olho naqueles arbustos… Parece que tem alguma lá.

— Humm… Não tem nada daquele lado… Tem certeza que viu alg…

Subitamente um vento gelado passou pela muralha distraindo o guarda.

— Sentiu esse vento? — Disse  ele se virando para a o companheiro. — Foi como se alguma coisa grande passasse por aqui…

As palavras morreram na garganta.

Congelado de pavor o pobre guarda não pôde fazer nada além de contemplar a cena. Seu companheiro jazia sem cabeça no chão. O uniforme rasgado exibia as costelas recém abertas. As entranhas se esparramavam pelo chão… Enquanto a fera bebia-lhe o sangue.

O líquido vermelho, sorvido com urgência, escorria pelos cantos da boca do monstro. As garras abriam o pescoço para facilitar o trabalho enquanto os olhos profundamente negros vigiavam fixos no outro guarda. O soldado  tentou alcançar a corneta de chifre que estava pendurada no cinto, não conseguiu. Alguma força parecia impedir o movimento. Pensou em gritar por ajuda, ou pelo menos alertar os demais. A boca não se mexia, o ar parecia retido nos pulmões. Paralisado e apavorado, o guarda não pôde fazer nada além de amaldiçoar a fera que se banqueteava na sua frente.

“Maldita seja, besta dos infernos”, pensou ele. Talvez se ele pudesse desviar os olhos do negrume hediondo do olhar da besta tivesse uma chance, mas nem seus olhos pareciam obedecer. Quase exaurido, ele desiste de resistir. Não devia haver muito mais sangue para ser sugado, em breve ele seria um corpo inerte no chão.

A besta piscou.

Por um segundo seus braços estavam livres. A mão escorregou para a corneta.

Os olhos do monstro se abriram focando por um instante na carcaça retalhada no chão.

Foi o suficiente.

Com toda a força do seu peito recém saído da paralisia, o guarda soprou a corneta o mais alto que pôde. A besta saltou um metro para trás e se colocou em posição defensiva. Dentes arreganhados, pernas flexionadas, pronto para fugir ou revidar.

— A FERA ESTÁ AQUI!!! — Berrou o vigia em total desespero antes de soprar mais uma vez a corneta.

Ele ouviu outra corneta tocando em resposta. O castelo estava em alerta. O dever da sentinela fora cumprido. Um sorriso sutil de contentamento apareceu nos lábios ainda encostados na corneta… Depois não havia mais nada

Silêncio.

Escuridão.

***

— A fera está no castelo, meu senhor — sussurrou o jovem escudeiro para o comandante da guarda.

Cristovão estava ajoelhado fazendo suas preces. A espada diante dele fazia as vezes de cruz. Ao ouvir as notícias fez o sinal da cruz, abriu os olhos e se pôs de pé. Os joelhos rangeram sob o peso da idade e os músculos tensos reclamaram das horas passadas em oração.

— Alguma resposta da igreja? — Perguntou ele.

— O bispo mandou uma mensagem — respondeu o escudeiro tirando uma carta do bolso. — A ajuda chegará de manhã.

“Amanhã será tarde”, pensou Cristovão.

— E onde está a fera?

— Na biblioteca, senhor.

— Afugentaram a fera até lá?

— Os homens não conseguiram afugentar a fera… Mal conseguiram se aproximar. Ela entrou na biblioteca e aproveitamos a chance… As portas estão cerradas.

A biblioteca do duque era famosa em todo o reino. Ocupava uma ala própria separada do castelo, para melhor atender aos visitantes. Graças a isso era bem provável que a fera realmente estivesse presa lá dentro.

— Vá na frente, rapaz — disse o comandante. — Avise aos homens para prepararem escudos e lanças.

— Para quê, senhor?

— Para empurrar a fera de volta caso tente sair quando abrirem a porta.

— Por qual razão abririam a porta?

— Para que eu entre.

— Mas, meu senhor…

— Não quero precisar repetir a ordem.

O escudeiro se calou e saiu sem falar mais nada. Cristovão foi até seu velho baú, procurou por uma antiga bolsa de couro e dela tirou três pequenos frascos de água benta e um pequeno artefato de pedra preso a uma corrente de prata. Afivelou o cinto, embainhou a espada e uma faca longa.

— Deus Todo-Poderoso — repetia ele em voz baixa enquanto caminhava até a biblioteca. — Dá firmeza às minhas mãos… Dá firmeza ao meu coração… Dá firmeza à minha fé.

Os homens estavam prontos quando ele chegou. Oito deles carregavam escudos largos, mais dez usavam lanças longas e dois estavam posicionados para abrir a porta. Todos eles estavam pálidos de terror.

— Em formação, homens — ordenou Cristovão.

Os que carregavam escudos se colocaram lado a lado, formando uma parede por trás do comandante, com os homens de lança logo depois deles.

— Essas portas não devem ser abertas antes dos homens da igreja chegarem — continuou ele.

— Deus te proteja, meu senhor — disse um deles.

— A todos nós, filho… A todos nós.

A porta foi aberta vagarosamente. O cheiro de centenas de velas sendo queimadas saiu do recinto quase como um suspiro, “o cheiro do outro lado”, pensou Cristovão. Lá dentro tudo era breu. Um som baixo e constante de algo inumano chegavam de longe aos ouvidos do velho, aparentemente os homens da sua pequena parede de escudos não precisariam enfrentar a criatura. Passos firmes levaram Cristovão para dentro. Nas histórias contadas sobre este dia dizem que o comandante adentrou na biblioteca com uma expressão feroz e corajosa de um anjo vingador, mas ele só tentou passar tranquilidade aos seus homens. Eles não precisavam de mais motivos para ficar com medo.

A porta se fechou com força. O som das trancas veio logo depois. Os olhos logo se acostumaram à escuridão. O som continuava. Ouvindo com atenção parecia que algo estava sendo vagarosamente regurgitado.

Uma luz.

O brilho parco de uma chama se acendeu ao longe. Cristovão sacou a espada e começou a andar na direção da claridade.

A luz aumentou.

Com mais alguns passos Cristovão pôde ver com clareza a cena hedionda.

— Deus Todo-Poderoso… — disse ele boquiaberto.

Diante do comandante estava a fera. Com as garras ela tirava da garganta pedaços compridos de alguma espécie de cera, a cor era vermelha como sangue coagulado. A cera semi rígida era colocada na borda de uma tina de pedra que servia como braseiro, e um pavio imperceptível se acendia. Pelo menos uma dúzia dessas velas vermelhas queimava, a cera liquefeita pelas chamas escorria para dentro da tina. Presa na parede estava a cabeça de uma mulher presa pelos cabelos ao suporte de uma lanterna. Ele não precisava olhar para dentro da tina para saber o conteúdo.

— O coração apodrecido… Banhado pelo sangue de muitas velas… Aquecido pela chama da ira e pelo calor do ódio… — Recitou Cristovão.

— Voltará a bater como outrora… — Continuou a voz de uma mulher. — Dentro de um corpo de sangue e sombra… Para uma nova vida de morte… Para um novo mundo de trevas… Para finalmente reinar.

Cristovão olhava fixamente para a cabeça pendurada na parede. Seus olhos o desafiavam com um sorriso. A expressão dela era a de quem se reencontrava com um antigo amante.

— Pelo que vejo… Os anos não foram gentis contigo, cavaleiro — disse ela.

— Talvez eles tenham sido os únicos gentis contigo… Bruxa.

— Que palavras duras são essas? — Questionou em uma mágoa claramente fingida. — Em outros tempos me receberias tão bem…

— Quieta!

A fera havia terminado seu trabalho e observava atenta o visitante indesejado. As velas choravam copiosamente suas lágrimas escarlates sobre o coração apodrecido.

A cabeça abriu um sorriso.

— Vejo que estás usando o símbolo da tua ordem.

Cristovão segurou o pedaço de pedra pendurado em seu pescoço.

— Cavaleiros expulsos têm tal direito?

— Quieta, bruxa — rosnou o comandante.

— Tão desnecessariamente rude… Quem sabe se meu querido criado amaciar tua carne nossa conversa possa ser mais… Digamos, civilizada.

Cristovão correu. Se embrenhou no labirinto de estantes e só parou quando estava longe da luz das velas. Respiração pesada, costas coladas na parede e todos os sentidos alertas.

— Creio que tenha gostado da minha doce criatura — debochou a bruxa. — Não tinha muito o que fazer no buraco onde me deixaste para apodrecer. Então passei dias sem conta amaldiçoando a ti e à tua preciosa ordem.

As garras do monstro surgiram na escuridão. Mesmo os reflexos de um velho guerreiro foram suficientes para livrar Cristovão do primeiro ataque. Agora os dois estavam frente a frente, ambos esperando a oportunidade de atacar.

— Depois que ele nasceu foi nutrido com as mais belas promessas de massacre, tortura e mutilação em todas as noite de lua nova durante dez anos… Só então saí daquele buraco.

A besta saltou sobre Cristovão. As presas amarelas prontas para arrancar-lhe a garganta. Ele desviou por baixo do salto e acertou um golpe logo abaixo das costelas da criatura. Apoiado nas patas dianteiras, o monstro o acertou com um chute, derrubando-o no chão.

— É inútil resistir, cavaleiro, mas não te preocupes….

Antes que o comandante pudesse se levantar, as garras do monstro se cravaram em sua perna e o arrastarram para mais perto da boca preparada para o bote. As presas miraram o pescoço, mas foram detidas  pela lâmina da espada. A besta forçava seu peso sobre Cristovão e tentava freneticamente morder seu rosto. A prata que revestia a lâmina começou a queimar a boca do monstro, que desistiu quando a dor se tornou insuportável se afastando. Se aproveitando da abertura, o velho comandante acertou um pontapé no queixo do monstro. A dor das queimaduras e a surpresa do golpe foram suficientes para criar uma brecha. Cristovão pôs-se de pé e mais uma vez se perdeu no labirinto das estantes.

— … Deixarei tua cabeça intacta. Te carregarei comigo por onde for e exibirei  a todos a tua face pálida em meu estandarte, mas não penses que tua morte te poupará da vergonha — riu a bruxa.

Cristovão examinava compulsivamente os arredores, atento a qualquer som ou movimento. O ferimento da perna queimava, os músculos se enrijeciam em uma contração dolorosa. “Veneno”, pensou ele. Sacou um dos frascos de água benta, arrancou a rolha com os dentes e derramou um pouco do líquido abençoado sobre o ferimento. A água fervia e chiava em contato com as chagas contaminadas, a dor fez a cabeça rodar. Com as feridas cauterizadas e os músculos voltando ao normal, Cristovão podia mais uma vez se concentrar em seu adversário.

O cheiro da carne queimada misturado ao odor de muitas velas anunciavam a aproximação da besta. Ela se aproximou cautelosa, apesar de ser impossível saber onde aqueles olhos estavam fixos, não seria errado imaginar que ela fitava a espada. As narinas estavam dilatadas diante do cheiro da água benta.

— Contarei infinitas vezes, para quem quiser ouvir, a história do guerreiro santo que se dizia Espada do Pai Todo-Poderoso, defensor da fé e das sagradas doutrinas… Que foi expulso de sua ordem depois de se tornar uma só carne com uma bruxa…

Em um ataque cauteloso a fera lançou suas garras sobre Cristovão, dois golpes rápidos que erraram por pouco. Em resposta o comandante arremessou o frasco que estava em sua mão. O vidro fino se espatifou na cara do monstro, o líquido começou a corroer a carne. Um urro bestial de dor encheu a biblioteca, enquanto seu inimigo convulcionava de dor, Cristovão correu mais uma vez. A luz das velas estava próxima.

— … De como a vergonha e a ira o fizeram cortar fora a cabeça da antes amada mulher. Ele precisava queimar o corpo inteiro, mas onde estava a cabeça? Perdida sob o tronco oco de uma árvore morta, protegida pelas trevas que a bruxa carregava em suas palavras. Um ritual malfeito, as chamas não consumiram o coração… Contarei de sua fuga para uma parte distante do reino e de como as décadas se passaram sem diminuir o tamanho da vergonha que ele sentia e de como ele virou um escravo da mulher por ele assassinada…

A fera bufava de fúria, urrava por sangue. As garras se afiavam no piso de pedra. O coração de Cristovão martelava no peito. Era impossível interromper o ritual sem se livrar do monstro… Mas a bruxa ainda não possuía um corpo, estava indefesa. Ele precisava correr.

— … Afinal, somos uma só carne, Cristovão. Quando apodreci meu coração fui amaldiçoada com uma vida sem morte… E teu coração está tão podre quanto o meu.

O velho guerreiro disparou na direção da bruxa. O coração pulsava com força no fundo da tina de pedra, as velas estavam quase no fim. A espada foi erguida, pronta para perfurar o órgão maldito, o golpe desceu com força… Mas algo deteve a lâmina. Uma mão vermelha surgiu em meio ao sangue. Os dedos agarravam com força a lâmina da espada, o sangue fervia em contato com a prata que revestia a arma. Outra mão surgiu para segurar a lâmina. Dois braços e um tronco feminino se ergueram do sangue. Horrorizado Cristovão deu um salto para trás. O corpo sem cabeça saiu por completo da poça de sangue. Sua cor era a mesma das velas, gotas vermelhas escorriam por ele e pingavam no chão.

— Um belo corpo, não achas? — Provocou a bruxa. — Creio que gostarás tanto deste quanto do antigo.

Dor.

Dois golpes acertaram ao mesmo tempo o guerreiro desprevenido. Do lado direito as garras se cravaram nas costelas. Do lado esquerdo elas se cravaram no abdome. O sangue caiu em cascata ao chegar a boca.  A bruxa riu. A besta puxou suas garras e se afastou, aguardando novas ordens, olhava com facínio o corpo recém saído do sangue. Cristovão caiu de joelhos. O corpo caminhou até ele, envolveu-lhe o queixo com os dedos pegajosos e ergueu seu rosto para que a bruxa pudesse olhar diretamente em seus olhos.

— Esse não é o fim, meu querido — disse ela sorrindo.

A mão de Cristovão moveu-se vagarosamente para a faca presa no cinto.

— Pense nisso como o casamento que não tivemos… Estaremos sempre juntos.

A faca escorregou para fora da bainha.

— Sim… Sempre juntos — disse Cristovão com a respiração falhando.

Agora as duas mãos seguravam a faca, prontas para o golpe fatal.

— Nos vemos no inferno… Meu amor.

A faca penetrou por baixo do esterno até o coração. A lâmina de prata fez a carne apodrecida do coração de Cristovão ferver. O corpo recém criado começou a derreter, a face da bruxa se contorcia de ódio e dor, a boca proferia uma infinidade de maldições. Mas o velho comandante não ouviu nenhuma delas. Seus sentidos desvaneceram enquanto o corpo tombava no chão. Um sorriso discreto brotou em seus lábios. Finalmente a ligação com sua antiga amada estava desfeita… Finalmente ele estaria em paz.

Contos de Segunda #77

    Na semana do Dia Internacional da Mulher temos mais um capítulo da história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

Segunda-feira estava na sala de espera do médico. Não que ela estivesse doente, normalmente uma Dama não ficava doente, pelo menos não de algo que um médico mortal pudesse tratar. Segunda estava esperando ser chamada para sua consulta com a Dra. Márcia Sang, uma das maiores hematologistas do país.

    — Mônica? — Chamou a recepcionista. — Mônica Nunes?

    — É Lunes — corrigiu Segunda-feira.

    — Perdão… Lunes. A doutora está esperando no consultório três. Segunda porta à esquerda.

    Cada vez mais as Damas precisam dar um jeito de se misturar aos mortais, adotar um nome mundano é a primeira coisa que elas fazem. Quando Segunda-feira resolveu se tornar professora ela escolheu o nome Mônica Lunes, derivado de nomes que ela já tinha em outras línguas. Muitas Damas seguem a mesma lógica para criar um nome mortal, uma das primeiras a fazer isso foi Márcia Sang.

    Ao entrar no consultório, Segunda viu a Dama disfarçada de médica. Os cabelos vermelhos presos em um coque, os óculos de armação metálica, as unhas cinzentas e a pele branca permanentemente ruborizada eram traços que passavam despercebidos pelos olhos dos mortais, mas para uma Dama eram inconfundíveis. A médica estava distraída quando Segunda entrou no consultório. O suficiente para não perceber a aura mística da suposta paciente, pelo menos não até a porta se fechar e transformar novamente o consultório no santuário da Dama. Nem uma formiga passaria despercebida.

    — Saudações, Dama de Sangue.

    Márcia levou um susto. Atualmente ela ouvia seu nome original tão poucas vezes que a sensação era de ter um disfarce revelado. As outras Damas raramente faziam uma visita, principalmente em seu consultório e muito menos em horário comercial. Além disso, todas estavam sabendo da atual situação da Dama da Segunda-feira.

    — Peguei o endereço do teu santuário com Bibliotecária — continuou Segunda. — É meio urgente, espero que não se incomode.

    — A surpresa é muito maior do que o incômodo, Dama da Segunda-feira — Márcia ajeitou os óculos. — Ouvi falar da sua situação e da ordem dada pela Mãe-de-Todas às demais Damas: Ajudá-la a encontrar um Cavaleiro. Só não imaginava que você viria pedir pela minha ajuda.

    — Não leve a mal, Sangue, mas eu não estou aqui pra pedir ajuda na busca por um Cavaleiro — ela fechou os olhos na tentativa de reunir coragem e vomitou as palavras todas de uma vez para não correr o risco de desistir na metade. — Eunãoqueroumcavaleiro, queroumfilho.

    — O quê?

    Segunda respirou fundo e disse mais devagar.

    — Eu não quero um cavaleiro, eu quero um filho.

    Silêncio.

    — Acho que te peguei de surpresa.

    O sangue fugiu das faces da Dama. Seu olhar perdido era um sinal do quão longe sua mente estava naquele instante. Em um piscar de olhos ela vasculhou sua memória ancestral em busca de conhecimentos antigos. Ela voltou segundos depois.

    — Perdão, Segunda. Algumas palavras me levam para memórias muito antigas — respondeu a Dama de Sangue como se estivesse despertando de um sonho. — Algumas de nós conseguem acessar conhecimentos antigos, herdados daquelas que vieram antes de nós. Sou uma das poucas Damas que ainda consegue ir tão longe, por isso dizem que eu sei como ajudar no nascimento do filho de uma Dama… Creio que as histórias sobre mim são um pouco exageradas.

    — Exageradas em que sentido?

    — Nossas irmãs falam de mim como se eu fosse uma espécie de parteira…Prefiro me definir como, digamos, grande conhecedora dos métodos de reprodução assistida.

    — Então existe uma forma.

    — Sim, existe. Uma forma para mim, outra para você e suas irmãs, outra para Bibliotecária e outra para a Mãe-de-Todas. Sem certo ou errado, cada uma de nós se adequa melhor a um método.

    — Você teve algum filho?

    — Tive dois. Nascidos com o único propósito de assassinar meu Cavaleiro — ela sorriu. As unhas cinzentas cresceram e se viraram em aço enquanto a Dama acariciava o pescoço e pensava em morte. — Ele estava um pouco descontrolado. Ele foi um dos mais poderosos de sua época, não pude dar cabo dele sozinha… Só estou contando isso para mostrar como eu gerei os meus filhos, já estou quase chegando no ponto que vai ser útil para você… Onde eu estava?

— Na parte que você não conseguiria matar seu cavaleiro — respondeu Segunda chocada com o fato de dois filhos nascerem com o único propósito de assassinar o próprio pai.

— Ah, sim. Quando eu me vi em grande necessidade eu desejei ardentemente gerar filhos para matar meu cavaleiro. Meu corpo atendeu ao meu desejo, com o aço dos meus ossos eu fiz meu útero, com o sangue eu formei a carne deles e aos poucos nasceu o fogo de seus corações. Você pode fazer algo parecido, mas você precisa descobrir como usar sua natureza para formar uma vida. Só assim você vai gerar um filho.

— E quanto tempo isso leva?

— Você é uma entidade do tempo, Dama da Segunda-feira. Para você o tempo é mais do que um aliado. O tempo é quase um escravo… Talvez isso também ajude.

A médica puxou a gaveta e dela tirou um frasco com um líquido vermelho.

— E isso seria…? — Questionou Segunda.

— Os corpos de algumas Damas são muito abstratos. Eu sou formada de aço, carne e sangue, você é uma anomalia espaço-temporal de óculos. Isso vai te deixar um pouco mais material e mundana. É só beber e seu corpo vai se organizar temporariamente em uma forma mais próxima de um organismo real.

— Ah, não…

Segunda começou a sentir algo estranho. Algo se movimentava em seu ventre. Ela sentia a pele esticando, mas não via nenhuma diferença no volume do corpo.

— Tem algo errado?

— O corpo de uma Dama do Tempo é uma constante — a respiração ficou mais pesada. — Precisamos existir em todo tempo simultaneamente. Pra isso funcionar é preciso permanecer imutável… Neste exato momento eu sinto o meu corpo diferente, mesmo que ele não pareça diferente…Em algum instante do tempo… Eu estou grávida

Contos de Segunda #76

    Erick caçava dragões. Caçava, não caça mais. Pelo menos não depois do dia em que ele subiu uma colina para matar um certo dragão vermelho. Depois daquele dia os dois ficaram amigos e Erick nunca mais matou um dragão. Obviamente o ex-caçador precisava de outro ofício e foi buscando esse novo ofício que Erick partiu para a cidade e não retornou desde então. Todos os dias, sob a sombra de uma árvore tão antiga quanto ele, o Dragão Vermelho passava horas inventando histórias sobre a vida de Erick. Essas histórias ele contava aos pássaros, às crianças que fugiam da vila e subiam a colina para vê-lo, aos pastores que sempre passavam para agradecer a proteção que o dragão dava às suas ovelhas e a todos que estivessem dispostos a parar por um instante e ouvir. Infelizmente nem todos que subiam a colina tinham essa intenção.

A tarde estava no começo e a semana também. Fazia muito calor e o sol castigava todos que estavam sob ele. Em um dia tão quente era difícil não sentir o cheiro dos homens que suavam em bicas sob as suas armaduras enquanto subiam a colina. O barulho que faziam era pouco para um grupo com pelo menos dez pessoas, mas ainda suficiente para ser notado pelo réptil. Ele sabia quem eram aqueles guerreiros. Os únicos que teriam algum motivo para subir a colina. Caçadores de dragão.

— Saudações, nobres caçadores — disse o dragão. — Quais as novas que trazem do pé da colina?

Os homens travaram, se entreolharam surpresos e não conseguiram responder. Afinal todos os dragões caçados por eles até então eram feras cruéis, mesquinhas e cheias de um sadismo quase pecaminoso. A resposta ainda demorou alguns segundos para aparecer.

— Saudações, dragão — respondeu um dos caçadores. — Imagino que saibas o motivo da nossa vinda.

— Naturalmente. Creio que vieram para avaliar a possibilidade de pôr um fim à minha vida. Espero que tenham resolvido desistir da ideia.

— Nunca deixariamos uma fera tão perigosa viva. É nosso dever — disse outro caçador.

— Deveras, meu caro, mas noto que tua avaliação é baseada em uma série de eventos desastrosos envolvendo meus parentes e em um preconceito secular sobre o temperamento e a índole dos membros da espécie dracônica.

— Não é preconceito, Dragão. És notório por ser um dragão que não se pode caçar. Ouço histórias sobre os caçadores que ousaram te enfrentar.

— Falas de Charles que deixou de ser caçador para virar sapateiro? Ou de Robert que construiu um dos moinhos mais prósperos da região? Se falas de Erick… Bem, não sei o que Erick anda fazendo.

— Culpa da tua feitiçaria, dragão — rebateu um dos caçadores.

— Gostaria muito de saber em que provas são baseadas tuas acusações — replicou o dragão. — Nenhum deles parecia levar uma vida feliz como caçador. Eles vieram para me tirar a vida, mas depois de refletir um pouco perceberam o quão insatisfeitos estavam. Não usei de nenhuma feitiçaria.

— O que sugere, dragão? Que desistamos de matá-lo? Depois do mal que nos fez é impossível.

— Então permita ao menos que eu receba um julgamento justo. Leve-me sob custódia e me apresente diante dos seus líderes. Convoque aqueles que uma vez tentaram me matar e permita que falem. Eles provarão minha inocência.

A discussão dos caçadores levou alguns minutos. A resposta deles, apesar de previsível, não foi menos impactante.

— Muito bem, dragão. Terás o que pedes… Tragam correntes para prender as asas e alguém vá na frente para avisar ao sindicato… Precisamos julgar um dragão.

Contos de Segunda #64

Erick caçava dragões. Depois de uma orientação profissional relativamente ineficiente, ele virou vendedor ambulante na fila do desemprego. O Caldo do Dragão ficou tão famoso que Erick tinha funcionários vendendo o ensopado em mais três pontos da cidade. Erick finalmente havia encontrado uma profissão menos mortal e os negócios estavam crescendo. Tudo parecia bem… Até um certo dia em que o passado bateu na porta do caçador.

Asas negras fizeram sombra sobre a cidade. Jatos de fogo lambiam os telhados das casas e uma cauda açoitava o alto das muralhas. Com uma frase a apresentação foi encerrada.

— Tragam-me Erick, o caçador — a poderosa voz do dragão podia ser ouvida em toda a cidade.

Ninguém precisou dizer a Erick o que ele precisava fazer. Mesmo longe da profissão, o escudo revestido de couro de dragão e a espada sempre estavam com ele. O elmo, a placa do peito e as manoplas da armadura estavam disfarçadas entre os ingredientes do caldo. O selo mágico dado pelo sindicato foi rompido. Mesmo um caçador aposentado tinha um juramento a cumprir. Seguindo o selo quebrado outros chegariam logo, mas ele precisava ganhar tempo. Precisava tirar o dragão da cidade.

Erick subiu na construção mais alta que encontrou. Não precisou nem se esforçar, o dragão chegou antes que ele pudesse pensar em uma forma de chamar atenção. Negro e cinza tingiam as escamas da fera. Um dos olhos fora arrancado. As inúmeras cicatrizes eram lembranças vivas das inúmeras batalhas travadas pela besta alada.

— Ah, caçador. Pensaste que teu novo disfarce te esconderia de mim?

— Jamais, nobre Cicatriz. Apenas acreditei que meus colegas seriam um pouco mais eficientes ao tratar contigo.

Um jato de fogo que teria largado a carne de Erick dos ossos foi segurado pelo escudo. Aproveitando a distração, Erick saiu do alcance do fogo pelo lado do olho cego do dragão e deu uma estocada entre os dedos da criatura. Saltou para o próximo telhado e depois para a rua na direção do portão principal.

— Foges de mim, caçador? — Debochou Cicatriz. — Das outras vezes te mostraste um combatente mais digno.

A serpente alada saiu no encalço de Erick por cima dos telhados. O escudo de Erick já estava nas costas para prevenir qualquer sopro de fogo que viesse por trás. O portão estava perto, logo ele atrairia o dragão para longe da cidade. O plano daria certo se o dragão não tivesse se colocado entre Erick e o portão.

— Não escaparás agora, caçador.

Espada de volta na bainha e escudo de volta no braço esquerdo. Erick não queria ferir o dragão, só precisava de uma abertura para passar. Correu para o lado cego da fera, forçando o maldito a se virar para enxergá-lo. Tudo para tirar a cauda da besta do portão. Correu com o escudo na frente. As chamas banharam a investida, mas o dragão não soprou chamas por muito tempo, ele precisava localizar o alvo que já estava quase passando por ele. Tentou acertar Erick com a garra das asas, mas com um salto e um rolamento o caçador se livrou do ataque. Quando Cicatriz se deu conta o caçador já tinha passado pelos portões. Em uma investida mal planejada ele se lançou contra o homem de armadura, mas não terminou o ataque. O corpo do dragão ficou preso no portão.

— Muito esperto, caçador. Mas muito te enganas se achas que estou derrotado.

— Infelizmente, Cicatriz, não há escapatória para ti hoje. Os caçadores logo chegarão para te dar o fim que mereces. Eu poderia te oferecer uma refeição enquanto esperas, mas meu caldeirão de ensopado ficou do lado de dentro dos muros.

Contos de Segunda #45

Erick caçava dragões. “Caçava”, hoje em dia não caça mais. Além de ser muito perigoso, muitas vezes chato e normalmente solitário, o sindicato conseguia deixar tudo ainda pior. Por causa de um dragão ele deixou essa vida de caçar dragão. Isso fez Erick e o dragão em questão se tornarem grandes amigos… Mas não ajudou a pagar as contas. Diante da perspectiva de falência, Erick deixou sua amizade com o dragão de lado e partiu em busca de trabalho.

    Ultimamente alguns reinos estavam em guerra e todo mundo estava meio perdido. Muitos fazendeiros estavam sem fazenda, soldados sem exercito, cavaleiros sem cavalo e taverneiros sem taverna. Muitas dessas pessoas acabavam fugindo para os reinos que estavam em paz e para organizar toda essa massa de trabalhadores os sindicatos fundaram um órgão regulador. Na falta de nomes melhores, as pessoas que trabalhavam nesse órgão ficaram conhecidos como ministros do trabalho. Justamente para encontrar esses ministros que Erick viajou para uma das maiores cidades do reino.

    O sol mal tinha saído quando o ex-caçador chegou ao portão principal e quase uma centena de pessoas já aguardava na fila. Vendedores ambulantes circulavam nos arredores vendendo pães, maçãs e carne seca, em algumas barraquinhas próximas era possível comprar cerveja e vinho, Erick pediu uma caneca de cerveja escura para o desjejum. Depois de um tempo suficiente para as pessoas que aguardavam ficarem todas amigas íntimas a fila começou a andar. Levou quase duas horas para Erick finalmente ser atendido pelo ministro.

    – Saudações, rapaz – disse Erick observando o jovem franzino sentado do outro lado da mesa. Um pergaminho em branco estava na frente dele e uma pena em sua mão.

    – Saudações, senhor. Em que posso ser útil?

– No momento procuro por um trabalho. Digamos que mudei de ramo recentemente e estou… Como posso dizer… Um pouco desinformado sobre as opções de ofício para um homem com as minhas habilidades.

O rapaz molhou a pena e se preparou para escrever.

– Como te chamas, senhor?

– Erick. Sem sobrenome, apenas Erick.

– Ocupação anterior, Erick?

– Eu caçava dragões.

O ministro levantou uma sobrancelha e encarou Erick por um instante. O couro do colete que ele usava sobre a camisa, a pele bronzeada, a queimadura no rosto e a cicatriz na testa confirmavam o que ele dizia.

– Entendo… – o jovem começou a escrever no pergaminho. – Quantos anos de experiência, Erick?

– Cinco anos de treinamento e serviço na sede do sindicato, três anos como caçador auxiliar operando catapultas e balistas e mais quatro como caçador titular, sendo um ano caçando totalmente sozinho.

– Tem familiaridade com quais tipos de arma, Erick? – A pena corria ligeira sobre o pergaminho.

– Espada, longa e de duas mãos, arco longo e de caça, martelo, mangual, machado de arremesso, lança de arremesso e longa. Minha especialidade é combater usando escudos de qualquer tamanho.

– Tens equipamento próprio, Erick? – A pena continuava frenética sobre o papel.

– Sim, é… Uma espada, um escudo revestido de couro de dragão, uma armadura leve feita com as escamas mais duras e uma cota de malha. Também tenho uma catapulta que pode ser convertida em balista, os documentos e a manutenção estão todos em dia.

– Alguma pendência com o sindicato?

– Creio que não. Meu desligamento ocorreu sem problemas.

– Sabes ler, Erick?

– O suficiente para entender as placas da estrada e as mensagens simples dos cartazes da cidade.

– Alguma habilidade adicional digna de nota?

– Trabalho bem com couro, principalmente de répteis, tenho bom senso de orientação, consigo viver durante longos períodos em regiões ermas. Sou acostumado a ambientes com temperaturas elevadas, toco alaúde e não tenho problemas de visão.

– Excelente – o ministro escreveu mais algumas linhas, parou e encarou o que estava escrito antes de continuar. – Erick, tuas opções são bem limitadas. Caso não queiras caçar outro tipo de fera, pode ajudar no treinamento dos patrulheiros da cidade. Nossos homens de armas mais habilidosos foram convocados para a fronteira por causa da eminência da guerra e os que patrulham a cidade têm pouca habilidade. Soube que os mercenários estão arrendando armas de cerco, caso esteja interessado. Nossos artesãos de couro não costumam ter uma demanda alta, mas nossos ferreiros costumam pagar bem para ajudantes que não desmaiam com o calor. Talvez alguém queira um guarda-costas, mas isso não posso garantir – o jovem derreteu um pouco de cera sobre o pergaminho e marcou com o anel. – Apresenta este documento quando procurares por trabalho. Tenha um bom dia e boa sorte na tua nova vida profissional.

Erick pegou o documento e saiu. A fila atrás dele parecia ainda maior, já passava e muito dos portões da cidade. Tantas pessoas procurando um rumo na vida deixaram o ex-caçador pensativo. Talvez ele seguisse alguma das indicações do ministro do trabalho, talvez seguisse todas, mas a vontade que tinha era de não seguir nenhuma delas. Pensou no que tinha conquistado até ali, no que tinha conseguido juntar para si e o que podia deixar de herança para seus possíveis filhos. Lembrou com uma certa saudade dos tempos antes da caça aos dragões. Lembrou de como era viver com a família cuidando de uma taverna e de como ele se imaginava fazendo aquilo no futuro… Ao lembrar daquilo Erick percebeu o que precisava fazer.

No outro dia ele retornou para a fila. Ficou nela desde o amanhecer até o sol se pôr. Chegou inseguro, passou o dia sorrindo e voltou para casa satisfeito. Ele passou o dia empurrando um carrinho com um panelão de ensopado. Por duas moedas a tigela era acompanha por meio pão, por três o freguês levava um pão inteiro e uma tira de carne seca de brinde e por dez era possível levar para casa uma escama de dragão como souvenir.

Relaxa, É Carnaval

Carnaval. Festa da Carne. Quatro (ou cinco) dias de festa, alegria, álcool, música, sol no quengo, suor, calor humano, fantasias variadas, músicas que tocam todo ano, hits feitos de chiclete vindos da Bahia, amores que acabam na quarta-feira, outros que vão durar mais alguns muitos carnavais, muita, mas muita “NOTA…DEZ” e todo tipo de sacanagem lúdica e recreativa.

Apesar de não gostar da folia, é impossível ficar totalmente isolado dessa atmosfera. Diante disso resolvi que o texto dessa quarta-feira(de cinzas) seria sobre o carnaval, mas o que falar dessa festa que eu nem de longe vejo? Realmente de festa eu não entendo, mas uma coisa que eu ainda consigo fazer é observar as pessoas. E no carnaval, assim como em outras épocas do ano, as pessoas adquirem um comportamento muito curioso. Não existe época em que as pessoas são mais tolerantes do que no carnaval.

Pode parecer besteira, mas se você parar pra reparar “É Carnaval” não é só uma frase, é quase um sentimento. Nessa história de “É Carnaval”, o folião não se queixa do sol, nem do calor da fantasia. Não liga pro aperto, é solidário com o folião desconhecido que tá passando aperto. E aperto é o que não falta durante o reinado de Momo. Atrás do trio, da orquestra ou seja lá do que for, o espaço é disputado no nível do metrô em hora de pico. Mas no carnaval quem está se apertando não queria estar em outro lugar.

As piadas fazem mais graça, a música parece melhor e aquela fantasia que talvez não tivesse graça nenhuma faz você morrer de rir. Machistas nível “Orgulho de Ser Hétero”  se vestem de mulher e moças que passam 360 e poucos dias do ano falando mal do tamanho da roupa das piriguetes, mas reservam esses quatro dias pra se vestir pior do que elas. Isso sem contar que coisas que normalmente incomodariam muito, acabam sendo quase ignoradas no carnaval. Andar um tempão pra poder pegar um ônibus ou metrô, improvisar banheiro e até cerveja quente acabam sendo parte do que é se aventurar no carnaval.

Mas hoje é quarta-feira e acabou-se o carnaval. Fim da folga para todos, seja folião ou não. Vou aproveitar a deixa para desejar um feliz ano novo para todos. Afinal, todo mundo sabe que 2016 só começa pra valer a partir de amanhã… Mas amanhã já é quinta… Melhor deixar pra segunda.

Contos de Segunda #21

Erick caçava dragões. Oficio bastante perigoso, tendo em vista que normalmente ele só dispunha de um escudo feito com couro de dragão, sua espada e uma catapulta. Apesar de não parecer, matar dragões era algo bastante sistemático e bem monótono em alguns casos. Mas não havia nada mais incômodo do que as exigências do sindicato: um dragão por semana, a carcaça devia ser entregue todas as segundas-feiras ao meio-dia em uma das sedes do sindicato espalhadas pelo reino. Era segunda-feira e Erick não caçara nenhum dragão.

Vontade de abandonar o emprego não era algo raro. O perigo do trabalho não estava compensando, o salário não era essas coisas todas e estava cada vez mais difícil caçar um dragão por semana e essa não era a primeira vez que Erick chegava ao primeiro dia útil da semana com as mãos vazias. Enquanto quebrava o jejum na estalagem ouviu dois viajantes conversando. Eles falavam de um dragão que aparecia toda segunda-feira no topo da colina e de como todos os caçadores de dragões que tentaram caçá-lo nunca mais foram vistos novamente por ninguém do sindicato. Caçar um dragão era sempre perigoso, caçar um que era impossível de ser caçado talvez garantisse uma aposentadoria precoce.

O caçador chegou ao topo da colina. O dragão estava lá. Grande e vermelho, dormindo aninhado sob a sombra de uma árvore tão velha quanto ele. Parecia uma presa fácil. Uma manobra padrão vinte e dois resolveria, contanto que ele se mantivesse no chão. Erick se aproximou silenciosamente, posicionou-se contra o vento para que a fera não sentisse o seu cheiro, a exatos vinte metros do alvo ele correu, sacou a espada e se preparou para saltar e desferir um golpe certeiro no olho esquerdo, mas uma voz o interrompeu.

– Tem certeza que quer fazer isso?

– Claro que sim, Dragão – as palavras saíam em tom de desdém.

– Hoje é só o começo da semana, Caçador. Não percebes que o dia já é ruim por si só? Não basta o tormento rotineiro de toda semana? Ainda queres me matar?

– Nada pessoal, Dragão, mas tua morte tornará meu começo de semana um pouco menos penoso.

– Teu ofício já é penoso o suficiente, estando eu vivo ou morto. Ainda terás de matar outro dragão nessa semana, do contrário te acharás na mesma desgraça daqui a sete dias.

– Detesto admitir, serpente desgraçada, mas a razão te cobre como a sombra desta árvore. O que sugeres que eu faça?

– Assenta-te recostado nesta árvore, dizem que o aroma de suas folhas esclarece os pensamentos e atrai pensamentos sensatos. Caso tenha desistido de me matar, obviamente.

– Desisti, Dragão. Creio que esta é uma boa hora para repensar a minha vida.

Erick se sentou recostado no tronco da velha árvore. Viu a luz do sol através das folhas e sentiu o aroma que preenchia o topo da colina. Em nenhuma outra segunda-feira Erick foi visto no sindicato dos caçadores de dragões.

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