Na semana do Dia Internacional da Mulher temos mais um capítulo da história da Dama da Segunda-feira. O conto de hoje é uma continuação direta do Contos de Segunda #62. Para saber todos os detalhes dessa história é só ler Contos de Segunda #38, Contos de Segunda #43, Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02

Segunda-feira estava na sala de espera do médico. Não que ela estivesse doente, normalmente uma Dama não ficava doente, pelo menos não de algo que um médico mortal pudesse tratar. Segunda estava esperando ser chamada para sua consulta com a Dra. Márcia Sang, uma das maiores hematologistas do país.

    — Mônica? — Chamou a recepcionista. — Mônica Nunes?

    — É Lunes — corrigiu Segunda-feira.

    — Perdão… Lunes. A doutora está esperando no consultório três. Segunda porta à esquerda.

    Cada vez mais as Damas precisam dar um jeito de se misturar aos mortais, adotar um nome mundano é a primeira coisa que elas fazem. Quando Segunda-feira resolveu se tornar professora ela escolheu o nome Mônica Lunes, derivado de nomes que ela já tinha em outras línguas. Muitas Damas seguem a mesma lógica para criar um nome mortal, uma das primeiras a fazer isso foi Márcia Sang.

    Ao entrar no consultório, Segunda viu a Dama disfarçada de médica. Os cabelos vermelhos presos em um coque, os óculos de armação metálica, as unhas cinzentas e a pele branca permanentemente ruborizada eram traços que passavam despercebidos pelos olhos dos mortais, mas para uma Dama eram inconfundíveis. A médica estava distraída quando Segunda entrou no consultório. O suficiente para não perceber a aura mística da suposta paciente, pelo menos não até a porta se fechar e transformar novamente o consultório no santuário da Dama. Nem uma formiga passaria despercebida.

    — Saudações, Dama de Sangue.

    Márcia levou um susto. Atualmente ela ouvia seu nome original tão poucas vezes que a sensação era de ter um disfarce revelado. As outras Damas raramente faziam uma visita, principalmente em seu consultório e muito menos em horário comercial. Além disso, todas estavam sabendo da atual situação da Dama da Segunda-feira.

    — Peguei o endereço do teu santuário com Bibliotecária — continuou Segunda. — É meio urgente, espero que não se incomode.

    — A surpresa é muito maior do que o incômodo, Dama da Segunda-feira — Márcia ajeitou os óculos. — Ouvi falar da sua situação e da ordem dada pela Mãe-de-Todas às demais Damas: Ajudá-la a encontrar um Cavaleiro. Só não imaginava que você viria pedir pela minha ajuda.

    — Não leve a mal, Sangue, mas eu não estou aqui pra pedir ajuda na busca por um Cavaleiro — ela fechou os olhos na tentativa de reunir coragem e vomitou as palavras todas de uma vez para não correr o risco de desistir na metade. — Eunãoqueroumcavaleiro, queroumfilho.

    — O quê?

    Segunda respirou fundo e disse mais devagar.

    — Eu não quero um cavaleiro, eu quero um filho.

    Silêncio.

    — Acho que te peguei de surpresa.

    O sangue fugiu das faces da Dama. Seu olhar perdido era um sinal do quão longe sua mente estava naquele instante. Em um piscar de olhos ela vasculhou sua memória ancestral em busca de conhecimentos antigos. Ela voltou segundos depois.

    — Perdão, Segunda. Algumas palavras me levam para memórias muito antigas — respondeu a Dama de Sangue como se estivesse despertando de um sonho. — Algumas de nós conseguem acessar conhecimentos antigos, herdados daquelas que vieram antes de nós. Sou uma das poucas Damas que ainda consegue ir tão longe, por isso dizem que eu sei como ajudar no nascimento do filho de uma Dama… Creio que as histórias sobre mim são um pouco exageradas.

    — Exageradas em que sentido?

    — Nossas irmãs falam de mim como se eu fosse uma espécie de parteira…Prefiro me definir como, digamos, grande conhecedora dos métodos de reprodução assistida.

    — Então existe uma forma.

    — Sim, existe. Uma forma para mim, outra para você e suas irmãs, outra para Bibliotecária e outra para a Mãe-de-Todas. Sem certo ou errado, cada uma de nós se adequa melhor a um método.

    — Você teve algum filho?

    — Tive dois. Nascidos com o único propósito de assassinar meu Cavaleiro — ela sorriu. As unhas cinzentas cresceram e se viraram em aço enquanto a Dama acariciava o pescoço e pensava em morte. — Ele estava um pouco descontrolado. Ele foi um dos mais poderosos de sua época, não pude dar cabo dele sozinha… Só estou contando isso para mostrar como eu gerei os meus filhos, já estou quase chegando no ponto que vai ser útil para você… Onde eu estava?

— Na parte que você não conseguiria matar seu cavaleiro — respondeu Segunda chocada com o fato de dois filhos nascerem com o único propósito de assassinar o próprio pai.

— Ah, sim. Quando eu me vi em grande necessidade eu desejei ardentemente gerar filhos para matar meu cavaleiro. Meu corpo atendeu ao meu desejo, com o aço dos meus ossos eu fiz meu útero, com o sangue eu formei a carne deles e aos poucos nasceu o fogo de seus corações. Você pode fazer algo parecido, mas você precisa descobrir como usar sua natureza para formar uma vida. Só assim você vai gerar um filho.

— E quanto tempo isso leva?

— Você é uma entidade do tempo, Dama da Segunda-feira. Para você o tempo é mais do que um aliado. O tempo é quase um escravo… Talvez isso também ajude.

A médica puxou a gaveta e dela tirou um frasco com um líquido vermelho.

— E isso seria…? — Questionou Segunda.

— Os corpos de algumas Damas são muito abstratos. Eu sou formada de aço, carne e sangue, você é uma anomalia espaço-temporal de óculos. Isso vai te deixar um pouco mais material e mundana. É só beber e seu corpo vai se organizar temporariamente em uma forma mais próxima de um organismo real.

— Ah, não…

Segunda começou a sentir algo estranho. Algo se movimentava em seu ventre. Ela sentia a pele esticando, mas não via nenhuma diferença no volume do corpo.

— Tem algo errado?

— O corpo de uma Dama do Tempo é uma constante — a respiração ficou mais pesada. — Precisamos existir em todo tempo simultaneamente. Pra isso funcionar é preciso permanecer imutável… Neste exato momento eu sinto o meu corpo diferente, mesmo que ele não pareça diferente…Em algum instante do tempo… Eu estou grávida

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