Moacir estava de mau humor, não que isso fosse novidade. Ele deixava o mau humor de todas as segundas ao lado da carteira ou no bolso da calça para não correr o risco de esquecer. A diferença naquela segunda em especial era justamente o fato do mau humor ter um motivo, coisa bem rara atualmente. Moacir estava com um humor péssimo por estar com a sensação de que não tinha mais tempo para nada.

Na semana passada Moacir comprou um livro novo e um jogo de computador que estava em promoção, descobriu que tinha saído a temporada nova da série que ele acompanha e que rolou a estreia de mais duas séries novas que ele estava doido para ver, apareceram os amigos com a história de fazer encontros periódicos de jogatina offline e, além disso tudo, ainda estava chovendo todo dia.

Em todos os dias da semana anterior Moacir saiu de casa quebrando a cabeça para tentar achar uma forma de como otimizar o tempo. Tentou almoçar perto para ter mais tempo no horário do almoço, mas tudo que ele conseguiu foi encontrar com os colegas de trabalho que almoçavam perto e formavam uma fila que mais parecia a fila do show de um popstar adolescente. Experimentou pedir uma marmita da tia do almoço, só para descobrir que a tia do almoço tinha uma média de atraso de quarenta minutos em dias de chuva. Tentou levar a marmita de casa e acabou descobrindo que os outros marmiteiros do trabalho tinham um senso de comunidade tão forte que eles paravam para puxar papo mesmo nos dias em que ele não levava marmita, principalmente na hora do almoço.

Já que a hora do almoço se tornou inviável, ele decidiu diminuir a hora do almoço para tentar sair mais cedo. Teria dado certo se ele não tivesse feito isso justamente nos dias em que precisou fazer hora extra. Tentou acordar mais cedo, mas tudo que conseguiu foi descobrir como odiava o som do despertador antes do sol nascer. Ele teria conseguido dormir mais tarde se tivesse tentado isso antes de tentar acordar cedo, mas o sono dele estava tão doido que ele passou o resto da semana só pensando em dormir. O fim de semana chegou e tudo teria dado certo se a internet não estivesse com problemas, impedindo Moacir de baixar o jogo novo e de assistir às séries que queria.

E eis que chegou a segunda-feira. O coração de Moacir estava borbulhando com o ódio mais puro e profundo que uma pessoa poderia sentir. Ele sentou diante do computador com a plena certeza de que poderia matar alguém. Ligou a máquina e esperou aparecer a tela do login. No lugar dela apareceu uma tela de erro. Moacir juntou as mãos no rosto e se perguntou o porquê de tamanho sofrimento. Antes de obter uma resposta satisfatória o telefone tocou.

— Moacir, verifica aí teu e-mail que parece que o relatório da semana passada acabou voltando — disse o chefe. — A gente vai precisar rever.

Silêncio.

— Moacir?

Silêncio.

— Alô?

Um som alto de algo quebrando veio como resposta.

— É… Chefe?

— O que foi isso, Moacir?

— Não vou poder trabalhar no relatório.

— Por que, Moacir?

— Meu monitor acaba de quebrar.

— Teu monitor quebrou?

— É. Eu coloquei a senha errada e a tela explodiu.

— Aconteceu alguma coisa contigo?

— Só a minha mão que tá meio machucada, mas nada que um pouco de gelo não resolva.

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