Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Tá Tudo Uma Bosta 2.0

                Lá nos primórdios do Cachorros de Bikini eu publiquei “Tá Tudo Uma Bosta”, um texto que fala sobre não ter vergonha de admitir que as coisas estão um cocô. Como estamos em uma série de textos sobre reclamar da vida, achei pertinente revisitar o tema sob outra perspectiva.

                Pare pra pensar um pouco junto comigo. Basicamente existem duas formas de estar tudo uma bosta. A primeira é quando de fato as coisas estão uma bosta, seja por causa de um evento específico ou por um conjunto de eventos ruins. Quando isso acontece a gente costuma reagir de forma corajosa, pega o boi pelos chifres e enfrenta o desafio de frente, muitas vezes sem nem dizer aos outros que pelo que estamos passando. Isso acontece principalmente pelo fato de estarmos enfrentando situações e problemas realmente ruins. Comprovando que é diante das dificuldades que o ser humano mostra o que tem de melhor. Mas aí chegamos à segunda e principal forma de tudo estar uma bosta: quando elas parecem estar uma bosta. E é diante dessa segunda forma que o ser humano costuma reagir de forma menos, digamos, nobre.

                Junte uns boletos que ainda não foram pagos, uma hora ou duas preso no trânsito, uma bronca do chefe e um banho indesejado de chuva. Pronto, essa é a receita pra fazer alguém chegar à conclusão de que está tudo uma grandessíssima bosta. Obviamente tudo isso está longe de ser algo bom, mas são eventos pontuais que dificilmente acontecem juntos com muita frequência. Eventos que normalmente não estão sob nosso controle e seus malefícios têm um efeito de curta duração. São mais incômodos do que problemas e é justamente por isso que não temos muito o que fazer e é justamente nessa falta de opções para gastar as energias geradas pelas pequenas desgraças que nasce a vontade de reclamar.

                Tão certo como um dia após o outro é a reclamação nossa de cada dia. As pequenas coisas ruins da vida se aglomeram para formar um monstro que nos envenena a mente e nos transforma no tipo mais azedo de ser humano. Resmungamos sem parar e até as coisas boas são enxergadas através das lentes fecais do mau humor. E não basta só resmungar pro amiguinho do lado, desenvolvemos a necessidade de espalhar aos quatro ventos as desgraças que estão acontecendo nas nossas vidas e nesse ponto a internet exerce um papel fundamental. Se antes nossas queixas eram compartilhadas apenas com as pessoas fisicamente próximas, agora podemos literalmente falar isso pra todo mundo. Nem preciso dizer que por causa disso o que a gente mais vê por aí é gente reclamando de tudo na internet. Inclusive tem a galera que faz APENAS isso da vida, ou pelo menos da vida virtual.

                Por fim gostaria de lembrar que as aparências enganam. Não é porque tem cara de bosta e cheiro de bosta que tá tudo uma bosta. Muitas vezes as coisas não vão tão mal quanto parece, outras vezes elas estão indo até bem. Às vezes só depende de como vemos as coisas.

Até Quando Tá Bom é Ruim

    Hoje estava eu retornando para o meu humilde lar quando me deparei com uma situação (quase) inédita. O trânsito desgraçado que normalmente encaro quando saio do Recife em dia de sexta-feira não apareceu. No lugar dele eu peguei um trânsito bem próximo daquele que eu pego nos outros dias da semana. Qualquer um no meu lugar estaria no mínimo satisfeito por ter errado a previsão e eu de fato estava satisfeito por ter minhas expectativas frustradas… Mais ou menos satisfeito.

Por um acaso hoje eu estava dando carona e a primeira coisa que eu fiz quando ela entrou no carro foi alertar para o trânsito que a gente teoricamente iria pegar. Antes de chegar ao ponto onde o trânsito é mais complicado, comecei a notar que tudo estava fluindo anormalmente bem. Coisas do tipo “já era pra estar engarrafado por aqui” começaram a surgir entre as trivialidades da conversa em um misto de surpresa e decepção. Quando eu cheguei à saída do Hellcife, onde não só a sua paciência, mas também a sua fé costuma ser testada, percebi que não pegaria nem metade do trânsito das sextas anteriores. Obviamente comecei a listar todas as características desgraçadas do trânsito de sexta e de como nada daquilo estava acontecendo. Foi nesse momento que eu e a carona chegamos a uma mesma conclusão: eu estava reclamando do trânsito.

Reclamar é uma das coisas que a gente faz com mais naturalidade. O ser humano passa uma parte considerável da sua existência se incomodando com alguma coisa. Inclusive eu acredito que um dos maiores incômodos que podemos ter é o de errar previsões.

Errar já é uma coisa chata, mas dar um palpite com quase 100% de chance de acerto é e ainda assim errar na previsão é muito pior. Agora imagine o que acontece quando você prevê algo ruim, uma desgraça sem tamanho, uma mazela de proporções bíblicas… Ou o trânsito de sexta na saída do Recife. Está você lá pensando que vai virar a esquina e encontrar com um monstro de filme japonês, mas logo depois você topa com um cara com uma fantasia de carnaval mal feita. Rola um alívio momentâneo, mas logo depois você percebe que toda a sua preparação psicológica foi pro saco e todo aquele aço nos seus nervos não vão servir pra mais nada. Não tem outra, você começa a reclamar.

Esse é o primeiro de uma série de posts sobre reclamar da vida. Tive essa ideia maravilhosa agora e provavelmente me arrependerei amargamente de assumir esse compromisso, mas se eu não fizer isso não terei motivo pra reclamar de nada e é com esse final que pode gerar alguma reclamação sua que eu encerro o post dessa sexta.

(Mais Um) Dia do Amigo

Essa semana estava eu no meu lugar quando reparei numa movimentação peculiar nas internets ao meu redor. No meu feed do Facebook e nos grupos de Whatsapp algumas pessoas começaram a aparecer desejando um “feliz Dia do Amigo”. Obviamente eu estranhei. Posso não ter a melhor memória do mundo pra datas, mas eu tenho uma noção boa da época em que as coisas acontecem. Essa noção ficou um pouco melhor depois que eu comecei a marcar esses acontecimentos com posts temáticos neste blog em que você se encontra agora. E foi por causa de um post sobre o Dia do Amigo que eu fui levado à descobrir a verdade: não existe um, nem dois, mas três dias do amigo.

Isso mesmo, querido leitor. No Brasil, no Uruguai, na Argentina e em Moçambique o Dia do Amigo é comemorado normalmente no dia 20 de julho. Esse dia foi instituído depois da campanha de um médico argentino chamado  Enrique Ernesto Febbraro. Esse cara viu o homem supostamente chegando na Lua e viu aquilo como um feito que mostra que a união entre os semelhantes torna o impossível possível. Como não tinha internet naquele tempo, a campanha dele não foi muito longe e só instituiu essa comemoração em quatro países.

Posteriormente a ONU pegou essa ideia de todo mundo de mãos dadas pra construir um mundo melhor e instituiu o Dia Mundial da Amizade. Como a galera da ONU não tava querendo colocar essa data tão simbólica no dia do aniversário de um acontecimento importante, e pelo fato da chegada do homem à Lua ser um dos maiores marcos da Guerra Fria, que além de ser uma guerra praticamente dividiu o mundo em dois, eles escolheram o dia 27 de abril pra celebrar a amizade e essas coisas.

Aí chegamos no ponto em que você me pergunta: “Se tem um Dia do Amigo em julho e um Dia da Amizade em abril, de onde veio esse Dia do Amigo de fevereiro?”. A resposta é bem simples e bem capaz de você saber. Quem inventou essa data de hoje foi esse fulano aqui:

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Sim, ele mesmo. No dia 04 de fevereiro é comemorado o aniversário do Facebook e por causa disso desde a última quinta-feira tem coisas rolando no Facebook alusivas à essa data tão “especial”. Depois dessa podemos ir pra parte que eu justifico o tempo que eu gastei fazendo esse texto.

Graças à internet a gente precisa lembrar de bem menos coisa do que antigamente. Aniversário, datas comemorativas em geral e até quanto tempo faz determinado acontecimento estão na lista de coisas que o Facebook costuma te lembrar. Eu mesmo acho sensacional não me preocupar em lembrar dos aniversários de todo mundo e dou graças a Deus pela ajuda que o Facebook me dá. Só que muitas vezes confiamos tanto nas notificações que não percebemos que tem alguma coisa errada. Por exemplo, se eu mudar a data do meu aniversário no Facebook é quase certo que um monte de gente vai me dar parabéns. Com isso eu chego à conclusão de que estamos rumando pra uma relação muito reativa com o mundo. Chegaremos num ponto que a memória da gente não vai se ocupar com datas especiais e simplesmente reagiremos ao saber que hoje é dia de alguma coisa. Desculpe a expressão, mas isso é muito Black Mirror.

Por fim, crianças, gostaria de dizer pra não acreditarem em tudo que Zuckerberg coloca lá no seu feed e principalmente, não dependam do Facebook pra lembrar de tudo. Porque no ritmo que a gente vai, as máquinas não vão precisar de robôs assassinos pra dominar a humanidade. Basta colocar umas notificações no Facebook.

E o Tema da Festa Foi… Evaristo Costa

Ontem estava eu vagabundando por um portal de notícias local quando me deparo com a seguinte manchete:

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Antes de comentar a notícia é preciso dar uma contextualizada ligeira. Graças ao advento das redes sociais nós, pessoas transeuntes comuns, conseguimos interagir com pessoas que são menos transeuntes do que a gente. Todo tipo de famoso possível e imaginável está nas redes sociais e até os que não são tão famosos assim tem lá os seus milhares de seguidores. Graças a isso a relação fã/ídolo passou para um nível totalmente diferente, principalmente porque alguns desses famosos costumam interagir bastante com os seus seguidores. Alguns deles interagem de uma forma tão, digamos, interessante que esses famosos chamam mais atenção por sua postura nas redes sociais do que pelo seu trabalho em si.

Um dos maiores exemplos disso é um dos apresentadores de telejornal mais amado do Brasil. O âncora do Jornal Hoje, Evaristo Costa. Caso você não esteja familiarizado com as atividades internéticas dele, aqui vão algumas amostras de como esse ser humano é zueiro na internet.

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Aí essa semana aí chegaram pro nosso amigo Evaristo e disse que ia rolar uma festa que o tema era “Evaristo Costa”. Pra evitar que dissessem por aí “se não tem foto, não aconteceu” um cara mandou pro nosso amigo Evaristo uma foto tirada nessa festa.

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Achando muita graça e, provavelmente, acreditando que o sucesso da festa não tinha sido essas coisas, Evaristo postou a foto de um cara que foi nessa festa e soltou a pergunta de um milhão de dólares:

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Obviamente ele recebeu uma enxurrada de fotos com pessoas, digamos, interagindo de diversas formas com a forma bidimensional do apresentador do Jornal Hoje. As melhores foram reunidas pelo próprio Evaristo naquele que já é o melhor mosaico de fotos de 2017:

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Como se não bastasse, nosso compadre jornalista, ao postar essa foto no Facebook, colocou a seguinte legenda:

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Na moral, deixa eu parar aqui pra aplaudir esse mito brasileiro.

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Pena que eu já tô velho e não dá mais tempo de ser Evaristo Costa quando eu crescer, mas ainda assim eu posso bater palmas pra esse cara. Imagine você, cara criança leitora, um apresentador de telejornal que atingiu o nível de awesomeness tão elevado ao ponto de virar tema de uma festa. Fátima Bernardes teve festa? William Bonner teve festa? Alexandre Garcia teve festa? Marcelo Resende teve festa? Nem o Papa tem festa, mas e Evaristo? Sim, ele teve e no dia que eu chegar no nível de Evaristo e virar tema de festa eu me aposento da existência terrena. Porque depois disso não vai ter nada mais pra conquistar na vida.

Seria legal se a publicação de hoje terminasse no parágrafo anterior, mas infelizmente devemos falar do final da história. Dando uma olhada na publicação de Evaristo no Facebook vi que o final dessa história não foi muito feliz.

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Descanse em paz Evaristo 2D, nunca te esqueceremos.

 

Foi A Vida Adulta que Aconteceu Conosco

    Essa semana estava eu tentando marcar uma jogatina offline com meu irmão. Eu digo tentando porque hoje é sexta, a gente tentou desde segunda e o sábado vai chegar sem a gente conseguir fazer nada. Imediatamente eu lembrei de todas as coisas que eu não consigo fazer com os meus amigos por motivos de agenda, trabalho ou grana. Também lembrei que esses mesmos amigos estão em momentos diferentes da vida. Tem amigo que já casou, ou que já é mais ou menos casado, tem amigo noivo com casamento previsto, tem amigo noivo sem previsão de casar, tem amigo trabalhando demais, tem amigo sem trabalho, uns que estão saindo da faculdade e outros que acabaram de entrar e ainda amigo que marcaria “Nenhuma das Alternativas” no questionário da pesquisa. Nesse ponto da história surge uma pergunta em minha cabeça:

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Independente de quem meus amigos são na fila do pão, a verdade é que aquela história de fazer aquilo que a gente quer quando a gente quer se provou mito muito mais ligeiro do que eu imaginei. Hoje em dia você quer marcar pra encontrar os amigos, mas aí tá todo mundo ocupado ou com algum impedimento. Você resolve juntar a galera pra jogar pela internet ou pra fazer uma atividade lúdica pelo Skype, só que esbarra nos mesmos empecilhos mesmo com cada um na sua casa. Muitas vezes até conversar pelo vatezape com alguns se mostra um trabalho hercúleo. Mais uma vez a pergunta retorna: o que diabos está acontecendo? Não demora muito pra resposta vir.

    Quando eu penso direito na pergunta eu vejo o quão absurda ela é. Acontecendo? Sinto muito, mas não tem nada acontecendo, já aconteceu. O que foi que aconteceu? Acho que no título desse post eu já adiantei a resposta. Foi a vida adulta que aconteceu conosco.

    Em 2017 todos os nascidos na década de 1990 serão maiores de idade. Isso quer dizer que as crianças do início dos 90 já tão nessa de ser adulto faz um bom tempo. Assim como aqueles do final dos 80 e outros que nasceram um pouco antes. Isso quer dizer que a esmagadora maioria dos meus chegados está vivendo na plenitude das suas ocupações e responsabilidades. Isso quer dizer que todo mundo já recebeu o seu diploma de adulto e se brincar já tem gente terminando o mestrado ou o doutorado.

A verdade é que ninguém quer ser adulto. Ser adulto é uma bela de uma bosta e muito se ilude quem tá doido pra ser crescido e dono do próprio nariz. Trabalho, salário, dinheiro, boleto, falta de dinheiro pra pagar o boleto, falta tempo pra gastar com você, sobra tempo que você só pode gastar com você porque os outros não tem tempo pra você gastar tempo com eles, hora extra, preço das coisas subindo, imposto, dor nas costas, taxa, orçamento, voto obrigatório. No final você olha pro lado e tá todo mundo meio perdido nesse tiroteio que é a vida adulta. Os que ficam menos perdidos são os que aceitam mais rápido o estado adulto do seu ser. Simplesmente se jogam aos leões sem olhar pra trás e param de tentar utilizar plenamente a suposta liberdade que a gente achava que ia ter quando fosse adulto.

Antes que você diga que esse post ficou muito pra baixo eu vou deixar uma mensagem de esperança. Hoje eu quero dizer que vale a pena sim lutar contra os intempéries da vida adulta. Vale a pena porque de tanto tentar a gente acaba conseguindo. Acontece muito? Não, mas quando acontece é tão bom que a gente fica com gás suficiente pra continuar tentando. Na prática só vira adulto de vez quem quer ou quem deixa. Eu todo dia reafirmo meu compromisso de tentar levar uma vida menos adulta e é por isso que eu desejo uma vida menos adulta pra todo mundo.

Começou o Big Brother

Muitas vezes o ano parece tão longo que a gente acaba esquecendo de algumas coisas que sempre aparecem no começo do ano. Exatamente por isso que todo ano eu esqueço que vai ter Big Brother e quando eu menos espero ele já começou.

O Big Brother Brasil é um programa que passa na TV todo ano desde 2002, sendo que no primeiro ano o programa teve duas edições. Em todas elas tivemos pouco mais de uma dúzia de participantes brigando por um prêmio em dinheiro que eu nem sei mais quanto é, mas que já foi corroído pela inflação. Ao longo de três meses que mais parecem três anos os participantes brincam, brigam, geram polêmica, se agarram uns com os outros e entretêm a família brasileira. Mas o post de hoje não é pra falar sobre toda a engenharia social do Big Brother ou do programa em si, hoje eu vou falar porque o tempo do BBB é provavelmente uma das épocas mais chatas do ano.

Se existe uma coisa no mundo que gera mais reclamações do que a novela das oito nove é o Big Brother. Tem a galera que aproveita pra reciclar o discurso da baixa qualidade do entretenimento da TV aberta e de como o Big Brother é uma desgraça na vida do brasileiro. Tem a galera que é defensora da moral e dos bons costumes e está pronta para apontar qualquer traço de imoralidade identificado no reality show. Fora a galera que odeia a Rede Glóbulo de Televisão e se apoia no discurso dos dois grupos anteriores pra poder odiar a Globo com mais força. Também tem o pessoal que assiste BBB esperando acabar pra poder ver o que vem depois e acaba acompanhando o programa por osmose e obviamente temos as pessoas que de fato são fãs do Big Brother. Aí pensando nisso a gente lembra de duas coisas: a primeira é que todas as pessoas estão na internet e que todo o ódio ou amor pelo programa são despejados aos baldes nas redes sociais, a segunda é que além desses grupos existe mais um que acaba sendo bem menos importante nessa história toda. Existe o grupo das pessoas que não estão nem aí pro Big Brother. E provavelmente essas são as que mais sofrem por causa dos outros grupos.

Imagine que você não tá ligando pro BBB. Imagine que você entra no seu Facebucket e tá lá um monte de gente falando, bem ou mal, do Big Brother. Tanta gente que quase não se fala de outra coisa. Os assuntos vão desde abaixo assinado fake pra tirar o Big Brother até os memes gerados pelo programa e todas as discussões infinitas das pessoas sobre o programa. Aí você chega à conclusão que detesta o BBB, não por aquilo que ele é, mas pelo efeito que ele provoca nas pessoas. E a pior parte é que tudo isso poderia ser evitado com algumas medidas bem simples.

Você acha a qualidade da TV aberta muito baixa? Não veja TV aberta. Hoje em dia tem internet, YouTube, Netflix e TV paga. A qualidade do seu entretenimento depende de você.

Você acha que o BBB é uma imoralidade? Não assista. Acha que não pode ter esse tanto de safadeza por causa das crianças? Até onde eu sei o programa tem uma classificação indicativa e mesmo que fosse livre para todos os públicos, cabe aos responsáveis das crianças (ou adolescentes) regular o que eles assistem.

Você odeia a Globo? Odeie não, ódio só faz mal pra você.

Pra você só interessa o programa que vai passar depois? Então fica de boa que você é de boa.

Você é fã do BBB e detesta quando as pessoas ficam reclamando por causa do BBB? Deixa esse povo pra lá ou então eles vão ficar ainda mais chatos. Você ganha mais votando pra eliminar a galera que você não gosta do programa.

Do nada esse texto pareceu meio sério? Talvez, mas eu tinha que fazer a minha parte. Faz alguns anos que o Big Brother não me atinge e eu não esquento minha cabeça reclamando dele ou brigando por causa de BBB. Por isso eu gostaria muito que todo mundo parasse de esquentar a cabeça por causa de BBB ou por causa de Globo ou por causa de qualquer coisa que passe na televisão. A gente já tem problemas demais, por favor não arrumem outros.

 

A Graça de Pensar Estranho

    Não é de hoje que eu escuto coisas do tipo “só tu mesmo pra falar um negócio desses” ou um “oux, bicho, tu é doido?” e até mesmo um “tu não existe”. Normalmente ouço isso depois de falar alguma besteira qualquer que acaba pegando de surpresa o outro participante da conversa. Participante esse que é pego de surpresa por nunca ter ouvido algo igual ou por não esperar que alguém diria isso. ´Não importa o motivo ou a pessoa, mas algo que eu já aceitei é que eu penso de um jeito estranho.

    Já ouvi muitas vezes que eu não sou normal e durante muito tempo pensei que não fosse. Aí eu cresci e percebi que o conceito de normalidade é tão relativo que sair carimbando as pessoas com selo de “NORMAL” ou “ANORMAL” não faz sentido, mas ao ver a reação de tantas pessoas, “normais” e “anormais”, em relação com aquilo que eu falava, cheguei à conclusão de que a minha cabeça funciona de uma forma um pouco diferente de boa parte das pessoas. Posteriormente cheguei à conclusão de que isso é responsável por boa parte da graça da minha vida. A melhor parte disso é que eu não estou sozinho nessa.

    É bem provável que você já tenha chamado um monte de gente de “doido”. Também existem grandes chances de muitas dessas pessoas serem amigos ou colegas seus. E é quase certo que você se diverte muito com a suposta doidice desses seus amigos. Acertei? Pois bem, querida criança leitora, não sei se você já parou pra pensar, mas é quase certo que essa pessoa se diverte tanto quanto você.

    Estranho, abstrato, obtuso, doido, esquisito, maluco são normalmente os adjetivos usados quando as pessoas se referem a essas pessoas que tem umas coisas meio diferentonas dentro da cabeça. Normalmente essas pessoas tem afinidade por exercitar a criatividade ou tem gostos considerados peculiares. Também é possível que essa pessoa disfarce, mesmo que inconscientemente, suas estranhezas, até porque nem todo mundo pensa fora da caixa em todas as áreas da vida ou é um ponto fora de todas as curvas da sociedade, mas no final das contas o indivíduo estranho acaba sendo um “indivíduo” no sentido mais forte da palavra. Não que essa pessoa se sinta especial por isso, afinal na cabeça dele as ideias esquisitas são tão normais quanto qualquer outra, mas dificilmente essa pessoa não se diverte com isso.

    A principal vantagem de olhar pro mundo de um jeito diferente é que esse mundo fica bem mais divertido. Imaginar situações absurdas, ter aquela ideia nada a ver ou olhar pra uma coisa séria e imediatamente pensar numa piada ou apenas se abrir pra coisas que muita gente ignora por simples preconceito. A cabeça de uma pessoa dessas acaba se tornando uma espécie de parque de diversões particular. Um parque com possibilidades ilimitadas que sempre tem um brinquedo novo sendo inaugurado esperando alguém entrar e brincar nele.

    Pra encerrar precisamos responder à seguinte pergunta: como essas pessoas ficam assim? A resposta é mais simples do que parece. A verdade é que todo mundo pode ter ideias estranhas, a cabeça de todo mundo pode funcionar de uma forma mais divertida. Depende de cada um. É só abrir a porta da gaiola e deixar as coisas saírem voando. O resultado vai te surpreender.

Eu, Você e Os Hits do Verão

    Verão. A única estação que, ao contrário do inverno, acontece mais ou menos do mesmo jeito em todo o país. O frio é seletivo, mas o calor é para todos e, assim como ele, as coisas de verão costumam se alastrar de forma bem uniforme por toda Terra Brasilis. Dentre todas as coisas de verão a que mais costuma afetar a vida das pessoas é o hit do verão.

Ao longo de todo o ano algumas músicas chegam ao topo das paradas de sucesso, mas os hits de verão não são iguais aos outros hits. Como o nome já diz, essas músicas costumam explodir em uma época muito específica do ano. O hit de verão costuma aparecer lá pra dezembro, bem a tempo de embalar as festas de fim de ano. Ele também não precisa ser lançado necessariamente no verão. Imaginemos essas músicas como uma espécie bomba relógio programada pra explodir quando a galera começa a ir pra praia. Normalmente isso se dá pela posição geográfica do dono do hit e pela velocidade em que o sucesso da música cresce. Isso acontece de forma bem orgânica e não depende tanto dos veículos tradicionais de mídia para tanto, principalmente quando a música tem conteúdo explícito. É uma coisa que acaba passando de pessoa pra pessoa, coisa que hoje é até mais fácil por causa da internet. Mas até aí nada difere muito o hit do verão de um hit comum. É quando chegamos na hora de falar sobre as duas características que tornam o hit de verão tão peculiar.

A primeira delas é que o hit do verão normalmente é eleito o hit do verão. Não é muito incomum você ver as pessoas dizendo que tal música é “a música do verão” ou o “hit do verão” ou, dependendo da música, “a música do carnaval”. Os termos variam, mas de fato algum desses títulos é atribuído à música coroando o sucesso da mesma. Mas devemos lembrar que esse título tem um efeito adverso: a música ganha um prazo de validade. É exatamente essa a segunda característica.

Os hits de verão costumam ficar vivos enquanto o período de veraneio está em vigência. Isso não acontece exatamente na mesma época todo ano, até porque no Brasil o período mais, digamos, contente do verão acaba junto com o carnaval. Que é quando o ano de fato começa. Sacou a diferença? Agora que terminamos as características gerais do hit de verão eu posso falar das coisas que nem todo mundo vai concordar.

A única característica do hit de verão que faz diferença na minha vida é: a música de verão é a música mais chata do ano. Seu vizinho deu uma festa? Vai tocar o hit do verão. Passou um cara com o som alto na sua rua? Vai estar tocando o hit do verão. Você foi pra praia? Lá vai ter alguém com um som ligado no hit do verão. Foi brincar o carnaval? Vai ouvir o hit do verão. O hit desse ano não é música de carnaval? Vai ter alguém que fez uma versão carnavalesca do hit do verão. Não importa. A certeza é que a música vai tocar, você vai acabar ouvindo algumas inúmeras vezes e vai ficar de saco cheio.

Esse ano o hit do verão, creio eu, ainda não foi de fato definido. Minha aposta pra esse ano é o maravilhoso e arrojado “Deu Onda”, principalmente por contar com uma versão que pode ser cantada pelas crianças e outra para os maiores de 18 anos. Além de inspirar uma série de memes, piadinhas e derivados internets afora. De todo jeito o carnaval ainda tá longe e ainda vai tocar muita coisa até lá. Boa sorte pra todos nós.

Contos de Segunda #71

Fernanda estava tentando controlar a raiva. Depois de ter acertado uma voadora nas costas de um colega de trabalho com todo mundo do escritório vendo, Fernanda decidiu que a raiva estava atrapalhando um pouco a sua vida.

Como Fernanda não conhecia ninguém que pudesse indicar um psicólogo, resolveu procurar por conta própria. Foi na lista fornecida pelo plano de saúde, achou um que ficava perto de casa e ligou para o consultório… Ninguém atendeu. Ela tentou mais uma, duas, três vezes antes de alguém atender.

— Centro de psicologia clínica, boa tarde — disse uma voz feminina em um tom monótono.

— Boa tarde. Eu quer… – Começou Fernanda.

— Aguarde um instante por gentileza — respondeu a moça do outro lado da linha logo antes de colocar uma música para tocar.

Fernanda tirou o telefone do ouvido e encarou o aparelho com um olhar incrédulo. “Já começou mal”, pensou ela. Lembrou que todos os psicólogos da lista do plano de saúde ficavam estupidamente longe da casa dela e arrumou um pouco mais de paciência para gastar enquanto tocava a musiquinha da ligação em espera. Paciência essa que estava bem perto do fim quando a voz do outro lado da linha retornou.

— Alô, senhor?

— Eu não…

— Como posso ajudar, senhor?

— Eu quero marcar um horário, mas eu não sou…

— É particular ou plano, senhor?

— Estou tentando dizer que eu não…

— Senhor, sem essas informações eu não posso marcar a consulta.

Fernanda respirou fundo, deu um murro na mesa, se concentrou para não subir o tom de voz e finalmente disse:

— Não sou homem, moça… E vai ser pelo plano.

— Ah, ok então.

Depois de passar todas as informações do plano de saúde, Fernanda estava pronta para considerar o assunto resolvido e muito satisfeita por não ter perdido a calma… Mas ela devia saber que só acaba quando termina.

— Estamos sem horário, senhor… Quer dizer, senhora.

— Sem horário?

— Exato. Estamos enfrentando alguns problemas com o seu plano e reduzimos os horários de atendimento para quem tem esse convênio. Atualmente todos os horários estão ocupados. A senhora vai querer fazer particular?

— E quanto seria?

— Atualmente o valor fica em torno de quinhentos reais.

— QUINHENTOS REAIS?

— Não precisa gritar, senhora.

— Não preciso? É, não preciso, mas motivo não falta.

O telefone foi desligado antes de qualquer resposta. A raiva de Fernanda estava em uma crescente quando ela decidiu canalizar sua fúria para algo mais produtivo.

Rapidamente ela pegou o nome do psicólogo e jogou na busca do Facebook. Poucos minutos depois ela tinha um plano traçado.

Sete horas da noite. O psicólogo saiu do escritório, destravou o carro, abriu a porta, sentou no banco do motorista, fechou a porta. Só que ele ouviu o som de duas portas fechando. Ele olhou para o banco do passageiro e encontrou Fernanda lá sentada.

— Boa noite, doutor — disse ela com um sorriso maldoso nos lábios. — Ouvi falar que todos os seus horários estão ocupados, mas por um acaso eu também descobri que o doutor leva cerca de uma hora e meia pra chegar em casa.

— Que maluquice é essa? Eu vou chamar a polícia e…

Fernanda puxou o psicólogo pelo colarinho.

— É o seguinte, doutor. Eu tenho sérios problemas para controlar a minha raiva e preciso de terapia. Então eu recomendo que durante a próxima hora aconteça uma sessão aqui dentro desse carro e para o seu bem é melhor que os duzentos reais que eu tenho no bolso sejam mais que o suficiente para pagar por ela.

 

Contos de Segunda #70

    Márcio estava empolgado. O ano mal tinha começado e ele já estava fazendo o que mais gostava de fazer: planos. No ano passado a maioria dos planos deram certo e por isso Márcio se sentia pronto para planejar mais coisas.

Voltando do trabalho em uma segunda-feira de janeiro ele pensou no que ele poderia fazer para aumentar a relevância do ano que estava só começando. Chegou em casa animado, chutou os sapatos para fora dos pés, puxou um bloco de anotações, sacou uma caneta e escreveu no topo da folha “Promessas de Ano Novo”. Parou alguns instantes para refletir sobre o assunto. Depois de pensar um pouco decidiu que o problema estava no “Promessas”. O que seria listado a seguir não seria visto por mais ninguém e esse lance de prometer as coisas para si mesmo parecia levemente esquizofrênico. Rasurou a primeira palavra e substituiu por “Objetivos”.

Depois de finalmente se sentir confortável com a nomenclatura da lista, Márcio poderia finalmente começar com as promessas os objetivos para o ano que se iniciava. Poderia, mas não começou. Uma barreira invisível se ergueu diante dele. Nela estava escrito:

O QUE DIABOS VOCÊ QUER DESSE ANO NOVO?

Do nada a tarefa de listar os objetivos do ano pareceu algo muito complicado, mas Márcio era um planejador experiente e não desistiria fácil. Exatamente por isso ele decidiu começar com o time que estava ganhando, justamente onde ele não pretendia mexer. Ano passado a tática de pagar um ano de academia surtiu um efeito bem próximo do desejado, portanto a primeira coisa da lista seria: “não abandonar a academia”. Agora sim a lista tinha começado de verdade… Só começado mesmo.

Ao avaliar o primeiro item da lista, Márcio lembrou de como detestava a academia e de como só tinha encarado esses doze meses de atividade física por já estarem pagos. Com mais uma rasura o objetivo se transformou em “não abandonar a academia” e puxou o segundo item que era “arrumar uma atividade física que seja melhor que ir pra academia”. Agora sim as coisas estavam andando, o ânimo tinha retornado e o terceiro item estava quase sendo escrito… Mas qual era mesmo? Márcio coçou a cabeça com a caneta na tentativa da estática dar a partida em alguma ideia adormecida.

Algo relacionado ao trabalho? A dinheiro? Ao aperfeiçoamento pessoal? Aprender um novo idioma ou começar a comer direito? Voltar a estudar ou se livrar das coisas que estão entulhando em casa? Nenhuma das alternativas parecia muito convidativa. Todas elas implicavam em desprender um grande esforço e pelo menos metade delas já estavam sendo feitas, ao menos parcialmente. A animação de Márcio se transformou em pura frustração. Encarou o maldito papel e por pouco não arrancou a folha do bloquinho fora… Por pouco. Em um instante algo iluminou sua mente.

Com poucas palavras libertadoras ele conseguiu concluir a lista. Com o terceiro item finalmente escrito Márcio arrancou a folha do bloquinho e colou com um imã em forma de fruta na porta da geladeira. Olhou para os planos do ano e ficou satisfeito. Pensou no trabalho que teria e no esforço que faria para terminar dezembro com tudo aquilo cumprido. O mais difícil obviamente seria o terceiro objetivo, mas se fosse fácil ele não precisaria escrever. Afinal, aquele provavelmente seria um grande desafio para qualquer pessoa.

Alcançar todos os objetivos que aparecerem esse ano”.

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