Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #53

Renato tinha um blog. Todas as segundas-feiras estava lá Renato publicando um conto, pelo menos até agora.

O fim de semana foi comprido. Todas as possíveis horas de descanso foram preenchidas com toda a sorte de atividades. “Preciso de outro final de semana”, pensou Renato enquanto se arrastava para a cama na noite de domingo. “Preciso fazer o conto de amanhã”, pensou enquanto os olhos se fechavam no domingo e ainda estava pensando nisso quando os olhos se abriram na segunda. Ele ainda estava cansado.

O dia passou preguiçoso. A cabeça anuviada não se mostrou um terreno fértil para as ideias. Imediatamente Renato se viu tentado a fingir que tinha esquecido da publicação de segunda. Nada de bom sairia de sua cabeça cansada naquela semana. Ele só precisava de uma folga e voltaria na semana que vem com força total. Era um plano fácil de executar, mas que deixava um gosto meio amargo na boca.

Essa seria a primeira vez que haveria uma falha na publicação. Pela primeira vez uma segunda-feira não teria texto novo. E o único motivo seria sua falta de disposição. Envergonhado pela própria fraqueza, Renato sentou de frente pro computador e encarou o editor de texto. A cabeça latejava pela falta de sono, os olhos ardiam pela claridade do monitor, e a luta para se manter acordado era grande demais. Ele resolveu desistir.

Encostou a cabeça no travesseiro e não se deteve muito tempo ruminando as ideias. Dormiu um sono regado à própria derrota pessoal, acordou esquecido de tudo isso. Afinal ele ainda estava cansado. Pensou no que tinha deixado de fazer. Pensou se aquela seria a única vez em que ele deixaria de publicar. Resolveu ver se tinha algum comentário sobre a falta de publicação. Nada no blog e nem no Facebook, aparentemente ele tinha passado incólume. A tentação de abandonar aquela rotina ingrata de publicações bateu forte, mas ele não queria se preocupar com aquilo agora. Ele precisava voltar a dormir.

Sobre O Nada

Hoje estava eu pensando sobre qual assunto o texto desta sexta-feira falaria. Depois de pensar um bocado percebi que a minha cabeça estava tão fértil quanto o solo de Cartago, mas eu não podia desistir, não poderia deixar de fazer a publicação de sexta. De fato hoje eu não tinha nada sobre o que escrever. Esse quadro desesperador peculiar fez meu cérebro começar a trabalhar.

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    Foi aí que uma ideia piscou na minha cabeça. Inspirado pelos melhores episódios do Pauta Livre News, hoje eu falaria sobre… O Nada.

    Muita gente tem uma verdadeira aversão ao nada. Nada pra ler, nada pra assistir, nada interessante na internet, nada de bom passando no cinema, nada de novo no front e o mais desagradável de todos, o nada acontece feijoada nada pra fazer. Mas havemos de convir que o nada é um dos maiores agentes de mudança do mundo. O nada é provavelmente é o fertilizante mais poderoso para as ideias. O que seria da humanidade se não existisse o nada? O que seria da humanidade se as pessoas nunca tivessem nada pra fazer? Eu acredito piamente que pelo menos metade das ideias que mais mudaram o mundo vieram de uma bela brisada.

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    Por isso, caro leitor, se uma maré inacreditável de nada te cobrir dos pés à cabeça, não encare como uma coisa negativa. Aproveite o ócio, aproveite o tédio, aproveite a brisa, aproveite o nada como a bênção divina que ele é. Aproveite enquanto pode, por que já já aparece alguma coisa e quando você se der conta o nada foi embora e você não fez nada com ele.

Acho Que Já Falei Disso

Ter um blog é uma experiência que eu classifico como, no mínimo, interessante. Mas a parte interessante da parada nem tem muita relação com a repercussão dos posts ou com os temas em si, a parte legal é justamente o que fica por trás de toda essa geração de conteúdo. A tensão de ficar sem ideia, as buscas malucas que chegam no seu site e principalmente a administração das publicações dentro da sua cabeça. Em algum momento da vida eu fiquei com medo de chegar em um ponto de não ter mais do que falar, mas hoje percebi que o perigo real é esquecer que já falei de alguma coisa.

    Tudo aconteceu por causa do Dia do Amigo. Hoje, 20 de Julho, é o Dia do Orkut Dia do Amigo e também um dia em que eu estava seco de ideia. Como em todas as vezes em que eu estou sem ideia, olhei pro calendário e pensei “vou falar sobre o Dia do Amigo”, mas não demorou nem cinco segundos pra que eu lembrasse que eu fiz um post sobre o Dia do Amigo… No ano passado. Nesse exato instante me bateu aquele velho medo. Hoje eu lembrei, mas e se eu não conseguir lembrar todas as vezes?

    Contando com esta presente publicação, o Cachorros de Bikini publicou 155 posts. 102 desses posts pertencem à categoria “Crônicas e Similares”, onde eu publico textos sobre assuntos variados como este aqui. O blog tem um ano, ainda rola de lembrar mais ou menos dos principais assuntos publicados, mas já já o Cachorros vai ter dois, três quatro anos e esses 102 vão virar 204, 306, 408. E o que dizer da cabeça do autor do blog, conhecido internacionalmente como “eu”? Esse ser humano que, apesar de um nível relativamente satisfatório de inteligência, consegue se mostrar um verdadeiro quadrúpede em alguns momentos da vida. Como um indivíduo desse vai evitar esses momentos caducos da vida blogueira?

    Eu simplesmente não faço a mínima ideia de como vai ser. Se não acontecer, bom, se acontecer… Sei lá, sempre vai ter alguém que nunca me viu falando sobre aquilo, alguma opinião minha que mudou ou até mesmo alguma coisa que merece mais um ou outro parágrafo. Fico imaginando que não vai ser muito difícil ver alguma coisa repetida por aqui. Se eu ficar velho escrevendo nesse blog é certeza que isso vai rolar, mas aí eu vou ter uma desculpa. Afinal, velho gosta de repetir assunto, provavelmente eu não fugirei à regra.

Nota 5,0… Parabéns!

Posso estar enganado, mas eu tenho certeza de que todo mundo que gosta de escrever começou essa paixão nas aulas de redação. Comigo não foi diferente, até o segundo ano do ensino médio redação era uma das minhas matérias preferidas, desde aquele tempo eu dava umas viajadas e fazia minhas primeiras experimentações. Minhas notas me estimulavam a fazer isso e na minha cabeça juvenil eu era um excelente aluno de redação. Na minha cabeça juvenil eu me via praticamente como um escritor profissional, mas isso durou até exatamente o segundo ano do ensino médio. Meu terceiro ano provou que a vida não era essa maravilha toda, tanto que quando eu penso em redação apenas o ano de 2007 vem à mente. Inclusive foi a pedido de um dos amigos que testemunhou esse suplício que farei provavelmente o relato mais sincero de toda a história do Cachorros de Bikini.

    Nove anos atrás, no ano da graça de nosso Senhor de 2007, eu tinha 16 pra 17 anos, estava concluindo o ensino médio e o fim do mundo já estava marcado pra depois do vestibular. Naquele tempo eu era um bom aluno e tirava boas notas, eu tinha tudo pra acreditar que o terceiro ano seria cheio de notas boas que nem os anos anteriores. Eu estava redondamente enganado. Apesar de passar o ano me lascando um pouco e tendo um desempenho inferior ao dos anos passados, o resultado no geral foi positivo. Eu conseguia conviver com os resultados médios ou negativos na maioria das matérias, na verdade praticamente em todas exceto uma. No terceiro ano do ensino médio eu tirei todas as notas vermelhas em redação da minha vida e isso foi pra mim uma espécie de passeio no inferno.

    Eu estava confiante que toda a experiência em redação acumulada ao longo dos anos me garantiria mais um ano tranquilo no campo da escrita curricular obrigatória, mas eu acabei dando de cara numa barreira. A barreira em questão tinha os cabelos bem curtos, os olhos claros, normalmente usava batom vermelho, atendia pelo nome de Edvânea e também era conhecida como a professora de redação, português e literatura. De longe uma das melhores professoras eu tive na vida, a mesma que nunca me deu uma nota maior que 5,0 em redação.

    Edvânea foi o adversário que eu nunca consegui superar. Eu digo adversário, não por que ela me dava 5,0 de propósito, mas por que ela me desafiava. Ela soltava os leões no coliseu e depois de me ver suar, lutar, sangrar e matar as feras, colocava o polegar pra baixo, fazia a caneta dançar sobre o fruto do meu trabalho e me entregava o simbolo incontestável da minha retumbante derrota. Vermelho, sempre em vermelho. Vermelho como sangue, vermelho do batom, vermelho da tinta da caneta, vermelho da minha nota. O mesmo vermelho que gritava pra todo mundo ouvir o tamanho da minha incompetência, que atestava a fraqueza das palavras derramadas sobre o papel. Em 2007 vermelho era a cor da minha vergonha.

    Sim, vergonha. Era isso que eu sentia sempre que recebia a nota de redação. Sempre que eu via os mesmos amigos que me reconheciam como um ótimo aluno de redação com notas muito maiores que as minhas. Lembro de forçar minha criatividade até o limite, de tentar ao máximo ousar dentro das fórmulas das redações dos vestibulares. Obviamente nada disso interessava muito, ou quem sabe eu não estivesse fazendo as coisas tão bem quanto pensava, e o resultado quase sempre era o mesmo: nota 5,0. Talvez você esteja pensando que 5,0 não é uma nota tão vermelha assim, mas vale lembrar que Edvânea nunca dava menos que 5,0… Quase nunca, já que em uma certa ocasião, beirando o desespero de conseguir uma nota decente, li errado o tema da redação, escrevi uma parada totalmente nada a ver e tirei um maravilhoso 2,5. Gosto de pensar nessa nota como o único mérito que minhas redações tiveram naquele ano, com a pior nota que foi dada nas quatro turmas de terceiro ano de 2007 no Colégio da Polícia Militar de Pernambuco.

    Quando eu paro pra pensar nesse pedaço da minha vida escolar só consigo encará-lo como um grande exercício de humildade. Foi em 2007 que toda a minha vaidade em relação ao que escrevo foi evaporada. Foi quando eu aprendi que aquilo que eu achava do meu próprio trabalho não servia pra muita coisa. Bom ou ruim é o leitor quem diz e isso me faz lembrar que na última redação que eu fiz deixei um recado. Pedi gentilmente que aquele 5,0 fosse dado com uma caneta azul, é uma pena que a última redação era uma prova final e eu nunca vi aquela “nota azul”. Lembro que na última vez em que nos vimos ela me garantiu que meu pedido foi atendido. Foi no teatro da UFPE, na colação de grau das turmas do terceiro ano e não por um acaso Edvânea usava um vestido vermelho. Vermelho como as poltronas do teatro, vermelho como a cor da tinta da caneta, vermelho como o batom, vermelho cor de 5,0.

Disso Eu Sempre Esqueço

Memória é uma das paradas mais misteriosas que existe. A gente costuma imaginar o nosso cérebro como uma coisa parecida com nosso computador, com cada coisa no seu lugar certinho, tudo arquivado e organizado, mas tudo funciona de um jeito muito louco. E de todas as coisas do nosso cérebro a mais louca de todas é a memória.

Poucas coisas na vida são mais aleatórias do que nossa memória. Basta lembrar do tanto de coisas inúteis que vem fácil na nossa cabeça e da quantidade de coisa que a gente precisa lembrar e não lembra. Também tem aquelas coisas que lembramos, esquecemos, lembramos e esquecemos de novo em um looping maluco de esquecimento e lembrança que muitas vezes acontece ao longo de poucos minutos. Porém existe algo pior do que esquecer das coisas: nunca conseguir lembrar.

Não tem jeito, todo mundo tem alguma coisa que sempre escapa. Pagar uma conta, abastecer o carro, assinar a prova, marcar o gabarito, início do prazo, final do prazo, aniversários, datas comemorativas, consulta médica, hora do remédio, desligar alguma coisa, tirar outra da tomada e mais uma infinidade de outras miudezas cotidianas. Sempre, mas pode ter certeza que sempre tem alguma coisa que você esquece em praticamente 100% das vezes. Pode tentar o quanto quiser, pode colocar lembrete, alarme e barbante no dedo. Seu cérebro vai sempre trabalhar de forma que uma nuvem de esquecimento fique estacionada sobre aquela coisa. A seguir farei um relato pessoal para exemplificar melhor.

Quem me conhece costuma dizer que eu tenho uma memória boa. Boa parte das minhas lembranças foram sumariamente esquecidas pelos meus amigos, de modo que volta e meia parece mais que eu estou inventando a história toda. Além disso existe uma quantidade inacreditável de informação completamente inútil que eu tenho guardado na minha cabeça e sem motivo aparente o meu cérebro se recusa a me deixar esquecer. Mas eu fico pensando por qual motivo, razão ou circunstância eu sempre esqueço de colocar o efeito riscado.

O efeito riscado do WordPress é um recurso que eu particularmente gosto muito. Ele é ótimo pra dar um efeito cômico e similares. Só que toda vez que eu escrevo um post com esse efeito… Eu só lembro de colocar um tempão depois. Quando todo mundo interessado já leu e viu uma parada totalmente sem sentido escrita no meio do texto… Espero pelo menos ter lembrado de colocar os efeitos nesse aqui, por que o final que eu tinha pensado antes acabei esquecendo.

Poucos

Existem algumas vantagens em ser um escritor com poucos leitores. A principal delas é que não tem muitas pessoas pra decepcionar com aquilo que você escreve.

    Não tenho certeza de quantas pessoas já leram meus textos, os poucos publicados antes e os vários publicados depois da criação do Cachorros devem ter atingido algumas poucas centenas de pessoas numa projeção muito otimista. Porém o feedback que eu recebo sobre aquilo que eu coloco no papel, ou publico por aqui, vem de um grupo bem restrito. Meus leitores regulares são todos conhecidos. Uns são amigos de longa data, outros de uma data nem tão longa assim, mas todos dedicam um pouco do seu precioso tempo pra me ajudar a escrever alguma coisa decente. Eles são poucos, são meus amigos, mas nem por isso cobram menos de mim.

    Quantas vezes eu já fui intimado a produzir mais coisas novas. Outras tantas me cobraram a publicação de um ou de outro texto ainda em fase de revisão. Fora as vezes em que eu recebo um “Esse tá legal, mas não tá melhor que aquele outro” por um texto que consumiu horas pra ser escrito e revisado ou ainda um “Essa é a melhor coisa que você escreveu” por um texto ainda inacabado. Isso sem contar os comentários do tipo “Queria que tivesse mais coisa, acabou rápido” ou o tão temido “Isso daria um livro, escreve mais”.

    Fico pensando nos escritores que vendem milhares de livros e na forma feroz como são cobrados pelos seus leitores. Muita gente pra atender e muita gente pra decepcionar. Espero o dia em que serei cobrado por desconhecidos e decepcionarei pessoas que eu nunca vi mais gordas. Enquanto não chega esse dia continuo aqui, escrevendo pros que colocam os olhos nos meus rascunhos e apontam os defeitos que eu não consigo ver. Pessoas que aguardam as versões finais como se esperassem pelo ultimo capítulo da novela. Que comentam o bom e o ruim sem reservas e reclamam dos finais que os enche de curiosidade.

    Para esses poucos eu digo: “Um dia sai”, “Falta sentar e escrever”, “Não sei o que fazer com ele no final”, “Ainda não sei como colocar no papel”, “Falta revisar”, “Escrever um livro dá muito trabalho” e por último, mas não menos importante, eu digo “Obrigado”.

Esse Aqui É O Número 100!

Cem. One Hundred. Hundert. Hyaku. Miaya. Bǎi. Cent. Sto. Baeg. Cien. Ekató. 100. Esse é o número do post de hoje. Essas linhas que você está lendo, estão compondo a centésima publicação deste humilde blog. Essa marca que não vale de nada impressionante merece um texto comemorativo. Depois de muito matutar… Nem tanto assim… Na verdade eu matutei bem pouco, mas acabei resolvendo juntar alguns números aleatórios para celebrar essa graça alcançada.

O Cachorros de Bikini está ativo há 253 dias. Ao longo desse tempo foram publicados 100 textos, totalizando 41.247 palavras. Sim, você não se enganou. Quem leu todos os textos publicados passou a vista em QUARENTA E UMA MIL DUZENTAS E QUARENTA E SETE PALAVRAS. Uma média de 412 palavras por publicação. Se considerarmos que cada texto demorar mais ou menos uma hora pra ficar pronto, chegamos a pouco mais de 100 horas de trabalho. Se o Cachorros de Bikini fosse um trabalho com carga de 44 horas semanais, eu precisaria trabalhar mais ou menos duas semanas e dois dias. Se eu gastasse esse tempo assistindo séries de TV com episódios de 42 minutos, eu teria assistido quase 143 episódios. É como se eu tivesse assistido Grey’s Anatomy  ou CSI e parado perto do final da sétima temporada, também teria conseguido terminar com folga Friends, How I Met Your Mother.

Dessas milhares de palavras, 14.907 foram escritas em Contos de Segunda. A série especial de início de semana chegou ao seu número 33 na última segunda-feira. Nesses trinta e três contos, nós tivemos 21 protagonistas diferentes e nem preciso dizer que as figurinhas que mais se repetiram foram Cristina e Jorge, o quase-casal mais amado do Cachorros de Bikini. Também é dessa série o maior texto publicado até então, com 1242 palavras o Contos de Segunda #27 – Parte 02  é o recordista. Não por acaso ele foi a primeira vez que Cristina e Jorge dividiram o protagonismo do início de semana.

Uma centena. Paro e penso “Caramba!” e “UAU!”, e logo depois eu penso “Blz, e agora?”. Obviamente eu não esperava atingir esse número e por consequência atingi-lo nunca foi de fato um objetivo. Mas cá estou eu, com uma centena de textos e vontade de fazer mais algumas centenas deles. Já já o blog vai fazer um ano, mais uns cinquenta textos e eu chego lá. Daqui a pouco o número das publicações chega em 200 e eu nem vou sentir. Números são números, mas quando eu olho os números do Cachorros de Bikini o que eu vejo tem muito mais relação com valor do que com quantidade. Se milhares de palavras foram publicadas, isso quer dizer que outras milhares foram apagadas ou sequer chegaram a ser escritas. Se todo esse tempo foi gasto para escrever todas essas publicações, muito mais foi gasto pensando no que escrever e principalmente no que não escrever. Tem gosto de conquista? Tem. Tem gosto de vitória? De leve. Mas acima de tudo tem gosto de surpresa, de alcançar o inesperado. Que venham mais cem, mais mil ou mais dois mil. Um por um. Uma letra, uma linha, um texto de cada vez.

Escrever Sobre Qualquer Coisa

    Há uns anos atrás, por indicação de um amigo, eu li o maravilhoso Para Ler Como Um Escritor de Francine Prose. Dentre as várias coisas comentadas nesse livro, está a obra de um russo chamado Anton Tchekhov. Esse cara que era médico, dramaturgo e escritor, morreu aos 44 anos de idade vítima de tuberculose e deixou mais ou menos 600 contos escritos. Só pra ter uma ideia do tanto que é isso, é só imaginar que em um ano eu vou chegar na marca de, mais ou menos, 50 contos publicados no Cachorros de Bikini. Contos minúsculos comparados com o tamanho dos contos que esses escritores contistas costumam escrever. Mas de todas as coisas relatadas sobre Tchekhov no livro, a mais impressionante, na minha humilde opinião, é sobre o método de escrita do autor.

    Uma vez nosso compadre russo foi questionado sobre qual era seu método de composição. Ele pegou um cinzeiro da mesa e respondeu “este é meu método de composição, amanhã vou escrever um conto chamado ‘O Cinzeiro’”. Eu nunca li Tchekhov, mas foi só ler isso que comecei a admirar o cara. Até hoje eu penso em como eu gostaria de criar universos como Neil Gaiman, ter uma narrativa tão boa quanto Raphael Draccon ou falar do cotidiano tão bem quanto Xico Sá, mas depois de ler a resposta de Tchekhov meus anseios como escritor ficaram um pouco mais modestos. Atualmente meu maior objetivo é conseguir escrever sobre qualquer coisa.

    Tchekhov não só, segundo ele mesmo, conseguia se inspirar em praticamente tudo. Ele usava essa inspiração pra produzir boa literatura. Fico pensando em como seria fantástico sempre ter sobre o que escrever. Como seria incrível fazer uma boa história inspirado apenas por um copo de plástico, um carregador de celular ou um pedaço de bolo. E também penso no tanto de habilidade que você precisa ter pra conseguir fazer isso e ainda sair uma coisa boa.

    Desde o começo do Cachorros esse foi o maior desafio. Conseguir escrever sobre qualquer coisa é um sonho ainda distante, mas acho que estou fazendo minha parte. Os assuntos aleatórios continuam saindo da cabeça e passando pro papel. Um exemplo disso é que, em plena sexta-feira antes do carnaval, eu estou aqui falando de um russo que conseguia escrever sobre tudo. Até mesmo um misero cinzeiro.

Promessas de Bikini para 2016

2016 acabou de começar e claro que todos estão renovando suas promessas de ano novo. Já que o Cachorros de Bikini foi uma promessa de ano novo que eu cumpri com um ano de atraso, nada mais justo do que fazer uma lista de promessas para esse ano. Começando pelas mais fáceis.

    Primeiramente eu prometo continuar o volume de publicações atual, com pouco ou nenhum atraso. Isso quer dizer que todas as segundas, quartas e sextas teremos coisa nova aqui no Cachorros.

    Em segundo lugar eu prometo que esse ano eu tomo vergonha na cara e faço uma página no Facebook. O Cachorros precisa entrar nas redes sociais e eu já tô enrolando muito pra fazer isso, previsão de antes do fim de 2016 do primeiro semestre desse ano.

    Em terceiro lugar eu prometo continuar as histórias dos melhores personagens da série Contos de Segunda. Pessoas como Jorge, Cristina, Erick, Aluísio, Fernanda e Maurício vão continuar suas aventuras de início de semana em 2016. Não sei dizer quando ou com que frequência, mas esses carinhas ainda vão render boas histórias.

    Por último eu prometo que chegaremos a 2017. Não sei se vai ser difícil ou não, mas essa é a promessa que eu mais quero cumprir.

Vamos Falar Sério?

“Eu vou falar algo sério?”, essa é uma pergunta que eu me fiz assim que comecei a pensar no que seria o Cachorros de Bikini. Essa é uma pergunta que eu tenho me feito nesses últimos dias. Antes de responder tal questionamento prefiro explicar qual foi a origem dele.

A internet acabou proporcionando algo nunca antes visto na história desse país: todo mundo ganhou voz. Em uma era em que o textão toma conta de quase todas as redes sociais, por motivos óbvios o Twitter está fora dessa onda, e o mimimi se alastra como uma praga, ainda existem pessoas que usam a internet de forma racional para falar com seriedade sobre assuntos realmente relevantes. Para a minha sorte eu conheço algumas dessas pessoas. Pessoas que eu chamo de “amigos” e que, para minha sorte, também usam essa palavra quando se referem a mim. Em boa parte das vezes eu os encho de razão e assino em baixo daquilo que é declamado no meu feed. Nessas horas eu penso “talvez eu devesse expor minha opinião sincera sobre um assunto realmente relevante, afinal eu consigo falar sobre coisas sérias”. Logo depois eu paro e penso “será que eu devo mesmo?”.

Quando escolhi o nome “Cachorros de Bikini” o que eu tinha em mente era, em primeiro lugar, falar sobre coisas conhecidas de todos, mas de um jeito um pouco diferente do comum. Se eu consigo ou não fazer isso é outra história, mas a ideia sempre foi essa. Em segundo lugar eu sempre pensei nessas páginas azuladas como uma espécie de refúgio, um lugar onde o leitor pudesse desligar da vida real por um ou dois minutos. Um lugar onde o banal e o irrelevante podiam ser enxergados como coisas que realmente fazem a diferença na nossa vida, pelo menos por um ou dois minutos. Por isso quando eu estou tentando ter uma ideia para um texto novo a pergunta sempre volta. “Eu vou falar algo sério?”.

A resposta é sempre a mesma: Não. Quem me conhece há mais tempo sabe bem, quando eu começo a ficar sério em algum texto rola uma velha tesourada e alguma coisa acaba sendo censurada. Eu poderia falar algo sério e relevante? Talvez, mas não aqui dentro, aqui é não é lugar pra isso. Ser crítico e ácido é algo que eu até consigo, mas eu deixo pra ser assim fora daqui, caso contrário aquelas frases que aparecem junto com o título do blog seriam mentira. Aqui dentro temos “Coisas bestas da vida tratadas com o cuidado que elas merecem”, “Reflexões rasas sobre coisas profundas e reflexões profundas sobre coisas rasas”, por isso o Cachorros de Bikini se compromete a continuar “Sem nenhum compromisso de mudar a sua vida”. Caso você, caro leitor, queira ver opiniões balizadas sobre questões sérias e importantes, eu posso até indicar algumas pessoas muito mais competentes nesse campo do que eu pra você seguir, mas não espere isso de mim, pelo menos não aqui dentro.

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