Não é um blog sobre cachorros e bikinis

Categoria: Contos de Segunda Page 5 of 10

Contos de Segunda #55

    Vocal se mudou para uma casa nova. Na prática não existia a “casa velha” já que ela morava no mesmo apartamento de cinquenta metros quadrados desde sempre e pela primeira vez ela moraria em um lugar onde arrastar os móveis não acordava o bebê do vizinho ou que ouvir música sem fones de ouvido era uma espécie de crime, mas a melhor parte dessa mudança tinha relação com a banda. Finalmente as 4 Ladies teriam um lugar para ensaiar.

O antigo dono da casa era uma espécie de artista plástico e o local do antigo ateliê receberia um revestimento acústico e seria transformado em um estúdio. Custaria um ano de mesada de cada uma das integrantes da banda, seriam cinco anos, mas Baixo tinha uma mesada bem mais gorda do que as amigas. Amigas que não demoraram a chegar. O revestimento acústico só estaria instalado na semana seguinte, mas elas já estavam levando os equipamentos.

— Tu devia trazer tuas coisas sozinha, Bateria — reclamou Guitarra. — Minha guitarra e meu cubo já são muito pesados.

— A culpa não é minha — rosnou Bateria. — E para de reclamar que teu cubo tem rodinhas e tu nem pegasse nada muito pesado.

Guitarra estava com sua guitarra presa nas costas, o amplificador era puxado pela mão esquerda e a direita levava uma das peças menores da bateria.

— Cada uma devia cuidar do seu equipamento — rebateu Guitarra.

— Ela é quinze centimetros mais baixa e pelo menos dez quilos mais leve que a gente, Guitarra, ela ia demorar muito pra levar tudo sozinha — argumentou Baixo, ela levava o baixo nas costas e o bumbo da bateria. — Ainda demos sorte de arrumar uma kombi pra trazer as coisas pra cá.

— Isso mesmo, cala a boca e ajuda — completou Bateria. — Ou pelo menos para de atrapalhar.

— Vocês mal chegaram e já estão brigando? — Perguntou Vocal saindo do portão da frente.

— Gostei da casa, Vocal, parece que o tempo de morar num ovo acabou — elogiou Guitarra.

— Agora o plano de ter um cachorro vai sair do papel? — Perguntou Baixo.

— Só não vai rolar de chamar de Elvis — respondeu Vocal fazendo uma expressão desapontada. — É o nome do cachorro da vizinha.

— Tá, Tá. Casa bonita, muito legal, parabéns pros teus pais, mas vai ali pegar as coisas que o dono da kombi quer ir embora — interrompeu Bateria.

— Já vou, já vou. Tem uma porta lá nos fundos da casa, é só entrar por lá e armar as coisas — instruiu Vocal.

Meia hora depois o equipamento estava ligado. A bateria estava montada e uma gambiarra pouco confiável garantiu a eletricidade para os amplificadores.

— Acho que ninguém vai se incomodar se a gente tocar agora, né? — Perguntou Vocal já sabendo da resposta das amigas.

— A gente carregou tudo isso em uma kombi velha que fedia a ração de cachorro e não tinha os bancos — explicou Guitarra. — Não existe essa dúvida sobre tocar ou não.

— Eu quero dar o meu “oi” pros vizinhos — disse Bateria com uma piscadela. — E muito se engana quem pensa que eu coloquei um short só pra desfilar minhas pernas na rua.

— Vamos tocar a música nova — disse Baixo. — Guitarra, lembra de entrar depois que eu fizer a introdução uma vez, Vocal se liga de entrar depois do solo. Beleza? Bateria, conta quatro.

Uma, duas, três, quatro vezes as baquetas se bateram e a música começou. Rápida e agressiva. Os quatro corações acelerados batiam no ritmo da música, na sintonia perfeita que as quatro só tinham quando estavam juntas. Pelo menos até a poesia do momento ser interrompida. Do nada um cachorro atravessou a janela do antigo ateliê e caiu bem no meio do ensaio.

— O que foi isso? — Gritou Guitarra.

— Foi um cachorro, olha lá — disse bateria apontando para o pobre animal.

— Elvis! — Exclamou Vocal.

O pobre cachorro da vizinha parecia apenas parcialmente consciente. Ele corria em círculos furiosamente, rosnando e latindo. Ele estava quase lembrado do desejo destruidor de rasgar alguém com os dentes quando ele ouviu uma melodia que o fez parar. Baixo estava executando uma linha melódica de uma beleza que deixou até suas companheiras de banda surpresas. Poucos segundos depois Elvis estava paralisado, não demorou muito e ele caiu desacordado. Baixo colocou o seu baixo de lado, pegou o cachorro no colo e disse:

–Vou levar ele em casa e já volto.

Contos de Segunda #54

Elvis detestava o mês de Agosto. Em Agosto ele se sentia estranho, agressivo, impaciente e qualquer coisa incomodava de forma inacreditável. Também era o mês em que nada fazia muito sentido dentro da cabeça dele. Comer coisas que normalmente não eram comestíveis, acordar em locais onde ele não dormiu e agir antes de pensar eram a rotina de Elvis no mês oito do ano.

Elvis era um cachorro e no mês de Agosto ele ficava louco. Mas houve um Agosto em especial em que ele ficou muito mais louco que o normal.

Elvis morava em uma casa. O bairro era tranquilo, distante do centro, cheio de pessoas idosas.  Era. Até uma bela manhã de agosto em que os novos vizinhos chegaram. A família era composta por um homem, uma mulher e a filha do casal. A família parecia normal, Elvis estranhou a maquiagem pesada e as roupas pretas da filha, mas devia ser algo da moda. No meio da tarde chegaram mais três garotas com roupas parecidas. Elvis começou a achar que todas as jovens humanas se vestiam daquele jeito e, aparentemente, elas viviam se mudando, essas também carregavam um monte de caixas de formatos diferentes. Meia hora depois começou.

Elvis nunca tinha ouvido nada tão perturbador. Se ele pudesse definir provavelmente chamaria aquilo de sinfonia do demônio. A raiva crescia, o coração disparou, a saliva se virou em espuma  e um rosnado gutural quase alienígena brotava da garganta. O pobre animal tremia de raiva. Aquilo precisava parar, ele precisava fazer parar. A raiva não deixou o coitado raciocinar o suficiente para encontrar uma forma engenhosa de chegar à casa ao lado. Ao perceber que a sua dona estava abrindo a porta ele saiu em disparada, fez uma curva de noventa graus e, só Deus sabe como, atravessou a cerca viva, penetrando o terreno vizinho. Agora ele precisava achar a fonte do maldito som.

Depois de correr furiosamente algumas vezes ao redor da casa, Elvis descobriu uma pilha de caixas que o levaria até uma janela alta por onde o maldito som vazava como uma erupção do inferno. Ele tomou distância, correu em velocidade máxima, escalou as caixas e voou pela janela. Tudo depois disso é um borrão. As únicas coisas das quais ele lembra é de ser abraçado por braços magricelos e de um som muito agradável. O som grave de um instrumento musical que silenciou as vozes agitadas de jovens humanas. Depois disso ele acordou, estava em casa e não havia nenhuma música tocando.

Contos de Segunda #53

Renato tinha um blog. Todas as segundas-feiras estava lá Renato publicando um conto, pelo menos até agora.

O fim de semana foi comprido. Todas as possíveis horas de descanso foram preenchidas com toda a sorte de atividades. “Preciso de outro final de semana”, pensou Renato enquanto se arrastava para a cama na noite de domingo. “Preciso fazer o conto de amanhã”, pensou enquanto os olhos se fechavam no domingo e ainda estava pensando nisso quando os olhos se abriram na segunda. Ele ainda estava cansado.

O dia passou preguiçoso. A cabeça anuviada não se mostrou um terreno fértil para as ideias. Imediatamente Renato se viu tentado a fingir que tinha esquecido da publicação de segunda. Nada de bom sairia de sua cabeça cansada naquela semana. Ele só precisava de uma folga e voltaria na semana que vem com força total. Era um plano fácil de executar, mas que deixava um gosto meio amargo na boca.

Essa seria a primeira vez que haveria uma falha na publicação. Pela primeira vez uma segunda-feira não teria texto novo. E o único motivo seria sua falta de disposição. Envergonhado pela própria fraqueza, Renato sentou de frente pro computador e encarou o editor de texto. A cabeça latejava pela falta de sono, os olhos ardiam pela claridade do monitor, e a luta para se manter acordado era grande demais. Ele resolveu desistir.

Encostou a cabeça no travesseiro e não se deteve muito tempo ruminando as ideias. Dormiu um sono regado à própria derrota pessoal, acordou esquecido de tudo isso. Afinal ele ainda estava cansado. Pensou no que tinha deixado de fazer. Pensou se aquela seria a única vez em que ele deixaria de publicar. Resolveu ver se tinha algum comentário sobre a falta de publicação. Nada no blog e nem no Facebook, aparentemente ele tinha passado incólume. A tentação de abandonar aquela rotina ingrata de publicações bateu forte, mas ele não queria se preocupar com aquilo agora. Ele precisava voltar a dormir.

Contos de Segunda #52

Aluísio tinha uma relação muito particular com a segunda-feira. Praticamente todas as coisas importantes da vida dele aconteciam no primeiro dia da semana. E dessa vez não poderia ser diferente.

    Era a primeira segunda-feira de Agosto. Agosto era uma espécie de 29 de Fevereiro em doses homeopáticas. Só que no lugar de coisas ruins, eram as coisas improváveis que aconteciam. Aluísio tinha acabado de estacionar o carro no estacionamento do escritório quando o telefone tocou, o número era de Amélia, sua esposa grávida de sete meses, mas a voz do outro lado era do enfermeiro que estava com ela na ambulância. O barulho da sirene e dos gritos da esposa não deixaram Aluísio entender absolutamente nada do que o enfermeiro disse, mas ele não precisava ser um gênio para entender que o bebê ia chegar mais rápido do que o esperado.

    Pulou dentro do carro e virou a chave no contato… Nada. O carro não pegou. Tentou mais uma, duas, três vezes e nada. Sem tempo para uma chupeta na bateria, Aluísio foi pra rua atrás de um táxi. Foi quando lembrou que os taxistas estavam protestando contra os motoristas de um certo aplicativo que estava teoricamente roubando seus passageiros. O jeito foi baixar o maldito aplicativo e chamar um motorista que não estivesse protestando. O tal motorista chegou em dez minutos e antes de ter a chance de oferecer uma água, uma jujuba ou um chocolate, foi metralhado pelo endereço do hospital e uma dúzia de indicações de como chegar lá. Antes que o motorista pudesse puxar qualquer tipo de conversa sobre o tempo, a política ou o Campeonato Brasileiro, Aluísio já tinha avisado a pelo menos vinte parentes por mensagem enquanto ligava para mais meia dúzia.

    Estava tudo correndo bem até que ao virar uma esquina Aluísio deu de cara com o protesto dos taxistas. Antes que o pobre motorista do aplicativo pudesse dar meia volta o carro foi cercado por algumas dezenas de taxistas furiosos. Em poucos segundos Aluísio foi arrancado de dentro do carro e jogado no meio da rua. Com essa manobra exótica o celular de Aluísio decolou e se espatifou no chão. A parte boa disso tudo é que nenhum taxista foi atrás quando ele saiu correndo, a parte ruim é que ainda faltava pagar duas prestações do telefone espatifado.

    Depois de correr por quase um quilômetro, Aluísio chegou no hospital arrependido de todos os seus anos de vida sedentária, mas finalmente estava lá, suado, vermelho e quase tendo uma falência pulmonar. Pronto para testemunhar o nascimento de sua primeira cria. Na contramão do regulamento social vigente, ele e Amélia tinham deixado para saber o sexo da criança no dia do nascimento. Levou alguns minutos para Aluísio localizar a sala de parto, quando ele chegou não pode passar da porta. Ele teve que passar mais meia hora ouvindo toda a sinfonia de gritos que sua esposa estava promovendo dentro da sala, sinfonia essa que foi substituída por outra. Dessa vez os gritos vinham de uma garganta nova em folha. O choro parou, mas depois voltou com força redobrada. Na hora que a enfermeira estava saindo da sala de parto, um exército de parentes invadiu o corredor. Eles chegaram bem a tempo de ver Aluísio desmaiar quando a enfermeira disse:

    “Parabéns, são duas meninas”.

Contos de Segunda #51

Robson queria roubar uma cadeira. Obviamente ele não precisava de uma cadeira em um nível tão grande de urgência, Robson apenas queria roubar uma cadeira.

    Tudo começou em um sábado. Robson estava no shopping esperando a esposa concluir as compras. Como a loja em questão era cheia de toda a espécie de perfume que atacava a alergia de Robson, ele esperou do lado de fora. Avistou uma cadeira convidativa e se sentou. Foi amor a primeira vista. A partir daquele momento o coração de Robson nunca mais saiu daquela cadeira, ele precisava roubá-la.

    Claro que roubar foi a última opção do pobre coitado. Ele tentou encontrar a cadeira em todas as lojas possíveis e imagináveis. Tentou entrar em contato com a gerência do shopping para tentar comprar a cadeira e não teve nenhuma resposta positiva. Ao longo de meses Robson foi ao shopping apenas para sentar naquela cadeira maravilhosa… E para planejar como levaria ela de lá. Não devia ser muito difícil, afinal era só uma cadeira.

    O plano foi executado em uma segunda-feira na hora do shopping fechar. Robson tinha passado em uma sex shop mais cedo e comprado um par de algemas. Assim que os corredores esvaziaram ele se algemou na cadeira. Alguns minutos depois o segurança do shopping chegou para ver o que estava havendo, Robson usou o máximo dos seus dotes de ator para convencer o segurança de que tinha se algemado à cadeira por acidente. No carro ele tinha as ferramentas necessárias para quebrar as algemas, porém precisaria da ajuda do segurança para carregar a cadeira. O segurança, no auge do seu altruísmo e morrendo de pena de um homem que tinha se algemado acidentalmente com algemas eróticas no meio de um local público, carregou a cadeira com Robson até o estacionamento.

    Estacionado entre duas picapes estava o carro de Robson. Ele abriu o porta malas e pediu gentilmente para que o segurança procurasse pelas ferramentas. Enquanto o solícito funcionário procurava pelas ferramentas, Robson jogou a cadeira na caçamba da picape, abriu as algemas, o carro deu a partida e saiu. O segurança levou uns dois minutos para perceber o que tinha ocorrido. A desculpa de Robson foi que colocou a cadeira na caçamba para ter uma posição melhor para quebrar as algemas, o segurança não sabia se tinha acreditado ou não, ele estava muito ocupado passando um rádio para os outros seguranças.

Robson fechou o porta malas e foi andando disfarçadamente na direção da porta do motorista. A satisfação gerada pelo plano bem sucedido foi gigante. Agora bastava ligar para o cúmplice e combinar o horário de entrega. Não é difícil imaginar a surpresa de Robson ao ouvir o toque do celular do cúmplice vindo da picape que ainda estava parada ao lado do seu carro. Mais surpreso ainda ficou Robson ao ver o seu cúmplice dormindo  do banco do motorista.

Robson entrou no carro, deu a partida e saiu. A derrota amargava em sua boca, a tristeza pesava em seu peito e como se não bastasse tudo isso, ele chegou na cancela de saída, colocou o ticket na máquina, mas não conseguiu sair. Ele tinha esquecido de pagar o estacionamento.

Contos de Segunda #50 – Parte 02

Pra ler a primeira metade desse conto é só acessar esse link para o Contos de Segunda #50 – Parte 01. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— Vou perguntar apenas uma vez — disse a Dama do Mar. — O que traz vocês cinco até meu santuário?

    — Viemos pedir sua ajuda, Dama do Mar — respondeu Segunda-feira.

    Uma risada maligna penetrou nos ouvidos das jovens Damas como uma agulha. A temperatura do ambiente caiu e a água invadiu a caverna, aos poucos a lâmina d’água começou a subir.

    — Ela vai matar a gente — sussurrou Quarta-feira. — Eu sabia que a gente devia ter ficado em casa.

    — O futuro está nebuloso, Segunda — falou Terça-feira. — Não consigo ver nada.

    — Deixa eu tentar falar com ela, Segunda — interrompeu Quinta-feira. — Dama do Mar, fui eu quem disse para virmos pedir sua ajuda… Me ajudou antes, imaginei que poderia ajudar agora.

    — Que história é essa, Quinta? — disse Sexta surpresa, e não era o tipo bom de surpresa.

    Os olhares das irmãs estavam todos voltados para Quinta-feira.

    — Não é o que vocês… — gaguejou Quinta.– Certo, sem rodeios. Eu só consegui manifestar minhas habilidades musicais por causa dela… Criar música com o corpo não é tão simples pra uma entidade do tempo.

    — Sim, eu me lembro jovem Quinta-feira — a voz da Dama do Mar sorria. — Sua música precisava de ajuda para sair, mas teu medo não te permitiu aprender tudo que eu tinha para ensinar.

    — O canto de uma Dama é muito poderoso, nobre senhora. — replicou Quinta. — Aprendi o suficiente.

    A água já estava na altura dos joelhos.

    — Aprendeste o suficiente para evitar a tua queda, Quinta-feira — o tom da Dama do Mar agora estava severo. — Não querias correr o risco de cometer os mesmos crimes que eu. Que tipo de ajuda procuras se já sabes do que precisas?

    — Eu preciso de ajuda, Dama do Mar — vociferou Segunda-feira. — Preciso aprender o canto de sereia para atrair um Cavaleiro.

— Então venha olhar nos meus olhos e dizer isso — respondeu a Dama do Mar. — Mas venha só! — A água subiu como um turbilhão e envolveu Terça, Quarta, Quinta e Sexta, as deixando apenas as cabeças para fora. — Estou no fundo da caverna, venha.

Segunda-feira hesitou por um instante. Quarta-feira estava paralisada de medo, Quinta tinha o olhar baixo para não encarar as irmãs, Sexta tentava se mover, mas não conseguia, Terça fechou os olhos e começou a falar.

— O futuro está clareando, mas a Dama do Mar não me deixa enxergá-la — disse ela calmamente. — Vejo muitos futuros para você, Segunda, mas todos eles estão distantes, não posso te dizer o que te aguarda… Toma cuidado.

— Obrigado, Terça. Vou tomar.

Algumas dezenas de metros separavam Segunda do fundo da caverna. Lá ela encontrou um poço muito largo que emitia uma luz tênue, no centro do poço estava uma rocha e na rocha uma figura muito similar a uma sereia.

— Saudações, Dama do Mar — cumprimentou Segunda.

— Saudações, Dama da Segunda-feira — respondeu a Dama do Mar. — Tens ideia do tamanho do teu pedido?

— Tenho.

— Conheces os meus crimes?

— Não há Dama que não conheça.

— Sabes o que me levou a cometê-los?

— Amor e… Dor — a última palavra foi dita quase como um sussurro.

— Isso mesmo — os olhos frios da Dama do Mar por um instante se perderam em um passado distante. — Meu Cavaleiro foi tirado de mim e a dor me levou à…

— Violência — os olhos de Segunda estavam marejados. — Todas nós ficamos sabendo… Quando a Dama do Mar usou seu canto e atraiu dez Cavaleiros para a morte.

— Nove — o semblante dela continuava inexpressivo, mas os olhos não escondiam os sentimentos tão bem. — Naquela época o Cavaleiro da Lua possuía uma esposa. Ele foi o primeiro filho legítimo de uma Dama e o único a se tornar Cavaleiro. A Dama da Lua o presenteou com uma esposa, uma humana que recebeu sua dádiva. Ela também veio… Eu também tirei a vida dela com minhas próprias mãos.

— A Mãe-de-Todas te condenou à morte, mas o teu santuário te salvou.

— A fúria da Mãe passou, demorou, mas passou — ela olhou ao redor. — Agora vocês se arriscam a despertar novamente essa fúria para atrair um Cavaleiro?

— Preciso de um, meus poderes estão a ponto de sair do controle e… — Segunda respirou fundo. — Logo logo será impossível manter a sanidade.

— Não é tão ruim quanto parece. Todos tem medo de uma Dama louca… — os olhos da Dama do Mar se acenderam com um brilho frio. — Por que não sabem o que é ser uma.

A água subiu como um turbilhão e prendeu Segunda. A água do mar girava cada vez mais veloz ao redor da jovem Dama, o atrito com a água começou a rasgar a pele.

— O que está fazendo?

— O mesmo que estou fazendo às suas irmãs — sorriu a Dama do Mar. — Logo seus corpos serão apenas uma mancha de sangue, mas o teu… Eu quero rasgar com minhas próprias mãos

— Eu só vou avisar uma vez — rosnou Segunda. — Não faça nada às minhas irmãs.

— Este é meu santuário, ninguém me ameaça no meu santuário.

— Está enganada, Dama do Mar — sorriu Segunda um sorriso dolorido. — Não consegue sentir?

O sorriso da Dama do Mar se desfez. Alguma coisa estava errada, alguma força estranha estava penetrando no santuário.

— O feriado está acabando, nobre senhora, imagine a quantidade de mortais que está resmungando e se irritando neste momento. Quantos estão experimentando o sublime momento em que se lembram que hoje é segunda-feira e que amanhã precisam voltar para o trabalho — Segunda parecia sentir o gosto doce de cada palavra que dizia. — No coração dos mortais segunda-feira começa na noite de domingo e não existe nada mais forte do que o sentimento da noite de domingo em uma segunda.

— Impossível! Nada pode penetrar meu santuário!

— Quem está no meu santuário é você, Dama do Mar — uma força terrível emanava de Segunda-feira. — Nós Damas da Semana temos um dia para cada uma, um santuário de vinte e quatro horas, mas só eu consigo canalizar a energia do santuário… Por que só eu posso dividir o poder com minhas irmãs.

Quarta sentiu uma força externa tomando conta do seu corpo.

— Segunda está me mandando energia, acho que consigo tirar a gente daqui — disse Quarta-feira.

— Me tira primeiro Quarta — adiantou-se Sexta. — Quinta, me acelera.

— Só preciso de um instante pra me concentrar– ao dizer isso Quinta fechou os olhos, o semblante de dor levou poucos segundos para desaparecer, a conexão com a irmã estava completa. Uma batida eletrônica tomou conta da caverna, forte, alta e cada vez mais acelerada. Em um nível que tornava a música um ruído quase incompreensível

Quarta tirou Sexta de dentro do turbilhão. Quando a jovem Dama ficou livre deixou a música invadir o corpo. A música da irmã sempre causava uma sensação maravilhosa, ela sentia o coração acelerar, a vontade de dançar era quase irresistível.

— Quebra aquela sereia fajuta, Sextinha — disse Quinta com um sorriso raivoso.

Então o mundo parou. Sexta estava tão acelerada que o tempo parecia congelado. Em uma fração mínima de segundo ela chegou ao fundo da caverna, o ar deslocado foi suficiente para desfazer o turbilhão que envolvia Segunda-feira, mas ela estava só passando. Tudo que ela queria era dançar sobre a água, dançar sobre a luz por um instante, um instante que duraria quase uma eternidade. Fazer isso em uma velocidade tão alta criou um grande turbilhão e no meio dele estava a Dama do Mar. Poucos segundos depois ela estava no chão meio alagado, caída diante de Segunda e Sexta.

— Fazia tempo que eu não dançava tanto — disse Sexta ainda na euforia da música. — Tudo bem, Segunda?

— Vai ficar. Vai lá ver como estão as outras eu preciso conversar com nossa irmã sereia aqui.

Sexta ainda estava acelerada o suficiente para chegar onde as irmãs se recuperavam em um piscar de olhos. Segunda esperou a Dama do Mar se recompor.

— Me desculpe — lamentou Segunda. — Não queria apelar pra violência.

— Não precisa se desculpar, jovem Dama — disse a Dama do Mar em um tom brando. — Graças a isso posso gozar de um raro momento de lucidez. Meu santuário é um cárcere voluntário, aqui dentro não posso ferir ninguém… O que me pedes é uma maldição, Segunda-feira. Meu canto nasceu comigo, faz parte da minha natureza, não da sua. Aprendê-lo no seu estado é um convite ao desastre.

— Só preciso que funcione uma vez. Não me incomodo de abrir mão dele depois disso.

A Dama do Mar pegou um pouco de água com as mãos e modelou uma esfera. Uma bolha parcialmente cheia com um líquido esverdeado. Da bolha puxou dois cordões para formar uma gargantilha.

–Coloque isso no pescoço e o canto será seu — disse a Dama do Mar entregando o colar para Segunda. — Escolha bem o momento de usá-lo, terás apenas uma chance.

— Obrigado, Dama do Mar.

Ela sorriu em resposta, se ergueu na cauda de sereia e mergulhou no poço. Segunda correu para encontrar as irmãs.

— Alguém ferido? — perguntou Segunda.

— Só o orgulho — respondeu Terça. — Conseguiu alguma coisa?

— Sim, mas eu conto no caminho. Quarta, tira a gente daqui.

— Nem precisa pedir duas vezes. Aqui tem muita interferência pra abrir uma passagem, segurem em mim.

Um piscar de olhos depois e elas não estavam mais lá.

Contos de Segunda #50 – Parte 01

Essa é a terceira parte da história da Dama da Segunda-feira. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

Desde tempos imemoriais as Damas escolhem entre os mortais aqueles dignos de receber uma porção de seus poderes. Uma dádiva que está além da imaginação de qualquer mortal. Foi para finalmente encontrar um Cavaleiro que a Dama da Segunda-feira resolveu procurar pela Dama do Mar e aprender o seu canto de sereia.

    — Por que a gente nunca viaja de carro? — Perguntou Sexta-feira.

    Era uma segunda-feira de feriado. As Damas da Semana tinham entrado em uma passagem dimensional criada por Quarta-feira e saído em uma pequena cidade litorânea.

    — Eu gostava mais quando a gente viajava antigamente — resmungou Quinta-feira. — Parece que vocês não gostam mais de juntar as irmãs.

    — Estamos prestes a cometer um crime, temos uma irmã que consegue dobrar o tempo e o espaço e outra que está quase pirando — disse Terça-feira contando nos dedos.

    — Ei! — Interrompeu Segunda-feira. — Eu não estou pirando… Pelo menos ainda não.

    A verdade é que aquele feriado tinha drenado tanto das energias excedentes de Segunda que ela sentia a cabeça funcionando muito melhor do que nos últimos dias.

    — Isso é maluquice — disse Quarta-feira como se falasse sozinha. — A Mãe vai transformar a gente em pó.

    — Não se a gente fizer rápido — rebateu Terça. — E agora, Segunda?

    — Peguei uma dica com uma Dama do Rio que é minha aluna de literatura. Ela contou que nessa praia tem uma trilha que só uma Dama pode enxergar, se seguirmos a trilha chegamos ao santuário da Dama do…

    — Santuário!? — interrompeu Quarta com o sangue fugindo do rosto. — E eu pensando que a Mãe ia nos matar. A gente vai morrer antes!

    — Relaxa que a gente já entrou em outros santuários — tranquilizou Sexta.

    — Um ou dois, Sexta, e eles estavam vazios — lembrou Quinta.

    — Uma Dama é absoluta em seu santuário, Segunda — disse Terça olhando nos olhos da irmã. — Ela é mais antiga do que a gente e praticamente invencível em seu lugar de poder. Tem certeza que quer fazer isso?

    Apenas o silêncio respondeu à pergunta da Dama. Segunda sabia do perigo de enfrentar uma entidade tão poderosa em seu território, mas o tempo corria contra ela e as alternativas eram poucas.

    — Coloquem os biquínis e me esperem na praia — disse Segunda com um tom sério. —  Volto assim que achar a trilha. Tentem não chamar atenção

    Segunda sumiu antes que as irmãs pudessem questionar. Para as quatro que ficaram só restou acatar as ordens e partir para a praia.

    A areia estava lotada. A maré estava alta e a área disponível para os guardassóis estava drasticamente reduzida. Mesmo fora de seus dias correspondentes, as Damas da Semana emanavam poder suficiente para chamar a atenção de todos os mortais, alguns já estavam completamente enfeitiçados pela beleza feérica do quarteto.

    — Temos que ficar separadas — disse Quarta. — Mais tempo juntas e metade da praia vai entrar em transe.

    — Preciso me conectar às forças que circulam nesse lugar — disse Terça tirando da bolsa uma placa que dizia “LEIO SUA MÃO! É GRÁTIS”. — Não estou conseguindo sentir o futuro direito. Vou ficar no calçadão lendo mãos.

    — Vi um quiosque logo ali que parece ter umas bebidas interessantes, acho que vou para lá — completou Quarta.

    — Você quer dizer umas bebidas caras, né? — Desdenhou Quinta. — Eu ouvi música em algum lugar. Eu e Sexta vamos seguir o rastro do som.

    — Não se preocupem em chamar atenção, tá todo mundo olhando pra mim — provocou Sexta.

    Algumas horas se passaram antes de Segunda convocar as irmãs. Quando elas sentiram uma vontade incontrolável de ir para a parte mais deserta da praia, sabiam que era a irmã mais velha chamando. O mar castigava as pedras e a maré ainda não tinha revelado nenhuma trilha.

    — Segunda — disse Terça. — Temos que esperar a maré baixar.

    — Não — respondeu Segunda. — A maré aqui nunca baixa. Faz horas que chegamos e a maré não diminuiu um centímetro.

    — Mas e a trilha? — Perguntou Sexta.

    — É uma trilha que apenas uma Dama pode ver — lembrou Quinta. — A água é para afastar os mortais, não outras Damas.

    Quinta andou em direção às pedras. A cada passo que dava a água se abria diante dos seus pés. Poucos passos depois e já era possível ver uma grande fenda no meio do paredão rochoso. As outras seguiram atrás, pouco tempo depois estavam todas dentro da caverna. Durante alguns minutos elas andaram pelo chão de rocha úmida, nenhuma luz do sol chegava ali, mas algo no fundo da caverna mantinha o ambiente iluminado. Antes de chegarem à fonte de luz uma voz fez as cinco congelarem.

    — O que temos aqui? Cinco Damas — as silabas eram ditas lentamente, o som escorregava para dentro dos ouvidos delas. — Tão jovens, tão belas… Espero que tenham um bom motivo para invadir meu santuário… Ou vou esquecer que não gosto de matar minhas irmãs.

 

Contos de Segunda #49

Vocal, Guitarra, Baixo e Bateria.  Na opinião de muitos, apenas isso é suficiente para fazer o bom e velho Rock n’ Roll. Como os quatro elementos da natureza eram as quatro meninas que formavam o 4Ladies, provavelmente a banda de rock composta apenas por garotas mais desconhecida da face do planeta Terra. Mas isso estava prestes a mudar.

— Vamos ver o que temos aqui — disse o delegado. — Quatro menores de idade invadiram um prédio desocupado, fizeram uma ligação clandestina de energia, provocaram a interrupção das aulas de uma faculdade, dois cursos pré-vestibulares e uma escola técnica e…

— A gente só tava fazendo nosso som, esse pessoal parou porque quis — interrompeu Bateria.

— Cala a boca, Bateria! — Gritou Guitarra. — Quer ser presa de verdade?

— Quietas, meninas — disse Vocal. — Desculpa, seu delegado. A gente não quer causar mais problema.

— Fico comovido com a sua consideração… — o delegado olhou para os documentos da mesa — Ivone, não é? E as outras são Bárbara, Agnes e Laila, certo?

— Isso mesmo delegado… Gostamos mais de Vocal, Bateria, Guitarra e Baixo, mas pode nos chamar como quiser.

— Ótimo, sou péssimo com nomes — o delegado olhou para as meninas por alguns segundos antes de continuar. — Podem me dizer o que diabos aconteceu?

— A gente só queria tocar, delegado, só isso — adiantou-se Bateria.

— Para de falar desse jeito ou a gente vai acabar se dando mal de verdade — repreendeu Guitarra, ela respirou fundo e continuou. — A gente começou a banda tem pouco tempo, delegado. Ninguém conhece a gente aí… A gente pensou em… Tipo, sei lá… Fazer alguma coisa pra ficar conhecida.

— Então vocês invadiram um prédio desocupado, fizeram uma ligação de energia clandestina até o telhado, armaram os equipamentos e fizeram uma apresentação que foi ouvida num raio de no mínimo duzentos metros.

— Não foi bem assim que aconteceu — explicou Vocal. — A gente meio que tinha a chave, então na prática não foi bem uma invasão.

— O prédio é meu, delegado — interrompeu Baixo. — Meu avô comprou e colocou em meu nome, por isso eu tenho a chave.

— Olha aí, a gente não fez nada de errado — cortou Bateria. — Acho que é melhor soltar a gente por causa das coisas de criança e adolescente.

— Para de falar, Bateria, tá piorando tudo — rosnou Guitarra entre os dentes cerrados. — Se for prender alguém prende ela, delegado. A gente tá colaborando aqui, ela que tá de desacato.

A paciência do delegado estava por um fio. Vocal notou a fúria crescente do homem e decidiu intervir.

— A gente teve essa ideia, mas não sabia bem o que estava fazendo, delegado — começou Vocal. — A gente usou energia de uma… Como se diz mesmo? Instalação provisória feita pelo pessoal que tá reformando o prédio. A gente arrumou um sistema de som, mas não sabia que ele era tão potente… A gente só queria chamar a atenção da galera da faculdade… O plano era tocar num dos intervalos entre as aulas e como o prédio da faculdade é bem mais alto, muita gente ia ver…

Que nem os Beatles — interrompeu Bateria. — Ou a banda do Homer Simpson.

— Eu vou dar na cara dessa menina — explodiu Guitarra. — Para de interromper os outros, a gente vai se complicar por sua causa.

— Cala a boca, Guitarra — desdenhou Bateria. — Essa raiva toda é só por que na hora do solo saiu tudo errado.

Guitarra não respondeu, partiu pra cima da amiga com tudo e se não fosse por Vocal e Baixo a briga teria começado ali mesmo.

— CHEGA! VOCÊ DA BATERIA PRA FORA! CANTORA, FORA TAMBÉM! AQUI DENTRO SÓ A DONA DO PRÉDIO E A DA GUITARRA, NÃO QUERO NINGUÉM BRIGANDO NA MINHA DELEGACIA! FORA!

O delegado bufava de raiva e estava mudando de cor algumas vezes por segundo. Ele buscou dentro de si o último traço de tranquilidade e agarrou-se nele. Quando a cor do delegado parecia normal novamente Guitarra começou a falar.

— Foi mal, delegado, é que quando eu erro…

— Você, — ele apontou o dedo para guitarra — quieta. Agora, dona do prédio, me convença a liberar vocês.

— Senhor delegado, o senhor tem que concordar que não cometemos nenhum crime de fato — explicou Baixo. — O proprietário do prédio autorizou a entrada e se a ligação de energia é irregular quem deve ser notificada é a empresa responsável pela reforma. Somos culpadas pelo barulho, mas entenda nosso lado, delegado, apenas queremos fazer nossa banda dar certo. Imagine o tanto de divulgação gratuita e espontânea nós estamos tendo neste momento com vídeos e fotos nossas sendo compartilhadas na internet. Acredito que a melhor saída é apreender nosso equipamento e liberá-lo mediante pagamento de multa, além de obviamente comunicar os nossos responsáveis.

Tanto o delegado quanto Guitarra estavam boquiabertos. Até Guitarra que conhecia Baixo desde criança estava surpresa como a amiga tinha conseguido tão facilmente pensar numa solução.

— Bem… Não é todo dia que aparece uma pessoa detida que apresenta uma solução razoável para sua situação — o delegado fez uma pausa para olhar os documentos. — Aguardem aqui enquanto falo com os responsáveis de vocês e vejo a questão da multa.

O delegado saiu e informou às duas meninas que aguardavam do lado de fora o que fora resolvido. Obviamente nenhuma das duas ficou muito feliz em saber que os seus pais seriam informados.

— Mandou bem, Baixo — disse Guitarra. — A gente vai se lascar um pouco, mas melhor que ser presa.

— Sem falatório, Guitarra — disse Baixo sacou o celular. — Aproveita enquanto o delegado não volta e sai procurando qualquer vídeo ou foto da gente na internet — Guitarra entendeu o recado, deu um sorriso e puxou o celular do bolso. — A gente vai dizer a todo mundo que essa bagunça toda é culpa nossa. Todo mundo tem que saber que é culpa das 4Ladies.

Contos de Segunda #48

    Fernanda estava muito feliz. Quando chegou em casa depois de uma segunda-feira de trabalho foi recebida por um e-mail de uma loja de sapatos. Promoções exclusivas para aqueles que clicassem no link. Fernanda clicou e poucos minutos depois estava sorrindo de orelha a orelha por causa do tamanho do desconto em um salto alto, que não só era a sua cara, mas também refletia vários aspectos interessantes de sua personalidade. Ele foi adicionado ao carrinho, Fernanda clicou em “Finalizar Pedido”, colocou o e-mail, a senha e os problemas começaram.

“Senha Incorreta”. De fato fazia muito tempo que Fernanda não comprava nada no site, esquecer a senha cadastrada era perfeitamente compreensível, por isso ela clicou em “Esqueci Minha Senha” e ficou esperando a senha provisória chegar. Um minuto, dois, ela olhou na caixa de spam e não tinha nada. Cinco, dez minutos se passaram e nada do e-mail com a senha. Ela foi lá e clicou novamente em “Esqueci Minha Senha” e dois minutos depois o sangue de Fernanda estava começando a ficar perigosamente quente. Antes de clicar pela terceira vez em “Esqueci Minha Senha” ela notou que tinha escrito “fermanda” e não “fernanda” no endereço de e-mail. Corrigido esse erro o sistema aceitou a senha e a página de confirmação dos dados e pagamento abriu. Tudo bem quando acaba bem… Ou seria se tivesse acabado.

Fernanda resolveu alterar o endereço de entrega, ela queria receber a encomenda no trabalho. Preencheu o novo endereço de entrega e os dados do cartão de crédito. A felicidade começou a voltar quando lembrou que a loja mantinha um estoque na cidade e a encomenda chegaria bem rápido. Dados conferidos, era só clicar em “Finalizar Pedido”. Ela clicou. A página exibiu o que estava sendo processado e… Ficou na mesma. A curta paciência de Fernanda só a permitiu clicar mais duas vezes.

Na terça-feira uma notícia tomou conta dos jornais. Uma mulher não identificada invadiu o galpão onde uma famosa loja de calçados na internet tem o seu estoque. Todos os seguranças foram desacordados e os cães de guarda foram encontrados apavorados, como se tivessem visto algo muito assustador. Nada foi roubado, apenas um par de sapatos de salto alto, mas segundo as informações divulgadas foi encontrada no local uma quantia em dinheiro, exatamente o valor do par de sapatos no site. O dinheiro foi encontrado dentro de um envelope onde se lia “EU TENTEI”.

Contos de Segunda #47

   Horácio era um assassino da máfia. Era assim que ele se enxergava, apenas um assassino da máfia. A máfia enxergava Horácio como o pior assassino de todos os tempos. Não que ele fosse um capanga incompetente, muito pelo contrário. Horácio era excelente em intimidação, cobrava dinheiro como ninguém, era treinado em todas as modalidades de briga de rua, dirigia como um verdadeiro piloto e tinha contatos em todos os lugares… Só não servia para matar os outros. Tanto que ele era sempre a última opção para esse tipo de serviço. Quando todos os matadores estavam impossibilitados de matar ligavam para Horácio.

    — Horácio, preciso que você faça um serviço — disse a voz do outro lado do telefone.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio.

    — Sabe o cara da alfandega? Ele pisou feio na bola, preciso que você garanta que essa foi a última vez que ele nos deixou na mão.

    — Não seria melhor só dar um susto no cara?

    — Ele já levou susto demais. Acabou a festa pra ele. Serviço limpo e discreto, Horácio, você é meu único homem na rua hoje.

    — E o resto do pessoal, chefe?

    — O fim de semana foi movimentado, Horácio, precisei dar uma folga pros meninos. Essa demanda apareceu de última hora, se não fosse urgente eu não te pedia. Só resolve isso, ok?

    A ligação foi encerrada antes que o pobre capanga pudesse argumentar. Pelo menos esse alvo seria mais fácil de eliminar do que os outros, o alvo em questão se chamava Carlos, tinha 58 anos e um problema na perna que o impedia de correr. Horácio entrou no carro e partiu para o porto.

    O escritório da alfandega ficava em uma das partes menos movimentadas do porto e como Carlos gostava de fazer hora extra, não seria difícil pegá-lo sozinho. O relógio marcava nove da noite quando o alvo finalmente saiu do escritório em direção ao carro. Horácio estava encostado na porta esperando por ele.

    — Boa noite, Carlos.

    — É… Boa noite… Horácio, não é? Transmita meus cumprimentos ao seu empregador e diga que já estou trabalhando para resolver o imprevisto de hoje.

    — Isso é ótimo, Carlos, mas meu empregador resolveu adotar medidas mais, digamos, permanentes.

    Horácio sacou a pistola. Um serviço limpo e discreto, foi o que o chefe solicitou. Normalmente isso significa um tiro na testa com uma pistola silenciada ou a simulação de um acidente, nenhuma testemunha. O capanga era um péssimo atirador, mas normalmente não errava a uma distancia tão curta. Fez mira e puxou o gatilho… Nada. Carlos olhou incrédulo para seu algoz. Outra tentativa… Nada. Depois da terceira Horácio lembrou de destravar a pistola. A essa altura Carlos já estava correndo o máximo que sua perna defeituosa permitia, bem mais do que Horácio esperava.

    O pobre funcionário da alfandega corria sem saber bem para onde. Os galpões estavam fechados, assim como os escritórios, a única saída era se jogar no mar e esperar que o assassino se contentasse com sua possível morte. Um tiro passou zunindo pela orelha de Carlos, ele começou a correr mais rápido. Outro disparo, o tiro passou raspando no ombro do futuro defunto, ele começou a chorar. A água não estava tão longe, o assassino estava cada vez mais perto.

    Então viu-se uma luz. Ouviu-se um barulho de freio e uma batida. O motorista do caminhão de presunto não esperava um senhor meio manco cruzando seu caminho naquela noite. Não conseguiu evitar, acertou o pobre Carlos em cheio, arremessando o pobre coitado algumas dezenas de metros na frente. Quando a ambulância chegou o coitado já tinha parado de respirar fazia um bom tempo.

    Horácio esperou até a ambulância chegar. Ele ligou para o contato no IML, dez minutos depois o contato ligou informando que um carro já estava a caminho do local. Finalmente Horácio podia comemorar a eliminação de um alvo e o melhor de tudo: ele não precisou matar ninguém.

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