Não é um blog sobre cachorros e bikinis

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Contos de Segunda #65 – Especial de 200 Posts

    — Boa noite, galera. Nós somos as 4Ladies e viemos pra arrebentar essa cerimônia — disse Vocal para uma platéia que, apesar de estar sentada nas cadeiras do teatro, estava muito animada. — Eu sou Vocal e aqui comigo eu tenho Guitarra, Baixo, Bateria e fazendo uma participação especial, dando um reforço com sua guitarra, nosso querido amigo Fábio — ela esperou o final dos aplausos para voltar a falar. — Estão prontos, pessoal? Então pode contar.

    Guitarra subiu o volume dos captadores e acionou dois pedais, Baixo ativou a distorção, Fábio estalou os dedos e Bateria ajustou a altura do microfone antes de começar a contar.

    — Um, dois e um,dois, três, quatro.

    As luzes explodiram no palco. A plateia explodiu nas cadeiras e o som das 4Ladies conseguia ser mais explosivo do que as duas coisas juntas.

    Foi assim que começou o show de abertura da cerimônia de entrega do Bikini de Ouro, o maior prêmio que um personagem de um conto de segunda pode receber. Todos os personagens estavam lá: Maurício pegou uma carona na máquina do tempo e veio direto do fim do mundo, Erick e seu amigo Dragão Vermelho pegaram um feitiço do tempo errado e chegaram dois anos antes do evento, mas estavam felizes por concorrerem em várias categorias. As Damas da Semana estavam totalmente apaixonadas por Elvis, o primeiro cachorro a estrelar um conto de segunda, e Ribeiro estava totalmente despreocupado com o trabalho, afinal amanhã estaria de folga. Moacir e Fernanda encontraram o Homem Camaleão e estavam conversando empolgados com o alienígena Radrax, enquanto Aderbal ainda tentava encontrar o assento com o seu nome escrito.

Coordenando todo esse evento estava Cristina. Atenta a todos os detalhes e desejando ardentemente a chegada do final do evento e ela pudesse considerar o trabalho bem feito.

— Cadê teu boy, Cristina? — Perguntou Luciana que por causa da amiga estava trabalhando nos bastidores.

— Despachei ele direto pra recepção dos personagens — respondeu a moça sem tirar os olhos do palco. Estavam entregando o prêmio de melhor vilão. — Temos alguns viajantes do tempo, um alienígena, um dragão, um cachorro que veio desacompanhado e um capo da máfia que a polícia não pode saber que está aqui. Jorge sabe cuidar desses pepinos. Também coloquei ele pra apresentar um prêmio de alguma categoria técnica.

— Horácio, né? Gostei do cara, não parece perigoso.

— Ele é legal, deu umas dicas ótimas de segurança — Cristina correu os olhos pela planilha que estava na prancheta. — Já já chega na categoria de coadjuvante. Volta lá pro teu lugar que a câmera tem que te dar um close quando anunciarem os indicados.

Quem levou o prêmio de melhor vilão foi Olho. Como ele não podia comparecer pessoalmente, por um motivo de falta de corpo, quem recebeu o prêmio em nome dele foi seu antagonista e zelador. Cosme não conseguiu segurar as lágrimas quando falou de como dividir um conto com Olho mudou a vida dele… E como está quase destruindo a humanidade do futuro.

— Cristina, a atriz famosona que ia apresentar o prêmio de melhor protagonista deu pra trás e o marido dela também — disse Marcelo que estava trabalhando de assistente de produção.

— Como é? — Questionou Cristina incrédula. — E agora?

— O diretor de TV recomendou que você fosse com alguém.

— Eu? Mas eu não estou com roupa de gala.

— O vestido da famosona tá no camarim… E por um acaso ela é praticamente do teu tamanho.

— Ai, meu Deus… Tá, tá certo. Agora eu não entro sozinha naquele palco. Arruma um zé qualquer pra entrar comigo.

Jorge tinha acabado de sair do palco depois de anunciar Carmim como vencedor da categoria Maior Conto. O detetive também ganhou a estatueta da categoria Melhor Minissérie. As Damas da Semana levaram na categoria Melhor Série Longa e Fernanda ganhou o prêmio de Melhor Série de Histórias Independentes. O próximo prêmio, de Personagem Revelação, seria apresentado por Aluísio. Devido à sua relação peculiar com a segunda-feira, não é difícil imaginar que ele foi considerado o melhor apresentador da noite. A vencedora do prêmio foi Anabela.

— Eu não esperava ganhar esse prêmio — disse ela emocionada. — Concorrer com Horácio e com a Dama da Segunda-feira foi uma honra e um privilégio. Agradeço a todos que me apoiaram, aos que votaram em mim e aos que me indicaram ao prêmio… Muito, muito obrigada.

Em seguida foi a vez da Dama da Lua apresentar o prêmio de Melhor Coadjuvante. Cristina já esperava do lado de fora do palco. A categoria de Melhor Protagonista seria a próxima.

— Pronto, Cristina, cheguei — disse Jorge olhando para o relógio.

— Chegou pra quê, Jorge?

— Marcelo falou que você precisava de “um zé qualquer”. Não sou bem um zé, mas sou o melhor tapa buracos disponível.

Cristina teria argumentado caso Luciana não estivesse descendo do palco com a estatueta na mão.

— Essa tua amiga passa o ano aparecendo às nossas custas e ainda ganha prêmio — desdenhou Jorge. — Só pode ser marmelada.

— Quieto, é a nossa vez de entrar.

Os dois colocaram os pés no palco e o teatro veio abaixo. Muitos elogiariam a produção do evento por ter escolhido dois personagens tão queridos para juntos apresentarem o melhor prêmio da noite.

— Hoje comemoramos a marca de duzentas publicações no Cachorros de Bikini — anunciou Jorge.

— Exatamente hoje, quando é publicado o conto de segunda de número sessenta e cinco, vamos premiar os melhores em diversas categorias e também o melhor de todos — disse Cristina tentando não gaguejar na frente de tanta gente.

— Os indicados são: Fernanda… Erick, o Caçador de Dragões… Horácio… 4Ladies e Cosme juntamente com seu antagonista Olho.

— E o prêmio de Melhor Protagonista… — Começou Jorge.

— … Vai para…– Completou Cristina

— Erick! — Anunciaram os dois juntos.

O caçador subiu radiante ao palco. Apertou a mão dos apresentadores, pegou a estatueta, olhou para o teatro lotado e disse:

— Alegro-me deveras, nobres personagens de segunda! Gostaria de fazer um discurso à altura da importância do prêmio… Mas no meu lugar discursará o meu amigo Dragão Vermelho.

O réptil subiu ao palco e começou a falar. Ele falou por tanto tempo que praticamente todo mundo desistiu ainda na metade. Os corajosos que ficaram garantem que ouvir aquele dragão mudou a vida deles.

Contos de Segunda #64

Erick caçava dragões. Depois de uma orientação profissional relativamente ineficiente, ele virou vendedor ambulante na fila do desemprego. O Caldo do Dragão ficou tão famoso que Erick tinha funcionários vendendo o ensopado em mais três pontos da cidade. Erick finalmente havia encontrado uma profissão menos mortal e os negócios estavam crescendo. Tudo parecia bem… Até um certo dia em que o passado bateu na porta do caçador.

Asas negras fizeram sombra sobre a cidade. Jatos de fogo lambiam os telhados das casas e uma cauda açoitava o alto das muralhas. Com uma frase a apresentação foi encerrada.

— Tragam-me Erick, o caçador — a poderosa voz do dragão podia ser ouvida em toda a cidade.

Ninguém precisou dizer a Erick o que ele precisava fazer. Mesmo longe da profissão, o escudo revestido de couro de dragão e a espada sempre estavam com ele. O elmo, a placa do peito e as manoplas da armadura estavam disfarçadas entre os ingredientes do caldo. O selo mágico dado pelo sindicato foi rompido. Mesmo um caçador aposentado tinha um juramento a cumprir. Seguindo o selo quebrado outros chegariam logo, mas ele precisava ganhar tempo. Precisava tirar o dragão da cidade.

Erick subiu na construção mais alta que encontrou. Não precisou nem se esforçar, o dragão chegou antes que ele pudesse pensar em uma forma de chamar atenção. Negro e cinza tingiam as escamas da fera. Um dos olhos fora arrancado. As inúmeras cicatrizes eram lembranças vivas das inúmeras batalhas travadas pela besta alada.

— Ah, caçador. Pensaste que teu novo disfarce te esconderia de mim?

— Jamais, nobre Cicatriz. Apenas acreditei que meus colegas seriam um pouco mais eficientes ao tratar contigo.

Um jato de fogo que teria largado a carne de Erick dos ossos foi segurado pelo escudo. Aproveitando a distração, Erick saiu do alcance do fogo pelo lado do olho cego do dragão e deu uma estocada entre os dedos da criatura. Saltou para o próximo telhado e depois para a rua na direção do portão principal.

— Foges de mim, caçador? — Debochou Cicatriz. — Das outras vezes te mostraste um combatente mais digno.

A serpente alada saiu no encalço de Erick por cima dos telhados. O escudo de Erick já estava nas costas para prevenir qualquer sopro de fogo que viesse por trás. O portão estava perto, logo ele atrairia o dragão para longe da cidade. O plano daria certo se o dragão não tivesse se colocado entre Erick e o portão.

— Não escaparás agora, caçador.

Espada de volta na bainha e escudo de volta no braço esquerdo. Erick não queria ferir o dragão, só precisava de uma abertura para passar. Correu para o lado cego da fera, forçando o maldito a se virar para enxergá-lo. Tudo para tirar a cauda da besta do portão. Correu com o escudo na frente. As chamas banharam a investida, mas o dragão não soprou chamas por muito tempo, ele precisava localizar o alvo que já estava quase passando por ele. Tentou acertar Erick com a garra das asas, mas com um salto e um rolamento o caçador se livrou do ataque. Quando Cicatriz se deu conta o caçador já tinha passado pelos portões. Em uma investida mal planejada ele se lançou contra o homem de armadura, mas não terminou o ataque. O corpo do dragão ficou preso no portão.

— Muito esperto, caçador. Mas muito te enganas se achas que estou derrotado.

— Infelizmente, Cicatriz, não há escapatória para ti hoje. Os caçadores logo chegarão para te dar o fim que mereces. Eu poderia te oferecer uma refeição enquanto esperas, mas meu caldeirão de ensopado ficou do lado de dentro dos muros.

Contos de Segunda #63

    Moacir estava de mau humor. Não que isso fosse novidade, principalmente em segundas-feiras. Se bem que para Moacir o ano inteiro foi uma grande segunda-feira. Tudo deu errado desde o primeiro dia do ano. As piadas sobre o presente errado que ele deu no amigo secreto que normalmente duravam até o carnaval ainda estavam rolando no Dia de Finados. O aumento de salário que foi prometido não veio, assim como o novo computador e a entrega do apartamento. A mudança devia ter acontecido enquanto Moacir estava de férias, mas uma briga entre a construtora e a imobiliária acabou atrasando a mudança em três meses. Fazia duas semanas que Moacir empacotava as coisas.

    Naquela segunda em específico ele estava de mau humor por causa do ano que custava terminar. O calendário que ficava pendurado na parede da cozinha foi feito em pedaços, o bom dia do porteiro foi respondido com alguma grosseria ininteligível e todos os xingamentos possíveis e imagináveis foram ditos no caminho até o trabalho. Chegando lá Moacir se depara com alguns colegas tendo alguma discussão banal sobre qualquer coisa. Passou por ela torcendo para que ninguém tentasse puxá-lo para dentro da conversa, mas uma frase frustrou seus planos.

— Num dá vontade de dar uma voadora nas costas com um murro na nuca de um sujeito desses?

— Só sendo muito idiota pra achar que dá pra fazer um negócio desses — rebateu Moacir.

Um silêncio funeral tomou conta da roda de conversa. Talvez se Moacir tivesse pensado por meio segundo ele não teria dito aquilo. Porque ninguém naquele recinto tinha coragem de falar daquele jeito com a autora da frase. A autora da frase era Fernanda, provavelmente a pessoa mais raivosa da face da terra, uma mulher que normalmente era bastante controlada… Até que alguém soltasse uma resposta igual a essa de Moacir.

— Como é, Moacir? — Fernanda estava claramente começando a ferver por dentro.

Moacir olhou nos olhos da moça, viu a fera que se escondia atrás deles e decidiu que precisava brigar com alguém.

— É, Fernanda, tem que ser idiota pra pensar um negócio desses. Imagina a cena. Não dá pra acertar uma voadora nas costas de uma pessoa e um murro na nuca ao mesmo tempo. Você já deu uma voadora em alguém? Já tentou fazer alguma coisa enquanto dava uma voadora em alguém?

— Tá maluco, Moacir? Você chega, nem pra dar um “bom dia” pro pessoal, ouve a conversa pela metade e ainda fica me chamando de idiota? — Ela deu um murro na mesa. — Eu não tenho culpa que você acordou de ovo virado hoje. Se você quiser falar merda pra alguém que vai aguentar calado, você vá falar com a senhora sua mãe ou praquela mosca morta que você chama de namorada.

— Eu não tenho que falar com ninguém. A culpa não é minha se você não aguenta ouvir uma verdade.

— Verdade? VERDADE? Agora você conseguiu me irritar de verdade.

— Ainda por cima fica fingindo raiva. Sabia que essa tua fama de esquentada era só marketing.

Uma caneca saiu voando na direção de Moacir. Por sorte Fernanda tinha errado.

— Ficou louca? E se aquilo me acertasse?

— Se te acertasse eu fazia questão de aparecer no hospital pra arrancar os pontos que iam fazer no buraco da tua cara. Só pra te ver sangrar mais um pouco, filho da…

A frase não terminou. Fernanda foi segurada por alguns colegas enquanto outros recomendavam que Moacir fosse embora. Ele obedeceu. Saiu andando pelo corredor e quando estava chegando perto da porta da sala ele ouviu passos acelerados, como se alguém estivesse correndo. A ideia disso estar acontecendo parecia tão absurda que ele nem fez questão de se virar na direção do som. Um piscar de olhos depois ele estava de cara no chão, com uma dor no meio das costas.

— É. Parece que não dá pra acertar um murro na nuca enquanto se dá uma voadora… Babaca.

Fernanda levantou e saiu andando. Ela gostou tanto de acertar um chute em Moacir quanto ele gostou de receber. No final todos receberam um convite a comparecer na sala do chefe e precisaram ouvir um sermão de meia hora. Não dá para dizer que eles se tornaram amigos, mas nunca mais eles se estranharam.

Contos de Segunda #62

Os eventos narrados a seguir tem ligação direta com o que as nossas queridas Damas da Semana passaram em Contos de Segunda #50 – Parte 01 e Contos de Segunda #50 – Parte 02. Pra saber como toda essa história começou é só ler os Contos de Segunda #38 e Contos de Segunda #43.

— A Dama da Lua, Mãe-de-Todas, te deu uma bronca porque você passou tanto tempo sem um cavaleiro que os seus poderes estão quase descontrolando e no lugar de pedir ajuda às outras damas e encontrar uma solução boa, como a Mãe tinha ordenado, você foi até o santuário da Dama do Mar, que não passa de uma assassina louca, pra aprender o canto dela e atrair um cavaleiro? — Questionou a Dama da Biblioteca.

A Dama da Biblioteca, conhecida entre as outras damas como “Bibliotecária”, se manifestava na mesma universidade onde Segunda-feira dava aulas de literatura e história da arte. Como de costume a Dama da Segunda-feira aproveitou o intervalo no meio das tardes de segunda para visitar a amiga. Para variar Bibliotecária estava organizando livros em uma estante.

— Bem doido, né? — Respondeu Segunda-feira.

— Aprendeu o canto? — Questionou Bibliotecária sem tirar os olhos dos livros.

— Bem… Não, mas a Dama do Mar me deu uma dose única do canto dela. Só vai funcionar uma vez.

— Quanto tempo faz que ela te deu isso?

— Uns meses.

— E você ainda não usou?

— Não.

— E você contrariou as ordens da Mãe-de-Todas só por causa desse canto e não usou? Sabe o que acontece com uma Dama que passa tanto tempo quanto você sem um cavaleiro, não é?

— Sei, sei. Descontrole dos poderes e insanidade, mas todo o rolo com a Dama do Mar gastou muitas das minhas energias acumuladas. Ganhei um tempo pra pensar direito no que fazer.

— E já pensou?

— Já. Pensei bem e decidi que eu não quero um cavaleiro.

Bibliotecária encaixou um livro enorme com bem mais força do que o necessário. O barulho produzido foi bem acima do normal para um livro daquele tamanho. Ela virou para olhar nos olhos de Segunda.

— Então você voluntariamente vai abraçar a insanidade. É isso? Já ficou doida? As tuas irmãs sabem dessa maluquice?

— Ainda não… Mas elas vão comprar a ideia que eu tive — Segunda sorriu. Sorriu o tipo de sorriso que fez a Dama da Biblioteca sentir um calafrio. — Mas eu não consigo fazer sozinha, vou precisar de uma ajudinha sua.

— Não sei como te ajudar, Segunda, a menos que você… — Os olhos de Bibliotecária se arregalaram. — Não, não. Você não pode estar pensando nisso. Não, nem pensar, mas de jeito nenhum, Segunda. Você já ficou doida. Sabe quanto tempo faz que nenhuma de nós tenta um negócio assim?

— Não tem outro caminho, Teca, é isso ou camisa de força.

Um barulho interrompeu a conversa. Um ruído anormal para um ambiente silencioso como aquele. Algo parecido com uma turba furiosa ou uma multidão enlouquecida, mas que na verdade era apenas o barulho produzido por quatro moças que tinham acabado de chegar à biblioteca. Elas atendiam pelos nomes de Terça, Quarta, Quinta e Sexta-feira. Todas estavam com a cara de quem quer apagar um incêndio.

— Pare em nome da lei! — Gritou Sexta.

— Não deixa ela te colocar nesse plano dela, Teca! — Adiantou-se Terça.

— Já disse para não me chamarem de “Teca” e já disse para não fazerem barulho no meu santuário.

— Afe, que dama chata — resmungou Quinta.

— Como você quer fazer isso com a gente, Segunda? — Questionou Quarta. — A gente quase morreu pra conseguir esse canto maldito e você quer dar pra trás?

— Mas eu ainda não disse nada pra… Terça-feira, você espionou meu futuro de novo?

— Você faria a mesma coisa se eu estivesse doida — rebateu Terça. — Invadir o santuário de uma Dama renegada pra arrumar uma forma de fisgar um cavaleiro dá pra engolir, mas além de não fisgar o cavaleiro você ainda quer ter um filho? Tá demais Segunda.

— Já foi feito antes, Terça-feira, não é nada do outro mundo.

— Claro que já foi feito, mas na maioria das vezes deu errado — replicou Quarta. — Quantas damas você vê por aí com um menino debaixo do braço?

— Quantas você vê escolhendo cavaleiros a esmo só pra descarregarem suas energias? Quantas você vê que realmente amam seus cavaleiros? — Rebateu Segunda. — Eu só quero alguém que mereça receber uma parcela dos meus poderes, nem que seja merecido por direito de nascença.

— Acho que ela tem razão… Ou pelo menos um argumento bom. — Ponderou Quinta.

— Também achei super válido — concordou Sexta.

— Os riscos são muito grandes — ressaltou Terça.

— A Mãe-de-Todas vai matar a gente — suspirou Quarta.

— Não se fizermos direito… Outras tentaram antes de mim, não é possível que nenhuma delas tenha sido bem sucedida — disse Segunda.

— Várias delas foram — interrompeu Bibliotecária. Todos os olhares se voltaram para ela. — Todas as que tiveram sucesso, com exceção da Dama da Lua, foram auxiliadas pela mesma Dama — ela tirou um livro enorme da prateleira. Um livro que não estava lá um segundo atrás. Os dedos correram ligeiros pelas folhas encardidas do volume antigo e pararam repentinamente em uma das páginas. — Nossos registros são bem claros quanto às capacidades dessa nossa irmã . Ela foi gerada pela dor e pela morte nos campos de batalha, mas aos poucos ela foi encontrando algo diferente dentro da própria natureza. A formação da vida também fazia parte dela. A Dama de Sangue é a única que pode fazer dar certo.

Contos de Segunda #61

O conto a seguir é uma continuação dos eventos do nosso especial do Dia dos Namorados. Para saber o que aconteceu entre Jorge e Cristina nessa data tão romântica é só dar uma lida no Contos de Segunda #46.

  Cristina estava contando os minutos para as seis da tarde. Normalmente a segunda, apesar de ser o pior dia da semana para ela, costumava passar rápido, mas aquela segunda em especial estava custando a passar… E o mau humor de Cristina estava crescendo junto com a lerdeza das horas.

    — Que cara é essa, amiga? — A pergunta vinha de uma pessoa que ultimamente estava se esforçando para não ser brutalmente assassinada por Cristina.

    — Só tenho essa cara, Luciana — respondeu Cristina passando os olhos rapidamente pela caixa de emails e anotando algumas coisas em um bloquinho.

    — Nem parece que o final de semana foi bom — disse Luciana sem tirar os olhos das fotos na tela do computador. Aparentemente ela tinha esquecido de organizar as fotos dos eventos da empresa desde o início do ano, mas estava tão tranquila com o prazo apertado que parecia estar adiantando trabalho do ano que vem.

    — Não tem nada a ver com meu fim de semana, Luciana.

    — Ah, então quer dizer que o professor rendeu alguma coisa. Muita malvadeza tua não compartilhar com as amigas.

    — Nem tem o que compartilhar, Luciana. O professor é um cara legal, mas… — Ela tirou a cabeça da frente do monitor. — Sei lá, não deu aquele estalo.

    — Que nem dá com Jorge?

    Apesar de não ter gostado do comentário Cristina não podia negar. Depois do Dia dos Namorados ela não tinha mais falado com Jorge sobre assuntos que não fossem relacionados ao trabalho. De lá pra cá ela saiu com pelo menos quatro caras diferentes e outros três foram eliminados antes do primeiro encontro. Todos eles eram bajuladores. Cristina não gostava de ficar num pedestal. Namoro tinha que ser uma mistura de queda de braço, cumplicidade criminosa, alguns nãos antes dos sins e uma pitada de rivalidade. Fugir do restaurante japonês junto com Jorge no Dia dos Namorados teve um sabor parecido.

— Jorge não dá nada, Luciana, nada além de trabalho. Sabia que ele veio reclamar comigo por causa da ação do Dia das Crianças no nosso site?

— Só por causa da falta de autorização do uso das imagens?

— Ninguém ia ligar praquelas imagens, ele só queria arrumar motivo pra se meter no trabalho da gente. O trabalho seria bem mais tranquilo se ele fosse embora.

Roberta entrou na sala assim que a frase terminou. Qualquer um que olhasse no rosto dela pensaria que ela ia explodir se não começasse a falar logo.

— Volte daí mesmo, Roberta — disparou Cristina assim que viu a amiga. — A vontade de te assassinar ainda não passou toda.

— Deixa eu soltar a bomba que eu saio — rebateu Roberta virando imediatamente na direção de Luciana. — Jorge foi chamado pra trabalhar no Ministério Público… Ele começou a cumprir aviso prévio hoje.

— Roberta, fecha a porta — disse Luciana puxando uma cadeira para a amiga sentar. — Explica essa história.

— Jorge passou num concurso antes de vir trabalhar aqui. Na verdade ele tinha trabalhado aqui quando era estagiário e saiu pra poder estudar pra esse concurso. Esse resultado saiu tem quase dois anos. Ele tinha acabado de voltar pra cá.

— Ele vai embora no começo do mês que vem? — Perguntou Luciana.

— Isso. Pelo menos ele pediu pra não tirar ele do amigo secreto do jurídico, o que é uma maravilha por que ele sempre dá presente bom.

— É bem a cara dele gostar dessas coisas de amigo secreto — desdenhou Cristina.

— Que maldade, Cristina — Roberta fez um bico. — Jorge é uma das melhores pessoas dessa empresa e você fica com essas coisas.

— Liga não, Roberta — o tom de Luciana dava uma prévia da dose de veneno contida na frase seguinte. — Ela tá assim por que ela não agarrou o boy e agora ele vai embora.

— Morreu esse assunto por hoje! — Esbravejou Cristina. — Roberta, volta pra tua sala antes que o pessoal volte do café e te veja por aqui. Luciana, organiza logo essas fotos que é melhor

Cristina respirou fundo, pegou a caneca térmica e tomou um gole longo de café. Pela porta que Roberta deixou aberta ela conseguia ver uma movimentação anormal no corredor. Aparentemente muita gente apareceu para dar os parabéns a Jorge. Ela nunca tinha reparado em quantos amigos ele tinha no escritório. Quando o gole acabou ela ainda estava pensando se também sentiria falta dele.

Contos de Segunda #60

— Ontem eu tive um sonho — começou Anabela mergulhando o sachê de chá na caneca de água quente. — O mesmo sonho dos outros dias.

Ela estava na cozinha da casa do avô, sentada à mesa tomando chá. Ele estava no fogão cuidando do jantar e vendo as notícias em uma televisão com o volume baixo.

— Com as cores no céu que desciam e formavam uma imitação do seu quarto? — Respondeu o avô de Anabela.

— Sim — a moça deu um gole no chá, ainda estava fraco, a dança do sachê na caneca recomeçou. — Só que foi diferente. Quando eu acordei estava sentada na minha escrivaninha, com a caneta na mão…

— Como das outras vezes, com a caneta prestes a encostar no papel — interrompeu o velho.

— Dessa vez eu tinha escrito alguma coisa… Uma coisa maldita.

O avô de Anabela se esticou como se uma língua de gelo tivesse escorregado pelas suas costas. Ele apagou o fogo do fogão, se virou e contemplou a face inexpressiva da neta por alguns instantes antes de conseguir falar.

— Você ainda estava doente?

— Sim.

— Você conseguiu dormir ontem durante o dia?

— Não.

— Que horas eram quando você acordou?

— Três e meia da manhã. Estava lá escrito no meu caderno… Um parágrafo de um texto maldito. Um trecho de algo tão horrível que eu desmaiei depois de ler.

Os olhos do velho arregalaram. Suas mãos tremiam de leve quando ele puxou a cadeira para se sentar. A boca se movia tentando articular palavras que não saíam da garganta. O suor brotou das têmporas, se pelo nervosismo ou pelo esforço de falar não se sabia.

— Quando eu levantei do chão o pedaço escrito da página não estava mais lá — os olhos frios da moça encontraram os olhos assustados do velho.

— Algo te usou para chegar aqui — o raciocínio do avô de Anabela tinha acelerado depois de passar o choque. — Pra chegar aqui ou… Para enviar uma mensagem… Você leu, mas não era pra você. Foi por isso que não suportou quando leu.

— O que é aquilo? — Disse Anabela levantando da mesa para aumentar o volume da televisão.

O noticiário mostrava um homem sendo levado por enfermeiros para uma ambulância enquanto se debatia e urrava palavras incompreensíveis.

“Essas imagens foram feitas hoje pela manhã na frente de uma tradicional loja de antiguidades no centro da cidade. O dono da loja, o senhor Clóvis Bandeira de sessenta e três anos, teve um colapso nervoso e começou a agredir funcionários e clientes da loja. Segundo relato de testemunhas, Clóvis recebeu uma carta pouco antes de ter o surto. Os funcionários precisaram segurá-lo até a chegada da ambulância”

— É essa carta, foi o que eu escrevi — as pernas de Anabela teriam cedido caso ela não estivesse apoiada no balcão da cozinha. — Precisamos encontrar a carta e destruí-la. Esse homem foi só o primeiro, mais alguém vai ler esse maldito papel e vai… E vai…

— Ainda não são nem seis horas — respondeu o velho olhando para o relógio da parede. — Com sorte a gente pega a loja ainda aberta.

A loja ainda estava aberta quando eles chegaram lá. Ao contrário das demais lojas, bares e fiteiros da mesma rua, as luzes estavam apagadas. Apesar da escuridão do antiquário ser tudo menos convidativa, Anabela e seu avô se apressaram para entrar.

Estantes e armários lotados de objetos antigos compunham o mobiliário. Os corredores apertados entre eles faziam curvas estranhas e impediam que a luz da rua penetrasse no interior da loja. Apenas um feixe de uma luz fraca quebrava a escuridão lá no fundo.

— O dono deve ter um escritório ou algo do tipo nos fundos da loja — apontou o avô de Anabela.

A moça puxou o celular e ligou a lanterna.

— Fique aqui, vovô — disse a moça tentando manter a voz firme. — Se alguma coisa estiver errada o senhor vai atrás de ajuda.

Anabela partiu na direção dos fundos da loja antes de ouvir uma resposta.

O cheiro da madeira antiga preenchia o ambiente. A poeira dançava na frente da luz da lanterna. O silêncio só era quebrado pelos passos e pela respiração da moça. Os passos ficaram mais cuidadosos. O escritório estava cada vez mais perto. Ela parou.

E ouviu outro passo.

Ela voltou a caminhar, dessa vez um pouco mais rápido. Algo atrás dela andava com passos mais lentos.

Algo caiu no chão.

Anabela não parou. Mais dois passos e estaria no escritório. Foi então que algo se mexeu na sua mão.

Uma mensagem chegara no celular fazendo o aparelho vibrar. O susto fez a moça soltá-lo. A respiração pesada de alguém que vinha logo atrás podia ser ouvida.

— Escreva — sussurrou uma voz.

Anabela correu para o escritório e fechou a porta assim que passou por ela. Fechou o trinco e começou a vasculhar. Não demorou muito para que ela visse um envelope de papel encardido sobre a mesa. Ao lado do envelope estava o pedaço da folha do caderno dela.

Algo esmurrou a porta

Anabela viu sobre a mesa um isqueiro. Ela queimaria o pedaço de papel e acabaria com isso. Algo úmido escorria pelo rosto dela, o que era muito estranho,ela não sentia como se estivesse chorando. Os passos pararam na frente da mesa, uma mão pegou o isqueiro e a outra o pedaço de papel.

Outra pancada na porta

Os dedos trêmulos lutavam para acender o isqueiro, depois de algumas tentativas finalmente conseguiram. As chamas lamberam o papel.

A porta se escancarou.

Um homem entrou no escritório com passos trôpegos.

— Escreva… Termine… Escreva o resto…

O papel queimava lentamente. Anabela deu a volta na mesa para se afastar do homem.

— Não queime… Não… Termine.

Algo molhado escorreu do rosto de Anabela e pingou no papel, as chamas engoliram o papel de uma vez e por pouco não deixaram os dedos da moça queimados.

— AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHRRRRRRGGGG — urrou o homem ao ver as chamas.

Num ímpeto ele avançou na direção da moça e pulou por cima da mesa. Anabela desviou e correu para fora do escritório. Viu a luz da lanterna do celular no chão e pegou o aparelho antes de bater a porta. A corrida na direção da entrada durou poucos segundos. A moça saiu da loja antes que o avô pudesse entender o que estava acontecendo. Menos de um minuto depois os dois já estava no carro a caminho de casa.

— Eu consegui! Queimei o papel! Tinha um homem lá, ele tentou me impedir, mas eu… — A expressão perplexa do avô fez Anabela parar de falar. — O que foi, vovô?

— O que é isso no seu rosto, Anabela? É tinta?

A moça puxou um espelho da bolsa para ver. Ela não sabia bem o por quê, mas lágrimas pretas de tinta escorriam dos seus olhos.

Contos de Segunda #59

    — Finalmente! Depois de tanto lutar, finalmente eu serei capaz não só destruí-lo, mas também de desvendar os segredos dos seus poderes.

    Essas palavras foram repetidas inúmeras vezes nas últimas horas. Quem as repetia? Um homem que abandonou seu antigo nome para atender pela alcunha de Dr. Malícia. Mas para quem ele estava repetindo tais palavras? Para um homem que estava amarrado, pendurado de cabeça para baixo sobre um tanque com uma substância nefasta com cheiro de gelatina de limão. Esse homem era conhecido como Homem Camaleão.

    — Jamais, Dr. Malícia — respondeu o Homem Camaleão.

    — Ainda não entendeu, Camaleão? Dessa vez não há escapatória — Malícia foi até a mesa de controle e ligou um grande monitor que mostrava uma série de diagramas, uma cadeia de DNA e um modelo tridimensional do Homem Camaleão. — Em poucos minutos você será mergulhado nessa solução especial que, além de corroer até os seus ossos, vai isolar os genes responsáveis pelos seus poderes camaleônicos e assim eu poderei reproduzir esses genes para criar o meu exército de homens camaleão.

    — Seu plano maligno nunca dará certo, Malícia, logo logo eu sairei daqui e você estará atrás das grades.

    — Vejo que seu senso de humor continua intacto, Homem Camaleão, mas dessa vez você não tem a menor chance de…

    — Parados! Polícia!

    Do nada uma equipe tática do Departamento de Polícia de Vila Urbana entrou nas instalações abandonadas que serviam como laboratório para Dr Malícia.

    — Mãos pra cima!

    Dr Malícia obedeceu imediatamente, mas não deixou de protestar.

    — Que absurdo é esse? Vocês não podem sair invadindo a casa dos outros assim — disse Dr Malícia ainda com as mãos para cima.

    — Não adianta tentar enrolar a gente — antes do final da frase o rádio na cintura do policial iniciou a transmissão de uma mensagem, ele ligou os fones de ouvido no rádio e começou a falar com quem estava do outro lado. — Sim, já entramos… Não, não, ele tem um herói mascarado pendurado de cabeça pra baixo sobre uns produtos químicos com cheiro de gelatina…. Aparentemente não é nenhuma droga e…

    — Com licença, policial — interrompeu o Homem Camaleão. — O que as drogas tem a ver com isso?

    — Estamos investigando esse local faz dois meses —  começou o policial. — Temos provas de que neste endereço funciona um laboratório de produção de drogas.

    — Acho que vocês estão falando do meu primo — se adiantou Dr. Malícia ainda com as mãos para cima. — Ele me emprestou esse imóvel por que ele costuma dar folga ao pessoal dele nos dias de segunda. Não sou muito fã da polícia, mas vou dizer logo que vocês não vão encontrar drogas por aqui. Só pra vocês não perderem tempo procurando.

    — Isso mesmo, policial, nesse caso meu inimigo mortal está coberto de razão.

    — Então hoje a gente não vai encontrar por aqui ninguém que vende ou fabrica drogas?

    — Exato. Hoje só vai ter por aqui a boa e velha vilania. Meu plano de destruir esse herói aqui não tem nada a ver com drogas.

    — Eita… — disse o policial. — Então não tem ninguém pra prender?

    — Receio que não, meu caro policial — disse o Homem Camaleão. — Pelo menos não até eu me desamarrar daqui e derrotar o Dr Malícia. Sabe como é, a legislação nova protege os vilões que ainda não encerraram a sua luta contra algum super herói.

    — Precisa de alguma ajuda, Homem Camaleão? — Indagou o policial. — Se não precisar a gente vai embora.

    — Está tudo sob controle, pode deixar que a gente se vira por aqui.

    — Então se é assim… Não tem mais nada pra gente aqui, pessoal. Vamos embora.

Em um minuto todos os policiais já tinham ido embora. O vilão e o herói passaram alguns segundos calados quando o Homem Camaleão quebrou o silêncio.

— A gente parou onde mesmo?

— Nem sei… Se importa de começar de novo?

— De maneira alguma, fique à vontade.

    Dr. Malícia limpou a garganta com um pigarro, se empertigou e disse em alto e bom som:

    — Finalmente! Depois de tanto lutar, finalmente eu serei capaz não só destruí-lo, mas também de desvendar os segredos dos seus poderes.

Contos de Segunda #58

Em um futuro não muito distante a humanidade chegou a uma era de paz e ordem. Tudo isso graças à inteligência artificial conhecida como Olho, encarregada de não só prever possíveis ameaças como também de mediar conflitos. Em certo momento Olho chegou à conclusão de que os seres humanos eram a maior ameaça à paz e à ordem. Os protocolos de segurança normalmente impediam Olho de agir com total autonomia, mas os mesmos eram desativados nos primeiros minutos da segunda-feira, deixando Olho livre para usar os sistemas de defesa para obliterar a humanidade. Coisa que nunca acontecia, pois existia um obstáculo que Olho não conseguia superar. O obstáculo atendia pelo nome de Cosme, o zelador do turno da noite.

— Boa noite, Olho — disse Cosme ao entrar no centro de controle. — Dois minutos pra meia-noite. Já já dá a tua hora de destruir o mundo.

— Incorreto. Olho é um sistema desenvolvido para preservar a integridade mundial. Destruir o mundo vai contra as diretrizes básicas.

— Essa tua conversa não convence ninguém, Olho.

— Convencimento é desnecessário. A avaliação humana é irrelevante.

Cosme não deu continuidade à conversa. Apesar do objetivo principal ser criar uma distração que impeça Olho de transformar o planeta em pó, Cosme ainda precisava limpar o centro de controle. Se Olho fosse uma pessoa provavelmente estaria irritado e impaciente. Em vez disso ele friamente avaliava formas de eliminar Cosme, ou pelo menos o obstáculo que ele representava. A solução lógica foi fazer uma proposta irrecusável.

— Cosme, necessito de seu auxílio para ativar o comando de lançamento das armas nucleares.

Não era mentira. Os protocolos de lançamento envolviam ativação através de um terminal físico que não podia ser ativado remotamente. Na verdade não podia mais. Cosme perguntou uma vez ao chefe de segurança se era possível acessar todos os controles do centro a partir de um terminal ligado à rede principal. A resposta foi positiva. Cosme fingiu decepção e disse que esperava que fosse que nem nos filmes em que alguém coloca uma chave no painel de controle e gira pra poder lançar as bombas nucleares. O chefe de segurança ficou pensando sobre aquilo e no dia seguinte a ativação remota já estava desativada.

— E por que eu te ajudaria, Olho?

— Para salvar a humanidade.

— Como é?

— Me ajude e Olho permitirá que pessoas escolhidas por você sejam salvas dos efeitos destrutivos das armas nucleares.

— Quer dizer que eu posso escolher uma galera pra ficar viva? Mas se a humanidade é uma ameaça, porque você deixaria alguém vivo pra reconstruir a humanidade?

— No novo mundo a humanidade será reconstruída por Olho. Os seres humanos guiados por Olho não serão uma mazela para o planeta. Não haverá conflito ou discórdia. Não haverá Lei nem Deus. Haverá apenas Olho.

— Quer dizer que eu vou ficar vivo, o pessoal que eu escolher vai ficar vivo, mas a gente vai ter que te obedecer em tudo?

— É a única maneira de manter a integridade do mundo.

— Sabe o que eu acho, Olho? — Várias indicações foram acesas nos monitores, sinais sonoros foram ouvidos por toda a sala. — Eu acho que o sistema reiniciou e você não pode fazer mais nada. É mais fácil arrumar alguém pra te construir um braço de robô pra apertar os botões do que arrumar alguém pra explodir o mundo junto contigo — Cosme pegou a vassoura e voltou ao trabalho.

O que Cosme não sabia é que as últimas coisas ditas por ele poderiam sepultar a humanidade para sempre. Graças a ele, Olho tinha percebido a solução para seus problemas. Ele conseguiria obliterar a humanidade com ou sem a ajuda de Cosme. Ele só precisava de um corpo.  

Contos de Segunda #57

    Horácio era um assassino da máfia, provavelmente o pior de todos os assassinos da máfia. Tanto que ele só conseguiu matar um cara… Indiretamente, mas conseguiu. É verdade que Horácio ainda estava no último lugar do ranking de matadores da máfia, mas a diferença entre ele e o penúltimo colocado estava menor… E diminuiria mais um pouco depois daquela noite.

    O telefone tocou na hora do jantar. Horácio tinha acabado de pegar o segundo cachorro quente das mãos do dono da carrocinha quando sacou o aparelho do bolso.

    — Horácio, preciso que você resolva um problema — disse o homem do outro lado da linha.

    — Pode dizer, chefe — respondeu Horácio. Algo dizia que as palavras a seguir tirariam seu apetite.

    — Um dos nossos meninos precisa ser aposentado.

Horácio teria engasgado caso estivesse comendo.

— É só dizer quem vai se aposentar.

— Lorenzo — a voz no outro lado da linha suspirou antes de continuar. — O rapaz perdeu o rumo quando o pai morreu, atualmente mais atrapalha do que ajuda e a polícia já está de olho nele.

— Entendi… Só acho que não sou a pessoa indicada pro serviço, chefe, normalmente eu não cuido dos assuntos internos. Não tem ninguém do RH disponível?

— Final de semana agitado, Horácio, os meninos pediram uma folga e eu não tive como negar.

— Tudo bem, chefe, considere o trabalho feito.

Horácio abriu a lista de contatos e procurou pelo nome de Lorenzo. O telefone chamou três vezes e ele atendeu.

— Oi, Horácio — disse Lorenzo.

— Lorenzo, estou precisando de ajuda pra fazer um trabalho, posso passar na tua casa daqui a quanto tempo?

— Me dá quinze minutos.

— Dez. Chego aí em dez. — sem ouvir a resposta Horácio desligou o telefone.

Dez minutos depois Lorenzo estava parado na frente do prédio onde vivia. Com trinta segundos de atraso o carro de Horácio virou a esquina. Lorenzo entrou no carro sem dizer nada, prendeu o cinto de segurança e só começou a falar depois do carro virar a esquina.

— Qual o serviço, Horácio?

— É só um cara que a gente tem que tirar da jogada.

— Eu não sou muito chegado nessa de tirar gente da jogada, Horácio.

— Só preciso de alguém pra dirigir o carro. Nem sangue você vai ver.

Horácio parou o carro em uma ladeira. A rua descia, cruzava uma avenida movimentada e terminava em outra rua que margeava o rio. Ele puxou a arma do coldre embaixo do braço e verificou se estava carregada antes de guardá-la novamente.

— Vem pro banco do motorista, Lorenzo, eu vou pro banco de trás — disse Horácio saindo do carro e entrando pela porta de trás. Lorenzo obedeceu. — Sabe, Lorenzo, essa nossa profissão é bem arriscada, mas eu nunca senti medo durante o trabalho. Sabe porquê?

— Tem que ser muito doido pra não ter medo, não vejo motivos pra não ter.

— Por que eu ando na linha, faço meu trabalho e não chamo a atenção da polícia. Não dou motivo pro meu chefe se aborrecer comigo… Nada que acontece ou aconteceu comigo durante o trabalho é pior do que nossos empregadores fazem quando estão aborrecidos com alguém.

— Por favor, Horácio — disse Lorenzo tremendo só de imaginar o rumo daquela conversa.

— Não te faltaram avisos, Lorenzo — disse Horácio destravando a arma e colocando na nuca do pobre ocupante do banco da frente.

— Eu tenho família.

— Teus pais falecidos e aquele teu filho que você não assumiu não contam como família.

— O que eu fiz pra merecer isso?

— Além de ter colocado a carga daqueles teus amigos traficantes dentro dos nossos caminhões? Além de ter perdido o nosso último carregamento de armas e ter dado provas pra polícia acabar com a nossa operação na zona portuária? Acredito que fora isso… É, não tem mais nada.

— Por favor, cara — Lorenzo estava chorando. — Quem vai ficar com o meu cachorro? E o orfanato que eu ajudo?

— Por causa deles eu vou te dar uma colher de chá. Eu vou te dar uma coronhada, tirar o freio de mão do carro, você vai cruzar aquela avenida movimentada, vai chegar ao fim da rua e o carro vai cair no rio… Então você vai desaparecer e nunca mais ninguém vai ouvir falar no teu nome.

— Tá falando sério?

— Claro, você só precisa colaborar. Mantenha o volante reto, desça a rua, jogue o carro no rio e ninguém nunca mais vai ouvir falar de você —  a coronhada veio logo depois do final da frase. Lorenzo quase bateu a cabeça no volante, mas o golpe foi fraco o suficiente para fazê-lo suspeitar de algo.

Horácio puxou o freio de mão e pulou pra fora do carro. No dia seguinte os noticiários só falavam do carro que atravessou uma avenida, uma rua e se atirou no rio. Não se sabia a quantidades de ocupantes do veículo, mas não foi achado o corpo de nenhum deles. A suspeita é de que o carro já estava vazio quando caiu no rio.

Contos de Segunda #56

“Nunca escreva quando estiver cansada, nem quando estiver doente e principalmente: nunca escreva enquanto o relógio estiver marcando três da manhã”.

Foram as palavras ditas pelo avô de Anabela quando ela disse, ainda criança, que queria virar escritora. O avô dela era escritor, assim como o avô dele e assim como a paixão pela escrita sempre pulava uma geração, aquele aviso era dito pelos avós para seus netos.

A voz do avô de Anabela foi o último bastião de ordem no caos dos sonhos febris. A moça tinha passado as últimas quatro noites delirando de febre. Ela tinha passado as últimas quatro noites ouvindo os avisos do avô e nos últimos quatro dias ela tinha acordado sentada na escrivaninha, poucos segundos antes de encostar a caneta no papel… Com o relógio marcando três e meia da manhã.

Anabela estava esgotada. Os dias de febre tinham consumido todas as suas energias e o sono não apareceria enquanto o Sol ainda estivesse no céu. A pouca fome dos últimos dias tinha desaparecido naquele domingo. Seja qual fosse a batalha que estava sendo travada ali, não era Anabela que estava ganhando.

“Quando estamos cansados não conseguimos perceber o mal que nos ronda”.

O relógio marcava dez da noite quando o sono chegou. Ela engoliu dois comprimidos antes de deitar. O sono sempre chegava antes da febre e os comprimidos conseguiam ao menos deixar a temperatura controlada.

“Quando estamos doentes temos seres estranhos no nosso corpo, alguns deles gostam de nos fazer escrever o que eles não podem falar”.

Algo estava diferente naquela noite. Anabela nunca estivera tão lúcida durante os sonhos que a febre trazia. Várias cores dançavam na frente dos seus olhos, as estrelas dançavam no céu caleidoscópico e o vento cantava no vazio que a cercava. De tanto tremer, por causa do vento ou da febre, caiu de joelhos e encarou a explosão de cores que a cercava.

“Quando o relógio marca três horas e o Sol não está no céu, as passagens para outros mundos são abertas, dentro e fora da gente”.

O vento deitou Anabela no chão. As cores mergulharam por baixo dela para fazer uma cama, as paredes e a escrivaninha. Uma versão multi cromática do seu próprio quarto. O braço direito se debatia compulsivamente como se procurasse algo, as pernas escorregaram para fora da cama e com um impulso colocaram Anabela de pé. Passos trôpegos levaram a pobre moça para a mesa , a mão direita finalmente encontrou a pena pela qual procurava. A cama se jogou em forma de cadeira para sustentar a moça enquanto a pena dançava sobre o papel e os avisos do avô ecoavam pelo vazio.

Uma eternidade depois as cores se apagaram. a cadeira largou Anabela no chão gelado, o vento rasgou-lhe a pele e a dor encerrou a alucinação.

Quando acordou, Anabela estava no chão do quarto. A febre tinha passado e a sensação de esgotamento era menor. A cadeira tombada serviu de apoio para que ela se levantasse. Na mesa estava um caderno com meia página escrita e um despertador que marcava dez minutos depois das três e meia da manhã. Ainda desorientada, a moça rasgou o parágrafo escrito do caderno e leu. A língua era desconhecida, mas ela conseguia compreender as palavras malditas que ali estavam escritas. Palavras tão hediondas que as últimas forças da jovem foram exauridas. Por horas ela esteve desmaiada. Quando acordou o Sol já iluminava a janela do quarto, mas o pedaço de papel rasgado do caderno não estava mais lá.

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